Pombos, Joan Didion, Gatos, Daniel Blake (Filmes #7)

Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência (En duva satt på en gren och funderade på tillvaron) – Roy Andersson [2014]

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Se não fosse a idade de Roy Andersson, diria que ele é o resultado de uma noite de amor entre Lynch e Wes Anderson. Pombo (apelido que darei a esse filme pra não ter que digitar de novo seu título) é quase uma sequência de esquetes. Algumas têm um tema em comum, outras são parte de uma mesma linha narrativa e continuam algo que parece uma história e trazem de volta personagens que se desenvolvem de certa maneira. É difícil dizer de que se trata o filme. Em estilo, a câmera nunca se move e cada esquete é realizada sem cortes. Tem algo de teatral, característica pontuada pela maquiagem branca cobrindo o rosto de algumas personagens. Os temas dos absurdistas vêm à mente. O título é referência à pintura de Pieter Bruegel, Os caçadores na neve, de 1565, em que caçadores são observados por aves pousadas em galhos. A forma que observamos as pessoas nas esquetes transmite a estranheza que um animal de outra espécie teria ao observar os hábitos do ser humano. As maneiras como morremos são destaque nas três primeiras esquetes. Então o filme segue por outros temas. Conhecemos os vendedores de tranqueiras engraçadas (dentes de vampiro – extra longos, sacos de risada, máscaras de monstro) sem ânimo pra vida e com dificuldades financeiras – ninguém quer comprar o que eles vendem e quem compra não paga. De esquete em esquete, o filme mostra os hábitos estranhos do ser humano e os momentos terríveis da história do ser humano – esquetes que incluem testes em animais, e velhos monarcas e escravocratas inseridos no mundo atual. Essa é a terceira parte de uma trilogia que trata justamente disso, da humanidade. Infelizmente não vi as outras partes antes por não saber que esse era o caso. Não significa que eu tenha perdido algo, as histórias dos três filmes são independentes – nem as cenas desse filme parecem relacionadas, que dirá os outros filmes da trilogia.

Joan Didion: The center will not hold (Joan Didion: O centro não se sustentará – tradução não oficial) – Griffin Dunne [2017]

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Já falei aqui o quanto Joan Didion é foda. The center will not hold é um documentário dirigido pelo sobrinho dela que tenta resumir as diferentes fases de sua vida e obra. Estranhei algumas escolhas de edição no começo, esforços modernosos que não dialogaram bem com o conteúdo. Conforme a narrativa avançou, tratando da infância da autora em Sacramento, de sua ida à Nova Iorque, seguida da contratação como redatora da Vogue e seus primeiros passos como escritora, pude ignorar os tropeços iniciais e me deixar levar pela história. O documentário conseguiu manter o tom pessoal que grande parte da obra de Didion tem, mas não se livrou do sentimentalismo com o mesmo sucesso que ela. Fica clara a admiração de Griffin Dune pela tia – também pudera! – e ele acaba não conseguindo se excluir da obra. O bom é que ele não foca só na fase mais recente – pós O ano do pensamento mágico – de Didion e consegue se espalhar bem pela carreira dela sem parecer corrido. Quando, inevitavelmente, o filme toca na história das mortes do marido (John Griffin Dunne) e filha (Quintana) de Joan, ele consegue desviar um pouco da parte coberta pelos livros O ano do pensamento mágico e Noites azuis, e fala de toda a relação entre eles, inclusive as parcerias profissionais de Griffin Dunne e Joan Didion – roteiros de cinema e a maneira como um editava a obra do outro. Faltou a força de Didion no documentário, transmitir a fúria que ela conseguia passar com as palavras, a hostilidade. Deu vontade de ler mais livros dela, logo, foi bom. O documentário foi lançado na Netflix, então vocês crianças podem assistir sem desculpas e depois sair correndo atrás dos livros dela.

Gatos (Kedi) – Ceyda Torun [2016]

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Ai, internet … a internet e sua fascinação por gatos. Não, não é sobre isso que trata o documentário, mas é impossível não relacionar esses fatores. Afinal, Kedi é uma produção do Youtube Red e o Youtube foi o grande responsável pela alta na popularidade dos gatos desde 2007. É difícil crer que o Sr. Google não pensou nisso quando aceitou produzir esse filme. Deixando de lado as graças, este é um documentário sobre os gatos de Istambul. Antes conhecida como Constantinopla, Istambul, por ser cidade portuária, sempre recebeu muitas embarcações, que vinham cheias de gatos pra caçar os ratos que vinham com a mercadoria. Esses gatos saíam pra dar um passeio pela cidade, enquanto a embarcação atracada era descarregada, e quando voltavam a embarcação já tinha partido. Os que chegavam a tempo, voltavam pra casa, os que não, passavam a viver pela cidade, o que era muito bem-vindo, já que a cidade também tinha problema com ratos – o que, então, é traduzido como peste negra. Os séculos passaram, os gatos foram aceitos e se tornaram parte da cidade. Não são tanto animais domésticos, como moradores de outra espécie, assim o documentário os retrata. Foca em alguns deles, seus cotidianos e personalidades. Foca nos humanos que convivem com eles. A cidade, filmada de maneira belíssima, nos é mostrada pelo ponto de vista dos gatos. A câmera, de alguma maneira mística, os segue pelo chão, ao alto dos prédios, passa entre as pernas dos transeuntes, corre e dá saltos como se estivesse presa ao corpo dos bichos – a parte mística é que a câmera não está. O filme é bem mais que só gatos fazendo coisas bonitinhas. Ele trata da relação entre modernidade e natureza, a relação inter-espécies, e ainda, quase sem que se faça notar, joga uma pitada de política aqui e ali.

