O retorno: carapaças abandonadas (Diário de viagem #2.1)

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Ó, Buenos Aires, você não pediu mas estou voltando. Antes mesmo de acabar minha tentativa de comprimir dez dias em dezenas de páginas estou voltando. Não imaginava que voltaria antes de terminar de escrever sobre a primeira viagem, mas deveria ter imaginado. Parte de mim se demorou na escrita daqueles dias como desculpa para os revisitar de tanto em tanto tempo na memória, outra parte não queria revisitar os detalhes para não sofrer de saudades. Havia também a insatisfação com a realidade geográfica, saber que aquilo sobre que eu escrevia estava lá e não aqui e que eu queria estar lá. Itajaí que me perdoe, mas já não a suporto. Meu mal-hábito de criar raízes com facilidade, mas me cansar delas com o tempo e as querer romper em um golpe. Não é tão fácil e a culpa não é da terra onde se fincaram as raízes, sim do vegetal que se deixou fincar. Nada disso importa, pois estou voltando. Transbordo desses perigos chamados expectativa e arrogância (só porque passei dez dias por lá acho que sei tudo do local e não tem como algo dar errado – isso deixando de lado o fato de que algo já deu errado, o plano original era ir primeiro à Montevidéu, depois à Buenos Aires, mas complicações e impossibilidades de parcelar passagens caras de avião me impediram de realizar o plano). É que os medos iniciais já se foram. Meio que sei o que fazer, para onde ir, o que evitar. Até meu espanhol creio que esteja melhor. Ainda não decidi quem vai ser meu companheiro de viagem. Ano passado foi Elvira Vigna. Não quero relacionar a morte dela com eu a ter levado comigo em minha viagem, seria excesso de arrogância, mas, só pra garantir, pretendo levar um morto. De João Gilberto Noll, tenho Lorde, que parece uma boa por ser sobre uma viagem (à Londres). Queria levar algo em espanhol pra já ir me inserindo na língua; talvez um Cortázar ou um Borges, apesar do clichê, ou Alejandra Pizarnik, de quem tenho a obra reunida, mas é o El Cerebro Musical, do César Aira – um vivo –, que me atrai. Vou decidir na hora, como todo o resto. É estranho que tenha essa impressão de decidir tudo na hora, quando meu cérebro, quando decide não me deixar dormir, me força a rever momentos passados, tenho a impressão que a maior parte da minha vida é formada de planejamentos – em maioria não realizados –, ainda assim acredito que não planejei nada. O momento, a coisa em si, passa sem deixar rastros. A primeira viagem não parece tão distante, mas não é nem de perto tão palpável quanto os dias de ansiedade e planejamento que passaram antes dela. Claro, a viagem foi dez dias, o resto foi… o resto, talvez mais de cinco anos, já que a viagem à Buenos Aires na verdade foi uma mudança de planos de uma viagem ao Rio de Janeiro, que foi uma mudança de planos de uma viagem à Praga. Isso explica muito, mas não a impressão de que a vida é um grande plano não realizado e os momentos em si, os que compõem a tal vida, são só ventania. Deixando de lado essas bobagens existenciais e voltando à viagem, preciso voltar ao Vuela el Pez, o bar que ainda não acredito que exista de verdade. O MALBA estará nos últimos dias de uma exposição da Diane Arbus, o que eu preciso ver. E quero buscar novamente o túmulo do Macedonio Fernandez, o que é uma tolice, afinal, o que eu espero?, um bate-papo com o fantasma? (Se houver coisa tal como vida espectral após a morte, e se por acaso eu me torne um fantasma célebre, vou fazer um favor a todos que visitem minha lápide e estarei presente para conversar. Esse é o objetivo da coisa toda, não?, das cerimônias, dos símbolos, das lembranças físicas. Visitem minha lápide e, se houver coisas tal como fantasmas e assombrações e espíritos e vida após a morte, eu estarei lá pelo menos por cinco anos. Do contrário, é tudo mentira, a morte é o fim e não há nada além. Pronto, fica aqui a promessa: vou resolver a grande questão que perturba a humanidade, exceto que eu não me torne um fantasma célebre, mas isso não cabe a mim, cabe?) Não comi carne na minha primeira vinda, o que é inacreditável. Alana prometeu me levar a uma parrilla. (Nesse[s] diário[s] estão contidos dois pseudônimos, Ana e Alana, e só agora reparei o quanto são parecidos. Um foi decidido pela pessoa por trás dele, o outro foi decidido por Cortázar em um dos contos de Queremos tanto a Glenda, mas não lembro qual, algo a ver com gatos, e a pessoa por trás dele o aprovou. Nenhum significado oculto, só coincidência.) Ainda estou surpreso que ela queira me ver de novo. Gente mais próxima que ela, que vive na mesma cidade, preferiu sumir depois de mais ou menos o mesmo tempo de contato. A viagem fez aniversário, nem acredito. Noutro dia, recebi um e-mail de um amigo do colegial. Fiquei sabendo em agosto desse e-mail que chegou em maio. Tinha resolvido ignorar até ler a frase: faz dez anos que a gente não se fala. Então, não responder deixou de ser uma decisão. Eu não poderia mais responder depois disso – ou ainda não fui capaz –, porque eu não sou o destinatário desse e-mail. O amigo dele no colegial, quando tinham, os dois, entre quinze e dezessete anos, era pra quem a mensagem tinha sido destinada. Ele não existe mais. Tentei canalizar aquela versão do meu eu; o processo trouxe à tona algumas memórias, mas a pessoa presente nelas, o amigo, está morta ou assim parece. É incrível como o tempo passa, ou não passa mas passam os momentos. Consigo me levar de volta para aquelas horas passadas com Alana no bar que encontrei por acidente com mais facilidade do que consigo me levar à escola onde fiz o ensino médio com as mesmas pessoas por três anos passando por momentos então considerados até que íntimos. Talvez um dia o eu que esteve em Buenos Aires ou o eu que passou quase dez anos em Itajaí esteja morto, ou os dois. Assim deixamos nossas carapaças pelos recantos desse sonho longo e estranho, entrecortado por imagens de sono, que chamamos de vigília.

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Sobre peixes voadores (Diário de viagem #8)

Contexto e cenário

Um bar sobre o qual li num blog, uma postagem em que artistas portenhos falam dos locais da cidade em que se pode ouvir música, tomar café, apreciar cultura, longe dos turistas que tomaram e enfeiaram parte da cidade e a deixaram mais caótica. Escolhi esse, dos lugares, porque ficava na avenida do meu hotel. A imensa Avenida Córdoba, em que larguei, em diversas das suas quadras, pedaços das minhas pernas, que se soltaram durante meus flanares. Parecia um bar de sonho. Tocavam bandas locais, permitiam que elas tocassem músicas próprias. Não tinha placa de identificação em canto nenhum, era só uma porta numa casa antiga, que levava a uma escadaria, que levava ao bar. Vuela el Pez, seu nome. Deve haver um motivo pra isso, o nome e as outras características. Lembro que comentei com amigos, muito antes de saber da existência dum lugar desses, que, se eu tivesse fontes infinitas de dinheiro, abriria um bar de jazz e outros estilos, sem placa, sem anúncios, onde bandas poderiam tocar o que quisessem pro público que as quisesse ouvir. Lá estava uma versão dele, real, não minha, mas pulsante. Sexta-feira, a viagem, até então, um tanto tediosa. A cidade era um espetáculo, os museus e livrarias e cafés, cada um que conhecia, me embasbacavam toda a vez. Mas faltava algo, algo que me fizesse querer ficar, me fizesse querer voltar sempre.  Além do mais, a melancolia da solidão estrangeira estava perdendo o charme e ficando triste. Procurava alguma coisa, queria alguma coisa, mas não sabia o que era essa coisa ou por que eu a queria e a procurava.

