Na quinta choveu – parte 2.3 (diário de viagem #14)

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Foto do google imagens, ou: https://cdn.theculturetrip.com/

Na quinta, choveu – 2 – Tarde, San Telmo (parte 3)

O Museu de Arte Contemporânea está logo ao lado. Passo em frente. Ter que deixar minhas coisas em um lugar outra vez e pagar entrada e andar por salas imensas me desanima. Quem sabe outro dia volte pra esses lados, num dia que não esteja chovendo. Minhas pernas já doem um pouco, levando em conta as poucas horas de sono, as voltas pelos aeroportos anteontem, mais a caminhada de quase uma hora que encerrou a noite. Sigo o caminho reverso da minha vinda até encontrar um restaurante simpático de esquina, destes frequentados por idosos saudosistas cheios de memórias de refeições passadas naquele mesmo lugar, da amizade íntima com o garçom e com a mobília, que sabem o cardápio de cor e salteado, já provaram cada prato e hoje comem sempre a mesma coisa, o predileto, o de sempre. Assim que passei pela porta, me senti indesejado. Sento a uma das mesas e aguardo receber o cardápio, o que acontece rápido, apesar do garçom ter me dado a impressão de que preferiria que eu fizesse o pedido sem olhar. Calculo mentalmente – e errado – a conversão dos preços e me decido pela milanesa com batatas fritas, mais pela tradição que qualquer coisa, quero me infiltrar. Claro, ninguém ao meu redor pediu isso. Apenas turistas vão atrás dos tais pratos típicos. O garçom vem com uma cesta de pães e eu digo que não precisa. Ele insiste e eu continuo recusando por ter visto no cardápio que não é de graça. Acabo de ganhar a antipatia do homem, capto na expressão dele o exato momento do câmbio do neutro pro negativo de sua percepção sobre mim. Como o bife, que é do tamanho do prato, e as batatas sob e ao redor dele. A falta de sal e tempero na culinária argentina, alvos de tanta reclamação brasileira, não me incomoda. Temo estar perdendo o paladar com o passar dos anos. Uma mistura do efeito solvente dos álcoois e do calor do tabaco na língua, aos poucos a percepção do sutil se esvai. (Quanto exagero!) A refeição é agradável o suficiente. A presença dos locais me constrange e me sinto um invasor e peço a conta quase sem dar um tempo após o último gole da água que pedi pra acompanhar o prato, quando deveria ter pedido uma cerveja ou um vinho. É nessas horas que deveria revidar zerando a gorjeta. Nunca faço, sei lá eu por quê. É um ciclo: turistas deixam de dar gorjeta, garçom pega bronca de turistas, garçom trata mal turistas, turistas deixam de dar gorjeta. O que veio primeiro? Normalmente daria vantagem ao garçom, mas Buenos Aires quer te convencer do contrário a cada restaurante. Salvo no Café Oso, aquele garçom foi simpático. E a garçonete no bar de ontem à noite, que aceitou trocar a música quando eu pedi, mas ela era colombiana e não conta. Ano passado tinha uma num café, acho que na Jorge Luis Borges; não encontrei esse lugar de novo, acho que fechou. Acontece que gosto da indiferença dos garçons locais – ou a indiferença da maioria deles, que seja – e gosto de ser deixado em paz. Fica a pergunta: são os garçons daqui antipáticos ou os do Brasil excessivamente simpáticos? E que mania a nossa de exigir sorrisos de quem nos serve? Dou a gorjeta. Sou até mais generoso que de costume, como se quisesse provar alguma coisa, buscar aprovação. Não recebo aprovação. A cara amarrada que me recebeu não me viu sair, porque estava de costas tocando o foda-se.

Cristo, que porra acontece depois? Como não poderia deixar de ser, me perco. Viro pra um lado quando era pra virar pro outro, em algum ponto, e sigo andando, mesmo quando sei que deveria reconhecer todo o caminho de volta, mas não o reconheço. Confundo um ponto de ônibus com o ponto do metrô ou fico com a impressão que vi um ponto de ônibus como aquele ao sair do metrô. Peço informação pra funcionária ali presente. Parece tão perdida quanto eu. Abro o mapa e vamos nos localizando. Aqui é a rua tal … você tem que chegar aqui … pra isso, tem que dar essas voltas. Pego a rua que ela indica e chego no metrô quase uma hora depois. Busco o endereço de uma cafeteria de que ouvi falar quando pesquisava lugares pra conhecer, mas envolve outra caminhada de meia hora que não sei se meus pés aguentam; o mesmo vale pro museu Xul Solar. Paro em café, no caminho entre a linha de metrô da Plaza Italia e a rua do hotel. Sento e peço uma água e um espresso duplo. Tiro o Onetti da mochila, um tanto mais pesada, e quase me surpreendo com a presença dos nove outros livros abarrotados lá dentro, e eles me lembram que estou perto de uma livraria de acervo bom o suficiente pra que tenham o presente de Alana. Decido passar lá antes de voltar ao hotel. Depois de uma olhada geral nas estantes, inclusive na pilha de destaques – na qual vários livros me tentam e da qual acabo separando Las cosas que perdimos en el fuego, da Mariana Enríquez. Há tempos o livro traduzido me tentava. Me preocupa que ainda é quinta e talvez esteja me excedendo nos gastos. Me acalma a mentira que diz que posso comprar menos nos próximos dias. A vendedora logo encontra o da Clarice: tem Perto do coração selvagem e A paixão segundo G. H. Levo o primeiro. No hotel, leio as primeiras frases de Clarice traduzida e gosto do resultado. Aprovo a tradução, mesmo que minha aprovação não valha nada e eu nem saiba direito por que a aprovo, só parece certa o suficiente e eu tenho mania de analisar as coisas até quando não tenho conhecimento para tal. São quase cinco da tarde. Tomo um banho, que tira de mim a caminhada. Deito na cama até as oito. Passo as horas folheando cada livro, meio desorientado pela quantidade, sem saber por qual começar.


Essa é a última parte do relato sobre San Telmo. Se você não viu as outras partes, veja:

1 – https://deliriumscribens.wordpress.com/2017/12/05/notas-sobre-a-crise-da-chegada-e-na-quinta-choveu-parte-1-diario-de-viagem-2-3/

2 – https://deliriumscribens.wordpress.com/2018/01/09/na-quinta-choveu-parte-2-1-diario-de-viagem-2-4/

2.1 – https://deliriumscribens.wordpress.com/2018/01/14/na-quinta-choveu-parte-2-2-diario-de-viagem-13/

E o diário todo pode ser lido aqui: https://deliriumscribens.wordpress.com/category/zuihitsu-ba/

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Na quinta choveu – parte 2.2 (diário de viagem #13)

Na quinta, choveu – 2 – tarde, San Telmo (parte 2)

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Mesma coisa da outra vez, estava chovendo então não tirei a câmera da mochila. Essa foto veio do: buenosaires.travel

Chega um rapaz, parente de Jorge, talvez?, ou frequente da livraria ou funcionário. Jorge comenta que ele é músico. Toca um dueto de Lady Gaga com Tony Bennett e os três, Jorge, a colombiana e o recém-chegado, passam a falar da qualidade surpreendente da voz dela. Concordo mas não me junto à conversa. Perco o fio da meada e não consigo entender mais quase nada, as falas viram palavras soltas e não consigo formar as frases na minha cabeça. Sigo escolhendo os livros, faço somas e separações, conto o dinheiro no meu bolso na base do tato, formulo prioridades de leitura. É o que dá enfiar anos de busca literárias em seis dias. Muda o assunto, falam do terremoto no México. Um dos muitos acontecimentos durante minha ausência da realidade. Vi notícias nas televisões dos cafés, mas estava tão distante, parecia ver o acontecido por detrás de um véu. Lia notícias do Brasil pelo celular e pareciam ficção, coisa de sonho, como se ao voltar nada fosse continuar ali, no real. A colombiana pergunta pra qual lado fica a feira de artesanatos. Jorge explica. Escuto a explicação porque fará parte do meu destino.

