Sobre convivência, intervalo e continuidade, trens (Observações aleatórias #7)

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1 – Fim de semana passado, o que veio antes do feriado na segunda, fui com o pessoal que trabalha comigo pra Curitiba. Testei minha capacidade de convivência. Descobri que, apesar de tudo, apesar de preferir viagens solo, sou capaz de passar mais que 24 horas com um grupo de 8 pessoas, a maior parte delas bastante diferente de mim. Não que tenha sido fácil. Não fossem os livros que levei (obrigado Frank O’Hara e João Antônio, pela companhia) e o caderno que uso pra rabiscar ideias, teria fugido no primeiro dia. É que não sou muito turista, eles eram demais. Imagina, qual a graça do Hard Rock Café? Fui com eles, ainda não entendi a fascinação. Mas estavam lá, tirando selfies em frente a guitarra de neon, filmando a dancinha que obrigam os funcionários a fazer de tantas em tantas horas ao som das músicas de um cuzão qualquer que queria ser Michael Jackson, e eu assisti, meio que de fora, às vezes participativo. Até que me diverti em alguns momentos. É o que acontece quando se passa tempo com pessoas diferentes de você, você acaba indo a lugares onde não iria, fazendo o que não faria não fosse o incentivo extra. Então certas pessoas te surpreendem, outras decepcionam, tudo por causa da convivência prolongada… São experiências distintas, viajar só e viajar em grupo. Parece óbvio, mas é algo de que você só se dá conta quando não tem tempo de fazer algo que gostaria de ter feito ou alguém se recusa a fazer algo com o grupo e atrapalha todo o planejamento. Foi uma boa experiência, no fim das contas. Infelizmente não pude dar minha típica caminhada a esmo pela cidade, e admito que quando cheguei sozinho no meu apartamento silencioso, sentei, com um livro, na minha poltrona e acendi meu cachimbo… ah! que paz de espírito. O café do Mercado Público, no entanto, foi memorável.

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2 – Não me lembro se em algumas das observações passadas falei sobre esse sentimento que às vezes nos toma de se estar como que em um hiato da vida. Não pretendo revisar cada uma delas, então correrei o risco de me repetir – não seria a primeira vez. Acontece que é isso que estou vivendo, basicamente. Tem uma série de coisas em andamento, não é como se eu estivesse deitado numa cama esperando a vida passar em uma sala vazia. Mas, às vezes, parece que estou. O resultado do concurso é só mês que vem, então não é como se eu pudesse tentar fazer alguma coisa com o romance. Tenho uma viagem (Montevidéu/Buenos Aires) pra planejar, mas ela só acontece em setembro. Quero escrever, mas não sei bem quê. Além disso, o motivo da minha recente ausência no blog foi talvez o mais ridículo até hoje – dentre os motivos das minhas ausências. O que aconteceu foi que gostei demais da minha última postagem (8ª parte do diário de vigem) e não queria tirá-la do topo em troca de um texto inferior. Não que a postagem tenha recebido muito público. Nenhum comentário – só um, no twitter (obrigado Lari! – vão olhar o blog dela) -, três curtidas (uma com certeza nem leu o texto, só veio pra retribuir curtida dada). Não é uma questão de números, mas orgulho de mim mesmo. Agora vejo que não importa, está lá e basta. Desencanei. O diário era o que eu precisava escrever, a história que fechou meu projeto de livro de contos. Agora trabalho nas outras histórias. Todavia contos são como pequenos vazios contínuos sempre que finalizados. Fico com um pé atrás de postá-los aqui por não saber como editoras reagem a isso. Ao mesmo tempo, não sei por que caralhos estou pensando em editoras, ainda mais pra contos. Talvez ainda surja uma ou duas partes do diário por aqui, mas não prometo. Provavelmente vai, nem contei a história do tombo ainda.

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3 – Voltando à viagem. De Curitiba, pegamos o trem que leva a Morretes. É um passeio conhecido, muitos de vocês, que não são muitos, já devem ter ouvido falar ou não vão ter dificuldades pra encontrar informações sobre ele. O passeio vem com guia histórico, o que, em certas partes, fica fascinante, quando você se dá conta de que está sobre um trilho centenário. Por mais ou menos quatro horas, o trem serpenteia pelas serras paranaenses na Mata Atlântica. É um desses locais em que é possível se distanciar de si mesmo, se deixar levar pelo inacreditável da existência. Por exemplo, quando olhamos pra trás e vemos, distante, a ponte, tão antiga e de aparência tão frágil, sobre a qual o vagão acabou de passar, e notamos que o trem é tão extenso que ainda não terminou de cruzá-la. Quando, em meio a tantas árvores e folhas e plantas, vemos uma ruína de sabe-se lá quantos anos no meio do nada, tomada pela natureza. Assim é que nos damos conta de que a Terra não precisa ser salva, é o ser humano que deve salvar a si mesmo. Sim, podemos causar o dano que for, irreversíveis até. O planeta seguirá firme. Quando a natureza não der mais conta de se sustentar com esses humanos inconvenientes em seu caminho, ela vai sacudir as pulgas e será o nosso fim. Apenas nosso. A Terra continuará, como continua a Mata Atlântica, se espalhando e tomando as ruínas e construções humanas, indiferente. Humanos são pouco pra matar planetas, isso é trabalho do Universo.

4 – Aqui o primeiro álbum, homônimo, dos Stooges, porque acho que vou ver Gimme Danger, documentário do Jim Jarmusch sobre a banda, em algum momento esse final de semana.

Observações aleatórias #6

1) Começar um romance novo é uma merda quando nada aconteceu com o primeiro. Sim, estou dando um passo maior que a perna. Chame de ansiedade, não quero me ver perdedor na data de resultado do concurso, sem ter outra coisa que me motive a continuar (escrevendo e tentando publicar o primeiro); não quero me ver ganhador e me dar conta de que não comecei o segundo passo ainda, que terei que começar o processo inteiro outra vez. Me lembra uma entrevista que assisti com John Barth tantos anos atrás. Ele falava duma conversa entre ele e Donald Barthelme. Barth o autor de romances tijolescos, Barthelme quase exclusivamente dedicado aos contos, alguns curtíssimos, e que, quando escrevia romances, preferia os curtos. Barthelme não entendia como Barth conseguia esperar tanto tempo pra descobrir o fim de uma história; Barth não entendia como Barthelme podia começar do zero a cada tantas semanas. Incerto se foco em contos ou em um novo romance, tento os dois e falho nos dois. Não é bloqueio criativo, é congestionamento – quando tantas coisas tentam passar pelo mesmo espaço limitado que nada passa. Nem postagem de blogue tá saindo, não por falta de ideias, só porque nada nunca fica pronto. Se não fossem essas observações, feitas na hora, de fôlego único, quase sem pensar, estaria morto.

