Antes, durante, depois (diário de viagem #7)

1 – O efeito Lost in Translation: expectativas

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Um dia antes da data de partida, me dou conta de que estou vendo Lost in Translation (Encontros e Desencontros, Sofia Coppola) outra vez. É automático, de tanto em tanto tempo bate a vontade. Também, é um filme tão natural. Mas não posso deixar de pensar que esta vez foi menos automática. Uma espécie de autossabotagem, porque, em geral, estou me sentindo bem, nada nervoso com a viagem que se aproxima, ajustado. Os meses pós-compra das passagens foram movidos por um esforço consciente pra não criar expectativas. Queria passar os dias como um nativo, sem esperanças de mudar minha vida ou encontrar algo que estivesse procurando – dessas coisas que estamos sempre procurando sem saber que estamos ou o que é. Mas vejo esse filme e ele é um resumo perfeito do que é e o que se espera de uma viagem. Temos Bill Murray em crise de meia-idade, perdido num universo de celebridade que sem querer ele criou pra si mesmo, de um lado; do outro Charlotte (Scarlett Johansson) que foi atrás de alguém pra um país estrangeiro e perdeu sua identidade (não o documento) no caminho. Toda a viagem traz uma espécie de perda de identidade momentânea. Fora o fato de ser um estranho em terra estrangeira. A temporalidade da presença faz dessa coisa frágil que é a identidade ainda mais inútil. Posso me apresentar a cada pessoa da cidade estrangeira, posso andar com um crachá – não vai significar nada. Ok, que saibam meu nome, em poucas horas, o que ele será? Nem memória. Logo o que pra mim é um acontecimento tão memorável, vai morrer comigo. A esperança que Lost in Translation força aos que amam esse filme é a de que conexão é possível. Sim, termina com um sussurro místico ao pé do ouvido, mas existe. É possível recuperar a identidade nesse punhado de dias. Termina o filme, todos os meus esforços partem com os créditos. Antes do fim, nem sabia que estava assistindo algo, perdido nas minhas próprias invenções sobre o futuro próximo. Quem sabe alguém no hotel. Quem sabe alguém na cidade. Não que precise ser Charlotte (e não que eu já seja Bill Murray), não que precise ser memorável… Já, rápido assim, não sei mais o que eu quero mesmo, onde eu quero chegar.

2 – Suspeita e surpresa são palavras parecidas

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Sigo as instruções do cara do sebo pra chegar no metrô. Desço as escadas. A cada tantos passos tem um mapa da cidade coberto de linhas legendadas representando o caminho que seguem os metrôs. Estou entre a cabine e a catraca. Pergunto pro segurança, um dos muitos, qual é a mágica. Diz pra que eu vá na cabine e eles vão me informar. Faço isso e me pedem o cartão Sube, que não sei o que é, mas eles agem como se eu devesse saber. Dias e dias de pesquisa e não sei porra nenhuma, mal sei espanhol, apesar dos 6 anos que passei no curso encerrado 9 anos atrás. A atendente diz que normalmente poderia comprar ali, mas estava em falta. Diz que vende em toda a loja de conveniência, então subo as escadas e compro o cartão na primeira delas que vejo, por 50 pesos, e me recuso a pesquisar pra saber qual o tamanho da faca que cravaram nas minhas costas. Decido aceitar, decido que vou aceitar praticamente tudo nessa viagem, me abrir às novas experiências. É pra isso que se viaja, não?

Cartão carregado com vinte pesos, causo um distúrbio na catraca por não saber manejá-la, mas logo acerto o cartão no sensor e consigo passar. Estou esperando o metrô – da linha B ou da linha D, na estação Scalabrini Ortiz ou Pueyrredón ou qualquer outra do complexo ninho subterrâneo… não sei qual e a distância que separa as opções que minha memória traz à tona demonstra o quanto caminhei pra lá e pra cá antes de pegar um rumo certo -, que vai me levar à estação Florida, a mais próxima da casa de câmbio, ou iria, se ela não estivesse fechada por algum motivo, algo entre uma reforma ou um protesto organizado pra acontecer mais tarde naquele dia. Descido que não mais vou tentar me encontrar por conta própria. Pergunto ao cidadão na minha frente se ele sabe onde fica a Calle Sarmiento (tinha escutado que a Cambio Alpe, nessa rua, tinha as melhores cotações) e ele diz que sim, mais rápido seria descer na Florida mesmo, que me jogaria a uma quadra do meu destino, mas a em que havíamos chegado (9 de Julio ou Carlos Pellegrini) não era tão distante. Saímos do vagão e ele me pergunta de onde eu sou, porque meu espanhol não engana ninguém. Digo que do Brasil. Ele começa a tentar falar português e fala do quanto ama o Brasil e o quanto sua irmã ou prima ou cunhada ou algo que o valha ama o Brasil ainda mais que ele.

Já sobre o solo, percebo que ele segue ao meu lado, falando; eu escuto, faço uns ruídos pra indicar que entendo, mas quero saber qual o motivo de ele ainda estar ali. Pergunto pra que lado fica a rua num tom de obrigado mas agora eu me viro. Ele diz que é pra lá, mas que eu não me preocupe porque é o caminho dele, ele me guia. Fala que ali é o Centro, a parte mais turística de Buenos Aires.

Já esteve aqui antes?

Não – tenho minhas mãos no bolso, uma na chave do hotel, qualquer movimento brusco e acerto o olho do cidadão. Ele é um pouco menor que eu, deve ter por volta de cinquenta anos, não parece capaz de fazer mal a ninguém, mas nunca se sabe. Passar informação é uma coisa, de fato se esforçar pra ajudar alguém é motivo de suspeita. – Acabei de chegar.

Ali – aponta -, o Obelisco.

Não é que é mesmo?, digo. Tento não demonstrar suspeita. Acho que ele vai tentar me roubar ou qualquer outra coisa, ninguém pode ser tão amigável a ponto de levar um estrangeiro desconhecido pra onde ele precisa ir, algo não está certo. Olho pro Obelisco, mas nunca entendi a graça dele. Não me comovia à distância, não me comove em pessoa. É um grande palito de churrasco, um símbolo fálico despontando no meio da cidade.

Mas é aqui, no Centro, que você vai encontrar a maior parte dos teatros e cinemas. Só cuidado que tem muito batedor de carteira. Você não vai trocar o dinheiro na rua, né?

Não, estou indo numa casa de câmbio mesmo.

Ah, bom. Antigamente fazia diferença, mas aí o Macri veio e… bom, está do jeito que está.

E falamos um pouco de teatro e um pouco sobre segurança e taxas de câmbio. Pergunta o que mais me interessa em Buenos Aires e falo do meu gosto por literatura e trocamos uma ideia sobre Cortázar e Borges.

Tem um café em homenagem ao Cortázar por aqui, não tem?, digo. Onde ele escreveu

Los Premios, sim, é aqui perto.