Entendi. Outra coisa, ela diz, como eu faço pra voltar pra Palermo de ônibus?

De ônibus? Mas onde em Palermo?

Plaza Italia.

Olha, bem mais fácil é pegar a linha C, do metrô, seguindo reto pela Estados Unidos. Desce na 9 de Julio, que cruza com a linha D, que chega na Plaza Italia.

Esse é o caminho inverso ao que eu fiz pra chegar. Ela ouve até o fim, querendo interromper, então explica: Eu sei, é que hoje de manhã a linha estava fechada. Eu não sei por que, mas a porta estava fechada.

Ah, pode ser manutenção ou coisa assim. Você tá sabendo?, pergunta pro músico.

Não.

É, de ônibus é um caminho mais chato. Tem muitos pontos, então não se preocupa, é só que demora mais e tem que prestar atenção pra não descer ou cedo ou tarde demais.

Decido me meter – e, admito, saber o que tinha acontecido com a linha do metrô e sua condição atual me dá um orgulho besta –: Com licença, é da linha D que você precisa? Não sei o que aconteceu, mas acho que já voltou ao normal. Eu cheguei por ela, acredito que você já estivesse aqui por essa hora.

É mesmo? Bom, então é só pegar a linha C, isso?, e confirma o trajeto com Jorge, enquanto junta os livros comprados e pega seu guarda-chuva.

Noto que é quase meio-dia. Pergunto a Jorge o caminho pro Museu de Arte Moderna, depois que a colombiana foi embora, e ele diz que é uma linha reta até eu chegar em Defensa, então outra linha reta que dará de cara com um museu, não tem como errar. Reviso cada livro separado com cuidado e digo quais vou levar.

Todos esses?

Isso.

Muito bem. E com uma calculadora ele soma cada preço. No fim, arredonda o total e me dá um desconto de quase cem pesos. E não fala pra ninguém desse desconto, viu? É porque a compra foi boa, você é brasileiro, o que é raro de ver por aqui, então faço um preço melhor.

Combinado.

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E essa veio de: turismo.buenosaires.gob.ar

Oferece um saco plástico. Aceito mesmo que eu vá guardar os livros na mochila. Ainda chove, mais forte agora. Agradeço e vou embora. Pego o mapa pra garantir que estou indo na direção certa da linha reta. Se me confundo, acabo voltando pra estação. O vento bate e revira o guarda-chuva. Aponto o guarda-chuva pro vento e ele se conserta. Isso acontece algumas dezenas de vezes ao longo da caminhada. Lojas e mais lojas de quinquilharias fazem eu me lembrar de uma ou duas amigas no Brasil. Não há uma alma no piso plano cheio de poças de diferentes tamanhos onde se reúnem os artesãos na feira de domingo. De vez em quando, se aproxima das minhas costas alguém que caminha mais rápido que eu e eu abro espaço pra que passem. Escuto, em cada ultrapassagem: gracias. Leve ardor nos calcanhares indica feridas prestes a abrir. Passo debaixo de um viaduto. Estrondo dos carros sobre minha cabeça e as gotas d’água batendo no chão e no ferro das montagens da feira permanente. Filas de barracas como bancas de jornal, algumas com nome, várias pichadas, suas portas de ferro fechadas por causa da chuva, acredito. Mas Jorge não disse à Colombiana que a feira permanente fechava na chuva. Talvez seja só essa parte ou isto aqui não seja a feira e eu nunca venha a encontrar a tal. Aqui, em San Telmo, as calçadas são mais estreitas. O cenário é antiquado, traços de ruína estão por todas as quadras. Restaurantes tradicionais, cafés, vários e vários. Palermo e San Telmo nem parecem a mesma cidade. Outras classes sociais. San Telmo não carrega aquela pretensão, aquele ar europeu. É América do Sul pura, ou quase. Talvez não chegue a tanto. Talvez não exista América do Sul pura em Buenos Aires, como não existe em São Paulo. Talvez América do Sul pura nunca tenha existido, seja só uma ilusão. Quadras passam, dou de cara com o Museu de Arte Moderna. Sua entrada coberta por um grande cartaz anunciando a retrospectiva da obra de Liliana Maresca. Deixo o guarda-chuva na entrada, onde fica um guarda, ao lado do porta guarda-chuvas. O guarda etiqueta meu guarda-chuva e me dá um comprovante. Vou a recepção, pergunto o preço da entrada. Pago, mas a atendente me diz que antes devo deixar minha mochila no guarda volumes. Basta que eu bote uma moeda na porta. Não tenho moedas, então ela me dá uma. Um peso? Dez pesos? Não sei, algo entre vinte e cinco centavos e dois reais. Se tinha que devolver ou se ela estava só me mostrando, não me dando a moeda de presente, nunca vou saber. Pego a moeda e a levo até a porta, enquanto o guarda me acha tão perdido a ponto de avisar que tenho que escolher uma que esteja aberta. Deixo a moeda em seu lugar, tranco a porta e guardo a chave no bolso. Passo em torno de uma hora ou uma hora e meia no museu. Primeiro na parte dedicada a Liliana Maresca, seus desenhos e máscaras, esculturas e montagens, fotos, fotos dela, fotos dela nua, fotos das obras, fotos dela com as obras, fotos dela nua com as obras, manchetes de jornal, pedaços de biografia, vídeos em loop com entrevistas e aparições públicas. Toca um punk rock em espanhol. A exposição tem um lado punk. Penso em tirar fotos, mas deixei a câmera na mochila quando confundi o sinal proibindo fotos com flash com uma proibição de fotos em geral. Me dou conta da confusão quando vejo uma garota tirando fotos com o celular dos rascunhos da Maresca. Quero saber por que ela tira as fotos, se é estudante, se é fã. Sigo pra outra sala e pra outra. Fico tão admirado com a obra e personalidade dessa figura até minutos atrás desconhecida.

(E essas de: artsy.net / ramona.org.ar / buenosaires.gob.ar)

Vou pra outra exposição, no andar de cima, mas não senti nada por ela. Noto uma decoração estranha pela escadaria. Há uma estranha comoção em frente a uma das salas do segundo andar. Nada dentro dela, que se possa ver com clareza. Mantenho a distância, por não ter sido convidado a participar do seja lá o que for que venha a acontecer logo mais. Vejo o que parece uma fila de mesas de buffet e mais nada. Alguém que pode ser um garçom surge e entra na sala e some lá dentro. Sigo pra exposição do autor de nome desconhecido. Outro, como Liliana, que morreu cedo. Parte da obra dele envolve música eletrônica e jogos de luz, puro neon. As batidas são ouvidas somente como se vindas de muito longe, passos ecoando num corredor distante, marteladas pregando um prego na parede de um cômodo do apartamento vizinho. Bandeiras dos Estados Unidos, em neon, em tecido, em diversas cores, com títulos sugestivos: vermelho sangue, entre outros. Casal deita em meio a várias almofadas num canto da sala. Com fones nos ouvidos, assistem uma apresentação em loop numa televisão antiquada, daquelas estilo caixa, disposta no chão em uma ponta da sala. Completado o círculo pela sala, volto ao corredor e dou uma última olhada nos arredores pra ver se não há mais nada. Agora, pessoas bem vestidas ocupam a sala antes vazia. Um garçom próximo à porta carrega uma bandeja prateada com taças de espumantes. Considero a possibilidade de me infiltrar e só não faço por não ver comida. São quase duas da tarde e preciso almoçar. Pego de volta o guarda-chuva e a mochila e volto à rua. Ainda chove.

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E essa tava no site do MALBA. Mas tudo foi tirado do google imagens.

