A banda

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Se você aproximar a imagem, vai ver uma banda tocando ali na frente.

Uma banda toca o blues na praça. Passo direto, estou em horário de almoço. Refeição terminada, morta a fome, discutidas as amenidades do cotidiano com os colegas de trabalho, sigo o caminho de retorno e dessa vez paro pra ouvir a banda, ainda tocando. São cinco. Dois, o do saxofone e o do baixo, tenho a impressão de já ter visto por essas ruas, tocando sozinhos na esperança de uns trocados largados à caixa do instrumento aberta em frente a eles. Improvisam sobre um tema básico de blues, enquanto a cantora aguarda sentada num canteiro e dedilha o celular.

Há um contraste notável entre a aparência maltrapilha dos músicos e a montagem do concerto. Longe de terem os instrumentos e amplificadores mais caros, contudo parecem de qualidade e em bom estado. Também parecem jovens treinados, ao invés de gente de rua, gente que aprendeu sozinha a fazer música com coisas encontradas ou doadas. Até mesmo há, sobre uma estátua da praça, um suporte carregando um celular conectado ao que parece ser uma antena. Posso estar errado, mas acho que prepararam uma transmissão ao vivo, online, como um show de verdade. Estranho o tanto que essas pessoas têm, como o nomadismo ao qual eles se submetiam exigisse um voto de pobreza, ausência de posses e do desejo de possuir. Talvez fosse só uma brincadeira da parte deles. Fossem uma banda excêntrica e só. Escolhem tocar na rua pra mandar à merda o expediente, a carteira assinada, a caixa ar-condicionada. Mas, finado o dia, voltam às suas casas ou casa coletiva, mantida por familiares ou heranças; pelos trocados, nem fodendo.

O improviso instrumental continua e a cantora pega um chapéu e passa entre os ouvintes. Há tempos não ouço uma banda tão boa. Estou dividido entre uma nota de dois e uma de cinco. Não doar faria que eu me sentisse mal, como a falta dessa doação fosse o motivo do futuro fim da carreira deles e, ao mesmo tempo, uma vez feita a doação, eles seriam um sucesso. Decido por cinco, pois me empolguei. Nessa cidade não há banda tão boa, em bar nenhum, dia nenhum da semana. Quero saber o nome, se tocam por aí, se já gravaram discos e se eles estão à venda, se têm show marcado e, senão, estou disposto a me nomear agente deles e marcar quantos shows eles estejam dispostos a fazer. Aceno, quando ela olha ao redor da praça em busca de outros doadores, e largo o dinheiro chapéu adentro.

E disco, já tem?, pergunto, antes de ela ir.

Não, não, isso aqui é só uma brincadeira, cada um de nós veio de um canto, nem todo mundo mora aqui, só um ou outro, aí a gente decidiu se encontrar e tocar um pouco aqui, mas é no improviso mesmo, sem ensaio nem nada.

Nossa, muito bom. Improviso? Não parece, digo, mas não é o que eu quero dizer. O que eu quero dizer, mas a essa altura ela já tinha agradecido, me dado um toque amigável no ombro e voltado ao canteiro onde estava sentada, é que, embora não tivessem praticado juntos, o conjunto tocava naturalmente e isso se refletia no som, como houvesse intimidade entre os músicos, mesmo se tratando de improviso; na verdade, é o melhor tipo de improviso, não o que soa perfeito e ensaiado mas o que soa natural mesmo sem ensaio.

Começou outra música. Um blues arrastado e hipnótico. A voz da cantora faz pensar em Janis Joplin, mas não é uma imitação. Meu ouvido obsoleto aloca o timbre dela em algum canto à direita de Candy Givens, essa sim grande imitadora de Joplin, do Zephyr, primeira banda do maltratado Tommy Bolin, filho esquecido do período em que a era de ouro do rock ‘n’ roll começou a perder o brilho. Menos extridência e tristeza na voz dela, mais suavidade e sensualidade, esta última ajudada pelo ritmo e pelo clima transmitido pela banda, aquela atmosfera perdida nos anos das comunidades hippies. Cada membro tem sua personalidade – lógico, presumida por aquele que narra. O saxofonista e sua barriga e vestes comuns parece o mais inserido em um cotidiano. Não ficaria surpreso se o visse sair de um escritório qualquer ou vendendo instrumentos numa loja de música. Era comum vê-lo tocar naquela rua, sozinho, enquanto uma caixa de som reproduzia ao fundo algum clássico do jazz. Ele improvisava dentro da música, se inserindo no passado, ao lado de Dave Brubeck, Bill Evans, Herbie Hancock e tantos outros, mortos e não, com suas bandas. O baterista, ali isolado no fundo, quase não o posso ver bem o bastante para inventar a ele uma personalidade. A própria condição do baterista, o cara sentado no fundo, que não pode se desconcentrar por completo ou a locomotiva descarrilha, favorece esse isolamento. Além do mais, ouvi dizerem que é estrangeiro. Do Chile ou da Argentina. Mas mochilando com uma bateria? Vai saber o que não fazem esses caras. Enfim, se for verdade, mais isolado ainda. O guitarrista veste um colete e calças curtas feitas, parece, do mesmo tecido, sapatos longos e curvados como de um gênio da lâmpada, e cultivava uma juba crespa cortada à cuia. Sujeito excêntrico, o provável porra-louca do grupo. Aquele que não seduz as multidões nem atrai pelo talento, mas defenestra a televisão do quarto do hotel. O baixista seria um astro se estes fossem os anos 1970. Cabelão e barba, calça jeans velha vestida à vácuo, um colete parecido com o do outro cara, só que, debaixo dele, uma camiseta do setor infantil de uma loja qualquer. Sua aparência pode ser notada em fotos tiradas entre os anos 1963 e 1974, levando a crer que se trata de um viajante no tempo. Ele é outro que pode ser visto tocando, por essas mesmas ruas, um violoncelo, sozinho – com acompanhamento musical de uma caixa de som – ou com outras bandas de rua, provavelmente formadas na hora. Quanto à cantora, pode ser uma ex-colega de sala de qualquer um ou um ser de outro planeta; dinamite, gasolina e fogo, guardados em envólucro frágil de aparência e prestes a arrebentar e te pegar na explosão. Veste uma camisa de banda desconhecida, jeans pretas justas, manchadas de pó branco do canteiro no qual ela sentava ainda há pouco. Quando os instrumentistas se atiram em seus rocamboles de som, ela dança como ninguém olhasse. Ou talvez ela perceba os homens de meia-idade, em intervalo da firma, em camisas-sociais salmão, verde-claro, lilás, fazendo seus comentários patéticos e incremente a dança, certa de que isso vai aumentar sua gorjeta.

(Em casa, revisarei a foto que tirei da apresentação após descrever os músicos e me darei conta dos erros. Farei questão de manter as confusões da memória, pois a imagem me veio daquela forma por algum motivo. Vi os músicos vestidos conforme a descrição na minha imagem mental. Fica aí o argumento sobre as linhas divisórias entre não-ficção, ficção, memória. Tantas coisas imaginei de certa forma apesar da verdade. Tantas coisas nos lembramos e reproduzimos e repetimos e repetimos, tudo sujeito a acidentes desse tipo. Acreditarei que isso significará alguma coisa e escreverei um parágrafo dedicado a isso. Este mesmo.)

