Pombos, Joan Didion, Gatos, Daniel Blake (Filmes #7)

Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência (En duva satt på en gren och funderade på tillvaron) – Roy Andersson [2014]

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Se não fosse a idade de Roy Andersson, diria que ele é o resultado de uma noite de amor entre Lynch e Wes Anderson. Pombo (apelido que darei a esse filme pra não ter que digitar de novo seu título) é quase uma sequência de esquetes. Algumas têm um tema em comum, outras são parte de uma mesma linha narrativa e continuam algo que parece uma história e trazem de volta personagens que se desenvolvem de certa maneira. É difícil dizer de que se trata o filme. Em estilo, a câmera nunca se move e cada esquete é realizada sem cortes. Tem algo de teatral, característica pontuada pela maquiagem branca cobrindo o rosto de algumas personagens. Os temas dos absurdistas vêm à mente. O título é referência à pintura de Pieter Bruegel, Os caçadores na neve, de 1565, em que caçadores são observados por aves pousadas em galhos. A forma que observamos as pessoas nas esquetes transmite a estranheza que um animal de outra espécie teria ao observar os hábitos do ser humano. As maneiras como morremos são destaque nas três primeiras esquetes. Então o filme segue por outros temas. Conhecemos os vendedores de tranqueiras engraçadas (dentes de vampiro – extra longos, sacos de risada, máscaras de monstro) sem ânimo pra vida e com dificuldades financeiras – ninguém quer comprar o que eles vendem e quem compra não paga. De esquete em esquete, o filme mostra os hábitos estranhos do ser humano e os momentos terríveis da história do ser humano – esquetes que incluem testes em animais, e velhos monarcas e escravocratas inseridos no mundo atual. Essa é a terceira parte de uma trilogia que trata justamente disso, da humanidade. Infelizmente não vi as outras partes antes por não saber que esse era o caso. Não significa que eu tenha perdido algo, as histórias dos três filmes são independentes – nem as cenas desse filme parecem relacionadas, que dirá os outros filmes da trilogia.

Joan Didion: The center will not hold (Joan Didion: O centro não se sustentará – tradução não oficial) – Griffin Dunne [2017]

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Já falei aqui o quanto Joan Didion é foda. The center will not hold é um documentário dirigido pelo sobrinho dela que tenta resumir as diferentes fases de sua vida e obra. Estranhei algumas escolhas de edição no começo, esforços modernosos que não dialogaram bem com o conteúdo. Conforme a narrativa avançou, tratando da infância da autora em Sacramento, de sua ida à Nova Iorque, seguida da contratação como redatora da Vogue e seus primeiros passos como escritora, pude ignorar os tropeços iniciais e me deixar levar pela história. O documentário conseguiu manter o tom pessoal que grande parte da obra de Didion tem, mas não se livrou do sentimentalismo com o mesmo sucesso que ela. Fica clara a admiração de Griffin Dune pela tia – também pudera! – e ele acaba não conseguindo se excluir da obra. O bom é que ele não foca só na fase mais recente – pós O ano do pensamento mágico – de Didion e consegue se espalhar bem pela carreira dela sem parecer corrido. Quando, inevitavelmente, o filme toca na história das mortes do marido (John Griffin Dunne) e filha (Quintana) de Joan, ele consegue desviar um pouco da parte coberta pelos livros O ano do pensamento mágico e Noites azuis, e fala de toda a relação entre eles, inclusive as parcerias profissionais de Griffin Dunne e Joan Didion – roteiros de cinema e a maneira como um editava a obra do outro. Faltou a força de Didion no documentário, transmitir a fúria que ela conseguia passar com as palavras, a hostilidade. Deu vontade de ler mais livros dela, logo, foi bom. O documentário foi lançado na Netflix, então vocês crianças podem assistir sem desculpas e depois sair correndo atrás dos livros dela.

Gatos (Kedi) – Ceyda Torun [2016]

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Ai, internet … a internet e sua fascinação por gatos. Não, não é sobre isso que trata o documentário, mas é impossível não relacionar esses fatores. Afinal, Kedi é uma produção do Youtube Red e o Youtube foi o grande responsável pela alta na popularidade dos gatos desde 2007. É difícil crer que o Sr. Google não pensou nisso quando aceitou produzir esse filme. Deixando de lado as graças, este é um documentário sobre os gatos de Istambul. Antes conhecida como Constantinopla, Istambul, por ser cidade portuária, sempre recebeu muitas embarcações, que vinham cheias de gatos pra caçar os ratos que vinham com a mercadoria. Esses gatos saíam pra dar um passeio pela cidade, enquanto a embarcação atracada era descarregada, e quando voltavam a embarcação já tinha partido. Os que chegavam a tempo, voltavam pra casa, os que não, passavam a viver pela cidade, o que era muito bem-vindo, já que a cidade também tinha problema com ratos – o que, então, é traduzido como peste negra. Os séculos passaram, os gatos foram aceitos e se tornaram parte da cidade. Não são tanto animais domésticos, como moradores de outra espécie, assim o documentário os retrata. Foca em alguns deles, seus cotidianos e personalidades. Foca nos humanos que convivem com eles. A cidade, filmada de maneira belíssima, nos é mostrada pelo ponto de vista dos gatos. A câmera, de alguma maneira mística, os segue pelo chão, ao alto dos prédios, passa entre as pernas dos transeuntes, corre e dá saltos como se estivesse presa ao corpo dos bichos – a parte mística é que a câmera não está. O filme é bem mais que só gatos fazendo coisas bonitinhas. Ele trata da relação entre modernidade e natureza, a relação inter-espécies, e ainda, quase sem que se faça notar, joga uma pitada de política aqui e ali.

