Quando o peso das leituras te derruba – sobre Georges Simenon (parte 1: o autor e sua prosa)

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1 – Introduções típicas

Toda a questão da literatura de gênero, leituras leves e densas, lowbrow/middlebrow/highbrow, pode gerar discussões eternas. É difícil negar que certos livros carregam em suas páginas mais conteúdo que outros. Ao mesmo tempo, me incomoda colocar livros leves como entretenimento e livros densos como “tarefa”. Vários autores complicados são capazes de divertir; Mario Levrero, por exemplo, com suas reviravoltas na realidade da narrativa, não deixa de entreter; até Dostoiévski te prende à leitura, e Camus, Machado, Clarice, e lá vou eu … Ao  mesmo tempo, estaria sendo injusto se dissesse que não há literatura de gênero capaz de fazer mais que divertir. Sim, existem livros que não merecem o papel que ocupam, verdadeiros desperdícios de árvore; outros, como Brida, do Paulo Coelho, no esforço por deixar a leitura o mais leve possível sem que nada seja exigido do leitor, acabam tediosos e rasos, não servindo nem de entretenimento besta. Mas pra cada um desses, surge um Raymond Chandler, um Haruki Murakami, uma Patricia Highsmith, um James M. Cain, que seguem gêneros ou uma formas populares de enredo, mas trazem algo mais.

O problema é quando até essa literatura de gênero derruba. Lembro que peguei James M. Cain pra relaxar uma vez, The Postman Always Rings Twice, numa edição anciã que traduzia o título como O Destino Bate na Porta. Peguei porque tinha umas cem páginas e o estilo do autor era descrito como rápido. Me deparo com um enredo cercado de dilemas morais, denso como O Estrangeiro, de Camus. O que era pra ser uma leitura leve, só piorou meu estado. Porque vocês bem sabem que certos livros são capazes de derrubar um indivíduo – derrubar e pisar em cima. Não lembro o que eu tinha lido antes de O Destino Bate na Porta, mas estava passando por algo assim e “meu entretenimento” não ajudou em nada a aliviar.

Se foco em livros policiais, é porque, dentre os gêneros, é o que acho mais agradável na literatura. Gosto do clima que inspirou os filmes noir. Tentei outros gêneros, mas não foi tão bom assim. Stephen King foi um que me irritou. Falta um editor na vida desse cara, um editor com coragem pra passar a faca em 60% do suposto texto final dele. Ficção científica, pelo menos os autores que eu procuro costumam ser tão densos quanto qualquer existencialista. Tente ler Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? sem acabar duvidando da sua própria essência. Ao mesmo tempo, tenho dificuldades de encontrar um livro policial que sirva pros meus objetivos – distrair, tirar das costas o peso das outras leituras. Raymond Chandler é muito literário. Arthur Conan Doyle é um pé no saco (baseado na leitura de Um Estudo em Vermelho e a digressão de 100 páginas sobre mórmons – o livro nem 200 páginas tem, é mais como se Sherlock fosse a digressão e os mórmons as verdadeiras estrelas do show); além do mais, quem liga pra quem matou, Agatha Christie? É mais interessante saber o motivo. Então eu li Georges Simenon pela primeira vez.

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Rupert Davies como Maigret

2 – Breve digressão

Onde eu moro, tem um senhor que de vez em quando aparece na minha rua para vender uns livros usados. Nem sempre os livros que ele vende são interessantes, mas gosto de ajudar. Faz alguns anos, ele carregava por aí boa parcela da coleção do Maigret pela LPM pocket. Um dia ele precisava de uma ajuda séria pra pagar o aluguel e me ofereceu a coleção inteira (o que ele tinha dela) por um certo valor. Comprei e deixei num canto da minha estante (um armário) até o ano passado, quando realmente precisava de uma distração em forma de leitura, literatura que não me batesse na cara, só uma história, em tantas poucas páginas, que me prendesse e não demorasse muito pra terminar. Foi o que eu encontrei naquele Maigret (não lembro qual foi o primeiro), só não esperava que a execução fosse tão perfeita.

