Omissões – parte 5 – final

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Não sabia se tinha dormido ou não em algum momento da madrugada. Tinha a impressão que sim, pela velocidade com que o tempo passou até o sol nascer, mas sentia como se tivesse assistido cada minuto acelerado passar. A luz do sol iluminou a sala. Tirei um livro da minha mochila e esperei que eles acordassem, ora lendo ora olhando palavras. Ainda pensava na minha vó dormindo em seu quarto, mas sem curiosidade, sem desejo de abrir a porta e fazer que ela acordasse.

— Bom dia – meu pai disse, entrando na sala. – Vou fazer café.

— Bom dia.

Levantei do sofá.

— Vou tomar um banho.

Quando voltei à sala, minha mãe tinha acordado. Laércio tinha acordado também e veio, saltitante, rabo abanando, em minha direção. Afaguei sua cabeça por um tempo.

— Onde é o cemitério?

— Pra que você quer ir no cemitério agora? – disse minha mãe.

— Só uma coisa que eu acho que preciso fazer.

— Mas pra quê?

— Só um minuto – meu pai, certo de que a discussão ia se prolongar mais do que deveria, pegou um papel e uma caneta na mesa da sala e escreveu o endereço pra eu botar no GPS do celular.

Agradeci e saí. Entrei no carro, liguei o GPS e segui as direções que ele me ditava. Nunca tinha visitado o cemitério da cidade antes. Aquela não era a cidade em que minha família nasceu, não tínhamos ninguém enterrado ali. Na verdade, até o cemitério da minha cidade natal visitei apenas duas vezes, a última vez há vinte e cinco anos. Foi para visitar meu vô, junto dos meus pais e minha vó, viva e ativa na época. Contrariado por ter que ir junto da maneira que apenas uma criança pode ficar, não compreendia o valor daquilo. Túmulos em sequência, aquela atmosfera assustadora típica da interpretação que normalmente é dada aos cemitérios em filmes e desenhos, a memória que tenho desses dias é de medo, incompreensão e tédio, o tédio mortal que se sente na infância quando se é forçado a sentar quieto e fazer nada. Não havia nada lá para mim. A visita ao túmulo do meu avô não diminuía minhas saudades dele, nem me fazia compreender o que era a morte. Apenas essa diferença de sensações já era o suficiente para me fazer notar, logo na primeira vez que meu pé tocou o solo do cemitério, a passagem do tempo, a experiência dos anos. Fazia que eu me sentisse velho, mesmo não sendo, e perceber o quão mais próximo estava da morte – mesmo que isso não fosse verdade, não era imune a morte, independente da minha idade, e estava vivo por acaso, como todos que sobrevivem ano após ano o estão, por acaso, não por proteção místico temporal – somente pela minha melhor compreensão, ou deveria dizer aceitação, de seu conceito e inevitabilidade. Não via aqueles túmulos como algo distante, mas como destino. O que me deixava apreensivo, mas, ao mesmo tempo, inexplicavelmente, reconfortado.

Segui a trilha. Observei alguns dos túmulos. Procurava minha vó, mas esqueci de perguntar onde ela havia sido enterrada. Não tinha ninguém ali, só árvores e flores, poucos pássaros, borboletas, pedra. O cheiro de grama e terra impregnava minhas narinas. Esse cheiro permanecia desde minhas visitas na infância, dele eu me lembrava bem. Algumas campas estavam adornadas por flores, tinham como emblema uma foto do enterrado. Aquele parecia ser o único local de igualdade, mesmo que isso também não fosse de todo verdade – morrer é tão caro, vem com tantas taxas. Mas havia gente de todas as idades ali. Sim, era destino, sem exclusividades.

Achei minha avó. Foram alguns minutos de caminhada até lá, cheios de idas e vindas, erros, retornos, mas não me esbarrei com ninguém vivo. Fiquei de pé em frente à campa. Só o nome dela, completo, estava gravado numa placa, sua data de nascimento seguida pela data de falecimento logo ao lado. Sem foto, sem flores. Recente e limpo. Família e amigos, além dos meus pais, só foram informados depois do enterro. Não teriam tempo de chegar na cidade, todos moravam muito longe. Sem falar que a maior parte das pessoas que ela conhecia já estavam mortas, enterradas em outros cemitérios, em outras cidades. Não tinha flores nem nada para ofertar. Nada a dizer, pois quem ouviria? Comecei a questionar minha ida. Fiquei lá, parado, olhando a placa com seu nome, o vazio do ambiente. Sentei no chão, sem me importar com sujeira, e respirei fundo um instante. Me deixei levar pelo nada ao redor, pelo silêncio por vezes quebrado pelo vento que levava folhas secas e as arrastava pelo chão, pelo piar dos pássaros e o bater de suas asas. Fixei na placa como na chama de uma vela até minhas vistas embaçarem. Queria conter o monólogo interno na minha mente, esta era a parte mais difícil. Quando não falava algo referente ao momento ou local, formava frases pra uma possível poesia que o momento pudesse inspirar ou um conto, ou voltava ao romance largado pela metade e tentava dar continuidade a ele mentalmente. Então, silenciadas todas essas digressões, falava sobre silenciar o monólogo, sobre não pensar, sobre ficar em silêncio, sobre deixar a respiração fluir sem me concentrar nela. Repetia as instruções pra mim mesmo, por consequência, as ignorando. Até que consegui? Um tempo depois, e não sabia quanto tempo havia passado, senti o celular vibrando no bolso da minha calça. Era Luciana. Queria saber se tinha chegado bem, se tinha conseguido ou estava tentando fazer o que tinha vindo fazer. Respondi que sim, que estava bem, no cemitério, mas já me preparando pra voltar. Disse que estava voltando pra casa. Pra cá ou pros seus pais? Pra aí. Até logo, então, ela disse. E desligamos trocando despedidas. Me abaixei de frente pra campa e toquei com a palma da mão na pedra.

— Tchau.

E me levantei de novo. Caminhando em direção à saída, liguei pros meus pais. Perguntaram onde eu estava, e respondi. Perguntaram se eu estava bem, e respondi.

— Já estou indo pra casa.

— Não vai mais vir pra cá?

— Não. Acho que preciso ir embora.

— Tá bom. Quando você volta?

— Acho que em algumas semanas.

— Tá bem. Até lá, então. Liga quando chegar.

— Ok.

— Boa viagem.

— Tchau.

— Tchau.

Desliguei o celular. Sem mais nada a fazer, entrei no carro, dei partida e voltei pra casa tentando não pensar na minha morte. Embora acreditasse que seria um suicídio. Não tão cedo, mas entre os cinquenta e sessenta anos, mais tardar chegando aos setenta, mas nunca completando a década. Método indefinido. Tirando a lição da minha avó, que resistência mental nem sempre vale a pena, quando o corpo te impede de existir.

