A memória das coisas (Diário de Viagem #6)

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1 –  Primeiro dia. Por burrice estou perdido. Caminho em direções aleatórias buscando um lugar onde comer ou só onde possa parar e sentar por um instante. São várias quadras acumulando atrás de mim, mas acho que sei voltar ao hotel ainda. Posso ter andado em círculos o tempo todo e estar prestes a dar de cara com a entrada do hotel. Acostumado a andar, esqueço que não sei onde estou com facilidade. Olho pra um lado, nada reconhecível. Nada atrás idem. Até me assusto quando vejo uma bela vitrine abarrotada de livros velhos bem do meu outro lado. Entro. Digo a mim mesmo que é só pra pedir informação, mas sei bem que é mentira. Eu tento, mas não consigo me enganar mais. Olho as lombadas, me interesso por quase tudo, desvio das pessoas. Fico impressionado por haver pessoas. Pego um só do Roberto Arlt, cercado de grandes volumes de sua obra completa – esses não posso, tenho que me controlar e pegar um só, até que bem barato apesar de eu estar longe de me acostumar com os números altos pra qualquer coisa. Pergunto ao vendedor, não onde estou, se ele tem algo da Alejandra Pizarnik. Fica surpreso, diz que sim, mas só um. Uma seleção que deve ser da década de 1980. Compro os dois livros. Pergunto como chego ao Centro. É muito longe, tem que pegar o metrô. Ele explica onde fica. De onde você é? Brasil. Como a cidade tá te tratando? Acabei de chegar, estou perdido, mas até que bem tratado. Chegou quando? Ontem, três da manhã. Ah! Gosta de literatura argentina? Sim, apesar de não conhecer muito mais que Borges, Cortázar, César Aira. Esses que você escolheu são muito bons, clássicos da nossa literatura. Ei, você é do Brasil… Mário de Andrade, você conhece? Bem pouco, só umas poesias avulsas. Macunaíma é meu livro favorito de todos, é genial. Traduziram Macunaíma? Sim, como não? Uau. Não tenho mais nada a dizer. No futuro, lido o livro, teria, mas não estaria lá. Acho o metrô. Primeiro sinal, dos dois que tive naquele dia, de que o Brasil persegue seus filhos onde quer que eles estejam, mais ainda se ele só estiver ali do lado. Quero guardar o endereço desse sebo para voltar nele quando estiver mais seguro, mas não faço isso. Meses depois, encontro o endereço impresso num dos marcadores de página que recebi da loja. Fica pra próxima.

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2 – A feira de livros usados da Plaza Italia é uma reunião de microcosmos. Se cada volume carregasse em si um pouco de cada um de seus donos, um pouco de cada casa em que viveu e cada incidente pelo qual passou e um pouco dos lugares aos quais foi levado, some a isso o fato de hoje estar na rua, cuidadosamente posicionado em uma das várias cabines na maior feira de livros de uma das maiores e mais movimentadas praças de uma das maiores cidades da América do Sul, não seria exagero imaginar que ele experimentou, direta e indiretamente, a maior parte da experiência humana em variedades indisponíveis à maior parte dos seres humanos. Pego um deles, antigo, a parte de cima do miolo tomada por uma camada sólida de pó, viro com cuidado algumas páginas, num instante, desejo sinceramente poder acessar pelo toque as memórias dele. Ambição excessiva. Não basta o livro ser este naco da consciência de outro ser humano, há décadas morto, concreto em minhas mãos, quero mais, quero as imagens abstratas das coisas que o objeto livro viveu. Vejo o preço do livro. Muito caro. Ponho o livro de volta em seu lugar pra que pegue mais pó e digitais e pra que talvez receba uma nova casa e experimente tantas outras coisas, não comigo. Tantos volumes diferentes, asfixia. Lembra mortalidade e presença, memória, dá uma impressão breve de sentido junto à impotência do indivíduo. Uma belíssima tristeza. Havia terminado, na noite anterior, de ler a seleção de poemas da Alejandra Pizarnik. Encontro e compro um volume de sua obra completa. Troco uma ideia breve com o vendedor sobre ela (…compra esse, aí não precisa comprar mais nada, tem tudo dela aqui… talvez… talvez, exceto pela novela que ela escreveu, A Condessa alguma coisa assim, se bem que acho que tem aqui – e pegou outra cópia – … sim, tá aqui, não sei se toda ou fragmentos… enfim, é uma obra menor dela, de qualquer forma, mas, se você gostar dos fragmentos, indico a leitura, é uma boa novela…) e sobre o preço dos livros do Bolaño, o quanto eles acabam valendo a pena.

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3 –

rastros

a madeira que cerca o Degas no museu
um dia foi
como a árvore que fora faz sombra.
ambas carregam
no corpo um tipo de memória,
como a tinta carrega.
noto, de leve, o movimento ancestral
do pincel e
por ele tento imaginar monsieur Edgar
em seu ateliê,
monstruoso dominando suas jovens modelos
enquanto ele
as fazia flores ao vento nas telas.
posso fingir
que vejo o homem, mas não vejo,
não de verdade.
ele está lá, como as modelos estão,
como uma árvore qualquer está,
só sua projeção,
rastros deixados na história
feito os de um urso na floresta.