3 – O que foi tão bom?

Tenho que admitir não ter entendido, em primeiro momento, o que me causou tanta simpatia por aquelas histórias. Com toda a franqueza, são datadas. Simenon escrevia como um homem branco nascido em 1903. Não há consciência social nos romances de Maigret, ou conhecimento sobre procedimentos policiais, ou interesse em qualquer coisa que não a história contada no livro. Não que Simenon fosse ignorante, ele estudou bem os procedimentos policiais franceses de sua época, mas justo com o objetivo de não segui-los. Se não havia preocupação com consciência social, era porque o europeu médio (seus livros rápido ultrapassaram fronteiras) não estava tão interessado nisso. As mulheres em seus livros são, majoritariamente, passivas e vocalmente menosprezadas, mas também o eram as mulheres reais do mundo inteiro nas décadas em que se passam as histórias de Maigret. Resumindo esse potencial de baderna a que desnecessariamente dei início: o cara só contava histórias, em um cenário real, sem se importar com coisas além do enredo – que é típico de ficção policial. Isso, claro, baseado na minha leitura de 4 dos 75 romances, além de ter assistido algumas adaptações pra TV, para as quais pretendo dedicar algumas linhas daqui a pouco. Como minha leitura mais recente me impressionou bastante, deixarei aqui a possibilidade dos livros dele irem muito além do esperado.

Ainda, apesar da simplicidade, algo na escrita de Simenon atrai inclusive escritores. Antes que me critiquem por dividir literatura entre “popular” e “séria”, saiba que o próprio Simenon fazia o mesmo. Ele não tinha vergonha nenhuma em dizer que escrevia por dinheiro e o próprio não sabia quantos ou quais livros tinha escrito, de tantos pseudônimos que usou e quantas obras mandou pra prensa quando ainda eram só rascunhos. Mais de 450 romances, é o que se diz, entre histórias policiais, eróticas, livros sérios e memórias. O método de escrita entre um estilo de livro e outro mudava. Sempre focava na brevidade, não creio que algum livro dele chegue às 300 páginas, mas a matéria-prima era diferente nos livros sérios. Em entrevista à Paris Review, ele dizia ter que se trancar no escritório, quando se dedicava a esses livros e passar por um exame médico completo. Então passa horas e horas na máquina, interpretando como um ator às personagens da história. Enredo e forma importavam menos nos livros sérios, o leitor importava menos. Sinceridade era o que interessava – verdade, por assim dizer. Mas não estou falando desses livros, pois até hoje não os li.

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Simenon não incluía as histórias de Maigret entre seus livros sérios, no entanto, é por elas que ele é lembrado. André Gide, um autor estilisticamente oposto, admirava Simenon e o considerava o melhor da França, na época. Vários outros autores expressaram admiração profunda pela obra do Simenon, o que é incomum – autores comerciais costumam ser execrados nos meios intelectuais. Simenon, todavia, se destacou.

Que não fique entendido que, por utilizar regras diferentes em seus livros sérios, Simenon negligenciava o estilo em seus livros comerciais. Ele só usava regras diferentes. Para Maigret, que são os que eu conheço, a ideia era prender o leitor desde a primeira frase e montar livros capazes de serem lidos em um dia. Não é uma tarefa fácil. Ao menos não sem que se ignore certos detalhes estéticos da prosa, o que Simenon não faz. A prosa é de linguagem simples, mas precisa. As breves descrições formam imagens claras na mente do leitor e o levam ao cenário. Mas prosa bem feita não explica essa minha preferência. Essa prosa bem medida é uma bela parcela do que me agrada, afinal chegar a esse grau de escrita que cumpre com perfeição seus objetivos é o que quase todo pretenso escritor almeja. Que ninguém deixe de focar na palavra “objetivos”. Simenon estava longe de ser um escritor perfeito, mas ele era honesto. Nada de se dizer um novo Hemingway ou um autor de tragédias gregas, como insinuou Nicholas Sparks. Ou se achar o melhor de todos e diminuir os que de fato são grandes mas estão mortos e não podem se defender, como Paulo Coelho faz quando quer chamar atenção. Sim, o livro foi escrito em 8 dias e mais 3 foram pra revisão. Sim, foi pra ganhar dinheiro. Sim, eu só quero que o leitor se distraia por algumas horas.

