Andei fumando uns tabacos aí… #1

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‘ello underlings-achem-I mean, students.

Seguindo a mesma linha das postagens sobre filmes e livros (com ideia de começar a fazer isso pra música também), vou falar um pouco sobre os tabacos para cachimbo que ando provando esses dias. Porque, sim, alguns de vocês podem não saber e outros podem achar estranho, mas é verdade que fumo cachimbo há quase 2 anos. Falo pouco sobre por ser um tema de baixa popularidade. Abri exceção porque eu quis, é a vida, o blog é meu e se eu quiser falar sobre tabaco eu falo.

Obs.: as escalas e notas abaixo vão de 1 a 5. Só a “nota” tem valor qualitativo. Os outros pontos são mais de intensidade que qualidade por assim dizer. Um tabaco pode ter sabor 2 e ser bom, só significa que é bem sutil.

CORNELL & DIEHL – EXHAUSTED ROOSTER

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Produtores de tabaco dos EUA, C&D, não são exatamente artesanais – eles distribuem folhas de tabaco pra várias marcas americanas, além da deles, produzirem suas próprias misturas -, mas eles não são grandes indústrias de produção em massa, como a Scandinavian Tobacco Group ou MacBaren. Exhausted Rooster é uma mistura de virginias, dark fired burley (ou kentucky, é a mesma coisa) e perique. Primeiro tabaco da C&D que provo, fui negativamente surpreendido pelo aroma da lata. Pra quem não sabe, o sabor do kentucky costuma ser mais enfumaçado, forte, quase um molho de churrasco, e isso transfere pro aroma da folha antes da queima também. Aqui não. Na lata, o cheiro que dominava era de bala, um frutado bem doce e artificial que me repeliu – mais tarde, descobri que vinha do virginia. No cachimbo, apesar dos pesares, o sabor adocicado some rápido e o gosto natural dos tabacos toma conta. O perique é bem suave, não tão apimentado quanto se espera, e o virginia quebra bem a força da mistura kentucky+perique, que pode ser bem forte, dependendo de quem produz o tabaco. A mistura vem em flakes, que são faixas prensadas de tabaco, bem fáceis de desmanchar. A queima é irregular, mas isso é culpa minha por não deixar o tabaco secar o suficiente, mesmo assim a fumaça não esquenta. Em geral, parece precisar de mais tempo descansando pra arredondar por completo. Não está mal, mas podia ser melhor. O kentucky ajuda muito, e a lata, já aberta faz algumas semanas, mostra sinais bons de amadurecimento – isso porque minha lata já tem um ano. Vou continuar fumando bem aos poucos, certo de que só vai ficar melhor com o tempo. Aos que têm uma lata de Exhausted Rooster em casa (como se algum leitor fumasse cachimbo,  mas vai que algum confrade me acha via google), indico paciência, vale esperar. Se vou comprar outro… não sei, me entendi melhor com outras misturas desse tipo, que não precisam de todo o período de amadurecimento pra ficarem boas.

Sabor: 3 (aromatizante doce frutado detectado) / Força: 4 / Nicotina: 3,5 / Nota: 4 (começou como 3,5, mas melhorou)

BRIARWORKS INTERNATIONAL – BACK DOWN SOUTH

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E foi assim que eu descobri que a C&D talvez às vezes enlate folhas não tão maduras. Assim como Exhausted Rooster, Back Down South, ao abrir a lata, exalou um cheiro forte de bala de framboesa de 1,99. Mas Back Down South tem o agravante de ser só Virginia e Perique, sem aquele amargor defumado do Kentucky. E o que Briarworks tem a ver com C&D: eles usam as mesmas folhas de tabaco, o pessoal da Briarworks só mistura e enlata. Só posso elogiar a embalagem do pessoal da Briarworks, com o pote à vácuo, muito bom acabamento e perfeito pra conservação a longo prazo, mas o tabaco em si foi uma decepção. Pela descrição do produto, imaginava algo um pouco mais apimentado, terroso, com aquele toque de grama dos Virginias mais claros. Não foi isso que recebi. Recebi um gosto bem doce – enjoativo -, artificial, que só foi aliviar depois de 6 meses envelhecendo, mas ainda está presente. Não é horrível, já fumei coisas piores, mas não pretendo repetir a experiência, depois que terminar essa “lata”. Lembrando que essas impressões são bastante pessoais, é possível que a doçura desse tabaco agrade alguém.

Sabor: 3 (aromatizante doce frutado detectado) / Força: 3 / Nicotina: 3,5 / Nota: 3 (começou como 2,5, mas melhorou)

MCCLELLAND – SAMOVAR

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Há quem chame mistura inglesa, há quem chame mistura balcânica, estou quase certo de que, se existe paraíso, deve de ter tabaco assim por lá. Tabacos orientais, mais Virginia, mais Latakia Síria, que anda escassa por razões óbvias. Entendo porque os velhos cachimbeiros falam tanto dos bons tempos que não voltam mais, se antigamente a Latakia Síria estava em todos os cachimbos – bons tempos mesmo. As latas da McClelland têm um detalhe: cheiro de ketchup. Dizem que é porque eles tratam com vinagre as folhas de tabaco, pra diminuir a alcalinidade e ajudar na conservação. Pode ser, o bom é que não transfere pro gosto, por algum motivo. O sabor em si é caso à parte.  Bem difícil de explicar. Mesmo. Posso até dizer que é impossível porque não existem equivalentes precisos. Tem o tom defumado da latakia, mas muito de leve. Tem o toque agridoce, temperado que a combinação de Virginias com Orientais costuma formar. Tem algo de herbáceo, de fato como um chá – daí o nome, Samovar, tirado daqueles utensílios russos usados pra esquentar água de chá, normalmente com carvão ou madeira. É também amadeirado, não tão defumado quanto a latakia costuma ser. Dizem que lembra chá Oolong, mas eu nunca provei disso pra comparar. Talvez meu paladar não tenha referências o suficiente pra por em palavras a complexidade dessa mistura, mas vou insistir que é porque é único o suficiente pra tornar fúteis quaisquer adjetivos ou comparações.

