João Gilberto Noll, Emily Dickinson, Zadie Smith, John Berryman (Andei lendo uns livros aí #4)

Harmada – João Gilberto Noll (1993)

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Triste que só tenha sido pego por um dos livros do Noll depois da morte dele. Claro, não faz muita diferença ler o livro de um autor vivo ou morto, mas pra mim ficou aquela sensação de luto tardio, tão pouco tempo faz que ele morreu. Anos atrás, tentei sem sucesso ler A Céu Aberto. Achava que o autor não era pra mim, ou não era pro momento. Então arrisquei Harmada e fui fisgado desde a primeira linha. A história de um protagonista sem nome, como todos do Noll, ator de teatro, sem trabalho, vivendo pelas ruas, de cidade em cidade. A narrativa é fragmentada, mas tão concisa e bem interligada que mal se percebem os saltos no tempo e no espaço. É um grande fluxo pela vida do narrador e seus pensamentos. Não tenho muito mais o que dizer. Me encantei pela linguagem do autor, pelo uso da narrativa e do teatro como parte essencial da vida do narrador, pelas reflexões. Cada frase tem um peso tremendo e exatidão… Bom, estou lendo outro dele agora, Solidão Continental, então dá pra ver que essa leitura teve seu efeito em mim.

Everyman’s Library Pocket Poets – Emily Dickinson

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Esta é uma seleção de poemas da Emily Dickinson. Não tenho o hábito de comprar seleções. Prefiro coleções separadas ou, quando confio no autor, obra completa, mas, nesse caso, optei pela seleção levando em conta a estranheza ao redor da obra da Emily Dickinson. Pra quem não sabe, ela foi uma poeta reclusa. No fim da vida, não era vista por mais ninguém. Enquanto viva, só publicou uns poucos poemas (editados severamente pra que se encaixassem nas normas poéticas do período), deixando uma obra vasta inédita até depois de sua morte. Fora as notas biográficas, o próprio estilo dela carrega certa estranheza (aponto isso de modo positivo), com pontuações que ignoram regras gramaticais, palavras começando em letra maiúscula para dar ênfase, e uso frequente da meia rima (slant rhyme: quando duas palavras parecem rimar por ortografia, mas não rimam na pronúncia, entre outros casos de imperfeição na rima, exemplo: dead/bead, eye/symmetry [vide The Tyger, do William Blake, embora haja quem diga que algumas meias rimas não eram vistas assim em seu tempo, foi a pronúncia que mudou; não saberia dizer]). São poemas em nada tradicionais, tão misteriosos quanto a poeta ou mais, e por isso mesmo fizeram dela uma das poetas mais influentes dos Estados Unidos.

White Teeth [Dentes Brancos] – Zadie Smith (2000)

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Quase não inclui esse livro na postagem porque resumir seu enredo de muitos núcleos e reviravoltas será um inferno. Vamos lá: temos a história de dois homens, Archibald Jones (inglês, medíocre em todos os aspectos) e Samad Iqbal (bengali, muçulmano, moralista), que se conheceram pelo exército inglês na Segunda Guerra e forjaram uma amizade desde então. Dentes Brancos conta a vida destes dois homens e suas famílias, de forma não-linear, dos seus antepassados até o ano de 1992. São tantos os temas, que não dá pra reduzir a forma com que cada um é tratado sem que se perca o sentido. Trata-se de família, religião, história, honra, memória, raça, cultura; sempre com saltos de ponto de vista, de modo que “verdade” alguma permanece por muito tempo como tal na cabeça do leitor, demonstrando que existem vários fatos objetivos, mas que a uma verdade que tanto alguns almejam é inalcançável. Amei ter lido esse romance. É engraçado, imenso, tortuoso… No entanto, não posso negar que, terminada a leitura, estava frio. Difícil explicar. A leitura foi ótima, não há nada de errado na escrita… talvez seja eu que não esteja acostumado com romances tradicionais (com vários núcleos, que se passa em um longo período de tempo, com muitos pontos de vista), mas não é bem isso. Foi a sensação de que toda aquela construção de 500 páginas, boa que seja, não levou a nada, sem ápices. Indico mesmo assim e quero ler mais livros dela.

The Dream Songs [As Canções Oníricas] – John Berryman (1964-1969)

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Reunião dos dois mais aclamados livros do poeta considerado entre os mais importantes americanos do século XX, John Berryman, 77 Dream Songs e His Toys, His Dream, His Rest. The Dream Songs, canções em 3 estrofes, com seis versos cada, escritas em versos livres, são enigmáticas e pessoas, apesar do autor negar que sejam autobiográficas. As canções contam a vida de Henry, da infância à velhice. Berryman passeia pelo inconsciente de Henry, pelos amores de sua vida, pela sua relação com os EUA e os países que ele visitou, suas obsessões, seus amigos, trata da morte e do suicídio, do adultério e do alcoolismo. Por muito tempo, considerei fazer uma postagem separada sobre esse livro só porque ele foi assim tão importante pra mim. Terminei de ler, mas ainda não larguei. Revisito várias das canções quando tenho tempo livre, quando dá vontade. São tão tocantes. Entendo que críticos queiram insistir na qualidade autobiográfica das canções. Muitas delas retratam momentos da vida de Berryman. O suicídio do pai, que ele presenciou, sua reação ao suicídio de seus colegas poetas (Randall Jarrell,  Delmore Schwartz, Sylvia Plath, gente de quem ele era próximo e não), mortes de amigos que não por suicídio (Dylan Thomas), suas influências (W. B. Yeats, Stephen Crane), as canções coincidem na descrição das muitas relações extraconjugais que ele teve e dos seus anos de alcoolismo (batalha contra a qual ele não venceu), coincidem quando falam do desejo que Henry tem de se matar, e Berryman de fato se matou… É um livro intenso. E a construção gramatical complexa de cada canção fazem delas um tanto esquivas à interpretação, a ponto que é possível dizer que muitas não foram feitas para serem compreendidas. Talvez eu devesse escrever só sobre este livro. Pretendo, mas não tão cedo. É um dos meus favoritos no momento. Será uma releitura constante na minha vida.