Por algum motivo misterioso, a secura da prosa, quando decido ler um romance de Maigret, não me incomoda. Na verdade, é o que mais agrada. A ambientação pode habitar os entornos do submundo do crime parisiense, mas existe uma calma, uma contemplatividade. O leitor acompanha o caso, de longe, por meio dos olhos de Maigret e sua meditação sobre o caso filtradas pelo vocabulário mínimo de Simenon. Quando vejo, estou perto do fim, mas nem por isso distanciado da leitura, desligado de qualquer maneira. O único lugar em que estou é no livro.

 

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Reclamações geracionais, A grande beleza, psicogeografia, letra C (OA #12)

1 – Comecei pesquisa pra um futuro texto. Coisa mais pretensiosa desse mundo falar de histórias que até o momento têm uma frase. Não existem, não há motivo pra falar delas, mas é uma tentação. Nada melhor que falar de uma história quando ela está no auge de sua qualidade – antes de ela existir. É um prazer ridículo e egoísta, logo é isso que vou fazer. Ao contrário do primeiro romance, cujo narrador é confuso e se deixa só observar o que acontece ao redor, o dessa história se pretende um cínico. Não quero detalhar, mas faz tempo que os traiçoeiros campos da sátira me chamam e eu evito o chamado. Até porque personagens cínicos são um grande clichê. A coisa precisa ser muito bem desenvolvida pra dar certo e não acabar só como uma versão light de algo melhor. Aí tem a sátira, que acho impossível hoje em dia, vocês entendem o que eu quero dizer? Vamos por definição: sátira pode ser composição irônica contra costumes e ideias de uma época; ou sátira pode ser ridicularização dos vícios e imperfeições. Só que nossos costumes parecem sátira deles mesmos. Ninguém se leva assim tanto a sério e os acontecimentos sérios ao nosso redor são tão absurdos que superam qualquer sátira. E satirizar aquilo que por si já é absurdo é forçar a barra, é ficar apontando pro leitor, frase por frase, que aquilo que se lê é uma sátira, é para ser engraçado, e deixando claro quem são seus alvos e por que eles merecem cada palavra. Talvez sempre tenha sido difícil, mas parece pior. Sempre parece pior o presente, até quando se viveu o passado.

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2 – Ou talvez essa atração pela sátira, apesar de sua impossibilidade prática, tenha surgido pra descarregar um pouco da raiva. Quero um personagem que odeie e não tenha medo desse ódio. Revi A Grande Beleza (Paolo Sorrentino, 2013) ontem, foi a quarta vez acho, e só fica melhor, só reforça o quanto esse está entre meus filmes favoritos (como sempre, num sentido de afeto pessoal, não como testemunho de qualidade). No filme tem uma frase que sempre me pega. O protagonista, Jep Gambardella, um romancista que nunca conseguiu escrever um segundo livro e vive em festas e imerso nas distrações de Roma, é acusado de misógino, ao que ele responde: eu não sou um misógino, sou um misantropo. Em resposta pra isso, um amigo de Jep diz algo mais ou menos assim: em se tratando de ódio, é necessário ter ambição (tem mais que isso, mas não falo italiano). Essa é mais ou menos a ideia que tenho pra personalidade do narrador da minha hipótese de livro, mas com foco no que veio a seguir. Jep não odeia nada, ele só encara as pessoas, com seus atos e suas manias, e, na maioria das vezes, elas não são tão belas. Essa interação termina com misericórdia, Jep declarando: estamos todos a beira do desespero… (então ele explica que só disse o que disse porque estava cansado do tanto que a pessoa se gabava dos seus feitos, mesmo eles não sendo nada especiais, quando na verdade o objetivo daquelas reuniõezinhas não era mais que papear, beber um pouco, fazer companhia um pro outro apesar da solidão inevitável, tudo pra esquecer o quão vazias as vidas deles eram, e ter alguém apontando o quão cheia era a vida vazia dela em comparação a vida vazia dos outros não ajudava ninguém)… Vejam esse filme, por favor. Eu não sei exatamente como vim parar aqui, essa série de observações começou a ser escrita antes da anterior e tinha esquecido disso aqui até fuçar a lista completa dos meus rascunhos (tenho 15, alguns são só títulos, alguns foram criados ano passado – a maioria). Bom, seguindo em frente, não? Essas observações não foram feitas pra serem revisadas. Seja lá qual tenha sido a ideia aqui, deve fazer sentido pra alguém, se não pra mim.