Na quinta, choveu – parte 2.1 (diário de viagem #12)

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El Rufián Melancólico – Uma das poucas fotos no diário que eu não tirei. Achei no google, veio do site welcomesantelmo.com

Na quinta, choveu – 2 – tarde, San Telmo (parte 1)

Seguro com uma mão o guarda-chuva aberto. A outra tenta abrir o mapa que um funcionário do hotel me deu. A feira diária não abre quando chove. A livraria de usados que queria conhecer deve abrir. Rua Bolívar, se não me engano, que cruza com a Independencia, onde estou, ou com a Estados Unidos ou com a Defensa, todas estas formando uma espécie de malha. É pra ser uma linha reta, quase. Me impressiona a facilidade que tive pra encontrar o lugar. As quadras, como sempre, enganam a vista de tão grandes. Sempre deixam a impressão de se ter andado demais ou de menos, dependendo do meu grau de cansaço, hoje moderado. Passei a noite passada procurando um lugar com cerveja de qualidade pra que eu esquecesse minhas tristezas. A cerveja não era ruim e o lugar estava vazio. Me sinto melhor que ontem. Veio aquela mesma sensação de estar flutuando pelas ruas, igual da outra vez. Uma sensação quase extracorpórea, como assistisse de fora meus movimentos. Duas versões de um corpo, distantes entre si, sem que uma se perdesse de vista da outra. El Rufián Melancolico, encontro. Como eu esperava, um recanto de tranquilidade mais parecido com uma ruína ocupada por uma espécie de ermitão literário. Num canto, uma mulher folheia um livro. Perto dela, um homem de certa idade parece estar fazendo nada. Estão entretidos o suficiente com o seja lá o que for pra que eu entre sem ser percebido. Passo pelas pilhas de livros. Absorvo o aroma típico desses lugares parados no tempo. Toca um jazz ambiente que pouco se esforça pra ser ouvido. Finalmente, passo pelo campo de visão do homem e ele me cumprimenta, chamando a atenção da mulher, e ela me cumprimenta também. Retorno os cumprimentos. Sinto como pudesse me esconder entre aquelas pilhas de velharias e raridades sem ser encontrado, como pudesse fazer daquela livraria uma morada. Ninguém pergunta quem eu sou ou o que faço ali. Paro na estante etiquetada Literatura e passo os olhos pelas lombadas. Dou de cara com Onetti, Jorge Amado, Benedetti. Mas é muito pra processar de uma vez. Fico sem ação. Pego uma cópia de El Astillero, folheio. Antiga, parece frágil. Essas antiguidades nunca são tão frágeis quanto parecem. Reparo, mas só depois de uns bons minutos de encarar lombadas como um ventilador de coluna quebrado, que nenhum dos livros na estante são de argentinos e, embora alguns livros sejam por poetas, nenhum é de poesia. Vou até o senhor e pergunto onde está a poesia. Ele aponta pra estante que ele e a mulher inconscientemente bloqueiam. Peço licença, eles pedem desculpa, abrem espaço, passo e mudo a posição da minha imitação de ventilador. Ainda carrego a cópia de El Astillero. Encontro a obra completa do Borges. Do Borges, só as poesias li em espanhol; os contos, só por tradução. Pego El Aleph. Meu hábito em livrarias, pegar os livros interessantes e os reunir em uma mão. Não quer dizer que vou comprar todos eles; é só uma forma de separar candidatos, uma pré-seleção acompanhada de cálculo mental. São muitas opções, não posso decidir sozinho. Ouvindo a conversa atrás de mim, descubro que o senhor é o dono do local e se chama Jorge, a mulher nunca diz o próprio nome, é uma colombiana e veio atrás de livros específicos para sua pesquisa, cujo tema desconheço. Quando a conversa para, decido começar a pedir indicações. Antes pergunto se tem algo de Nicanor Parra.

Não, dele não temos nada. Completou cento e dois anos, acredita? Um grande homem, tive a chance falar com ele quando estive no Chile, sei lá eu quantos anos atrás, ele diz, então se distrai nas memórias. Alguém quer um café? Vou buscar ali do lado.

Tanto eu quanto a colombiana recusamos. Ah, ok, pelo menos a viagem vai ser barata.

Volta com o café com leite na mão. É quando pergunto se há na literatura argentina algum autor o qual ele acredite não ter recebido o reconhecimento merecido. Ele me olha cheio de dúvidas. Explico que sou brasileiro e estou no meio de uma exploração pela literatura argentina.

Estudante de literatura?

Não, é só um hobby.

Certo, e se aproxima da estante de literatura argentina. Agachado pra alcançar a última prateleira da estante, diz: Borges, Bioy Casares, Arlt, Cortázar, Sabáto, esses você …?

Sim, conheço.

Bom, bom, já passou do básico, tá atrás de coisas mais desconhecidas mesmo.

Isso.

Então ele dá início a uma lista infinita de autores. Começa com Benito Lynch, um autor bastante tradicional, gauchesco, por isso não se fala dele esses dias, mas é ótimo. Histórias mais do interior, do campo, sabe? No Brasil … de onde você é?

Sul, Itajaí, mais pro litoral, perto de Florianópolis.

Sim, Sul, Florianópolis eu conheço. Existe uma proximidade entre o Sul do Brasil e a Argentina, culturalmente falando. Com esse tipo de história, você vai ver.

E empilhava os livros em minhas mãos enquanto falava dos autores e autoras, de quando eram, do que tratavam, o que esperar. Se te interessa teoria literária, se bem que você falou que não é estudante, mas não importa, esse é muito bom mesmo assim, Enrique Lynch.

Pega outros dois do Benito Lynch.

Engraçado, dois Lynch, Enrique e Benito, eu digo, enquanto Blue Velvet toca ao fundo, não sei quem interpreta a versão.

Tenho entre quinze e vinte livros empilhados sobre uma banqueta. Analiso superficialmente cada um. Lembro de algo e pergunto se ele tem o primeiro da Clarice Lispector, aviso que é uma autora brasileira.

Não, não temos livros em português.

Estou perguntando se tem traduzido, é um presente.

Ah, não, dela não tem nada. Sabe, gosto muito de literatura brasileira, mas vocês são muito egoístas com tradução, diz Jorge.

Mesmo? Vejo um monte de autores brasileiros por aqui.

Sim, mas, por exemplo, Guimarães Rosa. A obra dele é imensa, mas aqui se encontra um, dois livros traduzidos.

Traduziram Guimarães Rosa?

Mas claro.

Tô surpreso, parece um autor intraduzível.

Muito se perde, é verdade, mas isso vale pra todos.

É que a literatura do Rosa tem muito neologismo, são palavras que nem a maior parte dos brasileiros conhece, linguagem oral do sertão (e falo sertão em português, na esperança que ele entenda) transcrita por ele.

Certo. Não sei o que fizeram, mas conseguiram adaptar, acho. Deve ser o mesmo quando pegam um autor mais do interior da Argentina.

Tenho que ver, não sei se tem muitos deles traduzidos. Tem muitos autores argentinos, mas são os mais conhecidos, só, os clássicos ou os contemporâneos premiados ou na moda, não tanto literatura gauchesca. Do Cortázar e Borges tem quase tudo, César Aira, por exemplo, tem aparecido. Mas Alejandra Pizarnik, que tem uma linguagem menos traduzível, não tem nada … nada de poesia, só a novela … me esqueci o nome, e Benito Lynch só fui conhecer hoje aqui.

Entendi, achei que tivesse mais.

Aqui tem muito Paulo Coelho e Jorge Amado.

Sim, mas esses não contam. Jorge Amado foi, sim, um bom escritor, às vezes, e tem quase tudo dele aqui, se não tiver todos, não sei. Vinícius de Moraes também é muito traduzido. Um bom poeta. Sabe, e agora se dirige também à colombiana, que de vez em quando nos ouvia, anos e anos atrás, fui a um concerto do Astor Piazzola acompanhado de Vinícius de Moraes. Ele era letrista, sim?