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sábado (“poesia 19”)

1

a entidade aguarda ao meu lado estátua vigilante
de cada movimento meu, eu, que observo as lombadas de uma estante,
escolho um livro qualquer e folheio e boto de volta
num processo que só eu entendo, mas o abantesma analisa e chuta
você lê clássicos? não exclusivamente. gosta de contos
crônicas? (causos… chistes… não deu.) tô procurando outras coisas.
teima:
olavo de carvalho? 
(é o caralho. cruz credo, satã me proteja.) 
não.
ignoro. não olho. finjo que não tá lá, mas tá. terrorista calado
e seus piercings no lábio e septo no escrutínio mercadológico.
não quero nada, não posso querer nada, só folhear uns livros e comprar
tantos outros. é pedir muito? eu que recebo tão pouco. 
compro os dois que reuni e nem olho na cara da minha assombração
que não tenta nova aproximação desde a última, a errada, a ofensiva.

2 

ele pede algo para o cara sentado no banco.
eu me aproximo pela rua, torço pra que não me veja,
mas ele me vê. passa ao meu lado. passa direto.
ei você. sigo. você dos livros. olho.
não sei por que, mas olho. e me arrependo.
vem em minha direção e começa sua história
como a de tantos
que a filha estava no hospital
consulta graças a deus se tivesse internada eu tava fodido
nem tinha como não ia dar
comprei umas fraldas pra levar pra ela mas tâmo com fome
tu não pode me ajudar com uma coisinha mano?
tiro as moedas do bolso e dou pra ele. ele aceita, diz que ajuda
qualquer coisa ajuda. tenho nota de cinquenta no bolso
mas isso não dou, não posso, preciso ir no mercado e nem almocei ainda.
ele pega as moedas
já vou aproveitar e ir no comper.
então não posso ir, não quero que saiba que tinha mais, só mais tarde.
ele volta
pega de volta as moedas mano é o seguinte tu pode me ajudar? 
compra umas coisas pra nós
eu não posso entrar sozinho no mercado não deixam
tu compra?
o que você quer?
eu vou contigo mano relaxa. vamos, entramos.
EI EI, pro segurança, aponta pras sacolas de fraldas e as larga nas cestinhas na 
entrada,
pra tu não dizer que eu roubei depois
e esse aqui veio por vontade própria nem no estacionamento ele tava
tava lá atrás na rua bem longe viu? 
é foda mano porra aqui o povo é foda, 
vamos às fileiras das bolachas.
e aí? 
mas o que tu quer?
o que você pode mano?
eu sei lá escolhe uma da que você gosta. uma. ele pega a bolacha de morango
e bota na minha cesta. vamos pra outro corredor, todos nos olham com medo. 
aborda o rapaz do mercado, cadê o chocoleite mano? isso não tem
não tem chocoleite.
mas como não? aquele do pacote com cinco. isso é achocolatado não é chocoleite,
num tom que ele nunca usaria pra um cliente, aponta.
é isso é a mesma coisa porra. esse daqui pode?
pode pode levar. bota na cesta.
preciso de lenço umedecido também onde é que fica?
não sei deve ser junto do papel higiênico. vamos, é lá,
ele encontra e me aponta um. é trinta reais.
esse não dá trinta conto não tem como.
trinta? ele olha mais de perto. putaqueopariu mano trinta pila
vá se foder. e esse? também não dá é dezesseis.
caralho tudo caro nessa merda mano.
esse aqui é cinco, eu aponto.
quatro e noventa e nove. ele pega o de dezesseis, e esse aqui
não pode? não dezesseis é muito. 
ia comprar uma cerveja de dezesseis reais, agora não posso.
o cara da barba aparada como um bonsai bem alinhado
para de respirar, acha que fui sequestrado, no mínimo
e tô lidando bem demais com a situação, salvando todo mundo duma chacina.
mas esse pode. esse pode é cinco. ele aceita, pega, bota na cesta.
vâmo embora. espera aí eu tinha que vir aqui mesmo vou pegar umas coisas e
te encontro no caixa. ele vai, suspeita, vejo que anda pra lá e pra cá
na frente do mercado. acha que vou fugir, largar tudo, roubar o que disse que era 
dele,
mas não.
só compro uma água. pão de forma. presunto. o peito de peru tá onze reais,
virou iguaria, ave rara.
passo na padaria do mercado, a moça me atende. o que vai ser?
me vê três pães de queijo. do grande ou do pequeno?
olho pra ver a diferença,
não olho pros pães de queijo. olho pra mosca no canto da prateleira,
se esfregando arreganhada sobre um croissant coberto de orégano.
do grande. surge o pai de família. mano tu pode ver um desses pra mim?
aponta pro sonho. digo que sim. é pra minha esposa.
me vê um sonho também, quando a moça me entrega os pães de queijo.
de qual?
qual?
qual é qual aqui?
esse é de creme, de creme com chocolate, doce de leite
vê esse aqui o creme com chocolate. ela pega, bota num saco, pesa.
me entrega e boto na cesta junto do resto.
vou pro caixa, peço pra separar o que é dele numa sacola.
ela faz enquanto passa os itens pelo caixa.
entrego a sacola dele. valeu aí mano e vai, assistido por todo mundo.
pega a sacola que ele tinha deixado na cestinha lá da frente.
pago tudo, pego o troco e vou embora. por algum motivo me sinto desesperado.
me sentia assim do momento que saí de casa, quero voltar
correndo o caminho inteiro. ainda escuto a voz dele gritando alguma coisa pra 
alguém,
acho que ele vai me seguir, não acredito que não tentou me assaltar. mas não,
só vamos em caminhos opostos. não relaxo e nem é mais por causa dele,
é por tudo. alguma coisa no ar esse ano. aura de fim do mundo que não chega.
dívida bíblica que já tá na hora de ser paga, o apocalipse.
não corro, mas ando rápido, o suor escorre pelas minhas costas,
forma um Rorschach na minha camiseta. enfim chego.

