Aos iniciantes, Béla Tarr, banalidades japonesas, Gao Xingjian (observações aleatórias #9)

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1 – Evitei o quanto pude colocar dicas de escrita nesse blogue, mas vim com uma e acho que ela deve ser compartilhada. Não antes que eu deixe claro que sou um merda e não preciso ser ouvido. Mal se pode chamar de dica, na verdade, é mais uma tentativa de esclarecimento. Não esquente a cabeça com certos e errados. Se explicações junto ao diálogo tiram a naturalidade, se aspas são mais corretas que travessões ou se o melhor é cormacmccarthear (estilo que tem todas as características de um diálogo livre e natural, mas nada tem de natural, com personagens divagando sobre a existência e o terror interminavelmente) de uma vez, lirismo, frases curtas ou longas, parágrafos longos ou curtos ou livros inteiros em um parágrafo – ou uma frase -, linguagem simples ou rebuscada ou achar o meio termo, história mundana ou épica, descrições detalhadas ou mínimas ou ausentes. Seu trabalho não é responder essas perguntas, mas usar das ferramentas – que são todas. Aprenda o método. Análises e julgamentos são pros críticos, e, lembrem-se, os críticos sempre vêm depois das obras. Existe esse esforço por fazer que o autor crie sua própria teoria literária – ou se obrigue a justificar sua obra com base em determinadas teorias – o que não é nada saudável pra arte. É impossível escrever – e só posso dizer isso com base nas minhas próprias dificuldades, passadas e presentes – sem cortar relações com ideias fixas do que é “boa literatura”. Não seja ingênuo, apesar de aberta, essa dica te deixa tão mais livre quanto responsável pela sua própria visão estética. Eu ainda não me resolvi com essa parte do esquema.

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2 – Tampouco acho possível ensinar escrita criativa. Técnicas e teorias são possíveis de ensinar; a escrita em si, ou qualquer outra arte, não. E nem deveria ser, num sentido educacional/doutrinário. Depois de se aposentar, em 2011, Béla Tarr (diretor húngaro) começou a film.factory numa universidade em Sarajevo. O que ele disse em entrevista foi que o mal das escolas de cinema estava na insistência dos professores em educar os alunos, quando esse não deveria ser o objetivo. A film.factory, encerrada no fim de 2016 por falta de verbas, tinha por objetivo colocar pessoas de gerações, origens e culturas diferentes, em uma mesma escola para trocar informações e buscar formas de renovar a linguagem do cinema. Ele comparava a ideia ao que houve na escola Bauhaus de arquitetura (sobre a qual eu nada tenho a acrescentar por ser analfabeto no tema). Concordo com essa visão e invejo quem teve a chance. Interação entre artistas experientes e novatos é essencial, independente dos gostos de cada um.

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3 – Falando em Béla Tarr, botei como objetivo do ano ver todos os filmes dele em ordem cronológica – ou todos que conseguir encontrar. Já vi O Cavalo de Turim e A Harmonia Werckmeister, mas preciso rever, são os tipos de filme para serem vistos várias vezes em uma vida. Agora quero seguir ordem cronológica, então o primeiro será O Ninho Familiar, de 1979, quando ele ainda se ocupava do realismo social sem tanta preocupação estética.  Pra me preparar pra Satantango, o filme de 7 horas e meia, comecei a ler o livro que deu origem ao filme, escrito em 1985 por László Krasznahorkai, na tradução pro inglês. Grande leitura, densa, blocos de texto que se expandem. Tem aquele humor negro à Beckett e Kafka, mas o cenário é um tanto mais desesperançado. Enquanto Kafka trata da fraqueza do indivíduo em uma sociedade opressora e Beckett trata do absurdo e da impotência humana de forma tragicômica, Krasznahorkai é uma espécie de profeta do apocalipse pra quem o apocalipse já passou e o resto de nós que não se deu conta ainda. É interessante quando dois artistas (no caso, Béla Tarr e László Krasznahorkai) têm uma visão tão próxima que suas histórias parecem se complementar, que um consegue passar criar a matéria-prima ideal pra obra do outro. Uma pena que, nem mesmo depois do László receber o Man Booker Prize ano passado, até agora nenhuma editora brasileira se interessou pela obra dele.