Sim, da bossa nova.

É, aquilo foi um espetáculo, um momento da história.

***

Obs.: Essa parte do diário é mais curta porque esses textos não foram pensados como postagem de blog. O relato sobre quinta é bem longo e essa parte, sobre a tarde, ainda se estende por algumas páginas. Esse foi um bom ponto pra cortar, mas seria mais apropriado ler a coisa toda de uma vez.

Notas sobre a crise da chegada; e Na quinta, choveu – parte 1 (diário de viagem #11)

Isso aqui é parte do diário de viagem, que já engloba duas viagens e pode ser que nunca chegue ao fim. Leia as outras partes clicando em qualquer parte dessa frase para que tudo faça sentido. A ordem em que se lê o texto não importa.

Notas sobre a crise da chegada

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Fenômeno inventado com o objetivo de definir a melancolia que bate durante o período da chegada até a adaptação. Chamei, primeiro, de crise do segundo dia, mas isso depende da hora que se chega. Consideraria esse período de chegada o primeiro dia em que se acorda no destino, passada a loucura das chegadas e check-ins. Pode ser no segundo dia, quando se chega no fim da tarde; no primeiro, quando se chega de madrugada ou de manhã cedo. O que falta pra oficializar é pesquisa de campo. Até agora, não ouvi outros depoimentos similares. Mas o meu caso é repetido, tanto ano passado quanto neste ano. Pode estar relacionado à personalidade. Simpatizo com o gato, que quando muda de casa precisa ser trancado num quarto pra se adaptar à sua nova posição geográfica. Moro num apartamento de dois quartos há quatro anos. O segundo quarto está sempre desocupado. Noutro dia, decidi dormir nele e passei a noite em claro. Um estranho dentro da minha casa era como eu me sentia, um invasor. Precisei me convencer que o quarto ainda era meu, localizado dentro do meu apartamento. Os sons eram diferentes, contudo, e me sentia torto e incomodado. Isso pode estar relacionado à crise da chegada ou da adaptação, esse fator estranho da minha personalidade. Estava como um gato mal adaptado trancado num local novo. Explica também o tempo que levou pra minha readaptação em Itajaí – cidade a qual não posso dizer que estou adaptado.

Isso não significa que eu desgoste de viajar ou que escolheria evitar essa sensação se fosse possível. A desorientação é consequência e, apesar da tristeza envolvida, gosto dela, gosto que meu corpo ou mente sejam capazes de se reconhecer deslocados a ponto de tentarem me render à inércia. Eu não saberia explicar o prazer dessa condição. O que acontece, ao menos o que aconteceu comigo em minhas duas viagens sozinho, é, uma vez passada a euforia, surge discreto um ar de arrependimento. Não sei o que estou fazendo ali tão longe de casa, parece errado, e, no entanto, não quero voltar nem me arrependi de ter vindo. A causa da tristeza repentina não é a viagem em si.

Tem algo de inútil na viagem de turismo, potencializada quando se visita um mesmo país pela segunda vez. Um esforço de fuga não se sabe bem do quê. Realidade (querendo dizer: insatisfações do cotidiano, entre outras banalidades)? Bem, essa se faz notar a cada passo. Talvez disso venha a tristeza, da inescapabilidade. Nós chegamos, olhamos os arredores e tiramos fotos, tentamos nos esquecer um pouco de nós mesmos e ignorar nosso senso de ridículo, forjamos contato com nativos e outros turistas, alguns tentam se mesclar à cultura enquanto outros fazem questão de contrastar a si mesmos com camisetas de futebol de seu país natal ou falando bem alto seu próprio idioma; cada turista tem seu método preferido de viajar, mas nada disso importa. O turista nunca pode pertencer. O turista é figura estranha na imagem, o indivíduo sem papel definido naquela peça teatral chamada país estrangeiro. Enquanto os nativos têm suas famílias – independentemente do quão ligados sejam a elas, vieram de algum lugar, ao menos por enquanto assim requer a biologia –, têm seus empregos ou fontes de renda ou preocupações movidas pela falta destes, têm histórias ligadas a cada ponto da cidade, muito além dos turísticos, às praças e ruas e cafés, memórias e vínculos, objetivos e planos – raízes, por assim dizer.

Essa característica de avulso do turista traz liberdade. Principalmente quando se viaja sozinho, se soltando das suas próprias raízes durante a viagem. É um rompimento temporário, que uns veem como necessário, buscam por ele; outros mantêm um fino barbante preso a suas origens e anseiam pelo retorno, cheios de histórias e lembranças. Estava solto no quarto do hotel pela segunda vez e não sabia o que fazer pela segunda vez.

Na primeira vez, foi a caminhada de todo um dia pelos arredores da avenida Córdoba e depois pelo centro da cidade na busca de informação e de uma casa de câmbio onde trocar dinheiro. Então, no destino, ouvir que faltava um documento e ter que voltar, só pra me perder pelo centro outra vez. Foi descer no ponto errado, na estação Córdoba quando devia descer na Plaza Italia, me fazendo caminhar, já exausto dos vaivéns do dia, mais dezenove quadras. Todavia, foi chegar esfomeado e trêmulo de dor no hotel e descobrir que a duas quadras havia uma hamburgueria bem falada. Foi terminar a noite com três copos de cerveja até que boa e um hambúrguer bem preparado e, apesar do pouco dinheiro, ainda ter o suficiente da moeda local pra mais um dia, mesmo que de escassez. Foi deitar na cama e pegar no sono lá pra uma da manhã, acordar e sentir uma espécie de alívio por estar ali, não em casa.

Enumerei os atos pra buscar algo que ligue a primeira viagem à segunda, um fator em comum. O centro de Buenos Aires, a casa de câmbio, a bebida, o sono. A segunda vez teve a vantagem da experiência. Evitei as horas e horas de caminhada infrutífera, mas o centro de Buenos Aires é um terror. Uma explosão sensorial pontuada por sirenes humanas: câmbio câmbio câmbio. Estava no metrô, Alana cancelou nossa ida ao MALBA na mensagem. Pediram que ela trabalhasse até mais tarde. Troquei o dinheiro e voltei à Palermo. Sem ter o que fazer, só queria fugir do centro. Mesmo que quisesse conhecer o London City, onde Cortázar escreveu Os Prêmios, e que o London City ficasse, supostamente – não o vi esse ano, não o encontrei ano passado, é um café invisível, só pode –, ao lado da estação Florida, da qual descia as escadas – só queria fugir do centro. Quase três da tarde, parei num café e pedi um pedaço de torta de frango com champignon, porque ainda não tinha almoçado. Fiquei sentado à mesa, lendo, olhando as palavras na página, pensando o que estava fazendo ali de novo. Depois de horas deitado na cama do hotel querendo chorar, fui à Plaza Serrano e entrei no primeiro bar que vi, o mais vazio. Sentei e pedi uma cerveja. Depois outra. Na tevê passava um jogo de futebol entre Barcelona e Santos, time da minha cidade natal, o que não significa nada pra mim, mas achei uma coincidência engraçada. Outra cerveja e já não havia ninguém no bar e criei coragem pra pedir à garçonete que trocasse a música. Ela perguntou o que eu gosto e eu não soube responder. Aceitei quando ela chutou rock clássico e, uma ou duas faixas depois, começou a tocar Sugar Man e eu me senti bem o suficiente pra pedir outra cerveja, embora ela tenha pulado a faixa antes de ela chegar ao fim, justo quando eu estava preste a fazer audível minha voz que cantava junto. E, no hotel, dormi um sono interrompido mas agradável, e acordei feliz por estar ali.

Assim, como o gato que aos poucos sai da esquina do cômodo em que foi fechado e aos poucos se espalha pelo apartamento, estava adaptado. Um fantasma em cena, flutuando pelos lugares onde outros tinham fincadas suas raízes. Um fantasma sem um fiapo que o prendesse à sua terra; consciente da despedida, despreparado pras saudades.

