as coisas esses dias (poesia 18)

meu sono anda inquieto, ainda mais que antes. fico pensando coisas. penso demais e nada faço. fazer, é tão desgastante fazer. minhas poesias andam me agradando mais, mas pode ser autoengano. todos os dias eu descubro um tempo melhor para se estar vivo, descubro um cadáver que gostaria de ter conhecido mais que a maioria dos vivos que me cercam – ou um fantasma -, me aflijo com a maneira como as coisas passam e não voltam mais e ficam presas no tempo feito objeto valioso de museu sob cortinas negras e densas e trancafiadas.

é tão injusto não escolher a época e as pessoas pelas quais sou ignorado. pode ser só arrogância. ando me sentindo arrogante. húbris, talvez. ando querendo ser arrogante, melhor dizendo. como se o que me bastasse para ser bom poeta fosse um nariz em pé e versos extravagantes e a eterna voz arrastada da inebriação e um tom abrasivo e ríspido – pratico com frequência essas características.

minhas raízes, antes tão bem fincadas, agora tremem de cansaço e tédio do solo em que se plantaram e tentam se desenterrar aos poucos e quando se livrarem vão correr em desesperado disparo em direção ao primeiro destino que as recebam.

quero me cercar de gente louca para explorar suas loucuras, mas todos ao meu redor parecem tão bem ajustados que posso ser o estranho do meu circo. se um a cada dez é neurótico e os nove ao meu redor são normais… – …que horripilante alívio é constatar tal fato.

decidi abraçar a insatisfação e os momentos de ansiedade quando meus químicos cerebrais parecem estar em desacordo, afinal, nasceram assim, que assim em paz fiquem. nada adianta me entupir de mais químicos para os regular. recuso todo químico que não álcool e nicotina e cafeína, sagrada trindade, e, noutra categoria, a literatura cumpre igual função, junto das outras artes que me distraem do real, ardil haja, contudo, neste acordo.

um dos meus pés está fora do chão e coçando para dar o próximo passo, falta a cabeça sobre o resto do corpo decidir qual ele será.

assistindo; a que? não se sabe

dylan-thomas-1941

aqui estou eu, meio dia e vinte, naquele mesmo quilo, à mesa que por hábito chamo de minha, pensando em cenas para o romance que escrevo há 4 anos e visto como roupa e no quanto quero escrever uma poesia de novo, mas não qualquer outra poesia como as de antes, uma que será notada de alguma forma irreal porque às vezes sou tomado por essa ideia narcisista de que eu mereço ser notado mais que aquele outro poeta, o que é mentira, mas poderia não ser, não poderia? e no fim não escrevo nada, apenas ouço a sinfonia do tilintar e raspar dos talheres nos pratos feito triângulos e reco-recos de porcelana ressoando arrítmicos e desafinados e me cercando, e encaro o fato de que meu livro de poesias, sim sou cara de pau a ponto de o chamar assim pois é o único nome que posso dar a ele, nunca foi lido por ninguém e o romance nunca será lido por ninguém. não ignorado. não reprovado. ele é invisível e eu, a minha maneira, sou também invisível. nada me vê no quilo ou nas ruas ou na cidade. posso passar despercebido, mesclado ao elenco dessa ópera improvisada de vozes que, não cantam, sussurram e falam e gritam das banalidades de suas vidas, de sei quem lá que acaba de ter filho e sei quem outro que acaba de casar e sei lá eu quem morreu – o que, na verdade, é o que há de mais importante, e se torna banal apenas pela repetição e frequência desses acontecimentos que de tão inevitavelmente fundamentais são fraquíssimos – e completa o coral a criança que chora ou grita por atenção não sendo capaz de compreender a música sem melodia que cerca a todos, dentro disso eu posso passar despercebido e deixar de existir da noite para o dia; sem fazer parte do canto, posso puxar minha caderneta e lápis e rabiscar essas cenas, rabiscar o palhaço a minha frente com o filé de frango empanado pendurado entre os dentes e lábios com um celular nas mãos, sorrindo, vendo só ele sabe o que; fazer deste palhaço arte tão alta quanto minhas capacidades – um tanto mínima e, acima de tudo, invisível. arte pelo fantasma da Marcos Konder, avenida invisível de uma cidade invisível num estado fantasma; nenhum radar pode nos captar, nem melancias adornando nossos pescoços ajudariam. parece que ao se viver tempo o suficiente como câmera de um filme falso, logo se perde o papel até de figurante nas cenas dos outros.

ritual

você assiste o homem desesperançado se abrir com uma caneta em uma operação ritualística do espírito, se perguntando por que disso, quando a dor se transfere às suas entranhas sem nunca abandonar o operado – multiplicando e espalhando, somente. ninguém sabe o porquê disso. nem ele. é uma dor fútil, desnecessária, insuportável, tão difícil de conter e nunca deveria envolver outras pessoas, e ele próprio sabe. sabe que não devia se abrir dessa maneira, sabe que coisas ruins acontecem quando ele se abre e que sentimentos são gnomos irracionais da infelicidade. que existe uma gaiola na alma, especial para esses bastardos que se escondem atrás dos olhos. que a chave está à mão, mas não deve ser tocada jamais. ele vai, alcança a chave e, não só libera os animais, os expõe – em e ao público. a verdade sobre os demoninhos é que eles não são de proveta, nascem de outras pessoas, e que nunca se deve mostrá-los as suas mães. tudo bem para um público – são todos cegos de qualquer forma –, mas nunca os devolva à origem. ele fez isso uma, duas, talvez três – dessa última nem tem certeza – os putos se perdem com esse tipo de exposição. é tortura, eu digo, tortura, quando essas mães rejeitam os filhos, principalmente porque elas não pedem por eles, nem sabem como eles surgiram. é crime de várias vítimas mas sem culpado e o condenado aqui vive para escrevê-los, acha que os gnomos emocionais se acalmam assim. um tolo perdido de fato. alguém deveria ensiná-lo tudo isso, a manter suas gaiolas trancadas. agora deve ter aprendido, e para seu próximo número escreverá: o melhor é sentir desejo pelo que se sente desprezo.