A poesia do banal

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Falando do filme Paterson – dir.: Jim Jarmusch [2016]

É redundante dizer que estava ansioso pra assistir Paterson, o novo filme do Jim Jarmusch, desde que ele foi anunciado, porque eu estou sempre ansioso pra ver algo novo dele. Poderia ser um vídeo caseiro gravado no natal, algo de interessante sairia. Mas havia algo a mais neste atual. Ele é sobre poesia – ok, mais exatamente sobre um motorista de ônibus que escreve poesia, mas eu insisto que poesia é o combustível que move o filme -, e pode se dizer que poesia sempre esteve nos filmes do Jarmusch (Dead Man, com o protagonista chamado William Blake e a estrutura que mais lembra estrofes rimadas, Ghost Dog, ritmado pelo rap, Stranger than Paradise e Down by Law, com a poesia improvisada do jazz, a poesia das repetições e desencontros dos muitos cenários e das diferentes culturas em Mystery Train e Night on Earth, a poesia da solidão e da busca pelo tempo perdido em Broken Flowers, a poesia do amor, da dualidade e do cosmos, do tempo e da eternidade, em Only Lovers Left Alive), mas Paterson parece o resultado, a poesia final, de todas essas tentativas/esboços anteriores.

Só que, principalmente, depois de tanto tempo ouvindo o diretor falar sobre poesia ou do passado dele envolvendo essa arte, um filme como esse parecia inevitável, e, ainda, não parecia ser lançado. Ele foi aluno de Kenneth Koch, um dos poetas mais representativos da escola de Nova York, e estudou e conviveu com muitos poetas desse cenário, incluindo Ron Padgett, que escreveu todos os poemas usados no filme, com exceção de um que foi escrito pelo próprio diretor. Já tinha ouvido o diretor falar do tanto que gosta de  poesia e suas influências. Inclusive, a participação dele em Bored to Death é falando que ele “escreveu um filme sobre o poeta Frank O’Hara”, e, desde então, esperava por um projeto assim – finalmente chegou.

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Ao finalmente conseguir ver o filme, tive a impressão de que ele foi feito pra mim. É uma ilusão, claro, mas me atingiu em cheio: a história, a poesia, cada cena e detalhe. Tanto que já quero ver outra vez. E quero escrever sobre ele aqui. O problema é que nenhum de vocês, estranhos (uns mais estranhos que outros) silenciosos que deixo que me bisbilhotem, provavelmente, viu esse filme ainda, o que me “força” (é um esforço voluntário, saibam bem disso, porque quero que aqueles de vocês que decidirem ver o filme depois de ler o texto o aproveitem tanto quanto; nada me impediria, de fato, de fazer uma análise aprofundada do filme e estragar toda a experiência dos leitores aleatórios que esbarrarem com esse site – gosto só de alguns de vocês, a maior parte nem conheço, e há de ter alguém por aí de que eu não goste) a não escrever nada muito revelador sobre o enredo ou coisa assim. Chato, né? Pois é, mas vamos ver no que dá.

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Um motorista de ônibus chamado Paterson (Adam Driver, que, depois de Girls, Frances Ha, Inside Llewyn Davis e Star Wars, tá se mostrando um dos atores mais versáteis atualmente), que vive na cidade de Paterson, Nova Jersey,  mantém um caderno de poesias e uma rotina confortável pra ele. Acorda de manhã e faz algum gesto de carinho para com sua parceira, Laura (Golshifteh Farahani, grande atriz iraniana, daquelas com excesso de talento, que deviam ter compartilhado um pouco, e linda a ponto de roubar os globos oculares do espectador em cada cena), toma café e vai dirigir seu ônibus, sempre observando, pensando poesia, escrevendo nos intervalos. Terminado o expediente, janta, passa um tempo com Laura, leva Marvin (o bulldog inglês interpretado pela Nellie, cachorra simpática demais, descobri que outra vítima de 2016…) pra passear e para no bar pra uma cerveja. Volta pra casa, dorme e faz o mesmo no dia seguinte.

Enquanto isso, Laura, que, apesar de compartilhar nome com a musa de Petrarca, é muito mais que só uma musa, vive de forma vibrante e criativa, um verdadeiro espírito livre. Ela cria projetos, cria arte nos objetos da casa e nas suas roupas e em si mesma, descobre coisas novas pra aprender. São, de certa forma, opostos em atitude, Paterson e Laura, mas que se compreendem, se aceitam e se incentivam. Chega ao ponto em que eu acredito que Jarmusch descobriu o que é o amor, porque, depois de Only Lovers Left Alive e Paterson, dá pra ver que ele pelo menos entende o problema da convivência e tem sucesso em demonstrar soluções, mesmo que fictícias, pra ele.

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Todos os críticos e seus estagiários fizeram questão de apontar o quão interno o filme é, mas acho que isso ainda pode ser destacado um pouco mais. Paterson é um filme cheio de sutilezas, como é de se esperar do diretor, muitas coisas são apresentadas e perguntas são feitas, mas são raras as vezes em que o filme prende as ponta soltas ou responde as perguntas. Na verdade, o espectador é incentivado a abraçar a dúvida e deixar de lado a compreensão. Por exemplo, na primeira cena, vemos a foto de Paterson com uniforme do exército. Surgem perguntas: ele viu a guerra? esteve lá? quanto sofreu durante ela? viu mortes ou teve que matar? se recuperou dos traumas? Respostas são sugeridas, mas é coisa da cabeça de quem vê, porque nada é dito, nem a presença da personagem no exército é dita. Algumas de suas ações demonstram disciplina, outras mostram possíveis traumas ou agressão internalizada, mas fica por isso mesmo, no campo da teoria.

