Andei lendo uns livros aí… #3

POEMAS – ALEJANDRA PIZARNIK

Tenho pouquíssimas informações sobre esse livro. Criei um vínculo extraliterário com ele. A poesia da Alejandra Pizarnik é uma ausência tremenda nas editoras brasileiras, negligência pura – que eu saiba, dela, até hoje, só uma novela foi publicada. Mas pra mim não foi só isso. O livro é uma seleção fina de poesias e fragmentos de prosa dessa autora. Não sei o ano, acho que é de uma coleção antiga de “literatura essencial” publicada na Argentina, julgando pela aparência do livro, vou julgar que em meados da década de 1980, senão fim de 1970. É aí que o livro se torna especial. O encontrei no meu primeiro dia em Buenos Aires. Estava perdido, buscando entre as ruas que cruzam com a Avenida Cordoba, alguma referência que me indicasse como chegar no Centro – precisava, logo, trocar dinheiro. Olho ao redor e me deparo com uma vitrine abarrotada de livros usados. Entro porque é mais forte do que eu. Não tinha muito dinheiro, mas deu pra sair de lá com esse livro e um de contos do Roberto Arlt, além de ter trocado uma ideia curta com o vendedor sobre estes autores e Mário de Andrade, e conseguir instruções de como me achar. Essas poesias me acompanharam pelos meus primeiros dias, perdidas comigo pela cidade. Foi necessário encontrar, dias depois, uma edição da obra completa dela, que me dedicarei a estudar. Aguardem traduções da poesia dela por aqui.

LA MÁQUINA DE PENSAR EN GLADYS [A MÁQUINA DE PENSAR EM GLADYS] – MARIO LEVRERO (1970)

30008442

Outro achado em Buenos Aires, este em uma livraria “normal” – vendia livros novos, mas se especializava em literatura “underground” (por falta de palavra melhor), ou foi a impressão que tive vendo os títulos em destaque, gente que eu nunca tinha ouvido falar antes, o que me deixou triste por só ter ido lá no último dia, embora tenha visto o lugar várias vezes; pra que vocês que queiram ir pra lá não cometam o mesmo erro que eu, o nome é: Borges 1975 (endereço: rua Jorge Luis Borges, 1975, Palermo Soho), além de livraria, tem eventos culturais e um bar por lá, aproveitem por mim. Sobre o livro, já tinha ouvido falar que Levrero era um dos escritores mais inventivos dos últimos anos, mas não imaginava o quanto. Essa é a primeira coleção de contos do autor, que já servia de guia pro que ele viria a escrever em seguida. São histórias que variam entre 1 e 30 páginas, surreais sem nunca admitir seu surrealismo, beirando o absurdo. A influência de Kafka, nos contos mais “urbanos” é visível, também a influência das artes plásticas (descrições vívidas, cuidadosamente precisas, mais pelo prazer estético da visualização imaginária que pela necessidade de contexto literário), enquanto o surreal chega de surpresa, nunca se espera por ele mesmo quando ele está em todo lugar. Um livro muito impressionante, que beira o inclassificável. Um original, se é que eu sou capaz de reconhecer um desses. Também fica a ideia de traduzir aqui uns contos, pelo menos os mais curtos.

FAREWELL, MY LOVELY [ADEUS, MINHA QUERIDA]  – RAYMOND CHANDLER (1940)

28000053 - Adeus minha querida_capa_V3.indd

Minha relação com literatura policial é conturbada. Levo meses para terminar até os melhores livros da categoria – e tem muita coisa de qualidade. O motivo me escapa. Costumo gostar da narrativa e da escrita, mas algo não me prende. Deixo de lado, parto pra outros livros e demoro pra querer voltar. Aqui temos, talvez, a história de detetive. Philip Marlowe, clássico detetive de Chandler, investigando o sumiço de uma mulher, se envolve numa trama complexa que inclui roubo de joias, cassino ilegal, charlatões, hospícios e tráfico de drogas. Todos os ingredientes da receita pra um bom hardboiled tão aqui. Tem policiais corruptos no submundo urbano, femmes fatales, violência, sem nada daquilo que tanto me desagrada (e, ao que parece, a Chandler também) nas histórias de detetive: investigações e deduções forçadas que transformam as personagens em peças de xadrez. Gosto da estética hardboiled, dos filmes noir que esses livros inspiraram, de todo esse microuniverso literário, em se tratando disso: estética, apenas. Já pra ler de fato, a história é outra. Foi bastante arrastado. Gostei da experiência de ter lido um Chandler, pretendo ler outros – não tão cedo -, mas não foi uma leitura fluida. Esse é um dos casos em que o leitor é mais culpado que o livro.

Norwegian Wood (Noruwei no Mori) – Haruki Murakami (1987)

Mantendo minha proposta de migrar aos poucos o conteúdo do meu finado blog anterior, trago aqui minha resenha de Norwegian Wood, livro de Haruki Murakami, publicado em 1987, junto de breves considerações e comparações com sua adaptação cinematográfica, lançada no Japão em 2011, dirigida pelo vietnamita Ahn Hung Tran. Em primeiro momento, queria trazer para cá os textos palavra por palavra, com exceção de pequenas revisões, tendo em vista que as postagens percorrem um período de 4 anos e minha escrita, assim eu gosto de acreditar, se desenvolveu nesse tempo. Só que passaram quase 4 anos da minha leitura desse livro, como vocês podem perceber pelas datas junto aos links pras postagens originais, logo abaixo.

Não conseguirei resistir a mudar certas partes do texto, rever minha opinião, agora baseado em tudo que sei sobre Murakami e sua obra, principalmente considerando o quanto esse livro foi e ainda é importante para minha formação como leitor e, embora com ressalvas, escritor.Na época que li esse livro, era um leitor sem tanta experiência. Comecei sexta, achei que levaria mais tempo, mas esse livro é incrivelmente rápido, mais ou menos como a vida universitária – não sei se foi o objetivo, mas parabéns ao Muraka por gerar essa impressão, afinal, como ele é famoso por seu ritmo, lhe darei crédito independentemente.

