A origem de Tommy Wiseau – uma investigação

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1 – Deixa eu explicar

Era uma vez um indivíduo nos seus últimos dias de férias, razoavelmente inebriado às três da manhã de um domingo, alimentando uma nostalgia bizarra pela década de 1990 com vídeos de entrevistas do Space Ghost Costa a Costa. Via quando criança, mas nem imagino por quê. Entrevistas absurdas com gente da cultura popular americana da década de 80 e 90, David Byrne, Thom Yorke, Björk, Matt Groening, pra citar exemplos, gente que eu não fazia ideia quem fosse, eu que ainda vivia minha primeira década. Acho que tem algo no absurdo que atrai a atenção das crianças. O estranho é legal, o incompreensível faz rir só pelo que ele é. Eu não fazia ideia de quem eram as pessoas dentro da televisão falando com o super-herói idiossincrático, mas o jeito que eles falavam me fazia rir, assim como o louva-deus do mal falante. Voltando ao tema, vi a entrevista do David Byrne, na madrugada de ontem pra hoje (domingo-segunda, caso eu não termine esse texto hoje [segunda – fica aí a referência temporal, pros leitores que se importam]), porque me tornei fã de Talking Heads, passadas as quase duas décadas separando a vez que assisti Space Ghost pela primeira vez dessa. Foi quando, ouvindo a voz deslocada do David Byrne, o vendo de cabelo cumprido pela primeira vez, fui atingido pelo que só pode ser chamado de iluminação. Byrne me lembrava de alguém que não era Byrne, mas quem era? Foi quando ouvi soar, feito um sussurro divino ao pé do meu ouvido: o, hi, Mark. Sim! Como pude demorar tanto pra me dar conta?, era a figura de Tommy Wiseau que a versão anos 90 do David Byrne me trazia à tona. Vejam a entrevista em questão – daqui em diante chamada Evidência 1:

 

 

 

 

 

2 – Mas que porra é Tommy Wiseau?

Bom, me decepcionaria se algum de vocês fizesse essa pergunta, mas, para fins de contexto e porque eu sou um profissional, vou explicar: Tommy Wiseau é um ator, diretor, culpado pela criação de The Room, conhecido nas ruas como o Cidadão Kane dos filmes ruins. Desde 2010, o filme, lançado em 2003, ganhou alguns milhares de seguidores e esse ano vai sair um filme baseado em sua produção. (A culpa por esse filme sobre o filme cai sobre James Franco, que por algum motivo se acha um bom artista, o que não vem ao caso.) Mas, sobre Tommy, pouco se sabe. O cidadão revelou poucas informações sobre o seu passado e todas são conflitantes. Ele se diz cidadão americano, mas o inglês dele diz o contrário, e o sotaque é quase impossível de localizar por ter um pouco do que parece ser leste-europeu ou francês. Dizem que ele veio da Polônia, mas não há provas físicas, só especulações. Até a data de nascimento dele é um mistério. O próprio disse 1968 ou 1969 (sim, um ou outro, ele não decidiu ou não sabe quando foi que ele nasceu). Um amigo que alega ter visto os documentos dele diz que foi 1955. Quantos anos ele tem de fato? A aparência dele impede um chute preciso. Ao mesmo tempo que ele parece acabado, ele não aparenta 62 anos. Ou seja, um cidadão além do tempo e do espaço (isso é importante para o resto da teoria, aguardem). Vocês, a essa altura, devem estar se perguntando o que isso tem a ver com David Byrne. Eu espero que vocês tenham prestado atenção na voz de Byrne durante a entrevista. Se prestaram, cliquem no vídeo abaixo (Evidência 2), contendo cenas da performance de Tommy em The Room. Notaram as semelhanças? Pois então, eu também. Não acredito que seja só coincidência.

 

 

 

3 – A teoria, ou, melhor dizendo, a investigação

Os leitores mais perspicazes se deram conta das semelhanças físicas entre os senhores Byrne e Wiseau. Também repararam que as vozes deles se assemelham, não só em timbre mas em certos maneirismos, especialmente a velocidade da fala. Não dá pra negar que, apesar das proximidades, Wiseau é como uma versão pós-AVC do Byrne em todos os aspectos. É aí que entra a minha teoria ou, como prefiro chamar, investigação.

O doppelgänger é o famoso fenômeno popularizado pelo romance alemão Siebenkäs, de Jean Paul, que criou o neologismo. O fenômeno em si pode ser tão banal quanto a se referir a duas pessoas muito parecidas mas sem grau de parentesco até ter origens paranormais, como ser um fantasma ou uma representação sobrenatural normalmente fonte de má sorte. O tipo de doppelgänger ao qual me refiro nessa investigação, contudo, é baseado no apresentado esse ano por David Lynch, em sua continuação de Twin Peaks. (Isso tudo é muito sério.) Em termos vagos, pra não estregar a história pros que dentre vocês não viram a série ainda, o protagonista tem seu corpo duplicado. Enquanto a versão real fica presa em uma dimensão sombria (chamada Black Lodge), o duplo é possuído por BOB, um espírito assassino (que pode representar a raiz de todo o mal, isso nunca fica claro), e vaga pela Terra dando continuidade à sua função, seja ela qual for.

O duplo de Twin Peaks, para evitar que o original consiga se libertar de Black Lodge, cria outra cópia, um tanto defeituosa. Um homem sem passado, sem origem, perdido na existência. Essa descrição faz com que vocês se lembrem de alguém? Talvez de um cineasta de talento duvidoso e passado desconhecido, uma entidade perdida no tempo e no espaço, que fala como se tivesse sido apresentado às capacidades básicas de comunicação há não mais que uns poucos anos e que, no entanto, aparenta ser muito mais velho. O próprio parece confuso e incapaz de agir como um ser humano. Sim, senhoras e senhores, minha investigação conclui que há evidências que Tommy Wiseau seja um doppelgänger de David Byrne. A semelhança física entre Wiseau e Byrne, especificamente Byrne na década de 1990, indica que foi nesse período, por volta de 1995, que Tommy Wiseau foi gerado em misteriosas circunstâncias.