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Mágica, milagre, memória; Sobre Las Curas Milagrosas del Doctor Aira (César Aira, 1993-2015)

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 Conheci por acidente esse autor. Numa livraria online qualquer, botei Sérgio Sant’anna na busca, ele que, no momento, é meu autor brasileiro favorito, e encontrei o livro Como me tornei freira (Como me hice monja, 1993). O site não botava o nome do autor ali, então cliquei pra ver o que era, já que não sabia de nenhum livro do Sérgio – depois de tantos anos já posso me dizer íntimo – com esse título. E não existe mesmo, o livro era do César Aira, parte da coleção “Otra Língua”, da Rocco (organizada pelo mestre Joca Reiners Terron, responsável por trazer ao Brasil dezenas de autores da América Latina até então não traduzidos – gente como Mario Levrero, Copi, Aira, Julián Herbert, Guadalupe Nettel et cetera). O que Sérgio fez foi escrever a introdução, elogiando a obra do Aira. Comprei, porque indicação desse porte já me bastava, li e, na minha viagem à Buenos Aires, fui atrás das outras obras dele – logo descobrindo quão extensa ela é e quão impossível é colecioná-la.

Las Curas Milagrosas del Doctor Aira foi um deles, encontrado na feira de livros da Plaza Italia. Composto de 3 romances breves, o primeiro, As Curas Milagrosas do Doutor Aira (1998), é o que intitula o livro, seguido por El Tilo (A Tília, 2003), e termina com Fragmentos de un Diario en los Alpes (Fragmentos de um Diário nos Alpes, 1993) mais seu apêndice. Em 2015, a Random House reeditou estes 3 romances em um único livro – agora vocês entendem a data no título desta postagem. Embora os romances tenham algo em comum, não estão relacionados e o leitor pode escolher a ordem de leitura; pode até ler um pouco de cada por dia e terminar os 3 ao mesmo tempo. Eu sou chato, por isso segui a ordem das páginas.

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Não se sabe se Doutor Aira é curandeiro, milagreiro ou charlatão. Há quem acredite em ambos, e Doutor Aira acredita em seus poderes de cura mesmo sem nunca tê-los posto em prática. A narrativa é um golpe de vento, em primeira pessoa, cheio de divagações, autoanálises, planos que nunca são realizados, argumentos e contra-argumento. Aira tem admiração pelas colagens surrealistas e aqui o romance tem algo disso. Os cenários arvorados das ruas buenairenses, médicos tradicionais perseguindo Doutor Aira pra expor seu método falho em montagens quase televisivas de tão espetaculares, as peças se encaixam mesmo que pareçam estranhas quando juntas, e se encaixam tão bem que passam a se complementar.

A tília era uma árvore enorme, maior que as outras árvores dessa espécie, da infância do narrador. Seu pai usava as folhas dessa árvore para um chá com supostas propriedades mágicas, talvez devido ao tamanho da árvore suas folhas fossem especiais. Até que um dia um menino peronista (assim o chamavam) foi se esconder naquela árvore e seus perseguidores a derrubaram sem nenhuma consideração. Assim segue o romance que é exatamente o que parece ser, uma grande digressão. Memórias levam a outras memórias, sempre na infância, até que se rumina sobre um momento específico ou outro ou sobre a memória em si. Se mais de uma vez o leitor se pergunta como a história foi parar ali, logo o autor se faz a mesma pergunta, porque não se sabe. Me lembrou a forma como eu mesmo às vezes me lembro da minha infância, pedaços que vão e vem e se juntam a outras que levam a mais outros, memórias que começam em algum lugar e eventualmente terminam, mas que não têm começo, meio e fim. Tratam sobre tudo e sobre nada.

Começa com uma descrição das coisas na casa em que o narrador está hospedado, amigos dele que vivem na França. Livros, obras de arte, coleções. A forma como as peças correspondem com a personalidade dos habitantes – ou não necessariamente. Descreve os cantos da casa, conta das conversas que teve com os amigos, dos livros que leu aproveitando a coleção presente na casa. Um desses livros que é melhor com um bloco de notas pras referências e depois pesquisar cada uma. Uma história que leva a outras, que se divide, deixa de ser só um diário e vira um ensaio sobre literatura romântica alemã, ou sobre arte moderna e Duchamp.

As histórias, mesmo não relacionadas, têm o algo em comum da literatura. Não digo isso pra ser óbvio. Todos os 3 romances tratam, uns mais de leve que outros, da escrita. Do milagre que é fatiar uma vida e deixar só as partes de valor. Dos vários caminhos que trilha a memória. Da mágica dos mundos criados por palavras, seja pelo conteúdo fantástico (Verne, Hoffman), seja só pela existência – magia estatística – de uma história que reuna aquelas palavras naquela ordem específica.

Cada romance, tendo sido escrito em períodos de tempo tão separados, cobre uma década da carreira do autor. Diria que é uma boa introdução aos que não conhecem a obra do Aira. Não que seja assim tão fácil reduzir a cada vez maior obra do Aira a um resumo compreensível, mas, digamos que esse livro ajuda aos que nunca ouviram falar dele. Diria no condicional porque a obra nunca foi traduzida, quem sabe num futuro próximo. Para os de vocês que leem em espanhol, mantenho a indicação. Livros argentinos são caros em comparação com o preço da moeda deles, mas talvez valha o sacrifício. Se você estiver passando pela terra dele, busque numa das várias vendas de livros usados.

Este é um mundo de segredos; Sobre The times are never so bad (Andre Dubus, 1983)

Nunca fiz questão de dar tema a este blogue. Ele sou eu, disse certa vez, e ficou por isso mesmo. Não posso negar, todavia, que, quando falo de literatura – também parte de mim -, mais especificamente com sugestões de livros, surgem seguidores e curtidas e todas essas desimportâncias essenciais. Logo, há leitores aqui que esperam indicações literárias, e, com estes, estou em falta. Até porque, gosto de indicar leituras; o que não gosto é de escrever sobre livros. Se pudesse, listaria minhas últimas leituras agradáveis e quem quisesse poderia ir atrás, mas não dá. É necessário convencer, explicar, mais que os motivos que me fizeram gostar do livro, por que o leitor do blogue deveria ir atrás de lê-lo também. Então bolei o formato “Andei lendo uns livros aí”. Acontece que este livro, este não deu pra resumir as sensações de leitura em poucas frases.