Sabor: 4 / Força: 2,5 / Nicotina: 2 / Nota: 5

Como sempre, por morar sozinho e nunca fumar na presença de outros, não tenho meios de julgar o cheiro que a fumaça deixa no ambiente. Eu gosto.

Para melhor compreensão dos termos utilizados e nomes das folhas, visite a seção tabacaria do blogue.

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O cachimbo e a necessidade de parar*

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Marcel Duchamp ilustrando muito bem o que eu quero dizer com isso tudo.

Uma coisa que não é novidade pra ninguém é que vivemos um tempo estranho. Tudo é rápido e conectado, nada é o que um dia se acreditava ser (o que, pra maioria das coisas, até que é bom), e persiste uma sensação de perigo iminente e pressa, principalmente pressa. A tecnologia, que deveria nos ajudar a lidar com tudo isso e facilitar nossas vidas, acaba nos mimando. Um começo bastante sério para o que esse texto pretende tratar, comecei a perceber, mas não vejo isso como literatura, é só um blogue – meu padrão de qualidade vive atrapalhando minhas postagens e ideias. Mas é melhor eu não começar com as divagações tão cedo.

Falando em mimo, todas essas facilidades e “inovações” diárias me fazem pensar nessa cultura do entretenimento imediato que se instalou – acho que começou com a televisão, mas o YouTube nos levou ao extremo. Tudo tem que ser rápido e a nossa maneira. O que não se encaixa não merece atenção, é chato. Filmes precisam de cortes a cada cinco segundos e ação e explosões. Livros precisam “prender” o leitor com parágrafos curtos e linguagem “dinâmica”. De certa forma, se a televisão começou isso tudo mesmo, é irônico, porque o formato rígido da programação televisiva torna difícil a adaptação dessa mídia aos tempos de hoje, tanto que a internet a está absorvendo (Netflix, YouTube – repito).

Se eu dissesse que tudo isso não me atrai, estaria mentindo. Mas faço um esforço consciente para resistir. Acho perigosa a rendição ao entretenimento constante. É preguiçoso e não leva a lugar nenhum. Com o tempo foi ficando mais fácil e, ao aprender os truques dessa armadilha, deixou de ser tão atraente. Vez ou outra, sinto a necessidade de desligar o cérebro e me deixar levar pela velocidade do mundo, mas dura pouco – outra ironia? – e demora pra voltar. Ainda assim, com trabalho, planos e tudo mais que fazemos pra sobreviver, acho necessário parar. O entretenimento constante torna isso difícil. É difícil tirarmos um tempo para reflexão. Quietude, isso é o mais importante. A digitalização de tudo e toda a praticidade matou os velhos rituais que nos desaceleravam (se flutuo entre o nós e o eu é porque parte do que falo é geral e outra parte pessoal).  E, não bastasse, a vida profissional insiste em invadir, discretamente e com um sorriso no rosto, a pessoal – oferecendo espaços de lazer e todo tipo de incentivo para manter os funcionários ativos o máximo de horas por dia (assunto pra outro texto, quem sabe). Já é difícil ter tempo para essa quietude, esse momento de reflexão, e quando temos, somos atraídos para longe disso por todo o universo de entretenimento imediato que nos cerca e incentiva à distração, ao barulho e às luzes pulsantes.

O que me ajudou a fugir disso foi o cachimbo. Esse hábito novo me força a parar por duas horas pelo menos e me ajudou a recuperar a compreensão do prazer no ritual, na conexão verdadeira com um ato. Existe uma relação entre o fumante e seus cachimbos. Eles precisam ser descobertos de certa forma. Cada um age de um jeito, conforme seu tamanho, o tipo de material de que é feito (só tenho de briar, mas quem fuma em meerschaum sabe a diferença, assim como todos os outros tipos de material que podem ser transformados em cachimbo). É necessário atenção, paciência e tempo para aprender a lidar com um cachimbo, e os tabacos são a mesma coisa. O processo de verificar a umidade do tabaco, encher o cachimbo, acendê-lo, encontrar o ritmo da fumada para mantê-lo aceso sem que ele superaqueça: é um ritual, assim tratado pelos indígenas e segue até hoje, talvez sem os mesmos significados espirituais, que ainda não tive tempo, mas tenho o objetivo de estudar. Terminado o ritual – que cada vez fica mais simples -, pode-se sentar na poltrona e relaxar. Quem sabe ouvir um disco – ouvir, de fato, não só clicar duas vezes num media player enquanto se fuça a vida dos outros nas redes sociais ou se procura distrações -, ler um livro sem se preocupar com ritmo de leitura e se deixar levar pelas palavras enevoadas pela fumaça que dança pela sala, ou só pensar. Tem também o relaxamento químico da nicotina, que ajuda, mas não é tudo. Digam o que for dos perigos de fumar, mas tenho certeza que é mais saudável que se meter em um engarrafamento por horas (as fumaças do carro, mais tóxicas que de qualquer tipo de tabaco), encher a cara para esquecer o dia (álcool como compensação, ao invés de prazer), se trancar por horas num escritório se preocupando com mais e mais dinheiro e com o dinheiro dos outros. Saudável não é, de todo, mas acredito que ajuda a viver mais, um hábito desses, que te incentiva a parar e meditar, ou pelo menos viver melhor. Me lembra a história do Bertrand Russell, aquela em que ele exigiu um lugar na sessão de fumantes do avião – no tempo que isso existia -, do contrário ele não viajaria, se impedido de fumar seu cachimbo. O avião caiu e só sobreviveram aqueles que estavam na sessão de fumantes. Trágica a história, óbvio, mas que tem uma ironia nela, tem. E ele não morreu de câncer, apesar de ter levado um cachimbo na boca desde os 23 anos, se não me engano (pode ter sido desde os 21 ou 25).