 

 

 

 

 

 

 

 

Reparem novamente na compilação de cenas de The Room. É tão absurdo, vendo a interpretação de Wiseau, acreditar que ele age e fala dessa maneira porque, na verdade, ele só contava 8 anos na Terra, no período das filmagens? Se ele nasceu… perdão, se ele foi criado em 1995, essa é a idade que ele teria em 2003. No entanto, ele viria ao mundo com a aparência do seu original. Como Byrne nunca se removeu da face da Terra e até hoje está entre nós, logo o seu corpo original não foi ocupado por uma entidade, sim foi gerado a partir de uma parte dele, explicando as falhas em seu duplo. Foi Byrne que criou esse duplo? Talvez, ou talvez Byrne, ao brincar com forças além das suas habilidades, tenha sido dominado por uma força sobrenatural. Talvez o nosso Byrne, que conhecemos e amamos, não seja o que acreditamos que seja. Vejamos ele hoje:

 

 

 

 

 

 

 

 

A-ha! O cabelo branco. Qualquer estudioso da mitologia de Twin Peaks sabe que o cabelo branco tem algum significado. (Qual… aí esse é um assunto nebuloso, mas tem significado.) Leland, o pai de Laura Palmer, também possuído por BOB, Leland, da noite pro dia, aparece de cabelos brancos, tais quais os de David Byrne atualmente. Pode ser que a mudança tenha sido só uma questão de idade. Mas pode ser que não. O cabelo do duplo não mudou de cor. Nunca saberemos o que anda aprontando o atual David Byrne ou se ele mesmo se dá conta do que pode ter acontecido com ele e o que seu duplo anda aprontando por aí.

4 – Considerações finais

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Abram seus olhos, Ovis sapiens/Homo aries! Há mais nesse universo do que podemos imaginar ou, deveria dizer, que eles querem que nós saibamos. David Lynch está ciente da realidade e graças a ele nós também temos acesso à informação. A verdade está aí e ela os libertará. Nossos ídolos, aqueles que nós admiramos, talvez não sejam quem nós pensamos que eles são. É possível que haja uma ou milhares de outras dimensões habitando dentro da nossa e está ou estás talvez tenham começado a interferir com o que chamamos, por costume ou ignorância, realidade. Cuidem-se de si mesmos, ou vocês também podem ser substituídos ou duplicados. E, quem sabe, nem todos os duplos sejam assim tão simpáticos quanto Tommy Wiseau.

 

Stop making sense!

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Tempo, família, livros, letra B (observações aleatórias #11)

1 – Cheguei dia 25, mas ainda não me sinto em casa. Talvez seja coisa pro diário. Deixarei aqui como uma nota pra texto futuro, como tantos outros fragmentos nessas observações. Todos os dias, em Buenos Aires, acordava às 4 da manhã. Então, até a hora em que me levantava – variava entre 8 e 9 da manhã -, parecia uma eternidade. Acordava de 15 em 15 minutos achando que dias inteiros tinham passado. No domingo, sem planos, depois de passar horas andando pra lá e pra cá, procurando livros pras últimas compras, caminhando pelo jardim botânico, frustrado pela linha do metrô estar fechada, estava certo que já era quase cinco da tarde ao chegar num café e finalmente sentar, quando não passava das 3. Tinha a impressão de ter olhado no relógio e visto que era 4 e meia ou mais tarde. Todos os dias tiveram algo assim. Os dias em câmera lenta, apesar de passarem rápido. Sim, foi tudo muito rápido. Só os dias dentro desse furacão de semana que pareciam alheios à loucura (minha, da cidade, da viagem, da passagem do tempo…). E quando cheguei na balsa que leva de Navegantes à Itajaí, parecia que meses tinham passado. A viagem foi de 6 dias, sem diferença de horário entre os países, só que tudo estava diferente. Inclusive a rua próxima do meu escritório, por onde passo todos os dias, parecia ter algo novo, algo que nunca vi. E não me sentia em casa. Ainda não me sinto.

2 – Então, antes de me readaptar, fui passar uns dias com meus pais. Que não fique a impressão de que tenho uma relação ruim com eles, não é bem isso. Vivo sozinho há quase dez anos – é, fará uma década em 2019, vocês respeitem minhas barbas brancas. Nesse meio tempo, é natural se afastar daqueles que te criaram, principalmente se sua natureza é mais fechada, reclusa, e você não é lá de compartilhar coisas com ninguém, nem – ou muito menos – com eles. Passa a década e, depois de uma semana de convívio, você se dá conta de que não tem nada em comum com eles e eles não sabem nada sobre você e nenhuma das partes compreende ou sabe lidar muito bem com esse fato. É normal? Acredito que seja. Parte de mim acredita que a educação dos pais só pode levar a dois caminhos: criar filhos idênticos aos pais ou criar filhos opostos aos pais. Saí um oposto, fazer o quê? Acaba que, entre criar conflito e resumir as inúmeras omissões da minha vida pra eles ou continuar escondendo e ficar sem assunto, escolho manter a omissão. É bom? Não pro convívio, mas evita perguntas difíceis como: quando você começou a beber?, você não sabe que isso não é bom pra você? como assim você escreve?, então você quer viver em Buenos Aires?… A vida é complicada, não dá pra falar mais que isso. Filhos escondem dos pais tanto quanto pais escondem dos filhos, é uma questão de saúde mental, “proteção”, por assim dizer, na falta de palavras melhores. Estou de volta agora, fisicamente, me esforçando pra voltar por completo, se for possível.

3 – (Observação de fato aleatória) Muito aconteceu da hora em que comecei a escrever isso até agora, mas uma coisa foi minha ida ao quilo na terça, pra almoçar. O cidadão na minha frente, depois de um bom tempo passando álcool em gel nas mãos, passou o álcool no rosto como se fosse pós-barba. E o cidadão nem barbeado era, mantinha aquela barba de um dia que 90% da população masculina mantém hoje. Eu estranhei. Talvez vocês vejam isso todos os dias, eu não.