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3 – É uma boa sensação descobrir que o seja lá o que for que você anda sentindo, pensando, escrevendo … tem um nome, é um conceito antigo, já bastante desenvolvido. Morre a originalidade, mas em troca vem essa ilusão de que não se está sozinho, que há compreensão. O nome da coisa é psicogeografia. O conceito é antigo, atribuído aos textos de Baudelaire, DeQuincey, Blake, entre outros, gente com o hábito de caminhar (flâneurs, como dizem os franceses; flanar, que não é bem o mesmo que caminhar, envolve uma falta de objetivo/destino, um melhor observar dos arredores, que nem sempre caminhadas envolvem) e escrever sobre as cidades em que vivem, seus contornos e segredos. Psicogeografia em si foi definida por Guy Debord, e foi parte dos hábitos dos Situacionistas. Observar a cidade, sua construção, e os efeitos psicológicos e comportamentais que o ambiente urbano causa nos habitantes – por um ponto de vista social, político e pessoal (interno). Hoje a psicogeografia é tratada mais pelos ingleses, autores como Iain Sinclair, Will Self, China Miéville, e, antes destes, J. G. Ballard, entre muitos outros, mesmo que inconscientemente. De um ponto de vista feminino, o tema é tratado por Rebecca Solnit (ainda não conheço os textos dela sobre o tema, só sei que existem) e, principalmente, Lauren Elkin, não como psicogeografia (não li um artigo dela ainda com esse termo), mas como o ato de flanar. Não só Lauren Elkin combate a ideia de que o “flanar” é um hábito tipicamente masculino, apresentando exemplos de flâneuses (neologismo criado por ela, já que não existe um feminino de flâneur em francês) na história – Jean Rhys, Agnés Vardas, Colette, Virginia Woolf… -, como também usa o flanar como símbolo de resistência, a mulher mantendo seu direito de ir e vir apesar dos assédios. Agora estou lendo tudo que posso sobre psicogeografia, buscando livros difíceis de achar (por que só A Sociedade do Espetáculo, do Guy Debord, foi traduzido?, quanto tempo até Flâneuse, da Lauren Elkin, estar a um preço razoável em paperback?, só a Livraria Cultura tem edição física de London Orbital, do Iain Siclair? …? …?), revisando meu diário de viagem e percebendo o quanto ele é um exercício de psicogeografia. Vejamos até onde vão esses estudos. (Adendo: vi também que no Brasil a palavra “psicogeografia” foi sequestrada pelos suínos do “coaching” pra definir “um ambiente seguro pras sessões” de lavagem cerebral. Como eu odeio essa gente, só a palavra “coaching” me embrulha o estômago.)

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4 – Charles Mingus é a indicação musical da vez, com o álbum Mings Ah Um. Queria incluir jazz logo nessa lista. Ia ser a letra A, na verdade, mas mudei pra C – falando como se tivesse planejado alguma coisa. Mingus é o nome que aparece sempre que se é introduzido ao mundo do jazz. Um dos principais nomes, há na música dele um pouco de cada pedaço da história do estilo e tudo que veio depois carrega um pouco dele. Mingus Ah Um tem um pouco de tudo. Homenagens ao blues e ao gospel, que serviram de precursores ao jazz, homenagens a Duke Ellington, Jelly Roll Morton, Sonny Rollins, Lester Young, Charlie Parker… o disco é um pedaço essencial da história da música. Por isso, o melhor pra introduzir o jazz ao blog, aos leitores e à minha lista alfabética de indicações musicais.

