Investigadores de realidades alternativas; sobre Fauna / Desplazamientos – Mario Levrero (1987)

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O mercado literário trabalha de forma misteriosa. Autores surgem do nada e dominam o mundo. Outros precisam morrer pra serem ouvidos. Uns viram moda rápido e tão rápido somem. E tem os que viram objeto de culto; estes entram e saem de moda, ganham público em algumas regiões enquanto outras não o entendem, mas contam com a fidelidade de alguns leitores, que passam a espalhar a palavra desse autor por aí como uma promessa de salvação espiritual – e certos autores até podem cumprir com a promessa. Mario Levrero é justamente isso, o autor de que poucos leitores falam mas falam com paixão, que surgiu com força em alguns países (Argentina) e se tornou “um dos bons”, sem nunca alcançar o patamar de um Roberto Bolaño em se tratando de popularidade. Aqui, nem mesmo a publicação de Deixa comigo, pelo selo Otra Língua (Rocco, encabeçado por Joca Reiners Terron, enciclopédia humana da literatura latino-americana), deu jeito de alimentar a curiosidade dos leitores por essa figura bizarra da literatura uruguaia. Nem mesmo a minha, já que até hoje não li Deixa comigo. Foi ano passado que a mágica aconteceu, e já contei aqui essa história, quando vi La máquina de pensar en Gladys em uma livraria de Buenos Aires. Levrero me perseguiu a viagem toda, mas só naquele dia me rendi. Não que estivesse resistindo, mas fui colocando outros autores na frente por não saber de que tratava Levrero – o tinha como um pós-moderno engraçadinho, desses que faz pastiche com baixa literatura e abusa da paciência do leitor com metalinguagem. Quanto arrependimento. Aí, esse ano, de volta lá, fui à caça de Levrero, encontrando quase nada dele a preços razoáveis, pois ele foi pego pela moda e sumiu das livrarias de usados e as novas edições foram publicadas pela Random House (aquela que, junto da Penguin, é dona de tudo – Alfaguara, Companhia das Letras – inclusive da sua alma) a preços absurdos: no mínimo 450 pesos argentinos as obras curtas; as longas (La Novela Luminosa, Trilogía Involuntária), até 900 (respectivamente: 90 e 180 reais, sendo generoso na taxa de câmbio). E eu não poderia ter bolado uma introdução mais longa e parentética pra esse texto, puta merda!, vocês me desculpem.

Resultado da minha caça: Fauna / Desplazamientos, uma reunião de dois romances curtos e relativamente leves. Vamos lá, um de cada vez pra eu não me confundir, até porque li Fauna no meu voo de retorno ao aeroporto de Navegantes e Desplazamientos ao longo da semana seguinte (há 3 meses).

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Fauna: Uma psicóloga liga para o narrador/protagonista (que será chamado de Mario, nesse texto) e pede seu auxílio para investigar o relacionamento de sua irmã, Flora, com Monsieur Victor, um tipo com quê de Svengali. Mario recusa; ele é só um dono de quiosque (um desses que abundam em cidades como Montevidéu e Buenos Aires, embora o livro não negue nem confirme se passar em uma dessas cidades, ambas habitadas pelo autor em diferentes etapas da vida dele), com aspirações literárias e um gosto pela parapsicologia e coisas ocultas. Mas foi por isso mesmo que a psicóloga, que Mario apelida de Fauna (Flora, Fauna; Fauna, Flora … entenderam?), insiste que ele aceite o trabalho, vai até ele e o entrega uma soma considerável em dinheiro. Logo Fauna desaparece e Mario começa suas investigações, em uma narrativa que mistura literatura policial com digressões sobre pinball, descrições de minúcias do cotidiano e conceitos do taoismo, além da pitada de parapsicologia e ocultismo.

Desplazamientos (Deslocamentos): (pra não confundir, chamemos o narrador desta de Oiram) Morreu o pai de Oiram, deixando de herança um condomínio de classe baixa que Oiram escolheu, de início, administrar pessoalmente. Partindo desse princípio, a narrativa demonstra várias possibilidades de acontecimentos, que variam conforme a atitude de Oiram com relação a uma moradora particularmente atraente e sua irmã mais nova. Assim o narrador se vê inconscientemente preso às possíveis variações da realidade. A versão em que a moradora é casada, a versão em que ela não é; a versão em que ele a estupra, em que eles se apaixonam, em que a irmã se apaixona por ele; a versão em que a mais nova sofre abusos físicos e sexuais da mais velha etc. Enquanto, em todas as versões, Oiram quer ser um proprietário justo com os moradores, o oposto de seu pai, se afastar da opressora sombra paterna que o persegue apesar dos seus esforços – sem muito sucesso.

Ambas têm em comum o tom de erotismo em certas passagens e um narrador mistificado pelo sexo oposto. Não quero chamar a sensação de estranheza que as narrativas causam de sonho ou de surreal, primeiro porque isso já foi feito à exaustão, segundo porque não é exato. O autor é conhecido pela crítica uruguaia como um dos “raros” (estranhos/insólitos), no mesmo patamar, embora seja mais jovem, de Armonía Sommers, Felisberto Hernández, entre outros uruguaios. Não tenho como comparar, mas o insólito em Levrero está mais para liberdade da escrita do que para um traço onírico ou surreal.

A repetição hipnótica de Desplazamientos pode ter algo de sonho, contudo, o fato de o narrador não ser um prisioneiro kafkiano dentro da narrativa o afasta dos típicos onirismos e o aproxima do experimento literário, do jogo das possibilidades. Citaria física quântica se eu soubesse o mínimo sobre física quântica.

A mistura de fatores em Fauna (parapsicologia, mesmerismo, duplas personalidades) é menos surreal e mais um autor se perguntando, com toda a liberdade do mundo nas mãos, “o que eu faria se…?”. Essa é a pergunta que parece reger a literatura de Levrero, o “e se…?”. E se o narrador fosse um amador dos fenômenos paranormais? E se o narrador olhasse pela janela da casa da inquilina e a visse chicoteando a irmã tal e qual uma dominatrix? E se o narrador amante do paranormal fosse viciado em pinball? Tudo bastante surreal em conjunto, mas, no fim das contas, é literatura. Não é a realidade tomando formas irreais, são palavras tomando forma e provando ao leitor que elas podem tomar qualquer forma, que no mundo da literatura real e irreal indiferem.

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Muito desse jogo de Levrero se vê hoje em César Aira e em Mario Bellatín, e há muito já se via em Sérgio Sant’anna. Autores contemporâneos que estão menos ligados à forma da obra literária e se deixam fascinar pela liberdade da palavra – nada me impede de voar se eu escrever na folha em branco que posso voar; que, na verdade, estou voando, digitando esse texto bem próximo às nuvens. Claro, não estou, seria absurdo. Mas é possível moldar uma história com tais pretextos. A partir do momento que algo se assume ficção, tudo é permitido, ainda mais quando tudo já está feito.