Claro que você não precisa fumar um cachimbo pra parar. Faça aquilo que funciona pra você. Quem sabe arranjar uma vitrola, começar uma coleção de discos (é barato nos sebos). O ato de levar o disco à vitrola, botá-lo pra tocar, é um ritual. E não facilita fazer outras coisas ao mesmo tempo, como media players fazem. Livros, sem cachimbo, também ajudam. Um filme mais lento, meditativo, sempre faz bem; um Tarkóvski ou Bela Tarr. Se está ao seu alcance, visitar museus e realmente absorver as obras, senti-las. Porra, meditação é grátis, basta sentar no chão e se conectar ao universo – não importa se a ciência diz que funciona ou não, você para por um instante e se permite relaxar; mal não pode fazer. Se você não for dado aos tabacos, mas, dentre os paraísos artificiais, preferir o álcool, um bom uísque ou uma cerveja artesanal ou vinho ou conhaque (etc.) pode te dar esse tempo de quietude. Mas tenha certeza de que a bebida é um momento de prazer e atenção, e que você está se dedicando ao copo e o que ele te oferece, não tentando ficar bêbado o mais rápido possível. Principalmente, e digo por experiência, não beba pra esquecer ou relacione tristeza com bebida. Nenhum mal hábito combina com tristeza, na verdade, mesmo que faça você se sentir melhor. É uma associação perigosa, gera condicionamento e, quando você se dá conta, está usando da bebida como remédio mesmo ela já tendo se tornado a doença.

É a esse tipo de parar que eu me refiro. Exercícios de paciência, talvez. Voltando aos cachimbos, há quem ache que é necessário um cachimbo caríssimo, de marca, para uma boa fumada. A maior parte dos meus foram relativamente baratos, e dois deles são de marca desconhecida. No começo eles me deram trabalho. Deixavam um gosto estranho, a madeira esquentava muito rápido. Ao invés de largar os cachimbos, fui devagar, aprendi a lidar, pacientemente, com eles. Hoje estão tão bons quanto os mais caros. Mostra o quanto paciência e dedicação podem ser importantes. Se te parece que a frase anterior pode servir pra tudo, você está começando a captar a ideia desse texto.

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Don Julión comprende.

Parar, agora que tenho a chance de botar essa ideia em palavras, é mesmo um conceito abstrato, talvez algo que nem eu tenha conseguido compreender completamente (vejam que todos os exemplos de parar que dei envolvem fazer alguma coisa – apenas algo mais lento e que pede reflexão). Pode ser que seja tudo bobagem da minha cabeça. Sei bem de umas pessoas que não conseguem. A ideia de sentar num sofá e ler ou só respirar por uns minutos é torturante. Pessoas que precisam estar em movimento o tempo todo. Isso é perfeitamente aceitável. Apenas um outro jeito de ser. Não sei. Pode ser que a necessidade que eu sinto de parar, essas pessoas não sintam nunca. Precisaria passar uns dias na pele delas pra saber, o que é impossível. E criar vínculos mais profundos com objetos… não sei se é possível. Mas, em tempos de descartabilidade, é algo que muito me atrai nos cachimbos, a demanda por cuidado e tratamento. Livros são a mesma coisa. Largue uma biblioteca aos cuidados do tempo e as traças tomam conta. Discos são assim também, mofam. Pode ser questão de personalidade, vai ver gosto de coisas lentas e que requerem cuidado e tempo e paciência. Por isso, quando fumei um cachimbo pela primeira vez, fui tomado pelo ritual e só quis aprender mais e me aprofundar.

Estou mesmo divagando e contornando assuntos sem chegar a lugar nenhum dessa vez, não é? Acho que a mudança pro WordPress, por algum motivo misterioso, me deu liberdade (totalmente interna – “meus leitores” nunca tomaram parte na forma do conteúdo, ninguém nunca se importou tanto) de fazer esses textos mais largados, como lascas arrancadas direto da vida. Uma espécie de exercício pros dedos. Manter um blogue também se encaixa nessa minha lista de atividades reflexivas, acabei de perceber. Escrever em geral, seja mantendo um diário, organizando as ideias, até coisas mais… públicas, por assim dizer. Um jeito de encerrar isso é dizer que, se você se identificou de alguma forma com a necessidade de parar, sugiro que experimente usando esses métodos que descrevi. Quem sabe se aprofundar nos seus hobbies, procurar novos. Ou só refletir. Acho que ainda é valiosa a citação em “Le Petit Soldat”, do Godard, de 1963, que diz, mais ou menos: o tempo da ação terminou, começou o tempo da reflexão. Acho que, se ele dizia que o tempo da reflexão havia começado então, na década de 1960, nunca de fato se deu esse começo. Ficou como ideia, como ideal, nunca posto em prática. Mas nunca é tarde, nem 4 décadas depois.

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*Percebi tarde demais a ambiguidade no parar do título. Não tenho, ainda, intenção de parar com o cachimbo. Poderia mudar para algo como “necessidade de reflexão”, mas é tão pretensioso e não passa a ideia completa. Parar, ambígua que possa ser, é a palavra certa.

Tabacos Dunhill

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Obrigado, tio Alfredo.

Todo fumante de cachimbo tem muito que agradecer a Alfred Dunhill, o velho cavalheiro inglês, especialista em tabacos e inventor, criador da marca Dunhill, hoje mais conhecida por seus artigos de luxo, mas que, nos velhos tempos, vendia os melhores tabacos da Inglaterra. Na época já havia o foco nos produtos de alta qualidade e acabamento, principalmente os cachimbos, mas não era tão ridículo quanto hoje. Basta vocês verem a imagem tão simpática do seu Alfred lá em cima, e o templo patético de ostentação abaixo.