London City, o nome.

Isso. Olha, agora não é mais o que costumava ser. Mas vale a pena a visita, é um belo café e aqui perto, na esquina da Plaza de Mayo, que, por sinal, você deveria ver, é outro ponto turístico… histórico, como o Obelisco, onde fica a Casa Rosada.

Passamos por uma das El Ateneo na cidade.

Essa é a maior livraria de Buenos Aires, e olha que tem muitas. Depois vai lá, mas não nessa. Tem outra, na Avenida Santa Fe, Grand Splendid, costumava ser um teatro ou um cinema. Um espetáculo o lugar. E imensa, tem de tudo.

A linha reta em que caminhamos parece não chegar ao fim, até que chega. Passamos por algumas casas de câmbio até chegarmos na que me interessa, e a taxa de fato é melhor; muito melhor que a que aplicaram no Brasil, um pouco melhor ou igual que a dos bancos pelos quais passei. Paramos na porta, eu agradeço.

Não há de quê, é caminho pra mim, mesmo. Até quando você vai estar aqui?

Quarta que vem.

Ah, pena que é uma semana corrida, se não te convidava pra conhecer minha família. [A cunhada ou prima ou irmã ou algo que o valha que ama demais o Brasil] ia gostar muito de falar sobre o Brasil com você. Já o London City, pega essa rua aqui (gesticula a direção) e segue reto em direção à Plaza de Mayo, não tem como errar.

Ele insiste em me passar o whatsapp, eu não vejo outra saída que não aceitar. Nos despedimos. Por hábito, ele se aproxima pro popular encostar de bochechas entre os portenhos; por hábito, brasileiro que sou, me afasto, mais por achar que é o assalto finalmente se apresentando do que qualquer outra coisa. Me explicou o hábito e aceitei isto também. Nos despedimos mais uma vez, agora sem incidentes. Entro na casa de câmbio. Vou até a mulher no canto do balcão fazer meu cadastro, mas não sabia que precisava do papel carimbado que me entregaram no aeroporto. Saí em cinco minutos do lugar que levei cinco horas pra achar. Mantive o ânimo, porque ainda não sabia a quais lonjuras minha caminhada cega em direção ao London City (que nunca encontrei) iria me levar.

3 – Recepção e decepção se parecem mais ainda

São noventa reais de Navegantes até meu apartamento, diz o taxista. O que eu já sabia, porque o preço é tabelado e foi o que eu paguei pra ir ao aeroporto. Tinha noventa reais separados na carteira, junto de cento e três pesos que não consegui gastar. O avião chegou às seis da tarde. Pegamos um congestionamento boschiano nas proximidades da balsa que parecia se estender por toda a cidade. Quero mostrar a ela um pouco da cidade, mandar umas fotos, mas não quero tirar o celular do bolso. Quase duas horas depois estou em casa – na esquina, porque o taxista errou o caminho. Gente carregando bandeiras de um candidato a prefeito ocupa a rua em frente ao prédio, toca a versão sertaneja de sua música tema. Quero ir embora outra vez. Tiro fotos das pessoas com as bandeiras e mando pra ela, como legenda: quero voltar. Ela responde: me encantan las palmeras. Talvez, em Buenos Aires, só tenha tido tempo de ver as palmeiras. O desejo de voltar e ficar por lá seja só reflexo ilusório causado pela visão limitada da pausa temporária que se dá na vida durante as férias. Não muda o fato de que já sinto falta.

Observações aleatórias #6

1) Começar um romance novo é uma merda quando nada aconteceu com o primeiro. Sim, estou dando um passo maior que a perna. Chame de ansiedade, não quero me ver perdedor na data de resultado do concurso, sem ter outra coisa que me motive a continuar (escrevendo e tentando publicar o primeiro); não quero me ver ganhador e me dar conta de que não comecei o segundo passo ainda, que terei que começar o processo inteiro outra vez. Me lembra uma entrevista que assisti com John Barth tantos anos atrás. Ele falava duma conversa entre ele e Donald Barthelme. Barth o autor de romances tijolescos, Barthelme quase exclusivamente dedicado aos contos, alguns curtíssimos, e que, quando escrevia romances, preferia os curtos. Barthelme não entendia como Barth conseguia esperar tanto tempo pra descobrir o fim de uma história; Barth não entendia como Barthelme podia começar do zero a cada tantas semanas. Incerto se foco em contos ou em um novo romance, tento os dois e falho nos dois. Não é bloqueio criativo, é congestionamento – quando tantas coisas tentam passar pelo mesmo espaço limitado que nada passa. Nem postagem de blogue tá saindo, não por falta de ideias, só porque nada nunca fica pronto. Se não fossem essas observações, feitas na hora, de fôlego único, quase sem pensar, estaria morto.

2) Progredindo uma palavra por semana nos contos, o resto do tempo dedico à pesquisa pro futuro romance (que não sei se será segundo ou terceiro, não sei se o que acho que será terceiro ou segundo dará texto pra romance, talvez seja novela, talvez conto grande pra caralho). Pesquisa, procrastinação, começam com pê, são a mesma porra. A personagem que seria bailarina passou a ser atriz de teatro. A vida dela seguirá uma merda, mas uma merda sobre outro palco. Procuro no youtube uns vídeos de peças de teatro, salvo alguns pra depois, começo Death of a Salesman (Morte do Caixeiro-Viajante), de Arthur Miller. Começo essa peça porque é ela que montam as personagens de Forushande (O Apartamento), novo do Asghar Farhadi, que havia acabado de ver e que fiquei curioso por saber mais sobre ela. Bailarina seria bom pra filme, bastante visual, apesar de Cisne Negro já ter esgotado essa carreira. Atriz de teatro combina mais com literatura, e algumas pessoas que conheço podem me ajudar na pesquisa, o que seria mais difícil com bailarinas (pra mim, que não conheço uma). Mas preciso definir em qual peça ela estará trabalhando, em quais já trabalhou, por isso farei o esforço de ver (vídeos de peças, já que o teatro itajaiense é sofrível) e ler mais peças nos próximos meses. Quem sabe aprender escrita de roteiro, isso é uma coisa que há tempos quero me dedicar a fazer.

3) Forushande me lembrou muito El Secreto de tus Ojos (O Segredo dos seus Olhos), que também levou o Oscar de melhor filme estrangeiro uns anos atrás. Tratam de estupro e vingança, embora com diferentes graus de intensidade. O argentino trata os temas com brutalidade e envolve política sem sutileza alguma, é rápido, uma sequência explosiva de surpresas e acontecimentos culminando num prazer terrível para o espectador. O iraniano é denso, quase é possível ouvir o emaranhado de pensamentos escapando das cabeças de cada personagem, sutil que mal dá pra saber de que trata o filme – se trata mesmo do que se está pensando -, é um pavio que queima lentamente e explode numa mistura bizarra de emoções ambíguas. O vilão do argentino é irredimível, a punição mais cruel não é suficiente pra fazer o espectador sentir piedade. O vilão do iraniano quase não pode receber a alcunha, é digno de pena desde o princípio. Dois grandes filmes que só posso indicar.