3

vizinha fala com senhor na recepção do prédio. o senhor vai embora,
ainda espero o elevador, compras na mão, logo uma sacola vai rasgar.
boa tarde, ela diz, voz alegre. boa tarde, respondo, quase calmo
em casa, quase em casa. a porta do elevador abre. 
ela entra.
eu entro.
aperto pro terceiro andar. qual o seu?
quarto. aperto pro quarto. o elevador passa pela garagem, pelo primeiro,
ela aperta pro sétimo. desculpa, me esqueci, tô mudando hoje pro sétimo,
agora é pra lá que eu vou. 
fiz o mesmo uns anos atrás. fui do sétimo pro terceiro.
é mesmo? mudança é sempre correria, tô louca pra lá e pra cá.
sei bem como é. a porta abre, grosseira, interrompe o assunto.
tchau, boa tarde.
boa tarde. gosto da voz dela. do rosto. seu rosto me lembra o de outra,
de um momento agradável. abro a porta do apartamento e respiro fundo
quando entro. 

4

eram nove da noite quando as ideias começaram a sair dos trilhos,
o livro no meu colo era great balls of fire, ron padgett,
estava envolto por uma fumaça de prazer, sentindo falta de uma cerveja
pra acompanhar. the headline she had read me was rather astonishing.
i went back inside and wrote it down. quanto tempo fazia
desde minha última poesia. pelo menos dois meses. talvez essa seja uma ideia.
só escrever uma mistura forte o bastante pra que nem se saiba
se é prosa ou poesia. confundir os dois como eu nunca antes fiz e
irritar os puristas que nem me leem pra se irritarem comigo, mas
um pouco de delírio mal não faz. dá pra brincar, faz tempo que não
brinco de bater palavras, espancar palavras, fazer mal a e com elas.
caught my eye, would have been quickly disposed of.  
ruminei e ruminei.
“the word was they”; it appeared once in the sentence,
e qual é a ideia, quais palavras bater.
nunca vem a palavra certa de primeira.
no elevador com a moça, falando da dureza da mudança
“sei como é” grande merda. 
“se precisar de alguma coisa pode me chamar,
já fiz mudanças sozinho antes, sei que é complicado,
meu apartamento é esse.” isso seria melhor.
devia ter dito isso.
edição, por isso prefiro literatura que a vida,
poder voltar nas páginas e corrigir os erros.
mas, claro, um escriba obsessivo como eu, na sede por realidade,
forçaria a frase errada, sem voltar atrás,
na verdade, faria um texto em que a personagem, mesmo no mundo da ficção,
se tortura por não ter dito a coisa certa na hora certa,
sonha com a chance de corrigir, corrige mentalmente e cria
cenários imaginários em que a coisa certa foi dita.
se bem que ela detestaria essa fumaça toda ou
acharia curioso.
when i see birches
i think of nothing
but when i see a girl
cachimbo apaga, risco fósforo, reacendo,
sopro fumaça pro alto, encosto a cabeça no encosto da poltrona
e fecho os olhos. tem cheiro de queimar incenso num churrasco.
escuto o barulho dos passos do vizinho de cima martelando pelo piso,
ecoando na minha sala.
não é a moça, ela foi pro sétimo, e nem ficava
diretamente acima de mim. será que já terminou a mudança?
throw away her hair and brains
i think of birches and i see them
one could do worse than see birches

5

sei que tá ficando tarde, tem gente gritando
no estacionamento do mcdonald’s, ao lado de casa.
aprendi a ignorar com o passar dos anos. 
tem sempre gente gritando sábado à noite
no estacionamento do mcdonald’s, playboys, estudantes,
gente que volta da balada, que ainda vai pra balada,
gente bêbada e rica e besta e violenta, sedenta.
ninguém pode fazer nada. um funcionário que se meta,
pobre, subjugado, leva uma cusparada na cara e um pé na bunda
se disser qualquer coisa. não tem ninguém que trabalhe lá 
que não seja por absoluta necessidade. 
the pied quarts of chevrolets trim blent sir her eyes on
que porra é essa?
tradução fonética, francês e inglês,
sem coerência.
como traduzir isso? passo um bom tempo pensando nisso,
em como traduzir o aparentemente incoerente,
se há quem tenha decodificado
essa combinação de palavras
my dog sag knee
jet chris
a vic
lee rig knee of old roys is finite
sinto um trocadilho que não vejo,
deve haver um trocadilho em algum lugar aí.
deixo em paz, sigo lendo,
deixo o barulho lá fora, sigo lendo,
mesmo quando os gritos ficam mais intensos.
sigo planejando uma poesia, mesmo sem papel e caneta,
sigo pensando na moça do elevador, mesmo sem saber nada sobre ela 
com poucas chances de a ver de novo.
devo levantar pra escrever, mas faltam forças. 
não quero sair da poltrona, largar o livro.
decidir as palavras para dar forma a algo que
sem forma já é perfeito, exclusivo do mundo invisível
das ideias, potencial sem limites, 
significado nulo, inútil como tudo que é bom deve ser. 
deixo pra amanhã.
se lembrar de uma palavra que seja, vale a pena,
do contrário, ao esquecimento como tudo que não merece lembrança.
se lembrar da moça do elevador quando a vir outra vez, 
quiçá no elevador,
quiçá mais cedo do que tarde,
vale a pena corrigir minhas frases. do contrário,
que vá à imensa gaveta dos arrependimentos, a que abro toda madrugada
e dela retiro um item aleatório para me atormentar.