As respostas, se você é um leitor acostumado a filmes que respondem, não importam e é bom entrar nesse filme ciente disso. É um poema (bom, é poético, porque não é um poema, é um filme, mas é bom, nesse caso, diminuir as fronteiras que separam esses meios), e já dizia e. e. cummings, não é necessário entender um poema para apreciá-lo, acho que era isso que ele dizia, ou coisa parecida. Como o poema que Paterson lê para Laura, de William Carlos Williams (habitante de Paterson, que escreveu todo um livro de poesias sobre Paterson): Isso é só pra dizer – Eu comi/as ameixas/que estavam no/refrigerador—e que/você provavelmente estava/guardando/pro café da manhã—Me perdoa/elas estavam deliciosas/tão doces/e tão frias – esse poema era só um bilhete deixado, talvez, pra esposa, pra pedir desculpas por algo que aconteceu mesmo. O filme todo é como um diário, uma série de notas. Os dias-estrofes são mínimos, repetitivos, ações rimam umas com as outras, anedotas se formam na segunda e se completam na sexta, e o espectador acompanha, entra na vida fictícia que se apresenta ao seus olhos, lê e interpreta livremente os acontecimentos, inventa respostas, risca as respostas erradas, se deixa levar, como quando se lê uma poesia.

Como que eu vou terminar esse texto sem falar mais do que deveria sobre o filme. Parece que já escrevi tudo que poderia escrever, sem fazer disso uma análise profunda demais – o que estragaria o filme pra vocês e pra mim. Acho que posso dizer que, tendo visto o filme duas vezes e ansioso pra ver pela terceira vez, revivi meu caderno de poesias. Já escrevi umas coisas. Não quero postar nem mostrar pra ninguém, por algum motivo. É meu pequeno projeto poético sem finalidade.  Depois do almoço, no tempo que ainda tinha até voltar pro trabalho, dei uma caminhada rápida e sentei numa praça, abri o caderno e rabisquei umas ideias, coisas que tavam na cabeça. O filme serviu pra isso, é o que eu quero dizer, me afetou dessa maneira ao me mostrar essas pessoas fictícias que poderiam ser reais (e foram, William Carlos Williams era pediatra, Frank O’Hara era curador de arte, dezenas de poetas foram professores de mais que só literatura) vivendo, não de arte, mas ainda assim vivendo por ela. Poetas, artistas visuais, músicos, o que for, como identidade secreta. Paterson, Laura, Carlos Williams, O’Hara eram o que queriam ser, tiveram o privilégio de viver além do que eles faziam. Acho que foi isso que Paterson me inspirou a fazer. Recebam vocês, também, um caderno em branco para fazerem o mesmo. A-ha.

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Andei vendo uns filmes aí #4

MONKEY BUSINESS [OS QUATRO BATUTAS] – NORMAN MCLEOD (1931)

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É, crianças, cês achavam que os estagiários de hoje que traduziam mal os nomes dos filmes americanos. Isso é porque cês não conheceram os estagiários de outrora. Por isso vou me referir ao filme por Monkey Business. Um bom título? Não. Mas serve. Esse é o segundo filme dos irmãos Marx que eu vejo. Ando num humor pra esse tipo de comédia. A velocidade dos diálogos e os jogos de palavras me fazem pensar que talvez essa tenha sido a era de ouro do humor. Sem querer ser desses chatos que acham que tudo que é velho é melhor, só não vejo esse domínio linguístico nas comédias hoje, só fórmulas. Sobre o filme em si, não há muito que se dizer. Os irmãos Marx (Groucho, o malandro de fala rápida; Chico, o “vigarista” de sotaque italiano; Harpo, o mudo com coração de criança; e Zeppo, o galã que serve de gancho pras piadas, mas não tem papel cômico) são clandestinos em um cruzeiro de luxo, e isso basta pra que comédia aconteça. Os enredos dos filmes dos irmãos Marx não poderiam ser mais finos, mas não importa porque não é o objetivo dos filmes contar uma história, mas fazer rir. Aí que fica a magia do filme, no texto hilário, rápido, cheio de manobras linguísticas. Aqui está meu porém, por mais que queira indicar pra todos esse filme, tenham consciência que legendas em português podem atrapalhar muito. Longe de mim dizer que é necessário fluência em inglês pra ver um filme, mas, nesse caso, não consigo imaginar como funcionaria de outro jeito. Muitas falas são traduzíveis, mas sem graça quando traduzidas. Comédia é difícil de traduzir, principalmente uma tão movida por linguagem. Sim, tem a comédia física, especialidade do Harpo, mas não segura o filme, por mais incríveis que sejam certas cenas. Fora esse detalhe, ver a influência do teatro de revista no cinema dos Marx é outro grande atrativo. Tem um pouco de tudo, música, comédia, teatro, interpretação. Os quatro eram artistas bastante completos. Verdade, Zeppo é bem secundário, mas tem seu espaço – e, reza a lenda, fora do palco ele era o mais engraçado dos irmãos. Esse é um dos melhores dos filmes deles, e cada um deles é peça essencial da história da comédia.

