Uma tarde no MALBA – parte 2 (Diário de viagem #5)

Antes leia a parte 1, cacete.

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Difícil comentar o conteúdo de um museu de arte sem que a descrição seja seca ou vazia ou desnecessariamente crítica – o que fica pior quando, como no meu caso, não se é crítico de arte. E dizer que tem quadros é óbvio. Estou arriscando cair no superficial agora, mas fui eu que montei essa armadilha pra mim mesmo quando me decidi escrever sobre uma visita ao museu. Me resta continuar como comecei e bancar a câmera flutuante. Atravessando a entrada da primeira sala depois da escada rolante, ficou claro que o foco do acervo estava na arte moderna e o que veio depois. Sem muita distinção entre quadros, esculturas, fotografia, vídeos… um museu de artes visuais bastante abrangente. Do lado de fora da primeira sala, havia um corredor com várias televisões, passando filmes em loop. O visitante poderia pegar um fone de ouvido e assistir, se assim desejasse. Que eu me lembre, entre outros filmes, estava passando Medianeras.

Como parecia ser uma constante na minha viagem, por onde passava via um pouco do Brasil. O primeiro quadro a me chamar atenção era justo o de Tarsila do Amaral, Abaporu, em destaque no corredor que levava à segunda sala. Vi outras obras de brasileiros por lá, inclusive, algo me diz, outra de Tarsila, mas devia ter levado um bloco de notas ou coisa assim. Tinha, então, a ideia de escrever uma espécie de diário de viagem, mas nada nessas proporções nem que fosse especificamente sobre o museu. Lembro de ter visto um quadro de Oswald de Andrade. Um quadro enorme, sobre o qual não lembro nada, mas lembro da minha surpresa ao descobrir que Oswald pintava. Ao lado, seu manifesto modernista, aberto, protegido por vidro, do ar e dos dedos.

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Sem anotações, com a memória vaga, fica complicado escrever qualquer coisa de muito significativo sobre as obras de arte lá expostas. Como de costume na arte, tem suas polêmicas. A instalação que é só um anúncio de aluga-se. Por um instante, achei que fosse mesmo um anúncio e estivessem com um espaço livre, mas, na verdade, era “arte conceitual” expondo o mercantilismo presente no mundo artístico “atualmente” (as aspas porque, se não estou me confundindo, essa instalação é da década de 80; se algo mudou desde então foi pra pior). Imagens de pobreza e festa também são constantes, parte inseparável da América Latina, de certa forma. Cores, decadência, esperança, miséria. Ao mesmo tempo, um desejo por revolução. Esse é o espírito do MALBA, como um todo, independente do que diga cada obra por si própria. Existem correntes invisíveis espalhadas por toda a América Latina, nós sabemos de onde elas vêm. Uns as querem partir, outros estão acostumados ao aperto nos punhos e até gostam delas como enfeite. No MALBA, pulsa o desejo de liberdade do nosso continente, desejo sempre frustrado, quando não por forças externar dominantes, os mestres de nossas correntes, são nossos próprios males internos historicamente enraizados que nos derrubam. Talvez por isso tenha me incomodado mais do que deveria com as exposições convidadas: Jeff Koons, sobre o qual já reclamei em várias ocasiões e, sem querer me repetir, não acho que passe de uma esteira industrial de mau gosto (pelo menos a parte da obra dele que eu conheço); e Yoko Ono, que ocupava todo o andar acima.

Subi o segundo lance de escadas rolantes. Havia uma placa em frente à entrada indicando que ali começava a exposição da Yoko Ono. Fico pensando se deveria botar aqui minha opinião sobre Lennon e Yoko. Mentira, não é conflito algum, talvez o grande motivo de eu ter começado a escrever esse texto tenha sido pra expressar minha opinião sobre o significado por trás da obra desses dois artistas. E por que eu boto os dois no mesmo prato como se fossem arroz e feijão? Porque é isso mesmo. Boa parte da obra de Yoko exposta no MALBA era composta de frases feitas do Lennon, dos ideais que ele usou ao longo da vida pra encher a própria conta bancária – com sucesso. Mas estou me adiantando e, até agora, se eu estou certo e vocês já discordam de mim, só fiz foi gerar hostilidade entre mim e vocês, supostos leitores.

Entrei na sala e escutei um zumbido. Vinha de uma caixa de som tocando um disco dela que era, se não me engano, uma longa gravação do zumbido de uma mosca. Ao lado, em loop, um vídeo de uma mulher (provavelmente a Yoko, não vi o rosto), nua, deitada numa cama, enquanto uma mosca caminhava pelo seu corpo, do pé à cabeça. De todas as obras presentes, essa combinação som e vídeo foi a mais impressionante pra mim. Não imaginava como ela poderia ter sido feita. Moscas não são seres atentos e treináveis. Se parece que estou sendo sarcástico por culpa do parágrafo anterior, não exatamente elogioso, não estou. Gosto de ver coisas e não fazer ideia de como elas foram feitas. Traz à tona o aspecto mágico da criação artística.

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Não relacionada à exposição da Yoko. Não tirei fotos dessa parte. Tinha muita gente. Sou tímido.

Foi o que veio depois que, na falta de palavras melhores, me irritou. Exemplo: uma cruz de madeira, de uns 2 metros de altura, coberta de pregos; anexada à ela, um martelo, e, no chão, ao lado da cruz, uma caixa de pregos soltos; o observador era convidado a pegar um prego e pregá-lo na cruz. Pode ser cinismo da minha parte – toda a crítica que está por vir deve de ser meu cinismo falando mais alto, estou tentando trabalhar nisso -, mas achei bastante ridícula a montagem. Sim, compreendo o simbolismo cristão, a ideia de todos estarmos envolvidos no “flagelo de Cristo”… Ai ai, se é que era isso mesmo que a peça queria representar. Mas tinha um pai segurando o filho no colo pra que ele pregasse um prego na cruz também, tentando manter o equilíbrio pra que a esposa dele pudesse tirar uma foto sem que ela saísse tremida. Uns passos depois, um grande mapa-múndi todo carimbado com a palavra Peace (paz, caso alguém não saiba). Sobre uma mesa, um carimbo; colada na parede, uma folha com instruções que diziam: carimbe o lugar do mundo em que você queria que houvesse paz. Desnecessário dizer que havia gente tirando uma selfie enquanto carimbava, e forçando crianças a posarem pra fotos enquanto carimbava. Apesar dos esforços hercúleos de Sra. Ono, no entanto, ainda não há paz no mundo.

É esse o meu problema. Em se tratando de paz e coisas assim, não sei lidar com gente que usa essa necessidade pra fins comerciais. E é nisso que acho que a carreira de John Lennon se baseou (pós-Beatles) e em que a carreira de Yoko Ono se baseia. Velhas ideias, nada originais, propositalmente ingênuas, pedindo por paz sem fazer nada por isso, que vendem bem porque trazem uma mensagem identificável: todos querem paz sem ter que trabalhar por isso e, principalmente, é muito legal mostrar pros outros o quanto você se importa, independente do quanto os atos amplamente divulgados de fato afetam  a situação do mundo, desde que dê pra colocar um preço neste ato. É muito bom e fácil pregar pobreza e simplicidade enquanto se vive no luxo, distante da nojeira que é a pobreza que se explora. Enfim, já fui longe demais. Tinham várias outras instalações ali que trabalhavam com as mesmas ideias de forma diferente. Tinham frases do John Lennon escritas nas paredes – deixem o homem descansar; mesmo que o caráter dele tenha sido, na minha opinião (antes que me preguem na tal cruz – ha! ninguém vai me pregar na cruz por isso, ninguém nem vai ler isso aqui!) duvidoso. Ao meu lado, enquanto voltava todo o caminho pela sala em direção às escadas rolantes, passou um brasileiro que dizia: essa é a típica artista, nada aqui significa porra nenhuma, mas a gente tem que olhar e fingir que entende. Quem não entendeu o comentário fui eu. Aquela exposição, boa ou ruim, não podia ser mais compreensível. O significado dela estava escrito e desenhado por todas as paredes e até no teto (literalmente): paz, assim como a guerra, vende.