Enquanto em Desplazamientos vemos o complexo jogo das possibilidades, numa narrativa de fundo bastante sórdido, que esbarra sem nunca dar muita atenção em questões de domínio, controle financeiro e poder – o narrador é o dono da moradia das outras personagens -, o que torna o texto bastante denso. Fauna é leve, um pastiche policial, sátira de Hammett, do hard-boiled e os investigadores durões do estilo, quase uma piada de dezenas de páginas. O que não torna Desplazamientos menos engraçada – Levrero fez carreira de humorista em jornais, na década de 1960, e o humor é consistente na obra dele -, só é mais difícil de rir.

Com isso, faço minha parte de espalhar a palavra. Só tem um livro disponível dele em português, mas pode ser que isso mude se ele vender mais um pouco (que ele tenha mais leitores que só outros escritores) ou pode ser que um de vocês esteja de passagem pelo Uruguai ou Argentina ou more lá ou seja nativo de lá e esteja lendo esse texto via google tradutor. Mario Levrero morreu em 2004, o que trouxe à tona sua esquecida literatura, como aconteceu com Bolaño em 2006. A sorte de Levrero foi diferente da de seu outro colega falecido. Isso é o mistério do mercado editorial. Alguns autores caem nas graças do público e são traduzidos e publicados no mundo todo como grandes clássicos de gênios ignorados em vida; outros, mesmo que sua obra seja mais vasta e – ok, é subjetivo, mas convenhamos – melhor, têm seus quinze minutos de fama e logo somem das prateleiras. Eu sei lá o que fazer disso.

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Quando o peso das leituras te derruba – sobre Georges Simenon (parte 2: personagem, identificação)

Que tal ler a parte 1 primeiro? Faz sentido, não? Pois é.

4 – E a do Maigret, qual é?

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Mais que o estilo da prosa, acho que foi a personalidade de Maigret que me prendeu tanto a esses livros. Ele não foi feito um gênio nem um excêntrico; e bom que não foi, porque disso a literatura policial já estava saturada – e nunca dessaturou. Tampouco é um canalha, fanfarrão, malandro, corrompido pelo sistema em que está inserido, à hard-boiled. Maigret é só um policial parisiense, que conseguiu uma posição de inspetor chefe por ser competente; um homem simples, que gosta de tomar cerveja e de fumar seu cachimbo e é fiel à esposa; um policial que detesta a exposição que o trabalho lhe concedeu, mas não consegue viver longe da função ou deixar que casos sejam arquivados sem resolução satisfatória (para ele). Ao mesmo tempo, ele falha, é enganado, tem dificuldades pra chegar às conclusões e se deixa levar pela própria autoridade (tem horas que ele parece ser investigador, juiz, júri e carrasco – as histórias se passam antes da abolição da guilhotina, que, apesar da última sentença ter acontecido em 1977, só aconteceu oficialmente em 1981, junto do fim da pena de morte na França).

Ao entregar o primeiro romance de Maigret para seu editor, Simenon recebeu um não. O editor acreditava que uma personagem tão banal – um investigador sem nada de especial, sem inteligência superior, sem perspicácia, quase um policial de verdade – fosse capaz de vender livros. Claro, ele estava errado e assim foi provado quando o primeiro livro foi publicado e então suas sequências e então foram vendidos os direitos de adaptação pro cinema e pra televisão e Simenon se tornou um dos autores mais ricos de seu tempo. Se foi por causa do temperamento de Maigret, isso é discutível. É possível que uma personagem tão próxima do leitor em hábito e atitude pudesse ganhar simpatia extra e, logo, atrair leitores, mas nem sempre as coisas acontecem dessa maneira. Talvez fosse o que os leitores da época queriam. O que não saberia dizer – nem sei se o autor chegou a responder com sinceridade a perguntas sobre o assunto, então é possível que ninguém saiba – é se Maigret foi resultado de uma ideia espontânea de Simenon ou se fruto de uma pesquisa, se a personalidade da personagem surgiu com a escrita ou foi estabelecida desde o planejamento.

De certa forma, Maigret é um oposto de Simenon. Uns diriam que a personagem é representação imaginária de tudo que o criador queria ser, mas era incapaz de se tornar. Maigret é um homem simples, que não ostenta fortunas e evita atenção pública, enquanto Simenon viveu em mansões, era visto como um dos homens mais bem vestidos, nunca se afastou da atenção midiática, amargurava o fato de a Academia Sueca ignorar seu “talento inegável” e mantinha uma coleção invejável de cachimbos Dunhill; Maigret  nunca nem pensa em manter casos extraconjugais apesar de sempre se ver em cabarés e nas ruas de Montmartre, Simenon se gabava de ter dormido com 10 mil mulheres, a maioria justamente as prostitutas de Montmartre, sobre as quais escrevia quase que com ternura, e dos suas inúmeras puladas de cerca; Maigret tinha um senso de justiça, Simenon trabalhou para um estúdio de cinema alemão na época da invasão nazista à França e fez o possível pra salvar a carreira e o pescoço quando a guerra acabou. Antes de mais nada, ao contrário de muitos detetives da ficção, Maigret é um ser humano, poderia ser qualquer um. E talvez seja. Simenon é o típico artista monstruoso, da espécie que fecha a porta na cara dos filhos e exige que a casa se mantenha em silêncio enquanto ele escreve, que faz o que tem vontade em nome da experiência e da arte sem se preocupar com as consequências de seus atos, um egoísta e um egocêntrico – como todo bom artista.

5 – Autores e personagens: amigos dos leitores

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A lata de Royal Yacht ao lado da lupa. Sim, eu ter notado isso pode ser sinal de problemas psicológicos.

É aquela famosa passagem de O Apanhador no Campo de Centeio, o desejo tão juvenil mas tão universal que Holden Caulfield expressa sobre certos livros, os que são especiais pra ele, o desejo de ser amigo do autor. Não existe ilusão maior que essa, mas todo o leitor, independente da idade, embora seja um mal tipicamente adolescente, já passou por isso. Acho que passei por algo assim com Maigret e Simenon. O prazer que Maigret tira só de sentar num café e pedir uma cerveja enquanto acende seu cachimbo, pra mim bastou: tá aí um cara gente fina! Então vi a coleção de cachimbos de Simenon e o cuidado que ele tinha para com eles, depois uma foto dele em sua mesa de trabalho, sobre a qual se podia ver uma lata de Dunhill Royal Yacht  – gente fina pra caralho! E aqui eu alieno 99% dos meus leitores, como sempre. Juro que não vou perder muito tempo com isso – poderia, mas não vou -, por favor continuem lendo, é só que tenho uma admiração pelos cachimbos Dunhill de antigamente e Royal Yatch é uma mistura de tabacos entregue a nós, frágeis e desmerecedores humanos, diretamente pelos deuses. Perdão, de volta à programação normal: cada leitor tem seus gostos peculiares, além da literatura, e ver isso expresso no papel cria uma identificação imediata, principalmente quando as pessoas reais ao nosso redor não cumprem esse papel tanto quanto seria desejável.

