Alguns poemas traduzidos de Ron Padgett*

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Quem me acompanha há algum tempo já deve ter esbarrado pelo menos uma vez com um dos meus comentários sobre o quanto gosto dos filmes do Jim Jarmusch. Vi quase tudo, é um dos meus cineastas favoritos – arriscaria dizer que é “o” favorito – e sempre fico ansioso pra ver o próximo lançamento – que vem a cada 3, 4 anos. E esse ano terá um filme novo dele, que Cannes já está recebendo como o melhor deles. Sim, mal posso esperar pra ver. Paterson, nome do filme, é um motorista e poeta, ele vive com a mulher em Paterson, Nova Jersey. Isso é tudo que eu sei. Isso, e que os poemas de Paterson foram escritos pelo poeta contemporâneo favorito do Jarmusch, sim, o cara do título da postagem, Ron Padgett. Fui atrás e gostei muito de tudo que li. Tanto que decidi traduzir uns pra vocês, assim, na maior cara de pau. Então aí vai, junto da fonte e texto em inglês.

Esquina do Café

As grandes tigelas de café nos cafés da manhã na França,
as pesadas xícaras de porcelana nos velhos diners¹ americanos,
os copos de plástico marrom descartáveis nas recepções de motel,

a sensação de que você há de beber a xícara toda,
o leve ressentimento que você sente por se sentir assim,
o ponderar por que você o faz então,

a gratidão por alguém fazer o café,
a decisão de não tomar o terceiro refil grátis,
a surpresa de uma xícara de café muito ruim,

como costumava custar cinco centavos, então sete centavos, então dez,
e agora pode ir de sessenta até três e setenta e cinco,
às vezes um pouco mais por descafeinado,

a impressão seca marrom na borda da xícara,
o restinho deixado no fundo,
o resto chapinhando dentro de você,

mandando seu estímulo por tubos
no seu corpo, olá, vamos, tamos atrasados, tá
com as chaves, meu deus não acho a carteira

¹: diner poderia ser restaurante, mas é tão tradicionalmente americano o formato do restaurante, tão específico, preferi deixar diner.

Mir¹
— Não há sinônimo para sinônimo.

No shtetl²,
apenas o cacarejar
de dois galos
que soa igual.

Eu bato no balde d’água,
azul sob a luz da manhã,
embora, pra dizer a verdade
sou azul sob qualquer luz,

um poroso azul real.
Nosso vilarejo não voa
pelos ares – ele está
pregado ao chão

e nós seguramos firme –
uns aos outros, às árvores,
às portas do chalé, ao que for,
e cantamos nossa cantiga local:

Oh os gatos e as nascentes!
Oh os cães e as fontes!
Oh! Oh! Oh!

Isto é por isso

O que vou comer no café da manhã?
Eu queria era ter ameixas
como as do poema de Williams.
Ele pediu perdão a sua esposa
por comê-las
mas o que ele não
fez foi pedir perdão aos
que leriam seu poema
e também não seriam capazes de comê-las.
É por isso que eu gosto do poema dele
quando não estou com fome.
Agora mesmo eu não gosto dele
ou do poema dele. Isto é só
para dizer isso.

[http://jacketmagazine.com/27/padg.html – todos os 3 primeiros]

Depois de Reverdy¹

Eu nunca mais iria querer ver seu triste rosto de novo
Suas bochechas e seu cabelo ventoso
Eu fui por todo o país
Sob esse úmido pica pau
Dia e noite
Sob o sol e a chuva
Agora estamos face a face
O que se pode dizer pra minha face
Uma vez descansei encostado numa árvore
Por tanto tempo que
Fiquei preso a ela
Esse tipo de amor é terrível
¹ Pierre Reverdy (1889 – 1960): poeta surrealista francês, que não conhecia até então, considerado um dos mais influentes de seu período.

[http://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57232]

Como ser perfeito

Durma bem.

Não dê conselhos.

Cuide bem dos dentes e gengivas

Não tenha medo de nada além do seu controle. Não tenha medo, por exemplo, que o prédio vai desabar enquanto você dorme, ou que alguém que você ama vá morrer de repente.

Coma uma laranja todas as manhãs.

Seja amigável. Isso vai te ajudar a ser feliz.