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Passei uma última vez pelas obras do primeiro andar pra esquecer de Xoko Ono, como havia dito o garçom uma noite antes. De volta ao térreo, descobri que tinha um cinema lá passando dois filmes, de graça, mas os horários ainda estavam distantes e havia a apresentação orquestrada de Metrópolis, que eu não estava bem certo se iria mesmo ver. Ainda lá, seguindo reto da entrada, uma espécie de memorial das ditaduras militares nas Américas, um lembrete pra que ninguém duvide que aconteceu, que teve vítimas e que não deve se repetir. Vendo as imagens dos vários ditadores de cada país e seus anos de atuação, me perguntava se tinha algo assim no Brasil. Era, ainda é, necessário, com o sempre crescente movimento de viúvos e viúvas do chumbo. Numa sala anexa, arquivos para consulta pública com dossiês expondo, com notícias da época (antes, durante e depois), estatísticas, documentos políticos e diplomáticos, depoimentos et cetera. Completíssimo e, não bastasse, cópias das folhas dos dossiês enfeitavam todo o museu.

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A operação Estadounidense que financiou os golpes e ditaduras na América do Sul (e Henry Kissinger, canalha, ainda vivo porque vaso ruim não quebra, na mesma época, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por não levar a paz no Vietnã, enquanto financiava as mortes na América do Sul e Central, e no Timor Leste, entre outros locais – crimes internacionais pelos quais ele nunca pagará, nem os chefes dele. Provando que a história se repete, Obama leva o mesmo prêmio por não dar fim a guerra no Iraque. É assim que as coisas são. Carimbemos um mapa-múndi. Ou nos refugiemos na mansão da Yoko. Sendo justo, as ideias dela são ingênuas, um pouco tóxicas (não é bom viver numa nuvem) e cheiram à hipocrisia, mas não são monstruosas, pelo menos.

Saí feliz pela visita e pela memória que reterei pelo tempo que durar minha memória. Ainda era cedo, tinha horas até a exibição de Metrópolis. As nuvens estavam pesadas, preferi não ficar por lá porque, em caso de chuva, a apresentação seria cancelada e eu perderia uma noite. Fui a um café, pedi algo pra comer e um café. Por algum motivo olhei meu celular e vi um número absurdo de mensagens nos dois grupos da empresa em que trabalho. Com medo de que a empresa houvesse falido na minha ausência (teria procurado um emprego em Buenos Aires, se tivesse sido o caso), abri as mensagens e vi que foi só um incêndio. Aconteceu de madrugada, estavam todos bem e, o escritório, só defumado, sem nenhum dano. Decidi, respirando fundo,  aliviado, que daria uma olhada no tal do Jardim Japonês, e, à noite, iria a um bar de que tinha ouvido falar antes da viagem. Não choveu e até hoje não vi Metrópolis, com ou sem orquestra, ao ar livre ou em casa. Mesmo assim, o universo me provou mais uma vez que ir ao bar é sempre a decisão certa.

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Observações aleatórias #5

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1 – Ainda falando do romance terminado, talvez porque ontem tenham se encerrado as inscrições para o tal prêmio, achei melhor tirar umas férias rápidas da ficção. Montes de escritores foram obrigados a publicar suas “regras” pra escrita. Henry Miller foi um deles. Entre as regras dele, estava inclusa: saia de casa, vá aos cafés e aos bares, mantenha-se humano. Essas regras, independente do autor que as invente, são sempre questionáveis, às vezes se contradizem, não têm valor nenhum, mas são obsessão inevitável dos autores novatos. Já que não tem escola que possa nos ensinar a escrever, as palavras de auxílio dos que conseguiram aprender são buscadas, não como guia pro que fazer mas como reafirmação de que aquilo que se está fazendo é certo. Porque não dá pra saber. Mas não era sobre isso que eu queria escrever agora. Era sobre as tais “férias”. “Mantenha-se humano” não é uma dica exagerada. O grau de isolamento a que a escrita de um romance incentiva é desumanizante. Não que eu, ou qualquer outra pessoa – embora tenham casos assim -, tenha me trancado num quarto durante todo o processo. Mas é um isolamento mental. Uma indisposição para receber coisas do mundo. Durante a escrita do rascunho, ainda acontece. Mas, uma vez avançada a revisão, o polimento da obra bruta, se cria um medo de descobrir qualquer coisa nova, de se experienciar algo que possa te fazer querer mudar os rumos do romance. Isso pode tirar uma pessoa do mundo ao redor dela de modo surpreendente e prejudicial. O que não se ouve com frequência, mas pra mim é verdade, é que é muito fácil se entregar ao isolamento. O que estou fazendo agora é, aos poucos, me abrindo outra vez.

2 – Escrever poesia tem sido uma ótima forma de voltar. Ainda é escrita, mas não é ficção, não envolve estrutura nem nada que seja fechado em si mesmo. Pelo menos não o tipo de poesia autológica que estou fazendo. Não tenho intenção de publicar esses poemas. Não aqui, não em livro. Sim, há sempre o ainda. Mas é que também é muito fácil não publicar. Digo melhor, é um conflito. O ego é forte. Às vezes, quando tenho a ilusão de que me supero num verso ou num poema completo, a primeira coisa em que penso é: tenho que botar isso no blog. Não sei por qual motivo esse pensamento me vem. Não é como se alguém o fosse ler por aqui e essa leitura fosse mudar a minha vida ou a do leitor de alguma forma – este é o segundo pensamento, o que eu sigo, e a razão de vocês não terem visto nada do caderno aqui (ainda). Desde então, tenho caminhado com meu caderno, tenho escrito em praças, em lugares que não o meu quarto; eis a importância do ato: permitir que eu saia, observe, anote, receba, entre de volta no mundo de que tentei sair. Ao mesmo tempo, a liberdade é parte essencial dessa ideia. Se começo a escrever pensando na recepção que o poema pode ter no blog (nunca tem uma recepção, mas sempre tem a expectativa de uma recepção qualquer que seja), posso deixar de escrever determinadas palavras, o que me fecha de novo.

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3 – E falando em experiências e contato, fui num boteco à beira da praia com um pessoal do trabalho. Quem me conhece sabe da dificuldade que é me botar perto da praia. Mas lá estávamos nós – não todo o escritório, éramos quatro no total -, bebendo água com gás feita de milho, falando bobagens. (Bom, daqui em diante, vai ficar muito ruim e repetitivo se eu tentar escrever a conversa sem citar nomes, então vou fazer pseudônimos pra facilitar meu trabalho. À mesa havia: eu, que continuarei como eu; Olga, a mais velha entre nós; Júlia e Vera. Pronto. Se bem que eu poderia botar os nomes verdadeiros e vocês não fariam ideia. E elas nem sabem que escrevo, então não é como se houvesse risco de elas acharem isso aqui. Não seria paranoia se fizesse sentido.) Como sempre acontece nessas situações, não sei como chegamos a esse assunto, mas Olga, que havia almoçado comigo num quilo perto do escritório, disse:

– Me apaixonei hoje (…) O cara mais lindo. Trabalha no Santander (…) Agora que sei que ele almoça lá, vou continuar indo pra ver se consigo falar com ele.

