onde está a porra do poema?

você roda o porta copos
entre os dedos de suas mãos,
suas unhas raspam as bordas
e logo ele está em retalhos.
assisto suas mãos, o zelo
inconscientemente preciso
dos seus dedos, e
olho pra você. e você
me olha de volta. e volto
a olhar seus dedos parados
agora,
então de novo seus olhos.
você sorri, ri um pouco até,
mas larga o porta copos na mesa.
palavras incompletas saltam
pela minha cabeça.
sussurram ideias que ignoro
porque há coisas mais importantes
no agora que hipótese de poema.
então passa uma semana,
duas, três e mais de um mês, e
não volto a te ver apesar da vontade.
nem volto ao poema apesar da vontade.
é você e o poema que não vêm
a mim.
o que resulta da busca por
um pouco mais de você
e um punhado de palavras
que possam ser ordenadas
com um mínimo de dignidade
é nada. não há resposta. então
aqui estou eu, um mês depois,
inventando coisas, sem saber
se atrás de você ou de um poema
ou se do meu próprio rabo, que,
todavia, balança.
Anúncios

agora me pergunto

agora me pergunto
se correu tudo bem na sua peça.
aguardo notícias suas
desde sábado passado, a estreia,
mas não quero incomodar.

é meu aniversário, você não
sabe? nunca te falei, acho.
prefiro que não saibam.
sozinho comemoro melhor.
quase tudo é melhor sem os outros,

ou é mais fácil, você concorda?
o Noll no meu colo tanto
me tortura e me encanta, com
sua ternura e crueldade perfeitas,
quero roubar cada frase pra mim,

quero o cérebro preservado deste
homem para ritual canibalístico:
vejo agora pentagrama com as velas
em cada ponta, a sala escura-
ignora e perdoa minhas bobagens.

à minha direita, sobre a banqueta
do teclado que há anos não toco,
uma taça de vinho, toca César Franck,
o clima agora mais frio, ameno,
tudo quieto na sala enevoada.

névoa que tem cheiro das ameixas
de Williams, aquelas que tantos
apetites despertaram e só ele
comeu. onde será que você está?,
curiosidade besta da noite de terça.

te mando uma mensagem nesta
quinta, mais tardar no domingo.
lembrei da sua peça por causa do
Noll – minuto de silêncio – que conta
em seu livro de um ator teatral.

nada mais em comum, mesmo assim
não deu pra controlar as memórias.
verdade seja dita que ando
romântico e ridículo, mais a cada
ano que passa. me deixa pra lá.

mas aqui as coisas vão bem,
antes que você pergunte. meio
na mesma, o que é ótimo.
a solidão só ajuda. mais fáceis
as coisas sozinho, concorda?

parabéns pra você
nessa data querida
por favor, me interna
se eu pedir mais desta vida.
mais que o silêncio

e que as lembranças, mais que
vinho e tabaco e livros,
mais que isso tudo ao redor,
mais que tempo e caminhadas
sem rumo- é, as coisas vão bem.

___
Este me deu vontade de apagar todos os meus poemas anteriores pra fingir que ele é o primeiro.

2 poemas (12:20 / à beira da praia)

12:20

têm sido quietos, nossos almoços. caíram em 
certa rotina. a conversa sempre parecida.
fico pensando se você percebeu que sempre
como a mesma coisa ou se já comentei 
isso contigo. é difícil separar na 
lembrança o que se diz do que não se diz.

à beira da praia

uma abelha flutua ao redor
da sola de sua sandália,
outra segue atrás da primeira,
sutis e vagarosas, tão leves.
a primeira encosta a cabeça
ou antenas na sola da sandália
e você nem a sente.
a segunda faz o mesmo, e
logo surge uma terceira
e quarta abelhas.
elas insistem nessa
misteriosa função de
descoberta. até que,
de repente, você se move,
descruza as pernas e as
cruza de volta, a de cima indo
pra baixo e vice-versa,
seu vestido de verão azul e branco
descobre e cobre de volta
suas coxas, que finjo não olhar,
e as abelhas fogem em
direção às árvores
temendo por suas vidas.
você bebe sua cerveja
sem saber do quase
múltiplo homicídio.