Aumente seu batimento cardíaco para 120 batidas por minuto por 20 minutos seguidos quatro ou cinco vezes por semana fazendo algo que te agrade.

Tenha esperanças por tudo. Não espere nada.

Cuida das coisas próximas primeiro. Limpe seu quarto antes de salvar o mundo. Então salve o mundo.

Saiba que o desejo por ser perfeito é provavelmente uma expressão velada de outro desejo – o de ser amado, talvez, ou de não morrer.

Faça contato visual com uma árvore.

Seja cético com todas as opiniões, mas tente ver algum valor em cada uma delas.

Vista-se de modo a agradar tanto você quanto aqueles a seu redor.

Não fale rápido.

Aprenda algo todos os dias. (Dzien dobre!¹)

Seja bom com as pessoas antes de elas terem um motivo para se comportarem mal.

Não fique bravo com nada por mais de uma semana mas não esqueça do que te deixou bravo. Segure a raiva a um braço de distância e olhe pra ela, como se fosse uma bola de vidro. Então a adicione a sua coleção de bolas de vidro.

Seja leal.

Vista sapatos confortáveis.

Escolha suas atividades de modo que elas demonstrem um equilíbrio agradável e variedade.

Seja gentil com os idosos, mesmo quando eles são abrasivos. Quando você envelhecer, seja gentil com os jovens. Não lance sua bengala neles quando eles te chamarem de Vô. Eles são seus netos!

More com um animal.

Não perca muito tempo com grandes grupos de pessoas.

Se você precisar de ajuda, peça.

Exercite boa postura até ela se tornar natural.

Se alguém assassinar seu filho, arranje uma escopeta e exploda a cabeça dele.

Planeje o dia de modo a nunca ter que se apressar.

Demonstre sua gratidão às pessoas que fazem coisas por você, mesmo que você tenha pagado, mesmo que os favores sejam indesejados.

Não desperdice dinheiro que você poderia doar aos que precisam.

Espere que a sociedade seja defeituosa. Então chore quando descobrir que ela é muito mais defeituosa do que você havia imaginado.

Quando você pegar algo emprestado, devolva em condição ainda melhor.

O máximo possível, use objetos de madeira ao invés de plástico ou metal.

Olha lá aquele pássaro.

Após o jantar, lave a louça.

Acalme-se.

Visite países estrangeiros, exceto aqueles cujos habitantes expressaram desejo de te matar.

Não espere que seus filhos te amem, para que eles possam te amar, se assim quiserem.

Medite sobre o espiritual. Então vá um pouco além, se tiver vontade.O que há no exterior (interior)?

Cante, de vez em quando.

Seja pontual, mas caso se atrase não dê longas e detalhas desculpas.

Não seja muito autocrítico ou muito autocongratulatório.

Não ache que progresso exista. Não existe.

Suba as escadas.

Não pratique canibalismo.

Imagine o que você gostaria de ver acontecendo, então não faça nada para tornar isso impossível.

Tire o telefone do gancho pelo menos duas vezes por semana.

Mantenha as janelas limpas.

Extirpe-se de todos os traços de ambição pessoal.

Não use a palavra extirpar com muita frequência.

Perdoe seu país de tanto em tanto tempo. Se isso não for possível, vá para um outro.

Se estiver cansado, descanse.

Cultive alguma coisa.

Não vagueie pelas estações de trem murmurando, “Nós vamos todos morrer!”

Conte entre seus verdadeiros amigos gente de vários estágios da vida.

Aprecie os prazeres simples, como o prazer de mastigar, o prazer da água morna correndo pelas suas costas, o prazer da brisa fresca, o prazer de pegar no sono.

Não exclame, “Como a tecnologia é maravilhosa!”

Aprenda a alongar seus músculos. Alongue-os todos os dias.

Não fique deprimido por envelhecer. Isso só vai fazer que você se sinta mais velho. O que é deprimente.

Faça uma coisa de cada vez.

Se você queimar seu dedo, bote-o em água fria imediatamente. Se você acertar seu dedo com um martelo, deixe sua mão no ar por vinte minutos. Você ficará surpreso com os poderes curativos do frio e da gravidade.

Aprenda a assobiar em um volume ensurdecedor.

Fique calmo na crise. Quanto mais crítica a situação, mas calmo você deve estar.