LES VACANCES DE MONSIEUR HULOT (AS FÉRIAS DO SR. HULOT) – JACQUES TATI (1953)

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Terceiro dos quatro longas de Jacques Tati (com o Senhor Hulot) que vejo. Fiquei sabendo só depois que a versão que estava vendo era a antiga e hoje foi lançada uma estendida. Fez sentido, porque algumas cenas pareciam mal conectadas, o que é estranho pra um filme do Tati, conhecido pela mágica do ritmo, do posicionamento em cena e da edição. Enfim, ainda assim tem cenas que impressionam só pelo fato de terem dado certo. Sei que estou escrevendo como se vocês soubessem do que eu estou falando, mas já escrevi bastante sobre o Tati aqui, não é responsabilidade minha você não ter visto. (Agora pelo menos lê isso até o final antes de clicar no link. Eu sei que você quer clicar, mas juro que ele não vai a lugar nenhum.) Sobre o filme, como no caso dos Marx, o enredo é rasíssimo. Senhor Hulot (meu ídolo, a pessoa que eu quero ser quando crescer) sai de férias e passa como um furacão pela vida dos outros turistas, atraindo o ódio de uns, o interesse de outros e o amor de outros. Hulot é uma figura genial, todos deveriam carregar um pouco dele dentro de si. Tem uma certa inocência no tom da comédia dele que nunca fica idiota ou ingênua demais. Na verdade, personagens como o jovem que o tempo todo aparece repetindo pros outros máximas revolucionárias, mas nunca é ouvido, e que todos veem como um chato, mostra que o filme é bem idealista. Considerando que é de 1953, ele é bem a frente do seu tempo. De um lado, tem o militarista idoso e conservador, do outro o jovem revolucionário e livresco. Essa dualidade carregou a política da França por todo o pós-guerra até a revolução de 1968. Hulot é o homem comum, leve, cansado, que, inconscientemente (seja por meio de suas ações ou pela forma que os outros reagem às suas ações) demonstra que nem um nem outro está de todo certo. Que o melhor é viver a vida de maneira aberta, sem vergonhas e inibições, fazer o que se tem vontade. Senhor Hulot, como seu sucessor, “Senhor” Bean, é um anarquista, de certa forma. Acho que é por isso que eu o admiro tanto. É um belo filme. Sugiro que, caso nunca tenha visto um filme do Tati, comece por esse e siga cronologicamente. Só ficam melhores.

THE WITCH: A NEW-ENGLAND FOLKTALE [A BRUXA] – ROBERT EGGERS (2015)

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Vi esse filme faz bastante tempo, mas nunca consegui o encaixar numa postagem. Decidi o colocar nessa só pelo contraste (duas comédias antigas e clássicas, um “terror” contemporâneo). A Bruxa chamou atenção em seu ano de lançamento por ser totalmente diferente de todos os filmes de terror hoje em dia. E, de fato, ele parece quebrar, um por um, os padrões e clichês do gênero. Não há sustos, violência gráfica (não deixa de perturbar só por isso), cortes rápidos, quase não há música, com exceção de ruídos breves que quase se mesclam ao resto da atmosfera do filme. O mais impressionante pode ser o trabalho de pesquisa que construiu A Bruxa. Foi baseado em documentos oficiais da época, inclusive ele é todo em inglês antigo, por isso bem difícil de entender sem legendas (anotem isso). Ouvi reclamações sobre a atuação por causa da dificuldade do diálogo, mas não concordo – pelo contrário, principalmente as crianças. Mas não é bom que eu escreva muito sobre esse filme. Muito da experiência depende da surpresa. Quanto menos você sabe, melhor fica. Na verdade, talvez já tenha escrito muito. Sobre o enredo em si, basta que eu diga que o objetivo do diretor era escrever um pesadelo Vitoriano, no meio da caça às bruxas. Mais que isso, da minha parte, só resta falar um pouco do meu amor por um certo bode  preto chamado Black Phillip. Quero um bode preto de estimação. O animal aparece pouco, mas rouba a cena. Pronto. Não digo mais nada. Só, pra terminar:

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Andei vendo uns filmes aí #3

Já repararam que a primeira edição dessas postagens tá vazia? Eu só vi agora. Nem sei o que tinha nela pra poder refazer. Prefiro acreditar que não postei um troço vazio por acidente e esqueci. Bem, essa é a terceira edição, mas a primeira não existe, então é a segunda… pois é, acidentes acontecem. (Não vou apagar a primeira edição – a vazia – e mudar os números, fingindo que nada aconteceu.)

TÔKYÔ MONOGATARI [ERA UMA VEZ EM TÓQUIO – YASUJIRÔ OZU (1953)

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Este senhor simpático tinha só 40 e poucos anos na época das filmagens desse filme. Pois é, nem maquiagem pra envelhecer precisou.

Considerado a obra-prima do Ozu, que é um dos principais diretores japoneses, tem algo em histórias sobre velhice que me atinge de modo mais profundo. A última vez que estive à beira das lágrimas por causa de um filme foi em Amor (Michael Haneke, 2012), e agora com esse – raridade das raridades -, notem a semelhança temática. Um casal de idosos vai visitar os filhos em Tóquio, depois de muito tempo sem vê-los. Todos já são adultos – um, inclusive, morreu na guerra, mas os idosos vão visitar a esposa dele -, ocupados com suas carreiras e filhos próprios. Solitários numa cidade grande demais, o casal se sente isolado e incômodo, até que pedem pra voltar. A premissa não podia ser mais simples, mas trata de tantos temas e de maneira tão sutil que é errado dizer que é só isso, mas é difícil explicar o que é que há de mais. Por sorte os japoneses têm a expressão exata pra coisa – a cerca de todos os filmes do Ozu tratam: mono no aware – mais ou menos, o pathos das coisas, aquele sentimento de melancolia perante a passagem do tempo. Essa melancolia não vem puramente da ansiedade, nem é pura tristeza que se sente com a passagem inevitável, é só reconhecimento. O filme é puro mono no aware, como o é aquilo que o espectador sente durante toda a narrativa.