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deslumbrado e no escuro, lidando com pernas que não aguentam mais o corpo. as paredes expõem versos de Alejandra Pizarnik e quadros cheios de cor pintados por gente desconhecida, enfeites que se escondem quando as luzes se apagam. a banda toca aquele rock que as bandas que querem ser consideradas boas tocam,
meio jazz
meio rock
meio reggae
meio tudo
meio nada
pausas imensas instrumentais
vocais galáticos poetizando coisas vagas
aquele velho som original
que todas as bandas novas imitam,
iluminada, detrás, por luzes de natal brancas. o remédio é uma cerveja roja litrão tão fraca que mal sai da garrafa e não sobe à cabeça por nada. cerveja, a uma coisa sobre que aquele povo parece não entender coisa alguma. tratando cerveja por cor, sem cabimento. mas que tipo é?
não sei. tem da roja, da negra, da rubia. la buena, la mala y la fea.
vá da roja, que seja, ela me dá a garrafa e um copo de plástico, volto à mesa com uma coisa em cada mão.

garota loira vem e pede as cadeiras desocupadas da minha mesa para que ela e sua amiga se juntem a um grupo de amigos dela.
estou falando com essa cadeira, mas, se você precisa, vá em frente.
frase tão complicada quando dita por um estrangeiro, ela tem de esperar pra ver se significa o que acha que significa e somente então se deixa bufar um riso.
minha mesa é tão frequentada, gente que vai e que vem e que puxa papo como se me conhecesse, só porque estou sozinho e, fora a garrafa e o copo, não tem nada sobre a mesa.
é que aqui se compartilha, diz um cara,
mas eu não recusei, não precisa justificar. estou tão mas tão só que qualquer companhia faz bem. quase peço pra que usem a minha mesa e não a de outro. e a ocupam com copos, uma pizza caseira, mais copos.
de onde você é?, moça do novo grupo que ocupa meu espaço pergunta
e quase conto minha vida pra ela. não falava havia doze horas, mais que isso. quão rápido passam os minutos do álcool. falo da distância que tive que percorrer pelas ruas portenhas, culpa minha por ter me perdido, enquanto ela se esforça pra superar meu sotaque e a música alta e pra entender o que eu digo. como a cidade tá te tratando é uma pergunta que se repete.
melhor do que eu esperava.
mas sempre espero ser escorraçado, quiçá porque me escorraçaria.

cidade nova, personalidade nova. larguei a insociabilidade no aeroporto. amo a tudo e a todos e a sensação não me queima por dentro tanto assim. falo com estranhos. todos são estranhos. sempre preferi estranhos aos conhecidos. estranhos só podem surpreender. vou atrás de outra cerveja, mas antes trafego o caminho enevoado que leva ao banheiro.
a moça do balcão mal me escuta.
meu português tampouco é bom, ela diz e ri.
a gente se vira como pode com o que tem,
eu digo enquanto pago pelo chope que pedi, e volto à mesa. a garota de antes me vê e me devolve minha cadeira. preciso ser cavalheiro, é meu momento james bond. tão raros esses momentos.
por favor, eu insisto, eu digo. (there’s a man who leads a life of danger…)
não vou tirar sua cadeira, você tá mais cansado que eu, vem, ela diz.
insisto mais.
ela insiste mais que eu.
pego a cadeira de volta porque tá ficando chato (secret agent man secret…) e ela e seu grupo encontram uma mesa própria e me largam à solidão e à música. viva à música, minha mão acompanha o ritmo estapeando de leve a mesa. olho pra garota à mesa na frente da minha.
aquele bar, aquela porta
sem placas no meio
da avenida que leva a uma
escadaria escura feito arma-
dilha de filme de gângster
que leva à arte não às
armas,
símbolo, lição pra vida exemplo duma hipótese de humanidade melhorada?
onde demos errado que perdemos
a sensibilidade pr’essas coisas?
a garota não me olha de volta, acho que vai embora uns minutos depois, uma hora depois, minutos escorregadios de cerveja. quantas músicas essa banda já tocou e por que já preciso ir ao banheiro de novo? quantas vezes me apaixonei desde que entrei aqui? me pergunto se ninguém mais vai aparecer pelo resto da noite, se melhor não seria ir embora de volta ao hotel e evitar a ressaca que debilitaria o dia seguinte.
não tenho planos pra sábado.
nem domingo, nem dia nenhum
até minha volta.
deveria ter me planejado melhor.

na semana antes dessa estava bebendo e ouvindo música num outro lugar, no meu país. sempre um pouco diferente. ali ou em outra esquina, é outro mundo sempre, próximo ou distante. aqui noto uma ausência geral de adornos, esta é a diferença. nada certo ou errado, só diferente. e os dentes. dentista portenho morre de fome. naquela noite, um dia antes da partida, tomava da boa cerveja brasileira, da qual sentia saudade por não ainda ter encontrado da boa cerveja argentina, e nem ligava, tão bêbado tinha ficado sem perceber, que, depois da apresentação de algumas bandas novas até que interessantes, quem começou a tocar era raimundos. pelo menos esse risco eu não corria na argentina, mesmo que, lá, o brasil me perseguisse a cada esquina. imagino a banda no palco começando um improviso jazz fusion de desafinado, um return to forever encontra joão gilberto encontra minha solidão exagerada. não acontece.