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Para mim é gosto pelos prazeres da nicotina (não o fumo compulsivo, mas a compreensão das qualidades meditativas e calmantes do ato de fumar) e das cervejas e vinhos e uísques, o gosto pelo jazz, por caminhadas sem rumo, pelos pequenos gestos cotidianos aparentemente sem sentido e raramente retratados, pelo banal. Artistas de qualquer forma que se interessem por essas coisas ou as retratem ganham minha admiração imediata. Philip Larkin: um misantropo babaca? Sim, em muitos aspectos, mas o gosto dele pelo jazz faz com que eu me interesse mais por seus poemas – sem falar que ele é um grande poeta e eu sou meio que um misantropo babaca quando ninguém está olhando. Nunca li um livro do Will Self, mas já li todos os artigos que ele escreveu sobre os prazeres da nicotina e das longas caminhadas. Frank O’Hara e principalmente Ron Padgett, com seus poemas do cotidiano, são amigos muito chegados. Joan Didion e a forma como ela busca respostas pra tudo nos livros e na ruminação exaustiva das coisas se tornou rápido uma grande amiga. A vontade de isolamento que de tanto em tanto tempo dá seus botes na minha mente faz com que eu simpatize muito com Emily Dickinson – claro, nunca tão radicalmente. E outros e outros, sempre surgem mais amigos nesse meio. E assim foi com Simenon e seu Maigret.

Claro, em situações normais, acharia essa identificação com autor ou personagem desnecessária. Sempre que vejo fulano criticando tal livro por achar personagem feio, mal e bobo, descarto a opinião de fulano, que não passa de leitor imaturo, moleque, despreparado pra opinar sobre qualquer coisa. Aí sou obrigado a voltar à questão da literatura de gênero. A falta de algo mais, um tempero, demanda alguém a quem o leitor queira se apegar. Não vale pra toda literatura de gênero, têm as que ficam melhores com personagens odiáveis, mas as que dependem de um investigador – um compasso, por assim dizer -, essas ganham muito ao ter um personagem identificável – que não precisa ser agradável; se identificar com canalhas é sinal de autoconhecimento.

Cá estou eu cagando regras onde não deveria haver nenhuma. Bom, é ridículo, mas gosto dos livros de Maigret por simpatizar demais com esse investigador. Não ligo pros malandrões do hard-boiled, na verdade acho um saco; quero que os gênios da lógica fiquem trancados num jogo de xadrez eterno bem longe de mim. Jules Maigret é meu chapa.

6 – Ao invés de conclusão, algo completamente diferente

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Faz cara séria, Mr. Bean.

Precisava concluir, né? Mais tarde. Fica em aberto a possibilidade duma parte 3. Só que o texto não foi planejado pra mais que duas partes, fiquem vocês sabendo.

No lugar, vou falar das adaptações de Maigret pra outras mídias. Como Sherlock, Maigret teve várias encarnações no cinema, na tevê, na rádio e nos gibis. A primeira, foi num filme de Jean Renoir, baseado em A noite na encruzilhada. Pierre Renoir, irmão do diretor, interpretou o inspetor chefe. (Se alguma vez você precisar conectar o movimento impressionista, com cinema clássico francês e literatura policial – t’aí a oportunidade.) Mas não vou falar de todas. As mais famosas são as do Rupert Davies, entre 1950 e 1960; as com Bruno Cremer, de 1990; e com Michael Gambon, na mesma década. Rowan Atkinson interpreta Maigret na série atual. Tudo que citei foi na tevê, não vi os filmes, e, mesmo essas séries, só vi a com Michael Gambon e a com Rowan Atkinson, e só dessas posso falar positiva ou negativamente.

A versão de 1990, com Michael Gambon, fora o fato dos ingleses bancando franceses (mais comum do que se imaginaria), é perfeita. A adaptação das histórias é boa, Gambon é um ótimo Maigret, desde a aparência até a forma que ele enche o cachimbo e o leva nos dentes.  Ele tem a voz e a autoridade que se esperaria da personagem. O ritmo do enredo e a atuação das outras personagens atrapalha bastante, tanto que o programa tem duas temporadas, cada uma com uns 10 episódios de 45 minutos (no youtube, vão procurar), e eu não vi tudo ainda – comecei no meio do ano. A série é um livro por episódio, não esperem sequências, quase como filmes só que encurtados. Eu indico se você estiver afim de saber do que esses livros se tratam antes de se comprometer a comprar um ou se quiser ver uma série policial até que bem feita com um protagonista carismático.

Já a versão atual… eu não sei. Gosto, mas não sei por quê. Rowan Atkinson é um puta ator. Ele é o Mr. Bean, pra quem não sabe, e eu sou fã. Fã de Mr. Bean, de Blackadder, da comédia e do estilo dele. Essa série (que é mais um filme pra tevê lançado anualmente, tem um pra sair agora no natal) é um desafio pra ele. Maigret é um cara sério e Atkinson o atua de forma séria, com aquela cara. É estranho. Também não gosto que Maigret fume cachimbos Dunhill. Ele é um cara simples, devia fumar um Butz-Choquin ou um sem nome qualquer da França ou da Itália. (É, nada que importe pra ninguém, só eu reparei nisso, nem o filho do Simenon comentou esse detalhe.) A atuação tem momentos bizarros, mas, por algum motivo, existe tensão. Eu sempre assisto do começo ao fim e estou ansioso pro episódio que vai sair agora. Eu indico pra mim. Pra você, aí a história fica complicada.

O que mais vocês querem de mim?

 

Quando o peso das leituras te derruba – sobre Georges Simenon (parte 1: o autor e sua prosa)

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1 – Introduções típicas

Toda a questão da literatura de gênero, leituras leves e densas, lowbrow/middlebrow/highbrow, pode gerar discussões eternas. É difícil negar que certos livros carregam em suas páginas mais conteúdo que outros. Ao mesmo tempo, me incomoda colocar livros leves como entretenimento e livros densos como “tarefa”. Vários autores complicados são capazes de divertir; Mario Levrero, por exemplo, com suas reviravoltas na realidade da narrativa, não deixa de entreter; até Dostoiévski te prende à leitura, e Camus, Machado, Clarice, e lá vou eu … Ao  mesmo tempo, estaria sendo injusto se dissesse que não há literatura de gênero capaz de fazer mais que divertir. Sim, existem livros que não merecem o papel que ocupam, verdadeiros desperdícios de árvore; outros, como Brida, do Paulo Coelho, no esforço por deixar a leitura o mais leve possível sem que nada seja exigido do leitor, acabam tediosos e rasos, não servindo nem de entretenimento besta. Mas pra cada um desses, surge um Raymond Chandler, um Haruki Murakami, uma Patricia Highsmith, um James M. Cain, que seguem gêneros ou uma formas populares de enredo, mas trazem algo mais.