A história é sobre Toru, um jovem universitário. Seus encontros, desencontros, amores, felicidades e tristezas. Ele se apaixona por Naoko, namorada de seu melhor amigo Kizuki, que, por sua vez, se suicida aos 17 anos, formando todo esse quebra cabeças afetivo que é o tema do livro. A música favorita de Naoko é Norwegian Wood, dos Beatles (excelente música por sinal). Toru a ouve, muitos anos depois dos acontecimentos desse livro, em um aeroporto, em versão orquestrada, o que lhe traz todas as memórias de sua juventude. Além de Naoko, Toru se encontra com Midori (que personagem fantástica!), companheira de sala que acaba se envolvendo com ele, complicando ainda mais essa tragédia moderna. Tragédia que, “por coincidência” é o tema de estudos dos jovens – Sófocles, Eurípides, sabe?

2010-12-16_225753

Em geral o livro é sobre perdas. De pessoas, amores, juventude, até a vida. Todo tipo de perda ou, mais exatamente, transição, pois como o narrador define, morte não é necessariamente a perda da vida, mas sim parte dela. Mostra a difícil transição da juventude para a vida adulta, esse período entre os 18 e 20 anos, que, diferentemente da adolescência – que simplesmente acontece -, é uma transição escolhida e, muitas vezes, forçada e confusa, embora necessária.

As referências à cultura pop e o humor sutil e peculiar são os pontos fortes do romance, que fazem com que história não se torne um poço de depressão, até porque o objetivo da história é justamente esse – mostrar que, nesse mundo imperfeito de pessoas imperfeitas em que vivemos, merda acontece, e por mais cruel que isso possa parecer, essa merda deve ser superada. É difícil, mas não há nada que sexo, jazz, uísque e viagens não ajudem a esquecer.

Vamos, então, aos resultados do Bingo de Murakami para Norwegian Wood: ear fetish – dried-up well – cats – old jazz record – train station – precocious teenager – cooking – weird sex (tive problemas para definir o que é estranho para os padrões do autor, mas acho que entendi) – tokyo at night

Passei o livro todo esperando algo desaparecer, mas não aconteceu. Deve ter sido o efeito de “Minha Querida Sputnik”. Tampouco sei o que é um nome estranho para japoneses, por mim todos são esquisitos – tal como Raphael deve ser bizarro pra caralho para eles…

Não importa quanto tempo passe e livros do Murakami que eu leia, esse sempre se mantém como um dos melhores pra mim. Significou bastante na época. Minha visão do estilo do Murakami, hoje´, é outra. Não acho que ele seja tão bom, ou, poderia dizer, que ele tem muitos pontos fracos. Mas esse livro, independente das falhas, tem um charme inigualável. Talvez por ser tão simples. Ajudou muito que, na época da minha leitura, eu fosse um universitário de 21 anos, deslocado socialmente. Não fiquei surpreso quando soube que esse foi um experimento do autor. Quando escreveu esse livro, o nome dele já era conhecido entre os prêmios literários do Japão e os leitores mais interessados na vanguarda. Vendia sempre muito pouco. Então decidiu escrever um best seller com Norwegian Wood. Vale apontar que um best seller no Japão é bem diferente de um no Brasil ou nos Estados Unidos. Murakami tentou ganhar dinheiro e, pouco depois da publicação, viu que vendeu mais de um milhão de copias e que estava prestes a ser publicado no mundo todo.

1319279620048-614x308-center

Tanto sucesso que até fizeram uma adaptação cinematográfica desse livro, com o mesmo nome. Na verdade, a adaptação é bastante fiel, até demais. Um filme de 2 horas não consegue retratar 350 páginas ou mais sem contar uns pedaços. É aí que o filme peca e por isso não posso indicar pra ninguém fora aqueles que amam muito esse livro e querem um pouco mais – desde que cientes da decepção que virá. A história é a mesma, mas, para que fosse possível a condensar em tão pouco tempo, ela salta no tempo, pula etapas, se despede de personagens que nunca foram apresentadas. Isso faz do filme confuso e mal feito para quem leu o livro, incompreensível para quem não o leu.

O triste é que, claramente, a adaptação foi feita por alguém com conhecimento e gosto pela obra. A fotografia é uma beleza, as atuações não poderiam ter sido melhores, a interpretação visual das personagens – tudo impecável. Mas algum produtor deve ter visto o filme, de início, perfeito, mas com 3 horas de duração, e dito ao diretor: corta essa merda, não quero que tenha mais de 2 horas. Claro que não sei se foi isso que houve. Mas o filme dá a impressão de ter vindo com peças faltando.

O livro, se você quer conhecer esse autor sobre o qual todo mundo fala, indico muito. É a obra perfeita para apresentar um novo leitor ao Murakami. Não é o melhor livro dele, apesar de insistir que ele é especial pra mim, mas é uma história sólida e tocante sobre juventude e seu fim.

Obs.: Isso não vai afetar a nota, pois a culpa é dos tradutores e revisores, mas a edição da Alfaguara vem com três belos erros de concordância, os quais não marquei, mas são bem visíveis durante a leitura. Não prejudica o entendimento, mas é feio pra cacete, viu Alfaguara (Objetiva)!

***

Youtube, livros, editoras e outras chateações

livros

Tá na hora de tocar nesse assunto?, falar de livros de youtubers et cetera? Queria me convencer de que já passou da hora, que isso não tá mais acontecendo e foi só um sonho ruim. Bem, não é o caso. Nada baixa a ereção financeira dessas editoras, agora cada uma delas tá vasculhando os buracos mais sórdidos da internet buscando um youtubeiro para chamar de seu. Isso é a pior coisa do mundo?, razão de todo esse alarde? Não. É inesperado? Não. É errado ou antiético? Talvez, mas o mercado editorial nunca teve nada contra o errado e o antiético – é, afinal, um mercado -, logo, mesmo que assim seja, não é novidade.