4) Essa leva de observações encerro indicando o disco Playing with fire (1989), do Spacemen 3.  E não tenho nada a dizer sobre ele. Pra que escrever sobre música quando você bem pode ouvi-la?

Como tomar no cu sem fazer sexo: analisando 50 Tons de Cinza (E. L. James – 2011) – parte 1

Existem diferentes papéis que o erotismo pode exercer na literatura. Os principais, a grosso modo, seriam: transgressão, afetar o leitor psicologicamente usando descrições explícitas de atos sexuais, incomuns ou não, causando constrangimento ou, em maiores escalas, abalando costumes sociais – Marques de Sade poderia se encaixar nesse modo, assim como Georges Bataille (cujo clássico História do Olho supera, ainda nas primeiras dez páginas, toda a sacanagem contida em 50 tons de cinza; exemplo: uma moça de dezessete anos arrebenta um ovo com o cu), no entanto é válido apontar que o grau de erotismo necessário para transgredir é variável conforme o período em que vivia o escritor (uns diriam que a literatura de D. H. Lawrence é bastante recatada, mesmo assim, em seu tempo, ele foi banido, enquanto hoje é possível ver na internet duas mulheres vomitando e cagando uma na outra sem que haja investigações policiais e processos –; excitação, servir de meio sensual alternativo para pessoas que, no momento, não têm um parceiro disponível e precisam botar a mão na massa e buscar alívio solitário, ou usado para abastecer a criatividade de um casal entediado e reacender aquela pálida chama da fogueira de alcova; e, mais comum hoje, seria o erotismo como consequência existencial, em que o autor inclui a vida sexual das personagens na narrativa porque elas são representações de seres humanos e seres humanos, em sua maioria, fazem sexo. Uma categoria separada seria a dos gênios que conseguem mesclar todas essas formas, gente como: Anaïs Nin, Henry Miller e Erica Jong. De alguma maneira, o mais recente fenômeno da literatura erótica conseguiu não exercer quaisquer desses papéis.

Falo de 50 tons de cinza, a série de livros que, desde seu lançamento, vendeu 125 milhões de cópias mundialmente – mais que praticamente tudo nas livrarias hoje em dia, com exceção de autobiografias de adolescentes. Meu objetivo com a leitura foi tentar identificar a razão disso. Em nenhum momento esperei gostar do livro. Não, estaria além das minhas capacidades. A ideia era encarnar um personagem e enxergar a história com os olhos do público-alvo. Ao fim das 400 e muitas páginas do primeiro volume, percebi que foi um exercício de futilidade. Seria impossível, contudo, explicar de uma vez por que o livro falha, por isso decidi dividir a análise em temas.

1. Narrativa

Para os que vivem em uma caverna e não sabem do que se trata 50 tons de cinza, segue um breve resumo do primeiro volume (único que li e lerei):

Formanda em literatura, Anastasia Steele tem 21 anos e é virgem. Ela divide um apartamento com uma amiga chamada Kate, que escreve pro jornal da faculdade e teria que entrevistar Christian Grey, bilionário de 27 anos e responsável por toda essa merda de livro. Como Kate está doente, Anastasia a substituiu. Por motivos de enredo, o ricaço pica das galáxias se apaixona pela folha de papel sulfite que o entrevista. Acontece que Christian é um sociopata e começa a perseguir Anastasia, aparecendo em tudo quanto é lugar que ela vai. Sempre que os dois se encontram ele diz que ela não deve se aproximar, que ele tem gostos peculiares que ela não conseguiria satisfazer e coisa e tal, mas tampouco ele deixa que ela se afaste. Anastasia, que tem idade mental de uma criança de 5 anos que nunca aprendeu a não falar com estranhos, em vez de chamar a polícia, fica intrigada com o “mistério” do Christian (não com o dinheiro e com a beleza, de forma alguma) e dá sequência ao chove não molha que se prolonga por mais de 50 páginas.

Duas semanas depois, as coisas parecem avançar, e Christian leva a relação – que até então não passou de uns beijos, se chegou a tanto – para o próximo nível, mostrando para Anastasia o equivalente adulto de um homem estranho dentro de uma vã cheia de doces: um contrato regulando como se dará o relacionamento entre os dois, caso aconteça. Se você, leitor, é amante dos documentos legais, regozije-se, pois E. L. James incluiu todas as páginas do livro no contrato, para que você não perca nada. Mas Ana não se sente confortável com certos aspectos do contrato – as partes que ele diz que vai controlar a alimentação dela, que ele pretende castigá-la sempre que ela o contrariar, que ele pretende enfiar o punho no cu dela… coisas típicas desses contratos legais, vocês sabem como é – e hesita em assinar.

Os dois acabam seguindo a relação mesmo assim, deixando bem claro que aquelas tantas páginas do contrato que a autora forçou você a ler não servem para porra nenhuma. Ocorre então o despertar sexual de Anastasia – que eu cobrirei melhor durante a análise. As próximas 400 páginas envolvem apenas os dois fazendo sexo. De vez em quando Anastasia se questiona se está fazendo a coisa certa, mas logo passa – quando os dois transam de novo. E assim vai, até que ela leva uns tapas com muita força e faz aquilo que ela devia ter feito na primeira página: foge.

2. Qualidade literária

Dos muitos problemas em 50 tons de cinza, o mais aparente é a escrita. Estou certo de que E. L. James, antes desse romance, nunca escreveu sequer uma mensagem de texto. Não é de surpreender que a base para esse livro tenha sido a série Crepúsculo. Alguém pode querer me dizer agora que é tudo uma questão de gosto. Bom, é e não é. Gostar do livro é uma questão de gosto, de fato. Isso não muda a qualidade geral da prosa. Nem tudo de que se gosta é bem-feito. Eu amo Sharknado, isso não quer dizer que seja um filme bom. (É ótimo.)

Desconsiderando erros de colocação temporal (por exemplo, em uma cena, Christian Grey liga de manhã para Anastasia, ela desliga o telefone e vai preparar o jantar – ou a ligação foi longa pra caralho, ou E. L. James esqueceu que horas eram e nenhum dos revisores se deu conta – ou quem traduziu fez merda, mas culparei a autora porque ela merece ser culpada por tudo que há de errado em nossa sociedade), e outras coisas mais técnicas, o livro ainda é cheio de repetições, déjà vus e frases mal construídas. Lógico que, se você gosta do livro, chances são que você não é assim tão ligado em literatura e não se importou com nada disso – por isso mesmo não pretendo entrar em detalhes sobre a qualidade da prosa. Agora não venha me dizer que um livro em que os personagens murmuram cinco vezes por página é bem escrito.