Omissões – parte 4

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Tive que insistir pra que Luciana não viesse comigo visitar meus pais na semana seguinte à morte de minha avó. Parecia algo tão pessoal e tão deprimente, não queria que ela fosse influenciada. Agradeci e pedi que ficasse. Depois de um tempo, ela entendeu. Fui recebido normalmente pelos meus pais, quase como se nada tivesse acontecido, mas a casa estava mais quieta. A atmosfera era outra. Como se a ausência de uma determinada pessoa pudesse afetar o ar, as moléculas que formam aquele pedaço ínfimo do planeta. Entrei na casa e passei pelo corredor. Não sei por quê. Durante toda aquela semana, tive que lembrar a mim mesmo que minha vó estava morta. A distância, o fato de não ter visto a morte, fez com que fosse difícil reconhecer a realidade. O maior efeito da morte de um ente querido, da família ou não, é a falta dele. Naquele caso, enquanto viva, ela não estava perto, eu não a via. Agora morta, longe da casa em que ela habitava, nada havia mudado para mim. Fui atraído pelo corredor. Foi automático. Não me percebi caminhando até lá, nem minha mãe, que me seguia se perguntando, provavelmente, o que eu achava que fazia.

— O que você tá fazendo?

Acordei:

— Não sei. Acho que é força do hábito.

Falei pra ela do quanto a morte da minha vó ainda não parecia real.

— Sim, entendo.

Olhei na direção da porta aberta do quarto. Vi um volume sob os lençóis da cama. Seu rosto saindo de debaixo dos lençóis como a cabeça de uma tartaruga. Lá estava ela como sempre. Meus pais não teriam coragem de fazer uma piada de mal gosto como essa.

— Mas como assim?, ela tá lá – apontando.

— Quem?

— Minha vó, olha.

— Não tem nada aqui, só a cama. Ainda não sabemos o que fazer com ela, acho que vamos dar pra alguém que precise. Deixar no sol por um tempo antes, claro, e procurar uma instituição ou coisa assim que dê pra quem não tenha.

Eu ainda não acreditava. E não era uma visão sobrenatural. Não, era física, concreta. Via seu corpo como ele sempre costumava estar. Na mesma pose, incluindo os movimentos da sua respiração que mexiam os lençóis. Deveria insistir? Minha mãe não brincaria com isso. Se insistisse, acharia que estou louco, passando por alguma espécie de alucinação pós-traumática. Mas não senti nenhum choque ao receber a notícia de sua morte. Fazia anos que estava preparado pra ela. Era da morte de uma senhora de mais de noventa anos e nada saudável, a ordem natural das coisas. Só podia ser um engano. Ou estava vendo coisas. Fiz menção de entrar no quarto, minha mãe pôs a mão no meu ombro.

— Não tem ninguém ali.

Acendeu a luz do quarto, pra me assegurar que era só impressão, mas não mudou nada. Pelo contrário, a imagem de minha vó deitada estava clara. Então ela se mexeu, como costumava fazer. Com muito esmero, virou o corpo e ficou deitada de barriga pra cima. A respiração mais forte, por causa do esforço. Sua mão saiu de debaixo das cobertas e foi até debaixo do travesseiro, procurar um pedaço de papel que ela costumava deixar lá pra assoar o nariz. Tudo igual, como sempre, lá estava ela.

— Vai tomar um café, você tá cansado.

Achei melhor esquecer. Uma hora ou outra tudo se ajeitaria, faria sentido. Talvez eu acordasse, mas aquilo não era um sonho, disso eu tinha certeza – de maneira alguma podia ser sonho. Assim que me afastei da porta, minha mãe a fechou.

O resto do dia seguiu sem transtornos, como uma visita qualquer. Não falei nada sobre o que tinha visto, ou assim achava, no quarto. Meus pais não falaram nada sobre minha vó, nada mais do que me foi dito antes pelo telefone. Talvez por ser tão recente. Falaram qualquer coisa sobre planos pro futuro, o que fazer dali em diante. A vida deles girava em torno dela, dos cuidados de que ela necessitava. Sem isso, todo um novo mundo se abria a eles. Podiam sair de casa sem medo. Viajar, se assim desejassem. Eu poderia cuidar de Laércio nesses dias, e ele mesmo não tinha muito mais que um par de anos de vida restando.

À noite, não consegui dormir. Ficava imaginando a visão, fosse ela o que fosse. Nos minutos em que esquecia dela, pensava nos meus pais. Eles seriam os próximos. Pensei no dia em que a saúde deles estivesse debilitada igual à da minha vó. Os dois, quase com sessenta anos, já tinham uma lista de problemas de saúde. Poderia acontecer muito antes. Teria que morar com eles de novo? Adaptar minha vida como eles fizeram com minha vó? Meu coração acelerou que achava que o próximo seria eu e não eles – eu mesmo negligenciava minha saúde. Não estava pronto pra tamanha responsabilidade. Muito menos pra fugir dela. Que insuportável o ciclo. Que terrível submeter alguém ao ciclo. Nunca poderia ter um filho. Não, seria muito egoísmo. Se a existência não passa disso, é injusto, o grande horror. É difícil perceber durante a vida o quão terrível é estar vivo, tampouco é desejável morrer, mas às vezes parece que o melhor é nunca nascer. Ficava me perguntando se todos viviam desse jeito, nesse conflito. Se só meus pais tinham essa expectativa de serem cuidados pelo único filho quando a saúde deles estivesse debilitada. Se todos os pais tinham essa expectativa, mas só os meus tinham coragem de pedir com clareza, sem indiretas e meias palavras, por esses cuidados. O futuro parecia inescapável. Não havia felicidade em nenhuma das saídas.

Mais uma vez, por hipnose, levantei do sofá em que tentava dormir e fui até a porta do quarto de minha vó, ainda fechada. Bem devagar, toquei a maçaneta. A futilidade de evitar o barulho no silêncio. Cada inspiração, um grito; cada expiração, uma lamúria. Baixei a maçaneta e o metal rangia dolorido. O barulho do trinco abrindo como uma imensa percussão sinfônica. Tentei abrir a porta, mas estava trancada. A chave estava ao meu acesso, ali na porta. Cheguei a pôr a mão nela. Desisti. Não tinha porque insistir naquilo. Mais um pouco, meus pais iam se levantar, ver que insistia na realidade daquela visão e achariam que estava com algum problema. O pior, tinha certeza que, no momento que abrisse a porta, lá estaria minha vó, dormindo como sempre, viva. Se encostasse meu ouvido à porta, ouviria sua respiração, se já não a estivesse ouvindo sem me dar conta.