O problema é quando até essa literatura de gênero derruba. Lembro que peguei James M. Cain pra relaxar uma vez, The Postman Always Rings Twice, numa edição anciã que traduzia o título como O Destino Bate na Porta. Peguei porque tinha umas cem páginas e o estilo do autor era descrito como rápido. Me deparo com um enredo cercado de dilemas morais, denso como O Estrangeiro, de Camus. O que era pra ser uma leitura leve, só piorou meu estado. Porque vocês bem sabem que certos livros são capazes de derrubar um indivíduo – derrubar e pisar em cima. Não lembro o que eu tinha lido antes de O Destino Bate na Porta, mas estava passando por algo assim e “meu entretenimento” não ajudou em nada a aliviar.

Se foco em livros policiais, é porque, dentre os gêneros, é o que acho mais agradável na literatura. Gosto do clima que inspirou os filmes noir. Tentei outros gêneros, mas não foi tão bom assim. Stephen King foi um que me irritou. Falta um editor na vida desse cara, um editor com coragem pra passar a faca em 60% do suposto texto final dele. Ficção científica, pelo menos os autores que eu procuro costumam ser tão densos quanto qualquer existencialista. Tente ler Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? sem acabar duvidando da sua própria essência. Ao mesmo tempo, tenho dificuldades de encontrar um livro policial que sirva pros meus objetivos – distrair, tirar das costas o peso das outras leituras. Raymond Chandler é muito literário. Arthur Conan Doyle é um pé no saco (baseado na leitura de Um Estudo em Vermelho e a digressão de 100 páginas sobre mórmons – o livro nem 200 páginas tem, é mais como se Sherlock fosse a digressão e os mórmons as verdadeiras estrelas do show); além do mais, quem liga pra quem matou, Agatha Christie? É mais interessante saber o motivo. Então eu li Georges Simenon pela primeira vez.

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Rupert Davies como Maigret

2 – Breve digressão

Onde eu moro, tem um senhor que de vez em quando aparece na minha rua para vender uns livros usados. Nem sempre os livros que ele vende são interessantes, mas gosto de ajudar. Faz alguns anos, ele carregava por aí boa parcela da coleção do Maigret pela LPM pocket. Um dia ele precisava de uma ajuda séria pra pagar o aluguel e me ofereceu a coleção inteira (o que ele tinha dela) por um certo valor. Comprei e deixei num canto da minha estante (um armário) até o ano passado, quando realmente precisava de uma distração em forma de leitura, literatura que não me batesse na cara, só uma história, em tantas poucas páginas, que me prendesse e não demorasse muito pra terminar. Foi o que eu encontrei naquele Maigret (não lembro qual foi o primeiro), só não esperava que a execução fosse tão perfeita.

3 – O que foi tão bom?

Tenho que admitir não ter entendido, em primeiro momento, o que me causou tanta simpatia por aquelas histórias. Com toda a franqueza, são datadas. Simenon escrevia como um homem branco nascido em 1903. Não há consciência social nos romances de Maigret, ou conhecimento sobre procedimentos policiais, ou interesse em qualquer coisa que não a história contada no livro. Não que Simenon fosse ignorante, ele estudou bem os procedimentos policiais franceses de sua época, mas justo com o objetivo de não segui-los. Se não havia preocupação com consciência social, era porque o europeu médio (seus livros rápido ultrapassaram fronteiras) não estava tão interessado nisso. As mulheres em seus livros são, majoritariamente, passivas e vocalmente menosprezadas, mas também o eram as mulheres reais do mundo inteiro nas décadas em que se passam as histórias de Maigret. Resumindo esse potencial de baderna a que desnecessariamente dei início: o cara só contava histórias, em um cenário real, sem se importar com coisas além do enredo – que é típico de ficção policial. Isso, claro, baseado na minha leitura de 4 dos 75 romances, além de ter assistido algumas adaptações pra TV, para as quais pretendo dedicar algumas linhas daqui a pouco. Como minha leitura mais recente me impressionou bastante, deixarei aqui a possibilidade dos livros dele irem muito além do esperado.

Ainda, apesar da simplicidade, algo na escrita de Simenon atrai inclusive escritores. Antes que me critiquem por dividir literatura entre “popular” e “séria”, saiba que o próprio Simenon fazia o mesmo. Ele não tinha vergonha nenhuma em dizer que escrevia por dinheiro e o próprio não sabia quantos ou quais livros tinha escrito, de tantos pseudônimos que usou e quantas obras mandou pra prensa quando ainda eram só rascunhos. Mais de 450 romances, é o que se diz, entre histórias policiais, eróticas, livros sérios e memórias. O método de escrita entre um estilo de livro e outro mudava. Sempre focava na brevidade, não creio que algum livro dele chegue às 300 páginas, mas a matéria-prima era diferente nos livros sérios. Em entrevista à Paris Review, ele dizia ter que se trancar no escritório, quando se dedicava a esses livros, e passar por um exame médico completo. Então passava horas e horas na máquina, interpretando como um ator às personagens da história. Enredo e forma importavam menos nos livros sérios, o leitor importava menos. Sinceridade era o que interessava – verdade, por assim dizer. Mas não estou falando desses livros, pois até hoje não os li.

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Simenon não incluía as histórias de Maigret entre seus livros sérios, no entanto, é por elas que ele é lembrado. André Gide, um autor estilisticamente oposto, admirava Simenon e o considerava o melhor da França, na época. Vários outros autores expressaram admiração profunda pela obra do Simenon, o que é incomum – autores comerciais costumam ser execrados nos meios intelectuais. Simenon, todavia, se destacou.

Que não fique entendido que, por utilizar regras diferentes em seus livros sérios, Simenon negligenciava o estilo em seus livros comerciais. Ele só usava regras diferentes. Para Maigret, que são os que eu conheço, a ideia era prender o leitor desde a primeira frase e montar livros capazes de serem lidos em um dia. Não é uma tarefa fácil. Ao menos não sem que se ignore certos detalhes estéticos da prosa, o que Simenon não faz. A prosa é de linguagem simples, mas precisa. As breves descrições formam imagens claras na mente do leitor e o levam ao cenário. Mas prosa bem feita não explica essa minha preferência. Essa prosa bem medida é uma bela parcela do que me agrada, afinal chegar a esse grau de escrita que cumpre com perfeição seus objetivos é o que quase todo pretenso escritor almeja. Que ninguém deixe de focar na palavra “objetivos”. Simenon estava longe de ser um escritor perfeito, mas ele era honesto. Nada de se dizer um novo Hemingway ou um autor de tragédias gregas, como insinuou Nicholas Sparks. Ou se achar o melhor de todos e diminuir os que de fato são grandes mas estão mortos e não podem se defender, como Paulo Coelho faz quando quer chamar atenção. Sim, o livro foi escrito em 8 dias e mais 3 foram pra revisão. Sim, foi pra ganhar dinheiro. Sim, eu só quero que o leitor se distraia por algumas horas.

Por algum motivo misterioso, a secura da prosa, quando decido ler um romance de Maigret, não me incomoda. Na verdade, é o que mais agrada. A ambientação pode habitar os entornos do submundo do crime parisiense, mas existe uma calma, uma contemplatividade. O leitor acompanha o caso, de longe, por meio dos olhos de Maigret e sua meditação sobre o caso filtradas pelo vocabulário mínimo de Simenon. Quando vejo, estou perto do fim, mas nem por isso distanciado da leitura, desligado de qualquer maneira. O único lugar em que estou é no livro.