Enquanto isso, eu invejo a música como forma de expressão artística. Acontece toda vez que vejo um show bem feito, durante o qual todos os músicos se entendem e se divertem, e o público está desarmado e se deixa conectar e levar pela música. Logo passa. Normalmente, assim que começo a escrever. O desgosto que seria ter de lidar com outra pessoa nesse momento. Então, durante o ato da escrita, tudo está bem, eu me sinto sob controle da situação – um exercício de autoengano, mas o que vale é o que se percebe, a realidade é um detalhe. A inveja vem depois. O texto pronto, guardado num arquivo ou num caderno, sem ter pra onde ir. Sem público nem reconhecimento. Meu ego enorme sofre na obscuridade. E se eu vou à praça gritar meus poemas… Eu não faria isso, não vale a pena considerar a possibilidade. Mas quero evitar reciclagens sobre a solidão da escrita. O que chamou minha atenção dessa vez foi a questão da personalidade. O palco permite a amostragem imediata da arte, acompanhada da cara do artista. talvez a vontade de representar num palco a personalidade do indivíduo não seja compreensível para todos. Uma forma fácil de explicar é apontando para o ego do artista. O ser humano dedicado a dar forma à sua criatividade pra mostrar ao público, como se esta levasse consigo grande significado e importância, é nada senão egocêntrico – a exemplo do cronista, que faz um texto supostamente sobre uma banda a tocar numa praça, mas não para de falar de si. O egocêntrico, ao notar que a arte à qual ele se dedica não garante aplausos, repensa suas decisões; e o egocentrismo é fator essencial do artista. Como ninguém aplaude livros, e mesmo que um louco sozinho num quarto os aplaudisse, ninguém ouviria fora as vozes habitantes da cabeça deste leitor peculiar, algo tem de compensar por essa falta. Os autores que recebem a chance de aparecer são raros e os que quando aparecem são recebidos são mais raros ainda. Mas a demonstração pública de afeto a um artista proveniente de um show de rock, mesmo os de praça, não se compara em nenhum aspecto ao afeto de uma palestrinha de autor famoso.

É até irônico que esses autores que reúnem grande público em volta de si mesmos, não só da obra, sejam comparados a estrelas da música. E normalmente há algo de extraordinário na vida deles, ofuscando até a obra, por vezes. O norueguês que se tornou ídolo por botar em livro cada um de seus passos e pensamentos, Karl Ove Knausgaard é exemplo. Outro, mais icônico, meu chegado, Roberto Bolaño, o chileno loucaço que morreu aos 50, após décadas de vagabundagem poética. Há quem diga que ele chegou a incluir em sua biografia um vício fictício em heroína (não se sabe e a verdade nunca vem ao caso, repetirei). Porra, até Rimbaud e Byron são tachados retrospectivamente de rock stars. E vale incluir nessa lista Patti Smith, a grandiosa poeta punk, que começou a carreira na literatura, mas foi atraída pelo palco.

O que me consola são as frases de certos autores em elogio ao isolamento. Em especial quando se referem à obra e o quanto a personalidade do autor não importa, tudo deve girar em torno à e estar inserido na obra. É quase religioso, de certa forma. Fundamentalista até: quem escreve não é nada; as palavras, tudo. Mas, ora, quando nada pode ser dito sobre a tal obra, ninguém a leu ou vai ler, pra onde vai o autor? O que se torna a pessoa quando ela se insere por completo em algo que, por todas as definições práticas, não existe? É natural, ao momento em que uma fonte de satisfação deixa de satisfazer por um lado, se busque o mesmo resultado por outra via. Resumindo em fórmula tosca: ego é a arte, arte é a satisfação; satisfação deixa de ser a arte, ego é a satisfação e arte é posta de lado ou alterada de alguma maneira – vide autores que passam mais tempo cultivando suas personas que a escrita, seja a melhorando ou de fato escrevendo. Logo, invejo, pois minha escrita não satisfaz no momento, tornando aplausos, um palco, uma personalidade espalhafatosa, um tanto atraente. Convenhamos, não é sem motivo que autores incluem blogues e perfis de redes sociais em suas minibiografias, nas orelhas dos livros e nos rodapés das colunas dos sites em que publicam. Não vem de hoje, antes era o número do telefone, vide Richard Brautigan.

Após o guitarrista cantar Superstitious e junto a banda vir com um improviso interminável, toca os primeiros acordes de uma canção do Led Zeppelin, instantaneamente reconhecidos e aprovados pelo público. A cantora e o baixista, agora mais que nunca, exsudam energia sexual de seus ancestrais, fantasmas trazidos de volta das profundezas das catacumbas de falso misticismo do rock, e seus tomos de mágicka arcaica. Essa banda, que não se diz banda, é a melhor que já ouvi tocar nessa cidade. A mais sincera, pelo menos. Sem as ancoras do ensaio excessivo e a limpeza exigida pelos falsos pubs ocupados pelos molecotes de classe média alta.

Seriam esses obstáculos autoimpostos combustível pra esses músicos? Se atirar no absoluto desperta algum talento? Ou estaria correto Flaubert e de fato é esterilizante o trabalho? Imagino, sem qualquer fundamento, que, não tendo a certeza de um teto e um prato de comida amanhã, me forçaria a escrever algo que prestasse ou, melhor dizendo, me pagasse. Seguirei a voz que me sugere aos sussurros ao pé do ouvido a dar o pulo? Não.

O guitarrista passa outra vez com o chapéu, mas já atravessei a rua e sigo de volta ao escritório. É permitido ruminar inconsequentemente. Nem tudo é epifania, nem tudo muda vidas. Sigo a luz do outro farol que me consola, o que diz que a melhor arte é a inútil. A que é apenas por ser. A minha, se assim a posso chamar, não serve pra nada, repito mentalmente, cheio de orgulho, feito um mantra, enquanto sobe o elevador.

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Trabalho, carreira, psicologia, ressaca (OA #13)

1 – Sem entrar em detalhes, esse ano começou com uma mudança na minha vida profissional. Antes era possível só chegar no escritório de manhã e sair no fim da tarde. De vez em quando, podia até escrever por uns minutos, seja coisas do blogue ou notas para um texto durante o expediente. Agora não dá. Digamos que cheguei num ponto em que um certo grau de compromisso se fez necessário. Além disso, vou ter que viajar algumas vezes esse ano. Isso tudo é pra dizer: terei menos tempo esse ano pro blogue, ou assim parece. Menos tempo pro blogue quer dizer menos tempo pra escrita, logo uso o tempo para outros textos, ao invés de postagens. A ironia dessa história é vou fazer exatamente aquilo que dizia ser meu objetivo quando comecei a faculdade. Passaram os anos e não sou mais aquela pessoa. Embora eu esteja empolgado pras novidades e não possa de forma alguma reclamar da minha situação, não é o que eu quero fazer, é só o que paga minhas contas – a escrita nunca me comprou um sanduíche.

Gostava de não precisar me comprometer muito com o trabalho, isso me permitia uma dedicação maior para o outro trabalho, a escrita. Por outro lado, vou, por enquanto, considerar o lado positivo e acreditar que a experiência pode servir de combustível pros textos. Novos relatos de viagem são garantia. E, fora a ausência no blogue – que não é novidade -, as novas funções não têm atrapalhado tanto assim. Eu atrapalho a mim mesmo com mais frequência. Mas mudanças de tal proporção me fazem querer fugir. Há anos a ideia de fugir me atrai, ridícula e impraticável que seja. Fugir como? Fugir pra onde? Fazer o que depois, fugir da fuga?