6

ELE É MEU AMIGO
MAS TIAGO ELE É MEU AMIGO
clama a voz ébria e esganiçada em conjunto
de outras vozes, outros gritos, lá no estacionamento
dos pecados. o inferno. o inferno é o estacionamento do mcdonald’s
de madrugada, onde os que se entregam aos excessos
são entregues às consequências.
um gordo qualquer, aos tropeços, empurra outro gordo.
qual é o tiago, amigo da loira bêbada?
como dois galinhos de briga eles se peitam em público,
sem inibições, sem bom senso. obrigado deus álcool,
mesmo longe de mim você me tira do tédio, me traz
entretenimento. NÃO FAZ ISSO ELE É MEU AMIGO e meu cachimbo está vazio
e não tenho vontade de escrever e nem de ler,
eu quero sangue.
do meu apartamento, pela janela, torço que alcancem
o ápice da patetice playboy, que um puxe uma arma ou os dois,
comecem um duelo à moda antiga depois de se estapearem com luvas de pelica,
que defendam a honra deles mesmos, agora manchada pela performance
ridículo inebriada. mas sempre, antes do soco,
separam os dois. um segura o outro. o outro resiste ao um.
o outro acotovela a boca do um e agora o um quer socar o outro.
todos querem um pedaço do TIAGO.
isso é brasil, quando um bate, todo mundo quer bater,
disse a personagem do lourenço mutarelli que queria uma bunda
e cheirar o ralo do diabo com o olho de vidro do pai dele. 
talvez tenha roubado dele mais que só essa frase pra criar 
essa hipótese de poesia aqui.
tô quase descendo pra bater no TIAGO também, que é AMIGO da loira.
finalmente, depois de muita espera, um soco. acho que vários,
mas não vejo. eles saem do meu campo de visão, só pra provocar.
perde a graça, volto ao livro, mas, se leio, não sei.
acho que quero que o dia termine, penso em  ir pra cama.
tenho medo de não dormir por causa da moça do elevador,
do fantasma da livraria, do cara do mercado. tenho medo
de esquecer da poesia que não escrevi ainda. e passar por mais um mês
sem escrever poesia. pode ser que não volte mais, se passar muito tempo.
y..r d..k
é o título da outra poesia. acho que saquei, mas não tenho 
tempo de decodificar. todas as palavras, quase, tão incompletas,
só primeira e última letra visíveis.
quero fazer algo assim também. só de sacanagem.
sacanagem é estética.
mas não agora. agora vou pra cama, ao som dos aplausos e risos
no estacionamento do mcdonald’s, comemorando a rendição do TIAGO,
que parte cantando pneu.
era o TIAGO batendo ou apanhando?
qual era o TIAGO mesmo? o AMIGO ou o avisado da amizade.
quem era o outro? o um? enfim. são iguais.
deito na cama. dormir já é uma longa história.
longa demais pra isso aqui, que não sei se existe.
só vou saber depois.

___
As aspas no título são porque eu nem sei se isso classifica como poesia. 

 

turismo (poesia 17)

a nós, os infelizes, não
deveria ser permitido sair
de casa, que dirá do país.
que terrível é conhecer
uma realidade melhor,
suportável em comparação
e, depois, ter que voltar,
um filho adotado devolvido,
e ter que, no ônibus, olhar
seus olhos distantes. te pergunto
no que você tá pensando.
no tanto que eu tenho pra
fazer essa semana, você responde.
é aí que me dou conta da minha
condição irreal na sua vida
e da sua na minha. é isso, não?
você tem emprego e família,
coisas que eu tenho, mas não agora,
dei pausa, ignoro, nesse breve
paraíso artificial em que pude viver
por uns dias. e os dias estão acabando,
passaram tão rápido que já acabaram
e faço esses versos de memória
sobre o momento do passado em
que pensava nessas coisas.
onde você está agora, ampulheta
do meu retorno? me pergunto.
eu volto ao trabalho agora, segunda,
voltei, mas ainda não sei que
porra estou fazendo aqui, nessa realidade
de papelão, que derrubaria com
um dedo, se tivesse coragem.
é o que acontece quando
um de nós, sempre insatisfeitos
com a realidade que nos cerca e
a qual você, com seus olhos distantes,
agora assiste na sua versão,
vê o que não deveria,
quando vemos aquilo que é melhor e,
pra piorar, é alcançável.
felicidade impulsiva,
essa tentação.

achei uma raposa (poesia 16)

