Uma sequência desesperada de observações só pra não dar essa banca como falida

E pela primeira vez, provavelmente, desde minha estreia nesse mundo errado da escrita na internet, passei um mês sem publicar nada, nem um improviso abestalhado, nem um relato do cotidiano, nem uma opinião mal formulada sobre um livro ou um filme qualquer. Mas por que eu faria qualquer coisa? Isso nunca deu certo, por assim dizer. Isso nasceu pra eu praticar a escrita – no ano distante de 2012, ainda num endereço blogspot -, aí virou um meio de eu berrar minhas opiniões. Agora acho que já fiz de tudo por aqui e só me repito. Às vezes surge algo mais inspirado, mas normalmente são as coisas que não precisam estar aqui. Isso não é um anúncio do fim ainda. Só uma explicação da ausência e por que só vai piorar. Porque antes esse site me importava, agora não mais tanto assim. É difícil só largar, por isso vez ou outra eu vou reaparecer. Mas isso não é uma preocupação.

   Então quer dizer que havia preocupação?

            Isso nunca seguiu regras ou cronograma, qual a diferença agora?

                                  Qual o motivo disso se não é uma mensagem de despedida?

Era meio que uma preocupação, embora distante. Eu sempre quis manter isso aqui ativo e diversificado, mesmo que eu não fizesse questão de manter temas ou datas exatas pra cada coisa etcétera. É só que as coisas andam diferentes esse ano. Em muitos sentidos. A vontade de escrever sobre livros que li é inexistente. Minhas opiniões já não valem mais nada, nem sei quais elas são. Tampouco resta vontade de ficar indicando coisas pra meia dúzia de pessoas. Melhor é deixar isso aqui um espaço livre, pro qual eu posso voltar sempre que tenho algo a dizer. Ou não voltar mais, caso eu não tenha.

Mas isso não quer dizer que eu não possa falar sobre o que estou lendo agora. Peguei a coleção de contos do Haruki Murakami, lançada recentemente por aqui, O elefante desaparece. E quem acompanhou esta porra ao longo dos anos sabe o quanto eu já li do Murakami, embora eu não goste tanto assim da escrita do cara. Nem eu mesmo compreendo essa relação. Mas os contos foram escritos entre 1981 e 1993, a maior parte entre 81 e 85, que eu considero a era de ouro da obra dele, quando ele estava no ápice da sua criatividade, aos poucos amadurecendo como autor, sem cair na cama macia e estéril do “estilo próprio” ainda – hoje nada tira esse filho da puta dessa cama. Sim, os clichês dele estão todos ali. Na verdade, dá pra bolar uma lista de ingredientes pra criar um conto dele. E é isso que vou fazer:

  • Um homem de trinta anos como protagonista. Pode ser uma mulher, mas é necessário ter trinta anos. Mesmo que a história se passe na adolescência da personagem, ela é narrada só depois do narrador completar sua terceira década de vida.
  • Preparação de pratos simples. Uma macarronada, um sanduíche, salada com alguma carne, sopas… Não são necessárias especificidades, mas é importante encaixar na descrição um detalhe que demonstre que o narrador sabe o que está fazendo, mas não é lá um grande chefe.
  • Algo estranho acontece. Pode ser com o narrador, pode ser com alguém próximo do narrador. Se for alguém próximo, é do sexo oposto e é este quem vai mover a narrativa pra frente. O estranho pode ou não ser sobrenatural. O estranho nunca pode ser explicado.
  • Filosofia de boteco. O narrador deve ruminar por umas linhas sobre a vida e a morte, sobre amor, sobre a idade adulta, sobre seus parceiros sexuais, sobre o universo e tudo mais.
  • A voz da narrativa deve ser meio distante. Um pouco repetitiva. Sem floreios. Metáforas tentam imitar Richard Brautigan, mas o autor é careta demais pra impressionar no surrealismo. Brautigan é bem mais da hora – minha opinião, mas tu sabe que eu tô certo.
  • Um final aberto. Se a história puder só parar, ótimo.
  • Opcional: se alguém fizer sexo, a descrição vai ser bem esquisita, quase como se sexo fosse uma colisão frontal entre dois carros vagarosos, que não param uma vez que se chocam, mas continuam um contra o outro como dois alces lutando por dominância – normalmente o homem é o alce dominante nas cenas do Murakami e a mulher é o alce que só tá lá; às vezes é o contrário; raramente é uma coisa recíproca (não estou falando de estupro, só de desequilíbrio de interesses, ou assim parece).