Desfrute do sexo, mas não fique obcecado com ele. Exceto por breves períodos na sua adolescência, juventude, meia idade, e velhice.

Contemple o oposto de todas as coisas.

Se você for tomado pelo medo de que nadou longe demais oceano adentro, vire e volte ao bote salva-vidas.

Mantenha viva sua criança interior.

Responda prontamente às cartas. Use selos atraentes, como aquele do tornado.

Chore de quando em quando, mas só quando sozinho. Então aprecie o quão melhor você se sente. Não se envergonhe por se sentir melhor.

Não inale fumaça.

Respire fundo.

Não banque o esperto com um policial.

Não saia da calçada até ter certeza que você pode atravessar a rua. Da calçada você pode estudar os pedestres que estão presos em meio ao tráfico enlouquecido e urrante.

Seja bom.

Caminhe por ruas diferentes.

De costas.

Lembre-se da beleza, que  existe, e da verdade, que não existe. Note que a ideia de verdade é tão poderosa quanto a ideia de beleza.

Fique fora da cadeia.

Mais tarde na vida, se torne um místico.

Use pasta de dentes Colgate com a nova fórmula de Controle do Tártaro.

Visite amigos e conhecidos no hospital. Se achar que é hora de ir embora, vá.

Seja honesto consigo mesmo, diplomático com os outros.

Não enlouqueça muito. É perda de tempo.

Leia e releia grandes livros.

Cave um buraco com uma pá.

No inverno, antes de ir pra cama, umidifique seu quarto.

Saiba que as únicas coisas perfeitas são um jogo de 300 pontos no boliche e um jogo de 27-rebatidas, 27-foras no baseball.

Beba bastante água. Quando perguntado o que gostaria de beber, diga, “Água, por favor.”

Pergunte “Aonde fica o banheiro?” mas não “Onde é que eu posso urinar?”

Seja gentil com objetos físicos.

Começando aos quarenta, faça um exame “físico” completo a cada tantos anos com um médico que você confie e com quem você se sinta confortável.

Não leia os jornais mais de uma vez por ano.

Aprenda a dizer “olá”, “obrigado”, e “palitinhos” em mandarim.

Arrote e peide, mas quietamente.

Seja especialmente cordial com estrangeiros.

Assista peças de teatro de fantoches e imagine que você é uma das personagens. Ou todas elas.

Leve o lixo pra fora.

Ame a vida.

Dê dinheiro trocado.

Quando tiver tiroteio na rua, não vá pra perto da janela.

¹ Bom dia! em polonês. Embora a grafia esteja errada, devia ser “dobry”. Mantive o original por razões óbvias – que vocês aprendam algo hoje também.

[http://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57243]

Tá, mas quem é Ron Padgett? Não tem muito da vida dele por aí. Ele é só um poeta de Oklahoma, que foi viver em Nova York, e se mesclou com a vanguarda da poesia de lá, inclusive os beats, entre outros poetas de diferentes movimentos. Hoje ele dá aulas, como a maior parte dos poetas que perduram e precisam virar acadêmicos pra pagar as contas. Ele também trabalhou de editor e traduziu gente como Apollinaire e Blaise Cendrars. [http://www.ronpadgett.com/]

Obs.: esse é a tradução de um  poeta do que pode virar uma série de traduções aqui no blogue. Tenho planejado isso faz tempo, fiz uns testes com Frank O’Hara e Raymond Carver, no finado blogue, pode ser que se realize aqui. Por enquanto a lista contém: Robert Pinsky, Frank O’Hara (mais dele), Anne Sexton, Eileen Myles, Roberto Bolaño, Bob Kaufman, além de aceitar sugestões – com critérios. Isso é pra amanhã? Não, não tenho data, o próximo pode vir só ano que vem.

*Essas traduções não devem ser levadas tão a sério. São, da minha parte, um exercício, tanto de língua estrangeira e tradução, quanto de escrita. Ao mesmo tempo, publicando aqui o resultado desses exercícios, posso apresentar a vocês poetas interessantes. É só isso, não tenho direito algum sobre a obra traduzida ou  credenciais (pesquisa, conhecimento; aqui não falo de títulos) para traduzir quem quer que seja profissionalmente.

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