2 – Outra coisa em que penso há anos é procurar um psicólogo. Só pra saber se tá tudo em ordem ou, melhor dizendo, identificar o que há de errado. Não faço por medo de um diagnóstico. A dúvida tem um quê de liberdade. Não sei o que eu tenho, logo pode ser qualquer coisa ou nada. Claro, se tenho algo, grave não é, pois aqui estou eu divagando sobre ir ou não ir ao psicólogo, tendo um emprego, um teto, uma rotina et cetera. Se fosse grave, seria óbvio. Ou posso estar errado. Na verdade esse é outra argumento que a voz contrária na minha minha cabeça usa, eu tenho esse jeito de ruminar a mim mesmo a ponto de ser capaz de chegar no psicólogo tentando adivinhar os julgamentos dele, só por estar certo de já ter chegado neles em algum momento da vida. Outro argumento contra é o medo de que uma mente na medida do possível balanceada corte o acesso à fonte de combustível que alimenta esse meu lado criativo, por assim dizer. Teria de ser o contrário, eu sei. Se tem algo de errado comigo, é isso o que me atrapalha e me impede de trabalhar com vontade e ordem.

3 – Desde o ano retrasado minhas ressacas estão monstruosas. Antes não iam além de uma dor de cabeça e um leve mal-estar resolvido prontamente com doses cavalares de água. Hoje a ressaca é uma derrota mental e física. Sair da cama é um desafio, embora eu não consiga dormir (depois do sono da bebida, que não é bem sono). Então vem essa sensação terrível de que algo aconteceu, mesmo que não tenha, mesmo que eu me lembre de tudo da noite anterior, algo aconteceu e foi minha responsabilidade e assim que eu voltar a vida real esse acontecimento vai foder comigo. Então eu me torturo por horas e horas, parado num quarto, tentando beber água e comer, mas isso não alivia a sensação. Alivia, um pouco, a dor física, as dores de cabeça e no corpo. A parte mental se mantém firme e forte e bagunça inclusive a noite de sono do dia seguinte. Sim, são quase onze horas da noite e estou escrevendo isso por não conseguir dormir. Fico pensando na noite anterior e no que as pessoas comigo podem dizer, penso no seja lá o que foi que eu fiz – que na verdade é nada e ninguém tem nada a me dizer, eu sei disso e não importa.

Estou considerando reduzir drasticamente meu consumo de álcool. Não passar de uma ou duas cervejas, no máximo três. Uísques, vinhos, se consumidos, não passando de uma ou duas doses, seguidas de água. Não por saúde, não por questões de comportamento. É medo da ressaca.

Nicotina virou minha droga favorita. Não tem ressaca, os efeitos passam rápido. Claro, moderação é tudo. Nunca vou além de um cachimbo em dias de semana, dois ou três no sábado, um charuto no domingo. Considerando os hábitos de Thomas Mann de doze cigarros e dois charutos por dia, sou quase um monge. O álcool me maltrata.

Vou tentar dormir agora. A semana vai vir como se nada tivesse acontecido. Nada aconteceu.

Reclamações geracionais, A grande beleza, psicogeografia, letra C (OA #12)

1 – Comecei pesquisa pra um futuro texto. Coisa mais pretensiosa desse mundo falar de histórias que até o momento têm uma frase. Não existem, não há motivo pra falar delas, mas é uma tentação. Nada melhor que falar de uma história quando ela está no auge de sua qualidade – antes de ela existir. É um prazer ridículo e egoísta, logo é isso que vou fazer. Ao contrário do primeiro romance, cujo narrador é confuso e se deixa só observar o que acontece ao redor, o dessa história se pretende um cínico. Não quero detalhar, mas faz tempo que os traiçoeiros campos da sátira me chamam e eu evito o chamado. Até porque personagens cínicos são um grande clichê. A coisa precisa ser muito bem desenvolvida pra dar certo e não acabar só como uma versão light de algo melhor. Aí tem a sátira, que acho impossível hoje em dia, vocês entendem o que eu quero dizer? Vamos por definição: sátira pode ser composição irônica contra costumes e ideias de uma época; ou sátira pode ser ridicularização dos vícios e imperfeições. Só que nossos costumes parecem sátira deles mesmos. Ninguém se leva assim tanto a sério e os acontecimentos sérios ao nosso redor são tão absurdos que superam qualquer sátira. E satirizar aquilo que por si já é absurdo é forçar a barra, é ficar apontando pro leitor, frase por frase, que aquilo que se lê é uma sátira, é para ser engraçado, e deixando claro quem são seus alvos e por que eles merecem cada palavra. Talvez sempre tenha sido difícil, mas parece pior. Sempre parece pior o presente, até quando se viveu o passado.

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2 – Ou talvez essa atração pela sátira, apesar de sua impossibilidade prática, tenha surgido pra descarregar um pouco da raiva. Quero um personagem que odeie e não tenha medo desse ódio. Revi A Grande Beleza (Paolo Sorrentino, 2013) ontem, foi a quarta vez acho, e só fica melhor, só reforça o quanto esse está entre meus filmes favoritos (como sempre, num sentido de afeto pessoal, não como testemunho de qualidade). No filme tem uma frase que sempre me pega. O protagonista, Jep Gambardella, um romancista que nunca conseguiu escrever um segundo livro e vive em festas e imerso nas distrações de Roma, é acusado de misógino, ao que ele responde: eu não sou um misógino, sou um misantropo. Em resposta pra isso, um amigo de Jep diz algo mais ou menos assim: em se tratando de ódio, é necessário ter ambição (tem mais que isso, mas não falo italiano). Essa é mais ou menos a ideia que tenho pra personalidade do narrador da minha hipótese de livro, mas com foco no que veio a seguir. Jep não odeia nada, ele só encara as pessoas, com seus atos e suas manias, e, na maioria das vezes, elas não são tão belas. Essa interação termina com misericórdia, Jep declarando: estamos todos a beira do desespero… (então ele explica que só disse o que disse porque estava cansado do tanto que a pessoa se gabava dos seus feitos, mesmo eles não sendo nada especiais, quando na verdade o objetivo daquelas reuniõezinhas não era mais que papear, beber um pouco, fazer companhia um pro outro apesar da solidão inevitável, tudo pra esquecer o quão vazias as vidas deles eram, e ter alguém apontando o quão cheia era a vida vazia dela em comparação a vida vazia dos outros não ajudava ninguém)… Vejam esse filme, por favor. Eu não sei exatamente como vim parar aqui, essa série de observações começou a ser escrita antes da anterior e tinha esquecido disso aqui até fuçar a lista completa dos meus rascunhos (tenho 15, alguns são só títulos, alguns foram criados ano passado – a maioria). Bom, seguindo em frente, não? Essas observações não foram feitas pra serem revisadas. Seja lá qual tenha sido a ideia aqui, deve fazer sentido pra alguém, se não pra mim.