4 – Sim, esse blogue vai envolver muito da minha viagem pelos próximos dias, peço desculpas em adiantado. Mas vou falar dos livros que comprei lá aqui, porque não tenho um pedaço do diário dedicado pra isso ainda. Fui pra explorar a literatura argentina (também), logo, comprei em 6 dias o que compraria em 6 meses (me enganando aqui, como se, pra livros, eu fosse tão frugal). Voltei com 20 livros. Só tinha livro na minha mala, o pessoal do raio-x deve ter se assustado. O que eu fiz e indico pra quem se interesse por literatura de qualquer lugar do mundo pra que se está viajando (acho que pode funcionar em qualquer lugar no mundo) é achar um vendedor de confiança e perguntar: qual autor local você gosta e acha que não recebeu o reconhecimento merecido? Normalmente a resposta é sincera. Se você achar o vendedor certo, vai conhecer livros que de alguma maneira afetaram o vendedor como leitor e admirador de literatura. (Mas, Tio Rapha, como eu sei que o vendedor é de confiança? Ora, minha criança, verifique antes, leve em consideração o que você gosta de ler, troque informações com o vendedor, veja as reações, esse tipo de coisa.) Hebe Uhart foi um exemplo. Queria ter perguntado o nome da vendedora que me indicou a autora. O nome do livro é Turistas, pode ser que ela tava tirando com a minha cara, mas gostei demais do livro. Vou ver o nome da livraria mais tarde pros leitores do meu blogue que quiserem conhecer Buenos Aires. É fácil de achar, fica na área da Plaza Armenia, em uma das ruas que cruza pela Rua Armenia. Mas não foi só esse, em San Telmo, e isso pode aparecer no diário, fui à livraria El Rufián Melancólico. Uma bagunça espetacular de lugar. Pilhas e pilhas de raridades e velharias de todos os tipos. E o dono, Jorge, sabe muito (de literatura argentina e brasileira, sabia mais de Guimarães Rosa que eu – o que é fácil, mas não imaginava que fosse fácil pra um argentino). O lugar mais barato, pra livros, que vi na cidade, na minha vasta experiência de 16 dias em 1 anos. E tem de tudo, inclusive um livro em português, de um poeta chamado José Francisco, sobre quem não sei nada nem consegui achar nada, mas parece interessante. O nome é Peito aberto armado de flores, se alguém puder me ajudar.

5 – Contei no twitter a história da indicação do livro Turistas e a Carol me indicou Banda de Turistas, de Buenos Aires. Gostei demais. Tenho meus problemas com rock alternativo, mas essa banda passou o meu teste de qualidade. Estou falando disso aqui porque, lembram?, eu ia terminar essas observações com uma indicação musical em ordem alfabética. Estou na letra B. Mas ia indicar Talking with the taxman about poetry, do Billy Bragg. Um era o plano inicial, uma mistura de rock com folk (popular, oposto ao erudito da letra A, e eu quero ser o mais abrangente possível nessa lista alfabética), o outro se encaixa com o tema das observações. O que fazer? Ora, trapacear e indicar os dois. É melhor que esperar dar a volta pra indicar os dois, não? Aí está. Ya, de Banda de Turistas, e Talking with the taxman about poetry, do Billy Bragg. Divirtam-se.

Minha relação conturbada com a internet (e comigo mesmo)

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Começa sempre que eu vejo um meme novo, outra e outra vez, sempre igual aos anteriores. Essa é a pior parte, a diferença entre um e outro é mínima. A imagem, a legenda, um sarcasmo barato. Então o lugar-comum que a ideia representa força milhares de compartilhamentos e variações. Isso tudo dura uma semana. Nos últimos dias de vida da piada, uma corporação usa o meme em campanha publicitária, normalmente errado, perdendo o humor já tão frágil da versão correta do meme. Mas não tem problema, porque três novos memes vão ocupar o espaço do recém-falecido, e cada um vai durar uma semana e, quando morrerem, três novos vão ocupar o espaço de cada morto. Eis o mito da Hidra de Lerna do humor low-brow online.

De onde veio esse gosto da atual geração pelo escroto? Sim, é irônico, mas não vou ficar aqui fingindo que entendo essa de “gostar ironicamente” das coisas. Ou se gosta, ou não se gosta. Fingir admiração pela vida e obra da Gretchen (artista que nunca, quando viva, imaginou as proporções que sua fama póstuma alcançaria – e nada me convence que ela não está morta) só pra se encaixar na linguagem das redes sociais é desperdício de vida. Existe muito nesse mundo pra se perder tempo com merda, Cada música ruim ouvida ironicamente é uma excelente que se perde na história (e, sim, estou considerando o “ruim” e o “excelente”, não com base numa espécie de cânone, mas no gosto pessoal – já chego nessa parte pra deixar isso mais claro). Supondo que não seja ironia – porque, se for mesmo só isso, é mais patético do que eu imaginava -, de onde veio esse gosto? Por que o Orkut é a Terra Prometida das redes sociais? Eu estava lá e não havia nenhum pote de ouro. Não havia comunidade “Bolsonaro 2018”, como há grupos no Facebook, mas isso porque o Bolsonaro não tinha sido conjurado pelos cavaleiros do apocalipse naquela época. Nos anos do Orkut, Bolsonaro era apenas um pesadelo se preparando pra acontecer, uma assombração selada num tomo perdido em dimensão que nem Lovecraft poderia ter imaginado, tão terrível é.

Também me lembro que Sandejunior não era alvo de grande admiração quando ainda existia. Mas isso tudo não importa. Não acho que terei acesso às resposta que procuro. Talvez os que tenham conseguido se encaixar nesse sistema escabroso forrado de piadinhas de minuto e ídolos de gerações esquecidas ainda não tenham entendido porque se perderam nesse labirinto sem fim. É uma coisa que acontece com eles, não por eles. Quando se entra no sistema, ele se torna parte indivisível de você. O meme é um parasita, um fungo de origem desconhecida. Algo que ninguém quer, ninguém gosta de verdade ou compreende a razão de ser, mas ninguém consegue se evitar de dar continuidade à existência dele. O que tomaria o lugar dele? Informação? Humor talvez mais duradouro? Experimentações que não seguissem o esquema “imagem-legenda”? Essa é a vantagem do meme, ao contrário da música disco, ele não exclui ninguém, mas é tão perigoso quanto. Você não precisa de talento pra criar um meme, saber desenhar ou ser engraçado. Você não precisa ser uma boa pessoa, melhor até que não seja. O meme te aceita pelo que você é e não reclama se você quiser fingir ser outra pessoa. O meme é um não-ser que só quer continuar existindo. Ei, numa era em que corporações têm identidade e cada indivíduo é um produto, é tão errado dar vontade própria a um conceito?