Misture tudo isso numa série de páginas não muito bem revisadas, você tem uma história do Murakami. Os ingredientes devem ficar mais preguiçosos conforme o tempo passa. Parece que eu odeio o cara, mas sempre que lança algo novo no Brasil eu compro e leio quase imediatamente. Então qual é? Eu não sei. É igual Star Wars. Os antigos me marcaram a infância, os novos do George Lucas são horríveis e me ensinaram a julgar filmes qualitativamente, os da Disney são ok. Eu não vejo nada de especial neles mais, mas vai lançar um novo filme e eu vou ver, provavelmente no cinema. E tanto com Star Wars quanto com Haruki Murakami, cada nova experiência vem com um pouco de esperança. Como se o novo pudesse ser o perfeito, a obra que vai superar todas as outras. Com Star Wars, acho impossível. Murakami, tomara. Tomara ele releia a própria obra e reveja seu “estilo”, que já deu no saco. Mas se você nunca leu, vá em frente.

Outro dia, vi uma entrevista com o Mark Leyner, David Foster Wallace e Jonathan Franzen. Eles discutiram sobre o papel da literatura como escolha de passatempo entre jovens, na década de 1990. Mas foda-se isso aí. A entrevista na verdade me fez pensar no quanto simpatizar com um autor interfere no meu interesse pela obra do mesmo. Em determinado momento, David Foster Wallace dá uma cortada de classe Franzen. Tenho uma antipatia infundada pelo Jonathan Franzen que só fica mais profunda quanto mais eu escuto ele falando e só por isso não consigo me interessar pelos livros dele. Vejo as sinopses e logo formo uma ideia preconceituosa de como eles são. Acho que são dramas familiares, com vários personagens; tenta ser polifônico, mas o foco é na terceira pessoa onisciente (nem sei se os livros dele são em terceira pessoa, tô bancando o vidente literário aqui); meio experimental, linguagem forçadamente rebuscada que tenta forjar uma beleza nabokoviana e acaba truncada e esquisita – não no bom sentido -, tenta uma complexidade à William Gaddis e acaba estafante. No fim das contas, prega um moralismo barato, como a opinião esnobe dele sobre a inferioridade das pessoas que assistem televisão quando comparadas as que gostam de livros (dele). O que conheço do Foster Wallace são os contos, e destes, embora eu goste, admito os defeitos, pelo menos em se tratando de como eles envelheceram dentro da história da literatura. Mesmo assim, tenho uma admiração pelo cara e quero continuar lendo os livros dele – espero um dia conseguir. Enfim, eu também simpatizo um pouco com o Murakami. Ele tinha um bar de jazz, quando começou a escrever. É meu sonho isso. Então eu continuo lendo os livros dele. Não porque são bons, mas é como se um amigo que eu nunca mais vi os tivesse escrito. Aí eu me forço a dar uma olhada, dar apoio moral. Isso não faz o menor sentido, mas acho que é a explicação.

 

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Único e universal; sobre I Remember, Joe Brainard [1970-1973]

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Às vezes as pessoas me perguntam como eu cheguei a descobrir certos autores. É um trabalho de curiosidade. Eu leio um livro e, se ele me pega pra valer, vou atrás de outros do mesmo autor, de contemporâneos do autor, gente influenciada pelo autor, seu contexto temporal, se fez parte de alguma “escola literária” ou signatário de algum manifesto etc. Isso faz que cada livro tenha uma história. Esse é o caso do Joe Brainard, descoberto numa época em que estava interessado no que há abaixo da superfície da geração beat, aqueles que não se tornaram ícones ou não se entregaram por completo ao movimento. Achei Ron Padgett, Ted Berrigan, Anne Waldman, Diane di Prima, Robert Creeley, Amiri Baraka, Eileen Myles, Kenneth Koch, entre tantos outros (um pouco da geração beat, um pouco da segunda geração da escola de Nova Iorque…), inclusive Joe Brainard. Uns eu li, outros não, mas uma vez que se conhece um nome, ele continua aparecendo nas coisas, de novo e de novo, até você se render.