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3 – É uma boa sensação descobrir que o seja lá o que for que você anda sentindo, pensando, escrevendo … tem um nome, é um conceito antigo, já bastante desenvolvido. Morre a originalidade, mas em troca vem essa ilusão de que não se está sozinho, que há compreensão. O nome da coisa é psicogeografia. O conceito é antigo, atribuído aos textos de Baudelaire, DeQuincey, Blake, entre outros, gente com o hábito de caminhar (flâneurs, como dizem os franceses; flanar, que não é bem o mesmo que caminhar, envolve uma falta de objetivo/destino, um melhor observar dos arredores, que nem sempre caminhadas envolvem) e escrever sobre as cidades em que vivem, seus contornos e segredos. Psicogeografia em si foi definida por Guy Debord, e foi parte dos hábitos dos Situacionistas. Observar a cidade, sua construção, e os efeitos psicológicos e comportamentais que o ambiente urbano causa nos habitantes – por um ponto de vista social, político e pessoal (interno). Hoje a psicogeografia é tratada mais pelos ingleses, autores como Iain Sinclair, Will Self, China Miéville, e, antes destes, J. G. Ballard, entre muitos outros, mesmo que inconscientemente. De um ponto de vista feminino, o tema é tratado por Rebecca Solnit (ainda não conheço os textos dela sobre o tema, só sei que existem) e, principalmente, Lauren Elkin, não como psicogeografia (não li um artigo dela ainda com esse termo), mas como o ato de flanar. Não só Lauren Elkin combate a ideia de que o “flanar” é um hábito tipicamente masculino, apresentando exemplos de flâneuses (neologismo criado por ela, já que não existe um feminino de flâneur em francês) na história – Jean Rhys, Agnés Vardas, Colette, Virginia Woolf… -, como também usa o flanar como símbolo de resistência, a mulher mantendo seu direito de ir e vir apesar dos assédios. Agora estou lendo tudo que posso sobre psicogeografia, buscando livros difíceis de achar (por que só A Sociedade do Espetáculo, do Guy Debord, foi traduzido?, quanto tempo até Flâneuse, da Lauren Elkin, estar a um preço razoável em paperback?, só a Livraria Cultura tem edição física de London Orbital, do Iain Siclair? …? …?), revisando meu diário de viagem e percebendo o quanto ele é um exercício de psicogeografia. Vejamos até onde vão esses estudos. (Adendo: vi também que no Brasil a palavra “psicogeografia” foi sequestrada pelos suínos do “coaching” pra definir “um ambiente seguro pras sessões” de lavagem cerebral. Como eu odeio essa gente, só a palavra “coaching” me embrulha o estômago.)

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4 – Charles Mingus é a indicação musical da vez, com o álbum Mings Ah Um. Queria incluir jazz logo nessa lista. Ia ser a letra A, na verdade, mas mudei pra C – falando como se tivesse planejado alguma coisa. Mingus é o nome que aparece sempre que se é introduzido ao mundo do jazz. Um dos principais nomes, há na música dele um pouco de cada pedaço da história do estilo e tudo que veio depois carrega um pouco dele. Mingus Ah Um tem um pouco de tudo. Homenagens ao blues e ao gospel, que serviram de precursores ao jazz, homenagens a Duke Ellington, Jelly Roll Morton, Sonny Rollins, Lester Young, Charlie Parker… o disco é um pedaço essencial da história da música. Por isso, o melhor pra introduzir o jazz ao blog, aos leitores e à minha lista alfabética de indicações musicais.

A origem de Tommy Wiseau – uma investigação

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1 – Deixa eu explicar

Era uma vez um indivíduo nos seus últimos dias de férias, razoavelmente inebriado às três da manhã de um domingo, alimentando uma nostalgia bizarra pela década de 1990 com vídeos de entrevistas do Space Ghost Costa a Costa. Via quando criança, mas nem imagino por quê. Entrevistas absurdas com gente da cultura popular americana da década de 80 e 90, David Byrne, Thom Yorke, Björk, Matt Groening, pra citar exemplos, gente que eu não fazia ideia quem fosse, eu que ainda vivia minha primeira década. Acho que tem algo no absurdo que atrai a atenção das crianças. O estranho é legal, o incompreensível faz rir só pelo que ele é. Eu não fazia ideia de quem eram as pessoas dentro da televisão falando com o super-herói idiossincrático, mas o jeito que eles falavam me fazia rir, assim como o louva-deus do mal falante. Voltando ao tema, vi a entrevista do David Byrne, na madrugada de ontem pra hoje (domingo-segunda, caso eu não termine esse texto hoje [segunda – fica aí a referência temporal, pros leitores que se importam]), porque me tornei fã de Talking Heads, passadas as quase duas décadas separando a vez que assisti Space Ghost pela primeira vez dessa. Foi quando, ouvindo a voz deslocada do David Byrne, o vendo de cabelo cumprido pela primeira vez, fui atingido pelo que só pode ser chamado de iluminação. Byrne me lembrava de alguém que não era Byrne, mas quem era? Foi quando ouvi soar, feito um sussurro divino ao pé do meu ouvido: o, hi, Mark. Sim! Como pude demorar tanto pra me dar conta?, era a figura de Tommy Wiseau que a versão anos 90 do David Byrne me trazia à tona. Vejam a entrevista em questão – daqui em diante chamada Evidência 1:

 

 

 

 

 

2 – Mas que porra é Tommy Wiseau?

Bom, me decepcionaria se algum de vocês fizesse essa pergunta, mas, para fins de contexto e porque eu sou um profissional, vou explicar: Tommy Wiseau é um ator, diretor, culpado pela criação de The Room, conhecido nas ruas como o Cidadão Kane dos filmes ruins. Desde 2010, o filme, lançado em 2003, ganhou alguns milhares de seguidores e esse ano vai sair um filme baseado em sua produção. (A culpa por esse filme sobre o filme cai sobre James Franco, que por algum motivo se acha um bom artista, o que não vem ao caso.) Mas, sobre Tommy, pouco se sabe. O cidadão revelou poucas informações sobre o seu passado e todas são conflitantes. Ele se diz cidadão americano, mas o inglês dele diz o contrário, e o sotaque é quase impossível de localizar por ter um pouco do que parece ser leste-europeu ou francês. Dizem que ele veio da Polônia, mas não há provas físicas, só especulações. Até a data de nascimento dele é um mistério. O próprio disse 1968 ou 1969 (sim, um ou outro, ele não decidiu ou não sabe quando foi que ele nasceu). Um amigo que alega ter visto os documentos dele diz que foi 1955. Quantos anos ele tem de fato? A aparência dele impede um chute preciso. Ao mesmo tempo que ele parece acabado, ele não aparenta 62 anos. Ou seja, um cidadão além do tempo e do espaço (isso é importante para o resto da teoria, aguardem). Vocês, a essa altura, devem estar se perguntando o que isso tem a ver com David Byrne. Eu espero que vocês tenham prestado atenção na voz de Byrne durante a entrevista. Se prestaram, cliquem no vídeo abaixo (Evidência 2), contendo cenas da performance de Tommy em The Room. Notaram as semelhanças? Pois então, eu também. Não acredito que seja só coincidência.

 

 

 

3 – A teoria, ou, melhor dizendo, a investigação

Os leitores mais perspicazes se deram conta das semelhanças físicas entre os senhores Byrne e Wiseau. Também repararam que as vozes deles se assemelham, não só em timbre mas em certos maneirismos, especialmente a velocidade da fala. Não dá pra negar que, apesar das proximidades, Wiseau é como uma versão pós-AVC do Byrne em todos os aspectos. É aí que entra a minha teoria ou, como prefiro chamar, investigação.