Existe uma linha do realismo na literatura estadunidense que me encanta por sua humanidade. Ao mesmo tempo, muitos dos seus autores foram esquecidos ou nunca gozaram de sucesso internacional. Richard Yates é um exemplo, um dos meus autores favoritos que o tempo apagou, até o lançamento de Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road – adaptação do seu principal romance, dirigida por Sam Mendes, em 2009) e, em parte, Mad Men (que pega emprestado características de seus livros e contos, especialmente Disturbing the Peace), mas que já voltou ao esquecimento de antes; os ainda vivos Frederick Barthelme, Russell Banks e Ann Beattie; J. F. Powers e Flannery O’Connor, embora a última esteja mais associada ao movimento gótico-sulista; entre outros, pertencentes a uma tradição que parece ter nascido naquele país, com Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Stephen Crane, popularizada por Ernest Hemingway, mantida por John Cheever e Raymond Carver e inúmeros outros. Neste meio, viveu Andre Dubus. Foi contista e nunca conseguiu terminar um romance. Teve uma vida trágica, envolvendo crises familiares, divórcios, bebida, falta de dinheiro, até perder uma das pernas num acidente de trânsito. Auxiliando um jovem casal na beira de uma estrada, um carro perde o controle e parte em direção deles. Dubus empurra a moça e a salva. O marido morreu, Dubus teve uma das pernas esmagadas. Passou o resto dos dias numa cadeira de rodas, mas dessa experiência saiu Meditations from a movable chair, talvez seu livro mais conhecido.

The times are never so bad é uma coleção de histórias, uma novela e oito contos. Todos econômicos em palavras, realistas, centrados nos eventos pessoais e crises que formam ou destroem pessoas e famílias. Gente simples. Histórias que com frequência fazem o leitor se identificar em algum dos personagens e acontecimentos, ou fazem o leitor temer que algo assim um dia aconteça com ele.

The pretty girl, a novela que inicia o livro, começa em primeira pessoa, narrando os acontecimentos recentes na vida de um homem sobre quem pouco se sabe. Na segunda parte, a narrativa passa pra terceira pessoa e passa a acompanhar a mulher de que ele fala com desdém – sua ex – e as pessoas próximas dela, amigos do trabalho, família. Descobrimos que ela tem sido, desde o fim da relação, aterrorizada pelo primeira narrador, o da primeira pessoa, que, até então, parecia uma pessoa normal. Então a narrativa muda de tom e adquire uma tensão rara na literatura, porque aqui não há “vilão”, há um homem perturbado disposto a tornar a vida daquela que o deixou um inferno.

Levei um tempo pra escrever sobre esse livro, faz meses que terminei a leitura. Mas ainda lembro bem dos contos, só não pretendo falar de cada um deles porque nem todos permitem que se diga muito. As histórias falam de casais jovens tentando sobreviver num mundo nem sempre justo, às vezes tendo que roubar pra isso; de racismo e perseguição; da filha que descobre o adultério do pai e o confronta; violência doméstica… Sempre reais e simples, compartilhando uma característica com Raymond Carver, a da impressão que a um pavio aceso que pode explodir a qualquer momento, mas nem sempre explode, mesmo quando não é apagado.

Mas teve uma história que me marcou mais que as outras, talvez a que faça valer a pena ir à caça desse livro, se esse estilo de literatura te interessa. A father’s story. Este conto, que fecha a coleção, é um resumo do estilo de Dubus. Ele foi um homem católico e pai, que se tornou superprotetor após uma de suas filhas ter sido estuprada. Este conto foca no catolicismo – não como pregação, apenas como o senso moral de um homem (que nem mesmo gosta de igreja e só respeita a um padre específico que se encaixa nos seus critérios) – e no instinto paterno. O pai da história vive só em uma fazenda, depois que os filhos cresceram e foram embora. Ele passa o tempo cuidando dos cavalos, pensando no passado e conversando com o padre. Sua filha vem visitá-lo. Quando ela está pra ir embora, sofre um acidente e precisa da ajuda dele. A história mostra a que ponto o instinto paterno, nesse caso, ou materno, pode fazer que uma pessoa deixe de lado sua moral.

That was the time to say I want to confess, but I have not and will not. Though I could now, for Jennifer is in Florida, and weeks have passed, and perhaps now Father Paul would not feel that he must tell me to go to the police. And, for that very reason, to confess now would be unfair. It is a world of secrets, and now I have one from my best, in truth my only friend. I have one from Jennifer too, but that is the nature of fatherhood. (de A Father’s Story – “Aquela era a hora de dizer eu quero confessar, mas eu não disse e não direi. Embora eu pudesse agora, pois Jennifer está na Florida, e semanas se passaram, e quem sabe agora Padre Paul não se sentiria obrigado a me dizer para ir à polícia. E, por esta mesma razão, confessar agora seria injusto. Este é um mundo de segredos, e agora eu tenho um do meu melhor, na verdade meu único amigo. E tenho um de Jennifer também, mas esta é a natureza da paternidade.”

Embora esse estilo de literatura, talvez por culpa dos MFAs – inclusive em que Andre Dubus se formou, em Iowa, tendo sido lecionado por Richard Yates -, repita a si mesmo, em estilo e em conteúdo, Dubus foge disso, deixando a si mesmo, seu sangue nas páginas. Ele nunca é cruel com as personagens, como certos autores se gabam dizer, nunca é caridoso… O que acontece nas histórias é a vida, marca de uma boa narrativa realista, em que nada é completamente certo ou completamente errado, e qualquer coisa pode acontecer com qualquer um, inclusive as coisas mais distantes da grandeza.

Como tomar no cu sem fazer sexo: analisando 50 Tons de Cinza (E. L. James – 2011) – parte 2

Quando a internet e a genialidade se encontram.

 

3. Os três patetas: Anastasia, Inconsciente e Deusa Interior

Personificações do Tico e Teco, as vozes na cabeça de Anastasia, que tornam o pensamento dela mais claro (?) e a leitura insuportável, são chamadas Inconsciente e Deusa Interior. Um passa a história insultando Anastasia enquanto o outro só se masturba. Antes que eu me adiante, vamos definir a personalidade dessas duas alucinações, sim?