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake) – Ken Loach [2017]

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Falando em política usada discretamente na narrativa, como tempero, aqui temos seu oposto. Não que o filme seja uma cartilha política … na verdade, mesmo que seja, a narrativa não se deixa atrapalhar por isso, justamente por se tratar de uma questão real. Ok, sinopse seria bom, não seria? Eu, Daniel Blake é sobre – adivinhem … vocês têm três segundos … 3 … 2 … 1 … – Daniel Blake, um carpinteiro de quase sessenta anos, que, por problemas cardíacos, foi impedido de trabalhar. Contudo, a empresa que administra o setor de saúde pública implantou um questionário e, de acordo com seus resultados, Daniel Blake está apto para trabalhar e manda cortar o apoio financeiro que ele recebia do governo. No meio de um inferno burocrático, ele encontra Katie, recém chegada em Newcastle (onde se passa a historia), que também perde seus benefícios por causa de algum detalhe nas regras da empresa. Os dois tentam se ajudar, quase numa relação de pai e filha. Chega uma hora que a situação se torna insustentável para os dois e … chega antes que eu transforme isso aqui no roteiro do filme. É revoltante. Descrevi, anos atrás, Amor (de Michael Haneke, 2013) como um filme de terror, não por assustar, mas por retratar algo que pode ser minha vida no futuro e eu temer muito isso, apesar de ser algo comum. Eu, Daniel Blake faz o mesmo, com outra situação. Mais que um temor pessoal, temo que meus pais passem por isso. Ainda mais na situação em que estamos, acho que todos – “todos” – podem se ver na pele de Daniel ou de Katie, e inúmeros já estão. Odeio dizer que um filme é importante. Parece um adjetivo ausente de significado, um elogio barato. Talvez porque seja. Mas é difícil se ver livre dele, quando tantas pessoas seriam beneficiadas ao ver um filme desses, que, apesar de político, não se entrega a didatismos e moralismos capengas; se revolta, é pela força do relato, não por retórica.

 

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Andei vendo uns filmes aí #6

Mi Amiga del Parque [Minha Amiga do Parque] – Ana Katz (2015)

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Filme argentino pouco conhecido com o qual cruzei pouco após minha viagem, quando estava buscando filmes de lá pra matar a saudade – ou fazê-la mais forte. Nos caminhos do IMDB, encontrei Mi amiga del parque, um longa que não passava de 1 hora e 25 minutos, sobre uma mãe que tem que lidar com a solidão da viagem do marido – documentarista em filmagem no Chile – e faz amizade com uma mulher num parque, supostamente mãe também, ou, pelo menos, sempre está com a mesma criança. Ana Katz dirigiu, atuou no papel da amiga e co-escreveu o roteiro com Inés Bortagaray (escritora uruguaia conhecida por Um, dois e já). O que tem de curto, este filme tem de tenso. Não chama atenção pelo visual, os cenários são bastante simples (quando na cidade, Buenos Aires, quando no parque, Montevidéu) e a câmera não faz mais que acompanhar as personagens. O foco aqui é na atuação e nas personagens, na intensidade de cada uma, no tanto que cada uma consegue passar só com expressões faciais discretas, e no roteiro, formado por mal-entendidos. Permanece por toda a história aquela impressão de que algo grave está pra acontecer. Comecei a ver o filme sem expectativas, achando que seria um suspense comum, e fiquei muito feliz de estar errado. Indico, mas já adianto que não é um filme fácil de achar e, no momento, não existem legendas pra ele disponíveis na internet.

Kong Bu Fen Zi [Terroristas] – Edward Yang (1986)

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Esse diretor foi a minha descoberta do ano. Poucos artistas me afetaram tanto e tão rápido. Tudo começou esse ano ou ano passado, quando esbarrei com um tuíte do Daniel Galera elogiando o filme que vocês verão a seguir. Nunca tinha ouvido falar, mas tava justamente explorando o “novo cinema” taiwanês, que começou na década de 80, gente como Hsiao-Hsien Hou e Ming-Liang Tsai e… adivinhem… Edward Yang, entre outros. Como o filme indicado tinha quatro horas de duração, deixei pra lá até algumas semanas atrás. E, depois de ver o famigerado, precisei ver os outros filmes dele. É aí que Terrorista entra na história. São três linhas narrativas interconectadas. Ao longo de tantas semanas, as vidas dessas pessoas se afetam, dando início a acontecimentos, mesmo sem que um saiba que está afetando o outro e vice-versa. Uma criminosa foge do local em que ela se escondia no momento em que a polícia invade para prender a ela e seu parceiro. Um fotógrafo captura a imagem da garota em fuga e desenvolve uma certa obsessão por ela, que dá fim ao relacionamento  entre ele e sua namorada. Um casal já viu melhores dias, quando a esposa, escritora, se vê desencantada com a escrita, decide terminar tudo e começar uma nova vida. A decisão do divórcio pode ter sido causada por um trote passado pela criminosa, mas talvez não seja só isso. Então as histórias seguem e se cruzam e afetam. É um filme espetacular. Talvez eu esteja me preparando pra escrever mais sobre esse filme e os outros em uma postagem dedicada à obra do Edward Yang depois que eu conseguir ver todos os filmes que eu encontrar? Talvez, mas isso não é uma promessa.

Gu Ling Jie Shao Nian Sha Ren Shi Jian [Um Dia Quente de Verão] – Edward Yang (1991)

Sim, esse foi o filme indicado no tuíte do Daniel Galera. Só não digo que me arrependi de ter levado tanto tempo pra assistir porque acho que vi na hora certa. Quatro horas de duração é muito tempo, pretendia dividir em duas partes (duas horas num dia, o resto no dia seguinte), mas não consegui pausar. Quando vi, passaram 3 horas e eu não estava cansado. Também, pudera, são vários filmes em um, acontecendo ao mesmo tempo – não tem como ficar entediado. Baseado num crime que aconteceu na década de 60 em Taiwan envolvendo adolescentes, esse filme é parte romance adolescente, parte filme de gangster, parte drama familiar, parte suspense burocrático à Kafka, parte história de obsessão amorosa. Aos poucos, o espectador se vê em Taipei, como se vivesse com as personagens. Taiwan que, em 1960, lutava contra a influência chinesa, com auxílio financeiro dos EUA, implantando um policiamento de ideias, principalmente entre intelectuais e os muitos imigrantes chineses refugiados. Os filhos desses imigrantes e crianças e adolescentes taiwaneses que viviam nesse clima de repressão, na busca por identidade, formavam gangues. De início parece coisa de adolescente, mas vai tomando proporções cada vez mais violentas. Tudo isso ao som da influência americana, Elvis, rock ‘n’ roll. De novo, se um dia eu criar coragem de escrever sobre Edward Yang, analiso o filme com mais profundidade. Pra vocês, só posso dizer: assistam.