2) Progredindo uma palavra por semana nos contos, o resto do tempo dedico à pesquisa pro futuro romance (que não sei se será segundo ou terceiro, não sei se o que acho que será terceiro ou segundo dará texto pra romance, talvez seja novela, talvez conto grande pra caralho). Pesquisa, procrastinação, começam com pê, são a mesma porra. A personagem que seria bailarina passou a ser atriz de teatro. A vida dela seguirá uma merda, mas uma merda sobre outro palco. Procuro no youtube uns vídeos de peças de teatro, salvo alguns pra depois, começo Death of a Salesman (Morte do Caixeiro-Viajante), de Arthur Miller. Começo essa peça porque é ela que montam as personagens de Forushande (O Apartamento), novo do Asghar Farhadi, que havia acabado de ver e que fiquei curioso por saber mais sobre ela. Bailarina seria bom pra filme, bastante visual, apesar de Cisne Negro já ter esgotado essa carreira. Atriz de teatro combina mais com literatura, e algumas pessoas que conheço podem me ajudar na pesquisa, o que seria mais difícil com bailarinas (pra mim, que não conheço uma). Mas preciso definir em qual peça ela estará trabalhando, em quais já trabalhou, por isso farei o esforço de ver (vídeos de peças, já que o teatro itajaiense é sofrível) e ler mais peças nos próximos meses. Quem sabe aprender escrita de roteiro, isso é uma coisa que há tempos quero me dedicar a fazer.

3) Forushande me lembrou muito El Secreto de tus Ojos (O Segredo dos seus Olhos), que também levou o Oscar de melhor filme estrangeiro uns anos atrás. Tratam de estupro e vingança, embora com diferentes graus de intensidade. O argentino trata os temas com brutalidade e envolve política sem sutileza alguma, é rápido, uma sequência explosiva de surpresas e acontecimentos culminando num prazer terrível para o espectador. O iraniano é denso, quase é possível ouvir o emaranhado de pensamentos escapando das cabeças de cada personagem, sutil que mal dá pra saber de que trata o filme – se trata mesmo do que se está pensando -, é um pavio que queima lentamente e explode numa mistura bizarra de emoções ambíguas. O vilão do argentino é irredimível, a punição mais cruel não é suficiente pra fazer o espectador sentir piedade. O vilão do iraniano quase não pode receber a alcunha, é digno de pena desde o princípio. Dois grandes filmes que só posso indicar.

4) Essa leva de observações encerro indicando o disco Playing with fire (1989), do Spacemen 3.  E não tenho nada a dizer sobre ele. Pra que escrever sobre música quando você bem pode ouvi-la?

Uma tarde no MALBA – parte 2 (Diário de viagem #5)

Antes leia a parte 1, cacete.

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Difícil comentar o conteúdo de um museu de arte sem que a descrição seja seca ou vazia ou desnecessariamente crítica – o que fica pior quando, como no meu caso, não se é crítico de arte. E dizer que tem quadros é óbvio. Estou arriscando cair no superficial agora, mas fui eu que montei essa armadilha pra mim mesmo quando me decidi escrever sobre uma visita ao museu. Me resta continuar como comecei e bancar a câmera flutuante. Atravessando a entrada da primeira sala depois da escada rolante, ficou claro que o foco do acervo estava na arte moderna e o que veio depois. Sem muita distinção entre quadros, esculturas, fotografia, vídeos… um museu de artes visuais bastante abrangente. Do lado de fora da primeira sala, havia um corredor com várias televisões, passando filmes em loop. O visitante poderia pegar um fone de ouvido e assistir, se assim desejasse. Que eu me lembre, entre outros filmes, estava passando Medianeras.

Como parecia ser uma constante na minha viagem, por onde passava via um pouco do Brasil. O primeiro quadro a me chamar atenção era justo o de Tarsila do Amaral, Abaporu, em destaque no corredor que levava à segunda sala. Vi outras obras de brasileiros por lá, inclusive, algo me diz, outra de Tarsila, mas devia ter levado um bloco de notas ou coisa assim. Tinha, então, a ideia de escrever uma espécie de diário de viagem, mas nada nessas proporções nem que fosse especificamente sobre o museu. Lembro de ter visto um quadro de Oswald de Andrade. Um quadro enorme, sobre o qual não lembro nada, mas lembro da minha surpresa ao descobrir que Oswald pintava. Ao lado, seu manifesto modernista, aberto, protegido por vidro, do ar e dos dedos.

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Sem anotações, com a memória vaga, fica complicado escrever qualquer coisa de muito significativo sobre as obras de arte lá expostas. Como de costume na arte, tem suas polêmicas. A instalação que é só um anúncio de aluga-se. Por um instante, achei que fosse mesmo um anúncio e estivessem com um espaço livre, mas, na verdade, era “arte conceitual” expondo o mercantilismo presente no mundo artístico “atualmente” (as aspas porque, se não estou me confundindo, essa instalação é da década de 80; se algo mudou desde então foi pra pior). Imagens de pobreza e festa também são constantes, parte inseparável da América Latina, de certa forma. Cores, decadência, esperança, miséria. Ao mesmo tempo, um desejo por revolução. Esse é o espírito do MALBA, como um todo, independente do que diga cada obra por si própria. Existem correntes invisíveis espalhadas por toda a América Latina, nós sabemos de onde elas vêm. Uns as querem partir, outros estão acostumados ao aperto nos punhos e até gostam delas como enfeite. No MALBA, pulsa o desejo de liberdade do nosso continente, desejo sempre frustrado, quando não por forças externar dominantes, os mestres de nossas correntes, são nossos próprios males internos historicamente enraizados que nos derrubam. Talvez por isso tenha me incomodado mais do que deveria com as exposições convidadas: Jeff Koons, sobre o qual já reclamei em várias ocasiões e, sem querer me repetir, não acho que passe de uma esteira industrial de mau gosto (pelo menos a parte da obra dele que eu conheço); e Yoko Ono, que ocupava todo o andar acima.