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Digam o que for, acho ridículo. E, não bastasse, eles esconderam o tabaco. Uma vergonha.

Mas que têm de especial os tabacos da Dunhill? Antes de mais nada vou explicar para os não fumantes certo aspecto da “comunidade” cachimbeira. Essas marcas clássicas de tabaco são muito antigas. As receitas das misturas, mais ainda.  Sendo assim, quando analisamos misturas antigas de tabaco, é necessário encarar que ela não é como a original. Sim, vá a qualquer fórum de internet sobre cachimbo, a quantidade de senhores na casa dos 70 anos ruminando sobre como tudo era melhor antigamente é espantosa. E eles devem estar certos, não sei. Comecei a fumar cachimbo em 2015, perdi muita coisa. Nasci em 1991, porra, perdi quase tudo. Em que isso afeta a Dunhill? Afeta porque há décadas as misturas originais do Alfred deixaram de existir. Começando em 1981, a empresa Murray’s, parte da British American Tobacco, comprou os direitos de produção e distribuição das misturas da Dunhill. Aí houve a primeira grande mudança. Em meados de 2005, a Murray’s passou a produção  para a Orlik/Scandinavian Tobacco Group – que manteve algumas misturas, mas tirou de circulação tantas outras, foi um período mais instável (ou eu posso estar errado, cruzei com várias informações conflitantes na internet, é um mundo agitado esse dos cachimbos). Mas as misturas só voltaram a circulação em 2011, se não me engano, e até hoje eles anunciam relançamentos de misturas até então descontinuadas. Mesmo assim, tabaco é um troço vivo, uma planta. Nenhum lote é igual ao outro. O método de processamento hoje mudou, é mais industrializado (no caso da STG, outras empresas mantêm técnicas artesanais). Certos tabacos simplesmente não estão mais disponíveis (latakia síria, estou olhando pra você). Uma mistura enlatada em 2015 não é a mesma da enlatada em 1915. Além do mais, antigamente lojas de tabaco tinham “o especialista”, que fazia misturas personalizadas etc. Quase nada disso existe mais. Cabe ao fumante de cachimbo se contentar com o que existe hoje – …ou tentar mudar as coisas.

Mesmo assim, nomes iguais são usados apenas por familiaridade. Dunhill, como produtora de tabacos, há décadas não existe. Mas, principalmente entre os da velha guarda, é um nome que significa tabaco. E os nomes icônicos das misturas também guardam aquela nostalgia. Pronto, agora vocês sabem. Os nomes do passado são só isso, identidade. A receita exata já se perdeu há muito. Não é nem conveniente, nem possível, reviver essas receitas com exatidão.

O que é diferente entre os tabacos da Dunhill (STG) e os das outras marcas? Bom, eu diria que os da Dunhill são seguros. Eles, nesse aspecto, são perfeitos para os iniciantes. Os cortes são muito bem executados (o melhor ribbon cut que já vi é da Dunhill), as misturas são exatamente o que se espera da descrição. Raríssimas vezes um tabaco da Dunhill vai oferecer uma coisa e entregar outra. É uma experiência livre de surpresas – o que nem sempre é bom, mas é bom para os iniciantes. Até o grau de umidade nas latas costuma vir no ponto certo, facilitando a fumada, tornando tudo mais agradável. Para melhor compreensão do que cada mistura da Dunhill pode oferecer, vou fazer um resumo-avaliação das que já provei até hoje. Não é o catálogo inteiro, mas é a maior parte e pode servir de guia para quem está começando ou quem já fuma e tem curiosidade de conhecer algo da Dunhill ou quem não fuma e não quer fumar, mas tá aqui por achar engraçado uma pessoa de 25 anos falando de cachimbo em pleno 2016.

O método de avaliação que vou aplicar pretende medir sabor (a complexidade do sabor da mistura), força (qual a intensidade do sabor da mistura – sutil/médio/forte etc.), e teor da nicotina (se vai ou não te derrubar). A nota vai variar de 1 a 5. 1 sendo mais fraco, 5 sendo mais forte. Lembrando que a nota não mede qualidade. Uma nota 3 (média) pode ser excelente, justamente o que se espera para determinada mistura. E, se você for iniciante mesmo, sugiro que fique longe, por enquanto, das misturas nota 5 em nicotina.

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Royal Yatch não está na lista abaixo, já que ainda não fumei essa. Mas lendas a cercam dizendo que é a mistura mais forte em nicotina da Dunhill.

Early Morning Pipe: esse é considerado um bom tabaco para primeira vez. Eu acho, talvez, um pouco sutil demais. Uma mistura inglesa (virginias, orientais/turcos e latakia), os orientais dominam a fumada, mas são bem leves. Pessoalmente, quando fumei, achei quase sem gosto. É tabaco de qualidade, mas não é pra mim. Talvez me faltasse percepção na época pra captar as nuances. Talvez ele não tenha muito a oferecer. Muita gente gosta.

Força: 1  /  Sabor: 2,5  /  Nicotina: 1

Standard Mixture: irmão adulto do EMP. É uma mistura inglesa mais equilibrada, não necessariamente robusta, mas notável. Diria até que é mistura inglesa média padrão (vide nome). Perfeito feijão com arroz dos tabacos. Serve para qualquer hora de qualquer dia. Esse sim, eu consideraria o melhor para iniciantes,  para ensinar o que cada tabaco faz, embora eu ache meio aguado.

Força: 2,5  /  Sabor: 3  /  Nicotina: 2

Durbar: essa é a mistura balcânica da Dunhill. Por definição, os orientais conduzem e dominam a fumada. Considero mais saborosa essa mistura que as citadas até agora. Um pouco mais interessante, diferente. Tem um amargor típico dos tabacos orientais/turcos.