TODO SOBRE MI MADRE [TUDO SOBRE MINHA MÃE] – PEDRO ALMODÓVAR (1998)

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Ou Tudo sobre as coisas horríveis que acontecem ao redor de minha mãe. Almodóvar é conhecido pelos enredos fortes e dramáticos, pude ver em A pele que habito. Mas não esperava tal sequência de coisas horríveis como em Tudo sobre minha mãe. Um pouco do enredo: uma mulher, depois de perder o filho, vai à Barcelona encarar uns fantasmas, e acaba se envolvendo em histórias curiosamente entrelaçadas – na minha opinião, coincidentes demais, mas deixa pra lá -, uma mais trágica que a outra. Em mãos de atores incompetentes, este melodrama não seria mais que uma telenovela barata. Graças a força do elenco e a capacidade da direção do Almodóvar, os problemas do enredo nunca chegam a atingir o filme, na verdade, se tornam completamente acreditáveis, plausíveis, mesmo reais. Fui positivamente surpreendido por esse filme. Admito que lia as sinopses dos filmes do Almodóvar e, conscientemente, os negligenciava, os via como muito melodramáticos – com uma parcela de razão -, mas fui injusto e quero me retratar. Não pretendo fazer uma escavação filmográfica, mas, quem sabe, uma leve exploração mais profunda, só pra saber que mais eu encontro nesse mundo terrível e colorido dele.

IL SORPASSO [AQUELE QUE SABE VIVER] – DINO RISI (1962)

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Dentre os cineastas clássicos italianos (Fellini, Antonioni, Bertolucci, de Sica, Visconti, Rossellini etc.), Dino Risi é um nome que demora a figurar nas listas, mas parece tão importante quanto. Il Sorpasso, ao menos, foi o filme mais surpreendente que vi nos últimos anos. Falo como se fosse novo, mas é uma pérola perdida, só recentemente adotada pela Criterion para nova apresentação. É um road movie típico, que, inclusive, parece ter um quê de On the Road, com seu protagonista porra-louca carismático feito um Dean Moriarty rico e, claro, italiano, mas com o mesmo lado golpista e quase sociopático. Este louco, viajando de carro, cruza com um jovem estudante de direito, tímido. De início, o louco só quer usar o telefone do jovem, logo os dois estão viajando juntos pelo interior de Roma e da Toscana, formando um frágil laço de amizade e, por que não?, uma intimidade quase paternal. Até que. Esse é um filme sutil em todos os aspectos. Desses que só olhar fixamente pro rosto dos atores já desenvolve tantas camadas na história. Não poderia falar nada mais detalhado sem estragar tudo. Sim, vejam essa festa pulsante sobre amizade e amor, família e liberdade, tão próxima do beat, que mistura bebop e Garcia Lorca, preferencialmente, sem ler nada mais sobre ela.

Norwegian Wood (Noruwei no Mori) – Haruki Murakami (1987)

Mantendo minha proposta de migrar aos poucos o conteúdo do meu finado blog anterior, trago aqui minha resenha de Norwegian Wood, livro de Haruki Murakami, publicado em 1987, junto de breves considerações e comparações com sua adaptação cinematográfica, lançada no Japão em 2011, dirigida pelo vietnamita Ahn Hung Tran. Em primeiro momento, queria trazer para cá os textos palavra por palavra, com exceção de pequenas revisões, tendo em vista que as postagens percorrem um período de 4 anos e minha escrita, assim eu gosto de acreditar, se desenvolveu nesse tempo. Só que passaram quase 4 anos da minha leitura desse livro, como vocês podem perceber pelas datas junto aos links pras postagens originais, logo abaixo.

Não conseguirei resistir a mudar certas partes do texto, rever minha opinião, agora baseado em tudo que sei sobre Murakami e sua obra, principalmente considerando o quanto esse livro foi e ainda é importante para minha formação como leitor e, embora com ressalvas, escritor.Na época que li esse livro, era um leitor sem tanta experiência. Comecei sexta, achei que levaria mais tempo, mas esse livro é incrivelmente rápido, mais ou menos como a vida universitária – não sei se foi o objetivo, mas parabéns ao Muraka por gerar essa impressão, afinal, como ele é famoso por seu ritmo, lhe darei crédito independentemente.

A história é sobre Toru, um jovem universitário. Seus encontros, desencontros, amores, felicidades e tristezas. Ele se apaixona por Naoko, namorada de seu melhor amigo Kizuki, que, por sua vez, se suicida aos 17 anos, formando todo esse quebra cabeças afetivo que é o tema do livro. A música favorita de Naoko é Norwegian Wood, dos Beatles (excelente música por sinal). Toru a ouve, muitos anos depois dos acontecimentos desse livro, em um aeroporto, em versão orquestrada, o que lhe traz todas as memórias de sua juventude. Além de Naoko, Toru se encontra com Midori (que personagem fantástica!), companheira de sala que acaba se envolvendo com ele, complicando ainda mais essa tragédia moderna. Tragédia que, “por coincidência” é o tema de estudos dos jovens – Sófocles, Eurípides, sabe?

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Em geral o livro é sobre perdas. De pessoas, amores, juventude, até a vida. Todo tipo de perda ou, mais exatamente, transição, pois como o narrador define, morte não é necessariamente a perda da vida, mas sim parte dela. Mostra a difícil transição da juventude para a vida adulta, esse período entre os 18 e 20 anos, que, diferentemente da adolescência – que simplesmente acontece -, é uma transição escolhida e, muitas vezes, forçada e confusa, embora necessária.

As referências à cultura pop e o humor sutil e peculiar são os pontos fortes do romance, que fazem com que história não se torne um poço de depressão, até porque o objetivo da história é justamente esse – mostrar que, nesse mundo imperfeito de pessoas imperfeitas em que vivemos, merda acontece, e por mais cruel que isso possa parecer, essa merda deve ser superada. É difícil, mas não há nada que sexo, jazz, uísque e viagens não ajudem a esquecer.