Subi o segundo lance de escadas rolantes. Havia uma placa em frente à entrada indicando que ali começava a exposição da Yoko Ono. Fico pensando se deveria botar aqui minha opinião sobre Lennon e Yoko. Mentira, não é conflito algum, talvez o grande motivo de eu ter começado a escrever esse texto tenha sido pra expressar minha opinião sobre o significado por trás da obra desses dois artistas. E por que eu boto os dois no mesmo prato como se fossem arroz e feijão? Porque é isso mesmo. Boa parte da obra de Yoko exposta no MALBA era composta de frases feitas do Lennon, dos ideais que ele usou ao longo da vida pra encher a própria conta bancária – com sucesso. Mas estou me adiantando e, até agora, se eu estou certo e vocês já discordam de mim, só fiz foi gerar hostilidade entre mim e vocês, supostos leitores.

Entrei na sala e escutei um zumbido. Vinha de uma caixa de som tocando um disco dela que era, se não me engano, uma longa gravação do zumbido de uma mosca. Ao lado, em loop, um vídeo de uma mulher (provavelmente a Yoko, não vi o rosto), nua, deitada numa cama, enquanto uma mosca caminhava pelo seu corpo, do pé à cabeça. De todas as obras presentes, essa combinação som e vídeo foi a mais impressionante pra mim. Não imaginava como ela poderia ter sido feita. Moscas não são seres atentos e treináveis. Se parece que estou sendo sarcástico por culpa do parágrafo anterior, não exatamente elogioso, não estou. Gosto de ver coisas e não fazer ideia de como elas foram feitas. Traz à tona o aspecto mágico da criação artística.

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Não relacionada à exposição da Yoko. Não tirei fotos dessa parte. Tinha muita gente. Sou tímido.

Foi o que veio depois que, na falta de palavras melhores, me irritou. Exemplo: uma cruz de madeira, de uns 2 metros de altura, coberta de pregos; anexada à ela, um martelo, e, no chão, ao lado da cruz, uma caixa de pregos soltos; o observador era convidado a pegar um prego e pregá-lo na cruz. Pode ser cinismo da minha parte – toda a crítica que está por vir deve de ser meu cinismo falando mais alto, estou tentando trabalhar nisso -, mas achei bastante ridícula a montagem. Sim, compreendo o simbolismo cristão, a ideia de todos estarmos envolvidos no “flagelo de Cristo”… Ai ai, se é que era isso mesmo que a peça queria representar. Mas tinha um pai segurando o filho no colo pra que ele pregasse um prego na cruz também, tentando manter o equilíbrio pra que a esposa dele pudesse tirar uma foto sem que ela saísse tremida. Uns passos depois, um grande mapa-múndi todo carimbado com a palavra Peace (paz, caso alguém não saiba). Sobre uma mesa, um carimbo; colada na parede, uma folha com instruções que diziam: carimbe o lugar do mundo em que você queria que houvesse paz. Desnecessário dizer que havia gente tirando uma selfie enquanto carimbava, e forçando crianças a posarem pra fotos enquanto carimbava. Apesar dos esforços hercúleos de Sra. Ono, no entanto, ainda não há paz no mundo.

É esse o meu problema. Em se tratando de paz e coisas assim, não sei lidar com gente que usa essa necessidade pra fins comerciais. E é nisso que acho que a carreira de John Lennon se baseou (pós-Beatles) e em que a carreira de Yoko Ono se baseia. Velhas ideias, nada originais, propositalmente ingênuas, pedindo por paz sem fazer nada por isso, que vendem bem porque trazem uma mensagem identificável: todos querem paz sem ter que trabalhar por isso e, principalmente, é muito legal mostrar pros outros o quanto você se importa, independente do quanto os atos amplamente divulgados de fato afetam  a situação do mundo, desde que dê pra colocar um preço neste ato. É muito bom e fácil pregar pobreza e simplicidade enquanto se vive no luxo, distante da nojeira que é a pobreza que se explora. Enfim, já fui longe demais. Tinham várias outras instalações ali que trabalhavam com as mesmas ideias de forma diferente. Tinham frases do John Lennon escritas nas paredes – deixem o homem descansar; mesmo que o caráter dele tenha sido, na minha opinião (antes que me preguem na tal cruz – ha! ninguém vai me pregar na cruz por isso, ninguém nem vai ler isso aqui!) duvidoso. Ao meu lado, enquanto voltava todo o caminho pela sala em direção às escadas rolantes, passou um brasileiro que dizia: essa é a típica artista, nada aqui significa porra nenhuma, mas a gente tem que olhar e fingir que entende. Quem não entendeu o comentário fui eu. Aquela exposição, boa ou ruim, não podia ser mais compreensível. O significado dela estava escrito e desenhado por todas as paredes e até no teto (literalmente): paz, assim como a guerra, vende.

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Passei uma última vez pelas obras do primeiro andar pra esquecer de Xoko Ono, como havia dito o garçom uma noite antes. De volta ao térreo, descobri que tinha um cinema lá passando dois filmes, de graça, mas os horários ainda estavam distantes e havia a apresentação orquestrada de Metrópolis, que eu não estava bem certo se iria mesmo ver. Ainda lá, seguindo reto da entrada, uma espécie de memorial das ditaduras militares nas Américas, um lembrete pra que ninguém duvide que aconteceu, que teve vítimas e que não deve se repetir. Vendo as imagens dos vários ditadores de cada país e seus anos de atuação, me perguntava se tinha algo assim no Brasil. Era, ainda é, necessário, com o sempre crescente movimento de viúvos e viúvas do chumbo. Numa sala anexa, arquivos para consulta pública com dossiês expondo, com notícias da época (antes, durante e depois), estatísticas, documentos políticos e diplomáticos, depoimentos et cetera. Completíssimo e, não bastasse, cópias das folhas dos dossiês enfeitavam todo o museu.