A memória das coisas (Diário de Viagem #6)

IMG_0239

1 –  Primeiro dia. Por burrice estou perdido. Caminho em direções aleatórias buscando um lugar onde comer ou só onde possa parar e sentar por um instante. São várias quadras acumulando atrás de mim, mas acho que sei voltar ao hotel ainda. Posso ter andado em círculos o tempo todo e estar prestes a dar de cara com a entrada do hotel. Acostumado a andar, esqueço que não sei onde estou com facilidade. Olho pra um lado, nada reconhecível. Nada atrás idem. Até me assusto quando vejo uma bela vitrine abarrotada de livros velhos bem do meu outro lado. Entro. Digo a mim mesmo que é só pra pedir informação, mas sei bem que é mentira. Eu tento, mas não consigo me enganar mais. Olho as lombadas, me interesso por quase tudo, desvio das pessoas. Fico impressionado por haver pessoas. Pego um só do Roberto Arlt, cercado de grandes volumes de sua obra completa – esses não posso, tenho que me controlar e pegar um só, até que bem barato apesar de eu estar longe de me acostumar com os números altos pra qualquer coisa. Pergunto ao vendedor, não onde estou, se ele tem algo da Alejandra Pizarnik. Fica surpreso, diz que sim, mas só um. Uma seleção que deve ser da década de 1980. Compro os dois livros. Pergunto como chego ao Centro. É muito longe, tem que pegar o metrô. Ele explica onde fica. De onde você é? Brasil. Como a cidade tá te tratando? Acabei de chegar, estou perdido, mas até que bem tratado. Chegou quando? Ontem, três da manhã. Ah! Gosta de literatura argentina? Sim, apesar de não conhecer muito mais que Borges, Cortázar, César Aira. Esses que você escolheu são muito bons, clássicos da nossa literatura. Ei, você é do Brasil… Mário de Andrade, você conhece? Bem pouco, só umas poesias avulsas. Macunaíma é meu livro favorito de todos, é genial. Traduziram Macunaíma? Sim, como não? Uau. Não tenho mais nada a dizer. No futuro, lido o livro, teria, mas não estaria lá. Acho o metrô. Primeiro sinal, dos dois que tive naquele dia, de que o Brasil persegue seus filhos onde quer que eles estejam, mais ainda se ele só estiver ali do lado. Quero guardar o endereço desse sebo para voltar nele quando estiver mais seguro, mas não faço isso. Meses depois, encontro o endereço impresso num dos marcadores de página que recebi da loja. Fica pra próxima.

IMG_0238

2 – A feira de livros usados da Plaza Italia é uma reunião de microcosmos. Se cada volume carregasse em si um pouco de cada um de seus donos, um pouco de cada casa em que viveu e cada incidente pelo qual passou e um pouco dos lugares aos quais foi levado, some a isso o fato de hoje estar na rua, cuidadosamente posicionado em uma das várias cabines na maior feira de livros de uma das maiores e mais movimentadas praças de uma das maiores cidades da América do Sul, não seria exagero imaginar que ele experimentou, direta e indiretamente, a maior parte da experiência humana em variedades indisponíveis à maior parte dos seres humanos. Pego um deles, antigo, a parte de cima do miolo tomada por uma camada sólida de pó, viro com cuidado algumas páginas, num instante, desejo sinceramente poder acessar pelo toque as memórias dele. Ambição excessiva. Não basta o livro ser este naco da consciência de outro ser humano, há décadas morto, concreto em minhas mãos, quero mais, quero as imagens abstratas das coisas que o objeto livro viveu. Vejo o preço do livro. Muito caro. Ponho o livro de volta em seu lugar pra que pegue mais pó e digitais e pra que talvez receba uma nova casa e experimente tantas outras coisas, não comigo. Tantos volumes diferentes, asfixia. Lembra mortalidade e presença, memória, dá uma impressão breve de sentido junto à impotência do indivíduo. Uma belíssima tristeza. Havia terminado, na noite anterior, de ler a seleção de poemas da Alejandra Pizarnik. Encontro e compro um volume de sua obra completa. Troco uma ideia breve com o vendedor sobre ela (…compra esse, aí não precisa comprar mais nada, tem tudo dela aqui… talvez… talvez, exceto pela novela que ela escreveu, A Condessa alguma coisa assim, se bem que acho que tem aqui – e pegou outra cópia – … sim, tá aqui, não sei se toda ou fragmentos… enfim, é uma obra menor dela, de qualquer forma, mas, se você gostar dos fragmentos, indico a leitura, é uma boa novela…) e sobre o preço dos livros do Bolaño, o quanto eles acabam valendo a pena.