Como muitos dos seus contemporâneos, Joe Brainard foi um experimentalista. A obra dele tem algo de poesia, algo de memória, colagens, pinturas. Suas obras tentam resistir uma classificação. Ted Berrigan, por exemplo, escrevia sonetos reciclando versos, trocando as ordens em cada um, cortando e colando e criando, com a mesma matéria, dezenas de poemas diferentes, quase uma função matemática. Ron Padgett pegou um romance de banca e reeditou, criando, com a mesma coisa, outra obra. Eram brincadeiras. Uma forma de encontrar algo mais na literatura, quando só botar uma frase atrás da outra não basta. Joe Brainard brincava com quadrinhos e tirinhas, misturava objetos encontrados na rua com desenhos e pinturas próprias. Por exemplo, as tirinhasda Nancy, por Ernie Bushmiller, serviram de inspiração para uma série de desenhos envolvendo a personagem.

Dessa busca por algo novo, surgiu I remember (Eu me lembro), uma série de livros autobiográficos, formados de frases começando com “Eu me lembro…”. Foram lançados quatro livros, entre 1970 e 1973, com uma edição corrigida e em volume único lançada em 1975 – a reedição atual desse volume único foi a que eu li. A premissa não podia ser mais simples. De certa forma, o resultado também não. Mas a forma como essas memórias íntimas acabam se mesclando com a do leitor ou tocando em pontos tão pessoas que geram constrangimento e, ao mesmo tempo, admiração pela coragem do autor, fazem o livro totalmente original. Hoje existem vários como ele, inclusive a homenagem por Georges Perec, chamada, também, Eu me lembro (Je me souviens, no original).

Cada memória, lançada na página de maneira avulsa, sem narrativa que as conecte, traz outra, que traz outra, numa espécie de livre associação. Às vezes lembra até uma consulta psicológica. Memórias da infância, da escola, memórias recentes… Trata de autodescoberta, da descoberta da sexualidade (como fator humano em si e de sua própria) e da identidade (não só sexual, mas artística e pessoal, nem sempre chegando a uma conclusão, porque talvez não haja uma conclusão). Entre lembranças densas e pessoais, se encontram piadas, jogos de palavras, recordações de brincadeiras infantis, das coisas de sua terra natal (Tulsa), coisas que fazem parte da vida de todos. No entanto, até nos momentos íntimos, em que o autor se abre para o leitor, um pouco de identificação é inevitável. Seja a lembrança de ir ao bar buscando companhia certa noite e só encontrando rejeição, seja o jeito que um filme fez o autor se sentir (você pode não ter visto o filme, mas provavelmente reagiu assim por causa de um outro, ou, se não por um filme, por qualquer outra experiência similar).

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“Eu me lembro do primeiro desenho que lembro de ter feito. Foi de uma noiva com uma cauda muito longa.

“Eu me lembro do meu primeiro cigarro. Foi um Kent. No alto de um morro. Em Tulsa, Oklahoma. Com Ron Padgett.

“Eu me lembro das minhas primeiras ereções. Eu pensava ter pego uma doença terrível ou coisa assim.

“Eu me lembro da única vez que vi minha mãe chorar. Eu estava comendo torta de damasco.

“Eu me lembro do quanto eu chorei vendo Ao Sul do Pacífico (o filme) três vezes.

“Eu me lembro quão bom um copo d’água pode ser logo após uma taça de sorvete.

“Eu me lembro de quando eu ganhei uma medalha de cinco anos por não ter perdido uma única manhã na Escola Dominical por cinco anos. (Metodista.)

“Eu me lembro de quando eu fui a uma festa de “venha como sua pessoa favorita” como Marilyn Monroe.

“Eu me lembro de uma das primeiras coisas de que me lembro. Uma caixa-de-gelo. (Ao invés de uma geladeira.)

‘Eu me lembro de margarina branca num saco plástico. E um pacotinho de pó laranja. Você punha o pó laranja no saco com a margarina e espremia ele todo até a margarina ficasse amarela.

“Eu me lembro do quanto eu costumava gaguejar.

“Eu me lembro do quanto, no colegial, eu queria ser bonito e popular.

“E me lembro quando, no colegial, se você vestisse verde e amarelo numa quinta isso queria dizer que você era bicha.

“Eu me lembro de quando, no colegial, eu costumava botar uma meia na minha cueca.

“Eu me lembro de quando eu decidi virar padre. Eu não me lembro de quando eu decidi não o ser.