Comecemos pelo Inconsciente porque, dos dois, é o que mais me emputece. Não se enganem, a Deusa Interior é tão ruim quanto, mas ela é o tipo de idiota inofensiva, enquanto o Inconsciente é uma demonstração do quanto a autora não estava preparada para escrever o horóscopo de uma revista de fofoca, que dirá um romance. Desde a primeira página, o Inconsciente serve como o bom senso, o lado inibitivo da “mente” de Anastasia, que, por sarcasmo mal escrito e tentativas sem graça de piadas autodepreciativas – afinal o inconsciente é parte de Anastasia, tenha ele consciência disso ou não –, tentam mostrar a ela que o que ela está fazendo é errado ou incompatível com a personalidade dela ou apontar um mal a ser evitado. Em termos psicanalíticos, é o Superego. Isso mesmo, caros leitores, uma das coisas mais presentes nesse livro é, por definição, um erro. É difícil explicar como isso aconteceu. E. L. James deve ter achado a palavra inconsciente bonita, então decidiu repeti-la o máximo de vezes possível ao longo do livro, sem nunca pesquisar no Google o seu significado. É verdade que o Superego não é de todo consciente, mas o de Anastasia parece ser, visto que ela tem um acesso muito claro a ele – e mesmo assim o chama de Inconsciente. Nenhuma das milhões de leitoras parou para pensar nesse detalhe? Não é preciso um diploma em psicologia pra perceber que tem algo errado. Então é isso, o Inconsciente é só essa coisa que passa o livro todo reprimindo Anastasia e sendo ignorado, tanto pela personagem quanto pelo leitor, que, inevitavelmente, passa a pular as frases em que ele aparece.

A Deusa Interior, por outro lado, é um tipo completamente oposto de chateação. Ela dança, comemora, pula etc. Mantendo a civilidade, ela é o Id da personagem. O impulso, a fonte da libido, os desejos e por aí vai. A Deusa Interior, sendo franco, é a vagina da Anastasia. Mas deus nos livre da palavra vagina aparecer no texto. A autora tem algum problema com qualquer menção nominal aos órgãos reprodutivos. É bem verdade que o uso de termos biológicos num livro de sexo pode fazer as cenas soarem como uma aula de anatomia, mas nem apelidos ela usa. Ela poderia ter vulgarizado de vez e soltado logo a boceta, ou, como pelo visto ela não tem medo do ridículo, lançar uma xoxota aqui e ali, até perseguida poderia ser perdoado em lugar da real escolha da autora. Não, ela tinha que fazer a personagem dizer coisas como “lá embaixo”, que não é nem um eufemismo digno. A mais ingênua das mulheres não usaria essa expressão. Lá embaixo é o que uma criança responde ao juiz quando ele lhe pergunta: “onde foi que o padre te tocou?” Mas eu estava falando da Deusa Interior. É que não tem muito a se falar sobre ela, por isso eu me perco nos meus pensamentos – deve ser meu inconsciente trabalhando. A Deusa Interior é o equivalente feminino do “pensar com a cabeça do pau”, nada além.

Então o leitor é forçado, pelas quase quinhentas páginas, a ler dezenas e dezenas de breves reações do Inconsciente e da Deusa Interior aos pensamentos e escolhas de Anastasia. Que eu me lembre, os dois nunca se encontram. Eles sempre se dirigiam diretamente a Anastasia, nunca um ao outro, o que foi uma oportunidade perdida para muita galhofaria, tortadas na cara e dedos no olho, no maior estilo Moe (Inconsciente), Larry (Anastasia) e Curly (Deusa Interior). Nada disso muda o fato de que, se o editor tivesse passado a faca em todas as menções a essas duas criaturas, a leitura teria sido menos desagradável, pra começar porque isso cortaria pela metade o número de páginas.

4. Falsa luz no fim do túnel e a raiz de todo o mal

Então, já no último capítulo ou algo assim, eu me surpreendo. Pela primeira vez, Anastasia toma uma decisão acertada. Ela leva umas porradas do pica das galáxias e decide que chega, aquela vida não é para ela, os dois não devem mais se ver. Seria isso um sinal de amadurecimento?, E. L. James mostrando que não é só uma escritora incompetente, mas alguém com inconsciência, decidida a quebrar o formato padrão das histórias sobre meninas inocentes tentando mudar os homens terríveis por quem elas se apaixonam? Não, porque o livro tem duas continuações, logo não é necessário ler todos os volumes pra saber que ela volta atrás e ele promete mudar e os dois voltam a ficar juntos e se casam e têm dois filhos e meio e um Golden Retriever e então as agressões do pica das galáxias começam a ficar mais frequentes principalmente porque o corpo de Anastasia já não é aquilo tudo e a pica já não está explorando tão bem a galáxia fazendo umas aterrizagens de emergência ou não decolando e Anastasia desenvolve um vício em antidepressivos e analgésicos e as crianças descobrem a sala de jogos e o cachorro morre de câncer e finalmente eles terminam em um longo e doloroso processo de divórcio em que nenhum dos dois é visto como capaz de criar as crianças e os dois se suicidam. Eu posso sonhar; a autora não escreveu o que vem depois do felizes para sempre.

Pois é, por um momento eu quase vi algo que pudesse redimir essa história. Se ela tivesse ido embora e não tivesse continuação, o livro continuaria sendo uma merda mal escrita, mas teria uma razão de ser. Mostrar que não dá pra mudar um parceiro abusivo, que certas pessoas são incompatíveis, enfim, uma versão adulta da história. Se ela tivesse feito isso, com toda a honestidade, eu teria dito que o livro é uma merda. Do jeito que está, ele é uma merda ofensiva, insistindo que amor e persistência podem mudar uma pessoa. Receita para um desastre. E tem gente que acredita. Por mim, se as pessoas estivessem elogiando o livro porque todo mundo gosta de uma sacanagem, tudo bem. O livro é péssimo em sacanagem também, mas não vem ao caso, cada um com seus gostos. Mas daí a dizer que é uma história de amor, superação e o caralho à quatro, isso é intragável e, dependendo do quanto a leitora em questão realmente acredita nisso, prejudicial.