IMG_0290

3 –

rastros

a madeira que cerca o Degas no museu
um dia foi
como a árvore que fora faz sombra.
ambas carregam
no corpo um tipo de memória,
como a tinta carrega.
noto, de leve, o movimento ancestral
do pincel e
por ele tento imaginar monsieur Edgar
em seu ateliê,
monstruoso dominando suas jovens modelos
enquanto ele
as fazia flores ao vento nas telas.
posso fingir
que vejo o homem, mas não vejo,
não de verdade.
ele está lá, como as modelos estão,
como uma árvore qualquer está,
só sua projeção,
rastros deixados na história
feito os de um urso na floresta.

IMG_0335

sábado (“poesia 19”)

1

a entidade aguarda ao meu lado estátua vigilante
de cada movimento meu, eu, que observo as lombadas de uma estante,
escolho um livro qualquer e folheio e boto de volta
num processo que só eu entendo, mas o abantesma analisa e chuta
você lê clássicos? não exclusivamente. gosta de contos
crônicas? (causos… chistes… não deu.) tô procurando outras coisas.
teima:
olavo de carvalho? 
(é o caralho. cruz credo, satã me proteja.) 
não.
ignoro. não olho. finjo que não tá lá, mas tá. terrorista calado
e seus piercings no lábio e septo no escrutínio mercadológico.
não quero nada, não posso querer nada, só folhear uns livros e comprar
tantos outros. é pedir muito? eu que recebo tão pouco. 
compro os dois que reuni e nem olho na cara da minha assombração
que não tenta nova aproximação desde a última, a errada, a ofensiva.