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake) – Ken Loach [2017]

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Falando em política usada discretamente na narrativa, como tempero, aqui temos seu oposto. Não que o filme seja uma cartilha política … na verdade, mesmo que seja, a narrativa não se deixa atrapalhar por isso, justamente por se tratar de uma questão real. Ok, sinopse seria bom, não seria? Eu, Daniel Blake é sobre – adivinhem … vocês têm três segundos … 3 … 2 … 1 … – Daniel Blake, um carpinteiro de quase sessenta anos, que, por problemas cardíacos, foi impedido de trabalhar. Contudo, a empresa que administra o setor de saúde pública implantou um questionário e, de acordo com seus resultados, Daniel Blake está apto para trabalhar e manda cortar o apoio financeiro que ele recebia do governo. No meio de um inferno burocrático, ele encontra Katie, recém chegada em Newcastle (onde se passa a historia), que também perde seus benefícios por causa de algum detalhe nas regras da empresa. Os dois tentam se ajudar, quase numa relação de pai e filha. Chega uma hora que a situação se torna insustentável para os dois e … chega antes que eu transforme isso aqui no roteiro do filme. É revoltante. Descrevi, anos atrás, Amor (de Michael Haneke, 2013) como um filme de terror, não por assustar, mas por retratar algo que pode ser minha vida no futuro e eu temer muito isso, apesar de ser algo comum. Eu, Daniel Blake faz o mesmo, com outra situação. Mais que um temor pessoal, temo que meus pais passem por isso. Ainda mais na situação em que estamos, acho que todos – “todos” – podem se ver na pele de Daniel ou de Katie, e inúmeros já estão. Odeio dizer que um filme é importante. Parece um adjetivo ausente de significado, um elogio barato. Talvez porque seja. Mas é difícil se ver livre dele, quando tantas pessoas seriam beneficiadas ao ver um filme desses, que, apesar de político, não se entrega a didatismos e moralismos capengas; se revolta, é pela força do relato, não por retórica.

 

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Olhar, Ladrões de Bicicleta e A Divina Relação do Corpo, Jornais literários

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O olhar é a sinceridade da alma. No olhar pode-se transferir e absorver. A vida é obsoleta para o olhar. Não há tempo que aguente a demora do olhar. São muitas camadas para se chegar até o olhar livre. Na poesia a demasia do olhar sempre é quebrada, os estilismos a técnica sobrecarregada. Isso é pura cegueira. O olhar é obtuso a arte sofre com a tentativa de enxergar algo que já não está mais a vista. Isso dói na vista. O olhar da alma é puro sem inteligências ou burrices. O espontâneo é da alma. Nas leituras dos livros de Manoel de Barros sinto a alma o olhar do poeta inocente brincando com as palavras. Manoel de Barros poeta que estudou muito a lingüística devorou as letras em leituras: isso para executar o simples. As palavras que vivem escondidas pela vida o poeta as refez com um toque de menino buliçoso. Borges tinha o olhar da alma plena, a cegueira o fez enxergar o fantástico do mundo. Os seus escritos são puras invenções já inventadas, são ritmos de palavras, são sombras iluminadas pela fantasia da vida que Borges conseguia criar através de seu olhar.

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Ladrões de Bicicleta é um filme necessário para compreender a força do espírito o filme marca várias línguas, fala de muitas coisas, mas irei circular apenas uma aqui. Como na canção Guerreiro Menino de Gonzaguinha o filme fala da nossa condição perante o dinheiro, o sonho é o trabalho e sem trabalho um homem não sonha. Vittorio de Sica constrói uma linha de valores para o personagem que no fim se vê na mesma situação de início. O roubo, seguido de desolação. O medo a conjectura das armadilhas criadas pela própria falta da falta do salário no fim do mês faz do personagem um pobre de espírito ao ser mais espirituoso de uma sociedade que o emprego é um fantasma da ópera. A caricatura de virtudes do personagem é escalada por cada fio que o personagem vai tecendo.

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O livro é A Divina Relação do Corpo de José Alcides Pinto o personagem fica na busca de escrever um livro, se questiona sobre a importância do escritor. José Alcides Pinto é um erudito pornográfico. O livro conversa com o leitor e narra a estória do personagem através de capítulos que levam os nomes de mulheres com as quais o personagem se relacionou. O sexo em sua literatura é o mote para desvendar a existência do ser, o escritor chega a citar A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera diversas vezes no romance. A forma escolhida para a narrativa é bela é cruel é sutil. Alguns momentos do livro são mal ritmados dando uma sequência lerda para o fim do livro. Mas é um livro que vale a experiência para conhecer o autor.

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Os jornais literários são a melhor opção para quem escreve e quer ser publicado. O acesso é fácil a divulgação é boa direcionada a quem gosta de fazer e receber literatura. No geral são feitos por mais de uma pessoa, são distribuídos (alguns) por todo o Brasil. Aqui no Ceará existe O Binóculo um jornal feito pelos Professores Batista de Lima e Dias da Silva. O jornal é mensal e basta você escrever um email para ivonildodias@secrel.com.br dando o seu endereço e dizendo que quer receber O Binóculo e pronto você assina o exemplar e no mês seguinte receberá o jornal literário. Tudo é gratuito e se você tiver algum texto para publicar mande para ele que se possível você será publicado no jornal. A proposta é muito bacana as iniciativas: sejam elas físicas ou virtuais dão a oportunidade do autor que não consegue ser publicado em lugar nenhum ser publicado. A literatura precisa respirar isso para assim dar progresso ao artista. Vale você escrever um email para lá.