Gloria – Sebastián Lelio (2013)

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Sim, estou praticando meu espanhol. Gloria é um filme chileno sobre uma mulher de 50 anos, de espírito livre, seguindo a vida após seu divórcio. Os filhos dela já estão criados, então, o que ela quer é continuar com seu trabalho e, nas horas vagas, sair pra dançar. No bar, dançando, ela encontra um homem, dono de um parque de diversões, também divorciado, mas com filhas que dependem dele pra tudo. É um tema tão comum, amor na meia-idade, mas nunca vi tratado dessa forma, com tanta intensidade, sem foco constante no fato de ela estar envelhecendo. Sim, ela vai ao médico e descobre que precisa tratar de um glaucoma, e, sim, o filme mostra a maneira que o corpo já não trabalha mais tão bem quanto costumava, mas é muito sutil, é só um detalhe numa história bem interessante. Paulina García (Gloria) é uma tremenda atriz. Só a performance dela faz o filme valer cada segundo. Parece que Sebastián Lelio lançou outro filme esse ano, Una Mujer Fantástica, até agora bastante elogiado e que quero muito ver. Mais tarde esse ano, ele, igual seu conterrâneo Pablo Larraín ano passado, vai lançar sua primeira produção fora do Chile, em inglês. Só tenho elogios a Gloria. Mesmo quando o enredo se aproximou de um clichê (sempre possível, em se tratando de romances), ele deu um jeito de surpreender e seguir por outro caminho.

 

Andei vendo uns filmes aí #5

LA LA LAND (LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES) – DAMIEN CHAZELLE [2016]

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“Meh.” – Raphael Dias, Delirium Scribens

Até entendo o amor generalizado por esse filme, mas não me pegou. Sinto muito. Sim, é identificável o bastante, todos temos sonhos et cetera et cetera. Sem atropelar o andamento das coisas, o enredo é: moça e rapaz se encontram, no início eles se detestam (porque ele é um babaca a maior parte do filme), mas aí eles insistem até se apaixonarem por motivos de enredo (se havia química entre eles, escapou minha percepção), mas, porque se tudo desse certo não haveria Oscar, reviravoltas ocorrem. Ah, e meio que tem uma música aqui e ali, quando os envolvidos se lembram de que estão fazendo um musical. Esse é meu maior problema com o filme. Não teve um texto sobre esse filme que eu tenha lido que não tenha dito a clássica frase: é um musical, então preparem-se pra cenas em que as pessoas começam a cantar do nada. Isso só acontece em três cenas, no primeiro ato. Depois disso, o filme, por um bom tempo, esquece que é um musical. Falando nisso, o que faz um musical? Músicas memoráveis. Bom, aqui é questão de gosto, mas não lembro de uma música que ouvi neste filme – e olha que tem versos de músicas de musicais que nem vi, mas não consigo esquecer. Não é um filme ruim. É visualmente impressionante – nada inovador, mas bonito e tem momentos brilhantes. Mas não vai muito além. Típico estilo sem substância. Sem falar que cartas de amor a Hollywood já deram no saco, até quando meio irônicas. Só quero cartas de ameaça de morte de agora em diante. Gosto da Emma Stone, acho que ela interpretou bem o papel. Não sei quem foi que deixou o Ryan Gosling cantar, a voz dele só falada já me dá nos nervos – provavelmente a mesma pessoa que escalou Russell Crowe -, e é difícil um ator passar emoção quando ele só tem duas expressões faciais (oposto de Emma Stone, que é feita de borracha – no sentido mais positivo da palavra). Poderia escrever um texto completo sobre isso, pra deixar bem claras cada uma das minhas reclamações, mas não pretendo. Se alguém pedir com jeitinho, quem sabe, mas não faço promessas, até porque não gosto de dar muita atenção ao que não me agrada.

IN A LONELY PLACE (NO SILÊNCIO DA NOITE) – NICHOLAS RAY [1950]

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Fazia tempo que um filme não me deixava ansioso. Não é surpreendente, como alguns suspenses. Mas você fica sem piscar assistindo cada mudança de expressão do Humphrey Bogart. O que me pegou mesmo foi quando eu me dei conta que o final foi “estragado” na primeira cena, qualquer possibilidade de surpresa morre ali, mas, no meio do caminho, com sutileza, o filme me fez esquecer disso, que eu já sabia o final. Vai ficar mais claro se eu não esquecer de passar um mínimo de sinopse pra vocês. Dixon Steele (Bogart) é um roteirista de sucesso, mas em decadência. Uma noite, ela leva uma garçonete pra casa, pra que ela contasse a história do livro que ela havia acabado de ler – que ele devia roteirizar – pra ele. Ela conta a história pra ele, vai embora sozinha e é encontrada morta à beira da estrada na manhã seguinte. Dixon é questionado pela polícia. Não há meios de ele ser culpado, mas a atitude dele convence a polícia de que ele é um assassino. Laurel Gray (Gloria Grahame) aparece como testemunha de que Dixon passou aquela noite em casa. Ela e Dixon começam um relacionamento, até que ela percebe que a agressividade do Dixon é de fato suspeita. Falei demais já. Vejam esse filme. Devia ser mais conhecido, devia ser considerado um desses clássicos obrigatórios. É um noir nada tradicional, apesar de seguir uma estrutura até que básica, perfeitamente construído. Um filme que, se tem defeitos, não reparei.