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A operação Estadounidense que financiou os golpes e ditaduras na América do Sul (e Henry Kissinger, canalha, ainda vivo porque vaso ruim não quebra, na mesma época, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por não levar a paz no Vietnã, enquanto financiava as mortes na América do Sul e Central, e no Timor Leste, entre outros locais – crimes internacionais pelos quais ele nunca pagará, nem os chefes dele. Provando que a história se repete, Obama leva o mesmo prêmio por não dar fim a guerra no Iraque. É assim que as coisas são. Carimbemos um mapa-múndi. Ou nos refugiemos na mansão da Yoko. Sendo justo, as ideias dela são ingênuas, um pouco tóxicas (não é bom viver numa nuvem) e cheiram à hipocrisia, mas não são monstruosas, pelo menos.

Saí feliz pela visita e pela memória que reterei pelo tempo que durar minha memória. Ainda era cedo, tinha horas até a exibição de Metrópolis. As nuvens estavam pesadas, preferi não ficar por lá porque, em caso de chuva, a apresentação seria cancelada e eu perderia uma noite. Fui a um café, pedi algo pra comer e um café. Por algum motivo olhei meu celular e vi um número absurdo de mensagens nos dois grupos da empresa em que trabalho. Com medo de que a empresa houvesse falido na minha ausência (teria procurado um emprego em Buenos Aires, se tivesse sido o caso), abri as mensagens e vi que foi só um incêndio. Aconteceu de madrugada, estavam todos bem e, o escritório, só defumado, sem nenhum dano. Decidi, respirando fundo,  aliviado, que daria uma olhada no tal do Jardim Japonês, e, à noite, iria a um bar de que tinha ouvido falar antes da viagem. Não choveu e até hoje não vi Metrópolis, com ou sem orquestra, ao ar livre ou em casa. Mesmo assim, o universo me provou mais uma vez que ir ao bar é sempre a decisão certa.

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Observações aleatórias #5

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1 – Ainda falando do romance terminado, talvez porque ontem tenham se encerrado as inscrições para o tal prêmio, achei melhor tirar umas férias rápidas da ficção. Montes de escritores foram obrigados a publicar suas “regras” pra escrita. Henry Miller foi um deles. Entre as regras dele, estava inclusa: saia de casa, vá aos cafés e aos bares, mantenha-se humano. Essas regras, independente do autor que as invente, são sempre questionáveis, às vezes se contradizem, não têm valor nenhum, mas são obsessão inevitável dos autores novatos. Já que não tem escola que possa nos ensinar a escrever, as palavras de auxílio dos que conseguiram aprender são buscadas, não como guia pro que fazer mas como reafirmação de que aquilo que se está fazendo é certo. Porque não dá pra saber. Mas não era sobre isso que eu queria escrever agora. Era sobre as tais “férias”. “Mantenha-se humano” não é uma dica exagerada. O grau de isolamento a que a escrita de um romance incentiva é desumanizante. Não que eu, ou qualquer outra pessoa – embora tenham casos assim -, tenha me trancado num quarto durante todo o processo. Mas é um isolamento mental. Uma indisposição para receber coisas do mundo. Durante a escrita do rascunho, ainda acontece. Mas, uma vez avançada a revisão, o polimento da obra bruta, se cria um medo de descobrir qualquer coisa nova, de se experienciar algo que possa te fazer querer mudar os rumos do romance. Isso pode tirar uma pessoa do mundo ao redor dela de modo surpreendente e prejudicial. O que não se ouve com frequência, mas pra mim é verdade, é que é muito fácil se entregar ao isolamento. O que estou fazendo agora é, aos poucos, me abrindo outra vez.

2 – Escrever poesia tem sido uma ótima forma de voltar. Ainda é escrita, mas não é ficção, não envolve estrutura nem nada que seja fechado em si mesmo. Pelo menos não o tipo de poesia autológica que estou fazendo. Não tenho intenção de publicar esses poemas. Não aqui, não em livro. Sim, há sempre o ainda. Mas é que também é muito fácil não publicar. Digo melhor, é um conflito. O ego é forte. Às vezes, quando tenho a ilusão de que me supero num verso ou num poema completo, a primeira coisa em que penso é: tenho que botar isso no blog. Não sei por qual motivo esse pensamento me vem. Não é como se alguém o fosse ler por aqui e essa leitura fosse mudar a minha vida ou a do leitor de alguma forma – este é o segundo pensamento, o que eu sigo, e a razão de vocês não terem visto nada do caderno aqui (ainda). Desde então, tenho caminhado com meu caderno, tenho escrito em praças, em lugares que não o meu quarto; eis a importância do ato: permitir que eu saia, observe, anote, receba, entre de volta no mundo de que tentei sair. Ao mesmo tempo, a liberdade é parte essencial dessa ideia. Se começo a escrever pensando na recepção que o poema pode ter no blog (nunca tem uma recepção, mas sempre tem a expectativa de uma recepção qualquer que seja), posso deixar de escrever determinadas palavras, o que me fecha de novo.

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3 – E falando em experiências e contato, fui num boteco à beira da praia com um pessoal do trabalho. Quem me conhece sabe da dificuldade que é me botar perto da praia. Mas lá estávamos nós – não todo o escritório, éramos quatro no total -, bebendo água com gás feita de milho, falando bobagens. (Bom, daqui em diante, vai ficar muito ruim e repetitivo se eu tentar escrever a conversa sem citar nomes, então vou fazer pseudônimos pra facilitar meu trabalho. À mesa havia: eu, que continuarei como eu; Olga, a mais velha entre nós; Júlia e Vera. Pronto. Se bem que eu poderia botar os nomes verdadeiros e vocês não fariam ideia. E elas nem sabem que escrevo, então não é como se houvesse risco de elas acharem isso aqui. Não seria paranoia se fizesse sentido.) Como sempre acontece nessas situações, não sei como chegamos a esse assunto, mas Olga, que havia almoçado comigo num quilo perto do escritório, disse:

– Me apaixonei hoje (…) O cara mais lindo. Trabalha no Santander (…) Agora que sei que ele almoça lá, vou continuar indo pra ver se consigo falar com ele.