Omissões – parte 3

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Oito da manhã, fiz café. Evitar barulho amplificava o som de cada movimento. A cafeteira era um trem que nunca terminava de passar pela minha cozinha. A xícara, tirada do armário, levada à pia, depois, cheia, até a mesa da sala, era um desastre automobilístico. O notebook aguardava. O barulho da xícara tocando o vidro da mesa era uma marretada. O estalar dos dedos dos meus pés, que carregavam o peso do meu corpo num esforço para não se fazerem notar, eram bolinhas de gude ecoando pelo piso frio. Se Luciana acordasse, não escreveria nada naquele dia. Ia querer tomar café da manhã comigo, conversar, fazer planos pro dia e depois pra semana. Mais um estrondo quando me sentei na cadeira e deixei a xícara ao lado do computador. Mais breves estalos rápidos dos meus dedos batendo nas teclas. A porta do quarto estava fechada e ela não havia acordado ainda. Medi que teria duas horas pelo menos. Se tem algo que, todavia, come o tempo é a escrita. Duas horas são linhas, passam sem que se dê conta. Tinha que lutar contra a tentação de voltar um pouco no texto, ler o que estava escrito, corrigir uns detalhes, refazer certas passagens. Precisava chegar ao fim antes disso, do contrário não terminaria nunca. Podia passar anos no começo, dando novos primeiros passos. Redescobrindo os pontos familiares da vizinhança sem nunca me aventurar no desconhecido. Seguir em frente era uma necessidade. Senti a mão dela tocar meu braço e, de súbito, olhei pro relógio, descrente. Eram dez e vinte. Não ouvi ela se levantar, tão longe estava do apartamento.

— Bom dia – beijou meu rosto. – Fez café?

— Fiz, mas acabou. Vou fazer mais. Acordei cedo pra escrever.

— Por que não me chamou?

— Achei que você quisesse dormir um pouco mais.

— Vou tomar um banho, então.

Aproveitei os minutos para escrever por uns minutos a mais, mas logo parei e fui à cozinha preparar uma nova jarra de café. Fiquei olhando o líquido preto pingando do filtro à jarra, pensando naquela relação. Gostava dela. Me sentia bem, em geral, nela. Era quando eu escrevia que vinha o desejo por isolamento. Ali de frente pra jarra, queria que ela não estivesse comigo no apartamento. Não morávamos juntos, mas toda a sexta ela vinha da faculdade pra minha casa e só ia embora na segunda. De vez em quando aparecia no meio da semana, víamos um filme ou coisa assim. Mas os fins de semana eram sagrados, era certo que ela ia passar comigo. O que é normal em um namoro, depois de um tempo. Havia aquela voz na minha cabeça gritando o quão inaceitável era esse comportamento, mas não fazia sentido. Se a presença dela num dia qualquer, sem compromissos maiores, era um problema, me atrapalhava, eu que estava errado. Quando me perguntava se queria sair do relacionamento ou não, o eu escritor votava que sim, enquanto o resto de mim era contra. E mais uma vez eu me dividia. Existia o eu da família, o eu do trabalho, o eu da Luciana, o eu escritor. Lembro que em determinado momento esses eus se encontravam – o mais próximo de um eu verdadeiro que poderia dizer que tive. Agora este, o verdadeiro, ficava longe, assistindo os outros de fora. Quase podia ver sua imagem na cozinha comigo, me assistindo, em silêncio, assistir as gotas de café caindo na jarra. Um mediador dos fragmentos, conciliador das diferenças, deixando seu papel de lado por ter perdido o controle, me dizia que um dos eus teria que deixar de ser ou o verdadeiro nunca teria espaço.

Voltei à mesa e fiquei olhando pro texto recém-escrito. Podia ouvir o chuveiro, a água caindo no box, às vezes ela cantava trechos soltos de músicas que quase nunca eu reconhecia. Minha mão direita cutucava ansiosa a mesa. Não tinha mais nada a escrever. Tinha muito, mas as palavras não estavam comigo. Voltei ao começo. Li o texto e fiquei satisfeito só porque ele não me enfurecia, diferente das outras vezes. Estava razoável. Era o que eu queria que fosse, o melhor que poderia ser, vindo de mim, com aquela história. A essa altura queria que Luciana saísse do banho de uma vez para eu não me sentir culpado que o eu escritor não mais cumpria seu papel. Deixar que o eu namorado tomasse conta. Antes disso, abri um documento separado e, me obrigando a digitar com liberdade, juntei palavras baseadas em toda minha divagação sobre eus e divisões num poema em prosa. Tentei fazer dele o mais ambíguo possível, esconder a autobiografia. Consegui terminar o longo parágrafo corrido antes de ela desligar o chuveiro. Luciana saiu enrolada na toalha e disse que eu deveria ir tomar um banho também.

— Você já tá cansado, parece, e não é nem meio dia. A gente dormiu tão tarde ontem. Vai lá, que eu faço uns sanduíches pra nós.

Fiz como ela disse. Debaixo do chuveiro frio, via as frases do romance se formando em frente aos meus olhos. Eu as cortava e rearranjava, trocava palavras e reimaginava cenas, planejava o que ainda havia de ser escrito, então fui tomado pelos pensamentos de antes, sobre os eus. Como é egoísta o tal eu verdadeiro. Ele bem sabe o quanto a total sinceridade pode machucar os que o cercam, àqueles que formam suas próprias versões dos eus verdadeiros dos outros, normalmente ilusórias. Sabia que o filho que minha mãe imaginava ter não era real, mas ela acreditava nele, o amava. Só mais alguns anos atuando, seria tão insuportável? Quem se prejudicava mesmo nesse dilema era Luciana, que nada tinha a ver com minhas crises. Se bem que o simples fato de que eu a mantinha distante das minhas crises já demonstrava que havia algo errado na maneira que eu enxergava nosso relacionamento. Fiquei me perguntando se a amava. Quase me deixei levar pela bifurcação do conceito de amor e sua definição elusiva. Outro mal sinal, como se quisesse inventar desculpas, conceitos e complexos para dizer que não e não me sentir culpado por isso. Mas aí, quando pensava em terminar – pelo bem dela –, ficava enternecido pelos pequenos atos, como fazer sanduíches enquanto eu tomava banho, se preocupar com o meu cansaço. Atos que se repetiam, que eu achava que devia recompensar. As velozes gotas d’água golpeando minhas costas faziam que eu me sentisse externo a mim mesmo, flutuante, que deixasse para trás a casca e saísse com um corpo novo, mais leve. Desliguei o chuveiro, me enxuguei. Quando, enrolado na toalha, entrei no quarto, Luciana estava nua na cama. O que aconteceu entre nós naquela manhã, não sei explicar. Trepamos como se nos víssemos pela primeira vez depois de meses da mais casta das separações.

Deitados juntos. Ofegantes, abraçados. Começamos a sentir o cheiro de queimado vindo da cozinha. Ela levantou correndo e quase tropeçou na toalha largada no chão. Fui atrás.

— Queimou – tirando a bandeja do forno, que carregava dois pedaços de carvão.

— Foi por uma boa causa.

— Detesto jogar comida fora – rindo de leve, seu corpo trêmulo, as costelas pra cima e pra baixo pela respiração acelerada.

— Não tem problema, eu faço esses agora.

Jogou os sanduíches na lixeira. Comecei a preparar os novos. Fiquei na cozinha, assistindo. O forno ainda estava quente e não demoraria pra esses queimarem também, se nos distraíssemos.

— Vou me vestir e te trazer umas roupas.

— Pra que?