Se existem frases memoráveis ao longo do texto é pela hilaridade não intencional contida nelas. A genial: “Eu não faço amor. Eu fodo… com força.”, vem à mente de imediato, e o livro é permeado desses pequenos momentos de comédia literária, com frases esquisitas que nenhum ser humano diria, mas que aqui são consideradas sexy por algum motivo. Desde 1977 eu não lia tantos “baby” em um livro, melhor seria que a tradutora chutasse o balde e escrevesse logo “broto” no lugar. O que me faz pensar que, para um cara que conseguiu se tornar um empreendedor de sucesso ainda jovem, sabe tocar piano clássico, pilota avião, sapateia, assobia e chupa cana ao mesmo tempo, ele é bem chato. Os dois nunca têm assunto. Toda a conversa deles se limita a trocas levemente irônicas de provocações – terminando, normalmente, em arrependimento para Anastasia, que passa as páginas seguintes temendo pela própria vida (porque o relacionamento deles é saudável) – que rapidamente se tornam cansativas e irritantes. É um desafio ler um terço do livro sem querer esganar os dois ou sem desejar que o helicóptero em que eles embarcaram caia.

Pode parecer bobagem reclamar da maneira que as personagens falam, afinal são criações da autora e ela pode fazer o que achar melhor, mas não é assim que a banda toca. Quando nada na descrição da personalidade da personagem condiz com suas ações ou jeito de ser, isso é um problema de caracterização – erro literário típico de iniciante que não percebe que, por mais que fictícias, personagens são representações de seres humanos e precisam de liberdade. E essa é a melhor maneira de definir Anastasia. Ela é formanda em letras e é a primeira da classe – se não me engano, a essa altura as informações do livro estão sendo forçadas a se retirar da minha memória para dar espaço a coisas melhores. Isso deveria significar que ela não é de todo burra. Não é o caso. A garota é sequelada. Não compreende coisas que não poderiam estar mais claras. Isso poderia ser culpa de sua inocência virginal, só que o diploma em letras quer dizer que ela leu a maior parte dos clássicos da literatura americana e/ou inglesa, que inclui muita sacanagem e, mesmo que de segunda mão, experiência de vida. Inocência é uma coisa, crescer numa bolha emocional é outra. Rompimento de hímen, até onde eu sei, não causa queda de QI. Não quero me adiantar aqui porque mais será dito quando eu me puser a analisar a relação dos dois.

Como quem narra a história é essa toalha molhada que atende pelo nome de Anastasia, o leitor está preso à mente limitada dela. E nunca na minha vida eu desejei tanto por um narrador onisciente. (Tem quem diga que preferiria uma narração do Christian Grey [o que aparentemente aconteceu – prova de que o diabo existe e está entre nós], mas, não, ele não resolveria essa limitação porque ele é tão limitado quanto ela – o mal está na raiz, a autora, que não poderia vir com uma boa narrativa mesmo que tivesse em mãos a melhor das personagens.) Como a terceira pessoa nunca surge para aliviar a mente do leitor, este é obrigado a passar as centenas de páginas ouvindo a voz patética dela falar e falar e falar e murmurar e murmurar, e, como se não bastasse, o texto ainda é cheio de interjeições infantis como “uau”, “meu Deus”, “minha nossa”, “cacete”, e variações. Puta merda – uso aqui meu direito de adicionar uma interjeição vazia. De vez em quando, ainda, a narração nos oferece acesso aos mais íntimos pensamentos de Anastasia – esses vêm em itálico. Eles são? você pergunta. Eis que os demonstro: “o que é isso?”, “o que ele quis dizer?”, quem sou eu?, onde estou? Sim, porque Anastasia tem pensamentos muitos ativos. Sua mente é tão agitada que convive com duas entidades psicológicas, separadas da origem e autoconscientes, para as quais pretendo dedicar o próximo tema.

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Texto originalmente publicado, na íntegra, em 2 de novembro de 2015, aqui: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/11/como-tomar-no-cu-sem-fazer-sexo.html

Andei vendo uns filmes aí #5

LA LA LAND (LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES) – DAMIEN CHAZELLE [2016]

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“Meh.” – Raphael Dias, Delirium Scribens

Até entendo o amor generalizado por esse filme, mas não me pegou. Sinto muito. Sim, é identificável o bastante, todos temos sonhos et cetera et cetera. Sem atropelar o andamento das coisas, o enredo é: moça e rapaz se encontram, no início eles se detestam (porque ele é um babaca a maior parte do filme), mas aí eles insistem até se apaixonarem por motivos de enredo (se havia química entre eles, escapou minha percepção), mas, porque se tudo desse certo não haveria Oscar, reviravoltas ocorrem. Ah, e meio que tem uma música aqui e ali, quando os envolvidos se lembram de que estão fazendo um musical. Esse é meu maior problema com o filme. Não teve um texto sobre esse filme que eu tenha lido que não tenha dito a clássica frase: é um musical, então preparem-se pra cenas em que as pessoas começam a cantar do nada. Isso só acontece em três cenas, no primeiro ato. Depois disso, o filme, por um bom tempo, esquece que é um musical. Falando nisso, o que faz um musical? Músicas memoráveis. Bom, aqui é questão de gosto, mas não lembro de uma música que ouvi neste filme – e olha que tem versos de músicas de musicais que nem vi, mas não consigo esquecer. Não é um filme ruim. É visualmente impressionante – nada inovador, mas bonito e tem momentos brilhantes. Mas não vai muito além. Típico estilo sem substância. Sem falar que cartas de amor a Hollywood já deram no saco, até quando meio irônicas. Só quero cartas de ameaça de morte de agora em diante. Gosto da Emma Stone, acho que ela interpretou bem o papel. Não sei quem foi que deixou o Ryan Gosling cantar, a voz dele só falada já me dá nos nervos – provavelmente a mesma pessoa que escalou Russell Crowe -, e é difícil um ator passar emoção quando ele só tem duas expressões faciais (oposto de Emma Stone, que é feita de borracha – no sentido mais positivo da palavra). Poderia escrever um texto completo sobre isso, pra deixar bem claras cada uma das minhas reclamações, mas não pretendo. Se alguém pedir com jeitinho, quem sabe, mas não faço promessas, até porque não gosto de dar muita atenção ao que não me agrada.