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uma típica raposa selvagem
parte cobre        parte branca
cheirando o quintal de uma casa
talvez a dos meus pais ou uma das
            em que eles viveram um dia
a anterior à atual com o chão de pedras
   e a piscina de água verde amarronzada
       salpicada de folhas secas
    o nome da raposa?    não recebeu um
estávamos todos      quem?         quantos?
                        ansiosos pra ver a reação do pobre

cão         baltazar      velho de guerra
ao conhecer seu novo amigo
          logo um cão que sempre deu
                preferência aos primatas ante
os caninos
mas se aproximaram um do outro
               com cautela claro
             trocando cheiradas até se
  voltarem pra si mesmos um
           fingindo que o outro não estava lá
que não existia
que tal encontro nunca havia acontecido
tentei me aproximar de um pra
 atrair o outro              não aconteceu
 se ignoravam              não se viam
 tão breve contato e já tão humanos

mas estávamos de mudança
      insisto nesse nós
na presença de outros que nunca
                                 deram as caras
abri a porta do carro e deixei
      a raposa ou o cão ou os dois entrarem
o cão sumiu sem que se desse conta
      a raposa foi à caça dum pequeno pássaro
quase abatido
      largado no meio do caminho
        a raposa se aproximava sorrateira
mas foi repreendida
   pelo que?          sabe-se lá
     vozes         presenças
que insistem em surgir ocultas       e partir ocultas
abriu a boca e o pássaro
vivo                      morto               
                                        caiu
largou o pássaro e achou o ninho
se refestelou nas cascas e fluídos e carnes fetais
                                       outra repreensão mesmo que tardia
           a raposa essa inconsciente assassina selvagem
sacudiu o corpo para tirar a morte dos pelos
  atirando gosma e casca
                pelo chão e pelas paredes
                      e entrou no carro e dormiu
                              terminado o bom dia de caça

      a nova casa era diferente
uma que nunca vi
 abro a porta do carro para deixar a raposa sair
já não está lá
        fecho a porta sem questionar nada
me sinto incapaz de questionar qualquer coisa
se não está lá é porque não deve estar lá
se estivesse seria errado
        esqueço
é como se a raposa nunca tivesse existido
e
  de certa forma
                         nunca existiu

não entro na casa nova
                      ao invés disso
 vou à praia que fica bem de frente à casa
pois nunca morei num lugar com vista à praia antes
 vou à praia mesmo que eu odeie praias
                                          areia cheiro do mar
caminho devagar
                         sinto a areia úmida entre os dedos dos meus pés
                                 grudando às solas dos meus pés
           lá está a raposa não tão longe
           sentada ela me observa
           ou não me observa
           fecha os olhos como um gato
    para apagar o mundo
ela corre         eu corro atrás   
     sinto que quer me mostrar alguma coisa
quê de arrogância da minha parte
          achar que todo animal
                é símbolo
        significa qualquer coisa
    referente a minha vida mais importante
ela não correu porque queria correr
           correu porque queria me mostrar algo
me levar ao meu destino

quando ela para avisto dois homens e uma mulher
          acoplados
a mulher penetrada por trás pelo homem penetrado por trás pelo outro homem
    quase um novo animal único
                                          a fusão dos três
              o raríssimo humanoide de três cabeças
       um hermafrodita hiperssexual
de seis pernas e seis braços e dois paus e uma boceta e três cus
    um espécime deliciosamente interessante
mas desequilibrado
         tenta dar o primeiro passo
                        cai de cara na areia
o primeiro rosto o feminino 
se afunda em cheio na areia
o segundo rosto o masculino 
na nuca da primeira cabeça
o terceiro rosto o masculino
na nuca da segunda cabeça
na areia dorme ou dormem
                                o mar banha em intervalos seus vários pés
tiro uma foto
                        a raposa da várias lambidas em cada um dos rostos
                 late estridente três vezes     uma despedida
                                   mística desaparece
                             não antes de eu tirar outra foto

o exótico triatlo japonês (poesia 15)

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tudo começou na fila de um refeitório
lá eu já não sabia onde estava nem
o que estava fazendo nem por que
mas tinha uma bandeja em mãos
sobre ela um prato e talheres e um
guardanapo de papel bem dobrado
seguia a fila que levava às opções de comida
saladas e carnes e massas et cetera
um típico quilo diferente por não ter mesas
me servi sem ver o que pegava
não importava afinal era só comida
coisas para manter o corpo ativo
botei o prato na balança e dei um cartão
branco sem valor pra moça que me atendia
ela eu conhecia de algum lugar
todo mundo ali eu conhecia de algum lugar
vários lugares diferentes
uma amálgama de figuras da minha vida
ali
gente com quem nem falava mas
vi passar na rua tal dia e a cara
se queimou na minha memória bizarra
que grava coisas sem saber o motivo
e esquece outras que podiam ser importantes
memória sem noção de prioridade
mas a comida está paga e
só então descubro para onde ir

àquela velha e familiar sala de aula
com as mesas e cadeiras de madeira compensada
a sala-de-jaula de tijolos vermelhos
o quadro negro como um olho que tudo vê sobre nós
o palanque de dez centímetros de altura
símbolo da superioridade do professor
que a instituição mantinha a rédeas curtas
deixei a bandeja sobre uma das mesas e sentei
quantos mas quantos rostos conhecidos
mas ninguém que viesse falar comigo
achava que um ou outro se referissem a mim
à distância aos cochichos
e eventualmente alguém se aproximou
falando como se não me visse havia muito tempo
o que estou fazendo aqui, eu disse
é aula, ela disse, lê esse texto
é importante é Derrida difícil pra caralho
mas é o tema de hoje então corre
boto o texto de lado umas tantas folhas grampeadas
nada que eu já tenha ouvido falar do Derrida
do Derrida só conheço reputação
fama e infâmia mas acima de tudo tenho fome
corto a comida a levo à boca mastigo mas não me concentro
meus olhos vão ao texto e voltam à comida
travo várias vezes até desistir antes de terminar o prato