O doppelgänger é o famoso fenômeno popularizado pelo romance alemão Siebenkäs, de Jean Paul, que criou o neologismo. O fenômeno em si pode ser tão banal quanto a se referir a duas pessoas muito parecidas mas sem grau de parentesco até ter origens paranormais, como ser um fantasma ou uma representação sobrenatural normalmente fonte de má sorte. O tipo de doppelgänger ao qual me refiro nessa investigação, contudo, é baseado no apresentado esse ano por David Lynch, em sua continuação de Twin Peaks. (Isso tudo é muito sério.) Em termos vagos, pra não estregar a história pros que dentre vocês não viram a série ainda, o protagonista tem seu corpo duplicado. Enquanto a versão real fica presa em uma dimensão sombria (chamada Black Lodge), o duplo é possuído por BOB, um espírito assassino (que pode representar a raiz de todo o mal, isso nunca fica claro), e vaga pela Terra dando continuidade à sua função, seja ela qual for.

O duplo de Twin Peaks, para evitar que o original consiga se libertar de Black Lodge, cria outra cópia, um tanto defeituosa. Um homem sem passado, sem origem, perdido na existência. Essa descrição faz com que vocês se lembrem de alguém? Talvez de um cineasta de talento duvidoso e passado desconhecido, uma entidade perdida no tempo e no espaço, que fala como se tivesse sido apresentado às capacidades básicas de comunicação há não mais que uns poucos anos e que, no entanto, aparenta ser muito mais velho. O próprio parece confuso e incapaz de agir como um ser humano. Sim, senhoras e senhores, minha investigação conclui que há evidências que Tommy Wiseau seja um doppelgänger de David Byrne. A semelhança física entre Wiseau e Byrne, especificamente Byrne na década de 1990, indica que foi nesse período, por volta de 1995, que Tommy Wiseau foi gerado em misteriosas circunstâncias.

 

 

 

 

 

 

 

 

Reparem novamente na compilação de cenas de The Room. É tão absurdo, vendo a interpretação de Wiseau, acreditar que ele age e fala dessa maneira porque, na verdade, ele só contava 8 anos na Terra, no período das filmagens? Se ele nasceu… perdão, se ele foi criado em 1995, essa é a idade que ele teria em 2003. No entanto, ele viria ao mundo com a aparência do seu original. Como Byrne nunca se removeu da face da Terra e até hoje está entre nós, logo o seu corpo original não foi ocupado por uma entidade, sim foi gerado a partir de uma parte dele, explicando as falhas em seu duplo. Foi Byrne que criou esse duplo? Talvez, ou talvez Byrne, ao brincar com forças além das suas habilidades, tenha sido dominado por uma força sobrenatural. Talvez o nosso Byrne, que conhecemos e amamos, não seja o que acreditamos que seja. Vejamos ele hoje:

 

 

 

 

 

 

 

 

A-ha! O cabelo branco. Qualquer estudioso da mitologia de Twin Peaks sabe que o cabelo branco tem algum significado. (Qual… aí esse é um assunto nebuloso, mas tem significado.) Leland, o pai de Laura Palmer, também possuído por BOB, Leland, da noite pro dia, aparece de cabelos brancos, tais quais os de David Byrne atualmente. Pode ser que a mudança tenha sido só uma questão de idade. Mas pode ser que não. O cabelo do duplo não mudou de cor. Nunca saberemos o que anda aprontando o atual David Byrne ou se ele mesmo se dá conta do que pode ter acontecido com ele e o que seu duplo anda aprontando por aí.

4 – Considerações finais

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Abram seus olhos, Ovis sapiens/Homo aries! Há mais nesse universo do que podemos imaginar ou, deveria dizer, que eles querem que nós saibamos. David Lynch está ciente da realidade e graças a ele nós também temos acesso à informação. A verdade está aí e ela os libertará. Nossos ídolos, aqueles que nós admiramos, talvez não sejam quem nós pensamos que eles são. É possível que haja uma ou milhares de outras dimensões habitando dentro da nossa e está ou estás talvez tenham começado a interferir com o que chamamos, por costume ou ignorância, realidade. Cuidem-se de si mesmos, ou vocês também podem ser substituídos ou duplicados. E, quem sabe, nem todos os duplos sejam assim tão simpáticos quanto Tommy Wiseau.

 

Stop making sense!

Tempo, família, livros, letra B (observações aleatórias #11)

1 – Cheguei dia 25, mas ainda não me sinto em casa. Talvez seja coisa pro diário. Deixarei aqui como uma nota pra texto futuro, como tantos outros fragmentos nessas observações. Todos os dias, em Buenos Aires, acordava às 4 da manhã. Então, até a hora em que me levantava – variava entre 8 e 9 da manhã -, parecia uma eternidade. Acordava de 15 em 15 minutos achando que dias inteiros tinham passado. No domingo, sem planos, depois de passar horas andando pra lá e pra cá, procurando livros pras últimas compras, caminhando pelo jardim botânico, frustrado pela linha do metrô estar fechada, estava certo que já era quase cinco da tarde ao chegar num café e finalmente sentar, quando não passava das 3. Tinha a impressão de ter olhado no relógio e visto que era 4 e meia ou mais tarde. Todos os dias tiveram algo assim. Os dias em câmera lenta, apesar de passarem rápido. Sim, foi tudo muito rápido. Só os dias dentro desse furacão de semana que pareciam alheios à loucura (minha, da cidade, da viagem, da passagem do tempo…). E quando cheguei na balsa que leva de Navegantes à Itajaí, parecia que meses tinham passado. A viagem foi de 6 dias, sem diferença de horário entre os países, só que tudo estava diferente. Inclusive a rua próxima do meu escritório, por onde passo todos os dias, parecia ter algo novo, algo que nunca vi. E não me sentia em casa. Ainda não me sinto.

2 – Então, antes de me readaptar, fui passar uns dias com meus pais. Que não fique a impressão de que tenho uma relação ruim com eles, não é bem isso. Vivo sozinho há quase dez anos – é, fará uma década em 2019, vocês respeitem minhas barbas brancas. Nesse meio tempo, é natural se afastar daqueles que te criaram, principalmente se sua natureza é mais fechada, reclusa, e você não é lá de compartilhar coisas com ninguém, nem – ou muito menos – com eles. Passa a década e, depois de uma semana de convívio, você se dá conta de que não tem nada em comum com eles e eles não sabem nada sobre você e nenhuma das partes compreende ou sabe lidar muito bem com esse fato. É normal? Acredito que seja. Parte de mim acredita que a educação dos pais só pode levar a dois caminhos: criar filhos idênticos aos pais ou criar filhos opostos aos pais. Saí um oposto, fazer o quê? Acaba que, entre criar conflito e resumir as inúmeras omissões da minha vida pra eles ou continuar escondendo e ficar sem assunto, escolho manter a omissão. É bom? Não pro convívio, mas evita perguntas difíceis como: quando você começou a beber?, você não sabe que isso não é bom pra você? como assim você escreve?, então você quer viver em Buenos Aires?… A vida é complicada, não dá pra falar mais que isso. Filhos escondem dos pais tanto quanto pais escondem dos filhos, é uma questão de saúde mental, “proteção”, por assim dizer, na falta de palavras melhores. Estou de volta agora, fisicamente, me esforçando pra voltar por completo, se for possível.