Força: 3  /  Sabor: 3,5  /  Nicotina: 3

London Mixture: aqui começa a “polêmica”. Há quem diga que esse tabaco é igual ao Standard, com um pouco mais de latakia. Eu discordo. Acho que é mais próximo do Durbar, com mais latakia. Ele tem o mesmo amargor, mas é tomado pelo enfumaçado da latakia de um jeito bem diferente do Standard e do Durbar. Gosto muito. Pretendo comprar outra lata desse um dia, dependendo da disponibilidade e do que mais estiver na minha lista.

Força: 3,5  /  Sabor: 3,5  /  Nicotina: 3

My Mixture 965: meu primeiro tabaco da Dunhill, se não me engano. Na época, lembro de ter me impressionado com a força. Hoje, ele é perfeito pra uma fumada de meio de tarde nos fins de semana, ou pra quando se quer encerrar um dia com algo forte, mas não muito, só o suficiente pra ser notado. Combina bem o defumado da latakia com o doce do black cavendish (folha de virginia curada, naturalmente açucarada). Bem equilibrada, excelente mistura inglesa para preparar o iniciante para uma futura incursão no mundo dos tabacos mais fortes.

Força: 3,5  /  Sabor: 4  /  Nicotina: 3

Nightcap: e falando em tabaco forte, lendas cercam essa mistura. Bem forte em latakia, extremamente defumado, com uma leve picância causada pelo perique, essa é a mistura inglesa que vai te dizer se você ama latakia ou odeia. Muito se diz sobre seu grau de nicotina, mas acho que é lenda. Em resenhas de internet, não raro se vê alguém dizendo: “fumei nightcap uma vez; quando acordei, estava pelado em cima de uma estátua numa praça do centro da cidade.” Não é nem de perto tão forte. Não indico para os iniciantes, mas, se você já conhece tabaco de cachimbo , teve seu batismo na latakia, vá em frente sem medo. Se está migrando dos cigarros, provavelmente não vai te derrubar tampouco. É um dos melhores tabacos pra encerrar o dia. E de fato encerra. O sabor é suficientemente forte para tomar conta da sua boca e invadir quaisquer fumadas posteriores.*

Força: 5  /  Sabor: 5  /  Nicotina: 3,5

Dunhill Flake: virginia pura, e talvez, dentre os flakes de virginia, o mais equilibrado (para entender melhor a composição e outros termos, vá no meu primeiro post sobre cachimbo e tabaco, lá faço um apanhado geral para os não-iniciados). No espectro da variedade de sabores da virginia, desde a grama recém-cortada até terra, Dunhill Flake oferece um pouco de cada. Nem leve, nem forte. Enfim, tem gosto de tabaco. Pra mim, esse é o gosto que define o que é “tabaco”. Doce na medida certa, com um toque de mel, esse tabaco é uma maravilha num dia quente. Tende a morder minha língua, no entanto, não importa quão devagar eu fume.

Força: 3  /  Sabor: 4  /  Nicotina: 3

Elizabethan Mixture: como eu gosto desse vaper (virginia + perique). Colocaria facilmente no meu top 5 e está entre os tabacos que prefiro ter em estoque, se possível. Tem um sabor de damasco, pão de centeio, figo, mais um toque de pimenta que completa a coisa toda. É uma mistura fantástica, mas, devo admitir, não para os fracos de coração. Devo estar desenvolvendo uma tolerância foda pra nicotina, porque hoje ela já não me afeta tanto, mas no começo era uma relação de amor e ódio entre mim e dona Elizabethan. Hoje é só amor mesmo. Só requer técnica, porque ele queima rápido e vai maltratar os descuidados.

Força: 3  /  Sabor: 4  /  Nicotina: 4

Não mencionei aroma porque não sou capaz de julgar. Precisaria de alguém vivendo comigo pra me dizer se o cheiro é ou não suportável, mas, em geral, evito fumar quando tenho gente em casa. Como gosto do aroma de tabaco queimando, minha opinião não deve ser levada em conta por não-fumantes. É diferente do cigarro. Parece mais… puro. É difícil descrever.

Mas não tenho só elogios. Uma coisa nessa vida de álcoois e tabacos que aprendi foi: quanto mais perfeito, mais industrializado. Com o passar das latas e conforme se vai conhecendo outras marcas, a Dunhill acaba ficando sem personalidade. Claro, sempre vai haver espaço na minha rotação para as misturas deles, pelo menos para mim. A “perfeição” deles, por acaso, funciona. Só que, por algum motivo, sinto mais atração por aqueles cortes que parecem feitos a mão. Misturas que foram desenvolvidas para agradar ao especialista, não ao público. Enfim, detalhes, detalhes. Nem sempre Dunhill foi sinônimo de grande indústria, talvez seja apenas consequências dos tempos modernos. Mas estou devaneando, isso é assunto pra outro texto.

*Então tive oportunidade de fumar uma lata de Nightcap envelhecida 2 anos. Mudou completamente. Tabaco é uma coisa viva mesmo. A latakia, como é normal com o tempo, perdeu a intensidade, arredondou, ficou mais sutil. Os orientais e o perique dominaram a fumada. O perique principalmente, apimentou e bem a mistura. E a nicotina, puta que o pariu, fazia tempo que uma fumada não me derrubava desse jeito – um belo dum coice. Lá pelo fim a latakia deu as caras, somou aquele toque de couro e fumaça ao sabor. São esses breves prazeres sensoriais que fazem esse mal-hábito valer a pena.