MOONLIGHT (MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR) – BARRY JENKINS [2016]

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Quero evitar a todo custo falar que esse filme é “importante”. Todos sabem, todos já disseram isso, mas, em 2016, não era pra ser mais. O fato de ninguém nunca ter visto um filme assim até hoje (sobre homossexualidade entre negros nos EUA) é um alerta vermelho pra nossa sociedade – outro. Então, riscando os muitos significados sociais desse filme, porque ele não é só isso, temos um filme quieto e intenso, sutil e prestes a explodir a qualquer momento. É a história de Chiron (Alex Hibbert – criança -, Ashton Sanders – adolescente -, Trevante Rhodes – adulto), filho de uma dependente química, pobre e, mais tarde descobre, homossexual. Acompanhamos um momento em cada uma dessas etapas da vida dele. É tão difícil falar desse filme. Faço questão de deixar de lado a importância porque o filme em si não parece ter consciência disso. Se os envolvidos fossem brancos, seria visto só como uma história pessoal como tantas outros – porque é só isso. Acho que foi isso que mais me marcou no filme, quase como Azul É a Cor Mais Quente, conhecido como um filme de romance entre lésbicas, quando na verdade ele é, em estrutura, um romance dramático como qualquer outro – mais sexualmente explícito, mas, fora isso, igual. A história é contada quase sem diálogos, as emoções são trancadas, escondidas, mas estão ali sempre e prestes a explodir – e de fato explodem em algumas cenas. Um filme marcante.

KÔHÎ JIKÔ (CAFÉ LUMIÈRE) – HSIAO-HSIEN HOU [2005]

Quase não é um filme. É assistir um trecho da vida de uma pessoa. Nesse caso, Yôko, uma escritora japonesa pesquisando a vida de um compositor taiwanês. Devido à pesquisa, ela viaja muito pra lá. Ela engravida do namorado taiwanês, mas não tem intensão de casar com ele ou cobrar a presença dele como pai – na verdade, prefere distância. Os pais dela estranham, mas são obrigados a aceitar, porque a vida é dela e ela é independente. Ela tem um amigo que ajuda ela na pesquisa. Ele gosta de ir às estações de trem gravar os sons das coisas de lá – dos trens chegando, das pessoas, dos anúncios.  E depois de quase duas horas, o filme para. Não acaba, só para de acontecer. Mesmo assim, gostei demais. Queria poder explicar, mas acho que já botei na minha cabeça que, em se tratando de filme, é melhor não encucar com essas bobagens de significado. É como eu disse, um pedaço da vida de Yôko, que nós temos a chance de assistir. Não é pra todo mundo. Mas se essa descrição acima te interessa de qualquer maneira, veja. A trilha sonora é maravilhosa (vivo esquecendo de buscar o nome do compositor taiwanês pra saber se é dele mesmo), cada cena é uma fotografia, e as atuações te convencem a ponto de você achar que nada ali é atuação, foi uma equipe de gravação que surgiu na vida daquelas pessoas e começou a filmar.

A poesia do banal

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Falando do filme Paterson – dir.: Jim Jarmusch [2016]

É redundante dizer que estava ansioso pra assistir Paterson, o novo filme do Jim Jarmusch, desde que ele foi anunciado, porque eu estou sempre ansioso pra ver algo novo dele. Poderia ser um vídeo caseiro gravado no natal, algo de interessante sairia. Mas havia algo a mais neste atual. Ele é sobre poesia – ok, mais exatamente sobre um motorista de ônibus que escreve poesia, mas eu insisto que poesia é o combustível que move o filme -, e pode se dizer que poesia sempre esteve nos filmes do Jarmusch (Dead Man, com o protagonista chamado William Blake e a estrutura que mais lembra estrofes rimadas, Ghost Dog, ritmado pelo rap, Stranger than Paradise e Down by Law, com a poesia improvisada do jazz, a poesia das repetições e desencontros dos muitos cenários e das diferentes culturas em Mystery Train e Night on Earth, a poesia da solidão e da busca pelo tempo perdido em Broken Flowers, a poesia do amor, da dualidade e do cosmos, do tempo e da eternidade, em Only Lovers Left Alive), mas Paterson parece o resultado, a poesia final, de todas essas tentativas/esboços anteriores.

Só que, principalmente, depois de tanto tempo ouvindo o diretor falar sobre poesia ou do passado dele envolvendo essa arte, um filme como esse parecia inevitável, e, ainda, não parecia ser lançado. Ele foi aluno de Kenneth Koch, um dos poetas mais representativos da escola de Nova York, e estudou e conviveu com muitos poetas desse cenário, incluindo Ron Padgett, que escreveu todos os poemas usados no filme, com exceção de um que foi escrito pelo próprio diretor. Já tinha ouvido o diretor falar do tanto que gosta de  poesia e suas influências. Inclusive, a participação dele em Bored to Death é falando que ele “escreveu um filme sobre o poeta Frank O’Hara”, e, desde então, esperava por um projeto assim – finalmente chegou.

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Ao finalmente conseguir ver o filme, tive a impressão de que ele foi feito pra mim. É uma ilusão, claro, mas me atingiu em cheio: a história, a poesia, cada cena e detalhe. Tanto que já quero ver outra vez. E quero escrever sobre ele aqui. O problema é que nenhum de vocês, estranhos (uns mais estranhos que outros) silenciosos que deixo que me bisbilhotem, provavelmente, viu esse filme ainda, o que me “força” (é um esforço voluntário, saibam bem disso, porque quero que aqueles de vocês que decidirem ver o filme depois de ler o texto o aproveitem tanto quanto; nada me impediria, de fato, de fazer uma análise aprofundada do filme e estragar toda a experiência dos leitores aleatórios que esbarrarem com esse site – gosto só de alguns de vocês, a maior parte nem conheço, e há de ter alguém por aí de que eu não goste) a não escrever nada muito revelador sobre o enredo ou coisa assim. Chato, né? Pois é, mas vamos ver no que dá.