 

***

Na quinta, choveu – 1 – manhã, hotel

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Escuto as gotas batendo na varanda, são quatro da manhã. Segunda vez que acordo esse horário, terceiro dia, segunda viagem. Fecho os olhos outra vez e, quando volto a abrir, me sinto mais descansado, o que me assusta. São quatro e meia, apesar de ter visto luz escapando pelas frestas da porta da varanda. Repito o processo em intervalos que variam entre quinze e trinta minutos até oito e meia. Levanto, ainda chove. Parece mais fraco agora. Vou precisar de um guarda-chuva. Entro no banheiro, esqueço outra vez que o interruptor está do lado de fora, saio pra acender a luz. A água do chuveiro ou me congela ou me ferve, o ajuste leva dez minutos e não demora a se desfazer. Esqueci de comprar um shampoo ontem. Sigo com o do sachê do hotel, que parece sumir na mão, fazer o quê? Desço as escadas e pergunto ao rapaz da recepção aonde se encontra um guarda-chuva ali por perto.

Vira a esquina, tem um mercado chinês aqui perto. É lá ou na Santa Fe.

Entendo a do mercado chinês quando vejo uma família chinesa tomando conta do local. Uma senhora chinesa no caixa, um rapaz chinês perto da entrada fazendo nada, moça chinesa nos corredores repondo itens ou verificando preços ou sei lá. Nos fundos do mercado, sem achar o guarda-chuva, pergunto ao senhor chinês parado por ali onde estão os guarda-chuvas e ele não sabe de cabeça. Volto com ele até o caixa e ele pergunta à senhora no caixa. A senhora aponta pra um dos corredores e diz que estão no fundo. Compro o mais barato. Como sempre, a quantidade de cafés me deixa indeciso. Vou ao Café Oso, não por estar no caminho ou por sua qualidade, mas porque sou de me entregar aos hábitos. Faz com que tenha que passar em frente ao hotel de novo, então penso em pegar meu cachimbo e ir à caça de umas tabacarias. Não, passo reto. Não como gesto de força de vontade ou resistência contra o fumo, é que está chovendo e vai ser desagradável fumar na rua. Sento à mesa. Peço o espresso duplo e as media lunas con jamón y queso – hábito – e espero. Um senhor, jornal aberto sobre a mesa, pede leite pro seu espresso. Muy fuerte, ele diz, com desgosto. Considero fazer um esforço pra me mesclar melhor no cenário, descobrir quais são os gostos pro café dos argentinos, como o café é preparado et cetera. É que não tenho o hábito de questionar o café que servem e gosto de café puro e forte. Vinhos e café, bebidas que preciso explorar melhor, compreender ao invés de aceitar, aqui ou no Brasil. Volto à programação, em direção a Santa Fe. Antes de pegar o metrô na linha da Plaza Italia, passo na feira de livros usados pra buscar o presente de Alana. Quero o primeiro de Clarice. Lembro que li Perto do coração selvagem em maio. Conversamos nessa época, era aniversário da mãe dela, ela disse. Perguntei quando era o aniversário de Alana, já que nunca tínhamos tocado nesse assunto, e avisei que o meu tinha acabado de passar. Julho, ela respondeu. Estou atrasado, mas não importa. Desde maio, decidi que o livro de Clarice seria o presente perfeito. Encontro Água viva, os contos completos, um livro de entrevistas, A hora da estrela, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, A cidade sitiada. Nada de Perto do coração selvagem. Pergunto em todas as cabines. Aproveito e pergunto por César Aira ou Mario Levrero. Aira, que parecia onipresente ano passado mas sumiu da feira esse ano. Encontro La banda del ciempiés, do Levrero, compro. Me preocupa não achar o que quero de Clarice. Estou certo de o ter visto ano passado, traduzido pro espanhol. Não verei Alana hoje, ela tem aulas de teatro ou talvez ainda esteja indisposta. Tenho mais uns dias, provavelmente. Pego o metrô e vou até a 9 de Julio, pegar a linha C até Independencia. Método mais eficiente pra chegar em San Telmo partindo de onde parti? Prefiro acreditar que sim.

 

 

Conclusões, bobagens (diário de viagem #10)

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Conclusões (1)

Não estou em nada mais esperto.

Não é meu espanhol que é ruim, é o barulho ao redor.

É difícil decidir quem agradar: se o sono, se a fome, se a libido, se os outros, se o turista empolgado, se

Eu não entra na equação. Eu não existe.

Os chuveiros das instalações do inferno se inspiram nos chuveiros portenhos.

Todos estão na merda.

Não é o ridículo que decai com o tempo, é o pretensioso. O ridículo só pode ascender.

Se não dá pra ficar, não vale a pena vir.

A ceia de ano novo judeu pode incapacitar uma pessoa por quatro dias.

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Bobagens

Foi um erro voltar. Esta é a viagem da melancolia. Dia dois, seis da tarde. Deito na cama do hotel querendo chorar como uma criança. As lágrimas saem por acúmulo, somente por não poderem mais ficar presas onde costumam ficar. Se não dá pra ficar, não vale a pena vir.

Como o amor tá te tratando no Brasil?, Alana me perguntou ontem. Estávamos sentados num dos n pubs de cerveja artesanal entre Palermo e Villa Crespo, bebendo (eu uma IPA, ela uma Honey) e comendo uma batata preparada à moda judia (de acordo com Alana), cujo nome eu não lembro – mais tarde tenho que pesquisar. Nisso, durante um silêncio desconfortável, apontei:

Uma coisa eu não gosto em mesas assim, que botam a gente uma de frente pra outra: quero muito te beijar agora, mas você tá longe.

Foi quando ela fez a pergunta.

No Brasil? Mal. Bem mal. Como ele tem te tratado aqui?

Idem.

Não entramos em detalhes. Tímidos, uma atriz e um pretenso escritor, é ela que fica quieta enquanto eu me constranjo – duas vezes: no real e na representação. Aproximei a cadeira, brincamos um pouco sobre minha sutileza, então revivemos o ano passado. Mas no ano passado tudo era surpresa e novidade. Esse ano estou visitando uma vida que tive por dez dias e que larguei por falta de opção. E, mesmo a querendo de vez, sei que vou largar outra vez em cinco dias. Não aguento. Íamos ao MALBA hoje, mas ela cancelou, tinha que trabalhar até mais tarde. E à noite ela comemora o ano novo judeu com a família. E amanhã ela tem aulas de teatro. Amanhã vou flanar por Flores ou San Telmo, talvez vá ao MALBA sozinho. Quero passar pelo museu Xul Solar. Tudo aqui continua caro. Tenho que comer agora à noite, mas só vou pra poder dizer que não passei a noite no hotel. Quero beber qualquer coisa.

O clichê sugere que chorar numa limusine é melhor que rir no ônibus. Meu problema é querer chorar em Buenos Aires, mas ser obrigado a rir de uma piada sem graça em Itajaí. Vou seguir por aí, aguardando notícias dela, mas a verdade é que só quero que ela fique triste comigo. Quero chorar com ela a madrugada inteira na cama do hotel. Porque segunda está chegando. O tempo flui como as lágrimas tentam fluir.