Eu: – Que coincidência, também tô de olho numa moça que vi lá, a que fica no caixa (…)

E começamos a discutir sobre as dificuldades de aproximar pessoas desconhecidas fora do contexto maravilhoso que é o bar. Nisso, percebi uma grande diferença entre mim e Olga, ou, como já deveria ter me dado conta muito antes dessa conversa (e, notando a extensão disso aqui e o quanto ainda falta pra terminar a história, tô começando a achar que era melhor ter feito disso postagem individual, mas agora foda-se): sem trocar palavra com o cara, ela já sabia nome, local de trabalho e cargo, estado civil, além de saber de alguns gostos pessoais dele e ter “amigos” em comum. Sim, estou falando do facebook, que me recuso a ter. E, por me recusar, ainda não sei o nome da moça, nem nada sobre ela. Enfim, falamos do tal ato de stalkear (espreitar, povo, existe palavra em português pra isso, pode ser espionar também, bisbilhotar, fuçar, cavocar, caçar… stalkear é a palavra mais feia que o estrangeirismo pôde conceber – empoderamento estando logo ao lado, junto do termo off, ao invés de desconto; parem com essas merdas e aprendam seu próprio idioma), estratégias de aproximação, a zona ambígua que separa atração e hospitalidade, e tudo o mais. Sim, isso são mais notas pra um futuro texto. Não vai dar pra falar do quanto eu acho que estamos perdendo a diversão e o risco da descoberta pessoal em tão poucas linhas. Fica prum futuro próximo.

4 – Decidi encerrar as observações indicando um disco, de agora em diante. Algo que eu esteja escutando com frequência no espaço de tempo próximo ao do momento em que as observações estão sendo escritas. O dessa vez é o disco Cheftak, da dupla libanesa de trip-hop Soap Kills. Nada a ver com o que eu costumo escutar. Na verdade, por ter muito de eletrônico, é quase um oposto, mas estou gostando. Metade da dupla é a Yasmine Hamdan, que faz aparição em Only Lovers Left Alive (sim, estou citando Jim Jarmusch outra vez, e, quer saber?, a observação número 2 foi toda inspirada por Paterson, o filme mais recente dele, sobre o qual não paro de falar: acostumem-se), e não há palavras no dicionário que façam jus à exuberância dessa mulher. Escutem o disco e depois me digam. Participem dessa porra. Se eu quisesse que esse blogue fosse o monólogo de um cidadão perturbado, teria fechado a caixa de comentários há muitos anos. Eu tenho esse poder, mas preferiria que esse blogue fosse uma série de diálogos com um cidadão perturbado. Não gosto de falar sozinho, tenho medo de ouvir respostas de novo.

Obs.1: Ah é, não sei botar vídeos do youtube via wordpress. Bom, tá aí o link pra uma música do disco. Mas tem o disco todo no youtube, só não num vídeo só. Vão procurar, bando de vagabundo.

Obs.2: Vejam só, o link vira uma caixa de vídeo sozinho. Bom, o troço aqui podia ter me avisado que isso ia acontecer. Não vou apagar a observação acima, quero que o transtorno fique registrado.

Uma tarde no MALBA – parte 1 (Diário de Viagem #4)

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O tal museu: de fora.

As pernas ainda não recuperadas do dia anterior, quando eu fui ao Museu de Belas Artes e aproveitei, depois, que estava perdido no bairro de Recoleta pra caminhar por lá, ver as casas, achar o Cemitério (mas não os túmulos de Bioy Casares nem das irmãs Ocampo nem de Macedonio Fernández – e descobrir que Roberto Arlt foi cremado e nunca esteve lá -, e, de quebra, ter uns 3 brasileiros me perguntando em portunhol como achar o local de descanso da Evita – que eu não estava procurando e não achei nem por acidente). Fiz mais tantas coisas entre o fim da tarde e noite de quinta – dia antes do dia em que se passa este relato (sexta) -, mas nada que possa ter sido tão marcante, não lembro com exatidão. Mas lembro bem da sexta, porque foi o melhor dia da viagem, então sei que, depois de lidar com o chuveiro de temperatura inajustável que jogava mais água, ou fervente ou gelada, para os lados que para baixo e inundava o banheiro, como eu fazia todas as manhãs, fui ao café mais próximo do hotel em que estava hospedado e que mais me agradou. Cheguei por volta das 9:00. Pedi o de sempre (já tinha um de sempre), a media luna con jamon y queso e o expresso duplo, abri Queremos tanto a Glenda, do Cortázar, que tinha comprado numa feira de livros uns dias antes, e comi e li até por volta das 10:30, aproveitando que lá ninguém te apressa pra desocupar as mesas – nem te atende sem que você atire com um sinalizador no teto do recinto -, até que comecei a me distrair com o celular, buscando sem sucesso um mapa que mostrasse o trajeto saindo de onde estava até o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA). Sem sucesso, fui pagar a conta e aproveitei pra perguntar à moça como que eu chegava ao MALBA. Ela me passou instruções detalhadas com auxílio do computador dela, que pegava a wifi, ao contrário do meu celular. No fim da explicação, deu uma dica fundamental que eu, pretenso flâneur romantique, ignorei – o que nem foi difícil, bastou eu não prestar muita atenção pra captar as palavras em espanhol escondidas atrás do pesado sotaque portenho: pegue o ônibus, tem um ponto [sons de língua tricotando] vai te deixar na porta do MALBA. Quem precisa de motor e rodas?

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Não esse café mencionado, mas um café, e acho que só umas duas quadras depois.

Uma hora depois, eu mancava das duas pernas enquanto me dava conta de que virei a esquerda quando devia seguir reto e tinha de voltar. Cruzo com um indiano que tentou, no espanhol dele, me pedir informação. Perguntei de onde ele era, mas como já contei pra vocês, vou pular a resposta. Então conversamos em inglês sobre o quanto eu estava tão perdido quanto ele. Atravessei a rua e ele ficou na esquina esperando um passante mais útil. Olhei a placa do outro lado da rua e encontrei o que ele procurava. Acenei, mas ele já havia recebido a informação de um nativo. Segui meu caminho e, a essa altura, a dor já era psicológica. Vi um ônibus sair do lado de um ponto e passar pela rua, bem ao meu lado. O ponto estava lá, bem em frente ao MALBA. Pensei no que poderia ter sido. Era inútil pensar. Só fazia que a dor aumentasse. A dor que não existia de verdade.

O MALBA tem uma exposição permanente. Se ela é parte de um acervo maior, sempre em circulação com o passar do tempo, pra variar o conteúdo e preservar melhor as obras, eu não me lembro. Acho que li isso em algum lugar, mas esqueci onde e, por mais que pesquise, não consigo achar nada assim com referência a este museu. Posso ter sonhado ou confundido com o Museu de Belas Artes. A exposição permanente é 60% do conteúdo. O resto são mostras temporárias, visitantes, quase como eu, turistas.

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Não chequei, mas acho que os gatos estão vivos. Só estão pegando sol. Infelizmente, não tive oportunidade de fazer amizade com nenhum deles.