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Um motorista de ônibus chamado Paterson (Adam Driver, que, depois de Girls, Frances Ha, Inside Llewyn Davis e Star Wars, tá se mostrando um dos atores mais versáteis atualmente), que vive na cidade de Paterson, Nova Jersey,  mantém um caderno de poesias e uma rotina confortável pra ele. Acorda de manhã e faz algum gesto de carinho para com sua parceira, Laura (Golshifteh Farahani, grande atriz iraniana, daquelas com excesso de talento, que deviam ter compartilhado um pouco, e linda a ponto de roubar os globos oculares do espectador em cada cena), toma café e vai dirigir seu ônibus, sempre observando, pensando poesia, escrevendo nos intervalos. Terminado o expediente, janta, passa um tempo com Laura, leva Marvin (o bulldog inglês interpretado pela Nellie, cachorra simpática demais, descobri que outra vítima de 2016…) pra passear e para no bar pra uma cerveja. Volta pra casa, dorme e faz o mesmo no dia seguinte.

Enquanto isso, Laura, que, apesar de compartilhar nome com a musa de Petrarca, é muito mais que só uma musa, vive de forma vibrante e criativa, um verdadeiro espírito livre. Ela cria projetos, cria arte nos objetos da casa e nas suas roupas e em si mesma, descobre coisas novas pra aprender. São, de certa forma, opostos em atitude, Paterson e Laura, mas que se compreendem, se aceitam e se incentivam. Chega ao ponto em que eu acredito que Jarmusch descobriu o que é o amor, porque, depois de Only Lovers Left Alive e Paterson, dá pra ver que ele pelo menos entende o problema da convivência e tem sucesso em demonstrar soluções, mesmo que fictícias, pra ele.

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Todos os críticos e seus estagiários fizeram questão de apontar o quão interno o filme é, mas acho que isso ainda pode ser destacado um pouco mais. Paterson é um filme cheio de sutilezas, como é de se esperar do diretor, muitas coisas são apresentadas e perguntas são feitas, mas são raras as vezes em que o filme prende as ponta soltas ou responde as perguntas. Na verdade, o espectador é incentivado a abraçar a dúvida e deixar de lado a compreensão. Por exemplo, na primeira cena, vemos a foto de Paterson com uniforme do exército. Surgem perguntas: ele viu a guerra? esteve lá? quanto sofreu durante ela? viu mortes ou teve que matar? se recuperou dos traumas? Respostas são sugeridas, mas é coisa da cabeça de quem vê, porque nada é dito, nem a presença da personagem no exército é dita. Algumas de suas ações demonstram disciplina, outras mostram possíveis traumas ou agressão internalizada, mas fica por isso mesmo, no campo da teoria.

As respostas, se você é um leitor acostumado a filmes que respondem, não importam e é bom entrar nesse filme ciente disso. É um poema (bom, é poético, porque não é um poema, é um filme, mas é bom, nesse caso, diminuir as fronteiras que separam esses meios), e já dizia e. e. cummings, não é necessário entender um poema para apreciá-lo, acho que era isso que ele dizia, ou coisa parecida. Como o poema que Paterson lê para Laura, de William Carlos Williams (habitante de Paterson, que escreveu todo um livro de poesias sobre Paterson): Isso é só pra dizer – Eu comi/as ameixas/que estavam no/refrigerador—e que/você provavelmente estava/guardando/pro café da manhã—Me perdoa/elas estavam deliciosas/tão doces/e tão frias – esse poema era só um bilhete deixado, talvez, pra esposa, pra pedir desculpas por algo que aconteceu mesmo. O filme todo é como um diário, uma série de notas. Os dias-estrofes são mínimos, repetitivos, ações rimam umas com as outras, anedotas se formam na segunda e se completam na sexta, e o espectador acompanha, entra na vida fictícia que se apresenta ao seus olhos, lê e interpreta livremente os acontecimentos, inventa respostas, risca as respostas erradas, se deixa levar, como quando se lê uma poesia.

Como que eu vou terminar esse texto sem falar mais do que deveria sobre o filme. Parece que já escrevi tudo que poderia escrever, sem fazer disso uma análise profunda demais – o que estragaria o filme pra vocês e pra mim. Acho que posso dizer que, tendo visto o filme duas vezes e ansioso pra ver pela terceira vez, revivi meu caderno de poesias. Já escrevi umas coisas. Não quero postar nem mostrar pra ninguém, por algum motivo. É meu pequeno projeto poético sem finalidade.  Depois do almoço, no tempo que ainda tinha até voltar pro trabalho, dei uma caminhada rápida e sentei numa praça, abri o caderno e rabisquei umas ideias, coisas que tavam na cabeça. O filme serviu pra isso, é o que eu quero dizer, me afetou dessa maneira ao me mostrar essas pessoas fictícias que poderiam ser reais (e foram, William Carlos Williams era pediatra, Frank O’Hara era curador de arte, dezenas de poetas foram professores de mais que só literatura) vivendo, não de arte, mas ainda assim vivendo por ela. Poetas, artistas visuais, músicos, o que for, como identidade secreta. Paterson, Laura, Carlos Williams, O’Hara eram o que queriam ser, tiveram o privilégio de viver além do que eles faziam. Acho que foi isso que Paterson me inspirou a fazer. Recebam vocês, também, um caderno em branco para fazerem o mesmo. A-ha.