deixo meu copo meio vazio na mesa e vou ao banheiro de novo. a cada ida o percurso fica mais longo. e toda a volta traz uma surpresa. minha mesa ocupada por três garotas. paro ao lado da mesa, não quero interromper, mas peço licença e estico o braço pra alcançar meu copo no meio delas.
me desculpa, não tinha ninguém só o copo, achei que
não tem problema, fica tranquila, a mesa é sua.
de onde você é?
brasil.
ele é brasileiro, ela diz pras amigas, nem de perto tão interessadas.
trocas de olhares generalizados e meneios de cabeça e goles nos copos de campari.
meu nome é ala…
a-la-o que?
a-la-na.
alana.
isso. sou alana, ela é … e ela é …
constranjo sem querer a terceira, não entendo o nome dela. mas rimos, todos, elas da minha linguagem limitadíssima e esforços pra compreender e ser compreendido, eu sem qualquer motivo. me esquecerei dos nomes das outras duas, mas o de alana permanece. ela, quando me distraio e acho que nossa interação acabou, me cerca de perguntas:
o que te traz a buenos aires?
um pouco de tudo. a cultura principalmente. gosto muito de literatura argentina.
quem, por exemplo?
cortázar
sim. borges?
sim, borges, grande borges, alejandra pizarnik tem uns poemas dela na parede aqui
ela eu não conheço bem.
espera iluminar um pouco, aí você lê e vê o que acha. césar aira, também gosto, e tem um monte que tô descobrindo, roberto arlt.
o que você tem feito por aqui?
me perdi
hahaha
e muito o dia todo.
é uma cidade bem grande.
mas achei o malba
amo esse museu.
fui lá hoje.
hoje?
essa tarde.
o que achou?
um espetáculo. achei vários artistas brasileiros por lá.
sim, tem muita coisa do brasil aqui.
muita. conhece alguma coisa de lá?
amo paulo freire, de paixão. conhece?
um pouco.
e ela fala de pedagogia, em que ela se formou, que trabalha de niñera (a mágica das palavras, aqui, por niñera, relaciono a ninhos, o que não faz o mínimo sentido. levo um tempo pra lembrar de niños, mas mesmo aí não sei se ela trabalha de professora, se numa creche, num orfanato, e prefiro não perguntar pra não exigir dela uma explicação muito complicada pros meus ouvidos debilitados de bebum estrangeiro. noutro dia lia um poema com o verbo alejar e pensava que a poeta se machucou e estava exagerando dizendo que foi aleijada por alguma coisa, só muito depois lembro que lejos é longe e alejar, logo, é distanciar. que tipo é um cara, não um tipo, uma maneira/forma/jeito. como é fácil falar mal o espanhol e achar que se sabe muito) e leu quase tudo do freire e eu falo do quanto ele é combatido por gente burra no brasil enquanto a banda toca e nós mal nos entendemos. ela fala que também estuda teatro, quer ser ou é atriz, mas era niñera dois minutos antes. relaciono os dois sem saber o que é o um direito. eu ainda tenho cerveja no copo a essa altura? ela está de pé em minha frente? sentada ainda?
o que mais você quer fazer aqui?
ainda tenho uns lugares pra conhecer. queria ir no teatro e no cinema, uma vez pelo menos.
teatro… amanhã eu vou estar en La Noche de los Teatros, sabe o que é?
nem ideia.
ela explica do festival de teatro, grátis, no auditório de uma praça.
várias peças.
você vai atuar?
não, não. só assistir. ainda é cedo pra mim, um palco desse tamanho imagina.
qual a praça?
um minuto
ela rasga um papel de dentro da bolsa, escreve o nome da praça, o nome e o número dela.
aqui. e escreve aqui – outro pedaço de papel – seu número e nome pra gente se falar. mas seu número é brasileiro. tem facebook?
não.
e agora?
whatsapp?
tenho, pode ser.
escrevo. espero que certo. que nenhum número ou letra sobreponha outro.
amanhã você não vai se apresentar, mas e outro dia? é possível te ver num palco?
não tão cedo. pouco tempo atrás fiz stand-up, sabe o que é?
comédia stand-up?
isso.
uau.
é mais um hobby, o que me interessa mesmo é o teatro.
certo.
bailás?
no. pero puedo moverme alrededor de ti en cuanto tu bailas.
hay una primera vez para todo, ven..
e dançamos? ela dança. eu não sei o que estou fazendo. não só no que se refere à dança. flutuo por aí, flutuei por buenos aires e vim parar no vuela el pez até parar debaixo do pé de alana. ou meu pé sobre o dela. não, não foi o pé dela que eu pisei, estou pensando num caso no brasil anos atrás em que me vi numa situação parecida. várias vezes, quase toda vez que me vejo com uma desconhecida num bar ou festa ou local em que se bebe e há música danço sem saber que dancei. longe de ser primeira vez. qualquer coisa entre mim e alana, longe da primeira vez, mas primeira de qualquer forma. a primeira vez portenha, as segundas primeiras vezes da vida, sempre diferente. primeiras vezes portenhas, um bom título pra isso, lembra aguafuertes porteñas, quase. ou não. a amiga de alana, a terceira, a do nome curioso, oferece a bebida no copo dela. é campari. bebo e a doçura choca minha língua e minha garganta até o estômago.
dulce, digo.
sí, es bastante dulce.
volto pra alana ou ela me puxa de volta.
vamos lá fora tomar um ar? aqui tá meio
ok.
abafado.
vamos pro lado de fora da sala, pra outra sala, a que leva aos banheiros, onde as pessoas se reúnem em mesas pra fumar ou respirar o ar puro da fumaça. está mais claro, posso ver direito o rosto dela, mas não darei a ela alguma forma concreta até domingo, o dia sóbrio. vamos prum canto. hesito sem querer, o algo sob controle que em mim resta.
tem certeza?
algum problema?
nenhum. mas eu não vou ficar aqui, enquanto nossos rostos lentos caem um sobre o outro em confortável colisão.
nossas línguas se apresentam. meus sentidos tomados pela cerveja. ela parece bem. a multidão ao redor some aos poucos. não estão nas minhas lembranças. antes parecia tão cheio.
quando você volta?
ela pergunta, eu diria quanto tempo havia passado entre o beijo e a pergunta se tempo ainda existisse no cenário.
quarta.
quarta temos tempo.
um pouco.
aqui os acontecimentos se bagunçam. entre beijos e balangares arrítmicos, ela me rodopia, eu a rodopio,
(ela se afasta e seus lábios se movem. não escuto. ela se aproxima do meu ouvido. escuto, mas não entendo. ela repete. ela repete. outra vez.) eu desisto:
não te entendi, me desculpa mesmo, mas aceito.
como?
não sei o que você disse, mas aceito.
você estuda improviso?
como?
improviso?
improviso?, não, nunca fiz nada relacionado a atuar, por quê?
ah, é que aceitar sem entender é uma das bases desse estilo, sabe?, pra dar continuidade as cenas, entende?
entendo, mas não, nunca fiz. deveria fazer?
e trocamos ideias sobre coisas da vida, indo do teatro e atuação à
música: me pergunta se sei que é reggaeton, digo que não, só sei do reggae sem ton; pergunta se gosto de axé, digo que não sei qual axé chega por lá, mas no brasil é comercial demais e onipresente, não consigo ouvir.
filme: pergunto se ela viu lost in translation (encontros e desencontros ou como se chame em espanhol, não saberia traduzir) porque desde antes da viagem o filme não me sai da cabeça, ela diz que não, nunca ouviu falar, mas vai pesquisar depois. não acho que desde então tenha visto, o título deve ser outro.
fala de reggaeton porque pode ser que algo parecido com isso tenha começado a tocar. surge uma terceira banda. não consigo ver de onde estou. nossos beijos ganham tom de despedida.
diz que não mora tão perto dali e precisa da carona da amiga. digo que o meu hotel é perto. não lembro se a convido pra vir comigo, se precisa de convite, se ela percebe o convite. a despedida se adia. nos aproximamos e afastamos várias vezes e já não sei o que se passa se é que soube antes. as pessoas ao redor começaram a surgir de novo, como se nunca tivessem sumido, uma por uma. tenho a sensação de que estou sendo observado.
acho que vou voltar lá pras minhas amigas, mas a gente se vê.
sim, eu te ligo amanhã.
parte de mim tem vontade de voltar à mesa, pegar outra cerveja. quando foi que decidi ir embora? por que nos despedimos? outra parte não tinha disposição de continuar a noite. mas, antes de concluir os pensamentos, estou no meio da escadaria, chegando à rua, tonto, digerindo acontecidos, tentando quebrar o recorde de imagens mentais que um cérebro é capaz de formar num mesmo segundo. volto pro hotel enquanto gente acaba de sair de casa. meu celular diz que passam das três. grupo de moças envelopadas em vestidos pretos pega um ônibus, senhora passeia com um imenso golden retriever. reparo que estou distraído de madrugada numa rua qualquer de uma metrópole estrangeiro. rápido, tomo jeito e volto a observar os arredores, se alguém me segue ou me olha de forma suspeita, olho os outros com suspeita. bebida também dá paranoia e tesão inconcluso. chego ao hotel são e salvo, até consigo encaixar a chave na porta do prédio e subir as escadas e acertar a chave na porta do quarto, tudo na primeira tentativa, sinal de que não bebi o suficiente.