3 – (Observação de fato aleatória) Muito aconteceu da hora em que comecei a escrever isso até agora, mas uma coisa foi minha ida ao quilo na terça, pra almoçar. O cidadão na minha frente, depois de um bom tempo passando álcool em gel nas mãos, passou o álcool no rosto como se fosse pós-barba. E o cidadão nem barbeado era, mantinha aquela barba de um dia que 90% da população masculina mantém hoje. Eu estranhei. Talvez vocês vejam isso todos os dias, eu não.

4 – Sim, esse blogue vai envolver muito da minha viagem pelos próximos dias, peço desculpas em adiantado. Mas vou falar dos livros que comprei lá aqui, porque não tenho um pedaço do diário dedicado pra isso ainda. Fui pra explorar a literatura argentina (também), logo, comprei em 6 dias o que compraria em 6 meses (me enganando aqui, como se, pra livros, eu fosse tão frugal). Voltei com 20 livros. Só tinha livro na minha mala, o pessoal do raio-x deve ter se assustado. O que eu fiz e indico pra quem se interesse por literatura de qualquer lugar do mundo pra que se está viajando (acho que pode funcionar em qualquer lugar no mundo) é achar um vendedor de confiança e perguntar: qual autor local você gosta e acha que não recebeu o reconhecimento merecido? Normalmente a resposta é sincera. Se você achar o vendedor certo, vai conhecer livros que de alguma maneira afetaram o vendedor como leitor e admirador de literatura. (Mas, Tio Rapha, como eu sei que o vendedor é de confiança? Ora, minha criança, verifique antes, leve em consideração o que você gosta de ler, troque informações com o vendedor, veja as reações, esse tipo de coisa.) Hebe Uhart foi um exemplo. Queria ter perguntado o nome da vendedora que me indicou a autora. O nome do livro é Turistas, pode ser que ela tava tirando com a minha cara, mas gostei demais do livro. Vou ver o nome da livraria mais tarde pros leitores do meu blogue que quiserem conhecer Buenos Aires. É fácil de achar, fica na área da Plaza Armenia, em uma das ruas que cruza pela Rua Armenia. Mas não foi só esse, em San Telmo, e isso pode aparecer no diário, fui à livraria El Rufián Melancólico. Uma bagunça espetacular de lugar. Pilhas e pilhas de raridades e velharias de todos os tipos. E o dono, Jorge, sabe muito (de literatura argentina e brasileira, sabia mais de Guimarães Rosa que eu – o que é fácil, mas não imaginava que fosse fácil pra um argentino). O lugar mais barato, pra livros, que vi na cidade, na minha vasta experiência de 16 dias em 1 anos. E tem de tudo, inclusive um livro em português, de um poeta chamado José Francisco, sobre quem não sei nada nem consegui achar nada, mas parece interessante. O nome é Peito aberto armado de flores, se alguém puder me ajudar.

5 – Contei no twitter a história da indicação do livro Turistas e a Carol me indicou Banda de Turistas, de Buenos Aires. Gostei demais. Tenho meus problemas com rock alternativo, mas essa banda passou o meu teste de qualidade. Estou falando disso aqui porque, lembram?, eu ia terminar essas observações com uma indicação musical em ordem alfabética. Estou na letra B. Mas ia indicar Talking with the taxman about poetry, do Billy Bragg. Um era o plano inicial, uma mistura de rock com folk (popular, oposto ao erudito da letra A, e eu quero ser o mais abrangente possível nessa lista alfabética), o outro se encaixa com o tema das observações. O que fazer? Ora, trapacear e indicar os dois. É melhor que esperar dar a volta pra indicar os dois, não? Aí está. Ya, de Banda de Turistas, e Talking with the taxman about poetry, do Billy Bragg. Divirtam-se.

Férias e insatisfação, produtividade, outros idiomas, John Giorno, Alban Berg (Observações aleatórias #10)

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1 – Falta só mais uma semana pras minhas férias. Mais exatamente, faltam quatro dias de trabalho, já que quinta que vem é feriado. Sim, estou contanto os dias, estou contando as horas. Se eu nunca entrei em detalhes sobre o meu trabalho por aqui é porque, em parte, eu não posso e, em parte, não é nada interessante, mas estou há seis anos na mesma empresa e me sentindo sufocado. A intenção é sair o quanto antes, mas aí somos levados a considerar aquelas velhas questões: o mercado não está mil maravilhas, essas e empresas e chefes só mudam de endereço, não estou tão satisfeito com o que eu faço apesar de ser a única coisa que eu estou formalmente qualificado pra fazer. A vontade real é largar tudo, mas não dá, porque o que vai botar comida na mesa do meu suposto paraíso imaginário? Então eu considero quão pouco rentáveis são as coisas que eu gostaria de fazer, isso levando em conta somente, dentre as coisas que eu gostaria de fazer, as que existem. Por favor, não me confundam com esses moleques que precisam se sentir realizados com o trabalho, de forma alguma. Por isso mesmo, o que vai acabar acontecendo quando eu voltar de férias, é: vou procurar outro emprego, enquanto mantenho o meu atual, talvez eu encontre e aceite o novo, talvez não, e, encontrando e aceitando, vou me empolgar com a novidade por um par de anos, enquanto continuo buscando realização (seja lá o que for isso) com outras coisas e projetos nada rentáveis. O que posso fazer agora é aguardar ansiosamente os dias passarem e aproveitar cada segundo dos meus trinta dias de liberdade.

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2 – Repararam que o blog está mais devagar? Melhor dizendo, o blog está mais devagar? Já não sei mais, a frequência aqui sempre foi instável. Usei a palavra produtividade no título da postagem, mas odeio essa palavra e tudo que ela representa e forma patética como ela é utilizada pela galerinha-empreendedora-motivada que ainda vai ser responsável pelo fim do mundo. Esclarecido este detalhe, acho que não posto tanto por não saber o que postar. Tenho lido, visto filmes, mas odeio resenhas; coisas têm acontecido, mas nem tudo dá pra escrever aqui; faz semanas que não escrevo uma poesia e os outros textos de ficção eu não quero publicar ainda; até tenho projetos de texto e rascunhos largados aqui, mas, ou eles se tornam coisas maiores (na minha cabeça), como o texto do Jim Jarmusch ou aquele sobre o punk rock em Nova Iorque, que estou prometendo a quase um ano, ou a ideia não veio pra que ele flua direito. Bom, nunca fui de me cobrar. Não estou frustrado com o blogue ou “travado” ou desgostoso, não pretendo de forma alguma parar. Só acho que a frequência aqui vai conforme a minha vontade, o meu próprio ritmo. Agora está assim, principalmente porque estou trabalhando em outras coisas (montando e revisando um livro de poesias, me convencendo a revisar outra vez um romance, escrevendo outra história que nem sei o que é ainda porque ando muito interessando em trabalhar com narrativas improvisadas…). Admito que às vezes tinha vontade de que as coisas se formassem na velocidade de um pensamento, mas um texto não surge no papel. O fato de eu não estar aqui semanalmente – nem vou fazer vocês rirem com um “diariamente”, afinal nunca aconteceu – não significa que eu não esteja trabalhando em algo.