 

João Gilberto Noll, Emily Dickinson, Zadie Smith, John Berryman (Andei lendo uns livros aí #4)

Harmada – João Gilberto Noll (1993)

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Triste que só tenha sido pego por um dos livros do Noll depois da morte dele. Claro, não faz muita diferença ler o livro de um autor vivo ou morto, mas pra mim ficou aquela sensação de luto tardio, tão pouco tempo faz que ele morreu. Anos atrás, tentei sem sucesso ler A Céu Aberto. Achava que o autor não era pra mim, ou não era pro momento. Então arrisquei Harmada e fui fisgado desde a primeira linha. A história de um protagonista sem nome, como todos do Noll, ator de teatro, sem trabalho, vivendo pelas ruas, de cidade em cidade. A narrativa é fragmentada, mas tão concisa e bem interligada que mal se percebem os saltos no tempo e no espaço. É um grande fluxo pela vida do narrador e seus pensamentos. Não tenho muito mais o que dizer. Me encantei pela linguagem do autor, pelo uso da narrativa e do teatro como parte essencial da vida do narrador, pelas reflexões. Cada frase tem um peso tremendo e exatidão… Bom, estou lendo outro dele agora, Solidão Continental, então dá pra ver que essa leitura teve seu efeito em mim.

Everyman’s Library Pocket Poets – Emily Dickinson

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Esta é uma seleção de poemas da Emily Dickinson. Não tenho o hábito de comprar seleções. Prefiro coleções separadas ou, quando confio no autor, obra completa, mas, nesse caso, optei pela seleção levando em conta a estranheza ao redor da obra da Emily Dickinson. Pra quem não sabe, ela foi uma poeta reclusa. No fim da vida, não era vista por mais ninguém. Enquanto viva, só publicou uns poucos poemas (editados severamente pra que se encaixassem nas normas poéticas do período), deixando uma obra vasta inédita até depois de sua morte. Fora as notas biográficas, o próprio estilo dela carrega certa estranheza (aponto isso de modo positivo), com pontuações que ignoram regras gramaticais, palavras começando em letra maiúscula para dar ênfase, e uso frequente da meia rima (slant rhyme: quando duas palavras parecem rimar por ortografia, mas não rimam na pronúncia, entre outros casos de imperfeição na rima, exemplo: dead/bead, eye/symmetry [vide The Tyger, do William Blake, embora haja quem diga que algumas meias rimas não eram vistas assim em seu tempo, foi a pronúncia que mudou; não saberia dizer]). São poemas em nada tradicionais, tão misteriosos quanto a poeta ou mais, e por isso mesmo fizeram dela uma das poetas mais influentes dos Estados Unidos.

White Teeth [Dentes Brancos] – Zadie Smith (2000)

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Quase não inclui esse livro na postagem porque resumir seu enredo de muitos núcleos e reviravoltas será um inferno. Vamos lá: temos a história de dois homens, Archibald Jones (inglês, medíocre em todos os aspectos) e Samad Iqbal (bengali, muçulmano, moralista), que se conheceram pelo exército inglês na Segunda Guerra e forjaram uma amizade desde então. Dentes Brancos conta a vida destes dois homens e suas famílias, de forma não-linear, dos seus antepassados até o ano de 1992. São tantos os temas, que não dá pra reduzir a forma com que cada um é tratado sem que se perca o sentido. Trata-se de família, religião, história, honra, memória, raça, cultura; sempre com saltos de ponto de vista, de modo que “verdade” alguma permanece por muito tempo como tal na cabeça do leitor, demonstrando que existem vários fatos objetivos, mas que a uma verdade que tanto alguns almejam é inalcançável. Amei ter lido esse romance. É engraçado, imenso, tortuoso… No entanto, não posso negar que, terminada a leitura, estava frio. Difícil explicar. A leitura foi ótima, não há nada de errado na escrita… talvez seja eu que não esteja acostumado com romances tradicionais (com vários núcleos, que se passa em um longo período de tempo, com muitos pontos de vista), mas não é bem isso. Foi a sensação de que toda aquela construção de 500 páginas, boa que seja, não levou a nada, sem ápices. Indico mesmo assim e quero ler mais livros dela.

The Dream Songs [As Canções Oníricas] – John Berryman (1964-1969)

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Reunião dos dois mais aclamados livros do poeta considerado entre os mais importantes americanos do século XX, John Berryman, 77 Dream Songs e His Toys, His Dream, His Rest. The Dream Songs, canções em 3 estrofes, com seis versos cada, escritas em versos livres, são enigmáticas e pessoas, apesar do autor negar que sejam autobiográficas. As canções contam a vida de Henry, da infância à velhice. Berryman passeia pelo inconsciente de Henry, pelos amores de sua vida, pela sua relação com os EUA e os países que ele visitou, suas obsessões, seus amigos, trata da morte e do suicídio, do adultério e do alcoolismo. Por muito tempo, considerei fazer uma postagem separada sobre esse livro só porque ele foi assim tão importante pra mim. Terminei de ler, mas ainda não larguei. Revisito várias das canções quando tenho tempo livre, quando dá vontade. São tão tocantes. Entendo que críticos queiram insistir na qualidade autobiográfica das canções. Muitas delas retratam momentos da vida de Berryman. O suicídio do pai, que ele presenciou, sua reação ao suicídio de seus colegas poetas (Randall Jarrell,  Delmore Schwartz, Sylvia Plath, gente de quem ele era próximo e não), mortes de amigos que não por suicídio (Dylan Thomas), suas influências (W. B. Yeats, Stephen Crane), as canções coincidem na descrição das muitas relações extraconjugais que ele teve e dos seus anos de alcoolismo (batalha contra a qual ele não venceu), coincidem quando falam do desejo que Henry tem de se matar, e Berryman de fato se matou… É um livro intenso. E a construção gramatical complexa de cada canção fazem delas um tanto esquivas à interpretação, a ponto que é possível dizer que muitas não foram feitas para serem compreendidas. Talvez eu devesse escrever só sobre este livro. Pretendo, mas não tão cedo. É um dos meus favoritos no momento. Será uma releitura constante na minha vida.

Mágica, milagre, memória; Sobre Las Curas Milagrosas del Doctor Aira (César Aira, 1993-2015)

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 Conheci por acidente esse autor. Numa livraria online qualquer, botei Sérgio Sant’anna na busca, ele que, no momento, é meu autor brasileiro favorito, e encontrei o livro Como me tornei freira (Como me hice monja, 1993). O site não botava o nome do autor ali, então cliquei pra ver o que era, já que não sabia de nenhum livro do Sérgio – depois de tantos anos já posso me dizer íntimo – com esse título. E não existe mesmo, o livro era do César Aira, parte da coleção “Otra Língua”, da Rocco (organizada pelo mestre Joca Reiners Terron, responsável por trazer ao Brasil dezenas de autores da América Latina até então não traduzidos – gente como Mario Levrero, Copi, Aira, Julián Herbert, Guadalupe Nettel et cetera). O que Sérgio fez foi escrever a introdução, elogiando a obra do Aira. Comprei, porque indicação desse porte já me bastava, li e, na minha viagem à Buenos Aires, fui atrás das outras obras dele – logo descobrindo quão extensa ela é e quão impossível é colecioná-la.