 

 

Quando o peso das leituras te derruba – sobre Georges Simenon (parte 1: o autor e sua prosa)

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1 – Introduções típicas

Toda a questão da literatura de gênero, leituras leves e densas, lowbrow/middlebrow/highbrow, pode gerar discussões eternas. É difícil negar que certos livros carregam em suas páginas mais conteúdo que outros. Ao mesmo tempo, me incomoda colocar livros leves como entretenimento e livros densos como “tarefa”. Vários autores complicados são capazes de divertir; Mario Levrero, por exemplo, com suas reviravoltas na realidade da narrativa, não deixa de entreter; até Dostoiévski te prende à leitura, e Camus, Machado, Clarice, e lá vou eu … Ao  mesmo tempo, estaria sendo injusto se dissesse que não há literatura de gênero capaz de fazer mais que divertir. Sim, existem livros que não merecem o papel que ocupam, verdadeiros desperdícios de árvore; outros, como Brida, do Paulo Coelho, no esforço por deixar a leitura o mais leve possível sem que nada seja exigido do leitor, acabam tediosos e rasos, não servindo nem de entretenimento besta. Mas pra cada um desses, surge um Raymond Chandler, um Haruki Murakami, uma Patricia Highsmith, um James M. Cain, que seguem gêneros ou uma formas populares de enredo, mas trazem algo mais.

O problema é quando até essa literatura de gênero derruba. Lembro que peguei James M. Cain pra relaxar uma vez, The Postman Always Rings Twice, numa edição anciã que traduzia o título como O Destino Bate na Porta. Peguei porque tinha umas cem páginas e o estilo do autor era descrito como rápido. Me deparo com um enredo cercado de dilemas morais, denso como O Estrangeiro, de Camus. O que era pra ser uma leitura leve, só piorou meu estado. Porque vocês bem sabem que certos livros são capazes de derrubar um indivíduo – derrubar e pisar em cima. Não lembro o que eu tinha lido antes de O Destino Bate na Porta, mas estava passando por algo assim e “meu entretenimento” não ajudou em nada a aliviar.

Se foco em livros policiais, é porque, dentre os gêneros, é o que acho mais agradável na literatura. Gosto do clima que inspirou os filmes noir. Tentei outros gêneros, mas não foi tão bom assim. Stephen King foi um que me irritou. Falta um editor na vida desse cara, um editor com coragem pra passar a faca em 60% do suposto texto final dele. Ficção científica, pelo menos os autores que eu procuro costumam ser tão densos quanto qualquer existencialista. Tente ler Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? sem acabar duvidando da sua própria essência. Ao mesmo tempo, tenho dificuldades de encontrar um livro policial que sirva pros meus objetivos – distrair, tirar das costas o peso das outras leituras. Raymond Chandler é muito literário. Arthur Conan Doyle é um pé no saco (baseado na leitura de Um Estudo em Vermelho e a digressão de 100 páginas sobre mórmons – o livro nem 200 páginas tem, é mais como se Sherlock fosse a digressão e os mórmons as verdadeiras estrelas do show); além do mais, quem liga pra quem matou, Agatha Christie? É mais interessante saber o motivo. Então eu li Georges Simenon pela primeira vez.

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Rupert Davies como Maigret

2 – Breve digressão

Onde eu moro, tem um senhor que de vez em quando aparece na minha rua para vender uns livros usados. Nem sempre os livros que ele vende são interessantes, mas gosto de ajudar. Faz alguns anos, ele carregava por aí boa parcela da coleção do Maigret pela LPM pocket. Um dia ele precisava de uma ajuda séria pra pagar o aluguel e me ofereceu a coleção inteira (o que ele tinha dela) por um certo valor. Comprei e deixei num canto da minha estante (um armário) até o ano passado, quando realmente precisava de uma distração em forma de leitura, literatura que não me batesse na cara, só uma história, em tantas poucas páginas, que me prendesse e não demorasse muito pra terminar. Foi o que eu encontrei naquele Maigret (não lembro qual foi o primeiro), só não esperava que a execução fosse tão perfeita.

3 – O que foi tão bom?

Tenho que admitir não ter entendido, em primeiro momento, o que me causou tanta simpatia por aquelas histórias. Com toda a franqueza, são datadas. Simenon escrevia como um homem branco nascido em 1903. Não há consciência social nos romances de Maigret, ou conhecimento sobre procedimentos policiais, ou interesse em qualquer coisa que não a história contada no livro. Não que Simenon fosse ignorante, ele estudou bem os procedimentos policiais franceses de sua época, mas justo com o objetivo de não segui-los. Se não havia preocupação com consciência social, era porque o europeu médio (seus livros rápido ultrapassaram fronteiras) não estava tão interessado nisso. As mulheres em seus livros são, majoritariamente, passivas e vocalmente menosprezadas, mas também o eram as mulheres reais do mundo inteiro nas décadas em que se passam as histórias de Maigret. Resumindo esse potencial de baderna a que desnecessariamente dei início: o cara só contava histórias, em um cenário real, sem se importar com coisas além do enredo – que é típico de ficção policial. Isso, claro, baseado na minha leitura de 4 dos 75 romances, além de ter assistido algumas adaptações pra TV, para as quais pretendo dedicar algumas linhas daqui a pouco. Como minha leitura mais recente me impressionou bastante, deixarei aqui a possibilidade dos livros dele irem muito além do esperado.