A maneira como as pessoas mais apaixonadas por essa história insistem que Anastasia se interessa por algo mais no seu Grey que os bilhões de dólares e a vara me intriga. Nada no livro dá a entender o contrário. De vez em quando Anastasia diz para si mesma que não é isso, mas ela não é capaz de definir o que é. E o pior de tudo, e que categoriza o abuso na relação, é que ela nem tem padrões comparativos adquiridos em relações passadas para ajudar a definir se o que ela está vivendo é bom ou não. Nada do que ela diz sobre o relacionamento é confiável, nem mesmo o tamanho do dote do ricaço. A mulher nunca nem se masturbou antes de transar com ele, como ela sabe que ele é tão grande assim? Ela não conhece nem os próprios dedos, porra. E mesmo que ele tivesse aquilo tudo, baseado nas descrições da autora, as proezas sexuais do cidadão não funcionariam na vida real. É que, pra sorte dele, ela guardou todos os orgasmos que ela não atingiu em sua vida adulta dentro de um armário na casa da Deusa Interior e ela é capaz de atingir cinco em sequência com o toque de uma pluma. Até a autora tem suas dúvidas sobre a capacidade do rapaz e vive se forçando a avisar as leitoras de que o que acabou de acontecer foi sexy, só para que não reste dúvidas.

Minha dica para Anastasia e qualquer outra moça que possa estar envolvida em um dilema desses na vida real é: se o cara aparece na loja em que você trabalha sem que você tenha dito para ele onde é, você pergunta como ele descobriu e ele responde que tem seus meios, ele compra corda, um taco de baseball, uma máscara de esqui e uma motosserra, e então te convida para sair, diga não. Então corra o máximo que suas pernas suportarem, mude de país ou compre algumas armas de fogo.

5. Conclusão

O fato de que esse livro atingiu os números de venda que atingiu e se tornou tamanho fenômeno me impressionaria se as pessoas já não tivessem esse hábito de comprar livros ruins. É normal, temos aí Paulo Coelho, Dan Brown, Stephenie Meyer. Tudo que ela fez foi escrever um livro ruim com sexo. Fórmula para o sucesso. A surpresa é que demorou tanto tempo para acontecer.

Todas as leitoras que dizem amar esse livro por serem mulheres liberadas e bem resolvidas com a própria sexualidade, sinto em lhes dizer, mas não é verdade. Esse livro é literatura erótica para quem não gosta de literatura erótica, é sadomasoquismo para quem não sabe o que é sadomasoquismo, é sexo para quem não faz sexo. Ruim em todos os graus, tanto literários quanto eróticos, falhando em tudo aquilo a que se propõe fazer. Isso é tão claro que pode-se dizer que as pessoas que gostariam de ler 50 Tons de Cinza já leram, e aqueles que não gostariam perceberam pelo faro o lixo literário irredimível que é esse livro. A única coisa que eu gostaria de ler relacionado a 50 Tons de Cinza é a perspectiva da faxineira do senhor Grey. As coisas que essa mulher já deve ter visto e sofrido, isso sim é uma história.

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Texto originalmente publicado, na íntegra, em 2 de novembro de 2015, aqui: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/11/como-tomar-no-cu-sem-fazer-sexo.html

Como tomar no cu sem fazer sexo: analisando 50 Tons de Cinza (E. L. James – 2011) – parte 1

Existem diferentes papéis que o erotismo pode exercer na literatura. Os principais, a grosso modo, seriam: transgressão, afetar o leitor psicologicamente usando descrições explícitas de atos sexuais, incomuns ou não, causando constrangimento ou, em maiores escalas, abalando costumes sociais – Marques de Sade poderia se encaixar nesse modo, assim como Georges Bataille (cujo clássico História do Olho supera, ainda nas primeiras dez páginas, toda a sacanagem contida em 50 tons de cinza; exemplo: uma moça de dezessete anos arrebenta um ovo com o cu), no entanto é válido apontar que o grau de erotismo necessário para transgredir é variável conforme o período em que vivia o escritor (uns diriam que a literatura de D. H. Lawrence é bastante recatada, mesmo assim, em seu tempo, ele foi banido, enquanto hoje é possível ver na internet duas mulheres vomitando e cagando uma na outra sem que haja investigações policiais e processos –; excitação, servir de meio sensual alternativo para pessoas que, no momento, não têm um parceiro disponível e precisam botar a mão na massa e buscar alívio solitário, ou usado para abastecer a criatividade de um casal entediado e reacender aquela pálida chama da fogueira de alcova; e, mais comum hoje, seria o erotismo como consequência existencial, em que o autor inclui a vida sexual das personagens na narrativa porque elas são representações de seres humanos e seres humanos, em sua maioria, fazem sexo. Uma categoria separada seria a dos gênios que conseguem mesclar todas essas formas, gente como: Anaïs Nin, Henry Miller e Erica Jong. De alguma maneira, o mais recente fenômeno da literatura erótica conseguiu não exercer quaisquer desses papéis.

Falo de 50 tons de cinza, a série de livros que, desde seu lançamento, vendeu 125 milhões de cópias mundialmente – mais que praticamente tudo nas livrarias hoje em dia, com exceção de autobiografias de adolescentes. Meu objetivo com a leitura foi tentar identificar a razão disso. Em nenhum momento esperei gostar do livro. Não, estaria além das minhas capacidades. A ideia era encarnar um personagem e enxergar a história com os olhos do público-alvo. Ao fim das 400 e muitas páginas do primeiro volume, percebi que foi um exercício de futilidade. Seria impossível, contudo, explicar de uma vez por que o livro falha, por isso decidi dividir a análise em temas.