IN A LONELY PLACE (NO SILÊNCIO DA NOITE) – NICHOLAS RAY [1950]

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Fazia tempo que um filme não me deixava ansioso. Não é surpreendente, como alguns suspenses. Mas você fica sem piscar assistindo cada mudança de expressão do Humphrey Bogart. O que me pegou mesmo foi quando eu me dei conta que o final foi “estragado” na primeira cena, qualquer possibilidade de surpresa morre ali, mas, no meio do caminho, com sutileza, o filme me fez esquecer disso, que eu já sabia o final. Vai ficar mais claro se eu não esquecer de passar um mínimo de sinopse pra vocês. Dixon Steele (Bogart) é um roteirista de sucesso, mas em decadência. Uma noite, ela leva uma garçonete pra casa, pra que ela contasse a história do livro que ela havia acabado de ler – que ele devia roteirizar – pra ele. Ela conta a história pra ele, vai embora sozinha e é encontrada morta à beira da estrada na manhã seguinte. Dixon é questionado pela polícia. Não há meios de ele ser culpado, mas a atitude dele convence a polícia de que ele é um assassino. Laurel Gray (Gloria Grahame) aparece como testemunha de que Dixon passou aquela noite em casa. Ela e Dixon começam um relacionamento, até que ela percebe que a agressividade do Dixon é de fato suspeita. Falei demais já. Vejam esse filme. Devia ser mais conhecido, devia ser considerado um desses clássicos obrigatórios. É um noir nada tradicional, apesar de seguir uma estrutura até que básica, perfeitamente construído. Um filme que, se tem defeitos, não reparei.

MOONLIGHT (MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR) – BARRY JENKINS [2016]

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Quero evitar a todo custo falar que esse filme é “importante”. Todos sabem, todos já disseram isso, mas, em 2016, não era pra ser mais. O fato de ninguém nunca ter visto um filme assim até hoje (sobre homossexualidade entre negros nos EUA) é um alerta vermelho pra nossa sociedade – outro. Então, riscando os muitos significados sociais desse filme, porque ele não é só isso, temos um filme quieto e intenso, sutil e prestes a explodir a qualquer momento. É a história de Chiron (Alex Hibbert – criança -, Ashton Sanders – adolescente -, Trevante Rhodes – adulto), filho de uma dependente química, pobre e, mais tarde descobre, homossexual. Acompanhamos um momento em cada uma dessas etapas da vida dele. É tão difícil falar desse filme. Faço questão de deixar de lado a importância porque o filme em si não parece ter consciência disso. Se os envolvidos fossem brancos, seria visto só como uma história pessoal como tantas outros – porque é só isso. Acho que foi isso que mais me marcou no filme, quase como Azul É a Cor Mais Quente, conhecido como um filme de romance entre lésbicas, quando na verdade ele é, em estrutura, um romance dramático como qualquer outro – mais sexualmente explícito, mas, fora isso, igual. A história é contada quase sem diálogos, as emoções são trancadas, escondidas, mas estão ali sempre e prestes a explodir – e de fato explodem em algumas cenas. Um filme marcante.

KÔHÎ JIKÔ (CAFÉ LUMIÈRE) – HSIAO-HSIEN HOU [2005]

Quase não é um filme. É assistir um trecho da vida de uma pessoa. Nesse caso, Yôko, uma escritora japonesa pesquisando a vida de um compositor taiwanês. Devido à pesquisa, ela viaja muito pra lá. Ela engravida do namorado taiwanês, mas não tem intensão de casar com ele ou cobrar a presença dele como pai – na verdade, prefere distância. Os pais dela estranham, mas são obrigados a aceitar, porque a vida é dela e ela é independente. Ela tem um amigo que ajuda ela na pesquisa. Ele gosta de ir às estações de trem gravar os sons das coisas de lá – dos trens chegando, das pessoas, dos anúncios.  E depois de quase duas horas, o filme para. Não acaba, só para de acontecer. Mesmo assim, gostei demais. Queria poder explicar, mas acho que já botei na minha cabeça que, em se tratando de filme, é melhor não encucar com essas bobagens de significado. É como eu disse, um pedaço da vida de Yôko, que nós temos a chance de assistir. Não é pra todo mundo. Mas se essa descrição acima te interessa de qualquer maneira, veja. A trilha sonora é maravilhosa (vivo esquecendo de buscar o nome do compositor taiwanês pra saber se é dele mesmo), cada cena é uma fotografia, e as atuações te convencem a ponto de você achar que nada ali é atuação, foi uma equipe de gravação que surgiu na vida daquelas pessoas e começou a filmar.

A memória das coisas (Diário de Viagem #6)

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1 –  Primeiro dia. Por burrice estou perdido. Caminho em direções aleatórias buscando um lugar onde comer ou só onde possa parar e sentar por um instante. São várias quadras acumulando atrás de mim, mas acho que sei voltar ao hotel ainda. Posso ter andado em círculos o tempo todo e estar prestes a dar de cara com a entrada do hotel. Acostumado a andar, esqueço que não sei onde estou com facilidade. Olho pra um lado, nada reconhecível. Nada atrás idem. Até me assusto quando vejo uma bela vitrine abarrotada de livros velhos bem do meu outro lado. Entro. Digo a mim mesmo que é só pra pedir informação, mas sei bem que é mentira. Eu tento, mas não consigo me enganar mais. Olho as lombadas, me interesso por quase tudo, desvio das pessoas. Fico impressionado por haver pessoas. Pego um só do Roberto Arlt, cercado de grandes volumes de sua obra completa – esses não posso, tenho que me controlar e pegar um só, até que bem barato apesar de eu estar longe de me acostumar com os números altos pra qualquer coisa. Pergunto ao vendedor, não onde estou, se ele tem algo da Alejandra Pizarnik. Fica surpreso, diz que sim, mas só um. Uma seleção que deve ser da década de 1980. Compro os dois livros. Pergunto como chego ao Centro. É muito longe, tem que pegar o metrô. Ele explica onde fica. De onde você é? Brasil. Como a cidade tá te tratando? Acabei de chegar, estou perdido, mas até que bem tratado. Chegou quando? Ontem, três da manhã. Ah! Gosta de literatura argentina? Sim, apesar de não conhecer muito mais que Borges, Cortázar, César Aira. Esses que você escolheu são muito bons, clássicos da nossa literatura. Ei, você é do Brasil… Mário de Andrade, você conhece? Bem pouco, só umas poesias avulsas. Macunaíma é meu livro favorito de todos, é genial. Traduziram Macunaíma? Sim, como não? Uau. Não tenho mais nada a dizer. No futuro, lido o livro, teria, mas não estaria lá. Acho o metrô. Primeiro sinal, dos dois que tive naquele dia, de que o Brasil persegue seus filhos onde quer que eles estejam, mais ainda se ele só estiver ali do lado. Quero guardar o endereço desse sebo para voltar nele quando estiver mais seguro, mas não faço isso. Meses depois, encontro o endereço impresso num dos marcadores de página que recebi da loja. Fica pra próxima.