Convenhamos, é mentira que esse povo do youtube tá roubando espaço de escritores de verdade. É bom tirarmos esse argumento do caminho logo de uma vez. Escritores brasileiros de boa literatura contemporânea sempre foram minoria nas editoras e vão continuar sendo. Se alguma editora ainda publica autores de “literatura” – e me permitam não ter que conceituar literatura neste texto, pois acho que todos sabem do que estou falando – é pura e simplesmente por obrigação moral. O escritor contemporâneo é um estorvo no mercado editorial, um teimoso que insiste em existir e impede as editoras de lucrarem por completo. O que mais me intriga nesse oceano de críticas aos livros de gente do youtube (desculpem-me, sou velho – de alma -, youtuber é uma palavra que me deixa ruim do estômago) é que raramente elas vêm de pessoas que poderiam ser chamadas “leitores ávidos”. Se for parar pra fazer um levantamento estatístico das fontes dessas críticas, a maioria vem de outras pessoas do youtube, menores ou não que os que escreveram os tais livros, que, por acaso, ainda não fecharam contrato com editora nenhuma – pra esses, eu digo, é só questão de tempo.

Vou dizer de uma vez que nunca li e nem pretendo ler um desses livros. Não por serem “ruins”, “errados”, “criminosos”. Acontece que eles não me afetam. Quase não acompanho canais de youtube. Vejo uns vídeos, de vez em quando, mas não é bem meu tipo de entretenimento. Digamos que eu não “falo a língua”, é só. Mas não desmereço o conteúdo. Os poucos que vi, por indicação de terceiros de confiança, não foram de todo ruins, mas não me peçam pra lembrar o nome de quem quer que seja. Os melhores vêm com boas ideias já digeridas praqueles que não conhecem determinado conceito ou ideia ou coisa assim. O que eu fiz, no entanto, foi ler as opiniões de gente tanto que acompanha e não acompanha essas pessoas sobre os tais livros. Ver quais pontos se repetem, quais as críticas e elogios mais comuns, o que mais aparece nos livros (biografia, crônica, roteiros transcritos, algo de novo etc.), e, assim, tentar formar um argumento que justifique minhas objeções. Pode não parecer, mas é mais justo com os livros que eu filtre minha opinião pela dos outros, nesse caso, do que eu mesmo vá atrás de ler os livros. Repito, não sou o público-alvo de nenhum deles. Não foram feitos pra mim, não me diriam nada – isso me baseando só nos vídeos que vi. Partindo do ponto de vista expresso pelo público-alvo, posso ter acesso aos lados positivos dos livros, mesmo que seja por segunda mão, que talvez lendo os livros eu não fosse perceber.

Aconteceu que, feita a pesquisa, a maior parte dos lados positivos tinham tom de desculpas. Ok, o livro não é lá essas coisas, “mas foi um presente para os fãs”; “pra entender, você precisa acompanhar os vídeos”; “foi pra imortalizar o canal”. Nenhum destes é motivo pro livro existir pra começo de conversa, e parece autoengano de um leitor não exatamente satisfeito mas que defende a pessoa que admira até o fim.

Comecemos pelo presente para os fãs. Que presente é esse que o presenteado tem que pagar pra receber? Existem maneiras de preparar uma lembrança/presente, barata de produzir e sem custos para os fãs. Sem fins lucrativos, no entanto – talvez esse tenha sido o problema. Depois vem a questão do precisar ver os vídeos. Por que exatamente? O livro não deveria ser uma obra separada? Além do mais, um livro publicado – exposto ao “público” – não pode contar apenas com admiradores prévios como leitores. Afinal, não é como se a editora só tivesse fechado o contrato contando que o autor viria com um rebanho consumidor de um milhão ou mais cabeças, é?

Enfim, a questão do imortalizar. Hoje em dia, com nosso conhecimento arqueológico, sabemos que a maior parte da história foi apagada há muitos séculos e continua sendo, de incidente em incidente, de ditador maluco em ditador maluco, de guerra em guerra. Livros sumiram do mapa e ainda somem. Escrever com vista à posteridade é inocência, sempre foi e sempre será. Irônico até que, hoje, a forma mais segura de “imortalização” seja a internet. Sim, vídeos no youtube, desde que seus arquivos originais sejam guardados em algum canto da “nuvem”, são, essencialmente, “imortais”. Claro, quando o declínio da nossa civilização realmente tomar fôlego e toda nossa rede de dados for apagada ou se tornar inacessível, vai morrer, mas, nesse ponto, também irão os seres humanos, inutilizando os livros de igual maneira.

Se nenhum dos elogios que listei serve pra justificar a existência desses livros, eles são errados? Não. Ponha-se no lugar do “autor”. Está você em paz, quieto, fazendo seus vídeos. Entra em contato contigo uma das maiores editoras do Brasil e te diz: – Farejamos os rabos dos teus seguidores e achamos dinheiro. Tá afim de explorar essa oportunidade? É muito dinheiro por zero esforço. – O que você faria? Tenho minha relação pessoal com literatura, minhas próprias aspirações, desejo de publicar o que escrevo, então minha resposta seria diferente, se eu recebesse esse tipo de proposta. Mas a maior parte desses criadores de conteúdo não escrevem, nunca pensaram em escrever. Quando muito, escrevem seus roteiros, mas estes seguem outro método, são animais diferentes dos livros longos, sejam de narrativa de ficção, crônica ou biografia.

O grande problema é que a existência desses livros, dessa estratégia mercadológica, é legitima. Funciona e nada pode ser dito contra ela, justo porque ela funciona. Aí ouvimos aquela típica frase-sequestro, dita pelos próprios youtubeiros, por autores best-seller, pelos editores e até os próprios autores “sérios”: são estes livros que financiam projetos literários que não darão retorno financeiro – esses sendo todos os livros “sérios” de ficção, não-ficção, poesia, qualquer coisa que não seja estritamente comercial. Há argumentos contra isso? Não. Fomos nós que nos colocamos nesse estado, na verdade. Não nós eu e você, mas nós a sociedade atual, contemporânea, resultado de processos sociológicos inúmeros do passado. Constatado esse fato, qualquer coisa além dele é uma discussão infinita baseada no velho arranca-rabo entre o ovo e a galinha, entre o frescor e a velocidade das vendas da bolacha Tostines: as editoras só publicam literatura comercial porque é o que os leitores querem, ou os leitores querem literatura comercial porque é só que as editoras publicam. Shakespeare e Dickens escreviam por dinheiro, o que difere esses dois de Paulo Coelho e James Patterson, além do período em que escreviam? (Bom, James Patterson tem estagiários que escrevem os livros por ele e é basicamente uma corporação literária com nome de pessoa, mas isso não vem ao caso.) Foi o público que mudou e hoje não liga mais pra histórias dickensianas? A diferença no tratar da prosa é tangível, mas qual o valor objetivo da bela prosa?