 

O retorno: carapaças abandonadas (Diário de viagem #9)

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Ó, Buenos Aires, você não pediu mas estou voltando. Antes mesmo de acabar minha tentativa de comprimir dez dias em dezenas de páginas estou voltando. Não imaginava que voltaria antes de terminar de escrever sobre a primeira viagem, mas deveria ter imaginado. Parte de mim se demorou na escrita daqueles dias como desculpa para os revisitar de tanto em tanto tempo na memória, outra parte não queria revisitar os detalhes para não sofrer de saudades. Havia também a insatisfação com a realidade geográfica, saber que aquilo sobre que eu escrevia estava lá e não aqui e que eu queria estar lá. Itajaí que me perdoe, mas já não a suporto. Meu mal-hábito de criar raízes com facilidade, mas me cansar delas com o tempo e as querer romper em um golpe. Não é tão fácil e a culpa não é da terra onde se fincaram as raízes, sim do vegetal que se deixou fincar. Nada disso importa, pois estou voltando. Transbordo desses perigos chamados expectativa e arrogância (só porque passei dez dias por lá acho que sei tudo do local e não tem como algo dar errado – isso deixando de lado o fato de que algo já deu errado, o plano original era ir primeiro à Montevidéu, depois à Buenos Aires, mas complicações e impossibilidades de parcelar passagens caras de avião me impediram de realizar o plano). É que os medos iniciais já se foram. Meio que sei o que fazer, para onde ir, o que evitar. Até meu espanhol creio que esteja melhor. Ainda não decidi quem vai ser meu companheiro de viagem. Ano passado foi Elvira Vigna. Não quero relacionar a morte dela com eu a ter levado comigo em minha viagem, seria excesso de arrogância, mas, só pra garantir, pretendo levar um morto. De João Gilberto Noll, tenho Lorde, que parece uma boa por ser sobre uma viagem (à Londres). Queria levar algo em espanhol pra já ir me inserindo na língua; talvez um Cortázar ou um Borges, apesar do clichê, ou Alejandra Pizarnik, de quem tenho a obra reunida, mas é o El Cerebro Musical, do César Aira – um vivo –, que me atrai. Vou decidir na hora, como todo o resto. É estranho que tenha essa impressão de decidir tudo na hora, quando meu cérebro, quando decide não me deixar dormir, me força a rever momentos passados, tenho a impressão que a maior parte da minha vida é formada de planejamentos – em maioria não realizados –, ainda assim acredito que não planejei nada. O momento, a coisa em si, passa sem deixar rastros. A primeira viagem não parece tão distante, mas não é nem de perto tão palpável quanto os dias de ansiedade e planejamento que passaram antes dela. Claro, a viagem foi dez dias, o resto foi… o resto, talvez mais de cinco anos, já que a viagem à Buenos Aires na verdade foi uma mudança de planos de uma viagem ao Rio de Janeiro, que foi uma mudança de planos de uma viagem à Praga. Isso explica muito, mas não a impressão de que a vida é um grande plano não realizado e os momentos em si, os que compõem a tal vida, são só ventania. Deixando de lado essas bobagens existenciais e voltando à viagem, preciso voltar ao Vuela el Pez, o bar que ainda não acredito que exista de verdade. O MALBA estará nos últimos dias de uma exposição da Diane Arbus, o que eu preciso ver. E quero buscar novamente o túmulo do Macedonio Fernandez, o que é uma tolice, afinal, o que eu espero?, um bate-papo com o fantasma? (Se houver coisa tal como vida espectral após a morte, e se por acaso eu me torne um fantasma célebre, vou fazer um favor a todos que visitem minha lápide e estarei presente para conversar. Esse é o objetivo da coisa toda, não?, das cerimônias, dos símbolos, das lembranças físicas. Visitem minha lápide e, se houver coisas tal como fantasmas e assombrações e espíritos e vida após a morte, eu estarei lá pelo menos por cinco anos. Do contrário, é tudo mentira, a morte é o fim e não há nada além. Pronto, fica aqui a promessa: vou resolver a grande questão que perturba a humanidade, exceto que eu não me torne um fantasma célebre, mas isso não cabe a mim, cabe?) Não comi carne na minha primeira vinda, o que é inacreditável. Alana prometeu me levar a uma parrilla. (Nesse[s] diário[s] estão contidos dois pseudônimos, Ana e Alana, e só agora reparei o quanto são parecidos. Um foi decidido pela pessoa por trás dele, o outro foi decidido por Cortázar em um dos contos de Queremos tanto a Glenda, mas não lembro qual, algo a ver com gatos, e a pessoa por trás dele o aprovou. Nenhum significado oculto, só coincidência.) Ainda estou surpreso que ela queira me ver de novo. Gente mais próxima que ela, que vive na mesma cidade, preferiu sumir depois de mais ou menos o mesmo tempo de contato. A viagem fez aniversário, nem acredito. Noutro dia, recebi um e-mail de um amigo do colegial. Fiquei sabendo em agosto desse e-mail que chegou em maio. Tinha resolvido ignorar até ler a frase: faz dez anos que a gente não se fala. Então, não responder deixou de ser uma decisão. Eu não poderia mais responder depois disso – ou ainda não fui capaz –, porque eu não sou o destinatário desse e-mail. O amigo dele no colegial, quando tinham, os dois, entre quinze e dezessete anos, era pra quem a mensagem tinha sido destinada. Ele não existe mais. Tentei canalizar aquela versão do meu eu; o processo trouxe à tona algumas memórias, mas a pessoa presente nelas, o amigo, está morta ou assim parece. É incrível como o tempo passa, ou não passa mas passam os momentos. Consigo me levar de volta para aquelas horas passadas com Alana no bar que encontrei por acidente com mais facilidade do que consigo me levar à escola onde fiz o ensino médio com as mesmas pessoas por três anos passando por momentos então considerados até que íntimos. Talvez um dia o eu que esteve em Buenos Aires ou o eu que passou quase dez anos em Itajaí esteja morto, ou os dois. Assim deixamos nossas carapaças pelos recantos desse sonho longo e estranho, entrecortado por imagens de sono, que chamamos de vigília.

Sobre peixes voadores (Diário de viagem #8)

Contexto e cenário

Um bar sobre o qual li num blog, uma postagem em que artistas portenhos falam dos locais da cidade em que se pode ouvir música, tomar café, apreciar cultura, longe dos turistas que tomaram e enfeiaram parte da cidade e a deixaram mais caótica. Escolhi esse, dos lugares, porque ficava na avenida do meu hotel. A imensa Avenida Córdoba, em que larguei, em diversas das suas quadras, pedaços das minhas pernas, que se soltaram durante meus flanares. Parecia um bar de sonho. Tocavam bandas locais, permitiam que elas tocassem músicas próprias. Não tinha placa de identificação em canto nenhum, era só uma porta numa casa antiga, que levava a uma escadaria, que levava ao bar. Vuela el Pez, seu nome. Deve haver um motivo pra isso, o nome e as outras características. Lembro que comentei com amigos, muito antes de saber da existência dum lugar desses, que, se eu tivesse fontes infinitas de dinheiro, abriria um bar de jazz e outros estilos, sem placa, sem anúncios, onde bandas poderiam tocar o que quisessem pro público que as quisesse ouvir. Lá estava uma versão dele, real, não minha, mas pulsante. Sexta-feira, a viagem, até então, um tanto tediosa. A cidade era um espetáculo, os museus e livrarias e cafés, cada um que conhecia, me embasbacavam toda a vez. Mas faltava algo, algo que me fizesse querer ficar, me fizesse querer voltar sempre.  Além do mais, a melancolia da solidão estrangeira estava perdendo o charme e ficando triste. Procurava alguma coisa, queria alguma coisa, mas não sabia o que era essa coisa ou por que eu a queria e a procurava.