o texto começa com duas imagens jornalísticas
com legenda que fala do exótico e humilhante
triatlo tradicional do Japão
das lutas contra essa tradição terrível
degradante às jovens mulheres japonesas
amaldiçoadas com o talento incrivelmente
específico que o esporte requer
um misto de acrobacia equilíbrio na corda bamba e tiro ao alvo
entre três cordas bambas sob as quais não há rede
a atleta deve fazer a série mais complexa possível de acrobacias
o grau de dificuldade e a perfeição no ato é julgado
por cinco membros da realeza imperial nipônica
ao chegar na terceira corda
a pobre moça deve caminhar sobre ela
até alcançar uma lança
voltar ao centro da corda e
atirar essa lança num alvo
um imenso triângulo de Sierpinski
devendo atingir um dos seus vértices
a diferença de valor de pontos entre cada vértice é
ao que tudo indica arbitrária
tudo feito com sucesso
a atleta deve então voltar
para que seus pontos valham
e a perdedora deve morrer

o mais humilhante no entanto o texto aponta
é que as vestes das atletas nunca cobrem
com sucesso a genitália
elas podem largar essa vida
mas ninguém precisa de gente com os talentos delas
na vida real
se veem presas ao jogo para sobreviver
contudo são milionárias e respeitadíssimas
as que vivem o suficiente
e por outro lado largar a carreira é imensa desonra
a essa altura a foto virou um filme de uma partida
vejo o movimento a tensão diante dos meus olhos
o suor escorrer pelo corpo da atleta
incomodada pelos fios invasivos de sua roupa
e pelos olhos invasivos dos espectadores
no estádio na bancada de juízes
em casa assistindo quiçá com o pau na mão
e meus próprios olhos invasivos
que veem o close da câmera
na moça curvada pronta pra dar sua série de saltos e piruetas
e o close se aproximava da faixa
do tecido que era segunda pele incompleta
que apertava a vulva até que
seus lábios asas de borboleta fugissem do casulo
e a essa altura já não sei se estou na sala de aula lendo
se estou em casa vendo o espetáculo
descontrolado pela hipnose irracional do entretenimento
não sei mais de muita coisa
muito menos por que uma lança
que atingiu a face de um dos 
menores triângulos
quase quase no centro
não valeu pontos

---
Já editei essa merda umas cinco ou seis vezes. 
Desculpem os transtornos.

Alguns poemas traduzidos de Ron Padgett*

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Quem me acompanha há algum tempo já deve ter esbarrado pelo menos uma vez com um dos meus comentários sobre o quanto gosto dos filmes do Jim Jarmusch. Vi quase tudo, é um dos meus cineastas favoritos – arriscaria dizer que é “o” favorito – e sempre fico ansioso pra ver o próximo lançamento – que vem a cada 3, 4 anos. E esse ano terá um filme novo dele, que Cannes já está recebendo como o melhor deles. Sim, mal posso esperar pra ver. Paterson, nome do filme, é um motorista e poeta, ele vive com a mulher em Paterson, Nova Jersey. Isso é tudo que eu sei. Isso, e que os poemas de Paterson foram escritos pelo poeta contemporâneo favorito do Jarmusch, sim, o cara do título da postagem, Ron Padgett. Fui atrás e gostei muito de tudo que li. Tanto que decidi traduzir uns pra vocês, assim, na maior cara de pau. Então aí vai, junto da fonte e texto em inglês.

Esquina do Café

As grandes tigelas de café nos cafés da manhã na França,
as pesadas xícaras de porcelana nos velhos diners¹ americanos,
os copos de plástico marrom descartáveis nas recepções de motel,

a sensação de que você há de beber a xícara toda,
o leve ressentimento que você sente por se sentir assim,
o ponderar por que você o faz então,

a gratidão por alguém fazer o café,
a decisão de não tomar o terceiro refil grátis,
a surpresa de uma xícara de café muito ruim,

como costumava custar cinco centavos, então sete centavos, então dez,
e agora pode ir de sessenta até três e setenta e cinco,
às vezes um pouco mais por descafeinado,

a impressão seca marrom na borda da xícara,
o restinho deixado no fundo,
o resto chapinhando dentro de você,

mandando seu estímulo por tubos
no seu corpo, olá, vamos, tamos atrasados, tá
com as chaves, meu deus não acho a carteira

¹: diner poderia ser restaurante, mas é tão tradicionalmente americano o formato do restaurante, tão específico, preferi deixar diner.

Mir¹
— Não há sinônimo para sinônimo.

No shtetl²,
apenas o cacarejar
de dois galos
que soa igual.

Eu bato no balde d’água,
azul sob a luz da manhã,
embora, pra dizer a verdade
sou azul sob qualquer luz,

um poroso azul real.
Nosso vilarejo não voa
pelos ares – ele está
pregado ao chão

e nós seguramos firme –
uns aos outros, às árvores,
às portas do chalé, ao que for,
e cantamos nossa cantiga local:

Oh os gatos e as nascentes!
Oh os cães e as fontes!
Oh! Oh! Oh!