Vamos, então, aos resultados do Bingo de Murakami para Norwegian Wood: ear fetish – dried-up well – cats – old jazz record – train station – precocious teenager – cooking – weird sex (tive problemas para definir o que é estranho para os padrões do autor, mas acho que entendi) – tokyo at night

Passei o livro todo esperando algo desaparecer, mas não aconteceu. Deve ter sido o efeito de “Minha Querida Sputnik”. Tampouco sei o que é um nome estranho para japoneses, por mim todos são esquisitos – tal como Raphael deve ser bizarro pra caralho para eles…

Não importa quanto tempo passe e livros do Murakami que eu leia, esse sempre se mantém como um dos melhores pra mim. Significou bastante na época. Minha visão do estilo do Murakami, hoje´, é outra. Não acho que ele seja tão bom, ou, poderia dizer, que ele tem muitos pontos fracos. Mas esse livro, independente das falhas, tem um charme inigualável. Talvez por ser tão simples. Ajudou muito que, na época da minha leitura, eu fosse um universitário de 21 anos, deslocado socialmente. Não fiquei surpreso quando soube que esse foi um experimento do autor. Quando escreveu esse livro, o nome dele já era conhecido entre os prêmios literários do Japão e os leitores mais interessados na vanguarda. Vendia sempre muito pouco. Então decidiu escrever um best seller com Norwegian Wood. Vale apontar que um best seller no Japão é bem diferente de um no Brasil ou nos Estados Unidos. Murakami tentou ganhar dinheiro e, pouco depois da publicação, viu que vendeu mais de um milhão de copias e que estava prestes a ser publicado no mundo todo.

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Tanto sucesso que até fizeram uma adaptação cinematográfica desse livro, com o mesmo nome. Na verdade, a adaptação é bastante fiel, até demais. Um filme de 2 horas não consegue retratar 350 páginas ou mais sem contar uns pedaços. É aí que o filme peca e por isso não posso indicar pra ninguém fora aqueles que amam muito esse livro e querem um pouco mais – desde que cientes da decepção que virá. A história é a mesma, mas, para que fosse possível a condensar em tão pouco tempo, ela salta no tempo, pula etapas, se despede de personagens que nunca foram apresentadas. Isso faz do filme confuso e mal feito para quem leu o livro, incompreensível para quem não o leu.

O triste é que, claramente, a adaptação foi feita por alguém com conhecimento e gosto pela obra. A fotografia é uma beleza, as atuações não poderiam ter sido melhores, a interpretação visual das personagens – tudo impecável. Mas algum produtor deve ter visto o filme, de início, perfeito, mas com 3 horas de duração, e dito ao diretor: corta essa merda, não quero que tenha mais de 2 horas. Claro que não sei se foi isso que houve. Mas o filme dá a impressão de ter vindo com peças faltando.

O livro, se você quer conhecer esse autor sobre o qual todo mundo fala, indico muito. É a obra perfeita para apresentar um novo leitor ao Murakami. Não é o melhor livro dele, apesar de insistir que ele é especial pra mim, mas é uma história sólida e tocante sobre juventude e seu fim.

Obs.: Isso não vai afetar a nota, pois a culpa é dos tradutores e revisores, mas a edição da Alfaguara vem com três belos erros de concordância, os quais não marquei, mas são bem visíveis durante a leitura. Não prejudica o entendimento, mas é feio pra cacete, viu Alfaguara (Objetiva)!

***

Andei vendo uns filmes aí… #2

Enquanto seres humanos se desgastam para postar todos os dias desse mês, cá estou sem postar há quase três semanas. Mas, ei, vi uns filmes. E, puta que o pariu, que filmes. Foram 4 de sexta pra domingo (há 3 semanas, quando comecei a escrever essa postagem), e os 2 de domingo foram daqueles que te fazem lembrar por que o cinema existe e por que é uma arte. Vamos aos culpados:

KAZE TACHINU [VIDAS AO VENTO] -HAYAO MIYAZAKI

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Até o mês passado ou retrasado, nunca tinha visto nada Miyazaki, nem os mais universais. Decidi mudar isso, vi Porco Rosso, e isso me deu vontade de ver todos. Até agora foram 3. Pretendo ver mais. Tanto que nem planejava botar Vidas ao Vento (último que vi) nessa postagem, porque pretendo fazer uma postagem só Miyazaki, mas achei melhor falar um pouco desse aqui, só de prévia. Dos que eu vi, esse me pareceu o mais realista. Envolve a biografia do engenheiro que desenhou os aviões utilizados pelo exército japonês na Segunda Guerra Mundial, Jirô Horikoshi. Mas biografia pura seria chato, então ele mescla a vida dessa personagem histórica com a de Naoko Satomi, baseada na personagem do romance de Tatsuo Hori, que leva o mesmo nome do filme do Miyazaki. Esse livro nada tem a ver com a vida do engenheiro aeronáutico ou com a 2ª Guerra Mundial, mas é sobre uma mulher tuberculosa, em estado avançado, que se interna em um hospital isolado nas montanhas, e sobre o homem que se apaixona por ela mesmo sabendo seu destino. Miyazaki faz o engenheiro se apaixonar por essa mulher e cria, a partir disso, uma história nova, com aquela típica mistura que ele faz entre realidade e sonho, animada com aquela atenção absurda aos detalhes, aos pequenos movimentos que tornam as personagens indivíduos completos.

GOZARESH [O RELATÓRIO] – ABBAS KIAROSTAMI (1977)

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Motivado pela morte do diretor, este é o segundo filme que vejo do Kiarostami. Gosto muito desse tipo de história quase sem estrutura, em que começo, meio e fim se misturam, sem perder a linearidade, somente porque as coisas, como na vida, não são assim tão bem estabelecidas e separadas. Não é exatamente uma história propriamente dita, um roteiro, é um momento da vida de um ser humano fictício e as coisas que o cercam. Este trabalha numa repartição pública, cobrando impostos. Um dia, um homem aparece e o denuncia por corrupção. Começa como boataria, mas vai crescendo em proporção, até que ele é forçado a se afastar do escritório até que a situação seja averiguada. Ao mesmo tempo, a esposa dele, por tantos motivos, é infeliz. Os problemas na vida dele e da família vão se acumulando e o filme se expande e se expande.