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deslumbrado e no escuro, lidando com pernas que não aguentam mais o corpo. as paredes expõem versos de Alejandra Pizarnik e quadros cheios de cor pintados por gente desconhecida, enfeites que se escondem quando as luzes se apagam. a banda toca aquele rock que as bandas que querem ser consideradas boas tocam,
meio jazz
meio rock
meio reggae
meio tudo
meio nada
pausas imensas instrumentais
vocais galáticos poetizando coisas vagas
aquele velho som original
que todas as bandas novas imitam,
iluminada, detrás, por luzes de natal brancas. o remédio é uma cerveja roja litrão tão fraca que mal sai da garrafa e não sobe à cabeça por nada. cerveja, a uma coisa sobre que aquele povo parece não entender coisa alguma. tratando cerveja por cor, sem cabimento. mas que tipo é?
não sei. tem da roja, da negra, da rubia. la buena, la mala y la fea.
vá da roja, que seja, ela me dá a garrafa e um copo de plástico, volto à mesa com uma coisa em cada mão.

garota loira vem e pede as cadeiras desocupadas da minha mesa para que ela e sua amiga se juntem a um grupo de amigos dela.
estou falando com essa cadeira, mas, se você precisa, vá em frente.
frase tão complicada quando dita por um estrangeiro, ela tem de esperar pra ver se significa o que acha que significa e somente então se deixa bufar um riso.
minha mesa é tão frequentada, gente que vai e que vem e que puxa papo como se me conhecesse, só porque estou sozinho e, fora a garrafa e o copo, não tem nada sobre a mesa.
é que aqui se compartilha, diz um cara,
mas eu não recusei, não precisa justificar. estou tão mas tão só que qualquer companhia faz bem. quase peço pra que usem a minha mesa e não a de outro. e a ocupam com copos, uma pizza caseira, mais copos.
de onde você é?, moça do novo grupo que ocupa meu espaço pergunta
e quase conto minha vida pra ela. não falava havia doze horas, mais que isso. quão rápido passam os minutos do álcool. falo da distância que tive que percorrer pelas ruas portenhas, culpa minha por ter me perdido, enquanto ela se esforça pra superar meu sotaque e a música alta e pra entender o que eu digo. como a cidade tá te tratando é uma pergunta que se repete.
melhor do que eu esperava.
mas sempre espero ser escorraçado, quiçá porque me escorraçaria.

cidade nova, personalidade nova. larguei a insociabilidade no aeroporto. amo a tudo e a todos e a sensação não me queima por dentro tanto assim. falo com estranhos. todos são estranhos. sempre preferi estranhos aos conhecidos. estranhos só podem surpreender. vou atrás de outra cerveja, mas antes trafego o caminho enevoado que leva ao banheiro.
a moça do balcão mal me escuta.
meu português tampouco é bom, ela diz e ri.
a gente se vira como pode com o que tem,
eu digo enquanto pago pelo chope que pedi, e volto à mesa. a garota de antes me vê e me devolve minha cadeira. preciso ser cavalheiro, é meu momento james bond. tão raros esses momentos.
por favor, eu insisto, eu digo. (there’s a man who leads a life of danger…)
não vou tirar sua cadeira, você tá mais cansado que eu, vem, ela diz.
insisto mais.
ela insiste mais que eu.
pego a cadeira de volta porque tá ficando chato (secret agent man secret…) e ela e seu grupo encontram uma mesa própria e me largam à solidão e à música. viva à música, minha mão acompanha o ritmo estapeando de leve a mesa. olho pra garota à mesa na frente da minha.
aquele bar, aquela porta
sem placas no meio
da avenida que leva a uma
escadaria escura feito arma-
dilha de filme de gângster
que leva à arte não às
armas,
símbolo, lição pra vida exemplo duma hipótese de humanidade melhorada?
onde demos errado que perdemos
a sensibilidade pr’essas coisas?
a garota não me olha de volta, acho que vai embora uns minutos depois, uma hora depois, minutos escorregadios de cerveja. quantas músicas essa banda já tocou e por que já preciso ir ao banheiro de novo? quantas vezes me apaixonei desde que entrei aqui? me pergunto se ninguém mais vai aparecer pelo resto da noite, se melhor não seria ir embora de volta ao hotel e evitar a ressaca que debilitaria o dia seguinte.
não tenho planos pra sábado.
nem domingo, nem dia nenhum
até minha volta.
deveria ter me planejado melhor.

na semana antes dessa estava bebendo e ouvindo música num outro lugar, no meu país. sempre um pouco diferente. ali ou em outra esquina, é outro mundo sempre, próximo ou distante. aqui noto uma ausência geral de adornos, esta é a diferença. nada certo ou errado, só diferente. e os dentes. dentista portenho morre de fome. naquela noite, um dia antes da partida, tomava da boa cerveja brasileira, da qual sentia saudade por não ainda ter encontrado da boa cerveja argentina, e nem ligava, tão bêbado tinha ficado sem perceber, que, depois da apresentação de algumas bandas novas até que interessantes, quem começou a tocar era raimundos. pelo menos esse risco eu não corria na argentina, mesmo que, lá, o brasil me perseguisse a cada esquina. imagino a banda no palco começando um improviso jazz fusion de desafinado, um return to forever encontra joão gilberto encontra minha solidão exagerada. não acontece.