1. Narrativa

Para os que vivem em uma caverna e não sabem do que se trata 50 tons de cinza, segue um breve resumo do primeiro volume (único que li e lerei):

Formanda em literatura, Anastasia Steele tem 21 anos e é virgem. Ela divide um apartamento com uma amiga chamada Kate, que escreve pro jornal da faculdade e teria que entrevistar Christian Grey, bilionário de 27 anos e responsável por toda essa merda de livro. Como Kate está doente, Anastasia a substituiu. Por motivos de enredo, o ricaço pica das galáxias se apaixona pela folha de papel sulfite que o entrevista. Acontece que Christian é um sociopata e começa a perseguir Anastasia, aparecendo em tudo quanto é lugar que ela vai. Sempre que os dois se encontram ele diz que ela não deve se aproximar, que ele tem gostos peculiares que ela não conseguiria satisfazer e coisa e tal, mas tampouco ele deixa que ela se afaste. Anastasia, que tem idade mental de uma criança de 5 anos que nunca aprendeu a não falar com estranhos, em vez de chamar a polícia, fica intrigada com o “mistério” do Christian (não com o dinheiro e com a beleza, de forma alguma) e dá sequência ao chove não molha que se prolonga por mais de 50 páginas.

Duas semanas depois, as coisas parecem avançar, e Christian leva a relação – que até então não passou de uns beijos, se chegou a tanto – para o próximo nível, mostrando para Anastasia o equivalente adulto de um homem estranho dentro de uma vã cheia de doces: um contrato regulando como se dará o relacionamento entre os dois, caso aconteça. Se você, leitor, é amante dos documentos legais, regozije-se, pois E. L. James incluiu todas as páginas do livro no contrato, para que você não perca nada. Mas Ana não se sente confortável com certos aspectos do contrato – as partes que ele diz que vai controlar a alimentação dela, que ele pretende castigá-la sempre que ela o contrariar, que ele pretende enfiar o punho no cu dela… coisas típicas desses contratos legais, vocês sabem como é – e hesita em assinar.

Os dois acabam seguindo a relação mesmo assim, deixando bem claro que aquelas tantas páginas do contrato que a autora forçou você a ler não servem para porra nenhuma. Ocorre então o despertar sexual de Anastasia – que eu cobrirei melhor durante a análise. As próximas 400 páginas envolvem apenas os dois fazendo sexo. De vez em quando Anastasia se questiona se está fazendo a coisa certa, mas logo passa – quando os dois transam de novo. E assim vai, até que ela leva uns tapas com muita força e faz aquilo que ela devia ter feito na primeira página: foge.

2. Qualidade literária

Dos muitos problemas em 50 tons de cinza, o mais aparente é a escrita. Estou certo de que E. L. James, antes desse romance, nunca escreveu sequer uma mensagem de texto. Não é de surpreender que a base para esse livro tenha sido a série Crepúsculo. Alguém pode querer me dizer agora que é tudo uma questão de gosto. Bom, é e não é. Gostar do livro é uma questão de gosto, de fato. Isso não muda a qualidade geral da prosa. Nem tudo de que se gosta é bem-feito. Eu amo Sharknado, isso não quer dizer que seja um filme bom. (É ótimo.)

Desconsiderando erros de colocação temporal (por exemplo, em uma cena, Christian Grey liga de manhã para Anastasia, ela desliga o telefone e vai preparar o jantar – ou a ligação foi longa pra caralho, ou E. L. James esqueceu que horas eram e nenhum dos revisores se deu conta – ou quem traduziu fez merda, mas culparei a autora porque ela merece ser culpada por tudo que há de errado em nossa sociedade), e outras coisas mais técnicas, o livro ainda é cheio de repetições, déjà vus e frases mal construídas. Lógico que, se você gosta do livro, chances são que você não é assim tão ligado em literatura e não se importou com nada disso – por isso mesmo não pretendo entrar em detalhes sobre a qualidade da prosa. Agora não venha me dizer que um livro em que os personagens murmuram cinco vezes por página é bem escrito.

Se existem frases memoráveis ao longo do texto é pela hilaridade não intencional contida nelas. A genial: “Eu não faço amor. Eu fodo… com força.”, vem à mente de imediato, e o livro é permeado desses pequenos momentos de comédia literária, com frases esquisitas que nenhum ser humano diria, mas que aqui são consideradas sexy por algum motivo. Desde 1977 eu não lia tantos “baby” em um livro, melhor seria que a tradutora chutasse o balde e escrevesse logo “broto” no lugar. O que me faz pensar que, para um cara que conseguiu se tornar um empreendedor de sucesso ainda jovem, sabe tocar piano clássico, pilota avião, sapateia, assobia e chupa cana ao mesmo tempo, ele é bem chato. Os dois nunca têm assunto. Toda a conversa deles se limita a trocas levemente irônicas de provocações – terminando, normalmente, em arrependimento para Anastasia, que passa as páginas seguintes temendo pela própria vida (porque o relacionamento deles é saudável) – que rapidamente se tornam cansativas e irritantes. É um desafio ler um terço do livro sem querer esganar os dois ou sem desejar que o helicóptero em que eles embarcaram caia.

Pode parecer bobagem reclamar da maneira que as personagens falam, afinal são criações da autora e ela pode fazer o que achar melhor, mas não é assim que a banda toca. Quando nada na descrição da personalidade da personagem condiz com suas ações ou jeito de ser, isso é um problema de caracterização – erro literário típico de iniciante que não percebe que, por mais que fictícias, personagens são representações de seres humanos e precisam de liberdade. E essa é a melhor maneira de definir Anastasia. Ela é formanda em letras e é a primeira da classe – se não me engano, a essa altura as informações do livro estão sendo forçadas a se retirar da minha memória para dar espaço a coisas melhores. Isso deveria significar que ela não é de todo burra. Não é o caso. A garota é sequelada. Não compreende coisas que não poderiam estar mais claras. Isso poderia ser culpa de sua inocência virginal, só que o diploma em letras quer dizer que ela leu a maior parte dos clássicos da literatura americana e/ou inglesa, que inclui muita sacanagem e, mesmo que de segunda mão, experiência de vida. Inocência é uma coisa, crescer numa bolha emocional é outra. Rompimento de hímen, até onde eu sei, não causa queda de QI. Não quero me adiantar aqui porque mais será dito quando eu me puser a analisar a relação dos dois.