2 

ele pede algo para o cara sentado no banco.
eu me aproximo pela rua, torço pra que não me veja,
mas ele me vê. passa ao meu lado. passa direto.
ei você. sigo. você dos livros. olho.
não sei por que, mas olho. e me arrependo.
vem em minha direção e começa sua história
como a de tantos
que a filha estava no hospital
consulta graças a deus se tivesse internada eu tava fodido
nem tinha como não ia dar
comprei umas fraldas pra levar pra ela mas tâmo com fome
tu não pode me ajudar com uma coisinha mano?
tiro as moedas do bolso e dou pra ele. ele aceita, diz que ajuda
qualquer coisa ajuda. tenho nota de cinquenta no bolso
mas isso não dou, não posso, preciso ir no mercado e nem almocei ainda.
ele pega as moedas
já vou aproveitar e ir no comper.
então não posso ir, não quero que saiba que tinha mais, só mais tarde.
ele volta
pega de volta as moedas mano é o seguinte tu pode me ajudar? 
compra umas coisas pra nós
eu não posso entrar sozinho no mercado não deixam
tu compra?
o que você quer?
eu vou contigo mano relaxa. vamos, entramos.
EI EI, pro segurança, aponta pras sacolas de fraldas e as larga nas cestinhas na 
entrada,
pra tu não dizer que eu roubei depois
e esse aqui veio por vontade própria nem no estacionamento ele tava
tava lá atrás na rua bem longe viu? 
é foda mano porra aqui o povo é foda, 
vamos às fileiras das bolachas.
e aí? 
mas o que tu quer?
o que você pode mano?
eu sei lá escolhe uma da que você gosta. uma. ele pega a bolacha de morango
e bota na minha cesta. vamos pra outro corredor, todos nos olham com medo. 
aborda o rapaz do mercado, cadê o chocoleite mano? isso não tem
não tem chocoleite.
mas como não? aquele do pacote com cinco. isso é achocolatado não é chocoleite,
num tom que ele nunca usaria pra um cliente, aponta.
é isso é a mesma coisa porra. esse daqui pode?
pode pode levar. bota na cesta.
preciso de lenço umedecido também onde é que fica?
não sei deve ser junto do papel higiênico. vamos, é lá,
ele encontra e me aponta um. é trinta reais.
esse não dá trinta conto não tem como.
trinta? ele olha mais de perto. putaqueopariu mano trinta pila
vá se foder. e esse? também não dá é dezesseis.
caralho tudo caro nessa merda mano.
esse aqui é cinco, eu aponto.
quatro e noventa e nove. ele pega o de dezesseis, e esse aqui
não pode? não dezesseis é muito. 
ia comprar uma cerveja de dezesseis reais, agora não posso.
o cara da barba aparada como um bonsai bem alinhado
para de respirar, acha que fui sequestrado, no mínimo
e tô lidando bem demais com a situação, salvando todo mundo duma chacina.
mas esse pode. esse pode é cinco. ele aceita, pega, bota na cesta.
vâmo embora. espera aí eu tinha que vir aqui mesmo vou pegar umas coisas e
te encontro no caixa. ele vai, suspeita, vejo que anda pra lá e pra cá
na frente do mercado. acha que vou fugir, largar tudo, roubar o que disse que era 
dele,
mas não.
só compro uma água. pão de forma. presunto. o peito de peru tá onze reais,
virou iguaria, ave rara.
passo na padaria do mercado, a moça me atende. o que vai ser?
me vê três pães de queijo. do grande ou do pequeno?
olho pra ver a diferença,
não olho pros pães de queijo. olho pra mosca no canto da prateleira,
se esfregando arreganhada sobre um croissant coberto de orégano.
do grande. surge o pai de família. mano tu pode ver um desses pra mim?
aponta pro sonho. digo que sim. é pra minha esposa.
me vê um sonho também, quando a moça me entrega os pães de queijo.
de qual?
qual?
qual é qual aqui?
esse é de creme, de creme com chocolate, doce de leite
vê esse aqui o creme com chocolate. ela pega, bota num saco, pesa.
me entrega e boto na cesta junto do resto.
vou pro caixa, peço pra separar o que é dele numa sacola.
ela faz enquanto passa os itens pelo caixa.
entrego a sacola dele. valeu aí mano e vai, assistido por todo mundo.
pega a sacola que ele tinha deixado na cestinha lá da frente.
pago tudo, pego o troco e vou embora. por algum motivo me sinto desesperado.
me sentia assim do momento que saí de casa, quero voltar
correndo o caminho inteiro. ainda escuto a voz dele gritando alguma coisa pra 
alguém,
acho que ele vai me seguir, não acredito que não tentou me assaltar. mas não,
só vamos em caminhos opostos. não relaxo e nem é mais por causa dele,
é por tudo. alguma coisa no ar esse ano. aura de fim do mundo que não chega.
dívida bíblica que já tá na hora de ser paga, o apocalipse.
não corro, mas ando rápido, o suor escorre pelas minhas costas,
forma um Rorschach na minha camiseta. enfim chego.

3

vizinha fala com senhor na recepção do prédio. o senhor vai embora,
ainda espero o elevador, compras na mão, logo uma sacola vai rasgar.
boa tarde, ela diz, voz alegre. boa tarde, respondo, quase calmo
em casa, quase em casa. a porta do elevador abre. 
ela entra.
eu entro.
aperto pro terceiro andar. qual o seu?
quarto. aperto pro quarto. o elevador passa pela garagem, pelo primeiro,
ela aperta pro sétimo. desculpa, me esqueci, tô mudando hoje pro sétimo,
agora é pra lá que eu vou. 
fiz o mesmo uns anos atrás. fui do sétimo pro terceiro.
é mesmo? mudança é sempre correria, tô louca pra lá e pra cá.
sei bem como é. a porta abre, grosseira, interrompe o assunto.
tchau, boa tarde.
boa tarde. gosto da voz dela. do rosto. seu rosto me lembra o de outra,
de um momento agradável. abro a porta do apartamento e respiro fundo
quando entro. 