no quarto, tiro a roupa e me dou conta, antes de jogar em mim os trapos que uso pra dormir, do insistente voluntário pronto pra ação cancelada ainda há pouco. peço desculpas, digo que nada vai acontecer essa noite, mas não basta pro pobre endiabrado.
deveria de haver uma lei contra ti.
espera quer dizer que há?, pois bem.
não há outra saída que não enrolar um tanto de papel higiênico e achar, no celular, qualquer fantástica encenação que apazigue os caprichos deste velho e mimado mestre, deus demente, duas partes dionísio uma parte nero. deito nu na cama e encontro qualquer pose que ajeite os envolvidos de forma confortável o suficiente. me corre à mente a ideia de pensar em alana, mas não não nunca sujeitar sequer representação imaginária dela ao que livre percorre minhas circunvoluções nos momentos de alívio solitário nunca pior dos crimes. horrível o ser humano que mistura suas fantasias individuais do plano das ideias com as suas fantasias de carne e osso. que história ridícula é essa de que um vídeo não basta, de que este não satisfaz e quer outro em seu lugar? dez minutos atrás estava desesperado. que seja. cumpro com as demandas de sua majestade até que ela dispara e então escorre e então pinga pela superfície do papel. o dobro e o jogo no lixo. visto meus trapos e me deito na cama.

nove da manhã e minha cabeça acorda aos berros só por causa das tantas cervejas. peças do quebra-cabeça, por incrível que pareça, se perderam pelas poucas horas em que adormeci. o número de alana, encontro no bolso do casaco de ontem. tento sem sucesso incluir no meu celular. preciso de café, desvendo o mistério do funcionamento desses aparatos inúteis mais tarde. vou lavar a desgraça da minha carapaça. então café, então um livro e descobrir onde fica a tal da praça qual? e o número, não posso esquecer o número.

Antes, durante, depois (diário de viagem #7)

1 – O efeito Lost in Translation: expectativas

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Um dia antes da data de partida, me dou conta de que estou vendo Lost in Translation (Encontros e Desencontros, Sofia Coppola) outra vez. É automático, de tanto em tanto tempo bate a vontade. Também, é um filme tão natural. Mas não posso deixar de pensar que esta vez foi menos automática. Uma espécie de autossabotagem, porque, em geral, estou me sentindo bem, nada nervoso com a viagem que se aproxima, ajustado. Os meses pós-compra das passagens foram movidos por um esforço consciente pra não criar expectativas. Queria passar os dias como um nativo, sem esperanças de mudar minha vida ou encontrar algo que estivesse procurando – dessas coisas que estamos sempre procurando sem saber que estamos ou o que é. Mas vejo esse filme e ele é um resumo perfeito do que é e o que se espera de uma viagem. Temos Bill Murray em crise de meia-idade, perdido num universo de celebridade que sem querer ele criou pra si mesmo, de um lado; do outro Charlotte (Scarlett Johansson) que foi atrás de alguém pra um país estrangeiro e perdeu sua identidade (não o documento) no caminho. Toda a viagem traz uma espécie de perda de identidade momentânea. Fora o fato de ser um estranho em terra estrangeira. A temporalidade da presença faz dessa coisa frágil que é a identidade ainda mais inútil. Posso me apresentar a cada pessoa da cidade estrangeira, posso andar com um crachá – não vai significar nada. Ok, que saibam meu nome, em poucas horas, o que ele será? Nem memória. Logo o que pra mim é um acontecimento tão memorável, vai morrer comigo. A esperança que Lost in Translation força aos que amam esse filme é a de que conexão é possível. Sim, termina com um sussurro místico ao pé do ouvido, mas existe. É possível recuperar a identidade nesse punhado de dias. Termina o filme, todos os meus esforços partem com os créditos. Antes do fim, nem sabia que estava assistindo algo, perdido nas minhas próprias invenções sobre o futuro próximo. Quem sabe alguém no hotel. Quem sabe alguém na cidade. Não que precise ser Charlotte (e não que eu já seja Bill Murray), não que precise ser memorável… Já, rápido assim, não sei mais o que eu quero mesmo, onde eu quero chegar.

2 – Suspeita e surpresa são palavras parecidas

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Sigo as instruções do cara do sebo pra chegar no metrô. Desço as escadas. A cada tantos passos tem um mapa da cidade coberto de linhas legendadas representando o caminho que seguem os metrôs. Estou entre a cabine e a catraca. Pergunto pro segurança, um dos muitos, qual é a mágica. Diz pra que eu vá na cabine e eles vão me informar. Faço isso e me pedem o cartão Sube, que não sei o que é, mas eles agem como se eu devesse saber. Dias e dias de pesquisa e não sei porra nenhuma, mal sei espanhol, apesar dos 6 anos que passei no curso encerrado 9 anos atrás. A atendente diz que normalmente poderia comprar ali, mas estava em falta. Diz que vende em toda a loja de conveniência, então subo as escadas e compro o cartão na primeira delas que vejo, por 50 pesos, e me recuso a pesquisar pra saber qual o tamanho da faca que cravaram nas minhas costas. Decido aceitar, decido que vou aceitar praticamente tudo nessa viagem, me abrir às novas experiências. É pra isso que se viaja, não?

Cartão carregado com vinte pesos, causo um distúrbio na catraca por não saber manejá-la, mas logo acerto o cartão no sensor e consigo passar. Estou esperando o metrô – da linha B ou da linha D, na estação Scalabrini Ortiz ou Pueyrredón ou qualquer outra do complexo ninho subterrâneo… não sei qual e a distância que separa as opções que minha memória traz à tona demonstra o quanto caminhei pra lá e pra cá antes de pegar um rumo certo -, que vai me levar à estação Florida, a mais próxima da casa de câmbio, ou iria, se ela não estivesse fechada por algum motivo, algo entre uma reforma ou um protesto organizado pra acontecer mais tarde naquele dia. Descido que não mais vou tentar me encontrar por conta própria. Pergunto ao cidadão na minha frente se ele sabe onde fica a Calle Sarmiento (tinha escutado que a Cambio Alpe, nessa rua, tinha as melhores cotações) e ele diz que sim, mais rápido seria descer na Florida mesmo, que me jogaria a uma quadra do meu destino, mas a em que havíamos chegado (9 de Julio ou Carlos Pellegrini) não era tão distante. Saímos do vagão e ele me pergunta de onde eu sou, porque meu espanhol não engana ninguém. Digo que do Brasil. Ele começa a tentar falar português e fala do quanto ama o Brasil e o quanto sua irmã ou prima ou cunhada ou algo que o valha ama o Brasil ainda mais que ele.

Já sobre o solo, percebo que ele segue ao meu lado, falando; eu escuto, faço uns ruídos pra indicar que entendo, mas quero saber qual o motivo de ele ainda estar ali. Pergunto pra que lado fica a rua num tom de obrigado mas agora eu me viro. Ele diz que é pra lá, mas que eu não me preocupe porque é o caminho dele, ele me guia. Fala que ali é o Centro, a parte mais turística de Buenos Aires.

Já esteve aqui antes?

Não – tenho minhas mãos no bolso, uma na chave do hotel, qualquer movimento brusco e acerto o olho do cidadão. Ele é um pouco menor que eu, deve ter por volta de cinquenta anos, não parece capaz de fazer mal a ninguém, mas nunca se sabe. Passar informação é uma coisa, de fato se esforçar pra ajudar alguém é motivo de suspeita. – Acabei de chegar.

Ali – aponta -, o Obelisco.

Não é que é mesmo?, digo. Tento não demonstrar suspeita. Acho que ele vai tentar me roubar ou qualquer outra coisa, ninguém pode ser tão amigável a ponto de levar um estrangeiro desconhecido pra onde ele precisa ir, algo não está certo. Olho pro Obelisco, mas nunca entendi a graça dele. Não me comovia à distância, não me comove em pessoa. É um grande palito de churrasco, um símbolo fálico despontando no meio da cidade.