Isto é por isso

O que vou comer no café da manhã?
Eu queria era ter ameixas
como as do poema de Williams.
Ele pediu perdão a sua esposa
por comê-las
mas o que ele não
fez foi pedir perdão aos
que leriam seu poema
e também não seriam capazes de comê-las.
É por isso que eu gosto do poema dele
quando não estou com fome.
Agora mesmo eu não gosto dele
ou do poema dele. Isto é só
para dizer isso.

[http://jacketmagazine.com/27/padg.html – todos os 3 primeiros]

Depois de Reverdy¹

Eu nunca mais iria querer ver seu triste rosto de novo
Suas bochechas e seu cabelo ventoso
Eu fui por todo o país
Sob esse úmido pica pau
Dia e noite
Sob o sol e a chuva
Agora estamos face a face
O que se pode dizer pra minha face
Uma vez descansei encostado numa árvore
Por tanto tempo que
Fiquei preso a ela
Esse tipo de amor é terrível
¹ Pierre Reverdy (1889 – 1960): poeta surrealista francês, que não conhecia até então, considerado um dos mais influentes de seu período.

[http://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57232]

Como ser perfeito

Durma bem.

Não dê conselhos.

Cuide bem dos dentes e gengivas

Não tenha medo de nada além do seu controle. Não tenha medo, por exemplo, que o prédio vai desabar enquanto você dorme, ou que alguém que você ama vá morrer de repente.

Coma uma laranja todas as manhãs.

Seja amigável. Isso vai te ajudar a ser feliz.

Aumente seu batimento cardíaco para 120 batidas por minuto por 20 minutos seguidos quatro ou cinco vezes por semana fazendo algo que te agrade.

Tenha esperanças por tudo. Não espere nada.

Cuida das coisas próximas primeiro. Limpe seu quarto antes de salvar o mundo. Então salve o mundo.

Saiba que o desejo por ser perfeito é provavelmente uma expressão velada de outro desejo – o de ser amado, talvez, ou de não morrer.

Faça contato visual com uma árvore.

Seja cético com todas as opiniões, mas tente ver algum valor em cada uma delas.

Vista-se de modo a agradar tanto você quanto aqueles a seu redor.

Não fale rápido.

Aprenda algo todos os dias. (Dzien dobre!¹)

Seja bom com as pessoas antes de elas terem um motivo para se comportarem mal.

Não fique bravo com nada por mais de uma semana mas não esqueça do que te deixou bravo. Segure a raiva a um braço de distância e olhe pra ela, como se fosse uma bola de vidro. Então a adicione a sua coleção de bolas de vidro.

Seja leal.

Vista sapatos confortáveis.

Escolha suas atividades de modo que elas demonstrem um equilíbrio agradável e variedade.

Seja gentil com os idosos, mesmo quando eles são abrasivos. Quando você envelhecer, seja gentil com os jovens. Não lance sua bengala neles quando eles te chamarem de Vô. Eles são seus netos!

More com um animal.

Não perca muito tempo com grandes grupos de pessoas.

Se você precisar de ajuda, peça.

Exercite boa postura até ela se tornar natural.

Se alguém assassinar seu filho, arranje uma escopeta e exploda a cabeça dele.

Planeje o dia de modo a nunca ter que se apressar.

Demonstre sua gratidão às pessoas que fazem coisas por você, mesmo que você tenha pagado, mesmo que os favores sejam indesejados.

Não desperdice dinheiro que você poderia doar aos que precisam.

Espere que a sociedade seja defeituosa. Então chore quando descobrir que ela é muito mais defeituosa do que você havia imaginado.

Quando você pegar algo emprestado, devolva em condição ainda melhor.

O máximo possível, use objetos de madeira ao invés de plástico ou metal.

Olha lá aquele pássaro.

Após o jantar, lave a louça.

Acalme-se.

Visite países estrangeiros, exceto aqueles cujos habitantes expressaram desejo de te matar.

Não espere que seus filhos te amem, para que eles possam te amar, se assim quiserem.

Medite sobre o espiritual. Então vá um pouco além, se tiver vontade.O que há no exterior (interior)?

Cante, de vez em quando.

Seja pontual, mas caso se atrase não dê longas e detalhas desculpas.

Não seja muito autocrítico ou muito autocongratulatório.

Não ache que progresso exista. Não existe.

Suba as escadas.

Não pratique canibalismo.

Imagine o que você gostaria de ver acontecendo, então não faça nada para tornar isso impossível.

Tire o telefone do gancho pelo menos duas vezes por semana.

Mantenha as janelas limpas.

Extirpe-se de todos os traços de ambição pessoal.

Não use a palavra extirpar com muita frequência.

Perdoe seu país de tanto em tanto tempo. Se isso não for possível, vá para um outro.

Se estiver cansado, descanse.

Cultive alguma coisa.

Não vagueie pelas estações de trem murmurando, “Nós vamos todos morrer!”

Conte entre seus verdadeiros amigos gente de vários estágios da vida.

Aprecie os prazeres simples, como o prazer de mastigar, o prazer da água morna correndo pelas suas costas, o prazer da brisa fresca, o prazer de pegar no sono.

Não exclame, “Como a tecnologia é maravilhosa!”

Aprenda a alongar seus músculos. Alongue-os todos os dias.

Não fique deprimido por envelhecer. Isso só vai fazer que você se sinta mais velho. O que é deprimente.

Faça uma coisa de cada vez.

Se você queimar seu dedo, bote-o em água fria imediatamente. Se você acertar seu dedo com um martelo, deixe sua mão no ar por vinte minutos. Você ficará surpreso com os poderes curativos do frio e da gravidade.