Eu: – Que coincidência, também tô de olho numa moça que vi lá, a que fica no caixa (…)

E começamos a discutir sobre as dificuldades de aproximar pessoas desconhecidas fora do contexto maravilhoso que é o bar. Nisso, percebi uma grande diferença entre mim e Olga, ou, como já deveria ter me dado conta muito antes dessa conversa (e, notando a extensão disso aqui e o quanto ainda falta pra terminar a história, tô começando a achar que era melhor ter feito disso postagem individual, mas agora foda-se): sem trocar palavra com o cara, ela já sabia nome, local de trabalho e cargo, estado civil, além de saber de alguns gostos pessoais dele e ter “amigos” em comum. Sim, estou falando do facebook, que me recuso a ter. E, por me recusar, ainda não sei o nome da moça, nem nada sobre ela. Enfim, falamos do tal ato de stalkear (espreitar, povo, existe palavra em português pra isso, pode ser espionar também, bisbilhotar, fuçar, cavocar, caçar… stalkear é a palavra mais feia que o estrangeirismo pôde conceber – empoderamento estando logo ao lado, junto do termo off, ao invés de desconto; parem com essas merdas e aprendam seu próprio idioma), estratégias de aproximação, a zona ambígua que separa atração e hospitalidade, e tudo o mais. Sim, isso são mais notas pra um futuro texto. Não vai dar pra falar do quanto eu acho que estamos perdendo a diversão e o risco da descoberta pessoal em tão poucas linhas. Fica prum futuro próximo.

4 – Decidi encerrar as observações indicando um disco, de agora em diante. Algo que eu esteja escutando com frequência no espaço de tempo próximo ao do momento em que as observações estão sendo escritas. O dessa vez é o disco Cheftak, da dupla libanesa de trip-hop Soap Kills. Nada a ver com o que eu costumo escutar. Na verdade, por ter muito de eletrônico, é quase um oposto, mas estou gostando. Metade da dupla é a Yasmine Hamdan, que faz aparição em Only Lovers Left Alive (sim, estou citando Jim Jarmusch outra vez, e, quer saber?, a observação número 2 foi toda inspirada por Paterson, o filme mais recente dele, sobre o qual não paro de falar: acostumem-se), e não há palavras no dicionário que façam jus à exuberância dessa mulher. Escutem o disco e depois me digam. Participem dessa porra. Se eu quisesse que esse blogue fosse o monólogo de um cidadão perturbado, teria fechado a caixa de comentários há muitos anos. Eu tenho esse poder, mas preferiria que esse blogue fosse uma série de diálogos com um cidadão perturbado. Não gosto de falar sozinho, tenho medo de ouvir respostas de novo.

Obs.1: Ah é, não sei botar vídeos do youtube via wordpress. Bom, tá aí o link pra uma música do disco. Mas tem o disco todo no youtube, só não num vídeo só. Vão procurar, bando de vagabundo.

Obs.2: Vejam só, o link vira uma caixa de vídeo sozinho. Bom, o troço aqui podia ter me avisado que isso ia acontecer. Não vou apagar a observação acima, quero que o transtorno fique registrado.

Uma tarde no MALBA – parte 1 (Diário de Viagem #4)

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O tal museu: de fora.

As pernas ainda não recuperadas do dia anterior, quando eu fui ao Museu de Belas Artes e aproveitei, depois, que estava perdido no bairro de Recoleta pra caminhar por lá, ver as casas, achar o Cemitério (mas não os túmulos de Bioy Casares nem das irmãs Ocampo nem de Macedonio Fernández – e descobrir que Roberto Arlt foi cremado e nunca esteve lá -, e, de quebra, ter uns 3 brasileiros me perguntando em portunhol como achar o local de descanso da Evita – que eu não estava procurando e não achei nem por acidente). Fiz mais tantas coisas entre o fim da tarde e noite de quinta – dia antes do dia em que se passa este relato (sexta) -, mas nada que possa ter sido tão marcante, não lembro com exatidão. Mas lembro bem da sexta, porque foi o melhor dia da viagem, então sei que, depois de lidar com o chuveiro de temperatura inajustável que jogava mais água, ou fervente ou gelada, para os lados que para baixo e inundava o banheiro, como eu fazia todas as manhãs, fui ao café mais próximo do hotel em que estava hospedado e que mais me agradou. Cheguei por volta das 9:00. Pedi o de sempre (já tinha um de sempre), a media luna con jamon y queso e o expresso duplo, abri Queremos tanto a Glenda, do Cortázar, que tinha comprado numa feira de livros uns dias antes, e comi e li até por volta das 10:30, aproveitando que lá ninguém te apressa pra desocupar as mesas – nem te atende sem que você atire com um sinalizador no teto do recinto -, até que comecei a me distrair com o celular, buscando sem sucesso um mapa que mostrasse o trajeto saindo de onde estava até o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA). Sem sucesso, fui pagar a conta e aproveitei pra perguntar à moça como que eu chegava ao MALBA. Ela me passou instruções detalhadas com auxílio do computador dela, que pegava a wifi, ao contrário do meu celular. No fim da explicação, deu uma dica fundamental que eu, pretenso flâneur romantique, ignorei – o que nem foi difícil, bastou eu não prestar muita atenção pra captar as palavras em espanhol escondidas atrás do pesado sotaque portenho: pegue o ônibus, tem um ponto [sons de língua tricotando] vai te deixar na porta do MALBA. Quem precisa de motor e rodas?

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Não esse café mencionado, mas um café, e acho que só umas duas quadras depois.

Uma hora depois, eu mancava das duas pernas enquanto me dava conta de que virei a esquerda quando devia seguir reto e tinha de voltar. Cruzo com um indiano que tentou, no espanhol dele, me pedir informação. Perguntei de onde ele era, mas como já contei pra vocês, vou pular a resposta. Então conversamos em inglês sobre o quanto eu estava tão perdido quanto ele. Atravessei a rua e ele ficou na esquina esperando um passante mais útil. Olhei a placa do outro lado da rua e encontrei o que ele procurava. Acenei, mas ele já havia recebido a informação de um nativo. Segui meu caminho e, a essa altura, a dor já era psicológica. Vi um ônibus sair do lado de um ponto e passar pela rua, bem ao meu lado. O ponto estava lá, bem em frente ao MALBA. Pensei no que poderia ter sido. Era inútil pensar. Só fazia que a dor aumentasse. A dor que não existia de verdade.