Férias e insatisfação, produtividade, outros idiomas, John Giorno, Alban Berg (Observações aleatórias #10)

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1 – Falta só mais uma semana pras minhas férias. Mais exatamente, faltam quatro dias de trabalho, já que quinta que vem é feriado. Sim, estou contanto os dias, estou contando as horas. Se eu nunca entrei em detalhes sobre o meu trabalho por aqui é porque, em parte, eu não posso e, em parte, não é nada interessante, mas estou há seis anos na mesma empresa e me sentindo sufocado. A intenção é sair o quanto antes, mas aí somos levados a considerar aquelas velhas questões: o mercado não está mil maravilhas, essas e empresas e chefes só mudam de endereço, não estou tão satisfeito com o que eu faço apesar de ser a única coisa que eu estou formalmente qualificado pra fazer. A vontade real é largar tudo, mas não dá, porque o que vai botar comida na mesa do meu suposto paraíso imaginário? Então eu considero quão pouco rentáveis são as coisas que eu gostaria de fazer, isso levando em conta somente, dentre as coisas que eu gostaria de fazer, as que existem. Por favor, não me confundam com esses moleques que precisam se sentir realizados com o trabalho, de forma alguma. Por isso mesmo, o que vai acabar acontecendo quando eu voltar de férias, é: vou procurar outro emprego, enquanto mantenho o meu atual, talvez eu encontre e aceite o novo, talvez não, e, encontrando e aceitando, vou me empolgar com a novidade por um par de anos, enquanto continuo buscando realização (seja lá o que for isso) com outras coisas e projetos nada rentáveis. O que posso fazer agora é aguardar ansiosamente os dias passarem e aproveitar cada segundo dos meus trinta dias de liberdade.

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2 – Repararam que o blog está mais devagar? Melhor dizendo, o blog está mais devagar? Já não sei mais, a frequência aqui sempre foi instável. Usei a palavra produtividade no título da postagem, mas odeio essa palavra e tudo que ela representa e forma patética como ela é utilizada pela galerinha-empreendedora-motivada que ainda vai ser responsável pelo fim do mundo. Esclarecido este detalhe, acho que não posto tanto por não saber o que postar. Tenho lido, visto filmes, mas odeio resenhas; coisas têm acontecido, mas nem tudo dá pra escrever aqui; faz semanas que não escrevo uma poesia e os outros textos de ficção eu não quero publicar ainda; até tenho projetos de texto e rascunhos largados aqui, mas, ou eles se tornam coisas maiores (na minha cabeça), como o texto do Jim Jarmusch ou aquele sobre o punk rock em Nova Iorque, que estou prometendo a quase um ano, ou a ideia não veio pra que ele flua direito. Bom, nunca fui de me cobrar. Não estou frustrado com o blogue ou “travado” ou desgostoso, não pretendo de forma alguma parar. Só acho que a frequência aqui vai conforme a minha vontade, o meu próprio ritmo. Agora está assim, principalmente porque estou trabalhando em outras coisas (montando e revisando um livro de poesias, me convencendo a revisar outra vez um romance, escrevendo outra história que nem sei o que é ainda porque ando muito interessando em trabalhar com narrativas improvisadas…). Admito que às vezes tinha vontade de que as coisas se formassem na velocidade de um pensamento, mas um texto não surge no papel. O fato de eu não estar aqui semanalmente – nem vou fazer vocês rirem com um “diariamente”, afinal nunca aconteceu – não significa que eu não esteja trabalhando em algo.