Ainda, apesar da simplicidade, algo na escrita de Simenon atrai inclusive escritores. Antes que me critiquem por dividir literatura entre “popular” e “séria”, saiba que o próprio Simenon fazia o mesmo. Ele não tinha vergonha nenhuma em dizer que escrevia por dinheiro e o próprio não sabia quantos ou quais livros tinha escrito, de tantos pseudônimos que usou e quantas obras mandou pra prensa quando ainda eram só rascunhos. Mais de 450 romances, é o que se diz, entre histórias policiais, eróticas, livros sérios e memórias. O método de escrita entre um estilo de livro e outro mudava. Sempre focava na brevidade, não creio que algum livro dele chegue às 300 páginas, mas a matéria-prima era diferente nos livros sérios. Em entrevista à Paris Review, ele dizia ter que se trancar no escritório, quando se dedicava a esses livros, e passar por um exame médico completo. Então passava horas e horas na máquina, interpretando como um ator às personagens da história. Enredo e forma importavam menos nos livros sérios, o leitor importava menos. Sinceridade era o que interessava – verdade, por assim dizer. Mas não estou falando desses livros, pois até hoje não os li.

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Simenon não incluía as histórias de Maigret entre seus livros sérios, no entanto, é por elas que ele é lembrado. André Gide, um autor estilisticamente oposto, admirava Simenon e o considerava o melhor da França, na época. Vários outros autores expressaram admiração profunda pela obra do Simenon, o que é incomum – autores comerciais costumam ser execrados nos meios intelectuais. Simenon, todavia, se destacou.

Que não fique entendido que, por utilizar regras diferentes em seus livros sérios, Simenon negligenciava o estilo em seus livros comerciais. Ele só usava regras diferentes. Para Maigret, que são os que eu conheço, a ideia era prender o leitor desde a primeira frase e montar livros capazes de serem lidos em um dia. Não é uma tarefa fácil. Ao menos não sem que se ignore certos detalhes estéticos da prosa, o que Simenon não faz. A prosa é de linguagem simples, mas precisa. As breves descrições formam imagens claras na mente do leitor e o levam ao cenário. Mas prosa bem feita não explica essa minha preferência. Essa prosa bem medida é uma bela parcela do que me agrada, afinal chegar a esse grau de escrita que cumpre com perfeição seus objetivos é o que quase todo pretenso escritor almeja. Que ninguém deixe de focar na palavra “objetivos”. Simenon estava longe de ser um escritor perfeito, mas ele era honesto. Nada de se dizer um novo Hemingway ou um autor de tragédias gregas, como insinuou Nicholas Sparks. Ou se achar o melhor de todos e diminuir os que de fato são grandes mas estão mortos e não podem se defender, como Paulo Coelho faz quando quer chamar atenção. Sim, o livro foi escrito em 8 dias e mais 3 foram pra revisão. Sim, foi pra ganhar dinheiro. Sim, eu só quero que o leitor se distraia por algumas horas.

Por algum motivo misterioso, a secura da prosa, quando decido ler um romance de Maigret, não me incomoda. Na verdade, é o que mais agrada. A ambientação pode habitar os entornos do submundo do crime parisiense, mas existe uma calma, uma contemplatividade. O leitor acompanha o caso, de longe, por meio dos olhos de Maigret e sua meditação sobre o caso filtradas pelo vocabulário mínimo de Simenon. Quando vejo, estou perto do fim, mas nem por isso distanciado da leitura, desligado de qualquer maneira. O único lugar em que estou é no livro.

 

Sobre escrita, Persépolis, Vem da Mallu Magalhães e pensamentos voadores

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Quantos romances falando sobre a escrita existem no mundo? Um escritor romanceando outro só para mitificar a escrita. O personagem escritor falando da forma que escreve. O romance dentro da realidade submersa nas convicções do artista. O escritor começa geralmente falando que escrever é um fracasso que é ruim têm que pôr a alma sofrer muito: e por aí vai uma punhetação de cultos. Escritores já usam de um nariz de cera em romances que eles exploram a escrita como tema. Seria isso uma autobajulação ou análise? Só no caso do King que todo escritor dentro de suas obras são em geral bem sucedidos e escrevem para caralhous. O próprio já escreveu um livro para ajudar escritores a melhorar os velhos rabiscos. O King fala de suas manias: dia, hora, rituais que ele faz antes de sentar e escrever muitas páginas. Outros escritores fizeram isso também. Minha visão é simples: não existe fórmula para escrever, literatura não é matemática, não se soma. Um conselho do Garcia Marquez aqui um toque do Saramago ali tudo bem, mas apontar o caminho do sucesso e dizer: “escrever é isso fulaninho” escrita é algo muito pessoal, existem exceções de escritores que leem pouco, tornando-os virgens para escrever algo sem a repetição de vícios literários, existem poetas e contistas na qual li que são caducos para leitura, mas que desenvolveram belos textos . A escrita independente do culhão do escritor não é para apontar todos os dedos; um aqui outro ali tudo bem, mas um livro inteiro onde se diz e inúmera razões e hábitos para se escrever melhor. Não acredito nisso. Escrever é igual a cozinhar: cada um tem sua mão para pôr o sal. A escrita não deve sofrer com isso. Escritores escrevem e pronto. Depois eles pedem conselhos de amigos tentam publicar, se leem. Ninguém deve ficar procurando equações em Charles Bukowski, Miller, Cortázar, Gorki, Fonseca e Murakami, influências são empurrões para a criação, não siga o mestre deixe de ser Zaratrusta e seja mais anônimo, não fique em demasia. Entre cafés ou depois de uma transa escrever é liberdade; ao menos era para ser isso, pois os fracassos nem sempre dão poesia.