Como quem narra a história é essa toalha molhada que atende pelo nome de Anastasia, o leitor está preso à mente limitada dela. E nunca na minha vida eu desejei tanto por um narrador onisciente. (Tem quem diga que preferiria uma narração do Christian Grey [o que aparentemente aconteceu – prova de que o diabo existe e está entre nós], mas, não, ele não resolveria essa limitação porque ele é tão limitado quanto ela – o mal está na raiz, a autora, que não poderia vir com uma boa narrativa mesmo que tivesse em mãos a melhor das personagens.) Como a terceira pessoa nunca surge para aliviar a mente do leitor, este é obrigado a passar as centenas de páginas ouvindo a voz patética dela falar e falar e falar e murmurar e murmurar, e, como se não bastasse, o texto ainda é cheio de interjeições infantis como “uau”, “meu Deus”, “minha nossa”, “cacete”, e variações. Puta merda – uso aqui meu direito de adicionar uma interjeição vazia. De vez em quando, ainda, a narração nos oferece acesso aos mais íntimos pensamentos de Anastasia – esses vêm em itálico. Eles são? você pergunta. Eis que os demonstro: “o que é isso?”, “o que ele quis dizer?”, quem sou eu?, onde estou? Sim, porque Anastasia tem pensamentos muitos ativos. Sua mente é tão agitada que convive com duas entidades psicológicas, separadas da origem e autoconscientes, para as quais pretendo dedicar o próximo tema.

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Texto originalmente publicado, na íntegra, em 2 de novembro de 2015, aqui: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/11/como-tomar-no-cu-sem-fazer-sexo.html

Andei lendo uns livros aí… #3

POEMAS – ALEJANDRA PIZARNIK

Tenho pouquíssimas informações sobre esse livro. Criei um vínculo extraliterário com ele. A poesia da Alejandra Pizarnik é uma ausência tremenda nas editoras brasileiras, negligência pura – que eu saiba, dela, até hoje, só uma novela foi publicada. Mas pra mim não foi só isso. O livro é uma seleção fina de poesias e fragmentos de prosa dessa autora. Não sei o ano, acho que é de uma coleção antiga de “literatura essencial” publicada na Argentina, julgando pela aparência do livro, vou julgar que em meados da década de 1980, senão fim de 1970. É aí que o livro se torna especial. O encontrei no meu primeiro dia em Buenos Aires. Estava perdido, buscando entre as ruas que cruzam com a Avenida Cordoba, alguma referência que me indicasse como chegar no Centro – precisava, logo, trocar dinheiro. Olho ao redor e me deparo com uma vitrine abarrotada de livros usados. Entro porque é mais forte do que eu. Não tinha muito dinheiro, mas deu pra sair de lá com esse livro e um de contos do Roberto Arlt, além de ter trocado uma ideia curta com o vendedor sobre estes autores e Mário de Andrade, e conseguir instruções de como me achar. Essas poesias me acompanharam pelos meus primeiros dias, perdidas comigo pela cidade. Foi necessário encontrar, dias depois, uma edição da obra completa dela, que me dedicarei a estudar. Aguardem traduções da poesia dela por aqui.

LA MÁQUINA DE PENSAR EN GLADYS [A MÁQUINA DE PENSAR EM GLADYS] – MARIO LEVRERO (1970)

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Outro achado em Buenos Aires, este em uma livraria “normal” – vendia livros novos, mas se especializava em literatura “underground” (por falta de palavra melhor), ou foi a impressão que tive vendo os títulos em destaque, gente que eu nunca tinha ouvido falar antes, o que me deixou triste por só ter ido lá no último dia, embora tenha visto o lugar várias vezes; pra que vocês que queiram ir pra lá não cometam o mesmo erro que eu, o nome é: Borges 1975 (endereço: rua Jorge Luis Borges, 1975, Palermo Soho), além de livraria, tem eventos culturais e um bar por lá, aproveitem por mim. Sobre o livro, já tinha ouvido falar que Levrero era um dos escritores mais inventivos dos últimos anos, mas não imaginava o quanto. Essa é a primeira coleção de contos do autor, que já servia de guia pro que ele viria a escrever em seguida. São histórias que variam entre 1 e 30 páginas, surreais sem nunca admitir seu surrealismo, beirando o absurdo. A influência de Kafka, nos contos mais “urbanos” é visível, também a influência das artes plásticas (descrições vívidas, cuidadosamente precisas, mais pelo prazer estético da visualização imaginária que pela necessidade de contexto literário), enquanto o surreal chega de surpresa, nunca se espera por ele mesmo quando ele está em todo lugar. Um livro muito impressionante, que beira o inclassificável. Um original, se é que eu sou capaz de reconhecer um desses. Também fica a ideia de traduzir aqui uns contos, pelo menos os mais curtos.

FAREWELL, MY LOVELY [ADEUS, MINHA QUERIDA]  – RAYMOND CHANDLER (1940)

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Minha relação com literatura policial é conturbada. Levo meses para terminar até os melhores livros da categoria – e tem muita coisa de qualidade. O motivo me escapa. Costumo gostar da narrativa e da escrita, mas algo não me prende. Deixo de lado, parto pra outros livros e demoro pra querer voltar. Aqui temos, talvez, a história de detetive. Philip Marlowe, clássico detetive de Chandler, investigando o sumiço de uma mulher, se envolve numa trama complexa que inclui roubo de joias, cassino ilegal, charlatões, hospícios e tráfico de drogas. Todos os ingredientes da receita pra um bom hardboiled tão aqui. Tem policiais corruptos no submundo urbano, femmes fatales, violência, sem nada daquilo que tanto me desagrada (e, ao que parece, a Chandler também) nas histórias de detetive: investigações e deduções forçadas que transformam as personagens em peças de xadrez. Gosto da estética hardboiled, dos filmes noir que esses livros inspiraram, de todo esse microuniverso literário, em se tratando disso: estética, apenas. Já pra ler de fato, a história é outra. Foi bastante arrastado. Gostei da experiência de ter lido um Chandler, pretendo ler outros – não tão cedo -, mas não foi uma leitura fluida. Esse é um dos casos em que o leitor é mais culpado que o livro.

