Férias e insatisfação, produtividade, outros idiomas, John Giorno, Alban Berg (Observações aleatórias #10)

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1 – Falta só mais uma semana pras minhas férias. Mais exatamente, faltam quatro dias de trabalho, já que quinta que vem é feriado. Sim, estou contanto os dias, estou contando as horas. Se eu nunca entrei em detalhes sobre o meu trabalho por aqui é porque, em parte, eu não posso e, em parte, não é nada interessante, mas estou há seis anos na mesma empresa e me sentindo sufocado. A intenção é sair o quanto antes, mas aí somos levados a considerar aquelas velhas questões: o mercado não está mil maravilhas, essas e empresas e chefes só mudam de endereço, não estou tão satisfeito com o que eu faço apesar de ser a única coisa que eu estou formalmente qualificado pra fazer. A vontade real é largar tudo, mas não dá, porque o que vai botar comida na mesa do meu suposto paraíso imaginário? Então eu considero quão pouco rentáveis são as coisas que eu gostaria de fazer, isso levando em conta somente, dentre as coisas que eu gostaria de fazer, as que existem. Por favor, não me confundam com esses moleques que precisam se sentir realizados com o trabalho, de forma alguma. Por isso mesmo, o que vai acabar acontecendo quando eu voltar de férias, é: vou procurar outro emprego, enquanto mantenho o meu atual, talvez eu encontre e aceite o novo, talvez não, e, encontrando e aceitando, vou me empolgar com a novidade por um par de anos, enquanto continuo buscando realização (seja lá o que for isso) com outras coisas e projetos nada rentáveis. O que posso fazer agora é aguardar ansiosamente os dias passarem e aproveitar cada segundo dos meus trinta dias de liberdade.

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2 – Repararam que o blog está mais devagar? Melhor dizendo, o blog está mais devagar? Já não sei mais, a frequência aqui sempre foi instável. Usei a palavra produtividade no título da postagem, mas odeio essa palavra e tudo que ela representa e forma patética como ela é utilizada pela galerinha-empreendedora-motivada que ainda vai ser responsável pelo fim do mundo. Esclarecido este detalhe, acho que não posto tanto por não saber o que postar. Tenho lido, visto filmes, mas odeio resenhas; coisas têm acontecido, mas nem tudo dá pra escrever aqui; faz semanas que não escrevo uma poesia e os outros textos de ficção eu não quero publicar ainda; até tenho projetos de texto e rascunhos largados aqui, mas, ou eles se tornam coisas maiores (na minha cabeça), como o texto do Jim Jarmusch ou aquele sobre o punk rock em Nova Iorque, que estou prometendo a quase um ano, ou a ideia não veio pra que ele flua direito. Bom, nunca fui de me cobrar. Não estou frustrado com o blogue ou “travado” ou desgostoso, não pretendo de forma alguma parar. Só acho que a frequência aqui vai conforme a minha vontade, o meu próprio ritmo. Agora está assim, principalmente porque estou trabalhando em outras coisas (montando e revisando um livro de poesias, me convencendo a revisar outra vez um romance, escrevendo outra história que nem sei o que é ainda porque ando muito interessando em trabalhar com narrativas improvisadas…). Admito que às vezes tinha vontade de que as coisas se formassem na velocidade de um pensamento, mas um texto não surge no papel. O fato de eu não estar aqui semanalmente – nem vou fazer vocês rirem com um “diariamente”, afinal nunca aconteceu – não significa que eu não esteja trabalhando em algo.