4

eram nove da noite quando as ideias começaram a sair dos trilhos,
o livro no meu colo era great balls of fire, ron padgett,
estava envolto por uma fumaça de prazer, sentindo falta de uma cerveja
pra acompanhar. the headline she had read me was rather astonishing.
i went back inside and wrote it down. quanto tempo fazia
desde minha última poesia. pelo menos dois meses. talvez essa seja uma ideia.
só escrever uma mistura forte o bastante pra que nem se saiba
se é prosa ou poesia. confundir os dois como eu nunca antes fiz e
irritar os puristas que nem me leem pra se irritarem comigo, mas
um pouco de delírio mal não faz. dá pra brincar, faz tempo que não
brinco de bater palavras, espancar palavras, fazer mal a e com elas.
caught my eye, would have been quickly disposed of.  
ruminei e ruminei.
“the word was they”; it appeared once in the sentence,
e qual é a ideia, quais palavras bater.
nunca vem a palavra certa de primeira.
no elevador com a moça, falando da dureza da mudança
“sei como é” grande merda. 
“se precisar de alguma coisa pode me chamar,
já fiz mudanças sozinho antes, sei que é complicado,
meu apartamento é esse.” isso seria melhor.
devia ter dito isso.
edição, por isso prefiro literatura que a vida,
poder voltar nas páginas e corrigir os erros.
mas, claro, um escriba obsessivo como eu, na sede por realidade,
forçaria a frase errada, sem voltar atrás,
na verdade, faria um texto em que a personagem, mesmo no mundo da ficção,
se tortura por não ter dito a coisa certa na hora certa,
sonha com a chance de corrigir, corrige mentalmente e cria
cenários imaginários em que a coisa certa foi dita.
se bem que ela detestaria essa fumaça toda ou
acharia curioso.
when i see birches
i think of nothing
but when i see a girl
cachimbo apaga, risco fósforo, reacendo,
sopro fumaça pro alto, encosto a cabeça no encosto da poltrona
e fecho os olhos. tem cheiro de queimar incenso num churrasco.
escuto o barulho dos passos do vizinho de cima martelando pelo piso,
ecoando na minha sala.
não é a moça, ela foi pro sétimo, e nem ficava
diretamente acima de mim. será que já terminou a mudança?
throw away her hair and brains
i think of birches and i see them
one could do worse than see birches

5

sei que tá ficando tarde, tem gente gritando
no estacionamento do mcdonald’s, ao lado de casa.
aprendi a ignorar com o passar dos anos. 
tem sempre gente gritando sábado à noite
no estacionamento do mcdonald’s, playboys, estudantes,
gente que volta da balada, que ainda vai pra balada,
gente bêbada e rica e besta e violenta, sedenta.
ninguém pode fazer nada. um funcionário que se meta,
pobre, subjugado, leva uma cusparada na cara e um pé na bunda
se disser qualquer coisa. não tem ninguém que trabalhe lá 
que não seja por absoluta necessidade. 
the pied quarts of chevrolets trim blent sir her eyes on
que porra é essa?
tradução fonética, francês e inglês,
sem coerência.
como traduzir isso? passo um bom tempo pensando nisso,
em como traduzir o aparentemente incoerente,
se há quem tenha decodificado
essa combinação de palavras
my dog sag knee
jet chris
a vic
lee rig knee of old roys is finite
sinto um trocadilho que não vejo,
deve haver um trocadilho em algum lugar aí.
deixo em paz, sigo lendo,
deixo o barulho lá fora, sigo lendo,
mesmo quando os gritos ficam mais intensos.
sigo planejando uma poesia, mesmo sem papel e caneta,
sigo pensando na moça do elevador, mesmo sem saber nada sobre ela 
com poucas chances de a ver de novo.
devo levantar pra escrever, mas faltam forças. 
não quero sair da poltrona, largar o livro.
decidir as palavras para dar forma a algo que
sem forma já é perfeito, exclusivo do mundo invisível
das ideias, potencial sem limites, 
significado nulo, inútil como tudo que é bom deve ser. 
deixo pra amanhã.
se lembrar de uma palavra que seja, vale a pena,
do contrário, ao esquecimento como tudo que não merece lembrança.
se lembrar da moça do elevador quando a vir outra vez, 
quiçá no elevador,
quiçá mais cedo do que tarde,
vale a pena corrigir minhas frases. do contrário,
que vá à imensa gaveta dos arrependimentos, a que abro toda madrugada
e dela retiro um item aleatório para me atormentar.