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Li Persépolis da Marjane Satrapi. Conta a história de Marjane no Irã, desde a infância até quando a pequenina Marji se torna adulta. O quadrinho é de uma beleza linguística sútil, o traço de Marjane é simples honesto em cada sentimento. Da revolução islâmica aos primeiros contatos com Simone de Beauvoir, Marx e Deus seus guardiões. O ensejo político de Marji, as histórias de seu tio e os conselhos de sua avó, a sede por revolução de seus pais. Persépolis é um quadrinho magnífico tem um tom de humor excelente. Marji conta da revolução antes e depois. Conta também de suas primeiras paixões. Tudo isso ao som do proibidão Iron Maiden. Assisti também o filme que é dirigido e escrito por Marjane, mas o quadrinho é muito melhor por dois motivos primeiro: o quadrinho é mais dinâmico para consumir, o filme achei mau montado ficou massante, o quadrinho é dividido por tiras capituladas. Segundo: o quadrinho têm mais história que o filme, obviamente Marjane não iria pôr todo o quadrinho no filme então no filme fica faltando muitos momentos bacanas. O filme concorreu ao Oscar de 2008 se é que isso seja relevante perdeu para Ratatoille. Mas leiam o quadrinho e depois assistam ao filme de Persépolis e tirem suas conclusões.

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Escutei o disco novo da Mallu Magalhães e tá bacana. Se chama Vem. É um disco leve com um toque vezes bossa nova outras um samba rock lembrando os hermanos que adoravam dizer que faziam música sem gênero…oookeiiii, oookeiii . O disco tá bem produzido e arranjado, tem faixas que ela soube explorar mais a voz aguda junto com a melodia de cordas. Músicas muito fofinhas como “Casa Pronta” e “Linha Verde” são o carro chefe do disco. Já das música que valem mais escutar no disco são “Vai e Vem”, “Pelo Telefone”, “Culpa do Amor’ e “São Paulo” acho que é isso, gosto mais do Pitanga dela, mas esse tá melhor em nível de composições. Num sei o porque de gostar mais do Pitanga? Mallu Magalhães fez um belo disco com todas as composições e melodias de sua autoria, ela tem muita coisa para produzir futuramente, mas depois de hoje (23/06); sobre o que ela disse de branco sofrer preconceito por fazer samba… Fosse ela tinha pedido licença para cagar. Infelizmente ela é burguesa demais e não sabia/sabe do que tá falando, faltou essa bagagem cultural do silêncio.

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Eu voltei. Acompanhei e ainda acompanho o blog seus posts sigo lá nos facebook da vida. Tava difícil escrever/ler fazer qualquer coisa dessa vida. Faculdade, trabalho, trabalho e não sei o que mais que aparecia. Mas tô aqui. Não abandonei o barco. Perturbei o moço Rapha para continuar no blog, não postei porque tava foda. Isso já tem o quê? Dois anos…? Li algumas coisas que o Raphael me indicou, diminui bastante o ritmo de leitura, assisti mais filmes (sabe como né?). Quando pensei em escrever para o blog, venho logo a ideia de fazer uma resenha gigante de três mil e quinhentas palavras sobre o Caçando Carneiros, desisti. Minha orientadora diz que blogs (a internet em geral) não absorve textos grandes, pensei nisso fiquei com preguiça evitei a fadiga e resolvi fazer micro comentários que é melhor. Bem. É isso gente. Tava com saudade do blog, da Maria (leio o Minhas Impressões e descobri uma ruma de autoras para ler, agora é saber se vou ter dinheiro para comprar esses livros), do Raphael, da Carol. Dessas pessoas que conheci mesmo virtualmente. Espero retomar alguns projetos e fazer novos. O podcast eu gostava, achava legal divertido instigante. Mesmo que fosse algo só para nós mesmos. Chega. Já tô parecendo jogador de futebol: “primeiramente agradeço a Deus por conseguir voltar e fazer esse post, segundamente ao blog que tá de parabéns por continuar esse trabalho com a arte”. Espero que vocês gostem da minha postagem, acho o meu estilo de escrita extremamente diferente do Raphael que escreve como um Sir maldito; isso às vezes torna o blog um pouco esquizofrênico porque eu escrevo como um pedreiro na frente do Raphael, enfim. Eu não sei dizer se isso é bom ou ruim? O importante é que eu voltei agora para ficar.

Reclamações geracionais, A grande beleza, psicogeografia, letra C (OA #12)

1 – Comecei pesquisa pra um futuro texto. Coisa mais pretensiosa desse mundo falar de histórias que até o momento têm uma frase. Não existem, não há motivo pra falar delas, mas é uma tentação. Nada melhor que falar de uma história quando ela está no auge de sua qualidade – antes de ela existir. É um prazer ridículo e egoísta, logo é isso que vou fazer. Ao contrário do primeiro romance, cujo narrador é confuso e se deixa só observar o que acontece ao redor, o dessa história se pretende um cínico. Não quero detalhar, mas faz tempo que os traiçoeiros campos da sátira me chamam e eu evito o chamado. Até porque personagens cínicos são um grande clichê. A coisa precisa ser muito bem desenvolvida pra dar certo e não acabar só como uma versão light de algo melhor. Aí tem a sátira, que acho impossível hoje em dia, vocês entendem o que eu quero dizer? Vamos por definição: sátira pode ser composição irônica contra costumes e ideias de uma época; ou sátira pode ser ridicularização dos vícios e imperfeições. Só que nossos costumes parecem sátira deles mesmos. Ninguém se leva assim tanto a sério e os acontecimentos sérios ao nosso redor são tão absurdos que superam qualquer sátira. E satirizar aquilo que por si já é absurdo é forçar a barra, é ficar apontando pro leitor, frase por frase, que aquilo que se lê é uma sátira, é para ser engraçado, e deixando claro quem são seus alvos e por que eles merecem cada palavra. Talvez sempre tenha sido difícil, mas parece pior. Sempre parece pior o presente, até quando se viveu o passado.