Não tenho respostas para essas perguntas. Tenho meu gosto e ele me basta, mas não sei em que ele se baseia. Só sei que li Brida e quase peguei no sono, e James Patterson não me prende nem pela sinopse, enquanto Sérgio Sant’anna, Julio Cortázar, Cesar Aira, Truman Capote e inúmeros, inúmeros outros, me causam tremendo deleite – e há quem ame e quem odeie, ambos os lados com razões válidas, cada um desses autores. Mas isso é gosto. Como vem do gosto querer ou não ver vídeos no youtube de uma determinada pessoa e gostar dela a ponto de querer ler suas palavras impressas.

Conclusões são uma impossibilidade, então permitam-me do alto da minha irrelevância sem limites inocentar pelo menos uma das partes. Os youtubistas, vocês nada fizeram além de topar uma proposta, convenhamos, irrecusável. Não fizeram nada, só foram engolidos por um mercado muito maior que vocês e demasiado complexo. Se os leitores os amam, que assim seja. Não me afeta. E não há de afetar a literatura enquanto arte estabelecida. Os escritores novos, esses que insistem em surgir em conjunto com o mal das pretensões artísticas, vão continuar nascendo. Talvez mudem de estratégia, façam também canais no youtube, ou resistam na esperança de conquistar público na base da luta. Eu, que também tô na luta, não sei o que eu vou fazer. Continuar escrevendo, essa é uma certeza, mas a única. O resto, tô esperando pra ver no que vai dar. Talvez em nada.

O cenário é complicadíssimo, mas pode ser que sempre tenha sido assim. Claro, o que mudou foi a estrutura, o tamanho do monstro. É fato que isso já deve ter impedido várias obras primas de existirem. Restam aqui dois acusados, inocentado o vocêtubeiro, a editora e o público. E, ignorando a construção da cultura de massa e como ela se tornou o que é hoje, ignorando o passado e levando em conta apenas o que pode ser feito de agora em diante, culpo o leitor. Abram os olhos, se cada reclamação contra um livro feito pras “massas incultas” viesse acompanhada da compra de um livro de alta ou média literatura, o estado do mercado literário já teria mudado ao menos um pouco. O público está ciente da massificação da cultura, da estupidez vendida a granel, das farsas e publicidades enganosas, do E-G-O. Se esse público ou parcela de público, ainda que ciente de tudo isso, insiste em se recusar a procurar por boa literatura e ignorar o que é ruim, é porque ele, secretamente, não gosta da boa ou ama a ruim. Suspeito que ama. Tudo além disso é choradeira que nada resolve. E as editoras seguem duras como pedra pela grana e a subcelebridade da vez (acredito que youtube é temporário, sinto muito; se a maioria do seu público é adolescente, saiba que adolescentes crescem e cansam do que eles costumavam amar) vai continuar recebendo ofertas milionárias para publicar livros que ela nem quer escrever. A arte, seja o cinema ou a literatura ou a música ou que seja, vai continuar ali, à margem, resistindo, atendendo aos que a procuram. O que não é o ideal. Até o mais obscuro, recluso, dos artistas quer ser visto, quer vender, só que pelo que ele faz e não por quem é – o que parece ser um problema nos dias de hoje. Mas é o caminho que escolhemos seguir, logo, único destino. Ah, e sempre vai haver quem reclame disso sem fazer nada para mudar a situação. Modas serão modas serão modas… os cães ladram, a caravana passa, o que é passageiro ao seu período e apenas ele pertence.

Falando em demonstrar ódio ao que se ama, vou encerrar isso aqui com uma anedota altamente literária, para os que se interessam por essas bobagens: Yukio Mishima, sim, o grande romancista japonês, amante do ascetismo, da disciplina, do Imperador, do fascismo, do perfeito equilíbrio entre o corpo e a mente, desdenhava um autor da geração anterior a dele, já estabelecido e respeitado por todo o Japão, Osamu Dazai. O desdenhava porque ele era seu oposto. Dazai era um bêbado, com tendências suicidas (não cerimonialistas, como as do Mishima), misantropo, e, não bastasse, tinha ligações com o partido comunista, embora o próprio fosse distante da política – o que Mishima tampouco admirava. Mishima considerava Dazai mais que tudo um fraco, mas havia acabado de publicar seu Confissões de uma Máscara, com grande sucesso e, recém-inserido nos meios literários, foi convidado a uma festa em homenagem ao Dazai, este, então, no auge. Mishima, decidido, foi até Dazai, que estava cercado de amigos e admiradores, e, supostamente, disse algo nas linhas de: eu não dou a mínima pros seus livros. Dazai ouviu e se pôs a rir. Então disse para os que o cercavam: este aqui me ama. E todos riram. Menos Mishima. Reza a lenda que, muitos anos depois, Mishima, já amadurecido – Dazai já morto (morreu no mesmo ano da tal festa) -, antes de cometer seppuku, recontou essa história aos que o acompanhavam naquele momento final.

Andei lendo uns livros aí… #2

O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro – Sérgio Sant’anna [1982]

13833_gg1

Um dos livros mais aclamados de um dos meus escritores favoritos. Essa foi uma leitura que não tinha como dar errado, e já está entre as melhores desse ano – não pretendo fazer lista. É difícil resumir um livro que tem de tudo. É uma coletânea de contos, logo já se sabe que é Sérgio no seu habitat natural e tudo pode acontecer. Os textos têm aquela voz distinta do autor que, ao mesmo tempo, quase nunca se repete. As obsessões dele estão todas lá – o sexo, a arte, a escrita, o futebol -, mas sempre apontando algo novo, entre a ficção e a biografia, a narrativa e o ensaio, o formal e o coloquial. Um clássico da literatura brasileira escrito por um dos melhores autores vivos.