Antes de ir pra Buenos Aires, algumas pessoas, pessoalmente e via postagens de blogue (coisa confiável), disseram que o portenho não é, dentre as criaturas, a mais afável. Minha experiência não foi essa. Lembrei que, na tal esquecida noite de quinta, fui num bar, mas, como era cedo, estava vazio. Aproveitei pra pedir minha comida tranquilo e tomar umas cervejas. O garçom perguntou de onde eu era porque, embora eu acreditasse ser fluente em espanhol, meu sotaque não enganava ninguém. Disse brasileiro e, pronto, o cidadão se empolgou e começou a falar de como ele conheceu/queria conhecer – um desses – a Amazônia e o Rio de Janeiro. Reparei que, ao meu lado, havia uma foto de Vinícius de Moraes, começou a sair das caixas de som música da Ana Cañas ou algum clone dela ou de quem quer tenha sido a original de que surgiu o clone que chamamos Ana Cañas. Ele perguntou o que andava fazendo e eu mencionei o Museu de Belas Artes e o Cemitério e minha ideia de, no dia seguinte, ir ao MALBA. Sim, o MALBA, lá está com uma exposição da Xokono, você viu? Não entendi, exposição de quem? Xokono… Xoko no… Xoko Ono… Ah, Yoko Ono (e foi então que descobri que o argentino, tal qual o francês, pronuncia o idioma dos outros como se fosse o dele). Disse que achava interessante, mas não achava interessante, e queria ver a mostra de Metropolis (Fritz Lang, 1927), a ser exibido às 20:00 daquela sexta, ao ar livre numa praça anexa ao MALBA, com orquestra ao vivo fazendo a trilha sonora. O rapaz falou que mais tarde ia ter uma roda de samba, se eu quisesse ficar pra ver, e até ia, começou a chegar mais gente no local, mas notei que o chope que pedi, o que o garçom disse ser o mais forte oferecido pela casa, tinha gosto de água com gás e perdi o ânimo. Pedi a conta e fui pro hotel.

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O tal museu: de dentro, logo após o primeiro lance de escadas rolantes.

Na entrada do MALBA, pra me receber, uma das estátuas do Jeff Koons passeando por lá até não sei que data. Há quem goste. Olhei pra ela com descaso. Muito brilhosa. Pelo menos não era a do cachorro de bexiga metálico. Era de uma mulher, se bem me lembro. Nem foto tirei, tão grande é meu desgosto pela obra desse cara. Mas isso não importa a ninguém. Tinha gente ao redor da entrada, nos bancos conversando, lendo. Entrei. Um grande salão, logo de início. A obrigatória lojinha de lembranças no canto, ao lado do guarda volumes; além disso, mistério, e duas escadas rolantes que levavam às e voltavam das exposições. Tinha muito o que se ver ali no térreo, mas decidi subir primeiro, ver as obras de fato. Fui à recepção. A moça disse que a entrada era 100 pesos – toda vez a taxa de câmbio me assustava, não tinha um preço na cidade que usasse números baixos -, mas teria de largar a mochila no guarda-volumes. Tirei a câmera de dentro da mochila, entreguei a mochila pra mulher do guarda-volumes. Peguei o comprovante e guardei com cuidado no bolso de dentro do casaco – o da esquerda, repeti mentalmente pra criar uma espécie de memória verbo-mental que não posso comprovar se funciona. Paguei pra entrar no museu e montei num degrau da escada rolante. Gente atrás, gente na frente; se o de cima caísse, haveria tragédia. Mas nunca ninguém cai causando tais efeitos. Não que tenha sido noticiado ou que eu tenha lido a notícia.

Observações aleatórias #4

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1 – Depois de 4 anos de trabalho – não contínuos -, ao terminar a revisão do romance, me dei conta de que não tenho capacidade de julgar sua qualidade. Conheço tão bem o trabalho, a intenção por trás de cada acontecimento e escolha, que não sinto nada ao lê-lo. Existe uma velha máxima do escritor E. B. White que diz: o humor pode ser dissecado, como um sapo, mas a coisa morre no processo. Isso vale pra qualquer coisa, inclusive literatura. O “manuscrito” (a tela digitada) dissecado em minha frente, pra mim, não é mais nada, está morto. Por um lado é bom, porque pode ser que tenha vida pra outra pessoa. Eu quero partir pra próxima. Há anos quero partir pra próxima. Escrita é bem esse negócio da obsessão, a ideia obsessiva que te paralisa até você realizá-la, então ela morre, vai pro inferno que é o processo de tentar publicar, e o autor segue pra próxima obsessão e segue o baile. Ainda estou por descobrir o sentido da coisa toda, mas acho que é como a vida: não tem; você pode inventar, mas, no fim das contas, é história de ninar gente grande. Você precisa dormir quando bota a cabeça no travesseiro, não precisa?

2 – Almoçando com uma amiga do trabalho que já figurou em outras dessas observações, conversando sobre prêmio Sesc, romance terminado, dentre outras chateações, vendo como ela parecia mais empolgada com a coisa do que eu, lembrei e contei pra ela duma entrevista que vi da Zadie Smith com o Charlie Rose (esta múmia pentelha da parte da televisão americana que ainda finge inteligência, ou fingia, a entrevista de que falo foi em 2004 – ? -, não sei… na época em que ela publicou Sobre a Beleza). Nela, Zadie fala de suas ansiedades, enquanto autora, ao ser lida por amigos e família, e perceber que, por seu trabalho ser tão focado no realismo e nas relações familiares, que muitos deles tentavam se identificar entre as personagens. Ela concluiu que não era tão mal, pelo menos ela não escrevia sobre sexo, como Philip Roth, este ela nem imaginava pelo que passava. Podemos concluir, Philip Roth, hoje, vivendo em reclusão no meio do mato ou coisa parecida, que não era fácil pra ele. Eu escrevo sobre sexo também, não que nem ele, sem masturbações com fígados de animais nem masturbações em frente a túmulos, mas tem suas putarias, talvez gozadas despejadas em copos usados de vinho enquanto se assiste um vídeo pornográfico dirigido por Richard Avery, dentre outras cenas, mais todas as drogas e álcool e cigarros. Minha família não vai ficar sabendo desse livro enquanto eles viverem. Quase repensei a ideia de inscrever o livro em qualquer concurso, repensei toda a ideia de publicar. Mas não. Tem que ser. É o único jeito. O que vier depois, foda-se. Tem muitos matos por aí pra eu me isolar.

3 – Isto é um adendo pro texto que escrevi sobre youtubers e seus livros. Esse aqui ó. Não tinha pensado nisso antes e culpo minha leitura de A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord, por me instalar essa nova paranoia – explicando o tom niilista das observações dessa leva. Basicamente o que ele diz na parte Comentários sobre A Sociedade do Espetáculo, escrito umas décadas depois do livro em si, lá pros idos anos 1990, foi que o espetacular permitia que, por exemplo, um museu inaugurasse uma exibição de um artista que não existia, e ninguém se incomodaria com isso, seria artificial, por completo, automático, mas seguiria padrões, e as pessoas poderiam seguir confortavelmente. Lembrei de imediato dos livros do James Patterson, das obras de arte do Jeff Koons e Damien Hirst, e, claro, dos livros de Youtubers. Vou explicar, crianças, acalmem-se. James Patterson é uma marca. Verdade, pode ser que em algum momento da história da carreira dele ele tenha se dedicado a sentar o cu numa cadeira e bater palavras num papel, mas, hoje, ele tem uma equipe de escritores que escrevem as ideias dele em livros mais ou menos seguindo a fórmula que ele desenvolveu. Não é diferente das linhas de produção em indústrias. O desenho e a ideia tão lá, foram desenvolvidos por alguém, tem gente que é paga pra criar, de fato, a coisa física além da ideia. Vende milhões e uma bela porcentagem vai pro Jaiminho, outra, muito maior, vai pra editora – todo mundo feliz, menos alguns leitores e, talvez, os escritores que tiveram que escrever aquela merda. Jeff Koons e Damien Hirst, mais ou menos a mesma coisa hoje em dia. Eles têm a ideia, esboçam, e artistas pagos criam a coisa. Eles recebem os milhões por vender a aberração pra algum colecionador que nem gosta de arte – não pode ser que goste – pra que ele mostre pros amigos em festas (veja só meu tubarão no formol, hohoho…). Youtube é a versão corporativa dessa merda. Por quê? Bom, se James Patterson, Jeff Koons et cetera são marcas, Youtube é a Ambev – Google é a AB Inbev. Youtubers, bom, tem o youtuber Skol, o youtuber Brahma, o youtuber Caracu; vocês – os mais espertos – já sacaram o ponto. Se arte é a expressão física da percepção individual da existência – dentre outras definições -, só se esforçando muito na justificativa essas coisas se encaixam (Youtubers ou James Patterson). Não vai demorar muito pro Google desenvolver um algoritmo que escreva o livro pros Youtubers e James Pattersons da vida, eliminando o inconveniente humano. Sorte que o artista é Blattodeo em essência e, embora muitos talvez não sobrevivam, uns podem ser que resistam o futuro.