A natureza e a virtude das indulgências – parte 2

Leia a parte 1: https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/02/25/a-natureza-e-a-virtude-das-indulgencias-parte-1/

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Este, meu interesse mais recente e que do ano passado para cá tomou conta de parte da minha vida, algumas das partes mais agradáveis, por assim dizer, o tabaco. Nunca fumei cigarros, o que torna este meu novo hábito um tanto mais pitoresco. Pelo que pude observar em estatísticas internacionais, por essa vasta rede de dados chamada internet, os jovens fumantes de cachimbo são migrantes dos cigarros. Quando cansam das tosses e aditivos e compras de dezenas de dezenas de maços, compram um cachimbo, por um valor – admito – bastante alto, que se torna um companheiro para a vida, e algumas latas de tabaco para cachimbo – também caras, no Brasil – que duram por mais de um mês. Eu não segui essa onda. Não sei de onde vim para me ver dentro desse mundo, para dizer a verdade. Houve, definitivamente, uma influência por parte dos grandes fumantes do passado. Não que eu acreditasse que compartilhar desse hábito fosse me deixar mais próximo deles. Havia minha própria curiosidade para com a nicotina, contida somente pelos danos à saúde associados aos cigarros, que eu costumava temer. Ao mesmo tempo, esse interesse, tanto me refiro agora ao tabaco quanto ao álcool, deve partir daquele velho conceito de desejo de morte. Não exatamente uma vontade de morrer, mas de pegar aquilo que mata pela mão e dizer: vem. Não tanto para demonstrar coragem, é mais próximo do sentimento que leva pessoas a pularem de um avião equipados apenas com um paraquedas, e faz tão pouco sentido um quanto o outro. O tabaco, por outro lado – e esse é o lado que mais me atrai -, é um prazer sensorial, não emocional. Não atrai pela adrenalina, mas pelas impressões que ele tira dos cinco sentidos – e, sim, trabalha-se os cinco com os cachimbos e charutos.

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Um sonho de consumo.

Claro, tem também o prazer químico. Antes de mais nada, acho que os críticos do tabaco deveriam parar de insistir que a nicotina não gera prazer. Não, o prazer de fumar não é apenas o alívio de uma necessidade que antes não existia, mas passou a existir devido ao vício imposto pelo químico. Nada funciona assim. O cérebro não gera a necessidade por determinado estímulo partindo da ausência do tal estímulo. Para precisar sentir, é preciso primeiro sentir sem precisar. Talvez, principalmente para os fumantes de cigarro, essa necessidade – vício – surja muito mais rápido e, eventualmente, não se sinta mais nenhum estímulo, apenas alívio. Não sei, já falei que não fumo cigarros. Mas não é minha experiência com o cachimbo. Pelo que pude observar, dizer algo assim seria o mesmo que dizer que chocolate não tem gosto. O chocolate apenas, após ser ingerido tantas vezes, desperta uma necessidade no cérebro humano que precisa ser aliviada. E antes que digam que não há comparação, chocolate é tão viciante quanto cigarro, e faz muito mal se consumido em excesso. Arriscaria dizer que os dois são equivalentes – experimente comer 20 barras por dia e me diga se o efeito não é similar a fumar 20 maços. Os danos que o cigarro causa ao pulmão, traqueia, boca, dentes; o chocolate causa ao corpo, estômago, dentes etc. Pode, talvez, não causar câncer, mas causa diabetes e tudo que vem com essa doença. Enfim, pena que eu não veja alertas gráficos sobre os perigos do consumo excessivo de chocolate nas embalagens das barras, logo um produto tão consumido por crianças. (Sim, pretendo, ao longo do texto e da minha vida, lançar esses pequenos ataques às coisas que matam, mas são social e comercialmente bem vistas. Apelo emocional não é exclusivo aos antitabagistas.)

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Bertrand Russell, filósofo/matemático, frequentemente visto com um cachimbo na boca. Esta foto foi tirada no seu aniversário de 23 anos.

A nicotina, que causa o relaxamento característico, junto de uma sensação de alerta, aumento da atenção e capacidade de concentração (sim, existem estudos que dizem que a nicotina, com moderação, auxilia a memória e previne contra o Alzheimer e mal de Parkinson), mas que, quando em altas concentrações, pode causar náuseas, tontura e sonolência, é gerada naturalmente pela folha do tabaco. Aqui o que eu estava falando sobre o tal desejo de morte, a nicotina é uma espécie de inseticida natural que a folha desenvolveu. As concentrações das folhas, se grandes e comidas cruas, poderiam matar um humano. Ainda, mesmo sendo, por todas as definições, um veneno, na Grécia antiga, Heródoto, o historiador, já descrevia pessoas inalando a fumaça de folhas queimadas por meio de um objeto de argila que bem poderia ser um cachimbo primitivo. Antes disso, cachimbos e resquícios de tabaco foram encontrados junto às múmias no Egito. Sem falar que o consumo da fumaça emitida pela queima de tabaco e outras ervas é tradição em quase todas as culturas indígenas. Faz parte da história humana, em comum com o consumo de álcool, essa autodestruição em troca de prazer. E que essas minhas romanceadas não soem como uma grande defesa ao consumo de tabaco, é apenas parte da justificativa para o meu uso. Não incentivo ninguém a fumar, ou o contrário. Acredito plenamente que todos são responsáveis pelos seus próprios atos.

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Culpar este texto por seu futuro câncer de boca seria um ato de má fé.

Mesmo não sabendo o que foi que me atraiu no tabaco, já pego por esse hábito, sei ao menos explicar, dentre os diferentes meios de consumo do tabaco, por que o cachimbo. Tem algo no objeto e sua forma de preparo. Consideremos o cigarro. Ele vem pronto, dezenas de palitos cheios de tabaco e tantos outros químicos, enfileirados, prontos para acender. Basicamente fast food; rápidos, fáceis e eficientes. Cigarros não oferecem um longo período de contemplação nem sabores diferenciados a serem descobertos, mas, como não é o que o fumante de cigarro procura, não importa. O charuto, por sua vez, é mais próximo do cachimbo em nuance e tempo, mas um charuto é um charuto e, uma vez queimado – em uma, duas ou três horas -, ele se vai. Resta dele somente uma bituca inacendível e a memória do que ele foi. É como uma noite de sexo inesquecível, uma paixão que só pode ser verdadeira, mas que acaba ali, e os envolvidos nunca mais se encontram. As sensações podem ser revividas, mas, similar que seja, não é a mesma coisa. O cachimbo, este dura para sempre. Um bom cachimbo feito de briar vive mais que o dono. É um casamento, normalmente polígamo – é importante rotacionar os cachimbos, deixá-los descansar do fogo por pelo menos vinte e quatro horas. Eles carregam uma variedade aparentemente infinita de tabacos, em diferentes misturas de folhas, cortadas de tantas maneiras diferentes.