Norwegian Wood (Noruwei no Mori) – Haruki Murakami (1987)

Mantendo minha proposta de migrar aos poucos o conteúdo do meu finado blog anterior, trago aqui minha resenha de Norwegian Wood, livro de Haruki Murakami, publicado em 1987, junto de breves considerações e comparações com sua adaptação cinematográfica, lançada no Japão em 2011, dirigida pelo vietnamita Ahn Hung Tran. Em primeiro momento, queria trazer para cá os textos palavra por palavra, com exceção de pequenas revisões, tendo em vista que as postagens percorrem um período de 4 anos e minha escrita, assim eu gosto de acreditar, se desenvolveu nesse tempo. Só que passaram quase 4 anos da minha leitura desse livro, como vocês podem perceber pelas datas junto aos links pras postagens originais, logo abaixo.

Não conseguirei resistir a mudar certas partes do texto, rever minha opinião, agora baseado em tudo que sei sobre Murakami e sua obra, principalmente considerando o quanto esse livro foi e ainda é importante para minha formação como leitor e, embora com ressalvas, escritor.Na época que li esse livro, era um leitor sem tanta experiência. Comecei sexta, achei que levaria mais tempo, mas esse livro é incrivelmente rápido, mais ou menos como a vida universitária – não sei se foi o objetivo, mas parabéns ao Muraka por gerar essa impressão, afinal, como ele é famoso por seu ritmo, lhe darei crédito independentemente.

A história é sobre Toru, um jovem universitário. Seus encontros, desencontros, amores, felicidades e tristezas. Ele se apaixona por Naoko, namorada de seu melhor amigo Kizuki, que, por sua vez, se suicida aos 17 anos, formando todo esse quebra cabeças afetivo que é o tema do livro. A música favorita de Naoko é Norwegian Wood, dos Beatles (excelente música por sinal). Toru a ouve, muitos anos depois dos acontecimentos desse livro, em um aeroporto, em versão orquestrada, o que lhe traz todas as memórias de sua juventude. Além de Naoko, Toru se encontra com Midori (que personagem fantástica!), companheira de sala que acaba se envolvendo com ele, complicando ainda mais essa tragédia moderna. Tragédia que, “por coincidência” é o tema de estudos dos jovens – Sófocles, Eurípides, sabe?

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Em geral o livro é sobre perdas. De pessoas, amores, juventude, até a vida. Todo tipo de perda ou, mais exatamente, transição, pois como o narrador define, morte não é necessariamente a perda da vida, mas sim parte dela. Mostra a difícil transição da juventude para a vida adulta, esse período entre os 18 e 20 anos, que, diferentemente da adolescência – que simplesmente acontece -, é uma transição escolhida e, muitas vezes, forçada e confusa, embora necessária.

As referências à cultura pop e o humor sutil e peculiar são os pontos fortes do romance, que fazem com que história não se torne um poço de depressão, até porque o objetivo da história é justamente esse – mostrar que, nesse mundo imperfeito de pessoas imperfeitas em que vivemos, merda acontece, e por mais cruel que isso possa parecer, essa merda deve ser superada. É difícil, mas não há nada que sexo, jazz, uísque e viagens não ajudem a esquecer.

Vamos, então, aos resultados do Bingo de Murakami para Norwegian Wood: ear fetish – dried-up well – cats – old jazz record – train station – precocious teenager – cooking – weird sex (tive problemas para definir o que é estranho para os padrões do autor, mas acho que entendi) – tokyo at night

Passei o livro todo esperando algo desaparecer, mas não aconteceu. Deve ter sido o efeito de “Minha Querida Sputnik”. Tampouco sei o que é um nome estranho para japoneses, por mim todos são esquisitos – tal como Raphael deve ser bizarro pra caralho para eles…

Não importa quanto tempo passe e livros do Murakami que eu leia, esse sempre se mantém como um dos melhores pra mim. Significou bastante na época. Minha visão do estilo do Murakami, hoje´, é outra. Não acho que ele seja tão bom, ou, poderia dizer, que ele tem muitos pontos fracos. Mas esse livro, independente das falhas, tem um charme inigualável. Talvez por ser tão simples. Ajudou muito que, na época da minha leitura, eu fosse um universitário de 21 anos, deslocado socialmente. Não fiquei surpreso quando soube que esse foi um experimento do autor. Quando escreveu esse livro, o nome dele já era conhecido entre os prêmios literários do Japão e os leitores mais interessados na vanguarda. Vendia sempre muito pouco. Então decidiu escrever um best seller com Norwegian Wood. Vale apontar que um best seller no Japão é bem diferente de um no Brasil ou nos Estados Unidos. Murakami tentou ganhar dinheiro e, pouco depois da publicação, viu que vendeu mais de um milhão de copias e que estava prestes a ser publicado no mundo todo.

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Tanto sucesso que até fizeram uma adaptação cinematográfica desse livro, com o mesmo nome. Na verdade, a adaptação é bastante fiel, até demais. Um filme de 2 horas não consegue retratar 350 páginas ou mais sem contar uns pedaços. É aí que o filme peca e por isso não posso indicar pra ninguém fora aqueles que amam muito esse livro e querem um pouco mais – desde que cientes da decepção que virá. A história é a mesma, mas, para que fosse possível a condensar em tão pouco tempo, ela salta no tempo, pula etapas, se despede de personagens que nunca foram apresentadas. Isso faz do filme confuso e mal feito para quem leu o livro, incompreensível para quem não o leu.

O triste é que, claramente, a adaptação foi feita por alguém com conhecimento e gosto pela obra. A fotografia é uma beleza, as atuações não poderiam ter sido melhores, a interpretação visual das personagens – tudo impecável. Mas algum produtor deve ter visto o filme, de início, perfeito, mas com 3 horas de duração, e dito ao diretor: corta essa merda, não quero que tenha mais de 2 horas. Claro que não sei se foi isso que houve. Mas o filme dá a impressão de ter vindo com peças faltando.

O livro, se você quer conhecer esse autor sobre o qual todo mundo fala, indico muito. É a obra perfeita para apresentar um novo leitor ao Murakami. Não é o melhor livro dele, apesar de insistir que ele é especial pra mim, mas é uma história sólida e tocante sobre juventude e seu fim.

Obs.: Isso não vai afetar a nota, pois a culpa é dos tradutores e revisores, mas a edição da Alfaguara vem com três belos erros de concordância, os quais não marquei, mas são bem visíveis durante a leitura. Não prejudica o entendimento, mas é feio pra cacete, viu Alfaguara (Objetiva)!

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