À mesa, terminando de comer, vestidos, ouvi um som vindo do quarto.

— É meu celular?

— Acho que sim.

— Sem vontade nenhuma de atender quem quer que seja hoje.

— Vai ver quem é, pelo menos.

Fui. Era o número dos meus pais. Atendi.

— Oi.

— Oi, filho, tudo bem?

Tudo, tudo certo. E vocês?, o que houve?

Percebi que a voz da minha mãe não estava normal. Mais quieta, quase chorosa, úmida.

— Sua vó. Ela morreu hoje.

Esperou que eu dissesse alguma coisa, mas não disse.

— Foi umas três da manhã. Toda noite ela fazia muito barulho, chamava pessoas, nunca era nada. Hoje fui ver ela, tava muito quieta. Chamei, chamei, ela não acordava. Já tinha morrido.

— Eu tô indo pr’aí.

— Não precisa, já tá tudo feito, foi bem rápido. Seu pai chamou o médico, ele acordou e veio. Pelo jeito foi infarto.

— O remédio?

— Pode ser.

— Açougueiro.

— Não fala assim, ele fez o que achava que tinha que fazer.

— Só que não é psiquiatra.

— Cê acha que eu não tô pensando nisso tudo? Aconteceu. Ia acontecer uma hora ou outra. É triste, sempre é. A gente acha que não vai ser, que tá preparado. Mas é. Por um lado, foi um alívio, você viu como ela tava.

— É.

— Bom, já enterramos, agora só falta resolver umas coisas de documentação.

— Por que vocês não ligaram antes?

— E te preocupar, te acordar no meio da noite.

— Sim.

— Vir de carro de madrugada pra esse fim de mundo, nervoso, podendo sofrer acidente. Pra mim e seu pai só resta você.

Minhas personalidades sempre estremeciam ouvindo essa frase que ela repetia como um mantra. Só resta você. Como se uma hora ou outra, não importando o que acontecesse na minha vida, tivesse que largar tudo por eles. Como eles fizeram por mim, quando decidiram que iam me por nesse mundo. Era errado pensar que, se me tivesse sido dada chance de escolher, teria preferido não nascer? Era, de certa forma. E era errado ignorar minhas futuras responsabilidades. Mas o temor, o temor eu não conseguia impedir de tomar conta.

— Agora deixa quieto, já é quase meio dia. Até chegar aqui são duas da tarde. Aí amanhã de manhã você tem que voltar pra ir pro trabalho na segunda. Muita correria, sem falar que, não sei. Deixa pra lá.

— Semana que vem.

— Se você quiser.

Omissões – parte 2

Antes leia a primeira parte, se não leu ainda:

https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/11/02/omissoes-parte-1/

***

Servido o café, com as frutas e as torradas e a manteiga e os frios, sentamos à mesa e começamos a discutir as amenidades de sempre. Perguntas sobre trabalho, lamentações sobre o tédio, botar os assuntos familiares em dia. O cachorro pulava nos joelhos de cada um de nós, um por um, cheirando nossas pernas em busca de migalhas e cheirando o chão, evitando nossas mãos que tentavam o afagar contra sua vontade ou o afastar. O silêncio naquela casa era mesmo um silêncio diferente. Não fosse a televisão falando por nós sem parar, era crível que ali se alcançasse a ausência total de ruídos. Pensei que, então, mais tarde, poderia ficar na área externa e insistir na prática da meditação, que Luciana queria que eu experimentasse. Dizia que poderia ser bom pra mim, como foi pra ela. Havia tentado algumas vezes em casa, mas a sensação de fazer nada enquanto eu não era capaz de me separar do que acontecia ou que eu achava que acontecia ao meu redor me afligia e matava o propósito de meditar. Ela continuava, dizia que era normal, que é assim no começo e a sensação do mundo externo faz parte da meditação, que a ideia não é se desligar ou fugir, mas ser parte do todo, como se tudo fosse de fato parte de um grande movimento contínuo e conectado. Admirava o conceito e até concordava com grande parte do que a teoria dizia sobre o universo, mas não era capaz de enxergar o propósito. Talvez, no entanto, porque estávamos nos primeiros meses do segundo ano do nosso relacionamento e eu queria a agradar, talvez por no fundo ter vontade de meditar com sucesso, insistia. Mas não faria ali, com meus pais ao redor. Não era algo que tinha comentado com eles. Meus pais costumavam fazer perguntas sobre qualquer hábito que eu adotasse e não fizesse parte da educação que eles me deram. Fazia anos que tinha saído da casa deles, acreditava que esse costume passaria com o tempo, mas nunca passou. E as perguntas ficavam tão invasivas que decidi não falar pra eles das coisas que começava a fazer. Isso foi aos poucos nos separando. Não fazíamos mais parte do mesmo mundo. Assuntos que eu poderia iniciar, por causa de uma omissão de cinco anos atrás, tinham que ser evitados. Acreditava fazer isso pelo bem deles, para que eles não se preocupassem. Meditação não é nada, mas tinha o hábito de beber – coisa que eles nunca fizeram – e, vez ou outra, quando o orçamento permitia, fumar charutos – o que eles abominariam. Coisas banais, que fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas, que para eles seria um escândalo.

Omiti também minhas desventuras literárias. Tinha um romance em constante revisão fazia meia década, poemas publicados em revistas, um punhado de contos engavetados aguardando a chance de ver a luz do dia. Esse hábito eu procurava esconder de quase todo mundo. Mas, se revelasse a eles, seria interrogado por dias. Você não pretende mesmo viver disso, né?, eu previa. Mas por que escrever? O que você tem a dizer? Alguém vai querer ler isso? Eu já fazia essas perguntas para mim mesmo o suficiente. Bastava que Luciana fosse cética sobre minhas intenções de ser escritor. Achava que logo ia passar. Aquela história do para viver uma vida bem vivida é necessário plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Com seu jeito de analista, achava que eu havia inflado a parte do escrever um livro, a transformado em meta de vida, para evitar compromisso com as outras partes da vida comum – carreira, família, árvores.

Esses segredos imbecis faziam que eu me sentisse um adolescente de novo, mas eram necessários. A parte de mim cansada de evitar assuntos e me esconder dizia que era exagero, que eles não se envolveriam, reagiriam com estranhamento como é de se esperar de qualquer um que ouve notícias surpreendentes, mas ficaria por isso mesmo. Essa parte era silenciada quando eu era envolvido em pequenos interrogatórios sobre as partes da minha vida que eu revelava, ainda menos graves que as que escondia. Se eu devia mesmo ficar no meu emprego de tantos anos. Se meu relacionamento com Luciana era tão sério quanto deveria ser – na imaginação deles. E mais perguntas para as quais eu não tinha resposta. Perguntas que, se eu respondesse, eles não dormiriam mais à noite porque constatariam que eu, assim como eles, era infeliz, tinha angústias e dúvidas que os anos que eles dedicaram a me criar não evitaram. Eles eram assim, para o bem ou para o mal. Reclamar disso, achar errado, só fazia que eu me sentisse um ser humano terrível. Por isso escolhia não falar. Era o melhor para todos nós.