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4 – Enquanto lido com os parágrafos tortuosos e imensos de Satantango, contrabalanço com a simplicidade e o cotidiano em O Livro do Travesseiro, da Sei Shōnagon. Esta é uma das principais obras da prosa japonesa clássica. Consiste de uma série de anotações, feitas por essa dama da corte imperial, aproximadamente no ano 1.000, sobre tudo que a cercava. Ela descreve o que se passou com ela ou na corte em determinado dia, lista coisas que adora e coisas que odeia, sempre de maneira precisa, usando o mínimo de palavras para dizer o máximo. Esse estilo dela, de dar foco ao que a cerca, me fez lembrar dos filmes de Yasujirō Ozu (Era uma vez em Tóquio, Bom dia, Pai e Filho, são os que eu vi até hoje). Nenhum deles trata de grandes temas ou sequer parece acompanhar as coisas importantes que acontecem dentro de suas próprias histórias. O foco é no banal, no quieto. Noutro dia, vi Andando, filme de 2008 dirigido por Hirokazu Kore-eda, que segue o mesmo estilo, sobre dois irmãos (cada um com sua família), que vão passar um dia na casa dos pais, já bastante idosos. Então eles falam do passado, cozinham, tratam da passagem do tempo. Nada grandioso, mas de certa forma é, afinal existe e, pra maior parte de nós, é o todo da vida. Parece tradição japonesa esse tipo de retrato, essa forma de enxergar a realidade e fazer arte com ela… Acho que isso aqui é mais um esboço para algo maior que sinto que devo escrever algum dia. A maior parte dessas observações são exatamente isso: coisas que ainda não sei como escrever, mas esse é o resultado parcial. Ao mesmo tempo, você, leitor imaginário, descobre coisas novas e todo mundo sai ganhando.

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5 – As pinturas que ilustram o texto são de Gao Xingjian, que também é dramaturgo, romancista, contista, vencedor do prêmio Nobel de literatura em 2000. Que eu saiba, o único livro dele traduzido para o português é Montanha da Alma, mas está fora de linha e quase não se encontra ele por aí. A obra teatral é comparada com Ionesco e Beckett. Dá pra perceber a sensação de isolamento nas pinturas dele, grandes abismos, espaços escuros abertos, gente sem rosto vagando sem rumo. Em parte, os cenários são como os que Béla Tarr filme, os campos vazios de O Cavalo de Turim ou a cidade deserta em que algo terrível sempre parece prestes a acontecer em A Harmonia Werckmeister. Xingjian, com suas pinturas no estilo tradicional sumi-ê (sobre o qual não vou fingir entender nada, fora que utiliza uma tinta especial próxima do nanking e papel artesanal à base de arroz), também cria essa impressão de impotência perante algo muito maior e terrível. Influência do autoritarismo em que ele viveu? Talvez. O mesmo está em Kafka, Beckett, Ionesco, Tarr, Krasznahorkai. E todos viveram em períodos de autoritarismo. Outro esboço, isso aqui, talvez. Vejamos.

Sobre poemas de amor e reciclagem de textos, comunicação e pessoas novas, Stan Brakhage (Observações aleatórias #8)

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1 – Fuçando a finada versão blogspot desta bodega, achei uma postagem que queria reciclar e vi que já tinha feito. Reli o texto e, apesar de ainda concordar com ele – tem casos de textos velhos meus que eu mal consigo olhar na cara, com esse eu ao menos simpatizo -, ao ler um artigo sobre Stan Brakhage e a forma como ele usava a vida doméstica dele como matéria-prima pros seus filmes, principalmente Jane, sua primeira esposa, decidi que o queria reescrever sob outra perspectiva. Qual eu ainda não sei. O motivo está no fim do artigo, na descrição da conversa entre Stan, Jane e Hollis Frampton. Em resumo, Stan não entende por que todas as suas tentativas de retratar Jane saem mais como autorretrato (enquanto Jane já está cansada e quer sua privacidade de volta).

Então, conversando com uma colega de trabalho sobre uma garota com quem saí outro dia e como é difícil se comunicar no começo – sem correr o risco de interpretar mal, gerar constrangimentos desnecessários et cetera -, a colega, que sabe que eu escrevo – uma das poucas pessoas da minha vida pessoal que sabe disso -, me pergunta por que eu não escrevo algo pra garota, um poema ou coisa assim, ainda mais com dia dos namorados na porta. (Estava na porta no momento da conversa; fazer o que se essa colega é dada a saltos de romantismo?) Mal sabia ela, já tinha escrito dois poemas pra garota em questão. Um muito antes de chamá-la pra sair, outro sobre o encontro. Não tinha nem tenho interesse de fazer declarações, mas analisei os poemas e se valia a pena mostrar pra garota – que gosta de literatura, o que é um começo -, e vi que não importava, porque ela não entenderia o que há dela ali naquele texto. Sim, ela foi a fonte dos poemas, sem ela talvez eles não teriam existido daquela forma, mas ela não está retratada naquelas palavras, não sua essência. Tem mais de mim nos poemas que fiz pra ela do que dela. Mais que isso, os poemas que escrevi não foram pra ela, não foram pra ninguém. São poemas, como todos os outros que fiz, inúteis, pinturas de momentos feitas de palavras, sem dedicatória ou finalidade. Nem mesmo fiz pra mim. Fiz, se pra qualquer coisa, pro momento, ou coisa parecida.