Leia um trecho: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13833.pdf

Pé do ouvido – Alice Sant’anna [2016]

14071_g

Que inusitado eu falando de um livro no mesmo ano do seu lançamento. E mais, essa autora estava na primeira edição do “Andei lendo uns livros aí…”. Não podia ser diferente. Tendo lido Rabo de baleia, anterior da autora, quando fiquei sabendo desse lançamento, corri atrás. Não é uma coletânea de poesias, mas uma poesia só, longa (o livro tem 64 páginas), dividida em duas partes, a segunda como um epílogo. Assim como Rabo de baleia, Pé do ouvido trata, com leveza e imagens vívidas, de viagens (uma só, ao Japão, e a poesia da Alice carrega traços da poesia japonesa, sem metáforas, só imagens diretas), solidão, relacionamentos. A poesia da Alice captura imagens e sons ao redor como uma câmera e filtra tudo ao seus estilo, insere na história que a poesia conta, forma uma grande sequência sensorial de momentos e memórias.

Trecho: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/14071.pdf

A história dos meus dentes – Valeria Luiselli [2013/2015/2016*]

9788556520159

Queria tanto ter gostado mais desse livro. Porque não é ruim. O método de criação é inventivo. Foi feito como literatura de folhetim para os trabalhadores de uma fábrica – vocês podem pesquisar mais sobre o método, a história da criação do livro é bem interessante, talvez mais do que o livro em si – que participaram do desenvolvimento de enredo. A história, sobre a vida do melhor leiloeiro do mundo, Estrada, é divertida, leve. A prosa tem seus momentos. Mas o livro nunca me prendeu de verdade por nenhuma de suas características. Nada me chamou atenção. Li aos poucos, intercalando com outras leituras melhores. Não é um livro ruim, mas ou não é pra mim ou li no momento errado. Pretendo acompanhar o trabalho da autora, inclusive ler o outro livro que ela tem publicado – saber escrever ela sabe -, mas só indico esse para quem ler a sinopse e se interessar muito.

Sinopse (site não oferece trecho): http://www.objetiva.com.br/livro_ficha.php?id=1649

*2013 foi o ano de publicação do livro original, em Espanhol. 2015, em inglês, e a autora mudou um pouco o livro, acrescentando trechos aqui e ali, em parceria da autora com a tradutora. 2016 chegou ao Brasil, mesclando a edição original com a americana, para deixar o livro o mais completo possível.

Não foram todos os livros que li entre a primeira e a segunda edição dessa coluna, mas são os mais recentes, e as leituras que me achei capaz de falar um pouco sobre.

Antes de terminar a postagem, vou fazer uma coisa que nunca faço e indicar a quem estiver aqui que leia um conto meu, caso não tenha lido ainda. É um conto que escrevi faz tempo, mas foi um dos primeiros que escrevi com confiança. É raro que alguém comente nesse blogue, mas seria bom saber o que vocês acharam desse texto. Senão por comentário aqui, mande um e-mail, um sinal de fumaça, o que acharem melhor. Meios não faltam. Estou linkando a parte 3 – última -, porque ela tem os links pras outras duas partes:

https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/07/27/confissao-no-quarto-219-parte-3-final/

Espíritos de Gelo – Raphael Draccon [2011]

Postado originalmente em 24 de fevereiro de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/02/espiritos-de-gelo-raphael-draccon-2011.html

Truman Capote costumava separar autores entre os que escreviam e os que digitavam – ou seria datilografavam, na época? -, de um lado aqueles que se esforçavam pra desenvolver um estilo e moldar frases cuidadosamente, do outro aqueles que só batiam palavras em sequência pra de alguma maneira inventar uma história. Verdade que, quando disse isso, Capote se referia a Jack Kerouac, o que foi injusto, visto que Kerouac, embora usasse vírgulas e adjetivos excessivamente, tinha uma poética e ritmo próprios. Em Espíritos de Gelo, Raphael Draccon – um dos autores da minha lista de leituras em busca de compreender a literatura brasileira contemporânea -, não escreve, digita; creio eu que com os pés.

Começa com o protagonista sem nome, mas que apelidarei de Narciso, acorrentado em uma sala suja, escura e misteriosa. Ele é interrogado por um baixinho vestido com uma camiseta do Black Sabbath – sem nenhum motivo aparente, só uma das milhões de referências gratuitas do livro – que comanda dois torturadores vestidos com trajes sadomasoquistas – sem motivo também, só mais uma referência, dessa vez ao Gimp, de Pulp Fiction, provavelmente.  Eles encontram Narciso em uma banheira de gelo, com um rasgo no abdômen, e o levam pra ser torturado porque eles precisam saber o motivo de ele estar naquela situação. O problema é que ele não se lembra. Os três patetas decidem que a amnésia foi causada por trauma e só outro trauma maior pode reativar essas memórias tão importantes. Gostaria, então, de dramatizar aqui como o baixinho descobre a primeira informação:

Baixinho: acho que você não gosta de mulher.
Narciso: gosto sim!
B: não sei, tô achando que tu é viado.
N: não sou.
B: é sim
N: sou não!
B: é sim.
N: sou nããão!!!
B: é sim.
N: sou não! Eu tenho namorada e o nome dela é Mariana e ela é mais bonita que todas as mulheres que você já conheceu, tá?, seu arrombado!!!

Tá certo, eu inventei esse diálogo – exceto pelo arrombado -, mas a ideia é a mesma. E o pior, o protagonista tem 27 anos – eu acho, minhas memórias desse livro estão sumindo iguais as de Narciso, deve ter sido trauma da leitura.