4 – Mas em geral as coisas vão bem. Meio cansado. Dor nas costas. Não sei o que é, vem e vai. Fiz uma caipirinha muito boa, depois conto a receita. Tenho uns contos pra escrever ainda. E fico cutucando o último parágrafo do livro sem parar. Como vocês tão?

Observações aleatórias #3

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Tio Alfred vendendo cachimbos em frente aos escombros da loja dele depois de um bombardeio na Segunda Guerra Mundial.

1 – Estou aproveitando o presente que dei a mim mesmo esse natal. Quando comprei meu primeiro cachimbo menos caro, na intenção de levar esse hábito mais a sério, não imaginava que, dois anos depois, eu teria um Dunhill Shell pra chamar de meu. Mas tenho. Comprei um usado na internet a um preço razoável. Levem em conta que um novo chega a custar três mil reais. Ainda por cima, é de, pelas minhas estimativas falhas, de 1957 ou 58 – margem de erro de 3 anos para mais, não para menos. Tenho boa consciência do poder de sugestão das marcas, por isso não vou fingir que fumar um Dunhill foi lá uma experiência religiosa, longe disso. É um cachimbo clássico, perfeitamente construído, mas é só. Muito da lenda foi forjada pelo marketing forte de décadas de presença – lembremos que Alfred Dunhill incentivava seus clientes famosos a aparecerem por aí com cachimbos “white spot” (todo Dunhill tem um ponto branco na piteira). O que me pegou foi mais uma visão bem simplista e um pouco abstrata de panpsiquismo. Suponhamos que árvores, seres vivos que são, tenham uma versão primitiva de consciência ou, sendo elas parte integral do planeta e, portanto, do universo, elas carreguem consigo algo que se possa chamar de memória universal, coisa assim. Partindo desse princípio, em que você pode ou não acreditar, rebobinemos a história desse aparato hoje usado pra carregar fumo em brasa. Tudo começou com uma Urze-molar (Erica arborea). Se o cachimbo de fato é de 1957 ou 1958, a Urze-molar ainda era da Argélia, porque era de lá que vinha a madeira usada para os cachimbos Dunhill Shell, por ser mais macia, deixando marcas mais profundas no fornilho depois do sandblast (jatos de vidro em pó atirados no corpo do cachimbo, formando marcações). A madeira em si deve ser envelhecida um tempo antes de virar cachimbo, logo, já tinha sido planta tantos anos antes. Feito o cachimbo, sabe-se lá o que aconteceu com ele até que chegasse em minhas mãos. Sei que não sou o primeiro dono, mas também é impossível saber se sou o segundo, terceiro ou décimo dono da peça, hoje, restaurada. Antes dos meus pais nascerem, lá estava esse cachimbo, que hoje eu acendo, sendo acendido por sei quem lá, ou no Brasil ou na Inglaterra, saído direto da loja Dunhill, ou em qualquer canto. Seria fascinante ter acesso às memórias desse pedaço de árvore, mas seria também igualmente fascinante ter acesso às memórias de qualquer coisa, principalmente não humana.

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Clarice Lispector, com os olhos, comendo sua alma.

2 – Perto do coração selvagem, da Clarice Lispector, é um dos livros mais fortes e viscerais que já tive o prazer de ter lido. Ou quase ter lido, me falta menos de um terço. É denso, com todo o fluxo de consciência junto da narração em terceira pessoa e das mudanças bruscas – mesmo que raras, pois o livro é uma dissecação da personagem Joana em graus muito além do físico – de ponto de vista. Mostra um conhecimento e humanidade que me surpreenderam, embora não seja o meu primeiro da Clarice (li Hora da Estrela). Que estreia foi a de Clarice! Não só como um romance, a filosofia dentro do livro precede mesmo a forma com que alguns conceitos de identidade feminina foram trabalhados por Simone de Beauvoir e conceitos de erotismo, experiência-limite e continuidade e descontinuidade, foram trabalhados por Georges Bataille (Perto do coração… foi publicado anos antes d’O Segundo Sexo – de Beauvoir – , d’O Erotismo – Bataille, e no mesmo ano d’A Experiência Interior – Bataille). Não por isso chega a ser um livro complexo. Sim, as brincadeiras linguísticas e saltos metafóricos podem deixar pra trás leitores que não curtem muito literatura (e vocês sabem o que eu quero dizer quando falo “literatura”), mas, de modo geral, a fluência da narrativa impede grandes confusões, mesmo que  nada seja cronológico e a linha que separa o real do sonho seja atravessada mais de uma vez.

3 – Outro conceito é o de liberdade, trabalhado com perfeição principalmente no capítulo “Casamento”. Me fez pensar em uma coisa que sempre passeia pela minha cabeça: que pra sermos livres de verdade, de certa forma, temos que deixar de lado nosso conceito formado do que é liberdade, porque isso existe – ideias formadas do que liberdade é, que nos aprisiona. Mesmo que seja impossível viver em plena liberdade com outra pessoa, quando se deixa de viver com outra pessoa, mesmo quando é disso que se tem vontade, se abdica dessa liberdade de igual maneira. A forma mais livre de se viver, se é possível chegar a esse ponto, pode ser que seja com base nas vontades imediatas, sem grandes análises conceituais, porque, independente do que se faça, a satisfação é inalcançável, sempre se deseja aquilo que não é – a decisão tomada pode ter sido a certa, mas a curiosidade por saber o resultado a que a decisão não tomada levaria faz com que se acredite que ela é a errada e a outra era a mais certa ou menos errada. Fui lembrado de uma conversa que tive num bar meses atrás. Ela me dizia alguma coisa que eu não conseguia entender, tanto pela barreira do idioma quanto pela música alta que tocava – e a mistura do álcool com a exaustão no meu sistema não facilitava em nada as coisas. Peço pra repetir, mas sigo não entendendo, até que canso de pedir pra ela repetir e acho que ela cansa de tentar, e respondo: não entendo, mas aceito. Você estuda improviso também?, ela pergunta. Não estudo, nunca fiz nada relacionado a atuação, ao contrário dela, mas pareceu, na hora e desde então, uma boa forma de ver a vida. Não entendendo, porque não dá pra entender tudo, talvez nem haja nada pra se entender e as coisas só sejam, logo, só resta aceitar. Parece uma história besta, mas foi uma das pequenas iluminações, dessas que todos temos, que tive nesse espaço de tempo que decidimos chamar de ano por alguma razão. Não dá pra ser livre sem esquecer o que liberdade é. Claro, a passagem a que me refiro nada tem a ver com essa analogia, mas foi uma dessas ligações que nos levam a outras ideias que nos levam a outras ideias… até que vim parar aqui. O que é meio que o objetivo desses textos. Me alegra que essa será, talvez, minha última leitura do ano,