Noutro dia, vi Enquanto somos jovens (While we’re young, 2014, direção de Noah Baumbach). Nele, Ben Stiller interpreta Josh, um documentarista de meia idade com dificuldades para terminar seu projeto. Um dia ele encontra Jamie, um suposto fã, aspirante a documentarista, de 25 anos de idade, interpretado por Adam Driver. Os dois formam uma amizade. A primeira reação de Josh a Jamie é se admirar com a forma que ele e seus amigos de vinte e poucos anos não pareciam fazer distinção entre as coisas, falavam de Footloose e Cidadão Kane com a mesma paixão (e tinham os argumentos para justificar esse gosto). Com o passar dos meses, Josh perde a paciência com esse estilo de vida do Jamie, principalmente a falta de consideração dele para com os outros seres humanos e para com a forma tradicional de se fazer documentários. Jamie não se importa com pesquisa, realismo, verdade. Ele busca a reação, a narrativa que vai pegar o público, mesmo que tenha que ser montada. Faz seus documentários como se não fossem diferentes de qualquer reality show.

Para os leitores que agora não fazem ideia de onde eu quero chegar, releiam o título. O texto promete ser sobre a internet, promete ser conturbado e promete ser sobre mim. Ponto. Ainda estou nos temas e até que estou coerente, embora não me responsabilize pelo que possa acontecer daqui em diante. Isto não é uma análise acertada da nossa geração.  Geração que nem sei se é minha, porque gerações passam como anos hoje em dia. Todos os meses, surge um novo acontecimento marcante, um novo produto, uma nova revolução cultural ou tecnológica, e cada um desses promete ser a marca de uma geração – alguns até conseguem cumprir a promessa ou parecem estar conseguindo. Existe diferença entre as gerações que nasceram com um computador em casa e as que não? Pra quem nasceu entre 86-94 (talvez, não sei, depende do país ou da família), parece que foi um piscar de olhos. Lembro que houve um tempo em que minha família não tinha computador. Lembro da máquina de escrever dos meus pais. Então um dia surgiu um computador lá em casa, mas mesmo assim ele não tinha muita utilidade. A internet só veio depois e mesmo ela não mudou nada a nossa vida, ela não funcionava direito, interrompia o telefone e era caríssima. Começou a mudar com a banda larga, mas aí eu já começava minha adolescência. Consideremos a banda larga como o fator marcante da geração – a internet eficiente, muito embora as pessoas que ocuparam o mundo da internet discada talvez discordem de mim, mas vocês não são da minha geração, eu acho… ou são… não sei -, é possível separar por geração os que eram adultos com o surgimento da banda larga, os que eram adolescentes e os que eram crianças? E os que nasceram na época do smartphone? E os que não nasceram ainda? Somos gerações diferentes? A última cena de Enquanto somos jovens é Josh, no aeroporto com sua esposa, Cornelia, interpretada por Naomi Watts, assistindo boquiaberto um bebê pegar um smartphone da bolsa da mãe (foi da bolsa da mãe?, isso não importa…) e, como que por intuição, fazer uma ligação com ele.

Mas voltemos a Jamie, aos de vinte e poucos, aos meus contemporâneos – acredito que sejam. Falar de bebês e da possível relação deles com novas tecnologias é campo da ficção científica especulativa, e não estou aqui pra isso dessa vez. Ele, Jamie, quer a reação, não o método. Sim, criar um quadrinho, uma tira, artisticamente competente, com humor sutil, é bom, desejável, mas não é pra qualquer um. E se o humor for muito sofisticado, não vai ser pra todos. Vai excluir aqueles que não querem mais que algo que os faça reagir instantaneamente. E não se quer excluir nada hoje em dia. Cada música lançada, mesmo que seja só mais um embutido cagado por uma gravadora multimilionária, é um hino universal, uma obra-prima inigualável (e alcança esse patamar no dia do seu lançamento, quando o clipe passa das milhões de visualizações no Youtube), pelo menos por uma semana. Ai de quem discorde – os pedantes, odiadores, nariz em pé, conservadores nojentos, porcos… enfim. É muito melhor, por exemplo, desenhar um sapo. O desenho pode ser mal-feito, mas vai ser daquelas coisas tão ruins que ficam boas. Desde que venha com alguma mensagem identificável. E não tem problema que o desenho vire símbolo para neonazistas, porque, na mesma velocidade em que ele surgiu, na mesma velocidade em que seu significado foi deturpado, na mesma velocidade o seu significado pode ser recuperado. Não é que nem quando os nazistas originais pegaram Nietzsche e Wagner. As coisas são muito mais flexíveis nos dias de hoje, para o bem ou para o mal.

O meu problema não é nem com o mal gosto, mas com a ideia forçada de que tudo deve ser visto como bom. Opiniões negativas sobre qualquer coisa são mal vistas. Qual a necessidade de criticar?, de enxergar o lado ruim das coisas? Bom, do contrário, tampouco existem coisas boas. Se tudo é bom, nada é bom: tudo é, na realidade, neutro. Vivemos um estado de neutralidade, reagindo com extrema empolgação a tudo pelo mínimo de tempo possível. Por isso nada dura, nada é real, é só uma coisa que acontece. Memes são alucinações, te levam a crer que você viu algo incrível, chegou a uma grande conclusão sobre a existência, até que passa e te deixa vazio e sedento por mais – e de vez em quando vem o flashback.

O que importa é a reação. É? Estou me envelhecendo quando digo que tenho dificuldades para aceitar isso? Que tenho medo das consequências disso? Mais dois males que assolam meus contemporâneos: a sensação prematura de velhice e a paixão pela nostalgia – já vi gente se sentindo nostálgica por coisas que aconteceram há cinco anos, e o pior é que faz sentido, porque a coisa de cinco anos atrás durou tão pouco e passou tão rápido que parece que faz uma eternidade desde que ela surgiu. Estamos condenados? Eu sinto como se estivéssemos. Como se não fosse mais tão simples agora. Como se tivéssemos ido a fundo demais no labirinto e não desse mais pra voltar. Fizemos essa cultura e não sabemos mais como desfazê-la. O engraçado é que ela morre todos os dias. Nada dura, mas tudo que surge no lugar é igual. Parte de mim quer que fique pior, acredita que a única forma de matar essa besta é deixando que ela saia ainda mais de controle, tome proporções aterradoras até para os que ajudaram a criá-la. Ao mesmo tempo, eu posso estar errado. Pode ser que nada assuste essas pessoas, que elas sejam mais monstruosas que suas criações. Pode ser que o futuro vá se resumir a isso mesmo: opiniões políticas expostas via memes, debates via gifs da Gretchen. Claro que não. Claro que isso vai passar. Logo virá uma nova geração com algo ainda pior e mais passageiro. E eu vou escrever outro texto, nesse futuro, relembrando os bons e velhos tempos, quando uma opinião podia ser resumida com uma imagem legendada com uma piada sem graça.