O MALBA tem uma exposição permanente. Se ela é parte de um acervo maior, sempre em circulação com o passar do tempo, pra variar o conteúdo e preservar melhor as obras, eu não me lembro. Acho que li isso em algum lugar, mas esqueci onde e, por mais que pesquise, não consigo achar nada assim com referência a este museu. Posso ter sonhado ou confundido com o Museu de Belas Artes. A exposição permanente é 60% do conteúdo. O resto são mostras temporárias, visitantes, quase como eu, turistas.

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Não chequei, mas acho que os gatos estão vivos. Só estão pegando sol. Infelizmente, não tive oportunidade de fazer amizade com nenhum deles.

Antes de ir pra Buenos Aires, algumas pessoas, pessoalmente e via postagens de blogue (coisa confiável), disseram que o portenho não é, dentre as criaturas, a mais afável. Minha experiência não foi essa. Lembrei que, na tal esquecida noite de quinta, fui num bar, mas, como era cedo, estava vazio. Aproveitei pra pedir minha comida tranquilo e tomar umas cervejas. O garçom perguntou de onde eu era porque, embora eu acreditasse ser fluente em espanhol, meu sotaque não enganava ninguém. Disse brasileiro e, pronto, o cidadão se empolgou e começou a falar de como ele conheceu/queria conhecer – um desses – a Amazônia e o Rio de Janeiro. Reparei que, ao meu lado, havia uma foto de Vinícius de Moraes, começou a sair das caixas de som música da Ana Cañas ou algum clone dela ou de quem quer tenha sido a original de que surgiu o clone que chamamos Ana Cañas. Ele perguntou o que andava fazendo e eu mencionei o Museu de Belas Artes e o Cemitério e minha ideia de, no dia seguinte, ir ao MALBA. Sim, o MALBA, lá está com uma exposição da Xokono, você viu? Não entendi, exposição de quem? Xokono… Xoko no… Xoko Ono… Ah, Yoko Ono (e foi então que descobri que o argentino, tal qual o francês, pronuncia o idioma dos outros como se fosse o dele). Disse que achava interessante, mas não achava interessante, e queria ver a mostra de Metropolis (Fritz Lang, 1927), a ser exibido às 20:00 daquela sexta, ao ar livre numa praça anexa ao MALBA, com orquestra ao vivo fazendo a trilha sonora. O rapaz falou que mais tarde ia ter uma roda de samba, se eu quisesse ficar pra ver, e até ia, começou a chegar mais gente no local, mas notei que o chope que pedi, o que o garçom disse ser o mais forte oferecido pela casa, tinha gosto de água com gás e perdi o ânimo. Pedi a conta e fui pro hotel.

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O tal museu: de dentro, logo após o primeiro lance de escadas rolantes.

Na entrada do MALBA, pra me receber, uma das estátuas do Jeff Koons passeando por lá até não sei que data. Há quem goste. Olhei pra ela com descaso. Muito brilhosa. Pelo menos não era a do cachorro de bexiga metálico. Era de uma mulher, se bem me lembro. Nem foto tirei, tão grande é meu desgosto pela obra desse cara. Mas isso não importa a ninguém. Tinha gente ao redor da entrada, nos bancos conversando, lendo. Entrei. Um grande salão, logo de início. A obrigatória lojinha de lembranças no canto, ao lado do guarda volumes; além disso, mistério, e duas escadas rolantes que levavam às e voltavam das exposições. Tinha muito o que se ver ali no térreo, mas decidi subir primeiro, ver as obras de fato. Fui à recepção. A moça disse que a entrada era 100 pesos – toda vez a taxa de câmbio me assustava, não tinha um preço na cidade que usasse números baixos -, mas teria de largar a mochila no guarda-volumes. Tirei a câmera de dentro da mochila, entreguei a mochila pra mulher do guarda-volumes. Peguei o comprovante e guardei com cuidado no bolso de dentro do casaco – o da esquerda, repeti mentalmente pra criar uma espécie de memória verbo-mental que não posso comprovar se funciona. Paguei pra entrar no museu e montei num degrau da escada rolante. Gente atrás, gente na frente; se o de cima caísse, haveria tragédia. Mas nunca ninguém cai causando tais efeitos. Não que tenha sido noticiado ou que eu tenha lido a notícia.

Observações aleatórias #4

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1 – Depois de 4 anos de trabalho – não contínuos -, ao terminar a revisão do romance, me dei conta de que não tenho capacidade de julgar sua qualidade. Conheço tão bem o trabalho, a intenção por trás de cada acontecimento e escolha, que não sinto nada ao lê-lo. Existe uma velha máxima do escritor E. B. White que diz: o humor pode ser dissecado, como um sapo, mas a coisa morre no processo. Isso vale pra qualquer coisa, inclusive literatura. O “manuscrito” (a tela digitada) dissecado em minha frente, pra mim, não é mais nada, está morto. Por um lado é bom, porque pode ser que tenha vida pra outra pessoa. Eu quero partir pra próxima. Há anos quero partir pra próxima. Escrita é bem esse negócio da obsessão, a ideia obsessiva que te paralisa até você realizá-la, então ela morre, vai pro inferno que é o processo de tentar publicar, e o autor segue pra próxima obsessão e segue o baile. Ainda estou por descobrir o sentido da coisa toda, mas acho que é como a vida: não tem; você pode inventar, mas, no fim das contas, é história de ninar gente grande. Você precisa dormir quando bota a cabeça no travesseiro, não precisa?