Las Curas Milagrosas del Doctor Aira foi um deles, encontrado na feira de livros da Plaza Italia. Composto de 3 romances breves, o primeiro, As Curas Milagrosas do Doutor Aira (1998), é o que intitula o livro, seguido por El Tilo (A Tília, 2003), e termina com Fragmentos de un Diario en los Alpes (Fragmentos de um Diário nos Alpes, 1993) mais seu apêndice. Em 2015, a Random House reeditou estes 3 romances em um único livro – agora vocês entendem a data no título desta postagem. Embora os romances tenham algo em comum, não estão relacionados e o leitor pode escolher a ordem de leitura; pode até ler um pouco de cada por dia e terminar os 3 ao mesmo tempo. Eu sou chato, por isso segui a ordem das páginas.

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Não se sabe se Doutor Aira é curandeiro, milagreiro ou charlatão. Há quem acredite em ambos, e Doutor Aira acredita em seus poderes de cura mesmo sem nunca tê-los posto em prática. A narrativa é um golpe de vento, em primeira pessoa, cheio de divagações, autoanálises, planos que nunca são realizados, argumentos e contra-argumento. Aira tem admiração pelas colagens surrealistas e aqui o romance tem algo disso. Os cenários arvorados das ruas buenairenses, médicos tradicionais perseguindo Doutor Aira pra expor seu método falho em montagens quase televisivas de tão espetaculares, as peças se encaixam mesmo que pareçam estranhas quando juntas, e se encaixam tão bem que passam a se complementar.

A tília era uma árvore enorme, maior que as outras árvores dessa espécie, da infância do narrador. Seu pai usava as folhas dessa árvore para um chá com supostas propriedades mágicas, talvez devido ao tamanho da árvore suas folhas fossem especiais. Até que um dia um menino peronista (assim o chamavam) foi se esconder naquela árvore e seus perseguidores a derrubaram sem nenhuma consideração. Assim segue o romance que é exatamente o que parece ser, uma grande digressão. Memórias levam a outras memórias, sempre na infância, até que se rumina sobre um momento específico ou outro ou sobre a memória em si. Se mais de uma vez o leitor se pergunta como a história foi parar ali, logo o autor se faz a mesma pergunta, porque não se sabe. Me lembrou a forma como eu mesmo às vezes me lembro da minha infância, pedaços que vão e vem e se juntam a outras que levam a mais outros, memórias que começam em algum lugar e eventualmente terminam, mas que não têm começo, meio e fim. Tratam sobre tudo e sobre nada.

Começa com uma descrição das coisas na casa em que o narrador está hospedado, amigos dele que vivem na França. Livros, obras de arte, coleções. A forma como as peças correspondem com a personalidade dos habitantes – ou não necessariamente. Descreve os cantos da casa, conta das conversas que teve com os amigos, dos livros que leu aproveitando a coleção presente na casa. Um desses livros que é melhor com um bloco de notas pras referências e depois pesquisar cada uma. Uma história que leva a outras, que se divide, deixa de ser só um diário e vira um ensaio sobre literatura romântica alemã, ou sobre arte moderna e Duchamp.

As histórias, mesmo não relacionadas, têm o algo em comum da literatura. Não digo isso pra ser óbvio. Todos os 3 romances tratam, uns mais de leve que outros, da escrita. Do milagre que é fatiar uma vida e deixar só as partes de valor. Dos vários caminhos que trilha a memória. Da mágica dos mundos criados por palavras, seja pelo conteúdo fantástico (Verne, Hoffman), seja só pela existência – magia estatística – de uma história que reuna aquelas palavras naquela ordem específica.

Cada romance, tendo sido escrito em períodos de tempo tão separados, cobre uma década da carreira do autor. Diria que é uma boa introdução aos que não conhecem a obra do Aira. Não que seja assim tão fácil reduzir a cada vez maior obra do Aira a um resumo compreensível, mas, digamos que esse livro ajuda aos que nunca ouviram falar dele. Diria no condicional porque a obra nunca foi traduzida, quem sabe num futuro próximo. Para os de vocês que leem em espanhol, mantenho a indicação. Livros argentinos são caros em comparação com o preço da moeda deles, mas talvez valha o sacrifício. Se você estiver passando pela terra dele, busque numa das várias vendas de livros usados.

Este é um mundo de segredos; Sobre The times are never so bad (Andre Dubus, 1983)

Nunca fiz questão de dar tema a este blogue. Ele sou eu, disse certa vez, e ficou por isso mesmo. Não posso negar, todavia, que, quando falo de literatura – também parte de mim -, mais especificamente com sugestões de livros, surgem seguidores e curtidas e todas essas desimportâncias essenciais. Logo, há leitores aqui que esperam indicações literárias, e, com estes, estou em falta. Até porque, gosto de indicar leituras; o que não gosto é de escrever sobre livros. Se pudesse, listaria minhas últimas leituras agradáveis e quem quisesse poderia ir atrás, mas não dá. É necessário convencer, explicar, mais que os motivos que me fizeram gostar do livro, por que o leitor do blogue deveria ir atrás de lê-lo também. Então bolei o formato “Andei lendo uns livros aí”. Acontece que este livro, este não deu pra resumir as sensações de leitura em poucas frases.

Existe uma linha do realismo na literatura estadunidense que me encanta por sua humanidade. Ao mesmo tempo, muitos dos seus autores foram esquecidos ou nunca gozaram de sucesso internacional. Richard Yates é um exemplo, um dos meus autores favoritos que o tempo apagou, até o lançamento de Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road – adaptação do seu principal romance, dirigida por Sam Mendes, em 2009) e, em parte, Mad Men (que pega emprestado características de seus livros e contos, especialmente Disturbing the Peace), mas que já voltou ao esquecimento de antes; os ainda vivos Frederick Barthelme, Russell Banks e Ann Beattie; J. F. Powers e Flannery O’Connor, embora a última esteja mais associada ao movimento gótico-sulista; entre outros, pertencentes a uma tradição que parece ter nascido naquele país, com Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Stephen Crane, popularizada por Ernest Hemingway, mantida por John Cheever e Raymond Carver e inúmeros outros. Neste meio, viveu Andre Dubus. Foi contista e nunca conseguiu terminar um romance. Teve uma vida trágica, envolvendo crises familiares, divórcios, bebida, falta de dinheiro, até perder uma das pernas num acidente de trânsito. Auxiliando um jovem casal na beira de uma estrada, um carro perde o controle e parte em direção deles. Dubus empurra a moça e a salva. O marido morreu, Dubus teve uma das pernas esmagadas. Passou o resto dos dias numa cadeira de rodas, mas dessa experiência saiu Meditations from a movable chair, talvez seu livro mais conhecido.