Mas é aqui, no Centro, que você vai encontrar a maior parte dos teatros e cinemas. Só cuidado que tem muito batedor de carteira. Você não vai trocar o dinheiro na rua, né?

Não, estou indo numa casa de câmbio mesmo.

Ah, bom. Antigamente fazia diferença, mas aí o Macri veio e… bom, está do jeito que está.

E falamos um pouco de teatro e um pouco sobre segurança e taxas de câmbio. Pergunta o que mais me interessa em Buenos Aires e falo do meu gosto por literatura e trocamos uma ideia sobre Cortázar e Borges.

Tem um café em homenagem ao Cortázar por aqui, não tem?, digo. Onde ele escreveu

Los Premios, sim, é aqui perto.

London City, o nome.

Isso. Olha, agora não é mais o que costumava ser. Mas vale a pena a visita, é um belo café e aqui perto, na esquina da Plaza de Mayo, que, por sinal, você deveria ver, é outro ponto turístico… histórico, como o Obelisco, onde fica a Casa Rosada.

Passamos por uma das El Ateneo na cidade.

Essa é a maior livraria de Buenos Aires, e olha que tem muitas. Depois vai lá, mas não nessa. Tem outra, na Avenida Santa Fe, Grand Splendid, costumava ser um teatro ou um cinema. Um espetáculo o lugar. E imensa, tem de tudo.

A linha reta em que caminhamos parece não chegar ao fim, até que chega. Passamos por algumas casas de câmbio até chegarmos na que me interessa, e a taxa de fato é melhor; muito melhor que a que aplicaram no Brasil, um pouco melhor ou igual que a dos bancos pelos quais passei. Paramos na porta, eu agradeço.

Não há de quê, é caminho pra mim, mesmo. Até quando você vai estar aqui?

Quarta que vem.

Ah, pena que é uma semana corrida, se não te convidava pra conhecer minha família. [A cunhada ou prima ou irmã ou algo que o valha que ama demais o Brasil] ia gostar muito de falar sobre o Brasil com você. Já o London City, pega essa rua aqui (gesticula a direção) e segue reto em direção à Plaza de Mayo, não tem como errar.

Ele insiste em me passar o whatsapp, eu não vejo outra saída que não aceitar. Nos despedimos. Por hábito, ele se aproxima pro popular encostar de bochechas entre os portenhos; por hábito, brasileiro que sou, me afasto, mais por achar que é o assalto finalmente se apresentando do que qualquer outra coisa. Me explicou o hábito e aceitei isto também. Nos despedimos mais uma vez, agora sem incidentes. Entro na casa de câmbio. Vou até a mulher no canto do balcão fazer meu cadastro, mas não sabia que precisava do papel carimbado que me entregaram no aeroporto. Saí em cinco minutos do lugar que levei cinco horas pra achar. Mantive o ânimo, porque ainda não sabia a quais lonjuras minha caminhada cega em direção ao London City (que nunca encontrei) iria me levar.

3 – Recepção e decepção se parecem mais ainda

São noventa reais de Navegantes até meu apartamento, diz o taxista. O que eu já sabia, porque o preço é tabelado e foi o que eu paguei pra ir ao aeroporto. Tinha noventa reais separados na carteira, junto de cento e três pesos que não consegui gastar. O avião chegou às seis da tarde. Pegamos um congestionamento boschiano nas proximidades da balsa que parecia se estender por toda a cidade. Quero mostrar a ela um pouco da cidade, mandar umas fotos, mas não quero tirar o celular do bolso. Quase duas horas depois estou em casa – na esquina, porque o taxista errou o caminho. Gente carregando bandeiras de um candidato a prefeito ocupa a rua em frente ao prédio, toca a versão sertaneja de sua música tema. Quero ir embora outra vez. Tiro fotos das pessoas com as bandeiras e mando pra ela, como legenda: quero voltar. Ela responde: me encantan las palmeras. Talvez, em Buenos Aires, só tenha tido tempo de ver as palmeiras. O desejo de voltar e ficar por lá seja só reflexo ilusório causado pela visão limitada da pausa temporária que se dá na vida durante as férias. Não muda o fato de que já sinto falta.

A memória das coisas (Diário de Viagem #6)

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1 –  Primeiro dia. Por burrice estou perdido. Caminho em direções aleatórias buscando um lugar onde comer ou só onde possa parar e sentar por um instante. São várias quadras acumulando atrás de mim, mas acho que sei voltar ao hotel ainda. Posso ter andado em círculos o tempo todo e estar prestes a dar de cara com a entrada do hotel. Acostumado a andar, esqueço que não sei onde estou com facilidade. Olho pra um lado, nada reconhecível. Nada atrás idem. Até me assusto quando vejo uma bela vitrine abarrotada de livros velhos bem do meu outro lado. Entro. Digo a mim mesmo que é só pra pedir informação, mas sei bem que é mentira. Eu tento, mas não consigo me enganar mais. Olho as lombadas, me interesso por quase tudo, desvio das pessoas. Fico impressionado por haver pessoas. Pego um só do Roberto Arlt, cercado de grandes volumes de sua obra completa – esses não posso, tenho que me controlar e pegar um só, até que bem barato apesar de eu estar longe de me acostumar com os números altos pra qualquer coisa. Pergunto ao vendedor, não onde estou, se ele tem algo da Alejandra Pizarnik. Fica surpreso, diz que sim, mas só um. Uma seleção que deve ser da década de 1980. Compro os dois livros. Pergunto como chego ao Centro. É muito longe, tem que pegar o metrô. Ele explica onde fica. De onde você é? Brasil. Como a cidade tá te tratando? Acabei de chegar, estou perdido, mas até que bem tratado. Chegou quando? Ontem, três da manhã. Ah! Gosta de literatura argentina? Sim, apesar de não conhecer muito mais que Borges, Cortázar, César Aira. Esses que você escolheu são muito bons, clássicos da nossa literatura. Ei, você é do Brasil… Mário de Andrade, você conhece? Bem pouco, só umas poesias avulsas. Macunaíma é meu livro favorito de todos, é genial. Traduziram Macunaíma? Sim, como não? Uau. Não tenho mais nada a dizer. No futuro, lido o livro, teria, mas não estaria lá. Acho o metrô. Primeiro sinal, dos dois que tive naquele dia, de que o Brasil persegue seus filhos onde quer que eles estejam, mais ainda se ele só estiver ali do lado. Quero guardar o endereço desse sebo para voltar nele quando estiver mais seguro, mas não faço isso. Meses depois, encontro o endereço impresso num dos marcadores de página que recebi da loja. Fica pra próxima.