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2 – A feira de livros usados da Plaza Italia é uma reunião de microcosmos. Se cada volume carregasse em si um pouco de cada um de seus donos, um pouco de cada casa em que viveu e cada incidente pelo qual passou e um pouco dos lugares aos quais foi levado, some a isso o fato de hoje estar na rua, cuidadosamente posicionado em uma das várias cabines na maior feira de livros de uma das maiores e mais movimentadas praças de uma das maiores cidades da América do Sul, não seria exagero imaginar que ele experimentou, direta e indiretamente, a maior parte da experiência humana em variedades indisponíveis à maior parte dos seres humanos. Pego um deles, antigo, a parte de cima do miolo tomada por uma camada sólida de pó, viro com cuidado algumas páginas, num instante, desejo sinceramente poder acessar pelo toque as memórias dele. Ambição excessiva. Não basta o livro ser este naco da consciência de outro ser humano, há décadas morto, concreto em minhas mãos, quero mais, quero as imagens abstratas das coisas que o objeto livro viveu. Vejo o preço do livro. Muito caro. Ponho o livro de volta em seu lugar pra que pegue mais pó e digitais e pra que talvez receba uma nova casa e experimente tantas outras coisas, não comigo. Tantos volumes diferentes, asfixia. Lembra mortalidade e presença, memória, dá uma impressão breve de sentido junto à impotência do indivíduo. Uma belíssima tristeza. Havia terminado, na noite anterior, de ler a seleção de poemas da Alejandra Pizarnik. Encontro e compro um volume de sua obra completa. Troco uma ideia breve com o vendedor sobre ela (…compra esse, aí não precisa comprar mais nada, tem tudo dela aqui… talvez… talvez, exceto pela novela que ela escreveu, A Condessa alguma coisa assim, se bem que acho que tem aqui – e pegou outra cópia – … sim, tá aqui, não sei se toda ou fragmentos… enfim, é uma obra menor dela, de qualquer forma, mas, se você gostar dos fragmentos, indico a leitura, é uma boa novela…) e sobre o preço dos livros do Bolaño, o quanto eles acabam valendo a pena.

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3 –

rastros

a madeira que cerca o Degas no museu
um dia foi
como a árvore que fora faz sombra.
ambas carregam
no corpo um tipo de memória,
como a tinta carrega.
noto, de leve, o movimento ancestral
do pincel e
por ele tento imaginar monsieur Edgar
em seu ateliê,
monstruoso dominando suas jovens modelos
enquanto ele
as fazia flores ao vento nas telas.
posso fingir
que vejo o homem, mas não vejo,
não de verdade.
ele está lá, como as modelos estão,
como uma árvore qualquer está,
só sua projeção,
rastros deixados na história
feito os de um urso na floresta.

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Uma tarde no MALBA – parte 2 (Diário de viagem #5)

Antes leia a parte 1, cacete.

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Difícil comentar o conteúdo de um museu de arte sem que a descrição seja seca ou vazia ou desnecessariamente crítica – o que fica pior quando, como no meu caso, não se é crítico de arte. E dizer que tem quadros é óbvio. Estou arriscando cair no superficial agora, mas fui eu que montei essa armadilha pra mim mesmo quando me decidi escrever sobre uma visita ao museu. Me resta continuar como comecei e bancar a câmera flutuante. Atravessando a entrada da primeira sala depois da escada rolante, ficou claro que o foco do acervo estava na arte moderna e o que veio depois. Sem muita distinção entre quadros, esculturas, fotografia, vídeos… um museu de artes visuais bastante abrangente. Do lado de fora da primeira sala, havia um corredor com várias televisões, passando filmes em loop. O visitante poderia pegar um fone de ouvido e assistir, se assim desejasse. Que eu me lembre, entre outros filmes, estava passando Medianeras.

Como parecia ser uma constante na minha viagem, por onde passava via um pouco do Brasil. O primeiro quadro a me chamar atenção era justo o de Tarsila do Amaral, Abaporu, em destaque no corredor que levava à segunda sala. Vi outras obras de brasileiros por lá, inclusive, algo me diz, outra de Tarsila, mas devia ter levado um bloco de notas ou coisa assim. Tinha, então, a ideia de escrever uma espécie de diário de viagem, mas nada nessas proporções nem que fosse especificamente sobre o museu. Lembro de ter visto um quadro de Oswald de Andrade. Um quadro enorme, sobre o qual não lembro nada, mas lembro da minha surpresa ao descobrir que Oswald pintava. Ao lado, seu manifesto modernista, aberto, protegido por vidro, do ar e dos dedos.

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Sem anotações, com a memória vaga, fica complicado escrever qualquer coisa de muito significativo sobre as obras de arte lá expostas. Como de costume na arte, tem suas polêmicas. A instalação que é só um anúncio de aluga-se. Por um instante, achei que fosse mesmo um anúncio e estivessem com um espaço livre, mas, na verdade, era “arte conceitual” expondo o mercantilismo presente no mundo artístico “atualmente” (as aspas porque, se não estou me confundindo, essa instalação é da década de 80; se algo mudou desde então foi pra pior). Imagens de pobreza e festa também são constantes, parte inseparável da América Latina, de certa forma. Cores, decadência, esperança, miséria. Ao mesmo tempo, um desejo por revolução. Esse é o espírito do MALBA, como um todo, independente do que diga cada obra por si própria. Existem correntes invisíveis espalhadas por toda a América Latina, nós sabemos de onde elas vêm. Uns as querem partir, outros estão acostumados ao aperto nos punhos e até gostam delas como enfeite. No MALBA, pulsa o desejo de liberdade do nosso continente, desejo sempre frustrado, quando não por forças externar dominantes, os mestres de nossas correntes, são nossos próprios males internos historicamente enraizados que nos derrubam. Talvez por isso tenha me incomodado mais do que deveria com as exposições convidadas: Jeff Koons, sobre o qual já reclamei em várias ocasiões e, sem querer me repetir, não acho que passe de uma esteira industrial de mau gosto (pelo menos a parte da obra dele que eu conheço); e Yoko Ono, que ocupava todo o andar acima.

Subi o segundo lance de escadas rolantes. Havia uma placa em frente à entrada indicando que ali começava a exposição da Yoko Ono. Fico pensando se deveria botar aqui minha opinião sobre Lennon e Yoko. Mentira, não é conflito algum, talvez o grande motivo de eu ter começado a escrever esse texto tenha sido pra expressar minha opinião sobre o significado por trás da obra desses dois artistas. E por que eu boto os dois no mesmo prato como se fossem arroz e feijão? Porque é isso mesmo. Boa parte da obra de Yoko exposta no MALBA era composta de frases feitas do Lennon, dos ideais que ele usou ao longo da vida pra encher a própria conta bancária – com sucesso. Mas estou me adiantando e, até agora, se eu estou certo e vocês já discordam de mim, só fiz foi gerar hostilidade entre mim e vocês, supostos leitores.

Entrei na sala e escutei um zumbido. Vinha de uma caixa de som tocando um disco dela que era, se não me engano, uma longa gravação do zumbido de uma mosca. Ao lado, em loop, um vídeo de uma mulher (provavelmente a Yoko, não vi o rosto), nua, deitada numa cama, enquanto uma mosca caminhava pelo seu corpo, do pé à cabeça. De todas as obras presentes, essa combinação som e vídeo foi a mais impressionante pra mim. Não imaginava como ela poderia ter sido feita. Moscas não são seres atentos e treináveis. Se parece que estou sendo sarcástico por culpa do parágrafo anterior, não exatamente elogioso, não estou. Gosto de ver coisas e não fazer ideia de como elas foram feitas. Traz à tona o aspecto mágico da criação artística.