Aos iniciantes, Béla Tarr, banalidades japonesas, Gao Xingjian (observações aleatórias #9)

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1 – Evitei o quanto pude colocar dicas de escrita nesse blogue, mas vim com uma e acho que ela deve ser compartilhada. Não antes que eu deixe claro que sou um merda e não preciso ser ouvido. Mal se pode chamar de dica, na verdade, é mais uma tentativa de esclarecimento. Não esquente a cabeça com certos e errados. Se explicações junto ao diálogo tiram a naturalidade, se aspas são mais corretas que travessões ou se o melhor é cormacmccarthear (estilo que tem todas as características de um diálogo livre e natural, mas nada tem de natural, com personagens divagando sobre a existência e o terror interminavelmente) de uma vez, lirismo, frases curtas ou longas, parágrafos longos ou curtos ou livros inteiros em um parágrafo – ou uma frase -, linguagem simples ou rebuscada ou achar o meio termo, história mundana ou épica, descrições detalhadas ou mínimas ou ausentes. Seu trabalho não é responder essas perguntas, mas usar das ferramentas – que são todas. Aprenda o método. Análises e julgamentos são pros críticos, e, lembrem-se, os críticos sempre vêm depois das obras. Existe esse esforço por fazer que o autor crie sua própria teoria literária – ou se obrigue a justificar sua obra com base em determinadas teorias – o que não é nada saudável pra arte. É impossível escrever – e só posso dizer isso com base nas minhas próprias dificuldades, passadas e presentes – sem cortar relações com ideias fixas do que é “boa literatura”. Não seja ingênuo, apesar de aberta, essa dica te deixa tão mais livre quanto responsável pela sua própria visão estética. Eu ainda não me resolvi com essa parte do esquema.

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2 – Tampouco acho possível ensinar escrita criativa. Técnicas e teorias são possíveis de ensinar; a escrita em si, ou qualquer outra arte, não. E nem deveria ser, num sentido educacional/doutrinário. Depois de se aposentar, em 2011, Béla Tarr (diretor húngaro) começou a film.factory numa universidade em Sarajevo. O que ele disse em entrevista foi que o mal das escolas de cinema estava na insistência dos professores em educar os alunos, quando esse não deveria ser o objetivo. A film.factory, encerrada no fim de 2016 por falta de verbas, tinha por objetivo colocar pessoas de gerações, origens e culturas diferentes, em uma mesma escola para trocar informações e buscar formas de renovar a linguagem do cinema. Ele comparava a ideia ao que houve na escola Bauhaus de arquitetura (sobre a qual eu nada tenho a acrescentar por ser analfabeto no tema). Concordo com essa visão e invejo quem teve a chance. Interação entre artistas experientes e novatos é essencial, independente dos gostos de cada um.

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3 – Falando em Béla Tarr, botei como objetivo do ano ver todos os filmes dele em ordem cronológica – ou todos que conseguir encontrar. Já vi O Cavalo de Turim e A Harmonia Werckmeister, mas preciso rever, são os tipos de filme para serem vistos várias vezes em uma vida. Agora quero seguir ordem cronológica, então o primeiro será O Ninho Familiar, de 1979, quando ele ainda se ocupava do realismo social sem tanta preocupação estética.  Pra me preparar pra Satantango, o filme de 7 horas e meia, comecei a ler o livro que deu origem ao filme, escrito em 1985 por László Krasznahorkai, na tradução pro inglês. Grande leitura, densa, blocos de texto que se expandem. Tem aquele humor negro à Beckett e Kafka, mas o cenário é um tanto mais desesperançado. Enquanto Kafka trata da fraqueza do indivíduo em uma sociedade opressora e Beckett trata do absurdo e da impotência humana de forma tragicômica, Krasznahorkai é uma espécie de profeta do apocalipse pra quem o apocalipse já passou e o resto de nós que não se deu conta ainda. É interessante quando dois artistas (no caso, Béla Tarr e László Krasznahorkai) têm uma visão tão próxima que suas histórias parecem se complementar, que um consegue passar criar a matéria-prima ideal pra obra do outro. Uma pena que, nem mesmo depois do László receber o Man Booker Prize ano passado, até agora nenhuma editora brasileira se interessou pela obra dele.

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4 – Enquanto lido com os parágrafos tortuosos e imensos de Satantango, contrabalanço com a simplicidade e o cotidiano em O Livro do Travesseiro, da Sei Shōnagon. Esta é uma das principais obras da prosa japonesa clássica. Consiste de uma série de anotações, feitas por essa dama da corte imperial, aproximadamente no ano 1.000, sobre tudo que a cercava. Ela descreve o que se passou com ela ou na corte em determinado dia, lista coisas que adora e coisas que odeia, sempre de maneira precisa, usando o mínimo de palavras para dizer o máximo. Esse estilo dela, de dar foco ao que a cerca, me fez lembrar dos filmes de Yasujirō Ozu (Era uma vez em Tóquio, Bom dia, Pai e Filho, são os que eu vi até hoje). Nenhum deles trata de grandes temas ou sequer parece acompanhar as coisas importantes que acontecem dentro de suas próprias histórias. O foco é no banal, no quieto. Noutro dia, vi Andando, filme de 2008 dirigido por Hirokazu Kore-eda, que segue o mesmo estilo, sobre dois irmãos (cada um com sua família), que vão passar um dia na casa dos pais, já bastante idosos. Então eles falam do passado, cozinham, tratam da passagem do tempo. Nada grandioso, mas de certa forma é, afinal existe e, pra maior parte de nós, é o todo da vida. Parece tradição japonesa esse tipo de retrato, essa forma de enxergar a realidade e fazer arte com ela… Acho que isso aqui é mais um esboço para algo maior que sinto que devo escrever algum dia. A maior parte dessas observações são exatamente isso: coisas que ainda não sei como escrever, mas esse é o resultado parcial. Ao mesmo tempo, você, leitor imaginário, descobre coisas novas e todo mundo sai ganhando.