2 – Almoçando com uma amiga do trabalho que já figurou em outras dessas observações, conversando sobre prêmio Sesc, romance terminado, dentre outras chateações, vendo como ela parecia mais empolgada com a coisa do que eu, lembrei e contei pra ela duma entrevista que vi da Zadie Smith com o Charlie Rose (esta múmia pentelha da parte da televisão americana que ainda finge inteligência, ou fingia, a entrevista de que falo foi em 2004 – ? -, não sei… na época em que ela publicou Sobre a Beleza). Nela, Zadie fala de suas ansiedades, enquanto autora, ao ser lida por amigos e família, e perceber que, por seu trabalho ser tão focado no realismo e nas relações familiares, que muitos deles tentavam se identificar entre as personagens. Ela concluiu que não era tão mal, pelo menos ela não escrevia sobre sexo, como Philip Roth, este ela nem imaginava pelo que passava. Podemos concluir, Philip Roth, hoje, vivendo em reclusão no meio do mato ou coisa parecida, que não era fácil pra ele. Eu escrevo sobre sexo também, não que nem ele, sem masturbações com fígados de animais nem masturbações em frente a túmulos, mas tem suas putarias, talvez gozadas despejadas em copos usados de vinho enquanto se assiste um vídeo pornográfico dirigido por Richard Avery, dentre outras cenas, mais todas as drogas e álcool e cigarros. Minha família não vai ficar sabendo desse livro enquanto eles viverem. Quase repensei a ideia de inscrever o livro em qualquer concurso, repensei toda a ideia de publicar. Mas não. Tem que ser. É o único jeito. O que vier depois, foda-se. Tem muitos matos por aí pra eu me isolar.

3 – Isto é um adendo pro texto que escrevi sobre youtubers e seus livros. Esse aqui ó. Não tinha pensado nisso antes e culpo minha leitura de A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord, por me instalar essa nova paranoia – explicando o tom niilista das observações dessa leva. Basicamente o que ele diz na parte Comentários sobre A Sociedade do Espetáculo, escrito umas décadas depois do livro em si, lá pros idos anos 1990, foi que o espetacular permitia que, por exemplo, um museu inaugurasse uma exibição de um artista que não existia, e ninguém se incomodaria com isso, seria artificial, por completo, automático, mas seguiria padrões, e as pessoas poderiam seguir confortavelmente. Lembrei de imediato dos livros do James Patterson, das obras de arte do Jeff Koons e Damien Hirst, e, claro, dos livros de Youtubers. Vou explicar, crianças, acalmem-se. James Patterson é uma marca. Verdade, pode ser que em algum momento da história da carreira dele ele tenha se dedicado a sentar o cu numa cadeira e bater palavras num papel, mas, hoje, ele tem uma equipe de escritores que escrevem as ideias dele em livros mais ou menos seguindo a fórmula que ele desenvolveu. Não é diferente das linhas de produção em indústrias. O desenho e a ideia tão lá, foram desenvolvidos por alguém, tem gente que é paga pra criar, de fato, a coisa física além da ideia. Vende milhões e uma bela porcentagem vai pro Jaiminho, outra, muito maior, vai pra editora – todo mundo feliz, menos alguns leitores e, talvez, os escritores que tiveram que escrever aquela merda. Jeff Koons e Damien Hirst, mais ou menos a mesma coisa hoje em dia. Eles têm a ideia, esboçam, e artistas pagos criam a coisa. Eles recebem os milhões por vender a aberração pra algum colecionador que nem gosta de arte – não pode ser que goste – pra que ele mostre pros amigos em festas (veja só meu tubarão no formol, hohoho…). Youtube é a versão corporativa dessa merda. Por quê? Bom, se James Patterson, Jeff Koons et cetera são marcas, Youtube é a Ambev – Google é a AB Inbev. Youtubers, bom, tem o youtuber Skol, o youtuber Brahma, o youtuber Caracu; vocês – os mais espertos – já sacaram o ponto. Se arte é a expressão física da percepção individual da existência – dentre outras definições -, só se esforçando muito na justificativa essas coisas se encaixam (Youtubers ou James Patterson). Não vai demorar muito pro Google desenvolver um algoritmo que escreva o livro pros Youtubers e James Pattersons da vida, eliminando o inconveniente humano. Sorte que o artista é Blattodeo em essência e, embora muitos talvez não sobrevivam, uns podem ser que resistam o futuro.

4 – Mas em geral as coisas vão bem. Meio cansado. Dor nas costas. Não sei o que é, vem e vai. Fiz uma caipirinha muito boa, depois conto a receita. Tenho uns contos pra escrever ainda. E fico cutucando o último parágrafo do livro sem parar. Como vocês tão?

Observações aleatórias #3

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Tio Alfred vendendo cachimbos em frente aos escombros da loja dele depois de um bombardeio na Segunda Guerra Mundial.

1 – Estou aproveitando o presente que dei a mim mesmo esse natal. Quando comprei meu primeiro cachimbo menos caro, na intenção de levar esse hábito mais a sério, não imaginava que, dois anos depois, eu teria um Dunhill Shell pra chamar de meu. Mas tenho. Comprei um usado na internet a um preço razoável. Levem em conta que um novo chega a custar três mil reais. Ainda por cima, é de, pelas minhas estimativas falhas, de 1957 ou 58 – margem de erro de 3 anos para mais, não para menos. Tenho boa consciência do poder de sugestão das marcas, por isso não vou fingir que fumar um Dunhill foi lá uma experiência religiosa, longe disso. É um cachimbo clássico, perfeitamente construído, mas é só. Muito da lenda foi forjada pelo marketing forte de décadas de presença – lembremos que Alfred Dunhill incentivava seus clientes famosos a aparecerem por aí com cachimbos “white spot” (todo Dunhill tem um ponto branco na piteira). O que me pegou foi mais uma visão bem simplista e um pouco abstrata de panpsiquismo. Suponhamos que árvores, seres vivos que são, tenham uma versão primitiva de consciência ou, sendo elas parte integral do planeta e, portanto, do universo, elas carreguem consigo algo que se possa chamar de memória universal, coisa assim. Partindo desse princípio, em que você pode ou não acreditar, rebobinemos a história desse aparato hoje usado pra carregar fumo em brasa. Tudo começou com uma Urze-molar (Erica arborea). Se o cachimbo de fato é de 1957 ou 1958, a Urze-molar ainda era da Argélia, porque era de lá que vinha a madeira usada para os cachimbos Dunhill Shell, por ser mais macia, deixando marcas mais profundas no fornilho depois do sandblast (jatos de vidro em pó atirados no corpo do cachimbo, formando marcações). A madeira em si deve ser envelhecida um tempo antes de virar cachimbo, logo, já tinha sido planta tantos anos antes. Feito o cachimbo, sabe-se lá o que aconteceu com ele até que chegasse em minhas mãos. Sei que não sou o primeiro dono, mas também é impossível saber se sou o segundo, terceiro ou décimo dono da peça, hoje, restaurada. Antes dos meus pais nascerem, lá estava esse cachimbo, que hoje eu acendo, sendo acendido por sei quem lá, ou no Brasil ou na Inglaterra, saído direto da loja Dunhill, ou em qualquer canto. Seria fascinante ter acesso às memórias desse pedaço de árvore, mas seria também igualmente fascinante ter acesso às memórias de qualquer coisa, principalmente não humana.