6

ELE É MEU AMIGO
MAS TIAGO ELE É MEU AMIGO
clama a voz ébria e esganiçada em conjunto
de outras vozes, outros gritos, lá no estacionamento
dos pecados. o inferno. o inferno é o estacionamento do mcdonald’s
de madrugada, onde os que se entregam aos excessos
são entregues às consequências.
um gordo qualquer, aos tropeços, empurra outro gordo.
qual é o tiago, amigo da loira bêbada?
como dois galinhos de briga eles se peitam em público,
sem inibições, sem bom senso. obrigado deus álcool,
mesmo longe de mim você me tira do tédio, me traz
entretenimento. NÃO FAZ ISSO ELE É MEU AMIGO e meu cachimbo está vazio
e não tenho vontade de escrever e nem de ler,
eu quero sangue.
do meu apartamento, pela janela, torço que alcancem
o ápice da patetice playboy, que um puxe uma arma ou os dois,
comecem um duelo à moda antiga depois de se estapearem com luvas de pelica,
que defendam a honra deles mesmos, agora manchada pela performance
ridículo inebriada. mas sempre, antes do soco,
separam os dois. um segura o outro. o outro resiste ao um.
o outro acotovela a boca do um e agora o um quer socar o outro.
todos querem um pedaço do TIAGO.
isso é brasil, quando um bate, todo mundo quer bater,
disse a personagem do lourenço mutarelli que queria uma bunda
e cheirar o ralo do diabo com o olho de vidro do pai dele. 
talvez tenha roubado dele mais que só essa frase pra criar 
essa hipótese de poesia aqui.
tô quase descendo pra bater no TIAGO também, que é AMIGO da loira.
finalmente, depois de muita espera, um soco. acho que vários,
mas não vejo. eles saem do meu campo de visão, só pra provocar.
perde a graça, volto ao livro, mas, se leio, não sei.
acho que quero que o dia termine, penso em  ir pra cama.
tenho medo de não dormir por causa da moça do elevador,
do fantasma da livraria, do cara do mercado. tenho medo
de esquecer da poesia que não escrevi ainda. e passar por mais um mês
sem escrever poesia. pode ser que não volte mais, se passar muito tempo.
y..r d..k
é o título da outra poesia. acho que saquei, mas não tenho 
tempo de decodificar. todas as palavras, quase, tão incompletas,
só primeira e última letra visíveis.
quero fazer algo assim também. só de sacanagem.
sacanagem é estética.
mas não agora. agora vou pra cama, ao som dos aplausos e risos
no estacionamento do mcdonald’s, comemorando a rendição do TIAGO,
que parte cantando pneu.
era o TIAGO batendo ou apanhando?
qual era o TIAGO mesmo? o AMIGO ou o avisado da amizade.
quem era o outro? o um? enfim. são iguais.
deito na cama. dormir já é uma longa história.
longa demais pra isso aqui, que não sei se existe.
só vou saber depois.

___
As aspas no título são porque eu nem sei se isso classifica como poesia. 

 

turismo (poesia 17)

a nós, os infelizes, não
deveria ser permitido sair
de casa, que dirá do país.
que terrível é conhecer
uma realidade melhor,
suportável em comparação
e, depois, ter que voltar,
um filho adotado devolvido,
e ter que, no ônibus, olhar
seus olhos distantes. te pergunto
no que você tá pensando.
no tanto que eu tenho pra
fazer essa semana, você responde.
é aí que me dou conta da minha
condição irreal na sua vida
e da sua na minha. é isso, não?
você tem emprego e família,
coisas que eu tenho, mas não agora,
dei pausa, ignoro, nesse breve
paraíso artificial em que pude viver
por uns dias. e os dias estão acabando,
passaram tão rápido que já acabaram
e faço esses versos de memória
sobre o momento do passado em
que pensava nessas coisas.
onde você está agora, ampulheta
do meu retorno? me pergunto.
eu volto ao trabalho agora, segunda,
voltei, mas ainda não sei que
porra estou fazendo aqui, nessa realidade
de papelão, que derrubaria com
um dedo, se tivesse coragem.
é o que acontece quando
um de nós, sempre insatisfeitos
com a realidade que nos cerca e
a qual você, com seus olhos distantes,
agora assiste na sua versão,
vê o que não deveria,
quando vemos aquilo que é melhor e,
pra piorar, é alcançável.
felicidade impulsiva,
essa tentação.