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2 – A feira de livros usados da Plaza Italia é uma reunião de microcosmos. Se cada volume carregasse em si um pouco de cada um de seus donos, um pouco de cada casa em que viveu e cada incidente pelo qual passou e um pouco dos lugares aos quais foi levado, some a isso o fato de hoje estar na rua, cuidadosamente posicionado em uma das várias cabines na maior feira de livros de uma das maiores e mais movimentadas praças de uma das maiores cidades da América do Sul, não seria exagero imaginar que ele experimentou, direta e indiretamente, a maior parte da experiência humana em variedades indisponíveis à maior parte dos seres humanos. Pego um deles, antigo, a parte de cima do miolo tomada por uma camada sólida de pó, viro com cuidado algumas páginas, num instante, desejo sinceramente poder acessar pelo toque as memórias dele. Ambição excessiva. Não basta o livro ser este naco da consciência de outro ser humano, há décadas morto, concreto em minhas mãos, quero mais, quero as imagens abstratas das coisas que o objeto livro viveu. Vejo o preço do livro. Muito caro. Ponho o livro de volta em seu lugar pra que pegue mais pó e digitais e pra que talvez receba uma nova casa e experimente tantas outras coisas, não comigo. Tantos volumes diferentes, asfixia. Lembra mortalidade e presença, memória, dá uma impressão breve de sentido junto à impotência do indivíduo. Uma belíssima tristeza. Havia terminado, na noite anterior, de ler a seleção de poemas da Alejandra Pizarnik. Encontro e compro um volume de sua obra completa. Troco uma ideia breve com o vendedor sobre ela (…compra esse, aí não precisa comprar mais nada, tem tudo dela aqui… talvez… talvez, exceto pela novela que ela escreveu, A Condessa alguma coisa assim, se bem que acho que tem aqui – e pegou outra cópia – … sim, tá aqui, não sei se toda ou fragmentos… enfim, é uma obra menor dela, de qualquer forma, mas, se você gostar dos fragmentos, indico a leitura, é uma boa novela…) e sobre o preço dos livros do Bolaño, o quanto eles acabam valendo a pena.

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3 –

rastros

a madeira que cerca o Degas no museu
um dia foi
como a árvore que fora faz sombra.
ambas carregam
no corpo um tipo de memória,
como a tinta carrega.
noto, de leve, o movimento ancestral
do pincel e
por ele tento imaginar monsieur Edgar
em seu ateliê,
monstruoso dominando suas jovens modelos
enquanto ele
as fazia flores ao vento nas telas.
posso fingir
que vejo o homem, mas não vejo,
não de verdade.
ele está lá, como as modelos estão,
como uma árvore qualquer está,
só sua projeção,
rastros deixados na história
feito os de um urso na floresta.

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Uma tarde no MALBA – parte 2 (Diário de viagem #5)

Antes leia a parte 1, cacete.

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Difícil comentar o conteúdo de um museu de arte sem que a descrição seja seca ou vazia ou desnecessariamente crítica – o que fica pior quando, como no meu caso, não se é crítico de arte. E dizer que tem quadros é óbvio. Estou arriscando cair no superficial agora, mas fui eu que montei essa armadilha pra mim mesmo quando me decidi escrever sobre uma visita ao museu. Me resta continuar como comecei e bancar a câmera flutuante. Atravessando a entrada da primeira sala depois da escada rolante, ficou claro que o foco do acervo estava na arte moderna e o que veio depois. Sem muita distinção entre quadros, esculturas, fotografia, vídeos… um museu de artes visuais bastante abrangente. Do lado de fora da primeira sala, havia um corredor com várias televisões, passando filmes em loop. O visitante poderia pegar um fone de ouvido e assistir, se assim desejasse. Que eu me lembre, entre outros filmes, estava passando Medianeras.

Como parecia ser uma constante na minha viagem, por onde passava via um pouco do Brasil. O primeiro quadro a me chamar atenção era justo o de Tarsila do Amaral, Abaporu, em destaque no corredor que levava à segunda sala. Vi outras obras de brasileiros por lá, inclusive, algo me diz, outra de Tarsila, mas devia ter levado um bloco de notas ou coisa assim. Tinha, então, a ideia de escrever uma espécie de diário de viagem, mas nada nessas proporções nem que fosse especificamente sobre o museu. Lembro de ter visto um quadro de Oswald de Andrade. Um quadro enorme, sobre o qual não lembro nada, mas lembro da minha surpresa ao descobrir que Oswald pintava. Ao lado, seu manifesto modernista, aberto, protegido por vidro, do ar e dos dedos.

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Sem anotações, com a memória vaga, fica complicado escrever qualquer coisa de muito significativo sobre as obras de arte lá expostas. Como de costume na arte, tem suas polêmicas. A instalação que é só um anúncio de aluga-se. Por um instante, achei que fosse mesmo um anúncio e estivessem com um espaço livre, mas, na verdade, era “arte conceitual” expondo o mercantilismo presente no mundo artístico “atualmente” (as aspas porque, se não estou me confundindo, essa instalação é da década de 80; se algo mudou desde então foi pra pior). Imagens de pobreza e festa também são constantes, parte inseparável da América Latina, de certa forma. Cores, decadência, esperança, miséria. Ao mesmo tempo, um desejo por revolução. Esse é o espírito do MALBA, como um todo, independente do que diga cada obra por si própria. Existem correntes invisíveis espalhadas por toda a América Latina, nós sabemos de onde elas vêm. Uns as querem partir, outros estão acostumados ao aperto nos punhos e até gostam delas como enfeite. No MALBA, pulsa o desejo de liberdade do nosso continente, desejo sempre frustrado, quando não por forças externar dominantes, os mestres de nossas correntes, são nossos próprios males internos historicamente enraizados que nos derrubam. Talvez por isso tenha me incomodado mais do que deveria com as exposições convidadas: Jeff Koons, sobre o qual já reclamei em várias ocasiões e, sem querer me repetir, não acho que passe de uma esteira industrial de mau gosto (pelo menos a parte da obra dele que eu conheço); e Yoko Ono, que ocupava todo o andar acima.

Subi o segundo lance de escadas rolantes. Havia uma placa em frente à entrada indicando que ali começava a exposição da Yoko Ono. Fico pensando se deveria botar aqui minha opinião sobre Lennon e Yoko. Mentira, não é conflito algum, talvez o grande motivo de eu ter começado a escrever esse texto tenha sido pra expressar minha opinião sobre o significado por trás da obra desses dois artistas. E por que eu boto os dois no mesmo prato como se fossem arroz e feijão? Porque é isso mesmo. Boa parte da obra de Yoko exposta no MALBA era composta de frases feitas do Lennon, dos ideais que ele usou ao longo da vida pra encher a própria conta bancária – com sucesso. Mas estou me adiantando e, até agora, se eu estou certo e vocês já discordam de mim, só fiz foi gerar hostilidade entre mim e vocês, supostos leitores.

Entrei na sala e escutei um zumbido. Vinha de uma caixa de som tocando um disco dela que era, se não me engano, uma longa gravação do zumbido de uma mosca. Ao lado, em loop, um vídeo de uma mulher (provavelmente a Yoko, não vi o rosto), nua, deitada numa cama, enquanto uma mosca caminhava pelo seu corpo, do pé à cabeça. De todas as obras presentes, essa combinação som e vídeo foi a mais impressionante pra mim. Não imaginava como ela poderia ter sido feita. Moscas não são seres atentos e treináveis. Se parece que estou sendo sarcástico por culpa do parágrafo anterior, não exatamente elogioso, não estou. Gosto de ver coisas e não fazer ideia de como elas foram feitas. Traz à tona o aspecto mágico da criação artística.

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Não relacionada à exposição da Yoko. Não tirei fotos dessa parte. Tinha muita gente. Sou tímido.