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Não relacionada à exposição da Yoko. Não tirei fotos dessa parte. Tinha muita gente. Sou tímido.

Foi o que veio depois que, na falta de palavras melhores, me irritou. Exemplo: uma cruz de madeira, de uns 2 metros de altura, coberta de pregos; anexada à ela, um martelo, e, no chão, ao lado da cruz, uma caixa de pregos soltos; o observador era convidado a pegar um prego e pregá-lo na cruz. Pode ser cinismo da minha parte – toda a crítica que está por vir deve de ser meu cinismo falando mais alto, estou tentando trabalhar nisso -, mas achei bastante ridícula a montagem. Sim, compreendo o simbolismo cristão, a ideia de todos estarmos envolvidos no “flagelo de Cristo”… Ai ai, se é que era isso mesmo que a peça queria representar. Mas tinha um pai segurando o filho no colo pra que ele pregasse um prego na cruz também, tentando manter o equilíbrio pra que a esposa dele pudesse tirar uma foto sem que ela saísse tremida. Uns passos depois, um grande mapa-múndi todo carimbado com a palavra Peace (paz, caso alguém não saiba). Sobre uma mesa, um carimbo; colada na parede, uma folha com instruções que diziam: carimbe o lugar do mundo em que você queria que houvesse paz. Desnecessário dizer que havia gente tirando uma selfie enquanto carimbava, e forçando crianças a posarem pra fotos enquanto carimbava. Apesar dos esforços hercúleos de Sra. Ono, no entanto, ainda não há paz no mundo.

É esse o meu problema. Em se tratando de paz e coisas assim, não sei lidar com gente que usa essa necessidade pra fins comerciais. E é nisso que acho que a carreira de John Lennon se baseou (pós-Beatles) e em que a carreira de Yoko Ono se baseia. Velhas ideias, nada originais, propositalmente ingênuas, pedindo por paz sem fazer nada por isso, que vendem bem porque trazem uma mensagem identificável: todos querem paz sem ter que trabalhar por isso e, principalmente, é muito legal mostrar pros outros o quanto você se importa, independente do quanto os atos amplamente divulgados de fato afetam  a situação do mundo, desde que dê pra colocar um preço neste ato. É muito bom e fácil pregar pobreza e simplicidade enquanto se vive no luxo, distante da nojeira que é a pobreza que se explora. Enfim, já fui longe demais. Tinham várias outras instalações ali que trabalhavam com as mesmas ideias de forma diferente. Tinham frases do John Lennon escritas nas paredes – deixem o homem descansar; mesmo que o caráter dele tenha sido, na minha opinião (antes que me preguem na tal cruz – ha! ninguém vai me pregar na cruz por isso, ninguém nem vai ler isso aqui!) duvidoso. Ao meu lado, enquanto voltava todo o caminho pela sala em direção às escadas rolantes, passou um brasileiro que dizia: essa é a típica artista, nada aqui significa porra nenhuma, mas a gente tem que olhar e fingir que entende. Quem não entendeu o comentário fui eu. Aquela exposição, boa ou ruim, não podia ser mais compreensível. O significado dela estava escrito e desenhado por todas as paredes e até no teto (literalmente): paz, assim como a guerra, vende.

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Passei uma última vez pelas obras do primeiro andar pra esquecer de Xoko Ono, como havia dito o garçom uma noite antes. De volta ao térreo, descobri que tinha um cinema lá passando dois filmes, de graça, mas os horários ainda estavam distantes e havia a apresentação orquestrada de Metrópolis, que eu não estava bem certo se iria mesmo ver. Ainda lá, seguindo reto da entrada, uma espécie de memorial das ditaduras militares nas Américas, um lembrete pra que ninguém duvide que aconteceu, que teve vítimas e que não deve se repetir. Vendo as imagens dos vários ditadores de cada país e seus anos de atuação, me perguntava se tinha algo assim no Brasil. Era, ainda é, necessário, com o sempre crescente movimento de viúvos e viúvas do chumbo. Numa sala anexa, arquivos para consulta pública com dossiês expondo, com notícias da época (antes, durante e depois), estatísticas, documentos políticos e diplomáticos, depoimentos et cetera. Completíssimo e, não bastasse, cópias das folhas dos dossiês enfeitavam todo o museu.

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A operação Estadounidense que financiou os golpes e ditaduras na América do Sul (e Henry Kissinger, canalha, ainda vivo porque vaso ruim não quebra, na mesma época, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por não levar a paz no Vietnã, enquanto financiava as mortes na América do Sul e Central, e no Timor Leste, entre outros locais – crimes internacionais pelos quais ele nunca pagará, nem os chefes dele. Provando que a história se repete, Obama leva o mesmo prêmio por não dar fim a guerra no Iraque. É assim que as coisas são. Carimbemos um mapa-múndi. Ou nos refugiemos na mansão da Yoko. Sendo justo, as ideias dela são ingênuas, um pouco tóxicas (não é bom viver numa nuvem) e cheiram à hipocrisia, mas não são monstruosas, pelo menos.

Saí feliz pela visita e pela memória que reterei pelo tempo que durar minha memória. Ainda era cedo, tinha horas até a exibição de Metrópolis. As nuvens estavam pesadas, preferi não ficar por lá porque, em caso de chuva, a apresentação seria cancelada e eu perderia uma noite. Fui a um café, pedi algo pra comer e um café. Por algum motivo olhei meu celular e vi um número absurdo de mensagens nos dois grupos da empresa em que trabalho. Com medo de que a empresa houvesse falido na minha ausência (teria procurado um emprego em Buenos Aires, se tivesse sido o caso), abri as mensagens e vi que foi só um incêndio. Aconteceu de madrugada, estavam todos bem e, o escritório, só defumado, sem nenhum dano. Decidi, respirando fundo,  aliviado, que daria uma olhada no tal do Jardim Japonês, e, à noite, iria a um bar de que tinha ouvido falar antes da viagem. Não choveu e até hoje não vi Metrópolis, com ou sem orquestra, ao ar livre ou em casa. Mesmo assim, o universo me provou mais uma vez que ir ao bar é sempre a decisão certa.