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3 – Agora que sei o quão medíocre é meu espanhol, estou praticando outra vez, quero me aperfeiçoar. A intenção era focar nisso o ano todo, mas é setembro, volto pra Buenos Aires em três semanas e o progresso foi mínimo. Li alguns dos livros que comprei lá, vi uns filmes, mantive contato (bem pouco) com uma pessoa que conheci lá, mas não sei se ajudou. Já me imagino travando na chegada outra vez, pedindo pras pessoas repetirem a mesma frase duzentas vezes. Vejamos. Outra coisa que aconteceu foi o fim do curso de francês que comecei em 2015. Tenho uma relação de alguns anos com o francês, esquecendo e relembrando e esquecendo e assim por diante, mas agora quero me aperfeiçoar. É complicado aprender de verdade um idioma. O que costuma funcionar ou me ajudar nesse processo é a leitura. Só que, ao contrário do inglês e do espanhol, o que está havendo com o francês é a minha dificuldade de pegar livros mais acessíveis para as primeiras leituras. Não precisei disso pro inglês nem pro espanhol, mas começar as leituras em francês por Paul Éluard e Samuel Beckett não deu certo. Peguei emprestado Le Petit Nicolas e conseguia entender o texto, mas não passava da primeira página sem pegar no sono. Que tortura digna do diabo, não? Entender, mas não conseguir se interessar; se interessar, mas não conseguir entender.

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4 – Esse artigo sobre a exposição I ♥ John Giorno, em Nova Iorque, é muito bom. Ele que me convenceu a ilustrar essa postagem com as obras desse poeta tão esquecido. Há tempos quero falar dele, mas não conheço o suficiente. E a obra dele é tão vasta e se expande por meios tão diferentes que é difícil dizer se existe algo como “conhecê-la o suficiente”. Por algum motivo, ele sempre foi visto como um coadjuvante. Ele estava ativo na época da Escola de Nova Iorque, envolvido com os artistas; fez parte do movimento beat, junto de Burroughs e Ginsberg e Corso; criou o Dial-a-Poet, linha para a qual qualquer um podia ligar e, ao fazê-lo, seria atendido por John Cage ou Patti Smith ou John Ashbery ou Ted Berrigan ou Aram Saroyan ou Anne Waldman, entre tantos outros, que prontamente leriam um poema para o ouvinte; se apresentou junto das bandas punk – Patti Smith, Richard Hell – e das bandas que abriram caminho pro que hoje nós chamamos de rock industrial – Throbbing Gristle, Suicide – no CBGB, e formou sua própria banda em 1980; sem falar o papel dele como ativista, pra conscientização sobre a AIDS, e ter sido precursor desse tipo de poema-anúncio, tão popular nos dias de hoje, em redes sociais, apesar dos dele virem com um pouco mais de provocação e intensidade (e não o tipo de intensidade que todo mundo diz ter hoje e dia… mas isso é assunto pra outro texto). Mesmo assim, raramente ele visto como o artista, mas como o cara que o Andy Warhol filmou dormindo ou o “muso” de Robert Rauschenberg e Jasper Johns. O artigo serviu pra mostrar como ele, na verdade, é um símbolo vivo de tudo que Nova Iorque foi, desde a década de 1950, pra arte e tudo o que ela não é mais.

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5 – Esse é o disco da vez. Uma reunião de composições do Alban Berg, regidas por Pierre Boulez. Elas são: Concerto de câmara para piano, violino e 13 instrumentos de sopro; 3 peças para orquestra; e concerto para violino e orquestra “À memória de um anjo”. Prefiro não dizer nada, principalmente por não ter o conhecimento técnico para analisar. Me interesso por essa fase “modernista” da música erudita e é só. Além disso, fui apresentado por Cortázar à obra de Alban Berg, em O Jogo da Amarelinha. Isso é uma série de indicações musicais “em ordem alfabética” que comecei agora. A-lban Berg é o primeiro. A próxima indicação será por um artista cujo primeiro nome comece com a letra B. A ideia é focar em estilos que menciono pouco por aqui. Como não falo muito de música erudita, apesar de escutar com frequência (principalmente enquanto leio ou escrevo e preciso bloquear os sons de fora, mas não quero me distrair com letras), decidi começar por esse gênero. Pretendo botar pelo menos alguma nota biográfica nos próximos, mas sinto que já escrevi demais nessas observações e Google existe pra saciar os curiosos.

 

2002-07-22-21-29-25

Minha relação conturbada com a internet (e comigo mesmo)

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Começa sempre que eu vejo um meme novo, outra e outra vez, sempre igual aos anteriores. Essa é a pior parte, a diferença entre um e outro é mínima. A imagem, a legenda, um sarcasmo barato. Então o lugar-comum que a ideia representa força milhares de compartilhamentos e variações. Isso tudo dura uma semana. Nos últimos dias de vida da piada, uma corporação usa o meme em campanha publicitária, normalmente errado, perdendo o humor já tão frágil da versão correta do meme. Mas não tem problema, porque três novos memes vão ocupar o espaço do recém-falecido, e cada um vai durar uma semana e, quando morrerem, três novos vão ocupar o espaço de cada morto. Eis o mito da Hidra de Lerna do humor low-brow online.

De onde veio esse gosto da atual geração pelo escroto? Sim, é irônico, mas não vou ficar aqui fingindo que entendo essa de “gostar ironicamente” das coisas. Ou se gosta, ou não se gosta. Fingir admiração pela vida e obra da Gretchen (artista que nunca, quando viva, imaginou as proporções que sua fama póstuma alcançaria – e nada me convence que ela não está morta) só pra se encaixar na linguagem das redes sociais é desperdício de vida. Existe muito nesse mundo pra se perder tempo com merda, Cada música ruim ouvida ironicamente é uma excelente que se perde na história (e, sim, estou considerando o “ruim” e o “excelente”, não com base numa espécie de cânone, mas no gosto pessoal – já chego nessa parte pra deixar isso mais claro). Supondo que não seja ironia – porque, se for mesmo só isso, é mais patético do que eu imaginava -, de onde veio esse gosto? Por que o Orkut é a Terra Prometida das redes sociais? Eu estava lá e não havia nenhum pote de ouro. Não havia comunidade “Bolsonaro 2018”, como há grupos no Facebook, mas isso porque o Bolsonaro não tinha sido conjurado pelos cavaleiros do apocalipse naquela época. Nos anos do Orkut, Bolsonaro era apenas um pesadelo se preparando pra acontecer, uma assombração selada num tomo perdido em dimensão que nem Lovecraft poderia ter imaginado, tão terrível é.

Também me lembro que Sandejunior não era alvo de grande admiração quando ainda existia. Mas isso tudo não importa. Não acho que terei acesso às resposta que procuro. Talvez os que tenham conseguido se encaixar nesse sistema escabroso forrado de piadinhas de minuto e ídolos de gerações esquecidas ainda não tenham entendido porque se perderam nesse labirinto sem fim. É uma coisa que acontece com eles, não por eles. Quando se entra no sistema, ele se torna parte indivisível de você. O meme é um parasita, um fungo de origem desconhecida. Algo que ninguém quer, ninguém gosta de verdade ou compreende a razão de ser, mas ninguém consegue se evitar de dar continuidade à existência dele. O que tomaria o lugar dele? Informação? Humor talvez mais duradouro? Experimentações que não seguissem o esquema “imagem-legenda”? Essa é a vantagem do meme, ao contrário da música disco, ele não exclui ninguém, mas é tão perigoso quanto. Você não precisa de talento pra criar um meme, saber desenhar ou ser engraçado. Você não precisa ser uma boa pessoa, melhor até que não seja. O meme te aceita pelo que você é e não reclama se você quiser fingir ser outra pessoa. O meme é um não-ser que só quer continuar existindo. Ei, numa era em que corporações têm identidade e cada indivíduo é um produto, é tão errado dar vontade própria a um conceito?