Aprenda a assobiar em um volume ensurdecedor.

Fique calmo na crise. Quanto mais crítica a situação, mas calmo você deve estar.

Desfrute do sexo, mas não fique obcecado com ele. Exceto por breves períodos na sua adolescência, juventude, meia idade, e velhice.

Contemple o oposto de todas as coisas.

Se você for tomado pelo medo de que nadou longe demais oceano adentro, vire e volte ao bote salva-vidas.

Mantenha viva sua criança interior.

Responda prontamente às cartas. Use selos atraentes, como aquele do tornado.

Chore de quando em quando, mas só quando sozinho. Então aprecie o quão melhor você se sente. Não se envergonhe por se sentir melhor.

Não inale fumaça.

Respire fundo.

Não banque o esperto com um policial.

Não saia da calçada até ter certeza que você pode atravessar a rua. Da calçada você pode estudar os pedestres que estão presos em meio ao tráfico enlouquecido e urrante.

Seja bom.

Caminhe por ruas diferentes.

De costas.

Lembre-se da beleza, que  existe, e da verdade, que não existe. Note que a ideia de verdade é tão poderosa quanto a ideia de beleza.

Fique fora da cadeia.

Mais tarde na vida, se torne um místico.

Use pasta de dentes Colgate com a nova fórmula de Controle do Tártaro.

Visite amigos e conhecidos no hospital. Se achar que é hora de ir embora, vá.

Seja honesto consigo mesmo, diplomático com os outros.

Não enlouqueça muito. É perda de tempo.

Leia e releia grandes livros.

Cave um buraco com uma pá.

No inverno, antes de ir pra cama, umidifique seu quarto.

Saiba que as únicas coisas perfeitas são um jogo de 300 pontos no boliche e um jogo de 27-rebatidas, 27-foras no baseball.

Beba bastante água. Quando perguntado o que gostaria de beber, diga, “Água, por favor.”

Pergunte “Aonde fica o banheiro?” mas não “Onde é que eu posso urinar?”

Seja gentil com objetos físicos.

Começando aos quarenta, faça um exame “físico” completo a cada tantos anos com um médico que você confie e com quem você se sinta confortável.

Não leia os jornais mais de uma vez por ano.

Aprenda a dizer “olá”, “obrigado”, e “palitinhos” em mandarim.

Arrote e peide, mas quietamente.

Seja especialmente cordial com estrangeiros.

Assista peças de teatro de fantoches e imagine que você é uma das personagens. Ou todas elas.

Leve o lixo pra fora.

Ame a vida.

Dê dinheiro trocado.

Quando tiver tiroteio na rua, não vá pra perto da janela.

¹ Bom dia! em polonês. Embora a grafia esteja errada, devia ser “dobry”. Mantive o original por razões óbvias – que vocês aprendam algo hoje também.

[http://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57243]

Tá, mas quem é Ron Padgett? Não tem muito da vida dele por aí. Ele é só um poeta de Oklahoma, que foi viver em Nova York, e se mesclou com a vanguarda da poesia de lá, inclusive os beats, entre outros poetas de diferentes movimentos. Hoje ele dá aulas, como a maior parte dos poetas que perduram e precisam virar acadêmicos pra pagar as contas. Ele também trabalhou de editor e traduziu gente como Apollinaire e Blaise Cendrars. [http://www.ronpadgett.com/]

Obs.: esse é a tradução de um  poeta do que pode virar uma série de traduções aqui no blogue. Tenho planejado isso faz tempo, fiz uns testes com Frank O’Hara e Raymond Carver, no finado blogue, pode ser que se realize aqui. Por enquanto a lista contém: Robert Pinsky, Frank O’Hara (mais dele), Anne Sexton, Eileen Myles, Roberto Bolaño, Bob Kaufman, além de aceitar sugestões – com critérios. Isso é pra amanhã? Não, não tenho data, o próximo pode vir só ano que vem.

*Essas traduções não devem ser levadas tão a sério. São, da minha parte, um exercício, tanto de língua estrangeira e tradução, quanto de escrita. Ao mesmo tempo, publicando aqui o resultado desses exercícios, posso apresentar a vocês poetas interessantes. É só isso, não tenho direito algum sobre a obra traduzida ou  credenciais (pesquisa, conhecimento; aqui não falo de títulos) para traduzir quem quer que seja profissionalmente.

Poesia 14

embarque

gigante de metal, majestoso,

carrega seus criadores além do horizonte desconhecido,

passeia, diverte, distrai, flutua,

luta contra a natureza que com rajadas de vento e água te empurra de seu domínio,

força mecânica explorando e apavorando aqueles que não te entendem,

nativos que sentem sua invasão, rastejando com velocidade deixando bolhas e leves 

tremores,

passa por cima desse mundo, sem visão e sem mente.

ao longe, braços abanam, espalhando lágrimas e despedidas

retribuídas pelos que se encontram por cima de ti e te controlam,

razão do seu existir.

você é metal e não sabe de nada disso, apenas é, essa é sua função.

não sabe das explosões que comemoram sua partida nem da inspiração que você traz

àqueles que ficam, ó grande besta.

viaja sem saber até outro porto qualquer e depois volta e vai de novo

até que sua lata não aguente mais as pancadas da natureza que resiste as suas agressões

e você cai ou te derrubam e outra entra em seu lugar.