Falando em Narciso, vamos tentar definir esse cara. Ele teve um pai distante, mas isso não abalou sua criação, muito embora o fato dele ter tocado umas na adolescência ouvindo os gemidos das mulheres com quem seu pai transava seja um caso freudiano – essa possibilidade de distúrbio nunca é aprofundada pelo autor, mas por si só já é uma premissa melhor que a do livro.  Conforme ele foi crescendo, foi se tornando um playboy padrão, indo pra academia, gastando dinheiro do papai, fodendo todas as mulheres do mundo etc. Aí o pai morreu, os negócios não especificados do pai – sabe como é esse mundo dos negócios genéricos feito exclusivamente pra criar personagens ricos sem nunca ter que explicar a fonte da riqueza – são passados pra ele, mas ele é moleque e não conseguiu aguentar a pressão. Até aí tá mais pra uma premonição do futuro do Thor Batista, menos o atropelamento/assassinato.

Se você ler o livro, vai ver que Narciso é possessivo, por vezes machista, infantil, sem graça – apesar de tentar e muito ser engraçado, voltarei nesse ponto mais tarde – e um babaca completo; o pior disso tudo, não acho que intencionalmente. Talvez o protagonista tenha sido moldado pra incomodar um pouco (se machistas, infantis, sem graça, existem, eles podem ser retratados na literatura), mas acho difícil que o objetivo fosse “intragavelmente desagradável”. Sem falar que o apelido que dei a ele não foi sem motivo, o cara é obcecado com ele mesmo. Mas, apesar de se amar, é extremamente inseguro, seja ficando irritadinho sempre que insinuam que ele é gay ou deixando bem claro que não reparou nos homens ao descrever determinada cena, seja quanto a sua relação com Mariana.

Raphael Draccon simplesmente não consegue criar uma voz pro seu personagem que condiga com seu estilo de vida. O narrador é ocupado, vive em balada, academia – se gaba da sua própria aparência mais vezes do que recomendado pra um livro em primeira pessoa -, parece se achar um cara genial e vivido, embora essa vivência e genialidade nunca se manifestem em suas ações ou falas. Mesmo com tanto acontecendo em sua vida, ele conseguiu acumular um conhecimento enciclopédico de referências nerds, que ele próprio despreza, já que em determinados momentos, tira sarro desses mesmos nerds. Fica claro que o narrador, por mais que seja em primeira pessoa, é apenas o Draccon falando pelo personagem. Narciso não tem nome, não tem voz própria; pobre Narciso, o fantoche narcisista.

O que me leva a outro problema, o número obsceno de referências à cultura pop. Contei umas três por página, todas extremamente variadas pra saírem de uma mente não-nerd, indo de X-Men a Crepuscúlo, passando por Supernatural, Senhor dos Anéis, e essas são só as diretas. O que torna tudo muito repetitivo já que pra 90% das descrições ele usa o comparativo “como” e geralmente a coisa descrita é comparada a uma referência pop.

Existe uma função pra referência à cultura pop na literatura e em todas as outras formas de arte. A mais comum é aprofundar um personagem, dá-lo gostos, preferências, conhecimento de mundo. Outras vezes pode servir pra auxiliar na criação do mundo, desenvolver uma atmosfera bacana. Espíritos de Gelo não as usa em nenhuma dessas maneiras. A referência à cultura pop nesse livro é pra, pura e simplesmente, forçar uma relação com o leitor. O desavisado lendo o livro esbarra com uma referência que ele conhece ou gosta e, pronto, está feita a identificação. Como o narrador desse livro atira pra todos os lados, obviamente acerta alguém, mas nunca de maneira profunda. Esse é outro problema do uso excessivo de um artifício, com o passar das páginas e toda a repetição, fica batido, previsível e perde a força, até mesmo, de identificação.

Esse não é o único artifício de que Draccon, como qualquer escritor amador, abusa. Ele também gosta de separar frases em parágrafos de sentença única pra enfatizar certas coisas. Mas ele enfatiza algo de relevante?

Não.

Nunca.

Mesmo.

Desse jeito, assim, sem exagero.

Muitas vezes.

Por capítulo.

E.

Os.

Capítulos.

São curtos.

P.

R.

A.

Caralho.

Irrita, não é? Eu sei, também quis jogar a porra do livro pela janela antes de chegar na página 60. Mas eu gastei dinheiro com ele. Pouco, claro. Se o livro custasse muito mais de 10 mangos eu não comprava. Se pelo menos fosse só isso, mas, não, a revisão também é abaixo da média pra uma editora de porte respeitável como a Leya. Erros de vírgula, concordância, ortografia. Todos perfeitamente evitáveis, se o livro tivesse sido lido mais de uma vez pelo editor (entendo, é difícil, mas é o trabalho do cara). Isso sem falar das coisas que não estão erradas, mas estão mal escritas. Muitas vezes me perguntei que porra o editor estava fumando pra deixar certos trechos passarem.

Admito que a coisa começa a ficar interessante quando a história do templo do sexo tântrico começa a se desenvolver. Muitos conceitos poderiam ter sido trabalhados ali, desde o ciúme até a relação entre espiritualidade e repressão sexual. Mas o narrador é um idiota, então nada disso é falado e todo o potencial vai pela descarga, sendo somente arranhado na superfície; e o sexo é narrado numa prosa digna de E. L. James. Só várias releituras de Trópico de Câncer pra me exorcizar dessa desgraça.

Cristo, a estupidez de Narciso é insuperável. Ele atrapalha o andamento da história com seu vocabulário simplório (cheio de “maldito”s e “desgraçado”s, como num filme dublado; leva umas 40 páginas pro autor perceber que ele pode escrever um palavrão sem problema), assim atrapalha toda atmosfera que o livro poderia querer passar ao leitor. Não sei se o objetivo era fazer uma história de terror (não dá medo, principalmente quando o narrador passa a maior parte das cenas de tortura tirando sarro dos torturadores ou fazendo referências nerds durante seu próprio sofrimento), se era comédia (a não ser que sua idade mental seja de 13 anos, não tem graça), ou se era suspense (é previsível).