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3 – Agora que sei o quão medíocre é meu espanhol, estou praticando outra vez, quero me aperfeiçoar. A intenção era focar nisso o ano todo, mas é setembro, volto pra Buenos Aires em três semanas e o progresso foi mínimo. Li alguns dos livros que comprei lá, vi uns filmes, mantive contato (bem pouco) com uma pessoa que conheci lá, mas não sei se ajudou. Já me imagino travando na chegada outra vez, pedindo pras pessoas repetirem a mesma frase duzentas vezes. Vejamos. Outra coisa que aconteceu foi o fim do curso de francês que comecei em 2015. Tenho uma relação de alguns anos com o francês, esquecendo e relembrando e esquecendo e assim por diante, mas agora quero me aperfeiçoar. É complicado aprender de verdade um idioma. O que costuma funcionar ou me ajudar nesse processo é a leitura. Só que, ao contrário do inglês e do espanhol, o que está havendo com o francês é a minha dificuldade de pegar livros mais acessíveis para as primeiras leituras. Não precisei disso pro inglês nem pro espanhol, mas começar as leituras em francês por Paul Éluard e Samuel Beckett não deu certo. Peguei emprestado Le Petit Nicolas e conseguia entender o texto, mas não passava da primeira página sem pegar no sono. Que tortura digna do diabo, não? Entender, mas não conseguir se interessar; se interessar, mas não conseguir entender.

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4 – Esse artigo sobre a exposição I ♥ John Giorno, em Nova Iorque, é muito bom. Ele que me convenceu a ilustrar essa postagem com as obras desse poeta tão esquecido. Há tempos quero falar dele, mas não conheço o suficiente. E a obra dele é tão vasta e se expande por meios tão diferentes que é difícil dizer se existe algo como “conhecê-la o suficiente”. Por algum motivo, ele sempre foi visto como um coadjuvante. Ele estava ativo na época da Escola de Nova Iorque, envolvido com os artistas; fez parte do movimento beat, junto de Burroughs e Ginsberg e Corso; criou o Dial-a-Poet, linha para a qual qualquer um podia ligar e, ao fazê-lo, seria atendido por John Cage ou Patti Smith ou John Ashbery ou Ted Berrigan ou Aram Saroyan ou Anne Waldman, entre tantos outros, que prontamente leriam um poema para o ouvinte; se apresentou junto das bandas punk – Patti Smith, Richard Hell – e das bandas que abriram caminho pro que hoje nós chamamos de rock industrial – Throbbing Gristle, Suicide – no CBGB, e formou sua própria banda em 1980; sem falar o papel dele como ativista, pra conscientização sobre a AIDS, e ter sido precursor desse tipo de poema-anúncio, tão popular nos dias de hoje, em redes sociais, apesar dos dele virem com um pouco mais de provocação e intensidade (e não o tipo de intensidade que todo mundo diz ter hoje e dia… mas isso é assunto pra outro texto). Mesmo assim, raramente ele visto como o artista, mas como o cara que o Andy Warhol filmou dormindo ou o “muso” de Robert Rauschenberg e Jasper Johns. O artigo serviu pra mostrar como ele, na verdade, é um símbolo vivo de tudo que Nova Iorque foi, desde a década de 1950, pra arte e tudo o que ela não é mais.

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5 – Esse é o disco da vez. Uma reunião de composições do Alban Berg, regidas por Pierre Boulez. Elas são: Concerto de câmara para piano, violino e 13 instrumentos de sopro; 3 peças para orquestra; e concerto para violino e orquestra “À memória de um anjo”. Prefiro não dizer nada, principalmente por não ter o conhecimento técnico para analisar. Me interesso por essa fase “modernista” da música erudita e é só. Além disso, fui apresentado por Cortázar à obra de Alban Berg, em O Jogo da Amarelinha. Isso é uma série de indicações musicais “em ordem alfabética” que comecei agora. A-lban Berg é o primeiro. A próxima indicação será por um artista cujo primeiro nome comece com a letra B. A ideia é focar em estilos que menciono pouco por aqui. Como não falo muito de música erudita, apesar de escutar com frequência (principalmente enquanto leio ou escrevo e preciso bloquear os sons de fora, mas não quero me distrair com letras), decidi começar por esse gênero. Pretendo botar pelo menos alguma nota biográfica nos próximos, mas sinto que já escrevi demais nessas observações e Google existe pra saciar os curiosos.

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