achei uma raposa (poesia 16)

70545876_garden2-bbc

uma típica raposa selvagem
parte cobre        parte branca
cheirando o quintal de uma casa
talvez a dos meus pais ou uma das
            em que eles viveram um dia
a anterior à atual com o chão de pedras
   e a piscina de água verde amarronzada
       salpicada de folhas secas
    o nome da raposa?    não recebeu um
estávamos todos      quem?         quantos?
                        ansiosos pra ver a reação do pobre

cão         baltazar      velho de guerra
ao conhecer seu novo amigo
          logo um cão que sempre deu
                preferência aos primatas ante
os caninos
mas se aproximaram um do outro
               com cautela claro
             trocando cheiradas até se
  voltarem pra si mesmos um
           fingindo que o outro não estava lá
que não existia
que tal encontro nunca havia acontecido
tentei me aproximar de um pra
 atrair o outro              não aconteceu
 se ignoravam              não se viam
 tão breve contato e já tão humanos

mas estávamos de mudança
      insisto nesse nós
na presença de outros que nunca
                                 deram as caras
abri a porta do carro e deixei
      a raposa ou o cão ou os dois entrarem
o cão sumiu sem que se desse conta
      a raposa foi à caça dum pequeno pássaro
quase abatido
      largado no meio do caminho
        a raposa se aproximava sorrateira
mas foi repreendida
   pelo que?          sabe-se lá
     vozes         presenças
que insistem em surgir ocultas       e partir ocultas
abriu a boca e o pássaro
vivo                      morto               
                                        caiu
largou o pássaro e achou o ninho
se refestelou nas cascas e fluídos e carnes fetais
                                       outra repreensão mesmo que tardia
           a raposa essa inconsciente assassina selvagem
sacudiu o corpo para tirar a morte dos pelos
  atirando gosma e casca
                pelo chão e pelas paredes
                      e entrou no carro e dormiu
                              terminado o bom dia de caça

      a nova casa era diferente
uma que nunca vi
 abro a porta do carro para deixar a raposa sair
já não está lá
        fecho a porta sem questionar nada
me sinto incapaz de questionar qualquer coisa
se não está lá é porque não deve estar lá
se estivesse seria errado
        esqueço
é como se a raposa nunca tivesse existido
e
  de certa forma
                         nunca existiu

não entro na casa nova
                      ao invés disso
 vou à praia que fica bem de frente à casa
pois nunca morei num lugar com vista à praia antes
 vou à praia mesmo que eu odeie praias
                                          areia cheiro do mar
caminho devagar
                         sinto a areia úmida entre os dedos dos meus pés
                                 grudando às solas dos meus pés
           lá está a raposa não tão longe
           sentada ela me observa
           ou não me observa
           fecha os olhos como um gato
    para apagar o mundo
ela corre         eu corro atrás   
     sinto que quer me mostrar alguma coisa
quê de arrogância da minha parte
          achar que todo animal
                é símbolo
        significa qualquer coisa
    referente a minha vida mais importante
ela não correu porque queria correr
           correu porque queria me mostrar algo
me levar ao meu destino

quando ela para avisto dois homens e uma mulher
          acoplados
a mulher penetrada por trás pelo homem penetrado por trás pelo outro homem
    quase um novo animal único
                                          a fusão dos três
              o raríssimo humanoide de três cabeças
       um hermafrodita hiperssexual
de seis pernas e seis braços e dois paus e uma boceta e três cus
    um espécime deliciosamente interessante
mas desequilibrado
         tenta dar o primeiro passo
                        cai de cara na areia
o primeiro rosto o feminino 
se afunda em cheio na areia
o segundo rosto o masculino 
na nuca da primeira cabeça
o terceiro rosto o masculino
na nuca da segunda cabeça
na areia dorme ou dormem
                                o mar banha em intervalos seus vários pés
tiro uma foto
                        a raposa da várias lambidas em cada um dos rostos
                 late estridente três vezes     uma despedida
                                   mística desaparece
                             não antes de eu tirar outra foto