Independentemente, não seguiria a sugestão da colega. Quem em sã consciência gosta de receber poemas? É muita pressão ter que ler um poema de alguém que supostamente gosta de você, seja o pedido de leitura uma espécie de declaração ou só perguntando se está bom. Duvido muito que exista ser humano que goste de receber poesias autorais como declaração de qualquer intensidade. Quer se declarar pra alguém, leia Vinícius, Pablo Neruda, ou I Wanna be Yours, do John Cooper Clarke; não leia Castro Alves ou Casemiro de Abreu, pelo amor de Erato, a não ser que sua amada seja uma virgem tísica em leito de morte. Mesmo esses poemas mal retratam alguém, só falam o que o poeta quer ser pra amada ou o que a amada faz que o poeta sinta – quando não falam o que o poeta quer da amada. Mantenho a conclusão da postagem original: se quiser retratar alguém, aprenda a desenhar, e até desse jeito…

Se postarei os tais poemas aqui? Dificilmente. Se fizer, não direi que são eles. Fica a proposta, será que vocês conseguem adivinhar quais são eles se eu os postar? Não, não conseguem. Se adivinharem, vai ter prêmio*.

*Válido apenas para pessoas que vivem a no máximo 1 quilômetro de distância de mim. Do contrário, o prêmio é um parabéns bem sincero.

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2 – Começar a conhecer gente é sempre a mesma merda. Comunicação é uma impossibilidade. Ou é muito difícil. Pensando bem, isso tudo é pessoal demais. Achei que fosse conseguir criar um meio termo entre a sinceridade e a invenção, ser vago o suficiente, mas não estou me sentindo vago. Por outro lado, tudo isso é tão banal que pode muito bem se aplicar a qualquer um ou qualquer coisa. É a dificuldade de se conhecer alguém sem ter acesso ao que realmente se passa na cabeça dessa pessoa. Há quem não se preocupe com isso, que ache que é sempre agradável, que todos ao redor sempre se alegram quando ele está presente – gente assim costuma ser a pior, a mais inconveniente. Mas acredito que a maior parte das pessoas, ou a maior parte que convive comigo, se preocupa com saber o que os outros pensam. Por mais que algo pareça ter ido bem um dia, só nos dias seguintes é que a realidade vai ficar clara. O momento costuma vir acompanhado de uma camada de névoa, que só se dissipa uns dias depois. Quando os dias passam e não se consegue esclarecer as coisas, a névoa dissipa, mas os arredores seguem obscuros. É normal. Às vezes estranho, mas normal.

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3 – Falando de Stan Brakhage, vi uns curtas dele esses dias. Nunca vi coisa parecida. Não vi as gravações que ele fez da esposa ou de amigos, só as obras mais conhecidas – mais associadas ao que ele tentava criar -, as feitas por manipulação direta: pinturas (animação direta) e colagens na película, danos físicos ao filme, cortes rápidos… Isto pra passar ao espectador uma experiência visual única. Não exatamente filmes, pois não têm narrativa, mas arte visual, um quadro em movimento. Difícil explicar, vou só jogar alguns que encontrei no youtube aqui para que vocês tenham a experiência vocês mesmos. Esse tipo de arte em vídeo é um novo interesse meu, então decidi compartilhar, mesmo não sabendo o suficiente sobre o tema ainda. Claro, ver numa tela de computador não basta, mas nossas chances de ver algo assim em telão é nula.

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4 – As pinturas que usei para ilustrar a postagem são do Cy Twombly. Temo ter exagerado na quantidade, mas essa edição das observações foi um pouco mais longa. Pode ser uma ideia pra daqui em diante, ilustrar o texto com pinturas que transmitem o sentimento que quero passar ou que passam por mim. Desde que vi o vídeo da School of Life apresentando a obra do pintor, tenho pesquisado a obra dele, passado tempo olhando as imagens das pinturas na tela do computador. Conforme o vídeo da School of Life, Cy Twombly trata da vida interior, da tentativa de representação das emoções. Talvez aceitar o sucesso do esforço de Twombly seja questão subjetiva. Eu aceito. Quando sinto emoções em conflito dentro de mim, uma querendo ocupar mais espaço que a outra, quando meu monólogo interno corre tão rápido e confuso que as frases e ideias não se completam deixando só leves esboços de milhares de coisas sem sentido na mente, quando acho que estou pra descobrir alguma coisa ou que preciso fazer alguma coisa mas não sei o que essa alguma coisa é, posso visualizar todos esses estados psíquico-emocionais representados nas pinturas de Cy Twombly. Agora me resta descobrir se é minha vida que anda uma sequência de pinturas do Cy Twombly ou se a vida que é, sem escapatória, feita destas pinturas.

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5 – E como gosto de encerrar essas observações indicando discos, o da vez é Glitter Glamour Atrocity, da White Hills, lançado em 2007. Uma das bandas mais interessantes do rock, e mais ativas. Como eu vivo me repetindo e insistindo nas minhas obsessões, sim, descobri a banda por causa de um filme do Jarmusch, Amantes Eternos. A banda aparece tocando “Under Skin or By Name”, desse álbum, num bar de Detroit em uma cena desse filme. Aí está, não posso fazer nada se foram os filmes dele que me fizeram descobrir tantas coisas. (Queria o disco todo, mas não tem no youtube. Não sei botar aqui o disco via Spotify. Fica a faixa que mencionei no texto e se gostarem vocês têm capacidade e meios pra encontrar o resto.)

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