“Eu me lembro da primeira vez que eu vi televisão. Lucille Ball estava fazendo aulas de balé.

“Eu me lembro do dia que John Kennedy foi morto.”

O formato repetitivo e de certa forma ingênuo, foi inspirado no estilo de Gertrude Stein e Andy Warhol. A ideia de ingenuidade, contudo, é esquecida quando se percebe o ritmo de cada frase, como cada uma carrega uma poética claramente proposital e construída. O estilo de “Eu me lembro” expõe tão bem as características básicas da linguagem poética e tão simplesmente, que Kenneth Koch o adotou nas suas famosas aulas de poesia pra crianças. Até hoje, “Eu me lembro” é usado como exercício criativo. E funciona, principalmente porque ele tenta o leitor a fuçar suas próprias memórias. Mais que isso, ele traz à tona as lembranças do leitor. É natural que um leitor já inclinado à exploração criativa se deixe levar por essa tentação e crie seus próprios “Eu me lembro”.

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De fato anotar essas lembranças e, principalmente, as expor em qualquer meio, por outro lado, requer muita coragem. É isso que faz do livro especial e duradouro. Joe Brainard se abre sem medo, vira um amigo do leitor, contando seus segredos e histórias íntimas. Qualquer um consegue, uns com mais facilidade que outros, montar sequências de lembranças em frases de estrutura parecida. A arte está em fazer uso dessas lembranças para, quem sabe, fazer um estranho se sentir menos solitário no mundo (provavelmente “Eu me lembro” fez isso com inúmeros leitores, talvez todos), mostrar ao leitor um ponto de vista diferente da realidade. Não seria isso a literatura?

o que os sonhos querem dizer

todo sonho tem um significado, sem exceção,
você insistiu comigo certo dia e eu ironizei.
é profético, tem a ver com o inconsciente,
é como o cérebro nos alertasse
de algo que sabemos mas não nos damos conta,
aí entra o papel do sonho, ele vem
e nos confunde, igual alguém que nos
sacode os ombros por algum motivo,
sem nos dizer qual ele é.

então está bem, vamos lá,
tive uns interessantes e quero
por à prova essa história.
então me diz

(e eu sei o saco que é
ouvir sonhos dos outros.
você que pediu. eu ia
deixar isso em paz,
já tava até esquecendo...)

então me diz:

certa noite, sonhei que estava na cama.
pois é, dormia e me sonhava insone,
mas não é só isso, pois, no sonho,
chovia uma verdadeira tempestade de raios.
por isso eu sabia que era sonho.
enquanto isso, no entorno,
houve uma queda de energia na minha rua.
não no sonho, no real.
suava na cama do real, num limbo de orfeu,
o ventilador sem energia parado
assistindo meu estado sem poder fazer nada,
não que ele quisesse fazer alguma coisa
ou tivesse vontade própria.
agora analisa isso, grande xamã:
um trovão ribombou
com tamanha fúria, o raio que o emitiu
atravessou minha janela e acertou
meu ventilador e o ventilador direcionou o raio
em cheio na minha cabeça dormente.
pude sentir meus corpos se debatendo
em ambos os planos.
quis acordar, não tive forças.
tive a impressão de abrir os olhos
e olhar pras minhas mãos, que reagiam
igual personagem de desenho animado
eletrocutado e agonizante, esqueleto visível e tudo.

foi isso.
um deles.
e aí?, estou esperando.
enquanto você procura no google
sonho   raio    significado
te conto outro, escuta só:

(perdi toda e qualquer noção de piedade
para com o ouvinte e ainda te culpo por isso.)

sobre o escritório em que trabalho -
e nem me venha com metáforas
sobre ambiente sufocante, cansaço,
pressões do capitalismo tardio
ou o que seja.
já estou farto disso.
estávamos organizados como fosse
uma hierarquia greco-romana, algo do tipo,
vestindo togas e levando muito a sério
a noção de classes sociais.
só zeus sabe o que aconteceu depois
ou no meio da bagunça,
mas, em determinado momento, uma funcionária
que antes chorava o sumiço do seu cão de estimação
o encontrou morto, carcaça abocanhada por ratos,
em frente a uma cúpula que guardava em si
um castelo, e ela não chorou por isso.
sua voz era triste, quase desesperada,
no entanto, a expressão no rosto trazia apatia
típica dos sonhos.

achou alguma coisa aí?
não?
pois é, depois disso
que eu me lembre
acordei.
mais nada.