NOSTALGHIA [NOSTALGIA] – ANDREI TARKOVSKY (1983)

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Falando de expansão, esse filme do Tarkovsky me deixou sem palavras. É o segundo dele que vejo, nesse ele já havia desistido de trabalhar na, então, União Soviética, e levado seus esforços à Itália. A história trata de um poeta russo e sua tradutora italiana, na Toscana, pesquisando a vida de um compositor russo expatriado que “não podia trabalhar na Rússia nem viver fora dela”, muito como Tarkovsky na época. Seria necessário muito mais que um parágrafo para falar desse filme com o devido respeito. As imagens, o ritmo, a poesia, as ideias, cada fator traz um mundo de análise dentro de si, que eu não tenho os meios ou a capacidade de explorar. Esse filme, como tudo do Tarkovsky parece ser, é uma experiência de vida. Algo que se deve experienciar antes de morrer, é o que eu digo. As cenas são longas e crescem perante os olhos. Alguns momentos ainda não posso nem começar a imaginar como foram criados. Porque é isso que diferencia um filme com cortes rápidos de um que se prende a uma mesma cena por minutos: o ato filmado precisa acontecer em frente a câmera. Há ilusão, como em todo filme, mas o truque deve ser bem escondido, pois o ambiente em que se dá a magia é muito mais frágil. O momento final, em que o poeta atravessa a piscina esvaziada, segurando uma vela a acessa, com o dever de não deixar que ela se apague para que “a humanidade não pereça” ainda é um dos mais marcantes do cinema. Como disse no começo, são momentos assim a razão de ser do cinema.

WERCKMEISTER HARMÓNIÁK [A HARMONIA WERCKMEISTER] – BÉLA TARR & ÁGNES HRANITZKY (2000)

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E falando em cenas prolongadas, foi do Béla Tarr o último filme que vi naquela semana. Também o segundo do diretor. Existe um paralelo entre a obra de Tarr e de Tarkovsky. Existe poesia no filme de ambos, calma e expansão, lentidão e uma noção da amplitude do que cerca as personagens. A diferença que eu pude perceber, e talvez seja bastante clara, é que, enquanto em Tarkovsky há esperança sob a desilusão, e há sonho e cor e beleza, Tarr nos esfrega a cara com o que há de pior no ser humano e nos mostra porque essa desilusão existe em primeiro lugar. Aqui acompanhamos a chegada de um caminhão trazendo a carcaça de uma baleia e a presença de uma figura anônima porém poderosa chamada apenas de “Príncipe” a uma pequena cidade da Hungria. Um jovem inocente se vê tomado pelo que parece ser uma revolta política causada por esse grupo que trouxe o caminhão. Claramente uma referência ao autoritarismo que tomou conta da Hungria nos anos da União Soviética, e quão fácil foi domar o povo, fazer com que o povo abraçasse o fascismo. Mensagem essa facilmente traduzida aos dias de hoje. De fato, mostra o pior do ser humano e, ao mesmo tempo, o quão próximos sempre estamos desse pior. A poesia de Béla Tarr é a poesia do caos e do terror, da fragilidade e da morte, da decomposição que nos consome ainda em vida. É dito que o filme mais acessível dele é o mais recente, O Cavalo de Turim. Discordo. Até porque usar a palavra acessível para qualquer filme dele me parece um erro. Apesar desse detalhe, A Harmonia Werckmeister me pareceu mais acessível. Não se enganem, requer esforço. Mas não se intimidem tampouco. O filme, como nenhum outro, não morde. Basta paciência e desejo por se entregar ao melhor dessa forma de arte que chamamos cinema.

Like Someone In Love (Um Alguém Apaixonado) – Abbas Kiarostami [2012]

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O título do filme é em inglês, ele foi filmado em Tóquio, os atores são japoneses e falam japonês durante o filme, a produção é francesa e o diretor é iraniano. Antes mesmo de assisti-lo, já tinha sido levado pelo filme só por causa dessa variedade de nacionalidades entre as partes envolvidas para sua criação. Essas mesclas culturais são sempre interessantes. E tem mais, vocês já ouviram algum metido a intelectual dizer por aí que só assiste filmes iranianos como se isso fosse um certificado de cultura? Então, é por causa do Kiarostami. Foi ele que, mais ou menos, botou o Irã no mapa do cinema, começando na década de 70. Por isso eu digo, não se deixem intimidar pelo metido*, cinema iraniano pode mesmo ser bom.

Akiko (Rin Takanashi, que, de acordo com IMDB, fez um papel em uma das várias temporadas de Super Sentai, a versão original do que aqui no ocidente é chamado de Power Rangers. Chupa essa, intelectual que não aceita quando a cultura pop encosta na sua sobrancelha elevada, Kiarostami agora tem uma ligação direta com Power Rangers) é prostituta. O cafetão dela, que tem como base um bar,  quer que ela, especificamente ela, atenda um senhor, cliente muito especial para ele. Não explica os motivos, mas diz que, quando ela o ver, entenderá. Ela se recusa, diz que a avó está em Tóquio para a visitar e ela tem que ver a velha àquela noite porque, sabe como é, vai saber quanto tempo ela ainda tem. O cafetão insiste, ela continua recusando, ele pede para que ela pense no assunto. No táxi, indo até o ponto em que sua vó a está esperando, ouve novamente a mensagem que a senhora a deixou no celular. Ela dizia ter visto a foto de uma garota em um panfleto, muito parecida com Akiko, mas que com certeza não se tratava dela. Envergonhada, Akiko prefere seguir à casa de seu cliente que rever a avó. O senhor (Tadashi Okuno, que pra minha surpresa não trabalhou em quase nada além disso) é um velho tradutor, escritor e professor de sociologia (matéria que Akiko estuda na faculdade). Não quer sexo, até porque, como dizia o Sílvio Santos: a pipa do vovô não sobe mais, a pipa do vovô não sobe mais, apesar de fazer muita força, o vovô foi passado pra trás (ele tentou dar uma empinadinha, a pipa não deu nem uma subidinha – tá bom, chega). Ele só quer companhia, uma conversa, um jantar.