Uma lamúria crescente invadiu a cozinha, vinda do corredor que levava aos quartos. Minha mãe se levantou e foi até o quarto da minha vó, sem dizer nada.

— Onde tá a caixa do tal remédio? – perguntei ao meu pai.

— Você vai ler?

— Acho que é melhor.

— Eu vou pegar.

Ele se levantou e abriu o armário suspenso sobre a pia, de onde tirou uma caixa de plástico cheia de remédios. A suposta demência senil não era o único problema da minha vó. Ela sofria de doenças cardíacas, intestinais, pulmonares, além de pressão alta. Vivia quase que artificialmente, a base de remédios que faziam seu maquinário interno funcionar como deveria. Além desses, na caixa havia os remédios para pressão alta e diabetes que meu pai era obrigado a tomar. Daquelas pilhas de caixinhas, ele tirou a que eu pedi e me entregou. Abri a caixa e tirei dela a bula toda dobrada. A lista de contraindicações era imensa. Dentre os efeitos que minha vó poderia sentir ao tomar aquela medicação estavam inclusos alucinação, depressão, tendências suicidas, taquicardia, insônia, perdas súbitas de consciência até coma. Meu pai, vendo meu rosto reagir ao texto:

— Pois é, eu li também. O médico disse que é normal, todos esses remédios antidepressivos causam isso tudo.

— Deve ter gente que toma isso aqui pra recreação.

— Não duvido de nada.

Como trovão, vindo do quarto:

— Ach-aaaaaai!

— Não grita, pelo amor de deus, me ajuda a te levantar. Júlio, me ajuda aqui com ela.

Ele gemeu baixinho ao levantar da cadeira:

— Todo dia é isso – olhando pra mim, sussurrando.

Bebi meu café. Fui até o corredor, num ponto em que minha vó não pudesse me ver. Não sabia qual ia ser a reação dela se me visse. Os três, como uma grande massa única, se arrastaram ao banheiro. Meu pai saiu, depois minha mãe, que fechou a porta. A todo momento, a respiração maquinal da minha vó soava, sempre em ritmo, profunda, perfurante. Mesmo atrás da porta, seguia dentro dos nossos ouvidos. Mesmo quando o barulho para, ainda ouvíamos.

— Já fica por aí, quando ela sair, fala um pouco com ela, vai que ela acalma.

Meu pai voltou à mesa.

— Sai do corredor, vai pra sala. Se ela te ver assim do nada, capaz de levar um susto, achar que é outra pessoa, invasor, sei lá o que tá acontecendo.

Fiz. Esperei na sala, sentado no sofá, olhando para a tela brilhante da televisão sem que ela me dissesse nada. Havia pessoas cozinhando, foi tudo que captei. Usavam ingredientes que pareciam caros demais para o público-alvo do programa, gente com tempo e paciência para ver programa culinário da Globo num sábado de manhã – se é que o programa era culinário, poderia ser só um quadro, pouco tempo antes estavam mostrando notícias da estrada, afinal. A porta abriu. Levar minha vó de volta para cama foi mais fácil. Me aproximei da porta do quarto, ela estava sentada na cama. Olhou na minha direção, mas era como se não tivesse ninguém na frente dela, nem minha mãe, nem paredes no quarto.

— Oi, bom dia.

Continuou, assim parecia, olhando na minha direção.

— É seu neto, mãe.

— Eu sei. Mas ele não tá casado?

Comecei a rir. Era meu jeito de mostrar a ela que tava tudo bem, que o que ela disse fazia sentido.

— Não, ainda não.

— Sim, ele casou. Com a Suelen.

— Mãe, quem é Suelen?

— Não foi?

— Não, não tem nenhuma Suelen – continuei com um sorriso no rosto, falando com humor, como se tudo aquilo fosse uma grande piada.

— A namorada dele é Luciana, mãe.

— Não conheço – conhecia, se viram duas vezes, mas preferimos deixar em paz.

— Tá bom. Descansa um pouco agora, tá bom?

— É só o que eu faço. Não me deixam sair do quarto.

Me despedi e voltei à sala.

— Quer tomar café da manhã, então?

— Claro – o tom dela ficou agressivo de uma palavra pra outra, como se tivesse lembrado de algo que a ofendesse. – Faz três dias que eu não como.

— Como assim? Você comeu ontem à noite.

— Tá, acredito.

— Mas é sempre assim, você nunca levanta de manhã pra comer, eu sempre chamo – minha mãe argumentava como se fosse com a minha vó que ela estivesse falando ainda.

— Você é uma mentirosa.

— Eu sou?

— Cadê o Álvaro?

— Quem é Álvaro?

— Você não me engana, chama o Álvaro agora, quero falar com ele.

— Meu deus, mãe, o Álvaro morreu há trinta anos.

— Morreu nada, falei com ele agora mesmo. Você acha que eu não sei da festa? Vi gente andando pra lá e pra cá com garrafas. Você acha que eu sou louca? Você me prende aqui, mas eu vejo tudo.

— Descansa, mãe. Você tá sonhando.

— Não me engana, vagabunda. Vai pra festa, vai. Me tranca aqui. Eu, uma velha cega.

— Desde quando você é cega?

Ouvindo isso, meu pai foi até o quarto e pediu que minha mãe ignorasse aquilo, que era uma das alucinações do remédio. Só podia ser. Eu tentava comer meu pão, enquanto terminava a segunda xícara de café. Eles voltaram à cozinha, mas, do quarto, ainda era possível ouvir a voz dela ruminando coisas sem sentido.

— Ela tá falando de gente que morreu há décadas. Coisas que só podem vir de algum canto escondido da memória dela, coisa que ela tinha esquecido, e o remédio tá trazendo de volta, tudo de uma vez, só pode. O que esse médico foi me arrumar. Não sei mais o que fazer com ela.

— Parar de dar o remédio, só com auxílio médico. Pode ficar pior – eu disse.

— O médico disse que isso ia ser só os primeiros três meses. Que é o cérebro voltando a funcionar. Se isso é normal, não quero ver o louco.

— Precisa ver de noite – meu pai, cansado só de lembrar.

— Aí que ela fala com a árvore genealógica inteira, mãe, pai, cachorro, vô, vó, gente da idade da pedra. É assustador. E como se tivessem ali, na cama com ela. E me xingando igual quando eu era pequena.

Terminamos o café. Uma hora ou outra, ela dormiu, mas o barulho da respiração, engrenagens cobertas de muco e saliva, batendo uma na outra, nos lembrava que ela estava lá.

Omissões – parte 1

Foi como nada que eu já tivesse visto, a última vez em que vi minha avó. Estava visitando meus pais, como costumava fazer mesmo que fosse de dois em dois meses. Por telefone, um dia antes de eu pegar a estrada até a casa deles, minha mãe me havia falado sobre o tal remédio que o médico receitou.

Ele disse que, se eu lesse a bula, não daria pra ela.