Foi o que veio depois que, na falta de palavras melhores, me irritou. Exemplo: uma cruz de madeira, de uns 2 metros de altura, coberta de pregos; anexada à ela, um martelo, e, no chão, ao lado da cruz, uma caixa de pregos soltos; o observador era convidado a pegar um prego e pregá-lo na cruz. Pode ser cinismo da minha parte – toda a crítica que está por vir deve de ser meu cinismo falando mais alto, estou tentando trabalhar nisso -, mas achei bastante ridícula a montagem. Sim, compreendo o simbolismo cristão, a ideia de todos estarmos envolvidos no “flagelo de Cristo”… Ai ai, se é que era isso mesmo que a peça queria representar. Mas tinha um pai segurando o filho no colo pra que ele pregasse um prego na cruz também, tentando manter o equilíbrio pra que a esposa dele pudesse tirar uma foto sem que ela saísse tremida. Uns passos depois, um grande mapa-múndi todo carimbado com a palavra Peace (paz, caso alguém não saiba). Sobre uma mesa, um carimbo; colada na parede, uma folha com instruções que diziam: carimbe o lugar do mundo em que você queria que houvesse paz. Desnecessário dizer que havia gente tirando uma selfie enquanto carimbava, e forçando crianças a posarem pra fotos enquanto carimbava. Apesar dos esforços hercúleos de Sra. Ono, no entanto, ainda não há paz no mundo.

É esse o meu problema. Em se tratando de paz e coisas assim, não sei lidar com gente que usa essa necessidade pra fins comerciais. E é nisso que acho que a carreira de John Lennon se baseou (pós-Beatles) e em que a carreira de Yoko Ono se baseia. Velhas ideias, nada originais, propositalmente ingênuas, pedindo por paz sem fazer nada por isso, que vendem bem porque trazem uma mensagem identificável: todos querem paz sem ter que trabalhar por isso e, principalmente, é muito legal mostrar pros outros o quanto você se importa, independente do quanto os atos amplamente divulgados de fato afetam  a situação do mundo, desde que dê pra colocar um preço neste ato. É muito bom e fácil pregar pobreza e simplicidade enquanto se vive no luxo, distante da nojeira que é a pobreza que se explora. Enfim, já fui longe demais. Tinham várias outras instalações ali que trabalhavam com as mesmas ideias de forma diferente. Tinham frases do John Lennon escritas nas paredes – deixem o homem descansar; mesmo que o caráter dele tenha sido, na minha opinião (antes que me preguem na tal cruz – ha! ninguém vai me pregar na cruz por isso, ninguém nem vai ler isso aqui!) duvidoso. Ao meu lado, enquanto voltava todo o caminho pela sala em direção às escadas rolantes, passou um brasileiro que dizia: essa é a típica artista, nada aqui significa porra nenhuma, mas a gente tem que olhar e fingir que entende. Quem não entendeu o comentário fui eu. Aquela exposição, boa ou ruim, não podia ser mais compreensível. O significado dela estava escrito e desenhado por todas as paredes e até no teto (literalmente): paz, assim como a guerra, vende.

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Passei uma última vez pelas obras do primeiro andar pra esquecer de Xoko Ono, como havia dito o garçom uma noite antes. De volta ao térreo, descobri que tinha um cinema lá passando dois filmes, de graça, mas os horários ainda estavam distantes e havia a apresentação orquestrada de Metrópolis, que eu não estava bem certo se iria mesmo ver. Ainda lá, seguindo reto da entrada, uma espécie de memorial das ditaduras militares nas Américas, um lembrete pra que ninguém duvide que aconteceu, que teve vítimas e que não deve se repetir. Vendo as imagens dos vários ditadores de cada país e seus anos de atuação, me perguntava se tinha algo assim no Brasil. Era, ainda é, necessário, com o sempre crescente movimento de viúvos e viúvas do chumbo. Numa sala anexa, arquivos para consulta pública com dossiês expondo, com notícias da época (antes, durante e depois), estatísticas, documentos políticos e diplomáticos, depoimentos et cetera. Completíssimo e, não bastasse, cópias das folhas dos dossiês enfeitavam todo o museu.

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A operação Estadounidense que financiou os golpes e ditaduras na América do Sul (e Henry Kissinger, canalha, ainda vivo porque vaso ruim não quebra, na mesma época, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por não levar a paz no Vietnã, enquanto financiava as mortes na América do Sul e Central, e no Timor Leste, entre outros locais – crimes internacionais pelos quais ele nunca pagará, nem os chefes dele. Provando que a história se repete, Obama leva o mesmo prêmio por não dar fim a guerra no Iraque. É assim que as coisas são. Carimbemos um mapa-múndi. Ou nos refugiemos na mansão da Yoko. Sendo justo, as ideias dela são ingênuas, um pouco tóxicas (não é bom viver numa nuvem) e cheiram à hipocrisia, mas não são monstruosas, pelo menos.

Saí feliz pela visita e pela memória que reterei pelo tempo que durar minha memória. Ainda era cedo, tinha horas até a exibição de Metrópolis. As nuvens estavam pesadas, preferi não ficar por lá porque, em caso de chuva, a apresentação seria cancelada e eu perderia uma noite. Fui a um café, pedi algo pra comer e um café. Por algum motivo olhei meu celular e vi um número absurdo de mensagens nos dois grupos da empresa em que trabalho. Com medo de que a empresa houvesse falido na minha ausência (teria procurado um emprego em Buenos Aires, se tivesse sido o caso), abri as mensagens e vi que foi só um incêndio. Aconteceu de madrugada, estavam todos bem e, o escritório, só defumado, sem nenhum dano. Decidi, respirando fundo,  aliviado, que daria uma olhada no tal do Jardim Japonês, e, à noite, iria a um bar de que tinha ouvido falar antes da viagem. Não choveu e até hoje não vi Metrópolis, com ou sem orquestra, ao ar livre ou em casa. Mesmo assim, o universo me provou mais uma vez que ir ao bar é sempre a decisão certa.

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Uma tarde no MALBA – parte 1 (Diário de Viagem #4)

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O tal museu: de fora.

As pernas ainda não recuperadas do dia anterior, quando eu fui ao Museu de Belas Artes e aproveitei, depois, que estava perdido no bairro de Recoleta pra caminhar por lá, ver as casas, achar o Cemitério (mas não os túmulos de Bioy Casares nem das irmãs Ocampo nem de Macedonio Fernández – e descobrir que Roberto Arlt foi cremado e nunca esteve lá -, e, de quebra, ter uns 3 brasileiros me perguntando em portunhol como achar o local de descanso da Evita – que eu não estava procurando e não achei nem por acidente). Fiz mais tantas coisas entre o fim da tarde e noite de quinta – dia antes do dia em que se passa este relato (sexta) -, mas nada que possa ter sido tão marcante, não lembro com exatidão. Mas lembro bem da sexta, porque foi o melhor dia da viagem, então sei que, depois de lidar com o chuveiro de temperatura inajustável que jogava mais água, ou fervente ou gelada, para os lados que para baixo e inundava o banheiro, como eu fazia todas as manhãs, fui ao café mais próximo do hotel em que estava hospedado e que mais me agradou. Cheguei por volta das 9:00. Pedi o de sempre (já tinha um de sempre), a media luna con jamon y queso e o expresso duplo, abri Queremos tanto a Glenda, do Cortázar, que tinha comprado numa feira de livros uns dias antes, e comi e li até por volta das 10:30, aproveitando que lá ninguém te apressa pra desocupar as mesas – nem te atende sem que você atire com um sinalizador no teto do recinto -, até que comecei a me distrair com o celular, buscando sem sucesso um mapa que mostrasse o trajeto saindo de onde estava até o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA). Sem sucesso, fui pagar a conta e aproveitei pra perguntar à moça como que eu chegava ao MALBA. Ela me passou instruções detalhadas com auxílio do computador dela, que pegava a wifi, ao contrário do meu celular. No fim da explicação, deu uma dica fundamental que eu, pretenso flâneur romantique, ignorei – o que nem foi difícil, bastou eu não prestar muita atenção pra captar as palavras em espanhol escondidas atrás do pesado sotaque portenho: pegue o ônibus, tem um ponto [sons de língua tricotando] vai te deixar na porta do MALBA. Quem precisa de motor e rodas?