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2 – Ou talvez essa atração pela sátira, apesar de sua impossibilidade prática, tenha surgido pra descarregar um pouco da raiva. Quero um personagem que odeie e não tenha medo desse ódio. Revi A Grande Beleza (Paolo Sorrentino, 2013) ontem, foi a quarta vez acho, e só fica melhor, só reforça o quanto esse está entre meus filmes favoritos (como sempre, num sentido de afeto pessoal, não como testemunho de qualidade). No filme tem uma frase que sempre me pega. O protagonista, Jep Gambardella, um romancista que nunca conseguiu escrever um segundo livro e vive em festas e imerso nas distrações de Roma, é acusado de misógino, ao que ele responde: eu não sou um misógino, sou um misantropo. Em resposta pra isso, um amigo de Jep diz algo mais ou menos assim: em se tratando de ódio, é necessário ter ambição (tem mais que isso, mas não falo italiano). Essa é mais ou menos a ideia que tenho pra personalidade do narrador da minha hipótese de livro, mas com foco no que veio a seguir. Jep não odeia nada, ele só encara as pessoas, com seus atos e suas manias, e, na maioria das vezes, elas não são tão belas. Essa interação termina com misericórdia, Jep declarando: estamos todos a beira do desespero… (então ele explica que só disse o que disse porque estava cansado do tanto que a pessoa se gabava dos seus feitos, mesmo eles não sendo nada especiais, quando na verdade o objetivo daquelas reuniõezinhas não era mais que papear, beber um pouco, fazer companhia um pro outro apesar da solidão inevitável, tudo pra esquecer o quão vazias as vidas deles eram, e ter alguém apontando o quão cheia era a vida vazia dela em comparação a vida vazia dos outros não ajudava ninguém)… Vejam esse filme, por favor. Eu não sei exatamente como vim parar aqui, essa série de observações começou a ser escrita antes da anterior e tinha esquecido disso aqui até fuçar a lista completa dos meus rascunhos (tenho 15, alguns são só títulos, alguns foram criados ano passado – a maioria). Bom, seguindo em frente, não? Essas observações não foram feitas pra serem revisadas. Seja lá qual tenha sido a ideia aqui, deve fazer sentido pra alguém, se não pra mim.

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3 – É uma boa sensação descobrir que o seja lá o que for que você anda sentindo, pensando, escrevendo … tem um nome, é um conceito antigo, já bastante desenvolvido. Morre a originalidade, mas em troca vem essa ilusão de que não se está sozinho, que há compreensão. O nome da coisa é psicogeografia. O conceito é antigo, atribuído aos textos de Baudelaire, DeQuincey, Blake, entre outros, gente com o hábito de caminhar (flâneurs, como dizem os franceses; flanar, que não é bem o mesmo que caminhar, envolve uma falta de objetivo/destino, um melhor observar dos arredores, que nem sempre caminhadas envolvem) e escrever sobre as cidades em que vivem, seus contornos e segredos. Psicogeografia em si foi definida por Guy Debord, e foi parte dos hábitos dos Situacionistas. Observar a cidade, sua construção, e os efeitos psicológicos e comportamentais que o ambiente urbano causa nos habitantes – por um ponto de vista social, político e pessoal (interno). Hoje a psicogeografia é tratada mais pelos ingleses, autores como Iain Sinclair, Will Self, China Miéville, e, antes destes, J. G. Ballard, entre muitos outros, mesmo que inconscientemente. De um ponto de vista feminino, o tema é tratado por Rebecca Solnit (ainda não conheço os textos dela sobre o tema, só sei que existem) e, principalmente, Lauren Elkin, não como psicogeografia (não li um artigo dela ainda com esse termo), mas como o ato de flanar. Não só Lauren Elkin combate a ideia de que o “flanar” é um hábito tipicamente masculino, apresentando exemplos de flâneuses (neologismo criado por ela, já que não existe um feminino de flâneur em francês) na história – Jean Rhys, Agnés Vardas, Colette, Virginia Woolf… -, como também usa o flanar como símbolo de resistência, a mulher mantendo seu direito de ir e vir apesar dos assédios. Agora estou lendo tudo que posso sobre psicogeografia, buscando livros difíceis de achar (por que só A Sociedade do Espetáculo, do Guy Debord, foi traduzido?, quanto tempo até Flâneuse, da Lauren Elkin, estar a um preço razoável em paperback?, só a Livraria Cultura tem edição física de London Orbital, do Iain Siclair? …? …?), revisando meu diário de viagem e percebendo o quanto ele é um exercício de psicogeografia. Vejamos até onde vão esses estudos. (Adendo: vi também que no Brasil a palavra “psicogeografia” foi sequestrada pelos suínos do “coaching” pra definir “um ambiente seguro pras sessões” de lavagem cerebral. Como eu odeio essa gente, só a palavra “coaching” me embrulha o estômago.)

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4 – Charles Mingus é a indicação musical da vez, com o álbum Mings Ah Um. Queria incluir jazz logo nessa lista. Ia ser a letra A, na verdade, mas mudei pra C – falando como se tivesse planejado alguma coisa. Mingus é o nome que aparece sempre que se é introduzido ao mundo do jazz. Um dos principais nomes, há na música dele um pouco de cada pedaço da história do estilo e tudo que veio depois carrega um pouco dele. Mingus Ah Um tem um pouco de tudo. Homenagens ao blues e ao gospel, que serviram de precursores ao jazz, homenagens a Duke Ellington, Jelly Roll Morton, Sonny Rollins, Lester Young, Charlie Parker… o disco é um pedaço essencial da história da música. Por isso, o melhor pra introduzir o jazz ao blog, aos leitores e à minha lista alfabética de indicações musicais.