4 – mesmo que eu seriamente relute a tratar a passagem de um ano pro outro como real. É um esforço consciente, porque eu tenho noção do tal simbolismo da passagem do ano, do sentimento de renovação e recomeço et cetera et cetera, mas acho uma grande bobagem e, por mais tentador que seja se entregar a bobagens, prefiro pensar que é um erro do ser humano usar seus números e contagens inventadas para contabilizar movimentos cósmicos existentes desde muito antes (muito, bota aí uns bilhões de anos, pra usar os tais dos números) do surgimento do ser humano. Não há nada errado nas festas, nos encontros típicos da época, mas a pressão posta nesse dia, no dito símbolo de renovação, acaba matando seu propósito, vira razão de angústia. É sempre bom lembrar que o “ano” é só uma contagem inventada pra facilitar o cotidiano da nossa espécie, que é movida por um conceito de tempo também inventado, porque é por ele que se medem prazos, expedientes e tudo mais que nós inventamos pra fazer da existência algo um pouco mais insuportável, e, lembrando disso, nem que seja só pra resistir um pouquinho, deixar essa contagem de lado de vez em quando e, no lugar dela, botar as, como coloquei no item acima, pequenas iluminações, coisas que não acontecem no natal ou no réveillon, mas em todos os momentos, parar de pensar no que foi feito nos 365 dias do determinado ano, e só pensar em tudo que aconteceu ao longo da sua vida, que não significa nada em grande escala, mas é o que você tem, então aceite porque é tudo. Quem sabe assim vocês parem de me incomodar com essas merdas de fogos de artifício, ô caralho.

O texto sobre David Bowie

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O começo de tudo

Essa não é uma homenagem pós-morte. É tarde demais pra isso, embora Bowie seja desses mortos que podem ser elogiados pra sempre. São as elegias que não me agradam. Ficou, no entanto, a lacuna de um texto sobre ele no momento de sua morte porque esse blogue é um reflexo de mim e a música do David Bowie faz parte dos meus dias desde os meus quinze anos, quando ouvi não sei qual colega de sala falar de Ziggy Stardust com tanto entusiasmo que arriscou uma imitação vocal do personagem, começando pelas afetações em “so where were the spiders…“, que foi quase competente. Grudei o nome do músico na cabeça e fui atrás, equipado da minha internet banda larga de 150kbs e qualquer fosse o programa de download ilegal utilizado nos idos 2006, que não fosse torrent porque não tinha aprendido a usar torrent naqueles dias. Se bem que pode não ter sido 2006, pode ter sido 2005 ou 2007, nesse período, margem de erro de 1 ano para mais ou para menos. Ouvi o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars três ou cinco vezes aquela semana – a quantidade é um chute. Fica a nota explicativa que nesses anos conturbados eu tentava me desinfectar de um gosto inexplicável por heavy metal contemporâneo (leia-se: lá do meio dos anos 00 – e se você não tá entendendo porque me refiro a esses dias como se fizesse muito tempo, dê uma olhada no seu calendário e espie em que ano estamos) sem saber, então, que era doença – já estou curado, não precisam se preocupar. E isso faz em torno de dez anos, vejam só, as coincidências da vida. Esse texto pode servir de reconhecimento tardio da morte de David Bowie, comemoração do decênio da minha entrada no universo Bowístico, ou só como outra de tantas postagens de blogue feitas por alguém que até acha que sabe do que está falando, mas não é bem o caso. E nenhum desses é, tampouco, o caso.

O caso

Pode ser que eu tenha levado os dez anos pra me dar conta disso com clareza, mas não gosto nada do termo camaleão do rock. Pros não-iniciados, essa é a alcunha que Bowie recebeu bem cedo na carreira dele por causa das várias transformações de sua persona. O erro que eu vejo nisso vem do fato de camaleões não se transformarem. O que eles fazem é mudar de cor para se camuflar no cenário. Bowie, se necessária a analogia do camaleão ainda, é o oposto. Não foi sempre assim. Como todo o artista ele teve seu período de desenvolvimento. Mas, bem cedo, já em Space Oddity, ele já tinha um estilo bem definido, parte em seu próprio tempo, parte no futuro. Considerando que o álbum de estreia dele tinha muita influencia da psicodelia e do pop rock vigente no período, essa segunda tentativa representou uma mudança brusca, quase uma autodescoberta – se tal coisa existisse, principalmente em se tratando de Bowie, que se descobria outra coisa a cada dois anos. O apelido camaleão seria preciso se camaleões, inspirados por uma pintura do Jackson Pollock, imitassem as cores e mudassem a paisagem ao redor deles. Ou nem se preocupassem em mudar a paisagem. O objetivo do Bowie, ao contrário do camaleão, nunca foi camuflagem, se mesclar a um cenário, e sim criar um cenário próprio que só o destacasse mais em comparação ao resto do mundo. Muito mais um pavão, se pavões mudassem a cauda, não conforme o cenário, conforme sua própria vontade abstrata.

Cenário

Lá pra 1969, quando a psicodelia já dava o que tinha que dar, Bowie lançou Space Oddity, uma quase opera espacial, carregando traços da estética musical do período, uma pitada dos discos conceituais que The Who lançava (Tommy vem à mente), mas, principalmente, tinha algo próprio, algo de nunca visto. O tal do Glam Rock, que é dito que Bowie fazia parte, não existia esse ano ainda, mas muito do Glam veio de Space Oddity. Tinha a fantasia, o personagem espalhafatoso, androginia, algo de ficção científica, enfim focava em mais que só música. É fato que era para esse caminho que o rock trilhava, mas a estrada nem construída tinha sido ainda, não havia nada ali a que o suposto camaleão pudesse se mesclar. Aos poucos o cenário mudou. Marc Bolan veio pavonear o rock, largando as origens folk do Tyrannosaurus Rex em troca do som mais direto, dançante do T. Rex. Parecido, mas não igual, atravessando o oceano, havia New York Dolls, com uma estética parecida, mas um som “proto-punk” e letras essencialmente hedonistas (também coisa do glam). Foi a combinação desses fatores que criou o que hoje nós chamamos de glam rock. Não foi o glam rock que se criou e, depois, Bowie veio se esconder nele. Nunca; na passeata glam rock, Bowie foi o guia alienígena bailarino frenético que todos podiam enxergar de longe e assistiam com interesse, porque, além de tudo, o figura era imprevisível e podia ir pra outro lado a qualquer minuto. Assim ele fez, várias vezes, e até o lançamento de Let’s Dance, sempre com o papel de guia. O que aconteceu depois é um pouco complicado de explicar, já que a década de 1980 foi um período conturbado pra quase todo mundo. Talvez nesses dias o termo camaleão não seja tão errado. O que parece é que Bowie, como vários músicos na época (Dylan, toda a patota do prog rock, Santana, Deep Purple, enfim, quase todas as bandas e músicos que sobreviveram à década de 1970, bem ou mal) não sabia o que fazer. Aí, sim, Bowie imitou alguns. Um pop rock cá, um new romantic (Duran Duran, Adam Ant e afins) lá, e a popularidade caindo e Bowie sumindo no cenário. Infelizmente aconteceu, não dá pra romantizar. Bowie foi camaleão, por um período, e por isso gosto menos ainda do termo, porque acho que, quando é valido, remete aos piores momentos do artista. Momentos estes que, me baseando somente no meu gosto musical, perduraram até 2013, infelizmente. Sim, depois de Let’s Dance, não gostei de nada do que ele fez até o retorno do sumiço com The Next Day, este que só veio depois de 10 anos de silêncio. Curiosidade engraçada, na época que conheci Bowie, ele estava em hiato, sumido. Talvez umas férias merecidas. Afinal, não foi só nos conturbados anos 1980 que Bowie desandou. Depois veio as bizarrices do Tin Machine, que nem tô preparado pra falar sobre porque até hoje não entendi qual foi a intenção, o que motivou aquilo e, especialmente, pra onde foi. Em seguida, pulando pra década de 1990, Bowie virou o membro mais sofisticado (e mais velho) dos Backstreet Boys enquanto tentava tirar algo de valor desse barulho de construção futurista que vocês chamam de música eletrônica. Heathens, já em 2002, não foi tão ruim, que eu me lembre. Acho que esse foi o problema, é um disco esquecível. Todas essas fases são esquecíveis. Alguém conhece uma música do Buddha of Suburbia? Claro, aqui falo pelo meu gosto, apenas. Tenho certeza que tem gente que gosta desses discos que acabo de desprezar.