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Andei vendo uns filmes aí #4

MONKEY BUSINESS [OS QUATRO BATUTAS] – NORMAN MCLEOD (1931)

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É, crianças, cês achavam que os estagiários de hoje que traduziam mal os nomes dos filmes americanos. Isso é porque cês não conheceram os estagiários de outrora. Por isso vou me referir ao filme por Monkey Business. Um bom título? Não. Mas serve. Esse é o segundo filme dos irmãos Marx que eu vejo. Ando num humor pra esse tipo de comédia. A velocidade dos diálogos e os jogos de palavras me fazem pensar que talvez essa tenha sido a era de ouro do humor. Sem querer ser desses chatos que acham que tudo que é velho é melhor, só não vejo esse domínio linguístico nas comédias hoje, só fórmulas. Sobre o filme em si, não há muito que se dizer. Os irmãos Marx (Groucho, o malandro de fala rápida; Chico, o “vigarista” de sotaque italiano; Harpo, o mudo com coração de criança; e Zeppo, o galã que serve de gancho pras piadas, mas não tem papel cômico) são clandestinos em um cruzeiro de luxo, e isso basta pra que comédia aconteça. Os enredos dos filmes dos irmãos Marx não poderiam ser mais finos, mas não importa porque não é o objetivo dos filmes contar uma história, mas fazer rir. Aí que fica a magia do filme, no texto hilário, rápido, cheio de manobras linguísticas. Aqui está meu porém, por mais que queira indicar pra todos esse filme, tenham consciência que legendas em português podem atrapalhar muito. Longe de mim dizer que é necessário fluência em inglês pra ver um filme, mas, nesse caso, não consigo imaginar como funcionaria de outro jeito. Muitas falas são traduzíveis, mas sem graça quando traduzidas. Comédia é difícil de traduzir, principalmente uma tão movida por linguagem. Sim, tem a comédia física, especialidade do Harpo, mas não segura o filme, por mais incríveis que sejam certas cenas. Fora esse detalhe, ver a influência do teatro de revista no cinema dos Marx é outro grande atrativo. Tem um pouco de tudo, música, comédia, teatro, interpretação. Os quatro eram artistas bastante completos. Verdade, Zeppo é bem secundário, mas tem seu espaço – e, reza a lenda, fora do palco ele era o mais engraçado dos irmãos. Esse é um dos melhores dos filmes deles, e cada um deles é peça essencial da história da comédia.

LES VACANCES DE MONSIEUR HULOT (AS FÉRIAS DO SR. HULOT) – JACQUES TATI (1953)

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Terceiro dos quatro longas de Jacques Tati (com o Senhor Hulot) que vejo. Fiquei sabendo só depois que a versão que estava vendo era a antiga e hoje foi lançada uma estendida. Fez sentido, porque algumas cenas pareciam mal conectadas, o que é estranho pra um filme do Tati, conhecido pela mágica do ritmo, do posicionamento em cena e da edição. Enfim, ainda assim tem cenas que impressionam só pelo fato de terem dado certo. Sei que estou escrevendo como se vocês soubessem do que eu estou falando, mas já escrevi bastante sobre o Tati aqui, não é responsabilidade minha você não ter visto. (Agora pelo menos lê isso até o final antes de clicar no link. Eu sei que você quer clicar, mas juro que ele não vai a lugar nenhum.) Sobre o filme, como no caso dos Marx, o enredo é rasíssimo. Senhor Hulot (meu ídolo, a pessoa que eu quero ser quando crescer) sai de férias e passa como um furacão pela vida dos outros turistas, atraindo o ódio de uns, o interesse de outros e o amor de outros. Hulot é uma figura genial, todos deveriam carregar um pouco dele dentro de si. Tem uma certa inocência no tom da comédia dele que nunca fica idiota ou ingênua demais. Na verdade, personagens como o jovem que o tempo todo aparece repetindo pros outros máximas revolucionárias, mas nunca é ouvido, e que todos veem como um chato, mostra que o filme é bem idealista. Considerando que é de 1953, ele é bem a frente do seu tempo. De um lado, tem o militarista idoso e conservador, do outro o jovem revolucionário e livresco. Essa dualidade carregou a política da França por todo o pós-guerra até a revolução de 1968. Hulot é o homem comum, leve, cansado, que, inconscientemente (seja por meio de suas ações ou pela forma que os outros reagem às suas ações) demonstra que nem um nem outro está de todo certo. Que o melhor é viver a vida de maneira aberta, sem vergonhas e inibições, fazer o que se tem vontade. Senhor Hulot, como seu sucessor, “Senhor” Bean, é um anarquista, de certa forma. Acho que é por isso que eu o admiro tanto. É um belo filme. Sugiro que, caso nunca tenha visto um filme do Tati, comece por esse e siga cronologicamente. Só ficam melhores.

THE WITCH: A NEW-ENGLAND FOLKTALE [A BRUXA] – ROBERT EGGERS (2015)

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Vi esse filme faz bastante tempo, mas nunca consegui o encaixar numa postagem. Decidi o colocar nessa só pelo contraste (duas comédias antigas e clássicas, um “terror” contemporâneo). A Bruxa chamou atenção em seu ano de lançamento por ser totalmente diferente de todos os filmes de terror hoje em dia. E, de fato, ele parece quebrar, um por um, os padrões e clichês do gênero. Não há sustos, violência gráfica (não deixa de perturbar só por isso), cortes rápidos, quase não há música, com exceção de ruídos breves que quase se mesclam ao resto da atmosfera do filme. O mais impressionante pode ser o trabalho de pesquisa que construiu A Bruxa. Foi baseado em documentos oficiais da época, inclusive ele é todo em inglês antigo, por isso bem difícil de entender sem legendas (anotem isso). Ouvi reclamações sobre a atuação por causa da dificuldade do diálogo, mas não concordo – pelo contrário, principalmente as crianças. Mas não é bom que eu escreva muito sobre esse filme. Muito da experiência depende da surpresa. Quanto menos você sabe, melhor fica. Na verdade, talvez já tenha escrito muito. Sobre o enredo em si, basta que eu diga que o objetivo do diretor era escrever um pesadelo Vitoriano, no meio da caça às bruxas. Mais que isso, da minha parte, só resta falar um pouco do meu amor por um certo bode  preto chamado Black Phillip. Quero um bode preto de estimação. O animal aparece pouco, mas rouba a cena. Pronto. Não digo mais nada. Só, pra terminar:

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Andei vendo uns filmes aí #3

Já repararam que a primeira edição dessas postagens tá vazia? Eu só vi agora. Nem sei o que tinha nela pra poder refazer. Prefiro acreditar que não postei um troço vazio por acidente e esqueci. Bem, essa é a terceira edição, mas a primeira não existe, então é a segunda… pois é, acidentes acontecem. (Não vou apagar a primeira edição – a vazia – e mudar os números, fingindo que nada aconteceu.)