Velharias resgatadas

Juntando uns poemas pruma possível coleção, dei uma lida nuns antigos, coisa de 2012, 13, até 15, que não é bem antigo, mas vá lá, hoje em dia tudo que não é de ontem é velho. Tirei o pó, dei uma polida com cuspe e uma esfregada de pano, e não é que até que não são tão ruins alguns deles. Os que são eu joguei no fogo imaginário do “selecionar – backspace” – queria ter imprimido só pra ter o prazer de ver a folha queimando na minha frente, mas não tenho impressora e o poema não valia meu esforço de ir até a gráfica e pagar uns centavos pela página. Mas esses até que não são ruins, eu acho, nunca soube julgar minhas coisas. Aí vão:

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Walt esteve aqui

noutro dia, Walt Whitman caminhava
pela calçada. juro por deus,
ele tinha a barba e tudo mais,
até a roupa formal fora de época
e o chapéu.
não deve ter tido tempo
de se acostumar às modernidades.
passeava tranquilo, olhando os arredores.
viu uma placa de restaurante e decidiu entrar,
era hora do almoço.
queria ter pedido pra que ele recitasse
qualquer coisa das Folhas de Relva,
se ele ainda lembrasse,
naquele frio final de manhã, no outono,
mas não quis incomodar,
ressuscitar já é trabalho o suficiente.

observações noturnas

ladrilhos vermelhos formam círculos no calçadão sob a lua, é meia noite, uma família passeia a passos lentos deixando o filho chutar balões de gás coloridos presos por barbante. não não vai tão longe volta aqui isso. borracha risca e sobe e desce e bate no chão de pedra, as portas de ferro pichadas das lojas fechadas observam em silêncio,

até as bicicletas, uma vagarosa com um casal de idosos agarrados um ao outro, trêmulos, outras duas levam adolescentes apostando corrida, aproveitando o espaço vazio, a uma ziguezagueia que quase tomba, as outras zunem pela mise en scène. mariposas tolas circulando as luzes. outro casal, parado, um nos braços do outro contemplando as estrelas que a cidade ainda permite visíveis. as bexigas seguem quicando para que o menino ria encoberto pelo sorriso dos pais. nenhum carro passa, ninguém fala mais nada.

 

mão amiga

a abstração da poesia
é uma pessoa pendurada
no penhasco com
uma das mãos estendida
fingindo não precisar de ajuda.

Illustration of Odysseus Weeping at Song of Demodocus
das coisas que se perdem no tempo

quem irá dançar
as melodias dos músicos mortos
cujas partituras viraram poeira?

quem irá cantar
suas letras compostas
em língua morta?

notas enterradas pelo tempo
história sem registro
passado sem memória.

A origem de Tommy Wiseau – uma investigação

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1 – Deixa eu explicar

Era uma vez um indivíduo nos seus últimos dias de férias, razoavelmente inebriado às três da manhã de um domingo, alimentando uma nostalgia bizarra pela década de 1990 com vídeos de entrevistas do Space Ghost Costa a Costa. Via quando criança, mas nem imagino por quê. Entrevistas absurdas com gente da cultura popular americana da década de 80 e 90, David Byrne, Thom Yorke, Björk, Matt Groening, pra citar exemplos, gente que eu não fazia ideia quem fosse, eu que ainda vivia minha primeira década. Acho que tem algo no absurdo que atrai a atenção das crianças. O estranho é legal, o incompreensível faz rir só pelo que ele é. Eu não fazia ideia de quem eram as pessoas dentro da televisão falando com o super-herói idiossincrático, mas o jeito que eles falavam me fazia rir, assim como o louva-deus do mal falante. Voltando ao tema, vi a entrevista do David Byrne, na madrugada de ontem pra hoje (domingo-segunda, caso eu não termine esse texto hoje [segunda – fica aí a referência temporal, pros leitores que se importam]), porque me tornei fã de Talking Heads, passadas as quase duas décadas separando a vez que assisti Space Ghost pela primeira vez dessa. Foi quando, ouvindo a voz deslocada do David Byrne, o vendo de cabelo cumprido pela primeira vez, fui atingido pelo que só pode ser chamado de iluminação. Byrne me lembrava de alguém que não era Byrne, mas quem era? Foi quando ouvi soar, feito um sussurro divino ao pé do meu ouvido: o, hi, Mark. Sim! Como pude demorar tanto pra me dar conta?, era a figura de Tommy Wiseau que a versão anos 90 do David Byrne me trazia à tona. Vejam a entrevista em questão – daqui em diante chamada Evidência 1:

 

 

 

 

 

2 – Mas que porra é Tommy Wiseau?

Bom, me decepcionaria se algum de vocês fizesse essa pergunta, mas, para fins de contexto e porque eu sou um profissional, vou explicar: Tommy Wiseau é um ator, diretor, culpado pela criação de The Room, conhecido nas ruas como o Cidadão Kane dos filmes ruins. Desde 2010, o filme, lançado em 2003, ganhou alguns milhares de seguidores e esse ano vai sair um filme baseado em sua produção. (A culpa por esse filme sobre o filme cai sobre James Franco, que por algum motivo se acha um bom artista, o que não vem ao caso.) Mas, sobre Tommy, pouco se sabe. O cidadão revelou poucas informações sobre o seu passado e todas são conflitantes. Ele se diz cidadão americano, mas o inglês dele diz o contrário, e o sotaque é quase impossível de localizar por ter um pouco do que parece ser leste-europeu ou francês. Dizem que ele veio da Polônia, mas não há provas físicas, só especulações. Até a data de nascimento dele é um mistério. O próprio disse 1968 ou 1969 (sim, um ou outro, ele não decidiu ou não sabe quando foi que ele nasceu). Um amigo que alega ter visto os documentos dele diz que foi 1955. Quantos anos ele tem de fato? A aparência dele impede um chute preciso. Ao mesmo tempo que ele parece acabado, ele não aparenta 62 anos. Ou seja, um cidadão além do tempo e do espaço (isso é importante para o resto da teoria, aguardem). Vocês, a essa altura, devem estar se perguntando o que isso tem a ver com David Byrne. Eu espero que vocês tenham prestado atenção na voz de Byrne durante a entrevista. Se prestaram, cliquem no vídeo abaixo (Evidência 2), contendo cenas da performance de Tommy em The Room. Notaram as semelhanças? Pois então, eu também. Não acredito que seja só coincidência.