No dia seguinte, o velho leva a moça à faculdade e descobre que o namorado dela (Ryô Kase, de Cartas Para Iwo Jima) é ciumento e agressivo. Ele para Akiko na porta da escola e faz uma cena. Vai até o carro do velho e imagina que ele é vô de Akiko, não cliente, e o velho segue com o jogo para proteger o segredo da garota. Mas nem tudo é perfeito nessa vida, então agora vocês que vejam o filme.

É impressionante como, em uma hora e quarenta de filme, quase nada acontece. Todo o enredo se passa em dois dias. Ainda, o ritmo não é arrastado, como às vezes é de se esperar nesse tipo de filme. Em determinado momento, fui ver quanto tempo tinha passado, crente de que não tinha chegado à primeira hora do filme, e já estava nos quinze minutos finais. Isso porque o nada que acontece não é chato. Os detalhes presentes na filmagem do Kiarostami são fascinantes para os olhos. Desde a primeira cena, em que Akiko tenta despistar o namorado por telefone, dizendo estar em uma cafeteria quando na verdade ela está a espera do cafetão – trocadilho intencional e de minha autoria, não precisa agradecer, Kiarostami – em seu bar, ela não  esta visível para o espectador que só ouve a sua voz e não sabe dizer quem ela é ou qual a importância do personagem ainda. Ao invés disso, o espectador é imerso naquele vai e vem do bar, naquilo que Akiko está vendo.

O filme inteiro é silêncioso – sem música, com exceção da cena em que o velho encontra Akiko e ele bota “Like Someone In Love” pra tocar na vitrola -, tem uma atmosfera tensa – no sentido de que o espectador é levado a acreditar que algo errado vai acontecer a qualquer momento -, mas ao mesmo tempo de rara harmonia. É um filme muito japonês. A simplicidade do enredo e o foco nas imagens e cores das paisagens remeteram, na minha visão, aos haicais – e a conexão entre a poesia e os filmes do Kiarostami já são bem conhecidas pelo público. Uma cena, por exemplo, mostra a cidade vista pelo reflexo no para-brisa do carro do velho, então, aos poucos, a imagem real da cidade se apresenta. O enredo em si, também tem um tom nipônico, visto que ele, quase acidentalmente – já que isso nunca é mencionado, sou eu que estou interpretando agora -, trata de gerações. Do contraste entre o velho – pacífico, acadêmico, sábio – e o namorado de Akiko – agressivo, rejeitou os estudos desde cedo, impulsivo, apesar de ter um lado bem intencionado. Vale apontar que a cultura japonesa é conhecida por valorizar conhecimento e autocontrole.

Um Alguém Apaixonado é um daqueles filmes que parecem ter mais conteúdo fora do seu enredo do que dentro. É possível perceber um pouco da invasão ocidental no oriente, a questão já apresentada das gerações, uma discussão muito interessante sobre a questão do compromisso e do que é amor. Nós nunca sabemos nada dos personagens fora do que eles são no momento em que o filme acontece. Por que Akiko, que parece ser uma jovem tão normal, se prostitui? Por que ela mantém o relacionamento com o cara agressivo? Por que o cara continua com Akiko se ela só lhe causa preocupação e sofrimento? Por que, principalmente, ela continua com ele se ele é possessivo e não controla suas tendências agressivas? Qual a história daquele senhor? Não espere resposta pra nenhuma dessas perguntas. Até porque não interessa. É só uma história afinal, simples, breve, mas muito bem contada, como um conto de Raymond Carver (nada a ver com o filme, só me veio na cabeça). Eu gostei e quero conhecer mais do Abbas Kiarostami**.

*Pior que esse pseudointelectual, só o anti-intelectual repete constantemente essa piada como se tivesse orgulho da própria ignorância.

**Repostagem para não deixar o falecimento do diretor passar batido, esse que foi um dos mais importantes e icônicos da história do cinema. Esse foi o primeiro e único que vi dele, e o último de ficção do diretor.

Azul é a cor mais quente (La Vie d’Adèle: Chapitres 1 & 2) – Abdellatif Kechiche [2013]

Postado originalmente em 3 de outubro de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/10/azul-e-cor-mais-quente-la-vie-dadele.html

Dos muitos subgêneros contidos na pornografia, um dos mais populares, e quisera eu ter as estatísticas necessárias para embasar essa minha afirmação, é o “lesbianismo” (entre aspas, pois raramente as mulheres envolvidas nesses filmes são de fato lésbicas). O tema também é bastante trabalhado no cinema não-pornô, embora com diferentes intenções. Isso, quero dizer, na maioria das vezes. Ironicamente ou não, a maioria dos filmes lançados sobre lésbicas são feitos por homens heterossexuais (novamente, queria eu ter uma lista exaustiva para poder embasar essa afirmação; por mais que eu tente puxar da minha memória exemplos, só me vem a mente Quarto em Roma e o filme do qual falo agora, mas prometo que existem mais, só me falta motivação de pesquisar, já que chances são que esse texto será lido por três pessoas, e três pessoas não são o suficiente para eu me importar) e, por consequência, as obras acabam saindo fetichistas, pra dizer o mínimo. Isso me fez enrolar até agora para assistir Azul é a Cor Mais Quente, adaptação dirigida por Abdellatif Kechiche, do quadrinho quase homônimo à versão brasileira (Le bleu est une couleur chaude – por que as versões americana e brasileira adicionaram o superlativo, eu não sei) de Julie Maroh. Nada contra filmes fetichistas ou pornografia, o problema é quando esse tipo de filme tem duração de quase três horas. Adianto aos leitores que minha primeira impressão estava errada. Nota: impressionante como, mesmo quando a versão brasileira acerta a tradução do nome, ela dá um jeito de errar.