 

Não bastasse, agora no instagram

Este blogue se inseriu em mais uma rede, pois é. Ninguém pediu, mas fui pra lá. Agora não falta nada. Se quiser ver umas fotos que podem ou não ter algo a ver com o conteúdo do blogue, me sigam no instagram. Isso mesmo, no istagrão…? estragão? estragon? Pensando num apelido ainda.

https://www.instagram.com/oulipombo/

Pra quem também segue no passaralho (vulgo, twitter) e quer saber qual é a do pombo, tem uma história. Estava eu num café/bar/restaurante em Boi nos Ares, tomando uma cerveja ao meio-dia. A viagem prestes a acabar, esperando um contato extraterrestre. Pousa na minha mesa um pombo e fica me encarando. Uma verdadeira personalidade, a ave.

 

Como o pombo fosse a cara de Georges Perec,

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                                                                                            atendo pelo nome Pigeorges Perec no passaralho e oulipombo no estragão. Pronto. Que história, Mark!

Então, saibam, o pombo é o mascote do blogue como Joan Didion é nossa santa vovó.

Acho que era isso hoje. Deve ter um jeito de botar ali do lado um link permanente pra conta no estragão, já vi gente com isso. Um dia eu aprendo, aí vai aparecer lá, junto do passaralho e do fuçalivro. Falta alguma rede pra eu cair? Lembram dos tempos que eu costumava resistir a essas bobagens. Ainda resisto, mas quantas vezes já me rendi, hem? A vida é isso, uma contínua rendição. Logo apareço com um canal no seutoba – sim, tenho um apelido pra todas as redes. Logo posto uns memes engraçados. Logo posto umas poetarias motivacionais com desenhos e fontes extravagantes e trocadilhos surrados e rimas daquelas que causam mal-estar (amor/dor/por favor/pelamor/catador/falador/morador (sabe, mora-dor, onde mora a dor, entendeu? entendeu?? entednue?!?! NOSSA OLHA PRA MIM EU SOU UM ARTÍFICE DAS LETRAS CUIDADO JOYCE EU TÔ CHEGANDO!!!

Perdão.

Aos poucos vão aparecendo fotos por lá. Aos poucos eu morro por dentro. Venha comigo se aproximar da morte, um dia por vez, vamos juntos.

Mais 2 livros da Joan Didion e uma correção

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Foto surrupiada do nosso senhor google das fontes perdidas. Não é minha, tampouco é da fonte. Na minha opinião, a foto pertence ao divino sobre nossas cabeças, aquele que nos julga e condena.

Nomeio agora Joan Didion a avó espiritual desse blogue, ela querendo ou não. Se eu montasse um hall da fama do Delirium Scribens, ela teria de figurar nele se não só pelo número de menções. Em 2016, escrevi isto, sugerindo os dois livros dela que então tinha lido. Li mais dois e vou repetir o ato. Este é um blogue, afinal, que preza suas tradições e ícones. Se eu ler mais dois – eventualmente eu vou -, farei outro igual, tantas vezes for necessário até a mensagem se fixar na mente dos leitores prováveis e improváveis.

The White Album (1979) 

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Uma coleção de ensaios escritos e publicados em variadas revistas ao longo da década de 1970 e sobre a década de 1970. Na primeira postagem falei de Slouching Towards Bethlehem, enquanto este era um retrato do fim da revolução, The White Album é uma reação às suas consequências. Joan, agora uma jornalista reconhecida, com família constituída, presente nos círculos literários e roteirista de Hollywood, fala do mundo que a cerca. O ensaio que intitula o livro trata dos assassinatos de Charles Manson. Não é uma peça de jornalismo investigativo, é uma reação ao horror. Ela entrevistou uma das participantes/vítimas do culto. Uma garota jovem como tantas, como a filha de Didion viria a se tornar. Ela escreve sobre os assassinatos pelo ponto de vista de uma vizinha, uma opção de vítima. Ela vivia naquela vizinha, os membros do culto passaram em frente à casa dela na mesma noite dos assassinatos. O pânico do que poderia ter sido rege o tom da narrativa. E esse pânico se mantém em outros ensaios. Didion fala de seu colapso nervoso, de fugir para uma região isolada do litoral com o marido e a filha num esforço por salvar seu casamento, fala de cinema, da experiência de ser roteirista de Hollywood e de ter seu livro mal adaptado pro cinema, e música, principalmente The Doors, banda com a qual ela conviveu durante gravações. A coleção, como sua predecessora (Slouching…), é dividida entre retratos da época, exames culturais e textos pessoais – inclusive passagens que lembram diários e uma transcrição do diagnóstico psicológico dado a Joan nesse período no qual os ensaios foram escritos. The White Album é mais que um retrato de uma década, é uma cirurgia, as vísceras são expostas e cutucadas. Por isso um leitor atual, mesmo que sinta a distância temporal, pode se identificar, em parte por ter sido uma época tão marcante e pelas sensações descritas permanecerem e serem identificáveis em nossa época. Sem falar da qualidade do texto. Joan Didion é uma pugilista literária. A figura pequena e frágil dela esconde um soco na boca do estômago a cada frase e vai te derrubar por nocaute em quase todos os ensaios, principalmente os pessoais.