The times are never so bad é uma coleção de histórias, uma novela e oito contos. Todos econômicos em palavras, realistas, centrados nos eventos pessoais e crises que formam ou destroem pessoas e famílias. Gente simples. Histórias que com frequência fazem o leitor se identificar em algum dos personagens e acontecimentos, ou fazem o leitor temer que algo assim um dia aconteça com ele.

The pretty girl, a novela que inicia o livro, começa em primeira pessoa, narrando os acontecimentos recentes na vida de um homem sobre quem pouco se sabe. Na segunda parte, a narrativa passa pra terceira pessoa e passa a acompanhar a mulher de que ele fala com desdém – sua ex – e as pessoas próximas dela, amigos do trabalho, família. Descobrimos que ela tem sido, desde o fim da relação, aterrorizada pelo primeira narrador, o da primeira pessoa, que, até então, parecia uma pessoa normal. Então a narrativa muda de tom e adquire uma tensão rara na literatura, porque aqui não há “vilão”, há um homem perturbado disposto a tornar a vida daquela que o deixou um inferno.

Levei um tempo pra escrever sobre esse livro, faz meses que terminei a leitura. Mas ainda lembro bem dos contos, só não pretendo falar de cada um deles porque nem todos permitem que se diga muito. As histórias falam de casais jovens tentando sobreviver num mundo nem sempre justo, às vezes tendo que roubar pra isso; de racismo e perseguição; da filha que descobre o adultério do pai e o confronta; violência doméstica… Sempre reais e simples, compartilhando uma característica com Raymond Carver, a da impressão que a um pavio aceso que pode explodir a qualquer momento, mas nem sempre explode, mesmo quando não é apagado.

Mas teve uma história que me marcou mais que as outras, talvez a que faça valer a pena ir à caça desse livro, se esse estilo de literatura te interessa. A father’s story. Este conto, que fecha a coleção, é um resumo do estilo de Dubus. Ele foi um homem católico e pai, que se tornou superprotetor após uma de suas filhas ter sido estuprada. Este conto foca no catolicismo – não como pregação, apenas como o senso moral de um homem (que nem mesmo gosta de igreja e só respeita a um padre específico que se encaixa nos seus critérios) – e no instinto paterno. O pai da história vive só em uma fazenda, depois que os filhos cresceram e foram embora. Ele passa o tempo cuidando dos cavalos, pensando no passado e conversando com o padre. Sua filha vem visitá-lo. Quando ela está pra ir embora, sofre um acidente e precisa da ajuda dele. A história mostra a que ponto o instinto paterno, nesse caso, ou materno, pode fazer que uma pessoa deixe de lado sua moral.

That was the time to say I want to confess, but I have not and will not. Though I could now, for Jennifer is in Florida, and weeks have passed, and perhaps now Father Paul would not feel that he must tell me to go to the police. And, for that very reason, to confess now would be unfair. It is a world of secrets, and now I have one from my best, in truth my only friend. I have one from Jennifer too, but that is the nature of fatherhood. (de A Father’s Story – “Aquela era a hora de dizer eu quero confessar, mas eu não disse e não direi. Embora eu pudesse agora, pois Jennifer está na Florida, e semanas se passaram, e quem sabe agora Padre Paul não se sentiria obrigado a me dizer para ir à polícia. E, por esta mesma razão, confessar agora seria injusto. Este é um mundo de segredos, e agora eu tenho um do meu melhor, na verdade meu único amigo. E tenho um de Jennifer também, mas esta é a natureza da paternidade.”

Embora esse estilo de literatura, talvez por culpa dos MFAs – inclusive em que Andre Dubus se formou, em Iowa, tendo sido lecionado por Richard Yates -, repita a si mesmo, em estilo e em conteúdo, Dubus foge disso, deixando a si mesmo, seu sangue nas páginas. Ele nunca é cruel com as personagens, como certos autores se gabam dizer, nunca é caridoso… O que acontece nas histórias é a vida, marca de uma boa narrativa realista, em que nada é completamente certo ou completamente errado, e qualquer coisa pode acontecer com qualquer um, inclusive as coisas mais distantes da grandeza.

Como tomar no cu sem fazer sexo: analisando 50 Tons de Cinza (E. L. James – 2011) – parte 2

Quando a internet e a genialidade se encontram.

 

3. Os três patetas: Anastasia, Inconsciente e Deusa Interior

Personificações do Tico e Teco, as vozes na cabeça de Anastasia, que tornam o pensamento dela mais claro (?) e a leitura insuportável, são chamadas Inconsciente e Deusa Interior. Um passa a história insultando Anastasia enquanto o outro só se masturba. Antes que eu me adiante, vamos definir a personalidade dessas duas alucinações, sim?

Comecemos pelo Inconsciente porque, dos dois, é o que mais me emputece. Não se enganem, a Deusa Interior é tão ruim quanto, mas ela é o tipo de idiota inofensiva, enquanto o Inconsciente é uma demonstração do quanto a autora não estava preparada para escrever o horóscopo de uma revista de fofoca, que dirá um romance. Desde a primeira página, o Inconsciente serve como o bom senso, o lado inibitivo da “mente” de Anastasia, que, por sarcasmo mal escrito e tentativas sem graça de piadas autodepreciativas – afinal o inconsciente é parte de Anastasia, tenha ele consciência disso ou não –, tentam mostrar a ela que o que ela está fazendo é errado ou incompatível com a personalidade dela ou apontar um mal a ser evitado. Em termos psicanalíticos, é o Superego. Isso mesmo, caros leitores, uma das coisas mais presentes nesse livro é, por definição, um erro. É difícil explicar como isso aconteceu. E. L. James deve ter achado a palavra inconsciente bonita, então decidiu repeti-la o máximo de vezes possível ao longo do livro, sem nunca pesquisar no Google o seu significado. É verdade que o Superego não é de todo consciente, mas o de Anastasia parece ser, visto que ela tem um acesso muito claro a ele – e mesmo assim o chama de Inconsciente. Nenhuma das milhões de leitoras parou para pensar nesse detalhe? Não é preciso um diploma em psicologia pra perceber que tem algo errado. Então é isso, o Inconsciente é só essa coisa que passa o livro todo reprimindo Anastasia e sendo ignorado, tanto pela personagem quanto pelo leitor, que, inevitavelmente, passa a pular as frases em que ele aparece.