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Observações aleatórias #5

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1 – Ainda falando do romance terminado, talvez porque ontem tenham se encerrado as inscrições para o tal prêmio, achei melhor tirar umas férias rápidas da ficção. Montes de escritores foram obrigados a publicar suas “regras” pra escrita. Henry Miller foi um deles. Entre as regras dele, estava inclusa: saia de casa, vá aos cafés e aos bares, mantenha-se humano. Essas regras, independente do autor que as invente, são sempre questionáveis, às vezes se contradizem, não têm valor nenhum, mas são obsessão inevitável dos autores novatos. Já que não tem escola que possa nos ensinar a escrever, as palavras de auxílio dos que conseguiram aprender são buscadas, não como guia pro que fazer mas como reafirmação de que aquilo que se está fazendo é certo. Porque não dá pra saber. Mas não era sobre isso que eu queria escrever agora. Era sobre as tais “férias”. “Mantenha-se humano” não é uma dica exagerada. O grau de isolamento a que a escrita de um romance incentiva é desumanizante. Não que eu, ou qualquer outra pessoa – embora tenham casos assim -, tenha me trancado num quarto durante todo o processo. Mas é um isolamento mental. Uma indisposição para receber coisas do mundo. Durante a escrita do rascunho, ainda acontece. Mas, uma vez avançada a revisão, o polimento da obra bruta, se cria um medo de descobrir qualquer coisa nova, de se experienciar algo que possa te fazer querer mudar os rumos do romance. Isso pode tirar uma pessoa do mundo ao redor dela de modo surpreendente e prejudicial. O que não se ouve com frequência, mas pra mim é verdade, é que é muito fácil se entregar ao isolamento. O que estou fazendo agora é, aos poucos, me abrindo outra vez.

2 – Escrever poesia tem sido uma ótima forma de voltar. Ainda é escrita, mas não é ficção, não envolve estrutura nem nada que seja fechado em si mesmo. Pelo menos não o tipo de poesia autológica que estou fazendo. Não tenho intenção de publicar esses poemas. Não aqui, não em livro. Sim, há sempre o ainda. Mas é que também é muito fácil não publicar. Digo melhor, é um conflito. O ego é forte. Às vezes, quando tenho a ilusão de que me supero num verso ou num poema completo, a primeira coisa em que penso é: tenho que botar isso no blog. Não sei por qual motivo esse pensamento me vem. Não é como se alguém o fosse ler por aqui e essa leitura fosse mudar a minha vida ou a do leitor de alguma forma – este é o segundo pensamento, o que eu sigo, e a razão de vocês não terem visto nada do caderno aqui (ainda). Desde então, tenho caminhado com meu caderno, tenho escrito em praças, em lugares que não o meu quarto; eis a importância do ato: permitir que eu saia, observe, anote, receba, entre de volta no mundo de que tentei sair. Ao mesmo tempo, a liberdade é parte essencial dessa ideia. Se começo a escrever pensando na recepção que o poema pode ter no blog (nunca tem uma recepção, mas sempre tem a expectativa de uma recepção qualquer que seja), posso deixar de escrever determinadas palavras, o que me fecha de novo.

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3 – E falando em experiências e contato, fui num boteco à beira da praia com um pessoal do trabalho. Quem me conhece sabe da dificuldade que é me botar perto da praia. Mas lá estávamos nós – não todo o escritório, éramos quatro no total -, bebendo água com gás feita de milho, falando bobagens. (Bom, daqui em diante, vai ficar muito ruim e repetitivo se eu tentar escrever a conversa sem citar nomes, então vou fazer pseudônimos pra facilitar meu trabalho. À mesa havia: eu, que continuarei como eu; Olga, a mais velha entre nós; Júlia e Vera. Pronto. Se bem que eu poderia botar os nomes verdadeiros e vocês não fariam ideia. E elas nem sabem que escrevo, então não é como se houvesse risco de elas acharem isso aqui. Não seria paranoia se fizesse sentido.) Como sempre acontece nessas situações, não sei como chegamos a esse assunto, mas Olga, que havia almoçado comigo num quilo perto do escritório, disse:

– Me apaixonei hoje (…) O cara mais lindo. Trabalha no Santander (…) Agora que sei que ele almoça lá, vou continuar indo pra ver se consigo falar com ele.

Eu: – Que coincidência, também tô de olho numa moça que vi lá, a que fica no caixa (…)

E começamos a discutir sobre as dificuldades de aproximar pessoas desconhecidas fora do contexto maravilhoso que é o bar. Nisso, percebi uma grande diferença entre mim e Olga, ou, como já deveria ter me dado conta muito antes dessa conversa (e, notando a extensão disso aqui e o quanto ainda falta pra terminar a história, tô começando a achar que era melhor ter feito disso postagem individual, mas agora foda-se): sem trocar palavra com o cara, ela já sabia nome, local de trabalho e cargo, estado civil, além de saber de alguns gostos pessoais dele e ter “amigos” em comum. Sim, estou falando do facebook, que me recuso a ter. E, por me recusar, ainda não sei o nome da moça, nem nada sobre ela. Enfim, falamos do tal ato de stalkear (espreitar, povo, existe palavra em português pra isso, pode ser espionar também, bisbilhotar, fuçar, cavocar, caçar… stalkear é a palavra mais feia que o estrangeirismo pôde conceber – empoderamento estando logo ao lado, junto do termo off, ao invés de desconto; parem com essas merdas e aprendam seu próprio idioma), estratégias de aproximação, a zona ambígua que separa atração e hospitalidade, e tudo o mais. Sim, isso são mais notas pra um futuro texto. Não vai dar pra falar do quanto eu acho que estamos perdendo a diversão e o risco da descoberta pessoal em tão poucas linhas. Fica prum futuro próximo.

4 – Decidi encerrar as observações indicando um disco, de agora em diante. Algo que eu esteja escutando com frequência no espaço de tempo próximo ao do momento em que as observações estão sendo escritas. O dessa vez é o disco Cheftak, da dupla libanesa de trip-hop Soap Kills. Nada a ver com o que eu costumo escutar. Na verdade, por ter muito de eletrônico, é quase um oposto, mas estou gostando. Metade da dupla é a Yasmine Hamdan, que faz aparição em Only Lovers Left Alive (sim, estou citando Jim Jarmusch outra vez, e, quer saber?, a observação número 2 foi toda inspirada por Paterson, o filme mais recente dele, sobre o qual não paro de falar: acostumem-se), e não há palavras no dicionário que façam jus à exuberância dessa mulher. Escutem o disco e depois me digam. Participem dessa porra. Se eu quisesse que esse blogue fosse o monólogo de um cidadão perturbado, teria fechado a caixa de comentários há muitos anos. Eu tenho esse poder, mas preferiria que esse blogue fosse uma série de diálogos com um cidadão perturbado. Não gosto de falar sozinho, tenho medo de ouvir respostas de novo.

Obs.1: Ah é, não sei botar vídeos do youtube via wordpress. Bom, tá aí o link pra uma música do disco. Mas tem o disco todo no youtube, só não num vídeo só. Vão procurar, bando de vagabundo.

Obs.2: Vejam só, o link vira uma caixa de vídeo sozinho. Bom, o troço aqui podia ter me avisado que isso ia acontecer. Não vou apagar a observação acima, quero que o transtorno fique registrado.