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Clarice Lispector, com os olhos, comendo sua alma.

2 – Perto do coração selvagem, da Clarice Lispector, é um dos livros mais fortes e viscerais que já tive o prazer de ter lido. Ou quase ter lido, me falta menos de um terço. É denso, com todo o fluxo de consciência junto da narração em terceira pessoa e das mudanças bruscas – mesmo que raras, pois o livro é uma dissecação da personagem Joana em graus muito além do físico – de ponto de vista. Mostra um conhecimento e humanidade que me surpreenderam, embora não seja o meu primeiro da Clarice (li Hora da Estrela). Que estreia foi a de Clarice! Não só como um romance, a filosofia dentro do livro precede mesmo a forma com que alguns conceitos de identidade feminina foram trabalhados por Simone de Beauvoir e conceitos de erotismo, experiência-limite e continuidade e descontinuidade, foram trabalhados por Georges Bataille (Perto do coração… foi publicado anos antes d’O Segundo Sexo – de Beauvoir – , d’O Erotismo – Bataille, e no mesmo ano d’A Experiência Interior – Bataille). Não por isso chega a ser um livro complexo. Sim, as brincadeiras linguísticas e saltos metafóricos podem deixar pra trás leitores que não curtem muito literatura (e vocês sabem o que eu quero dizer quando falo “literatura”), mas, de modo geral, a fluência da narrativa impede grandes confusões, mesmo que  nada seja cronológico e a linha que separa o real do sonho seja atravessada mais de uma vez.

3 – Outro conceito é o de liberdade, trabalhado com perfeição principalmente no capítulo “Casamento”. Me fez pensar em uma coisa que sempre passeia pela minha cabeça: que pra sermos livres de verdade, de certa forma, temos que deixar de lado nosso conceito formado do que é liberdade, porque isso existe – ideias formadas do que liberdade é, que nos aprisiona. Mesmo que seja impossível viver em plena liberdade com outra pessoa, quando se deixa de viver com outra pessoa, mesmo quando é disso que se tem vontade, se abdica dessa liberdade de igual maneira. A forma mais livre de se viver, se é possível chegar a esse ponto, pode ser que seja com base nas vontades imediatas, sem grandes análises conceituais, porque, independente do que se faça, a satisfação é inalcançável, sempre se deseja aquilo que não é – a decisão tomada pode ter sido a certa, mas a curiosidade por saber o resultado a que a decisão não tomada levaria faz com que se acredite que ela é a errada e a outra era a mais certa ou menos errada. Fui lembrado de uma conversa que tive num bar meses atrás. Ela me dizia alguma coisa que eu não conseguia entender, tanto pela barreira do idioma quanto pela música alta que tocava – e a mistura do álcool com a exaustão no meu sistema não facilitava em nada as coisas. Peço pra repetir, mas sigo não entendendo, até que canso de pedir pra ela repetir e acho que ela cansa de tentar, e respondo: não entendo, mas aceito. Você estuda improviso também?, ela pergunta. Não estudo, nunca fiz nada relacionado a atuação, ao contrário dela, mas pareceu, na hora e desde então, uma boa forma de ver a vida. Não entendendo, porque não dá pra entender tudo, talvez nem haja nada pra se entender e as coisas só sejam, logo, só resta aceitar. Parece uma história besta, mas foi uma das pequenas iluminações, dessas que todos temos, que tive nesse espaço de tempo que decidimos chamar de ano por alguma razão. Não dá pra ser livre sem esquecer o que liberdade é. Claro, a passagem a que me refiro nada tem a ver com essa analogia, mas foi uma dessas ligações que nos levam a outras ideias que nos levam a outras ideias… até que vim parar aqui. O que é meio que o objetivo desses textos. Me alegra que essa será, talvez, minha última leitura do ano,

4 – mesmo que eu seriamente relute a tratar a passagem de um ano pro outro como real. É um esforço consciente, porque eu tenho noção do tal simbolismo da passagem do ano, do sentimento de renovação e recomeço et cetera et cetera, mas acho uma grande bobagem e, por mais tentador que seja se entregar a bobagens, prefiro pensar que é um erro do ser humano usar seus números e contagens inventadas para contabilizar movimentos cósmicos existentes desde muito antes (muito, bota aí uns bilhões de anos, pra usar os tais dos números) do surgimento do ser humano. Não há nada errado nas festas, nos encontros típicos da época, mas a pressão posta nesse dia, no dito símbolo de renovação, acaba matando seu propósito, vira razão de angústia. É sempre bom lembrar que o “ano” é só uma contagem inventada pra facilitar o cotidiano da nossa espécie, que é movida por um conceito de tempo também inventado, porque é por ele que se medem prazos, expedientes e tudo mais que nós inventamos pra fazer da existência algo um pouco mais insuportável, e, lembrando disso, nem que seja só pra resistir um pouquinho, deixar essa contagem de lado de vez em quando e, no lugar dela, botar as, como coloquei no item acima, pequenas iluminações, coisas que não acontecem no natal ou no réveillon, mas em todos os momentos, parar de pensar no que foi feito nos 365 dias do determinado ano, e só pensar em tudo que aconteceu ao longo da sua vida, que não significa nada em grande escala, mas é o que você tem, então aceite porque é tudo. Quem sabe assim vocês parem de me incomodar com essas merdas de fogos de artifício, ô caralho.