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5 – As pinturas que ilustram o texto são de Gao Xingjian, que também é dramaturgo, romancista, contista, vencedor do prêmio Nobel de literatura em 2000. Que eu saiba, o único livro dele traduzido para o português é Montanha da Alma, mas está fora de linha e quase não se encontra ele por aí. A obra teatral é comparada com Ionesco e Beckett. Dá pra perceber a sensação de isolamento nas pinturas dele, grandes abismos, espaços escuros abertos, gente sem rosto vagando sem rumo. Em parte, os cenários são como os que Béla Tarr filme, os campos vazios de O Cavalo de Turim ou a cidade deserta em que algo terrível sempre parece prestes a acontecer em A Harmonia Werckmeister. Xingjian, com suas pinturas no estilo tradicional sumi-ê (sobre o qual não vou fingir entender nada, fora que utiliza uma tinta especial próxima do nanking e papel artesanal à base de arroz), também cria essa impressão de impotência perante algo muito maior e terrível. Influência do autoritarismo em que ele viveu? Talvez. O mesmo está em Kafka, Beckett, Ionesco, Tarr, Krasznahorkai. E todos viveram em períodos de autoritarismo. Outro esboço, isso aqui, talvez. Vejamos.

Sobre poemas de amor e reciclagem de textos, comunicação e pessoas novas, Stan Brakhage (Observações aleatórias #8)

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1 – Fuçando a finada versão blogspot desta bodega, achei uma postagem que queria reciclar e vi que já tinha feito. Reli o texto e, apesar de ainda concordar com ele – tem casos de textos velhos meus que eu mal consigo olhar na cara, com esse eu ao menos simpatizo -, ao ler um artigo sobre Stan Brakhage e a forma como ele usava a vida doméstica dele como matéria-prima pros seus filmes, principalmente Jane, sua primeira esposa, decidi que o queria reescrever sob outra perspectiva. Qual eu ainda não sei. O motivo está no fim do artigo, na descrição da conversa entre Stan, Jane e Hollis Frampton. Em resumo, Stan não entende por que todas as suas tentativas de retratar Jane saem mais como autorretrato (enquanto Jane já está cansada e quer sua privacidade de volta).

Então, conversando com uma colega de trabalho sobre uma garota com quem saí outro dia e como é difícil se comunicar no começo – sem correr o risco de interpretar mal, gerar constrangimentos desnecessários et cetera -, a colega, que sabe que eu escrevo – uma das poucas pessoas da minha vida pessoal que sabe disso -, me pergunta por que eu não escrevo algo pra garota, um poema ou coisa assim, ainda mais com dia dos namorados na porta. (Estava na porta no momento da conversa; fazer o que se essa colega é dada a saltos de romantismo?) Mal sabia ela, já tinha escrito dois poemas pra garota em questão. Um muito antes de chamá-la pra sair, outro sobre o encontro. Não tinha nem tenho interesse de fazer declarações, mas analisei os poemas e se valia a pena mostrar pra garota – que gosta de literatura, o que é um começo -, e vi que não importava, porque ela não entenderia o que há dela ali naquele texto. Sim, ela foi a fonte dos poemas, sem ela talvez eles não teriam existido daquela forma, mas ela não está retratada naquelas palavras, não sua essência. Tem mais de mim nos poemas que fiz pra ela do que dela. Mais que isso, os poemas que escrevi não foram pra ela, não foram pra ninguém. São poemas, como todos os outros que fiz, inúteis, pinturas de momentos feitas de palavras, sem dedicatória ou finalidade. Nem mesmo fiz pra mim. Fiz, se pra qualquer coisa, pro momento, ou coisa parecida.

Independentemente, não seguiria a sugestão da colega. Quem em sã consciência gosta de receber poemas? É muita pressão ter que ler um poema de alguém que supostamente gosta de você, seja o pedido de leitura uma espécie de declaração ou só perguntando se está bom. Duvido muito que exista ser humano que goste de receber poesias autorais como declaração de qualquer intensidade. Quer se declarar pra alguém, leia Vinícius, Pablo Neruda, ou I Wanna be Yours, do John Cooper Clarke; não leia Castro Alves ou Casemiro de Abreu, pelo amor de Erato, a não ser que sua amada seja uma virgem tísica em leito de morte. Mesmo esses poemas mal retratam alguém, só falam o que o poeta quer ser pra amada ou o que a amada faz que o poeta sinta – quando não falam o que o poeta quer da amada. Mantenho a conclusão da postagem original: se quiser retratar alguém, aprenda a desenhar, e até desse jeito…

Se postarei os tais poemas aqui? Dificilmente. Se fizer, não direi que são eles. Fica a proposta, será que vocês conseguem adivinhar quais são eles se eu os postar? Não, não conseguem. Se adivinharem, vai ter prêmio*.

*Válido apenas para pessoas que vivem a no máximo 1 quilômetro de distância de mim. Do contrário, o prêmio é um parabéns bem sincero.

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2 – Começar a conhecer gente é sempre a mesma merda. Comunicação é uma impossibilidade. Ou é muito difícil. Pensando bem, isso tudo é pessoal demais. Achei que fosse conseguir criar um meio termo entre a sinceridade e a invenção, ser vago o suficiente, mas não estou me sentindo vago. Por outro lado, tudo isso é tão banal que pode muito bem se aplicar a qualquer um ou qualquer coisa. É a dificuldade de se conhecer alguém sem ter acesso ao que realmente se passa na cabeça dessa pessoa. Há quem não se preocupe com isso, que ache que é sempre agradável, que todos ao redor sempre se alegram quando ele está presente – gente assim costuma ser a pior, a mais inconveniente. Mas acredito que a maior parte das pessoas, ou a maior parte que convive comigo, se preocupa com saber o que os outros pensam. Por mais que algo pareça ter ido bem um dia, só nos dias seguintes é que a realidade vai ficar clara. O momento costuma vir acompanhado de uma camada de névoa, que só se dissipa uns dias depois. Quando os dias passam e não se consegue esclarecer as coisas, a névoa dissipa, mas os arredores seguem obscuros. É normal. Às vezes estranho, mas normal.