A Deusa Interior, por outro lado, é um tipo completamente oposto de chateação. Ela dança, comemora, pula etc. Mantendo a civilidade, ela é o Id da personagem. O impulso, a fonte da libido, os desejos e por aí vai. A Deusa Interior, sendo franco, é a vagina da Anastasia. Mas deus nos livre da palavra vagina aparecer no texto. A autora tem algum problema com qualquer menção nominal aos órgãos reprodutivos. É bem verdade que o uso de termos biológicos num livro de sexo pode fazer as cenas soarem como uma aula de anatomia, mas nem apelidos ela usa. Ela poderia ter vulgarizado de vez e soltado logo a boceta, ou, como pelo visto ela não tem medo do ridículo, lançar uma xoxota aqui e ali, até perseguida poderia ser perdoado em lugar da real escolha da autora. Não, ela tinha que fazer a personagem dizer coisas como “lá embaixo”, que não é nem um eufemismo digno. A mais ingênua das mulheres não usaria essa expressão. Lá embaixo é o que uma criança responde ao juiz quando ele lhe pergunta: “onde foi que o padre te tocou?” Mas eu estava falando da Deusa Interior. É que não tem muito a se falar sobre ela, por isso eu me perco nos meus pensamentos – deve ser meu inconsciente trabalhando. A Deusa Interior é o equivalente feminino do “pensar com a cabeça do pau”, nada além.

Então o leitor é forçado, pelas quase quinhentas páginas, a ler dezenas e dezenas de breves reações do Inconsciente e da Deusa Interior aos pensamentos e escolhas de Anastasia. Que eu me lembre, os dois nunca se encontram. Eles sempre se dirigiam diretamente a Anastasia, nunca um ao outro, o que foi uma oportunidade perdida para muita galhofaria, tortadas na cara e dedos no olho, no maior estilo Moe (Inconsciente), Larry (Anastasia) e Curly (Deusa Interior). Nada disso muda o fato de que, se o editor tivesse passado a faca em todas as menções a essas duas criaturas, a leitura teria sido menos desagradável, pra começar porque isso cortaria pela metade o número de páginas.

4. Falsa luz no fim do túnel e a raiz de todo o mal

Então, já no último capítulo ou algo assim, eu me surpreendo. Pela primeira vez, Anastasia toma uma decisão acertada. Ela leva umas porradas do pica das galáxias e decide que chega, aquela vida não é para ela, os dois não devem mais se ver. Seria isso um sinal de amadurecimento?, E. L. James mostrando que não é só uma escritora incompetente, mas alguém com inconsciência, decidida a quebrar o formato padrão das histórias sobre meninas inocentes tentando mudar os homens terríveis por quem elas se apaixonam? Não, porque o livro tem duas continuações, logo não é necessário ler todos os volumes pra saber que ela volta atrás e ele promete mudar e os dois voltam a ficar juntos e se casam e têm dois filhos e meio e um Golden Retriever e então as agressões do pica das galáxias começam a ficar mais frequentes principalmente porque o corpo de Anastasia já não é aquilo tudo e a pica já não está explorando tão bem a galáxia fazendo umas aterrizagens de emergência ou não decolando e Anastasia desenvolve um vício em antidepressivos e analgésicos e as crianças descobrem a sala de jogos e o cachorro morre de câncer e finalmente eles terminam em um longo e doloroso processo de divórcio em que nenhum dos dois é visto como capaz de criar as crianças e os dois se suicidam. Eu posso sonhar; a autora não escreveu o que vem depois do felizes para sempre.

Pois é, por um momento eu quase vi algo que pudesse redimir essa história. Se ela tivesse ido embora e não tivesse continuação, o livro continuaria sendo uma merda mal escrita, mas teria uma razão de ser. Mostrar que não dá pra mudar um parceiro abusivo, que certas pessoas são incompatíveis, enfim, uma versão adulta da história. Se ela tivesse feito isso, com toda a honestidade, eu teria dito que o livro é uma merda. Do jeito que está, ele é uma merda ofensiva, insistindo que amor e persistência podem mudar uma pessoa. Receita para um desastre. E tem gente que acredita. Por mim, se as pessoas estivessem elogiando o livro porque todo mundo gosta de uma sacanagem, tudo bem. O livro é péssimo em sacanagem também, mas não vem ao caso, cada um com seus gostos. Mas daí a dizer que é uma história de amor, superação e o caralho à quatro, isso é intragável e, dependendo do quanto a leitora em questão realmente acredita nisso, prejudicial.

A maneira como as pessoas mais apaixonadas por essa história insistem que Anastasia se interessa por algo mais no seu Grey que os bilhões de dólares e a vara me intriga. Nada no livro dá a entender o contrário. De vez em quando Anastasia diz para si mesma que não é isso, mas ela não é capaz de definir o que é. E o pior de tudo, e que categoriza o abuso na relação, é que ela nem tem padrões comparativos adquiridos em relações passadas para ajudar a definir se o que ela está vivendo é bom ou não. Nada do que ela diz sobre o relacionamento é confiável, nem mesmo o tamanho do dote do ricaço. A mulher nunca nem se masturbou antes de transar com ele, como ela sabe que ele é tão grande assim? Ela não conhece nem os próprios dedos, porra. E mesmo que ele tivesse aquilo tudo, baseado nas descrições da autora, as proezas sexuais do cidadão não funcionariam na vida real. É que, pra sorte dele, ela guardou todos os orgasmos que ela não atingiu em sua vida adulta dentro de um armário na casa da Deusa Interior e ela é capaz de atingir cinco em sequência com o toque de uma pluma. Até a autora tem suas dúvidas sobre a capacidade do rapaz e vive se forçando a avisar as leitoras de que o que acabou de acontecer foi sexy, só para que não reste dúvidas.

Minha dica para Anastasia e qualquer outra moça que possa estar envolvida em um dilema desses na vida real é: se o cara aparece na loja em que você trabalha sem que você tenha dito para ele onde é, você pergunta como ele descobriu e ele responde que tem seus meios, ele compra corda, um taco de baseball, uma máscara de esqui e uma motosserra, e então te convida para sair, diga não. Então corra o máximo que suas pernas suportarem, mude de país ou compre algumas armas de fogo.

5. Conclusão

O fato de que esse livro atingiu os números de venda que atingiu e se tornou tamanho fenômeno me impressionaria se as pessoas já não tivessem esse hábito de comprar livros ruins. É normal, temos aí Paulo Coelho, Dan Brown, Stephenie Meyer. Tudo que ela fez foi escrever um livro ruim com sexo. Fórmula para o sucesso. A surpresa é que demorou tanto tempo para acontecer.

Todas as leitoras que dizem amar esse livro por serem mulheres liberadas e bem resolvidas com a própria sexualidade, sinto em lhes dizer, mas não é verdade. Esse livro é literatura erótica para quem não gosta de literatura erótica, é sadomasoquismo para quem não sabe o que é sadomasoquismo, é sexo para quem não faz sexo. Ruim em todos os graus, tanto literários quanto eróticos, falhando em tudo aquilo a que se propõe fazer. Isso é tão claro que pode-se dizer que as pessoas que gostariam de ler 50 Tons de Cinza já leram, e aqueles que não gostariam perceberam pelo faro o lixo literário irredimível que é esse livro. A única coisa que eu gostaria de ler relacionado a 50 Tons de Cinza é a perspectiva da faxineira do senhor Grey. As coisas que essa mulher já deve ter visto e sofrido, isso sim é uma história.

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Texto originalmente publicado, na íntegra, em 2 de novembro de 2015, aqui: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/11/como-tomar-no-cu-sem-fazer-sexo.html