deixo meu copo meio vazio na mesa e vou ao banheiro de novo. a cada ida o percurso fica mais longo. e toda a volta traz uma surpresa. minha mesa ocupada por três garotas. paro ao lado da mesa, não quero interromper, mas peço licença e estico o braço pra alcançar meu copo no meio delas.
me desculpa, não tinha ninguém só o copo, achei que
não tem problema, fica tranquila, a mesa é sua.
de onde você é?
brasil.
ele é brasileiro, ela diz pras amigas, nem de perto tão interessadas.
trocas de olhares generalizados e meneios de cabeça e goles nos copos de campari.
meu nome é ala…
a-la-o que?
a-la-na.
alana.
isso. sou alana, ela é … e ela é …
constranjo sem querer a terceira, não entendo o nome dela. mas rimos, todos, elas da minha linguagem limitadíssima e esforços pra compreender e ser compreendido, eu sem qualquer motivo. me esquecerei dos nomes das outras duas, mas o de alana permanece. ela, quando me distraio e acho que nossa interação acabou, me cerca de perguntas:
o que te traz a buenos aires?
um pouco de tudo. a cultura principalmente. gosto muito de literatura argentina.
quem, por exemplo?
cortázar
sim. borges?
sim, borges, grande borges, alejandra pizarnik tem uns poemas dela na parede aqui
ela eu não conheço bem.
espera iluminar um pouco, aí você lê e vê o que acha. césar aira, também gosto, e tem um monte que tô descobrindo, roberto arlt.
o que você tem feito por aqui?
me perdi
hahaha
e muito o dia todo.
é uma cidade bem grande.
mas achei o malba
amo esse museu.
fui lá hoje.
hoje?
essa tarde.
o que achou?
um espetáculo. achei vários artistas brasileiros por lá.
sim, tem muita coisa do brasil aqui.
muita. conhece alguma coisa de lá?
amo paulo freire, de paixão. conhece?
um pouco.
e ela fala de pedagogia, em que ela se formou, que trabalha de niñera (a mágica das palavras, aqui, por niñera, relaciono a ninhos, o que não faz o mínimo sentido. levo um tempo pra lembrar de niños, mas mesmo aí não sei se ela trabalha de professora, se numa creche, num orfanato, e prefiro não perguntar pra não exigir dela uma explicação muito complicada pros meus ouvidos debilitados de bebum estrangeiro. noutro dia lia um poema com o verbo alejar e pensava que a poeta se machucou e estava exagerando dizendo que foi aleijada por alguma coisa, só muito depois lembro que lejos é longe e alejar, logo, é distanciar. que tipo é um cara, não um tipo, uma maneira/forma/jeito. como é fácil falar mal o espanhol e achar que se sabe muito) e leu quase tudo do freire e eu falo do quanto ele é combatido por gente burra no brasil enquanto a banda toca e nós mal nos entendemos. ela fala que também estuda teatro, quer ser ou é atriz, mas era niñera dois minutos antes. relaciono os dois sem saber o que é o um direito. eu ainda tenho cerveja no copo a essa altura? ela está de pé em minha frente? sentada ainda?
o que mais você quer fazer aqui?
ainda tenho uns lugares pra conhecer. queria ir no teatro e no cinema, uma vez pelo menos.
teatro… amanhã eu vou estar en La Noche de los Teatros, sabe o que é?
nem ideia.
ela explica do festival de teatro, grátis, no auditório de uma praça.
várias peças.
você vai atuar?
não, não. só assistir. ainda é cedo pra mim, um palco desse tamanho imagina.
qual a praça?
um minuto
ela rasga um papel de dentro da bolsa, escreve o nome da praça, o nome e o número dela.
aqui. e escreve aqui – outro pedaço de papel – seu número e nome pra gente se falar. mas seu número é brasileiro. tem facebook?
não.
e agora?
whatsapp?
tenho, pode ser.
escrevo. espero que certo. que nenhum número ou letra sobreponha outro.
amanhã você não vai se apresentar, mas e outro dia? é possível te ver num palco?
não tão cedo. pouco tempo atrás fiz stand-up, sabe o que é?
comédia stand-up?
isso.
uau.
é mais um hobby, o que me interessa mesmo é o teatro.
certo.
bailás?
no. pero puedo moverme alrededor de ti en cuanto tu bailas.
hay una primera vez para todo, ven..
e dançamos? ela dança. eu não sei o que estou fazendo. não só no que se refere à dança. flutuo por aí, flutuei por buenos aires e vim parar no vuela el pez até parar debaixo do pé de alana. ou meu pé sobre o dela. não, não foi o pé dela que eu pisei, estou pensando num caso no brasil anos atrás em que me vi numa situação parecida. várias vezes, quase toda vez que me vejo com uma desconhecida num bar ou festa ou local em que se bebe e há música danço sem saber que dancei. longe de ser primeira vez. qualquer coisa entre mim e alana, longe da primeira vez, mas primeira de qualquer forma. a primeira vez portenha, as segundas primeiras vezes da vida, sempre diferente. primeiras vezes portenhas, um bom título pra isso, lembra aguafuertes porteñas, quase. ou não. a amiga de alana, a terceira, a do nome curioso, oferece a bebida no copo dela. é campari. bebo e a doçura choca minha língua e minha garganta até o estômago.
dulce, digo.
sí, es bastante dulce.
volto pra alana ou ela me puxa de volta.
vamos lá fora tomar um ar? aqui tá meio
ok.
abafado.
vamos pro lado de fora da sala, pra outra sala, a que leva aos banheiros, onde as pessoas se reúnem em mesas pra fumar ou respirar o ar puro da fumaça. está mais claro, posso ver direito o rosto dela, mas não darei a ela alguma forma concreta até domingo, o dia sóbrio. vamos prum canto. hesito sem querer, o algo sob controle que em mim resta.
tem certeza?
algum problema?
nenhum. mas eu não vou ficar aqui, enquanto nossos rostos lentos caem um sobre o outro em confortável colisão.
nossas línguas se apresentam. meus sentidos tomados pela cerveja. ela parece bem. a multidão ao redor some aos poucos. não estão nas minhas lembranças. antes parecia tão cheio.
quando você volta?
ela pergunta, eu diria quanto tempo havia passado entre o beijo e a pergunta se tempo ainda existisse no cenário.
quarta.
quarta temos tempo.
um pouco.
aqui os acontecimentos se bagunçam. entre beijos e balangares arrítmicos, ela me rodopia, eu a rodopio,
(ela se afasta e seus lábios se movem. não escuto. ela se aproxima do meu ouvido. escuto, mas não entendo. ela repete. ela repete. outra vez.) eu desisto:
não te entendi, me desculpa mesmo, mas aceito.
como?
não sei o que você disse, mas aceito.
você estuda improviso?
como?
improviso?
improviso?, não, nunca fiz nada relacionado a atuar, por quê?
ah, é que aceitar sem entender é uma das bases desse estilo, sabe?, pra dar continuidade as cenas, entende?
entendo, mas não, nunca fiz. deveria fazer?
e trocamos ideias sobre coisas da vida, indo do teatro e atuação à
música: me pergunta se sei que é reggaeton, digo que não, só sei do reggae sem ton; pergunta se gosto de axé, digo que não sei qual axé chega por lá, mas no brasil é comercial demais e onipresente, não consigo ouvir.
filme: pergunto se ela viu lost in translation (encontros e desencontros ou como se chame em espanhol, não saberia traduzir) porque desde antes da viagem o filme não me sai da cabeça, ela diz que não, nunca ouviu falar, mas vai pesquisar depois. não acho que desde então tenha visto, o título deve ser outro.
fala de reggaeton porque pode ser que algo parecido com isso tenha começado a tocar. surge uma terceira banda. não consigo ver de onde estou. nossos beijos ganham tom de despedida.
diz que não mora tão perto dali e precisa da carona da amiga. digo que o meu hotel é perto. não lembro se a convido pra vir comigo, se precisa de convite, se ela percebe o convite. a despedida se adia. nos aproximamos e afastamos várias vezes e já não sei o que se passa se é que soube antes. as pessoas ao redor começaram a surgir de novo, como se nunca tivessem sumido, uma por uma. tenho a sensação de que estou sendo observado.
acho que vou voltar lá pras minhas amigas, mas a gente se vê.
sim, eu te ligo amanhã.
parte de mim tem vontade de voltar à mesa, pegar outra cerveja. quando foi que decidi ir embora? por que nos despedimos? outra parte não tinha disposição de continuar a noite. mas, antes de concluir os pensamentos, estou no meio da escadaria, chegando à rua, tonto, digerindo acontecidos, tentando quebrar o recorde de imagens mentais que um cérebro é capaz de formar num mesmo segundo. volto pro hotel enquanto gente acaba de sair de casa. meu celular diz que passam das três. grupo de moças envelopadas em vestidos pretos pega um ônibus, senhora passeia com um imenso golden retriever. reparo que estou distraído de madrugada numa rua qualquer de uma metrópole estrangeiro. rápido, tomo jeito e volto a observar os arredores, se alguém me segue ou me olha de forma suspeita, olho os outros com suspeita. bebida também dá paranoia e tesão inconcluso. chego ao hotel são e salvo, até consigo encaixar a chave na porta do prédio e subir as escadas e acertar a chave na porta do quarto, tudo na primeira tentativa, sinal de que não bebi o suficiente.

no quarto, tiro a roupa e me dou conta, antes de jogar em mim os trapos que uso pra dormir, do insistente voluntário pronto pra ação cancelada ainda há pouco. peço desculpas, digo que nada vai acontecer essa noite, mas não basta pro pobre endiabrado.
deveria de haver uma lei contra ti.
espera quer dizer que há?, pois bem.
não há outra saída que não enrolar um tanto de papel higiênico e achar, no celular, qualquer fantástica encenação que apazigue os caprichos deste velho e mimado mestre, deus demente, duas partes dionísio uma parte nero. deito nu na cama e encontro qualquer pose que ajeite os envolvidos de forma confortável o suficiente. me corre à mente a ideia de pensar em alana, mas não não nunca sujeitar sequer representação imaginária dela ao que livre percorre minhas circunvoluções nos momentos de alívio solitário nunca pior dos crimes. horrível o ser humano que mistura suas fantasias individuais do plano das ideias com as suas fantasias de carne e osso. que história ridícula é essa de que um vídeo não basta, de que este não satisfaz e quer outro em seu lugar? dez minutos atrás estava desesperado. que seja. cumpro com as demandas de sua majestade até que ela dispara e então escorre e então pinga pela superfície do papel. o dobro e o jogo no lixo. visto meus trapos e me deito na cama.

nove da manhã e minha cabeça acorda aos berros só por causa das tantas cervejas. peças do quebra-cabeça, por incrível que pareça, se perderam pelas poucas horas em que adormeci. o número de alana, encontro no bolso do casaco de ontem. tento sem sucesso incluir no meu celular. preciso de café, desvendo o mistério do funcionamento desses aparatos inúteis mais tarde. vou lavar a desgraça da minha carapaça. então café, então um livro e descobrir onde fica a tal da praça qual? e o número, não posso esquecer o número.