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3 – Falando de Stan Brakhage, vi uns curtas dele esses dias. Nunca vi coisa parecida. Não vi as gravações que ele fez da esposa ou de amigos, só as obras mais conhecidas – mais associadas ao que ele tentava criar -, as feitas por manipulação direta: pinturas (animação direta) e colagens na película, danos físicos ao filme, cortes rápidos… Isto pra passar ao espectador uma experiência visual única. Não exatamente filmes, pois não têm narrativa, mas arte visual, um quadro em movimento. Difícil explicar, vou só jogar alguns que encontrei no youtube aqui para que vocês tenham a experiência vocês mesmos. Esse tipo de arte em vídeo é um novo interesse meu, então decidi compartilhar, mesmo não sabendo o suficiente sobre o tema ainda. Claro, ver numa tela de computador não basta, mas nossas chances de ver algo assim em telão é nula.

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4 – As pinturas que usei para ilustrar a postagem são do Cy Twombly. Temo ter exagerado na quantidade, mas essa edição das observações foi um pouco mais longa. Pode ser uma ideia pra daqui em diante, ilustrar o texto com pinturas que transmitem o sentimento que quero passar ou que passam por mim. Desde que vi o vídeo da School of Life apresentando a obra do pintor, tenho pesquisado a obra dele, passado tempo olhando as imagens das pinturas na tela do computador. Conforme o vídeo da School of Life, Cy Twombly trata da vida interior, da tentativa de representação das emoções. Talvez aceitar o sucesso do esforço de Twombly seja questão subjetiva. Eu aceito. Quando sinto emoções em conflito dentro de mim, uma querendo ocupar mais espaço que a outra, quando meu monólogo interno corre tão rápido e confuso que as frases e ideias não se completam deixando só leves esboços de milhares de coisas sem sentido na mente, quando acho que estou pra descobrir alguma coisa ou que preciso fazer alguma coisa mas não sei o que essa alguma coisa é, posso visualizar todos esses estados psíquico-emocionais representados nas pinturas de Cy Twombly. Agora me resta descobrir se é minha vida que anda uma sequência de pinturas do Cy Twombly ou se a vida que é, sem escapatória, feita destas pinturas.

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5 – E como gosto de encerrar essas observações indicando discos, o da vez é Glitter Glamour Atrocity, da White Hills, lançado em 2007. Uma das bandas mais interessantes do rock, e mais ativas. Como eu vivo me repetindo e insistindo nas minhas obsessões, sim, descobri a banda por causa de um filme do Jarmusch, Amantes Eternos. A banda aparece tocando “Under Skin or By Name”, desse álbum, num bar de Detroit em uma cena desse filme. Aí está, não posso fazer nada se foram os filmes dele que me fizeram descobrir tantas coisas. (Queria o disco todo, mas não tem no youtube. Não sei botar aqui o disco via Spotify. Fica a faixa que mencionei no texto e se gostarem vocês têm capacidade e meios pra encontrar o resto.)

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Sobre convivência, intervalo e continuidade, trens (Observações aleatórias #7)

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1 – Fim de semana passado, o que veio antes do feriado na segunda, fui com o pessoal que trabalha comigo pra Curitiba. Testei minha capacidade de convivência. Descobri que, apesar de tudo, apesar de preferir viagens solo, sou capaz de passar mais que 24 horas com um grupo de 8 pessoas, a maior parte delas bastante diferente de mim. Não que tenha sido fácil. Não fossem os livros que levei (obrigado Frank O’Hara e João Antônio, pela companhia) e o caderno que uso pra rabiscar ideias, teria fugido no primeiro dia. É que não sou muito turista, eles eram demais. Imagina, qual a graça do Hard Rock Café? Fui com eles, ainda não entendi a fascinação. Mas estavam lá, tirando selfies em frente a guitarra de neon, filmando a dancinha que obrigam os funcionários a fazer de tantas em tantas horas ao som das músicas de um cuzão qualquer que queria ser Michael Jackson, e eu assisti, meio que de fora, às vezes participativo. Até que me diverti em alguns momentos. É o que acontece quando se passa tempo com pessoas diferentes de você, você acaba indo a lugares onde não iria, fazendo o que não faria não fosse o incentivo extra. Então certas pessoas te surpreendem, outras decepcionam, tudo por causa da convivência prolongada… São experiências distintas, viajar só e viajar em grupo. Parece óbvio, mas é algo de que você só se dá conta quando não tem tempo de fazer algo que gostaria de ter feito ou alguém se recusa a fazer algo com o grupo e atrapalha todo o planejamento. Foi uma boa experiência, no fim das contas. Infelizmente não pude dar minha típica caminhada a esmo pela cidade, e admito que quando cheguei sozinho no meu apartamento silencioso, sentei, com um livro, na minha poltrona e acendi meu cachimbo… ah! que paz de espírito. O café do Mercado Público, no entanto, foi memorável.

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2 – Não me lembro se em algumas das observações passadas falei sobre esse sentimento que às vezes nos toma de se estar como que em um hiato da vida. Não pretendo revisar cada uma delas, então correrei o risco de me repetir – não seria a primeira vez. Acontece que é isso que estou vivendo, basicamente. Tem uma série de coisas em andamento, não é como se eu estivesse deitado numa cama esperando a vida passar em uma sala vazia. Mas, às vezes, parece que estou. O resultado do concurso é só mês que vem, então não é como se eu pudesse tentar fazer alguma coisa com o romance. Tenho uma viagem (Montevidéu/Buenos Aires) pra planejar, mas ela só acontece em setembro. Quero escrever, mas não sei bem quê. Além disso, o motivo da minha recente ausência no blog foi talvez o mais ridículo até hoje – dentre os motivos das minhas ausências. O que aconteceu foi que gostei demais da minha última postagem (8ª parte do diário de vigem) e não queria tirá-la do topo em troca de um texto inferior. Não que a postagem tenha recebido muito público. Nenhum comentário – só um, no twitter (obrigado Lari! – vão olhar o blog dela) -, três curtidas (uma com certeza nem leu o texto, só veio pra retribuir curtida dada). Não é uma questão de números, mas orgulho de mim mesmo. Agora vejo que não importa, está lá e basta. Desencanei. O diário era o que eu precisava escrever, a história que fechou meu projeto de livro de contos. Agora trabalho nas outras histórias. Todavia contos são como pequenos vazios contínuos sempre que finalizados. Fico com um pé atrás de postá-los aqui por não saber como editoras reagem a isso. Ao mesmo tempo, não sei por que caralhos estou pensando em editoras, ainda mais pra contos. Talvez ainda surja uma ou duas partes do diário por aqui, mas não prometo. Provavelmente vai, nem contei a história do tombo ainda.