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Propaganda da Peterson, quando esse tipo de coisa ainda era permitido. Se bem que sou contra propagandas de tabaco. E contra propagandas de cerveja, fastfood, doces em geral, bancos, carros, governo…

E aqui retorno àquela mesma fascinação que descrevi quando falei sobre uísques e cervejas. A diferença entre cada folha de tabaco é tão pequena, mas, dependendo da espécie, local de plantio, método de cura e tratamento, tudo mundo, o sabor, o teor de nicotina, o aroma. E as misturas entre as diferentes folhas formam ainda mais variáveis.

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E falando de coisas proibidas, lembra dessa cena da sua infância?

Agora, aos que não fumam (todos os possíveis leitores, imagino), peço paciência. Cheguei naquela parte didática em que falo o pouco que sei das folhas mais presentes nas misturas. Sim, muita emoção.

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Dunhill merece e terá postagem própria.

Virginia: esse é o tabaco mais comum em geral, creio. Folha muito variável em si mesma, pelo tempo de cura. O que se diz é que, quanto mais escura a folha, mais robusta e forte em nicotina. Quando mais claras (e existem nomes específicos dependendo de cada método de tratamento e todas esses detalhes mágicos, e até os conheço de leve, mas não os memorizei e nem o objetivo aqui é servir de enciclopédia, seja para o tabaco ou para o álcool; o objetivo dessas postagens é mais pessoal e suas descrições têm caráter apenas contextualizante para o leigo completo, sem falar de que pode servir de introdução básica à introdução básica) tendem ao sabor mais cítrico, leve, com aroma de grama recém-cortada e chá de ervas aromáticas, doce, levemente açucarado. Conforme escurecem se tornam mais complexas, densas, de sabor mais terroso, a grama já não é tão fresca. O Virginia é um dos principais tabacos nas misturas, contrabalançam os tabacos de “tempero” – a serem descritos – e podem ser fumados puros. As misturas de tabaco de cachimbo mais famosas e aclamadas costumam ser Virginia puro, exemplo: Samuel Gawith’s Full Virginia Flake, Capstan Blue Flake ( favorito do Tolkien, diz-se), Dunhill Flake etc.

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Tolkien: o favorito da galera.

Burley: considerado um camaleão entre os tabacos, costuma ser usado para encorpar as misturas, já que, dependendo do tipo de Burley (e existem tipos, só não conheço muito bem essa folha para me estender sobre eles), ele se apropria de características dos outros tabacos que o acompanham, deixando somente a mistura com uma fumaça mais volumosa e um sabor amanteigado. Sozinho, no entanto, ele pode ser um belo tabaco de se conhecer. Temperado, com um sabor que lembra nozes, manteiga e chocolate, tem uma alta quantidade de nicotina*, mas vale a pena conhecer. É através de processos diferenciados de cura do Burley que sai o Cavendish, usado muito em aromáticos americanos (e brasileiros), e o Kentucky, tabaco forte e temperado, carro-chefe do JackKnife Plug (excelente mistura, capaz de derrubar uma mula, sobre a qual falarei em detalhes um dia). Exemplos de misturas com Burley: 4 Noggins – Bald-Headed Teacher (meu primeiro tabaco de qualidade, agradecimentos ao Dr. Luis Graciano pela indicação), Solani – 656 – Aged Burley Flake, Peterson’s Irish Flake (outra famosa por derrubar até os equinos mais fortes).

Latakia: sim, a misteriosa Latakia, folha da qual o iniciante escuta assim que adentra o mundo dos tabacos. Basicamente, são tabacos turcos/orientais secados ao sol e enfumaçados na fogueira. Antigamente, a maior parte da Latakia vinha de… Latakia/Lataquia/Laodiceia, na Síria. Porém, nos últimos anos, devido aos conflitos constantes na região, a folha passou a ser produzida no Chipre. Alguns produtores de tabaco ainda mantêm estoques de Latakia da Síria, datados da década de 1970, 1980. Está cada vez mais raro, mas é possível encontrar. A diferença? Não sei, mas estou para descobrir, comprei uma lata de tabaco que leva Latakia da Síria, se perceber algo conto para vocês. O que dizem é que a Latakia da Síria é mais aromática e sutil, menos enfumaçada que a do Chipre. É, de todas as formas, um tabaco de tempero. Seu sabor é forte e facilmente perceptível, até em pequenas quantidades. Em grandes quantidades, domina a fumada. Exemplos: Dunhill’s My Mixture 965 (exemplo em que a Latakia tempera), Dunhill’s Nightcap (exemplo em que a Latakia domina – entrarei em detalhes na minha postagem sobre a Dunhill), Esoterica Tobacciana Margate, Capitain Earle’s Stimulus Package (quase Latakia pura).

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Derrida – fumando um cachimbo e confundindo as pessoas.