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3 – Agora que sei o quão medíocre é meu espanhol, estou praticando outra vez, quero me aperfeiçoar. A intenção era focar nisso o ano todo, mas é setembro, volto pra Buenos Aires em três semanas e o progresso foi mínimo. Li alguns dos livros que comprei lá, vi uns filmes, mantive contato (bem pouco) com uma pessoa que conheci lá, mas não sei se ajudou. Já me imagino travando na chegada outra vez, pedindo pras pessoas repetirem a mesma frase duzentas vezes. Vejamos. Outra coisa que aconteceu foi o fim do curso de francês que comecei em 2015. Tenho uma relação de alguns anos com o francês, esquecendo e relembrando e esquecendo e assim por diante, mas agora quero me aperfeiçoar. É complicado aprender de verdade um idioma. O que costuma funcionar ou me ajudar nesse processo é a leitura. Só que, ao contrário do inglês e do espanhol, o que está havendo com o francês é a minha dificuldade de pegar livros mais acessíveis para as primeiras leituras. Não precisei disso pro inglês nem pro espanhol, mas começar as leituras em francês por Paul Éluard e Samuel Beckett não deu certo. Peguei emprestado Le Petit Nicolas e conseguia entender o texto, mas não passava da primeira página sem pegar no sono. Que tortura digna do diabo, não? Entender, mas não conseguir se interessar; se interessar, mas não conseguir entender.

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4 – Esse artigo sobre a exposição I ♥ John Giorno, em Nova Iorque, é muito bom. Ele que me convenceu a ilustrar essa postagem com as obras desse poeta tão esquecido. Há tempos quero falar dele, mas não conheço o suficiente. E a obra dele é tão vasta e se expande por meios tão diferentes que é difícil dizer se existe algo como “conhecê-la o suficiente”. Por algum motivo, ele sempre foi visto como um coadjuvante. Ele estava ativo na época da Escola de Nova Iorque, envolvido com os artistas; fez parte do movimento beat, junto de Burroughs e Ginsberg e Corso; criou o Dial-a-Poet, linha para a qual qualquer um podia ligar e, ao fazê-lo, seria atendido por John Cage ou Patti Smith ou John Ashbery ou Ted Berrigan ou Aram Saroyan ou Anne Waldman, entre tantos outros, que prontamente leriam um poema para o ouvinte; se apresentou junto das bandas punk – Patti Smith, Richard Hell – e das bandas que abriram caminho pro que hoje nós chamamos de rock industrial – Throbbing Gristle, Suicide – no CBGB, e formou sua própria banda em 1980; sem falar o papel dele como ativista, pra conscientização sobre a AIDS, e ter sido precursor desse tipo de poema-anúncio, tão popular nos dias de hoje, em redes sociais, apesar dos dele virem com um pouco mais de provocação e intensidade (e não o tipo de intensidade que todo mundo diz ter hoje e dia… mas isso é assunto pra outro texto). Mesmo assim, raramente ele visto como o artista, mas como o cara que o Andy Warhol filmou dormindo ou o “muso” de Robert Rauschenberg e Jasper Johns. O artigo serviu pra mostrar como ele, na verdade, é um símbolo vivo de tudo que Nova Iorque foi, desde a década de 1950, pra arte e tudo o que ela não é mais.

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5 – Esse é o disco da vez. Uma reunião de composições do Alban Berg, regidas por Pierre Boulez. Elas são: Concerto de câmara para piano, violino e 13 instrumentos de sopro; 3 peças para orquestra; e concerto para violino e orquestra “À memória de um anjo”. Prefiro não dizer nada, principalmente por não ter o conhecimento técnico para analisar. Me interesso por essa fase “modernista” da música erudita e é só. Além disso, fui apresentado por Cortázar à obra de Alban Berg, em O Jogo da Amarelinha. Isso é uma série de indicações musicais “em ordem alfabética” que comecei agora. A-lban Berg é o primeiro. A próxima indicação será por um artista cujo primeiro nome comece com a letra B. A ideia é focar em estilos que menciono pouco por aqui. Como não falo muito de música erudita, apesar de escutar com frequência (principalmente enquanto leio ou escrevo e preciso bloquear os sons de fora, mas não quero me distrair com letras), decidi começar por esse gênero. Pretendo botar pelo menos alguma nota biográfica nos próximos, mas sinto que já escrevi demais nessas observações e Google existe pra saciar os curiosos.

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