O que ele quis dizer?

Não sei, mas obedeci. Se você quiser ler quando chegar, vá em frente.

Mas o que ele faz?

Ele disse que é pra demência senil, eu sei lá o que faz exatamente. É bem caro, e ele disse que funcionou com a avó dele, que ela tava do mesmo jeito e aí tomou o remédio e uns meses depois ficou como nova. Ele alertou a gente dos efeitos colaterais, que ela ia ficar agitada, agressiva, enquanto acostumava com a medicação, coisa de no mínimo trinta dias, ele disse.

Tudo parecia normal na casa, logo que cheguei. A cidade em que eles viviam já era tão pequena, mesmo seus centros comerciais quase não tinham um pulso verificável, mas a rua em que a casa deles ficava era reclusa, ficava de frente para um matagal – não exatamente um exemplo de beleza natural, com árvores e flores e gramados, mas algo de aparência bandonada e morta, cheia de pedaços de terra e uma grande queda poucos passos além das primeiras árvores, queda essa que levava a mais mato e árvores, sem simetria ou ordem, um exemplo perfeito de como a natureza, quando deixada em paz, é caótica e não se esforça para se moldar em paisagens aprazíveis de calendário – e a casa logo ao lado havia sido abandonada um ano atrás. Havia alguns vizinhos espalhados pela rua, mas estes não tinham desejo algum por comunicação. O único sinal de vida que aquela rua costumava emanar eram os animais abandonados que se agrupavam por lá e corriam algazarreando, subindo e descendo a ladeira de terra que levava até as casas, por ondem os carros eram obrigados a passar sempre que queriam entrar ou sair da rua. Meu pai dizia ter visto um tucano por lá uma vez, mas ninguém que o ouvia acreditava. Já minha mãe, com todo seu tempo livre, dava de comer aos cães e gatos da vizinhança. Era um agradecimento, ela dizia, pelo favor que eles faziam com seus ruídos constantes – um sinal de que o mundo não havia acabado, que vida ainda habitava a Terra, embora distante dali –, se eles fossem embora seria insuportável. Então ela passava duas horas por dia, no mínimo, quando fazia bom tempo, dando comida e falando com os cães e gatos, que a enchiam de atenção e pediam por mais, até que ela tivesse que entrar em casa de novo, quando os bichos chorariam na porta um pouco, mas logo voltariam aos seus assuntos particulares. Meu pai abriu a porta e me cumprimentou, enquanto o cachorro da família, um maltês de quinze anos chamado Laércio, se aproximava no máximo de empolgação que sua idade avançada permitia. Fiquei de joelhos para que ele comemorasse minha chegada sem ter que pular muito e questionava o que diziam da falta de memória dos caninos. Minhas visitas eram tão raras e curtas, mas nunca sentia como se ele tivesse me esquecido. Se esquecia, era rápido para relembrar ou tomava familiaridade com estranhos muito fácil. Do interior escuro da casa vi minha mãe se aproximando da porta.

Sai do chão, criatura.

Oi. Há quanto tempo. Como vai? – me levantando.

O cachorro começou a circular nós três até se distrair pela área externa da casa, cheirando as rodas do carro e as paredes e as cadeiras de jardim. O bicho nasceu estrábico e, recentemente, foi diagnosticado com catarata. Não sabíamos se ainda enxergava alguma coisa. Minha mãe me deu um abraço, perguntou da viagem, se havia corrido tudo bem.

O que a Luciana achou de você passar o natal aqui?

Foi o combinado, né?, natal aqui, ano novo com ela.

Mas não achou ruim?

Se achou, não disse nada.

Meu pai disse que ia preparar o café da manhã e entrou na casa. Assistimos o perambular do cachorro por mais um tempo. Entramos logo depois e, ouvindo a porta abrir, ele correu atrás de nós para não ficar sozinho. As luzes da casa estavam apagadas e, ao fechar a porta, tudo ficou escuro. Meu pai abriu as persianas. A televisão estava sempre ligada quando havia alguém acordado na casa. Fui até a sala e deixei minha mochila no sofá. A visita seria só pelo fim de semana. No dia anterior, vinte e quatro, havia trabalhado o dia todo, só pude ir até lá na manhã de sábado, preocupado que sexta à noite o trânsito estivesse impossível. Um telejornal filmava as estradas que levavam ao litoral de diferentes estados, os quilômetros de engarrafamento, e entrevistavam os turistas parados mas felizes, com os carros atolados de gente e bagagem, o sol brilhando sobre eles como que se para fritar a todos de uma vez. Era possível sentir o calor através da tela, ouvir o estalar dos corpos-ovos-fritos. Deixei a mochila em que estavam minhas roupas e dois livros sobre uma poltrona. Minha mãe entrou na sala.

— Ia dizer pra você dar um oi pra sua vó, mas não faz uma hora que ela pegou no sono.

Tão ruim assim?

— Trocar o dia pela noite ela já fazia, ruim ela fica quando acorda.

O cheiro de café tomou o cômodo junto dos ruídos da cafeteira que cuspia suas últimas gotas de água. Meu pai deixou o pote de comida do Laércio, cheio até o topo de mamão cortado em cubos, no chão, e o cachorro veio correndo até ele. Inalou a fruta em um minuto e se atirou latindo na perna do meu pai, pedindo por mais. Esse era o ritual das manhãs para o cachorro. Ele nunca recebia mais. No lugar, vinha um pote agora cheio de ração, que ele cheirava e rejeitava. Quinze anos comendo a mesma ração e odiando cada mordida. Uma bela imagem do egoísmo humano, antes de mais nada. Nós, da espécie que escolhe todo tipo de veneno e intoxicação em troca de prazer, mesmo que encurte nossa vida, fazemos que um animal de outra espécie viva uma vida com menos prazeres em troca de um par de anos e pelos mais brilhantes, sem que o animal tenha direito, sequer capacidade, de escolha ou compreensão do conceito de saúde e longevidade e bem-estar. E fazemos isso pelo desejo de ter o animal conosco por mais tempo, de novo, sem consultar sua opinião inconstruível e, caso contrário, de qualquer maneira, indecifrável.

***

Obs.: não queria postar esse conto aqui, mas ele foi escrito com base na morte da minha vó, no começo desse ano, e, como é dia de finados, achei que seria bom prestar a homenagem fazendo dele público.

Confissão no quarto 219 – parte 3 (final)

Parte 1: https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/02/21/confissao-no-quarto-219-parte-1/

Parte 2: https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/07/24/confissao-no-quarto-219-parte-2/

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Peguei o livro do chão e comecei a ler o texto. A letra era horrível, como se o autor tivesse a mão tão trêmula quanto a minha. Foi escrito às pressas, claramente. A primeira palavra poderia tanto ser um título quanto o destinatário de uma carta. Era o nome de uma mulher. Mas carta não poderia ser, exceto que o autor pretendesse enviar toda a bíblia à moça. Abria com um tom poético, mas estava em prosa. O tom, no entanto, não era fixo e sumia ao longo do texto. Aos poucos se tornava narrativa confessional, direta e realista, se referindo a alguém, à moça-título, como se a pedisse perdão.