TÔKYÔ MONOGATARI [ERA UMA VEZ EM TÓQUIO – YASUJIRÔ OZU (1953)

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Este senhor simpático tinha só 40 e poucos anos na época das filmagens desse filme. Pois é, nem maquiagem pra envelhecer precisou.

Considerado a obra-prima do Ozu, que é um dos principais diretores japoneses, tem algo em histórias sobre velhice que me atinge de modo mais profundo. A última vez que estive à beira das lágrimas por causa de um filme foi em Amor (Michael Haneke, 2012), e agora com esse – raridade das raridades -, notem a semelhança temática. Um casal de idosos vai visitar os filhos em Tóquio, depois de muito tempo sem vê-los. Todos já são adultos – um, inclusive, morreu na guerra, mas os idosos vão visitar a esposa dele -, ocupados com suas carreiras e filhos próprios. Solitários numa cidade grande demais, o casal se sente isolado e incômodo, até que pedem pra voltar. A premissa não podia ser mais simples, mas trata de tantos temas e de maneira tão sutil que é errado dizer que é só isso, mas é difícil explicar o que é que há de mais. Por sorte os japoneses têm a expressão exata pra coisa – a cerca de todos os filmes do Ozu tratam: mono no aware – mais ou menos, o pathos das coisas, aquele sentimento de melancolia perante a passagem do tempo. Essa melancolia não vem puramente da ansiedade, nem é pura tristeza que se sente com a passagem inevitável, é só reconhecimento. O filme é puro mono no aware, como o é aquilo que o espectador sente durante toda a narrativa.

TODO SOBRE MI MADRE [TUDO SOBRE MINHA MÃE] – PEDRO ALMODÓVAR (1998)

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Ou Tudo sobre as coisas horríveis que acontecem ao redor de minha mãe. Almodóvar é conhecido pelos enredos fortes e dramáticos, pude ver em A pele que habito. Mas não esperava tal sequência de coisas horríveis como em Tudo sobre minha mãe. Um pouco do enredo: uma mulher, depois de perder o filho, vai à Barcelona encarar uns fantasmas, e acaba se envolvendo em histórias curiosamente entrelaçadas – na minha opinião, coincidentes demais, mas deixa pra lá -, uma mais trágica que a outra. Em mãos de atores incompetentes, este melodrama não seria mais que uma telenovela barata. Graças a força do elenco e a capacidade da direção do Almodóvar, os problemas do enredo nunca chegam a atingir o filme, na verdade, se tornam completamente acreditáveis, plausíveis, mesmo reais. Fui positivamente surpreendido por esse filme. Admito que lia as sinopses dos filmes do Almodóvar e, conscientemente, os negligenciava, os via como muito melodramáticos – com uma parcela de razão -, mas fui injusto e quero me retratar. Não pretendo fazer uma escavação filmográfica, mas, quem sabe, uma leve exploração mais profunda, só pra saber que mais eu encontro nesse mundo terrível e colorido dele.

IL SORPASSO [AQUELE QUE SABE VIVER] – DINO RISI (1962)

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Dentre os cineastas clássicos italianos (Fellini, Antonioni, Bertolucci, de Sica, Visconti, Rossellini etc.), Dino Risi é um nome que demora a figurar nas listas, mas parece tão importante quanto. Il Sorpasso, ao menos, foi o filme mais surpreendente que vi nos últimos anos. Falo como se fosse novo, mas é uma pérola perdida, só recentemente adotada pela Criterion para nova apresentação. É um road movie típico, que, inclusive, parece ter um quê de On the Road, com seu protagonista porra-louca carismático feito um Dean Moriarty rico e, claro, italiano, mas com o mesmo lado golpista e quase sociopático. Este louco, viajando de carro, cruza com um jovem estudante de direito, tímido. De início, o louco só quer usar o telefone do jovem, logo os dois estão viajando juntos pelo interior de Roma e da Toscana, formando um frágil laço de amizade e, por que não?, uma intimidade quase paternal. Até que. Esse é um filme sutil em todos os aspectos. Desses que só olhar fixamente pro rosto dos atores já desenvolve tantas camadas na história. Não poderia falar nada mais detalhado sem estragar tudo. Sim, vejam essa festa pulsante sobre amizade e amor, família e liberdade, tão próxima do beat, que mistura bebop e Garcia Lorca, preferencialmente, sem ler nada mais sobre ela.

Norwegian Wood (Noruwei no Mori) – Haruki Murakami (1987)

Mantendo minha proposta de migrar aos poucos o conteúdo do meu finado blog anterior, trago aqui minha resenha de Norwegian Wood, livro de Haruki Murakami, publicado em 1987, junto de breves considerações e comparações com sua adaptação cinematográfica, lançada no Japão em 2011, dirigida pelo vietnamita Ahn Hung Tran. Em primeiro momento, queria trazer para cá os textos palavra por palavra, com exceção de pequenas revisões, tendo em vista que as postagens percorrem um período de 4 anos e minha escrita, assim eu gosto de acreditar, se desenvolveu nesse tempo. Só que passaram quase 4 anos da minha leitura desse livro, como vocês podem perceber pelas datas junto aos links pras postagens originais, logo abaixo.