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3 – Voltando à viagem. De Curitiba, pegamos o trem que leva a Morretes. É um passeio conhecido, muitos de vocês, que não são muitos, já devem ter ouvido falar ou não vão ter dificuldades pra encontrar informações sobre ele. O passeio vem com guia histórico, o que, em certas partes, fica fascinante, quando você se dá conta de que está sobre um trilho centenário. Por mais ou menos quatro horas, o trem serpenteia pelas serras paranaenses na Mata Atlântica. É um desses locais em que é possível se distanciar de si mesmo, se deixar levar pelo inacreditável da existência. Por exemplo, quando olhamos pra trás e vemos, distante, a ponte, tão antiga e de aparência tão frágil, sobre a qual o vagão acabou de passar, e notamos que o trem é tão extenso que ainda não terminou de cruzá-la. Quando, em meio a tantas árvores e folhas e plantas, vemos uma ruína de sabe-se lá quantos anos no meio do nada, tomada pela natureza. Assim é que nos damos conta de que a Terra não precisa ser salva, é o ser humano que deve salvar a si mesmo. Sim, podemos causar o dano que for, irreversíveis até. O planeta seguirá firme. Quando a natureza não der mais conta de se sustentar com esses humanos inconvenientes em seu caminho, ela vai sacudir as pulgas e será o nosso fim. Apenas nosso. A Terra continuará, como continua a Mata Atlântica, se espalhando e tomando as ruínas e construções humanas, indiferente. Humanos são pouco pra matar planetas, isso é trabalho do Universo.

4 – Aqui o primeiro álbum, homônimo, dos Stooges, porque acho que vou ver Gimme Danger, documentário do Jim Jarmusch sobre a banda, em algum momento esse final de semana.

Observações aleatórias #6

1) Começar um romance novo é uma merda quando nada aconteceu com o primeiro. Sim, estou dando um passo maior que a perna. Chame de ansiedade, não quero me ver perdedor na data de resultado do concurso, sem ter outra coisa que me motive a continuar (escrevendo e tentando publicar o primeiro); não quero me ver ganhador e me dar conta de que não comecei o segundo passo ainda, que terei que começar o processo inteiro outra vez. Me lembra uma entrevista que assisti com John Barth tantos anos atrás. Ele falava duma conversa entre ele e Donald Barthelme. Barth o autor de romances tijolescos, Barthelme quase exclusivamente dedicado aos contos, alguns curtíssimos, e que, quando escrevia romances, preferia os curtos. Barthelme não entendia como Barth conseguia esperar tanto tempo pra descobrir o fim de uma história; Barth não entendia como Barthelme podia começar do zero a cada tantas semanas. Incerto se foco em contos ou em um novo romance, tento os dois e falho nos dois. Não é bloqueio criativo, é congestionamento – quando tantas coisas tentam passar pelo mesmo espaço limitado que nada passa. Nem postagem de blogue tá saindo, não por falta de ideias, só porque nada nunca fica pronto. Se não fossem essas observações, feitas na hora, de fôlego único, quase sem pensar, estaria morto.

2) Progredindo uma palavra por semana nos contos, o resto do tempo dedico à pesquisa pro futuro romance (que não sei se será segundo ou terceiro, não sei se o que acho que será terceiro ou segundo dará texto pra romance, talvez seja novela, talvez conto grande pra caralho). Pesquisa, procrastinação, começam com pê, são a mesma porra. A personagem que seria bailarina passou a ser atriz de teatro. A vida dela seguirá uma merda, mas uma merda sobre outro palco. Procuro no youtube uns vídeos de peças de teatro, salvo alguns pra depois, começo Death of a Salesman (Morte do Caixeiro-Viajante), de Arthur Miller. Começo essa peça porque é ela que montam as personagens de Forushande (O Apartamento), novo do Asghar Farhadi, que havia acabado de ver e que fiquei curioso por saber mais sobre ela. Bailarina seria bom pra filme, bastante visual, apesar de Cisne Negro já ter esgotado essa carreira. Atriz de teatro combina mais com literatura, e algumas pessoas que conheço podem me ajudar na pesquisa, o que seria mais difícil com bailarinas (pra mim, que não conheço uma). Mas preciso definir em qual peça ela estará trabalhando, em quais já trabalhou, por isso farei o esforço de ver (vídeos de peças, já que o teatro itajaiense é sofrível) e ler mais peças nos próximos meses. Quem sabe aprender escrita de roteiro, isso é uma coisa que há tempos quero me dedicar a fazer.

3) Forushande me lembrou muito El Secreto de tus Ojos (O Segredo dos seus Olhos), que também levou o Oscar de melhor filme estrangeiro uns anos atrás. Tratam de estupro e vingança, embora com diferentes graus de intensidade. O argentino trata os temas com brutalidade e envolve política sem sutileza alguma, é rápido, uma sequência explosiva de surpresas e acontecimentos culminando num prazer terrível para o espectador. O iraniano é denso, quase é possível ouvir o emaranhado de pensamentos escapando das cabeças de cada personagem, sutil que mal dá pra saber de que trata o filme – se trata mesmo do que se está pensando -, é um pavio que queima lentamente e explode numa mistura bizarra de emoções ambíguas. O vilão do argentino é irredimível, a punição mais cruel não é suficiente pra fazer o espectador sentir piedade. O vilão do iraniano quase não pode receber a alcunha, é digno de pena desde o princípio. Dois grandes filmes que só posso indicar.

4) Essa leva de observações encerro indicando o disco Playing with fire (1989), do Spacemen 3.  E não tenho nada a dizer sobre ele. Pra que escrever sobre música quando você bem pode ouvi-la?