Começava extremamente afetado, com mescla de formalismo antiquado e erotismo: Sonho com o dia que verei seus olhos em frente aos meus, olhos cor de terra e mel, olhos curiosos, olhos abertos, olhos vivos. Quero que me enterre com essa terra e me deixe enterrar-me em você. Se você é a terra, que eu seja o fogo, basta me olhar para abastecê-lo e ele nunca se apaga. Por-lhe-ei em merecido pedestal e me alimentarei de seu sexo como néctar divino que é, será meu templo, minha deusa, minha guia. Quero ver-lhe em gozo eterno, epiléptico, alcançarei sua divindade com minha torre de babel que fala e usa todas as línguas. Nessa passagem o autor dizia querer ver a moça, mas nas sessões diretas eles pareciam se conhecer, ou estar se conhecendo. Aí o erotismo desaparecia. A realidade podia ter atingido o autor. Apesar do estilo, podia ser bonito, aos olhos menos cínicos. Por que escrito em uma bíblia e abandonado no hotel?, não tinha como saber. Era irônico, vista a frase: Que esqueçamos cristo e nos entreguemos a dionísio, nos esfreguemos entre os lençóis, banhados de vinho e suor… Um pouco de heresia nunca faz mal, eu diria.

A perda do erotismo, contudo, não era brusca. Acontecia ainda de maneira poética, quando o autor se dava conta da realidade e decidia a analisar. Você me deixa pornográfico, garota, ele dizia, assumindo sua própria exaltação. Mas não pedia desculpas. Questionava a si mesmo e a ela se a causa de seu desejo era séria ou ímpeto juvenil, primeira pergunta que qualquer apaixonado deveria se perguntar, independente das circunstâncias. Ainda assim recusava que suas emoções fossem mantidas em silêncio e encerrava: Por que me envergonho dessas palavras, então, se são tão sinceras? Por que quero escondê-las e as julgo ilegíveis, indignas da beleza dos seus olhos? É uma vergonha universal dizer o que se sente com as exatas palavras, não sou o único. Também causa vergonha ouvir certas verdades. Eras e mais eras disfarçando sentimentos, diminuindo-os, por medo de sabe-se lá o quê, medo que se tire proveito da verdade, então chora-se pelo excesso de mentira. Por um instante, desejo ser diferente, desejo ir até você, minha musa, só para te dizer estas mesmas palavras, com cada vírgula e entonação. Ria de mim, se assim desejar, chama-me de louco, pois o sou, perdoa-me se te incomoda quando eu digo que quero te apreciar e satisfazer, que quero te vulgarizar e, quem sabe – no futuro, um dia –, te amar. É apenas a verdade. Primeiro o desejo, então a sua satisfação, e somente depois existe a possibilidade de amor. Concordava com cada palavra, ainda que sempre me constrangendo pelo estilo patético e extravagante.

Então, em um salto, o autor admitia frustração. Não com sua musa, essa ele se esforçava por compreender. Era frustração generalizada com a qual eu me identificava. Ele contava, nessa nova parte sem poesia, o que poderia ser um caso real, vagamente descrito. Até me senti envergonhado pela leitura daqueles trechos, eu era um estranho invasor das memórias alheias. Esqueci que eram linhas abandonadas a sabe-se lá quantos anos. Quantas pessoas já não haviam lido aquele texto? Quantos não ficaram sabendo daquele começo de tarde, daqueles minutos de conversa tímida e tensa? E pior, quantos não ficaram sabendo dos pensamentos íntimos do autor naquele momento, das tais inseguranças que, no texto, ele fazia questão de relatar da forma mais literal possível, sem os disfarces confortáveis do símbolo e da metáfora, da ficção e da poesia? Preferi não o parafrasear por medo de desconhecer o que estaria expondo, talvez só a última linha desse parágrafo, a mais chamativa e que resume tudo: Viro as costas e contemplo a Terra, que gira só para chegar sempre no mesmo lugar. Não é isso a vida? Repetição constante. Acordar, trabalhar, almoçar, voltar ao trabalho, chegar em casa e perceber que é hora de dormir para que se possa acordar, trabalhar, seguir esse fluxo infinito com a ilusão de que o dia seguinte trará algo de melhor, algo que interromperá o ciclo. Mas quando algo de fato interrompe, como acontecia comigo, o sentimento é desconfortável. Não traz nenhuma felicidade e faz com que você se pergunte, então é isso? Será que vale a pena? Mas pensar em acabar com tudo e contemplar o nada é ainda mais terrível. Principalmente sabendo que o nada é apenas pessoal, a Terra seguirá sem você, girando da mesma forma, como sempre, como desde muito antes do seu nascimento. Por isso seguimos girando em círculos, como loucos iludidos.

O último parágrafo era outro pedido de perdão. Por tudo. Para a musa, para o autor, que precisava se autoperdoar pelas próprias ações e erros. Se arrependia por falar demais e criar expectativas inalcançáveis. Se enganar e ainda cobrar dos outros que não cumpriram com as impressões que ele errou em ter, para começo de conversa. Ego, ele repete diversas vezes. Todas as suas ações, quando analisadas com a devida sinceridade, não passavam de alimento para o ego. Até mesmo o texto que eu lia era apenas algo que ele poderia usar para demonstrar sua própria sensibilidade e visão de mundo – não é isso que todo o escritor faz? –, mas que não passa de masturbação. Masturbação intelectual, masturbação emocional, o que seja. É possível ser egocêntrico e se autodesprezar?, ele perguntava.

Era com premonição que o texto terminava. Mais provável é que escreverei um novo texto falando sobre este texto e como ele não passa de uma sequência de autopiedades e vou me arrepender de tê-lo mostrado para qualquer um, principalmente a você. Enquanto eu terminava a leitura, via outro mosquito fazer sombra ao passar ao meu lado. Por um instante, me esqueci de tudo que li. Fechei a bíblia e voltei à caça. Estava na cabeceira marrom da cama, camuflado, mas eu o via. Com uma porrada sagrada ele se desmanchou como seu parente. Agora eram duas marcas de sangue na contracapa do livro.

Precisava de outra bebida. Ainda eram nove da noite e o bar do hotel estava aberto, embora ninguém o frequentasse. Pedi outro uísque ao garçom, que já me olhava com suspeita, mas não fazia perguntas. Trouxe a bíblia comigo. Mostrei o texto a ele e perguntei se ele sabia de quem era.

Não sei, nunca vi isso antes.

Ninguém nunca te mostrou isso?

Não, acho que não. Você quer que eu troque a bíblia do seu quarto? Acho que posso fazer isso e me livrar dessa daí.

Não. Não tem problema, pelo contrário, só queria saber se vocês sabiam de alguém que se hospedou aqui e pudesse ter escrito isso.

Não, não que eu saiba. Pode ser que um escritor tenha passado um tempo aqui, mas que tenha rabiscado nas coisas, disso nunca ouvi falar.