Turcos / Orientais: outro tipo de tabaco de tempero, os tabacos que enfumaçados viram Latakia são os chamados Turcos ou Orientais. A razão disso é, obviamente, devido à procedência destes. Existem vários tipos de orientais: Yenidje, Izmir, Basma, Samsun etc. Normalmente associados ao sabor agridoce, com um aroma de incenso, altamente aromático (não aromatizado**). Existem diferenças entre cada tipo além do nome, mas acho que só os grandes especialistas são capazes de reconhecer. Com exceção, talvez, do Basma, esse é reconhecível em qualquer canto. Exemplo: Peterson’s Old Dublin (contém Basma e outros orientais), Dunhill’s Durbar, Balkan Sasieni. Misturas de Virginia, Latakia e Orientais/Turcos costumam ser chamadas de Misturas Inglesas. Existem variações, misturas que foquem no oriental podem levar o nome de Mistura Balcânica (sim, pelos tabacos orientais virem da região dos Bálcãs), e as que levam Black Cavendish (não feito de Burley, mas Virginia, e sem aromatizantes) são chamadas de Mistura Escocesa. Particularmente, acho frescura, chamo todas de Mistura Inglesa, até porque costuma existir controvérsia entre as classificações específicas de certas misturas. No fim das contas, o que vale é a fumada, “a rose by any other name…”.

Perique: a pimenta dos tabacos, a trufa – dizem alguns. Sim, dentre os condimentos, este é o mais poderoso. Forte em nicotina, fortíssimo em sabor, o perique, na minha opinião de merda, torna tudo interessante, quando bem medido. Não pesquisei sua história e nem pretendo, sei que, originalmente, provém da Louisiana, nos EUA. Não se ouve muito de gente que fume Perique puro, salvo alguns fortes de coração e pessoas interessadas em aprender a misturar tabaco. Reza a lenda, Aleister Crowley curtia um perique puro ensopado no rum. Histórias… histórias…, mas pode ser verdade. Normalmente, ele trás um lado picante às misturas. Pode também dar um amargor, uma lembrança de damascos e ameixas e uvas passas, pão recém-assado. Uma combinação tradicional é Virginia com Perique, conhecida nas ruas como Va/Per. Tenho um carinho especial por essas.  Exemplo: Dunhill’s Elizabethan Mixture (entre meus favoritos, sério, quero sempre ter uma lata dessa mistura em estoque), STG’s Escudo (clássica), Hearth and Home’s Rolando’s Own (cítrica, diferente, meu primeiro Vaper).

E assim vai. Existem mais tantas combinações, mas esses são os principais tabacos e combinações encontrados por aí. Só esses já servem de diversão suficiente por muitos anos. Nem me pus a falar dos cortes (ribbon, shag, plug, flake), enfim, fica para próxima. Marco aqui o início da coluna Tabacaria (homenagem ao grande Dr. Nandinho Indivíduo). Nela falarei sobre tabacos, quem sabe cachimbos, esse tipo de coisa. Não vai tomar conta do blog, não se preocupem. É só que, com a mudança do blogspot pra cá, quis fazer algo diferente, mais pessoal. Então vejamos.

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E finalmente, Noam Chomsky (early years: acho que ele parou de fumar, não tem fotos recentes dele com um cachimbo), fumando e contabilizando crimes de guerra americanos – ele vai precisar de um cachimbo maior.

*Falo dos graus variáveis de nicotina, isso pode ser observado bem objetivamente: certas folhas carregam quantidades maiores de nicotina, certos métodos de cura amenizam ou acentuam essa presença, isso é fato. No entanto, o efeito que a nicotina causa no fumante, pelo que pude observar (e leve em consideração que essa nota é baseada somente em experiência pessoal), é comparável ao do álcool. Não, você não ficará bêbado fumando. Mas sabe aquilo que acontece conforme ganhamos experiência com bebida e passamos a acreditar que certas bebidas fazem isso e aquilo com a gente? Exemplos: tequila me deixa louco, agitado, falante; uísque me relaxa, me ajuda a pensar; cachaça me embriaga imediatamente. Todas essas bebidas tem o mesmo grau alcoólico, mas o efeito muda, e varia de pessoa pra pessoa, não limitado somente a resistência de um indivíduo ao álcool. Nicotina tem disso. Tem quem seja mais ou menos resistente a ela, misturas causam impressões diferentes em pessoas diferentes, tem quem interprete certas misturas como fortíssimas, que outros consideram amenas, e vice e versa. Se você se interessa pelo hobby de fumar cachimbo ou passar a se interessar com esse texto, não considere tudo que você ler aqui ou em outros lugares como regra, sua experiência pode ser outra.

**Usei o termo “aromáticos” e “aromatizantes” algumas vezes sem pensar que poderia causar confusão. Neste texto, quando me refiro às características aromáticas de um tabaco, me refiro apenas ao seu aroma natural acentuado. Existem tabacos naturais*** e aromáticos****.

***Naturais entre aspas. Atualmente, todo o tabaco para cachimbo leva algum químico, mas ele é usado antes do processamento para adocicar a folha, às vezes depois para arredondar os sabores. Não existe, hoje, tabaco 100% livre de aditivos. Existem tabacos que não levam aditivos que alterem o sabor real do tabaco ou gerem sabores totalmente artificiais.

**** Tabacos ditos aromáticos são os que realmente levam aditivos que alteram seu sabor. Por exemplo, o tabaco pode ser banhado em uma bebida alcoólica, um concentrado artificial ou natural de frutas, mel, baunilha, chocolate, café, enfim, sabores mais palatáveis para aqueles que nunca fumaram ou não se dão com o sabor/aroma do tabaco, ou para aqueles que vivem com alguém que não suporta o aroma do tabaco. Fumei alguns, não me agradaram tanto, embora tenha curiosidade de experimentar algumas misturas aromáticas por aí. Mas são ótimos para iniciantes. Um meio termo, são os tabacos como Stave-Aged e Frog Morton’s Cellar. Estes não levam aromatizantes, mas vêm com um cubo de madeira cortado de um barril usado para envelhecer uísque, passando o sabor para o tabaco. Nunca provei desses, mas é interessante.