Não vou dar spoilers. Eu queria. Faria de tudo pra impedir as pessoas de lerem esse livro, inclusive estragar o final. Mas parte do meu código de ética de crítico exige que eu sempre deixe uma brecha pra que o leitor procure o livro e tome suas próprias conclusões, afinal, por mais objetivo que eu ache que estou sendo, o livro não foi feito pra mim, não sou o público-alvo. Talvez você seja, talvez você me ache um filho duma puta por estar escrevendo tudo isso, é seu direito. Eu estou pouco me fodendo pra você, é meu direito. Mas a primeira parte do final (o culpado pelo caso da banheira), eu descobri logo no início. Só não previ o twist à M. Night Shyamalan que ele tirou do cu nas últimas páginas, porque foi uma merda de tentativa de enfiar sobrenatural no livro (porque TERROR!), então não fazia questão nenhuma de ter adivinhado mesmo.

Espíritos de Gelo é um livro amador. Se eu não tivesse feito o dever de casa e pesquisado um pouco sobre o autor antes de fazer a resenha, teria achado que era seu primeiro livro. Na verdade é o quarto, o que só piora as coisas. Faria mais sentido se o livro fosse um primeiro rascunho escrito por um moleque de 15 anos que acabou de ler Stephen King e acreditou que também podia escrever um romance (pegando emprestado inclusive o hábito do King de forçar os finais e estragar tudo – até quando o tudo já não é lá essas coisas). Pra finalizar, um recado: Draccon, não é porque você escreve pra pré-adolescentes, que você precisa escrever como um. Tome nota disso e parta pro seu próximo livro, já que, se Paulo Coelho não parou, parar você não vai.

O Sol Também se Levanta (The Sun Also Rises) – Ernest Hemingway [1926]

Postado originalmente em 3 de dezembro de 2013: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2013/12/o-sol-tambem-se-levanta-sun-also-rises.html

Hoje eu descobri que tem um monte de resenha que eu podia jurar que tinha feito, mas não fiz. Coisa de memória, será? Estou tão velho? Por algum motivo, tinha toda a certeza que, em algum lugar nesse blog, havia um post sobre esse livro. É um dos meus favoritos, se não o próprio, afinal. Vi que não, quando, hoje, por volta do meio dia (meu horário de almoço), vi a nova capa que a Bertrand escolheu para o relançamento de O Sol Também se Levanta, que é o primeiro romance publicado por Ernest Hemingway, em 1926. A capa está no fim do post, assim como meu parecer sobre ela. Sabia que a Bertrand estava pra relançar toda a obra traduzida do Hemingway, mas, tendo visto a capa de O Velho e o Mar, achei que eles iam fazer um bom trabalho – não foi o caso. Esse toureiro aí mais parece o Liberace* versão “El Matador”. Sorte que eu já tenho minhas cópias em edição antiga e que só pretendo comprar os livros que ainda não tenho (assim como uns que já tenho) em edição importada, no idioma original. Mas eu deveria falar do livro por agora, não?

Era uma vez Jake Barnes. Ele é um jornalista americano, expatriado em Paris após a primeira guerra. (Por que Paris? Naqueles tempos, devido à taxa de câmbio, era uma cidade barata para se viver e era onde todas as pessoas interessantes estavam – James Joyce, T. S. Eliot, Picasso, Salvador Dali, Scott Fitzgerald etc. Hoje a situação é outra, a cidade é cara e pessoas tão interessantes já não existem, não nessas proporções.) Ele passa seus dias com os amigos, alguns deles artistas, todos boêmios, bebendo Pernod nos cafés e deixando a vida passar. Jake ama a duas vezes divorciada – informação relevante na década de 20 – Brett Ashley, mas, depois da guerra, ele já não podia demonstrar esse amor. Brett, portanto, é noiva de Mike Campbell, um homem de negócios totalmente quebrado, que sabe que sua noiva o trai com todo mundo, mas não se importa. Exceto quando é com Robert Cohn, um judeu (sim, o livro tem pontas de antissemitismo também), romancista medíocre, mas ótimo boxeador; Mike o despreza – não só Mike – e deixa isso claro sempre que pode, nem sempre com motivo. Em meio a essa tensão sexual, todos eles decidem viajar para Pamplona para assistir a corrida dos touros e para se embriagarem, logicamente. Lá conhecem o jovem toureiro Pedro Romero, o melhor em seu meio e, conforme descrito por Jake, um verdadeiro artista. Romero também se encanta por Brett e a leva consigo. É esse o clima do romance, uma sequência de conflitos reprimidos e, conforme os capítulos avançam, se aproximam de uma explosão.

O Sol Também se levanta é um ícone da literatura modernista. Mínimo em todos os aspectos, o livro definiu o que viria a se tornar o estilo do Hemingway, que o próprio descrevia como Iceberg. A teoria diz que, se um escritor conhece o suficiente de sua própria história, ele não terá o menor problema em esconder a maior parte de seu conteúdo do leitor, e este, por sua vez, se a escrita for de fato sincera, será capaz de sentir todo o conteúdo omitido.

Visto somente pela sua sinopse – ponta do iceberg -, O Sol Também Se Levanta é um livro superficial, sobre gente superficial, gastando suas vidas superficiais em autodestruição. Não é tão simples. Cada personagem representa um fator, e essa discussão já é antiga entre os críticos, na verdade. Jake pode ser o representante da maior “vítima” de seu tempo. Vindo da guerra, sem país e sem esperança, ele é privado até mesmo do amor por culpa de um ferimento, e isso ainda jovem. Todas as coisas que seu governo lhe dissera que viriam se eles ganhassem a guerra, bom, não vieram para ele. Ele apenas perdeu e chegou a um ponto em sua vida em que a vitória simplesmente não estava no horizonte ou sequer lhe era importante. Portanto ele desiste da única forma que realmente vale a pena, vivendo pelo hedonismo. Aproveitando o ambiente e as pessoas ao seu redor sem nunca se envolver com nada, nem consigo mesmo.

Cohn, o desprezado, é o único que não é veterano de guerra, por consequência, o único que ainda mantém algum sinal de idealismo inocente. Ele não é tão esperto, não tem confiança, não tem talento, nem é amado, mas é forte e vive dessa força, apesar de tudo.