Trata-se da história de Adèle (interpretada por Adèle Exarchopoulos, e o nome igual não é só uma coincidência, explicarei mais tarde – só pra constar, o nome da personagem no original é Clementine), uma adolescente entre seus 15 e 16 anos que descobre sua sexualidade. Na escola, as amigas dela a pressionam a sair com um rapaz que parece estar a fim dela. Ela vai e os dois vivem um relacionamento, mas Adèle não está satisfeita com ele. Ela se sente atraída por uma garota do seu grupo de amigas, mas é rejeitada. Então, em um bar de lésbicas, ela encontra Emma (Léa Seydoux), uma mulher de cabelo azul, um pouco mais velha, que estuda artes na faculdade e sonha em ser pintora. As duas começam um relacionamento intenso e que vai se tornando cada vez mais sério, até o ponto em que elas moram juntas. Ao redor desse relacionamento, o filme explora temas como tolerância, sexualidade e maturidade.

O que mais chamou atenção das pessoas que viram o filme, pelo que eu pude perceber, é o quão explícito ele é. O diretor prestou muita atenção nos detalhes durante as cenas de sexo para que elas pudessem parecer reais sem que as atrizes transassem de verdade. E foi isso que me fez acreditar que o filme seria fetichista. Isso e, supostamente, ele demorou dez dias para gravar uma das cenas de sexo. De qualquer forma, funciona. O realismo é suficiente para que a audiência sinta a intensidade entre as duas, sinta que existe paixão naquele relacionamento, como em qualquer “primeiro amor”.

Não foi só no sexo que Kechiche prezou pelo realismo. Outro motivo de polêmica nos bastidores desse filme foi ele ter exigido que elas aparecessem sem maquiagem em muitas das cenas, permitiu que elas apenas lessem o script uma vez e insistisse que elas esquecessem suas falas em troca de improviso; e filmaram a atriz Adèle enquanto ela estava fora do personagem, comendo ou dormindo no trem em direção ao local da filmagem. O realismo é tanto, que muitas vezes o tom do filme deu a impressão de se tratar de um documentário. Ah, e antes que eu me esqueça, eis a razão de ele ter mudado o nome da personagem Clementine para Adèle, mesmo nome da atriz; porque ela foi filmada durante as refeições ou enquanto dormia no trem em direção ao local de gravação e, nesses momentos, as pessoas não paravam de chamá-la de Adèle, então mudaram de uma vez o nome da personagem.

Há controvérsias com relação a essa forma de tratamento entre diretores e elenco, mas quem vai dizer que é errado quando funciona? Kubrick abusou emocionalmente de Shelley Duvall durante as filmagens de O Iluminado. Hitchcock era famoso por odiar atores e tratá-los como peças indesejadas mas necessárias para montar sua criação. No fim das contas, funciona. Atuar é uma profissão emocional, diferente de qualquer trabalho de escritório, as regras são outras. O objetivo do diretor é tirar justamente a emoção exata do seu ator em determinada cena, mesmo que para tanto seja necessário insultá-lo, isolá-lo, constrangê-lo, tudo para que o resultado final seja o melhor possível. Fazer isso ou não, cabe ao diretor decidir, mas eu não consigo discordar da atitude. Por consequência, a pressão mental e exigência física causada pela direção fez com que as emoções expressadas pelas atrizes fossem reais. Não próximas do real, não realistas, mas reais, e a diferença para espectador atento é perceptível. A Adèle atriz e a Adèle personagem se tornaram uma durante as quase três horas de filme. O mesmo pode ser dito sobre a Léa Seydoux.

É comum que filmes mais “artísticos” se deixem levar por um conceito sobre a história em si ou sobre os personagens. Os conceitos trabalhados em Azul é a cor mais quente são complexos no mínimo. Em uma determinada cena, Emma expõe suas pinturas para um grupo de amigos e artistas em um jantar. Os presentes então começam a discutir sexualidade e a diferença da percepção do prazer entre os sexos, e essa discussão na minha opinião foi fascinante, principalmente porque o filme tenta passar a ideia em cenas. A questão do compromisso e dependência entre casais também é bem exposta, com a profundidade necessária. Isso sem falar da óbvia questão da autoaceitação e aceitação perante a sociedade, essa tratada com muito mais sutileza. Mesmo assim, o forte do filme, o que vai te fazer ficar sem piscar durante as três horas, é a humanidade das personagens. Esse não é um filme abstrato como tantos no seu meio.

O mais importante foi que, aquilo que começou como uma garota descobrindo sua sexualidade e se identificando lésbica, logo se tornou apenas uma história de amor. Não uma história de amor “com lésbicas”. Isso foi o principal, do contrário o filme teria caído no já descrito fetichismo. No fim das contas, é isso que a sociedade teria que entender sobre o homossexualismo, que não é nada além de duas pessoas se amando. Por acaso essas pessoas são do mesmo sexo, mas isso não importa, não faz do amor entre os dois diferentes, muito menos teria de fazer o filme diferente. Ser possível assistir Azul é a cor mais quente e, no meio do caminho, esquecer que se tratam de lésbicas e poder vê-las apenas como um casal, foi o que me fez ver além da qualidade do filme, mas também sua relevância na história do cinema.