Noutro dia, vi Enquanto somos jovens (While we’re young, 2014, direção de Noah Baumbach). Nele, Ben Stiller interpreta Josh, um documentarista de meia idade com dificuldades para terminar seu projeto. Um dia ele encontra Jamie, um suposto fã, aspirante a documentarista, de 25 anos de idade, interpretado por Adam Driver. Os dois formam uma amizade. A primeira reação de Josh a Jamie é se admirar com a forma que ele e seus amigos de vinte e poucos anos não pareciam fazer distinção entre as coisas, falavam de Footloose e Cidadão Kane com a mesma paixão (e tinham os argumentos para justificar esse gosto). Com o passar dos meses, Josh perde a paciência com esse estilo de vida do Jamie, principalmente a falta de consideração dele para com os outros seres humanos e para com a forma tradicional de se fazer documentários. Jamie não se importa com pesquisa, realismo, verdade. Ele busca a reação, a narrativa que vai pegar o público, mesmo que tenha que ser montada. Faz seus documentários como se não fossem diferentes de qualquer reality show.

Para os leitores que agora não fazem ideia de onde eu quero chegar, releiam o título. O texto promete ser sobre a internet, promete ser conturbado e promete ser sobre mim. Ponto. Ainda estou nos temas e até que estou coerente, embora não me responsabilize pelo que possa acontecer daqui em diante. Isto não é uma análise acertada da nossa geração.  Geração que nem sei se é minha, porque gerações passam como anos hoje em dia. Todos os meses, surge um novo acontecimento marcante, um novo produto, uma nova revolução cultural ou tecnológica, e cada um desses promete ser a marca de uma geração – alguns até conseguem cumprir a promessa ou parecem estar conseguindo. Existe diferença entre as gerações que nasceram com um computador em casa e as que não? Pra quem nasceu entre 86-94 (talvez, não sei, depende do país ou da família), parece que foi um piscar de olhos. Lembro que houve um tempo em que minha família não tinha computador. Lembro da máquina de escrever dos meus pais. Então um dia surgiu um computador lá em casa, mas mesmo assim ele não tinha muita utilidade. A internet só veio depois e mesmo ela não mudou nada a nossa vida, ela não funcionava direito, interrompia o telefone e era caríssima. Começou a mudar com a banda larga, mas aí eu já começava minha adolescência. Consideremos a banda larga como o fator marcante da geração – a internet eficiente, muito embora as pessoas que ocuparam o mundo da internet discada talvez discordem de mim, mas vocês não são da minha geração, eu acho… ou são… não sei -, é possível separar por geração os que eram adultos com o surgimento da banda larga, os que eram adolescentes e os que eram crianças? E os que nasceram na época do smartphone? E os que não nasceram ainda? Somos gerações diferentes? A última cena de Enquanto somos jovens é Josh, no aeroporto com sua esposa, Cornelia, interpretada por Naomi Watts, assistindo boquiaberto um bebê pegar um smartphone da bolsa da mãe (foi da bolsa da mãe?, isso não importa…) e, como que por intuição, fazer uma ligação com ele.

Mas voltemos a Jamie, aos de vinte e poucos, aos meus contemporâneos – acredito que sejam. Falar de bebês e da possível relação deles com novas tecnologias é campo da ficção científica especulativa, e não estou aqui pra isso dessa vez. Ele, Jamie, quer a reação, não o método. Sim, criar um quadrinho, uma tira, artisticamente competente, com humor sutil, é bom, desejável, mas não é pra qualquer um. E se o humor for muito sofisticado, não vai ser pra todos. Vai excluir aqueles que não querem mais que algo que os faça reagir instantaneamente. E não se quer excluir nada hoje em dia. Cada música lançada, mesmo que seja só mais um embutido cagado por uma gravadora multimilionária, é um hino universal, uma obra-prima inigualável (e alcança esse patamar no dia do seu lançamento, quando o clipe passa das milhões de visualizações no Youtube), pelo menos por uma semana. Ai de quem discorde – os pedantes, odiadores, nariz em pé, conservadores nojentos, porcos… enfim. É muito melhor, por exemplo, desenhar um sapo. O desenho pode ser mal-feito, mas vai ser daquelas coisas tão ruins que ficam boas. Desde que venha com alguma mensagem identificável. E não tem problema que o desenho vire símbolo para neonazistas, porque, na mesma velocidade em que ele surgiu, na mesma velocidade em que seu significado foi deturpado, na mesma velocidade o seu significado pode ser recuperado. Não é que nem quando os nazistas originais pegaram Nietzsche e Wagner. As coisas são muito mais flexíveis nos dias de hoje, para o bem ou para o mal.

O meu problema não é nem com o mal gosto, mas com a ideia forçada de que tudo deve ser visto como bom. Opiniões negativas sobre qualquer coisa são mal vistas. Qual a necessidade de criticar?, de enxergar o lado ruim das coisas? Bom, do contrário, tampouco existem coisas boas. Se tudo é bom, nada é bom: tudo é, na realidade, neutro. Vivemos um estado de neutralidade, reagindo com extrema empolgação a tudo pelo mínimo de tempo possível. Por isso nada dura, nada é real, é só uma coisa que acontece. Memes são alucinações, te levam a crer que você viu algo incrível, chegou a uma grande conclusão sobre a existência, até que passa e te deixa vazio e sedento por mais – e de vez em quando vem o flashback.

O que importa é a reação. É? Estou me envelhecendo quando digo que tenho dificuldades para aceitar isso? Que tenho medo das consequências disso? Mais dois males que assolam meus contemporâneos: a sensação prematura de velhice e a paixão pela nostalgia – já vi gente se sentindo nostálgica por coisas que aconteceram há cinco anos, e o pior é que faz sentido, porque a coisa de cinco anos atrás durou tão pouco e passou tão rápido que parece que faz uma eternidade desde que ela surgiu. Estamos condenados? Eu sinto como se estivéssemos. Como se não fosse mais tão simples agora. Como se tivéssemos ido a fundo demais no labirinto e não desse mais pra voltar. Fizemos essa cultura e não sabemos mais como desfazê-la. O engraçado é que ela morre todos os dias. Nada dura, mas tudo que surge no lugar é igual. Parte de mim quer que fique pior, acredita que a única forma de matar essa besta é deixando que ela saia ainda mais de controle, tome proporções aterradoras até para os que ajudaram a criá-la. Ao mesmo tempo, eu posso estar errado. Pode ser que nada assuste essas pessoas, que elas sejam mais monstruosas que suas criações. Pode ser que o futuro vá se resumir a isso mesmo: opiniões políticas expostas via memes, debates via gifs da Gretchen. Claro que não. Claro que isso vai passar. Logo virá uma nova geração com algo ainda pior e mais passageiro. E eu vou escrever outro texto, nesse futuro, relembrando os bons e velhos tempos, quando uma opinião podia ser resumida com uma imagem legendada com uma piada sem graça.