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Nada de preciso até agora

Cheguei no ponto do texto em que tenho que admitir que estive errado esse tempo todo. Não de todo errado. Acredito em boa parte do que escrevi até agora. Mas não é preciso. É impossível ser preciso com Bowie. É verdade que um “camaleão do rock” não faria música no estilo new wave antes do new wave existir como gênero reconhecido (vide Young Americans). Mas o que é new wave pra começo de conversa? Estou escrevendo sobre gêneros pelo ponto de vista atual, que é o do futuro em relação ao período em que tudo isso de fato aconteceu. É importante lembrarmos, no entanto, que gêneros musicais são só nomenclaturas inventadas depois da música, normalmente por críticos, pra facilitar o trabalho das lojas de discos na hora de organizar o acervo. Embora existam similaridades entre músicos de um mesmo gênero musical, existem aqueles que não se encaixam. David Bowie é um desses poucos, e vai um pouco além. Muito além. Chega ao ponto de que lojas de discos deveriam ter a sessão David Bowie, para ele e seus imitadores ao longo dos anos. Seria uma sessão com um pouco de tudo. Afinal, mesmo que todos concordem que Ziggy Stardust é um disco icônico do glam rock, ele não parece com nenhum outro disco de glam rock. Tem ingredientes, mas o prato é coisa inédita. Marc Bolan, outro ícone do glam, era um pavão por si só, mas ele nunca encarnou um personagem. Nos anos de Ziggy Stardust, Bowie foi Ziggy que era Bowie que era Ziggy e assim por diante com todas suas outras encarnações. Uma coisa é atuar na frente das câmeras, fazer um papel hostil perante entrevistadores e jornalistas, outra é ser alguém diferente toda vez, ter outra voz, ter outra aparência, outra personalidade, mas, ao mesmo tempo, ser a mesma pessoa. Talvez a forma mais precisa de resumir o legado de David Bowie na arte (sim, na arte, não só na música) seja dizendo que ele foi David Bowie, ele deu vazão ao que havia dentro dele, fosse pela música, pela pintura, pela performance. Foi um artista completo.

Ícones

O rock é cheio de ícones, desde Elvis. Mas, já na década de 1970, Lester Bangs (o crítico de rock, corram atrás dos arquivos dos textos dele pra Rolling Stones e afins, se o tema te interessa) dizia que os ícones estavam escassos, não havia opções. Jimi Hendrix e Janis Joplin estavam mortos, Bob Dylan estava estranho, Jim Morrison já estava mais que datado (e morto também, mas isso era o de menos) com sua poetaria que queria ser beat-francófila-decadente-romântica mas era só uma sequência de expressões e afetações desses estilos sem nada de próprio (nem significado) e culminando em “come on babe light my fire”, o povo do new wave era ingrato com suas origens, o povo do rock “pesado” se interessava mais por cocaína que música, e, lá pra década de 1980, com Wham e A-ha e outras aberrações, a única esperança restava nos punks, que nessa época respiravam por aparelhos, e nas mulheres (The Slits, Lydia Lunch, Debbie Harry, Patti Smith), que eram as únicas que pareciam ainda saber o que o rock era pra ser e tinham intenção de trazer algo novo pra ele – mas, nem punk nem as mulheres do rock atingiram um grau de influência ou número de vendas alto o suficiente para chegar ao status de ícone (talvez hoje a Patti Smith, embora eu a veja mais como o grande símbolo de um período da arte). Lester Bangs, que eu saiba, não viu potencial de ícone do rock no Bowie, nem, na verdade, eu vejo. Seria muito pequeno, limitante, em comparação ao tamanho e amplitude da obra dele.

Artista completo

Porque é sempre válido lembrar que David Bowie não foi só músico. Ele atuou (além dos personagens dele serem performance teatral pura, ele apareceu algumas poucas vezes no cinema), foi pintor,  mas, o que talvez seja mais importante que tudo isso, é que ele foi uma figura ativa no mundo da arte. Conviveu com Andy Warhol, frequentou os bares de música de Nova York buscando coisa nova, produziu gente como Iggy Pop, gravou com Queen, inspirou gente no mundo da moda, fez um pouco de tudo. Essa onipresença, onisciência e onipotência artística pode ter contribuído pro rótulo de camaleão, mas foi muito mais que isso. Ele conseguiu o que poucos artistas conseguem, se traduzir em arte. Dá pra citar poucos artistas que chegaram nesse patamar, e, mesmo esses, o fizeram de maneira diferente – obviamente, afinal a personalidade do artista pleno vai afetar sua obra de maneira indivisível. A trajetória artística do David Bowie passou por todas as etapas da vida humana, curiosamente. Teve a curiosidade e exploração da juventude, a dificuldade pra se encontrar do começo da vida adulta, a iluminação da maturidade ao se dar conta que não precisa se encontrar e que várias encarnações é o melhor jeito de se viver a vida, crises de meia idade, retorno, nostalgia e, permitam-me um pouco de romantismo aqui, transcendência.

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Observações aleatórias #2

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Anatídeo ou lagomorfo?

1 – Almoçando quase todos os dias com uma colega de trabalho paraguaia, pude notar o potencial de isolamento da linguagem. Como estar num local estrangeiro pode afetar profundamente até nossa personalidade. Como ela costumava ser extrovertida, daquelas que não levavam desaforo pra casa, quase barraqueira, dependendo do ponto de vista, e, hoje, fica quieta a maior parte do tempo, ouvindo, prefere não falar porque dá muito trabalho colher palavras que signifiquem o que ela acha que significam. É um novo filtro na nossa cabeça. Se comunicação já é a raiz da maior parte dos nossos problemas, adicionar barreira de linguagem tira nosso ritmo, nossa capacidade de compreensão, limita nosso vocabulário, independente do quão fluente sejamos, e nunca somos tanto quanto acreditamos ser. Sem falar da forma das frases, do peso das palavras, nunca temos noção perfeita disso em um idioma estrangeiro. Essa pode ser a solidão mais profunda, a da linguagem. Mesmo quando estamos sozinhos, em nosso país natal, cercados pela nossa própria língua, sabemos que num lugar qualquer alguém estará falando, mesmo que não conosco, e só por isso já é possível nos sentirmos menos sós, parte de algo, dum costume, cultura, local, qualquer seja o nome dessa sensação de fazer parte. Ao mesmo tempo, é mais difícil, me parece, se envolver em uma conexão mais profunda quando a solidão que se sente não é tão intensa. Enquanto, num local estrangeiro, adentro a extraordinária solidão estrangeira, um oi, um bom dia, um bate-papo alongado com uma pessoa pra quem se pede informação, vira história, tem significado, pequeno ato que seja, é uma conexão das mais profundas, uma mão que te puxa do abismo por uns segundos pra te banhar na luz. Coisa que, se acontece em casa, passa, é esquecida. E talvez aí esteja a graça de viajar, afinal de contas, sair de casa, do bairro, pra ir parar em qualquer outro canto do mundo, pra que se possa sentir solidão tamanha que qualquer contato humano faz sentido, renovar o sentido do contato humano em geral, de certa maneira, e de todas as outras pequenas coisas. Não se nota a arte de rua na parede do seu prédio, mas aquela que enfeita as ruas de outro país enchem os olhos – são a mesma coisa. Ver a coisa – mancha na parede pela qual se passa em frente todos os dias -, ver a coisa como – mancha na parede nunca antes vista, que se nota pela primeira vez, a que se atribui forma e significado, vira arte. Linguagem, é a isso que, no fim, tudo se resume.