Terminei minha dose e ele perguntou se queria outra. Na verdade eu queria, mas achei melhor dizer não. Ainda tinha que acordar naquela madrugada. Voltei para o quarto, agora certo de que todos os mosquitos estavam mortos – levantei a procura de um, matei dois. Estava errado, mal deitei a cabeça, já ouvia os zumbidos. Acendi a luz e vi os pontos pretos em fuga. Peguei de novo minha arma e olhei ao redor – nada. Andei um pouco pelo quarto. Vi a mancha na cortinha branca. Observei de perto e achei o mosquito. Acertei para matar, e agora eram três manchas de sangue na contracapa. Agora poderia dormir em paz, pensei, mas ainda encontrei outro me esperando em cima do colchão. Este nem teve tempo de fugir e me dar o trabalho de o caçar. Quatro manchas na contracapa e uma no colchão, sobre a qual eu dormi após dar uma segunda lida no texto. Pensei em o guardar comigo, arrancar as páginas do livro, mas seria egoísta impedir outras pessoas de cruzarem com ele, tampouco queria destruir a bíblia do hotel. Aquela leitura, de qualidade ou não, cumpriu seu papel comigo. Não me confortou, mas me fez perceber que outros sofriam que nem eu, que outros também se odiavam apesar de se sentirem completos egomaníacos. Se odiavam justamente por isso, por terem que viver dentro deles mesmos sem descanso e só terem a si a si a si o tempo todo.

Três horas de sono apenas, mas não podia fazer nada. Tinha o voo de volta para pegar. Tinha que voltar para casa, almoçar, depois ir ao trabalho – com o diferencial que agora teria os resultados bem-sucedidos da viagem para exibir, como se fossem servir para alguma coisa, como se tivessem significado real. No fim do dia, após o expediente, ia voltar para casa e perceber que o dia acabou e tinha que ir para cama para acordar no dia seguinte e ir ao trabalho e ao meio-dia sair para almoçar e voltar logo depois e trabalhar até o fim do expediente quando eu voltaria para casa e me daria conta de que o dia acabava e em círculos daria voltas infinitamente, agora sem a ilusão de algo melhor e sem a ilusão de que a destruição do ciclo que parecia me escravizar me traria qualquer liberdade.

Confissão no quarto 219 – parte 2

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A exata meia hora do sono mais profundo, escutei um zumbido se aproximar, cauteloso, do meu ouvido. Me dei conta do barulho e levantei me estapeando. Agora era o braço esquerdo que coçava e queimava, ainda mais que o dedo. Acendi as luzes, mas nem sinal do canalha, que eu estava certo ser o mesmo do restaurante. Tão certo quanto os garçons estavam rindo de mim. Sabia que só poderia dormir de novo sobre o cadáver daquele inseto, Nêmesis. Busquei o controle remoto e liguei a televisão – o que há anos eu não fazia, falando em quebra de rotinas. Passava os canais como um maníaco, pensando que, independente do que passasse, algo melhor existia logo no canal ao lado e eu estava perdendo – motivo que, em primeiro lugar, fez eu me livrar da minha televisão. Olhei para a mão que segurava o controle, ela tremia. Bem de leve, mas tremia. Meu chefe me disse uma coisa, mais cedo naquela mesma semana. Estava separando uns papéis e ele comentou que minha mão estava tremendo. Disse que era porque estava embaralhado com os papéis, eram muitos, me faltava coordenação para os separar sem que um ficasse preso no outro. Ele não acreditou e pediu que eu esticasse as mãos no ar. As duas tremiam igual. Vai procurar um médico, ele sugeriu, isso é coisa de sistema nervoso, muito perigoso. Isso fez sumirem quaisquer chances de minhas mãos atingirem estabilidade.

Achei um canal. Nunca tinha ouvido falar dele. Aparentemente era brasileiro e dedicado à arte, em todas as suas formas, vinte e quatro horas. Passava um breve documentário sobre Cartier-Bresson. Não entendia nada de fotografia, nem tinha planos de aprender, mas parecia interessante. Era uma pena que, após algumas frases em francês, com legenda em português, que não faziam muito sentido separadas do contexto, mas soavam filosóficas para cacete – mais pelo idioma –, e algumas fotos de Paris, começaram a rodar os créditos. Em seguida, uma escritora jovem brasileira falava sobre seu novo romance, parecia interessante, mas minha cachalote branca apareceu, pousada na parede. Dei um tapa nela, mas ela esquivou – sim, ela, li em algum lugar que os únicos mosquitos que sugam sangue são fêmeas –, e se pôs a flutuar sobre mim a uma altura fora do meu alcance, como se tivesse me medido por antecedência, então me cegou voando em direção à luz, finalmente sumindo sob as sombras.

Agarrei de novo o controle remoto. Passava outro documentário, dessa vez sobre Helmut Newton, mas a narração continuava em francês. Falava sobre o intenso erotismo de suas fotos relativamente simples. A foto se chamava Arielle depois de cortar o cabelo. Uma mulher sardenta, de braços cruzados, cabelos curtos emoldurando seu rosto, de seios expostos. Percebi quão pouco valor dei às sardas durante minha vida. O que seria da arte sem a nudez e o sexo? Tem coisa mais inspiradora que o corpo feminino despido, com todas as suas formas e delicadezas? Não, por isso nenhum movimento artístico casto poderia ser levado a sério nos dias de hoje.

Enquanto aumentava o volume, pensei na tremedeira, o que a ativou, causando um espasmo que começou no meu cotovelo e atravessou todo o antebraço, derrubando o controle remoto no espaço estreito entre a parede e a cama. Desisti e usei o interruptor ao lado da cama para desligar a televisão. Eram dois interruptores. Antes, apertei o errado e liguei o ar-condicionado, então corrigi e desliguei os dois aparelhos.

Olhava para todos os lados, para o teto, para as paredes, paranoico, como se cada sombra fosse aquilo que, não era um predador feroz, era apenas um mosquito. Um mosquito que, por esquecimento, quem sabe, pousou novamente na parede. Devagar, abri a gaveta do criado-mudo ao meu lado. Uma bíblia, somente o novo testamento, e uma lista telefônica. A bíblia, embora menor, logo menos gratificante, seria mais eficaz, rápida, de capa dura. Em movimentos suaves e discretos, tirei a bíblia da gaveta e a acertei na parede. Com a fúria das minhas frustrações, golpeei o mosquito, que virou uma massa preta e vermelha na parede. Meu dedão, mal posicionado, acertou a parede também. Soltei o livro. Ele se abriu, no chão, não em uma passagem edificante, mas de modo a expor a guarda e a folha de guarda, esta, quase virando. Ambas estavam escritas, do começo ao fim, com caneta azul.

***

Lembram que comecei a postar um conto aqui? Não? Então aqui a parte um:

https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/02/21/confissao-no-quarto-219-parte-1/

Demorou porque decidi revisar a coisa toda mais uma vez. É a vida. Talvez surjam mais contos por aqui.