Não conseguirei resistir a mudar certas partes do texto, rever minha opinião, agora baseado em tudo que sei sobre Murakami e sua obra, principalmente considerando o quanto esse livro foi e ainda é importante para minha formação como leitor e, embora com ressalvas, escritor.Na época que li esse livro, era um leitor sem tanta experiência. Comecei sexta, achei que levaria mais tempo, mas esse livro é incrivelmente rápido, mais ou menos como a vida universitária – não sei se foi o objetivo, mas parabéns ao Muraka por gerar essa impressão, afinal, como ele é famoso por seu ritmo, lhe darei crédito independentemente.

A história é sobre Toru, um jovem universitário. Seus encontros, desencontros, amores, felicidades e tristezas. Ele se apaixona por Naoko, namorada de seu melhor amigo Kizuki, que, por sua vez, se suicida aos 17 anos, formando todo esse quebra cabeças afetivo que é o tema do livro. A música favorita de Naoko é Norwegian Wood, dos Beatles (excelente música por sinal). Toru a ouve, muitos anos depois dos acontecimentos desse livro, em um aeroporto, em versão orquestrada, o que lhe traz todas as memórias de sua juventude. Além de Naoko, Toru se encontra com Midori (que personagem fantástica!), companheira de sala que acaba se envolvendo com ele, complicando ainda mais essa tragédia moderna. Tragédia que, “por coincidência” é o tema de estudos dos jovens – Sófocles, Eurípides, sabe?

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Em geral o livro é sobre perdas. De pessoas, amores, juventude, até a vida. Todo tipo de perda ou, mais exatamente, transição, pois como o narrador define, morte não é necessariamente a perda da vida, mas sim parte dela. Mostra a difícil transição da juventude para a vida adulta, esse período entre os 18 e 20 anos, que, diferentemente da adolescência – que simplesmente acontece -, é uma transição escolhida e, muitas vezes, forçada e confusa, embora necessária.

As referências à cultura pop e o humor sutil e peculiar são os pontos fortes do romance, que fazem com que história não se torne um poço de depressão, até porque o objetivo da história é justamente esse – mostrar que, nesse mundo imperfeito de pessoas imperfeitas em que vivemos, merda acontece, e por mais cruel que isso possa parecer, essa merda deve ser superada. É difícil, mas não há nada que sexo, jazz, uísque e viagens não ajudem a esquecer.

Vamos, então, aos resultados do Bingo de Murakami para Norwegian Wood: ear fetish – dried-up well – cats – old jazz record – train station – precocious teenager – cooking – weird sex (tive problemas para definir o que é estranho para os padrões do autor, mas acho que entendi) – tokyo at night

Passei o livro todo esperando algo desaparecer, mas não aconteceu. Deve ter sido o efeito de “Minha Querida Sputnik”. Tampouco sei o que é um nome estranho para japoneses, por mim todos são esquisitos – tal como Raphael deve ser bizarro pra caralho para eles…

Não importa quanto tempo passe e livros do Murakami que eu leia, esse sempre se mantém como um dos melhores pra mim. Significou bastante na época. Minha visão do estilo do Murakami, hoje´, é outra. Não acho que ele seja tão bom, ou, poderia dizer, que ele tem muitos pontos fracos. Mas esse livro, independente das falhas, tem um charme inigualável. Talvez por ser tão simples. Ajudou muito que, na época da minha leitura, eu fosse um universitário de 21 anos, deslocado socialmente. Não fiquei surpreso quando soube que esse foi um experimento do autor. Quando escreveu esse livro, o nome dele já era conhecido entre os prêmios literários do Japão e os leitores mais interessados na vanguarda. Vendia sempre muito pouco. Então decidiu escrever um best seller com Norwegian Wood. Vale apontar que um best seller no Japão é bem diferente de um no Brasil ou nos Estados Unidos. Murakami tentou ganhar dinheiro e, pouco depois da publicação, viu que vendeu mais de um milhão de copias e que estava prestes a ser publicado no mundo todo.

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Tanto sucesso que até fizeram uma adaptação cinematográfica desse livro, com o mesmo nome. Na verdade, a adaptação é bastante fiel, até demais. Um filme de 2 horas não consegue retratar 350 páginas ou mais sem contar uns pedaços. É aí que o filme peca e por isso não posso indicar pra ninguém fora aqueles que amam muito esse livro e querem um pouco mais – desde que cientes da decepção que virá. A história é a mesma, mas, para que fosse possível a condensar em tão pouco tempo, ela salta no tempo, pula etapas, se despede de personagens que nunca foram apresentadas. Isso faz do filme confuso e mal feito para quem leu o livro, incompreensível para quem não o leu.

O triste é que, claramente, a adaptação foi feita por alguém com conhecimento e gosto pela obra. A fotografia é uma beleza, as atuações não poderiam ter sido melhores, a interpretação visual das personagens – tudo impecável. Mas algum produtor deve ter visto o filme, de início, perfeito, mas com 3 horas de duração, e dito ao diretor: corta essa merda, não quero que tenha mais de 2 horas. Claro que não sei se foi isso que houve. Mas o filme dá a impressão de ter vindo com peças faltando.

O livro, se você quer conhecer esse autor sobre o qual todo mundo fala, indico muito. É a obra perfeita para apresentar um novo leitor ao Murakami. Não é o melhor livro dele, apesar de insistir que ele é especial pra mim, mas é uma história sólida e tocante sobre juventude e seu fim.

Obs.: Isso não vai afetar a nota, pois a culpa é dos tradutores e revisores, mas a edição da Alfaguara vem com três belos erros de concordância, os quais não marquei, mas são bem visíveis durante a leitura. Não prejudica o entendimento, mas é feio pra cacete, viu Alfaguara (Objetiva)!

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