The Year of Magical Thinking [O Ano do Pensamento Mágico] (2006)

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O livro que tornou Joan Didion uma autora reconhecida e premiada em tempos recentes, já que a maior parte da obra reconhecível dela tá presa às décadas de 60 e 70. Foi, talvez, o ensaio que mostrou ao mundo que a idade não fez ela perder a força. O grande choque veio do fato de o livro ser sobre o período de luto da autora. Pra quem não sabe, a filha dela teve, no começo da década passada se não me engano, uma série de problemas graves de saúde – descritas com riqueza de detalhes no livro. Na noite em que ela e o marido voltavam de uma visita no hospital, o marido, também autor John Gregory Dunne, teve um ataque cardíaco e morreu. Então Didion descreve o processo. Como foi lidar com a morte da pessoa com quem ela dividiu tudo por anos e anos. Talvez um dos textos mais emocionantes que eu já tenha lido, contudo ele não tem nada de sentimental. Por vezes, e esse é o forte do livro, já que ninguém quer ler duzentas páginas de autopiedade – foco parcial do ensaio -, a linguagem é distante, típica da utilizada por jornalistas ao tratarem de seus temas. O luto da autora era isso, seu tema, nada mais. Ela cita os muitos textos médicos e psicológicos que ela leu sobre luto, morte, doenças cardíacas e respiratórias (o respiratório foi o que afetou a filha dela, que morreu pouco tempo depois dos acontecimentos descritos em O Ano do Pensamento Mágico), menciona a falta de textos de não-ficção sobre luto e o tabu da morte – temas bem mais presentes na ficção, inclusive de seu marido, detalhe que ela só percebeu depois dos acontecidos. Esse foi um dos melhores livros que eu já li. Só posso indicar, pedir que o leitor dê a si mesmo essa experiência. Não é fácil, na verdade é desconcertante. O leitor é forçado a encarar sua própria mortalidade e a de seus entes queridos, esse é o efeito que o distanciamento da linguagem traz, fica fácil se botar no lugar da narradora (potencializado pela veracidade da história). Aos poucos, o ensaio vai do relato de uma autora, já de certa idade, lidando com a morte do parceiro e a possível morte da própria filha, lidando com a possibilidade de ter que passar a velhice sozinha, até a realização de que a vida é isso, ela contém em si esse risco, e esses acontecimentos da vida de Didion, mesmo raros, não são exclusivos a ela.

***

A correção 

A postagem anterior a esta foi da série Observações Aleatórias. Aconteceu de eu ter esquecido meu projeto de incluir, em ordem alfabética, uma indicação musical. Então vim corrigir essa falta. Estava na letra D, nada mais apropriado que o disco da vez seja L.A. Woman, do The Doors. A banda foi tema de um dos ensaios de Joan Didion, mas também representa a decadência da transição da década de 60 pra 70. Estou longe de ser fã dos misticismos e poetarias do Jim Morrison, na verdade acho datados pra caralho, mas não posso negar a qualidade da música, não como poesia mas como rock ‘n’ roll – também datado, do pianinho de cabaré ao blues psicodélico arrastado. Mesmo nos seus momentos mais pretensiosos – e cristodocéu como tem pretensão… – o disco funciona. Pronto, tá aí, apesar dos pesares, The Doors funciona. Não posso dizer mais nada.