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Tem um número excessivo de fotos do Faulkner fumando um cachimbo nesse blogue, mas não dá pra evitar, ele era um sábio. (E acho que é um Dunhill que, na foto, ele havia acabado de acender. Talvez com a mistura favorita dele – supostamente -, My Mixture 965. Eita cidadão de bom gosto.)

2 – A tal da real, que as pessoas dadas aos textões, com tanta insistência, dizem mandar por essa internet de meu satã, tem costume de ser bastante falsa. A impressão que dá é que as tais pessoas são todas míopes e se recusam a por os óculos. Enfim, isso é só pra dizer que odeio a expressão “mandar a real”, acho que 9 a cada 10 vezes ela é usada pra botar a máscara da liberdade de expressão no discurso intolerante, mas vá lá, se o que Faulkner disse nessa entrevista pra Paris Review não é a real, não sei o que é. “Mas tio Rapha, o que o tio Faulk disse aí nada tem a ver com intolerância e justiça social, sua introdução não faz sentido”. Eu sei. Pra tu ver como ficam as coisas, quando se decide escrever de olhos fechados, se esforçando pra só olhar pra trás um mínimo de vezes. Mas posso contar nos dedos as vezes em que  me meti a falar de política, sociedade e questões sérias, achei que seria bom esclarecer pelo menos o que acho dessa expressão cretina (mandar a “real”), mas vivo dando pitaco sobre literatura. E Billy F aqui manda a real sobre literatura, fazer o que?

(Contexto: entrevistador começa comentando a timidez de Faulkner e as razões pelas quais ele não gosta de entrevistas que perguntam de sua vida pessoal. Então ele pergunta se Faulkner aceita responder perguntas sobre a pessoa enquanto autor.)

FAULKNER: Se eu não tivesse existido, outra pessoa teria escrito a mim, Hemingway, Dostoiévski, todos nós. Prova disso é que existem em torno de três candidatos para a autoria das peças de Shakespeare. Mas o que é importante é Hamlet e Sonho de uma Noite de Verão, não quem as escreveu, mas que alguém o fez. O artista é de nenhuma importância. Só o que ele cria é importante, já que não há nada novo a se dizer. Shakespeare, Balzac, Homero escreveram sobre as mesmas coisas, e, se eles tivessem vivido mais mil ou dois mil anos, os editores não teriam precisado de mais ninguém desde então.

ENTREVISTADOR: Mas mesmo que pareça que não há nada mais a ser dito, não seria, talvez, a individualidade do escritor importante?

FAULKNER: Muito importante para ele mesmo. Todos os outros deveriam estar ocupados demais com trabalho para se importarem com individualidade.

ENTREVISTADOR: E seus contemporâneos?

FAULKNER: Todos nós falhamos em alcançar nossos sonhos de perfeição. Então eu nos avalio com base no nosso esplêndido fracasso em fazer o impossível. Na minha opinião, se eu pudesse escrever toda minha obra de novo, estou convencido de que eu a faria melhor, o que é a condição mais saudável para um artista. É por isso que ele segue trabalhando, tentando de novo; ele acredita cada vez que dessa vez ele conseguirá, a alcançará. Claro que ele não vai, e é por isso que essa condição é saudável. Uma vez que ele conseguisse, equiparasse sua obra à imagem, ao sonho, nada restaria além de cortar a própria garganta, ou saltar do pico da perfeição ao suicídio. Eu sou um poeta fracassado. Talvez todo romancista queira primeiro escrever poesia, descubra que não pode, e, então, tenta o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E, falhando nisso, só então ele começa a escrever romances.

ENTREVISTADOR: É possível que exista alguma fórmula a se seguir para se tornar um bom romancista?

FAULKNER: Noventa e nove porcento talento … noventa e nove porcento disciplina … noventa e nove porcento trabalho. Ele não deve nunca estar satisfeito com o que faz. Nunca é tão bom quanto pode ser. Sempre sonhe e mire mais alto que sua capacidade. Não se importe só de ser melhor que seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor que você mesmo. Um artista é uma criatura movida por demônios. Ele não sabe por que eles o escolhem e ele normalmente está muito ocupado pra imaginar por que. Ele é completamente amoral sendo que ele vai roubar, pegar emprestado, implorar ou furtar tudo e todos para fazer o que tem que fazer.

Você pode ler o resto dessa entrevista totalmente excelente, e, de bônus, julgar minha tradução clicando aqui. Sobre o que foi dito, em si, nada  tenho a acrescentar. Se verdade é uma palavra muito forte, e acredito que seja, posso, então, só dizer que concordo.

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3 – Aqui a falta de formato começa a me incomodar. Parece que falta conclusão na postagem. Parece que não escrevi o suficiente. Que tem mais Faulkner aqui que eu. E tenho ideias, dá pra escrever pra sempre nessas observações, mas são tão incompletas, vagas, quase esboços de ideias. Estava pensando em escrever coisa ou outra sobre aquelas sensações de que não sabemos o nome. Vi algo sobre isso em algum lugar. Não é aquele tumblr de palavras inventadas, naquilo não vejo graça, acho muito motivacional, muito esforço pra fazer de algo já bem incrível (a experiência humana básica) algo ainda mais extraordinário, quase maquiagem pra vida. Pra isso digo foda-se. É que um tempo atrás, bastante tempo, li um texto ou um artigo ou um tuíte de não sei quem dando nome – com base científica, era um fenômeno cerebral de verdade, sem romantismos e poetaria de butique – aos breves arrepios que sentimos vendo ou ouvindo ou sentindo determinadas coisas, exemplos: gente cozinhando, vozes sussurradas, movimentos acidentais de aparência coordenada. Enfim, acho que queria descobrir se existe nome para o fenômeno da excitação estética. Saca quando lemos uma descrição da movimentação em uma rua por Flaubert, ou nos botamos próximos dos quadros maiores e mais opressivos do Jackson Pollock, ou determinada sinfonia chega ao seu ápice de intensidade, o que lhe agrade mais, aqui não importa tanto. Pois é, não sei o nome disso. Não é natural, acho. Isso é questionável e não tenho a base psicológica/biológica pra saber ou discorrer sobre isso com qualquer segurança, mas isto não é ensaio, é só o mais próximo que quem me lê pode chegar de ler meus pensamentos – não é sobre isso que penso no dia a dia, mas penso nisso agora, enquanto digito. Arte me parece mais fruto do tédio que da natureza, coisa que ser humano só decidiu fazer quando não tinha mais predadores que não ele mesmo. Ideias sem causa e sem consequência – a tal da muito romanceada inspiração – só afeta aqueles que não tem que se preocupar em virar comida durante o sono. Como a tal da sensação que tentava descrever é efeito da arte, que não é natural, a sensação tampouco o deve ser. Enquanto isso, vendo Juventude (filme do Paolo Sorrentino, 2015), noto que o filme é puro essa sensação. A Grande Beleza já era também, não só era como parecia tratar dela – a grande beleza, esse conceito esquivo, é causa da tal sensação, uma das pelo menos. Sr. Sorrentino sabe a que eu me refiro. O que ela provoca, a sensação, fisicamente falando, não sei. Talvez o mesmo que o tal arrepio que descrevi ainda antes causa, talvez sejam uma coisa só.