 

 

 

3 – A teoria, ou, melhor dizendo, a investigação

Os leitores mais perspicazes se deram conta das semelhanças físicas entre os senhores Byrne e Wiseau. Também repararam que as vozes deles se assemelham, não só em timbre mas em certos maneirismos, especialmente a velocidade da fala. Não dá pra negar que, apesar das proximidades, Wiseau é como uma versão pós-AVC do Byrne em todos os aspectos. É aí que entra a minha teoria ou, como prefiro chamar, investigação.

O doppelgänger é o famoso fenômeno popularizado pelo romance alemão Siebenkäs, de Jean Paul, que criou o neologismo. O fenômeno em si pode ser tão banal quanto a se referir a duas pessoas muito parecidas mas sem grau de parentesco até ter origens paranormais, como ser um fantasma ou uma representação sobrenatural normalmente fonte de má sorte. O tipo de doppelgänger ao qual me refiro nessa investigação, contudo, é baseado no apresentado esse ano por David Lynch, em sua continuação de Twin Peaks. (Isso tudo é muito sério.) Em termos vagos, pra não estregar a história pros que dentre vocês não viram a série ainda, o protagonista tem seu corpo duplicado. Enquanto a versão real fica presa em uma dimensão sombria (chamada Black Lodge), o duplo é possuído por BOB, um espírito assassino (que pode representar a raiz de todo o mal, isso nunca fica claro), e vaga pela Terra dando continuidade à sua função, seja ela qual for.

O duplo de Twin Peaks, para evitar que o original consiga se libertar de Black Lodge, cria outra cópia, um tanto defeituosa. Um homem sem passado, sem origem, perdido na existência. Essa descrição faz com que vocês se lembrem de alguém? Talvez de um cineasta de talento duvidoso e passado desconhecido, uma entidade perdida no tempo e no espaço, que fala como se tivesse sido apresentado às capacidades básicas de comunicação há não mais que uns poucos anos e que, no entanto, aparenta ser muito mais velho. O próprio parece confuso e incapaz de agir como um ser humano. Sim, senhoras e senhores, minha investigação conclui que há evidências que Tommy Wiseau seja um doppelgänger de David Byrne. A semelhança física entre Wiseau e Byrne, especificamente Byrne na década de 1990, indica que foi nesse período, por volta de 1995, que Tommy Wiseau foi gerado em misteriosas circunstâncias.

 

 

 

 

 

 

 

 

Reparem novamente na compilação de cenas de The Room. É tão absurdo, vendo a interpretação de Wiseau, acreditar que ele age e fala dessa maneira porque, na verdade, ele só contava 8 anos na Terra, no período das filmagens? Se ele nasceu… perdão, se ele foi criado em 1995, essa é a idade que ele teria em 2003. No entanto, ele viria ao mundo com a aparência do seu original. Como Byrne nunca se removeu da face da Terra e até hoje está entre nós, logo o seu corpo original não foi ocupado por uma entidade, sim foi gerado a partir de uma parte dele, explicando as falhas em seu duplo. Foi Byrne que criou esse duplo? Talvez, ou talvez Byrne, ao brincar com forças além das suas habilidades, tenha sido dominado por uma força sobrenatural. Talvez o nosso Byrne, que conhecemos e amamos, não seja o que acreditamos que seja. Vejamos ele hoje:

 

 

 

 

 

 

 

 

A-ha! O cabelo branco. Qualquer estudioso da mitologia de Twin Peaks sabe que o cabelo branco tem algum significado. (Qual… aí esse é um assunto nebuloso, mas tem significado.) Leland, o pai de Laura Palmer, também possuído por BOB, Leland, da noite pro dia, aparece de cabelos brancos, tais quais os de David Byrne atualmente. Pode ser que a mudança tenha sido só uma questão de idade. Mas pode ser que não. O cabelo do duplo não mudou de cor. Nunca saberemos o que anda aprontando o atual David Byrne ou se ele mesmo se dá conta do que pode ter acontecido com ele e o que seu duplo anda aprontando por aí.

4 – Considerações finais

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Abram seus olhos, Ovis sapiens/Homo aries! Há mais nesse universo do que podemos imaginar ou, deveria dizer, que eles querem que nós saibamos. David Lynch está ciente da realidade e graças a ele nós também temos acesso à informação. A verdade está aí e ela os libertará. Nossos ídolos, aqueles que nós admiramos, talvez não sejam quem nós pensamos que eles são. É possível que haja uma ou milhares de outras dimensões habitando dentro da nossa e está ou estás talvez tenham começado a interferir com o que chamamos, por costume ou ignorância, realidade. Cuidem-se de si mesmos, ou vocês também podem ser substituídos ou duplicados. E, quem sabe, nem todos os duplos sejam assim tão simpáticos quanto Tommy Wiseau.

 

Stop making sense!