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Não esse café mencionado, mas um café, e acho que só umas duas quadras depois.

Uma hora depois, eu mancava das duas pernas enquanto me dava conta de que virei a esquerda quando devia seguir reto e tinha de voltar. Cruzo com um indiano que tentou, no espanhol dele, me pedir informação. Perguntei de onde ele era, mas como já contei pra vocês, vou pular a resposta. Então conversamos em inglês sobre o quanto eu estava tão perdido quanto ele. Atravessei a rua e ele ficou na esquina esperando um passante mais útil. Olhei a placa do outro lado da rua e encontrei o que ele procurava. Acenei, mas ele já havia recebido a informação de um nativo. Segui meu caminho e, a essa altura, a dor já era psicológica. Vi um ônibus sair do lado de um ponto e passar pela rua, bem ao meu lado. O ponto estava lá, bem em frente ao MALBA. Pensei no que poderia ter sido. Era inútil pensar. Só fazia que a dor aumentasse. A dor que não existia de verdade.

O MALBA tem uma exposição permanente. Se ela é parte de um acervo maior, sempre em circulação com o passar do tempo, pra variar o conteúdo e preservar melhor as obras, eu não me lembro. Acho que li isso em algum lugar, mas esqueci onde e, por mais que pesquise, não consigo achar nada assim com referência a este museu. Posso ter sonhado ou confundido com o Museu de Belas Artes. A exposição permanente é 60% do conteúdo. O resto são mostras temporárias, visitantes, quase como eu, turistas.

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Não chequei, mas acho que os gatos estão vivos. Só estão pegando sol. Infelizmente, não tive oportunidade de fazer amizade com nenhum deles.

Antes de ir pra Buenos Aires, algumas pessoas, pessoalmente e via postagens de blogue (coisa confiável), disseram que o portenho não é, dentre as criaturas, a mais afável. Minha experiência não foi essa. Lembrei que, na tal esquecida noite de quinta, fui num bar, mas, como era cedo, estava vazio. Aproveitei pra pedir minha comida tranquilo e tomar umas cervejas. O garçom perguntou de onde eu era porque, embora eu acreditasse ser fluente em espanhol, meu sotaque não enganava ninguém. Disse brasileiro e, pronto, o cidadão se empolgou e começou a falar de como ele conheceu/queria conhecer – um desses – a Amazônia e o Rio de Janeiro. Reparei que, ao meu lado, havia uma foto de Vinícius de Moraes, começou a sair das caixas de som música da Ana Cañas ou algum clone dela ou de quem quer tenha sido a original de que surgiu o clone que chamamos Ana Cañas. Ele perguntou o que andava fazendo e eu mencionei o Museu de Belas Artes e o Cemitério e minha ideia de, no dia seguinte, ir ao MALBA. Sim, o MALBA, lá está com uma exposição da Xokono, você viu? Não entendi, exposição de quem? Xokono… Xoko no… Xoko Ono… Ah, Yoko Ono (e foi então que descobri que o argentino, tal qual o francês, pronuncia o idioma dos outros como se fosse o dele). Disse que achava interessante, mas não achava interessante, e queria ver a mostra de Metropolis (Fritz Lang, 1927), a ser exibido às 20:00 daquela sexta, ao ar livre numa praça anexa ao MALBA, com orquestra ao vivo fazendo a trilha sonora. O rapaz falou que mais tarde ia ter uma roda de samba, se eu quisesse ficar pra ver, e até ia, começou a chegar mais gente no local, mas notei que o chope que pedi, o que o garçom disse ser o mais forte oferecido pela casa, tinha gosto de água com gás e perdi o ânimo. Pedi a conta e fui pro hotel.

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O tal museu: de dentro, logo após o primeiro lance de escadas rolantes.

Na entrada do MALBA, pra me receber, uma das estátuas do Jeff Koons passeando por lá até não sei que data. Há quem goste. Olhei pra ela com descaso. Muito brilhosa. Pelo menos não era a do cachorro de bexiga metálico. Era de uma mulher, se bem me lembro. Nem foto tirei, tão grande é meu desgosto pela obra desse cara. Mas isso não importa a ninguém. Tinha gente ao redor da entrada, nos bancos conversando, lendo. Entrei. Um grande salão, logo de início. A obrigatória lojinha de lembranças no canto, ao lado do guarda volumes; além disso, mistério, e duas escadas rolantes que levavam às e voltavam das exposições. Tinha muito o que se ver ali no térreo, mas decidi subir primeiro, ver as obras de fato. Fui à recepção. A moça disse que a entrada era 100 pesos – toda vez a taxa de câmbio me assustava, não tinha um preço na cidade que usasse números baixos -, mas teria de largar a mochila no guarda-volumes. Tirei a câmera de dentro da mochila, entreguei a mochila pra mulher do guarda-volumes. Peguei o comprovante e guardei com cuidado no bolso de dentro do casaco – o da esquerda, repeti mentalmente pra criar uma espécie de memória verbo-mental que não posso comprovar se funciona. Paguei pra entrar no museu e montei num degrau da escada rolante. Gente atrás, gente na frente; se o de cima caísse, haveria tragédia. Mas nunca ninguém cai causando tais efeitos. Não que tenha sido noticiado ou que eu tenha lido a notícia.

Diário de viagem #2 e 3

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Zuihitsu e meu motivo

Deixar a caneta correr junto ao fluxo de ideias, não depois. Escrita impulsiva como minha decisão de viajar, livre. Livre de conteúdo, livre de formato, livre de regras, e, por isso mesmo, a mais difícil e verdadeira e restrita. Japonesa, como só poderia ser.

Achei que combina com meus objetivos de registro de viagem. Um diário não é meu estilo. Sem falar que quem tem tempo pra diário durante uma viagem? Ou escrevo ou faço coisas. Um diário seguindo cronograma, feito por mim, só poderia ser sobre os esforços de manter um diário, sem nada que acontecesse antes ou depois da escrita. A escrita, seu processo, seria o todo, o dia. Por isso que comecei antes e pode ser que só termine muito depois. Mas quero registrar e gostei desse estilo. Parece com meus planos de viagem. Um pouco de tudo, um pouco de nada. A melhor e a pior maneira de viajar. Largar o turismo para tentar entrar na pele de um habitante nativo, se fazer passar por um, por mais ilusória que possa parecer essa tentativa.

23-D

A mulher loira, cujo nome eu não sei e talvez nunca vá saber – na verdade, posso dizer com alguma segurança que nunca mais nos veremos (que não nos vimos, pois não trocamos olhares conscientes), que em poucas horas não serei mais capaz de reconhecer seu rosto – sentada na fileira ao lado da minha no avião, cutuca com as unhas de uma mão as unhas da outra mão para limpá-las do esmalte, que aos poucos se solta em pequenas peças grudentas de quebra-cabeça em formato de unha vermelha, que nunca poderá ser juntado novamente porque parte das peças ficou grudada debaixo da unha que cutuca, parte voou e caiu no piso do avião, e o resto entre a superfície da bolsa dela e a palma da mão que cutuca, estas partes ela vai tentar juntar em uma palma enquanto espera a decolagem terminar para ir ao banheiro e lavar as mãos, o que, logo, ela faz, e volta a sua cadeira, espanando as calças com as mãos e seus dedos com unhas quase totalmente livres de esmalte. Talvez agora eu consiga voltar a minha leitura.