Brett representa os valores da época. Representa o caminho para o qual estes pareciam estar se encaminhando e as consequências disso. E ela não é a única que representa isso, Jake, Mike e alguns de seus outros amigos também têm isso dentro deles. Mas Brett é mulher e, novamente, na década de 20, isso era grande coisa. A mulher não é mais a esposa/mãe/enfermeira, e assume uma forma mais “pré-hawksiana” (vindo do tipo de mulher que o diretor Howard Hawks passou a usar em seus filmes, algumas décadas depois desse livro) como mais um dos caras, tão bêbada e promíscua – apesar de eu detestar essa palavra, é a que melhor se encaixa – quanto os homens com quem ela convive. E sem um pingo de vergonha por isso.

O minimalismo da prosa é consequência desse estilo de vida, de certa maneira. A recusa pelos enfeites e pelos padrões estéticos do passado, a desconfiança perante os adjetivos, a brevidade e a velocidade. Tudo comparável à vida da chamada geração perdida, que só por esse nome já diz tudo. Os personagens desse livro, que é um suposto roman à clef (história real, com nomes trocados e só uma pitada saudável de ficção), são trágicos, consequências de tempos difíceis e sem esperança, gente sem adornos e romantismos e, muito menos, idealismos.

*Liberace – o rei do camarote original -,  porque eu sei que vocês não têm idade pra entender a referência do começo do texto. Eu também não tenho, mas minha cultura inútil extrapola os limites do aceitável. Me diz se não parece a foto da capa?
Toureiro: o membro perdido do Village People. Eu juro, vão abrir o túmulo do Hemingway e achar um novo tiro em seu crânio.

Não importa o quanto eu escreva, contudo, esse texto ainda não passa da superfície. O Sol Também Se Levanta é eterno justamente por isso. Pode ser lido várias vezes e estudado, e eu li somente uma vez e não foi ontem. Sei que perdi muita coisa e que em futuras leituras já prometidas eu voltarei a perder tantas coisas novas que eu só vou achar na terceira leitura, mas que nela vou perder ainda outras para uma quarta leitura. É um dos meus livros favoritos, nunca prometi imparcialidade nesse blog, e por isso eu indico a todos que tenham ficado curiosos com a resenha.

Homens sem mulheres (Onna no inai otokotachi) – Haruki Murakami [2015]

homens-sem-mulheres

Muraka, meu velho, já relevei tanta coisa por culpa desse meu apreço pelo seu estilo e suas histórias. Todo o tipo de repetição, frase de efeito e clichê, personagem apático, história sem rumo e saídas sem sentido. Deixei passar, até justifiquei. E sabe qual é a pior? Você era bom. Não li 1Q84, mais de 900 páginas de você, sem tréguas, é muito. Mas li o Incolor Tsukuro et cetera, e você já tinha perdido a mão ali. Faz tempo que quero ler seus contos, só que a Alfaguara não coopera. Primeiro publica um conto avulso como se fosse um livro inteiro (com preço de livro inteiro). Agora publica logo sua coleção mais recente. Não podia ser uma mais antiga, mais atraente, já provada pelos leitores internacionais? Acho que não.

Terminei de ler o livro não faz nem seis horas desde que escrevi a primeira palavra dessa resenha – até chegar ao fim, podem-se passar dias, meses… – e já me esqueci de muito dos dois primeiros contos. Drive my car, e Yesterday, se bem lembro? Dois títulos de músicas dos Beatles, nem um nem outro tão bons quanto Norwegian Wood em nenhum aspecto. No primeiro temos um ator em busca de um motorista. Ele contrata uma mulher jovem, com traços masculinos, silenciosa. Pois é. O conto nem tenta ir pra algum lugar. É só isso. Ou se foi, não foi marcante.

Yesterday ficou mais na minha memória, mesmo que só pouco a mais que o primeiro. É a história de dois amigos de juventude. Um deles, como sempre uma figura exótica, não consegue transar com a namorada por amá-la demais. Pede pra que o amigo o faça, tome o lugar dele como namorado. Alguma coisa assim. Lembra que disse que poderia demorar pra terminar a resenha? Então, meses se passaram desde que esse rascunho nasceu.

Realmente não vale a pena tratar de cada conto individualmente, porque tratam dos mesmos temas: abandono, sexo – daquele jeito Murakami de escrever sexo, nada erótico, meio como uma máquina com algumas peças emperradas -, isolamento, solidão. Esses assuntos típicos e presentes em todos os livros dele. Outra marca registrada: mulher como combustível de ignição para história (surgimento dela, ausência dela, sumiço dela, abandono por ela). Não são esses traços extremamente reciclados da escrita do Murakami que estragam o livro, mas a falta de charme na utilização destes.

O leitor que me desculpe, mas essa é a palavra. A escrita do Murakami nunca foi nada espetacular, ele não é desses que se lê por linguagem. A narrativa, quanto mais dele se lê, mais se repete. O que sempre me faz voltar – e continuará fazendo – às histórias dele me escapa de tal maneira que pode apenas ser descrito como charme. E é isso que falta nessas histórias.

Nem tudo são tristezas. Kino e Scherazade quase compensariam o esforço da leitura total do livro. E Samsa Apaixonado até quase chega lá, não fosse a mão pesada na referência. Acontece que menos de 50% não é o suficiente para aprovar um livro de contos. Mesmo que sempre me doa falar mal de um livro do Murakami, autor um tanto especial para mim, dessa vez a coisa passou dos limites.

Homens sem mulheres é um livro bastante medíocre. Básico na linguagem, repetitivo na narrativa. Talvez, mas espero que não, demonstre cansaço no estilo de Haruki Murakami, já com tantos livros publicados e basicamente a certeza de publicação e venda de milhões nas costas. É triste ver a estagnação daquele que mostrava ser um dos autores mais inventivos do Japão.

Nem fiz questão de jogar o bingo do Murakami com esse livro – isso é uma referência às resenhas postadas no finado blogue, em que consta textos sobre outros 6 (?) livros do autor, em sua maioria mais positivos. Logo esses textos serão postados aqui.