Aos iniciantes, Béla Tarr, banalidades japonesas, Gao Xingjian (observações aleatórias #9)

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1 – Evitei o quanto pude colocar dicas de escrita nesse blogue, mas vim com uma e acho que ela deve ser compartilhada. Não antes que eu deixe claro que sou um merda e não preciso ser ouvido. Mal se pode chamar de dica, na verdade, é mais uma tentativa de esclarecimento. Não esquente a cabeça com certos e errados. Se explicações junto ao diálogo tiram a naturalidade, se aspas são mais corretas que travessões ou se o melhor é cormacmccarthear (estilo que tem todas as características de um diálogo livre e natural, mas nada tem de natural, com personagens divagando sobre a existência e o terror interminavelmente) de uma vez, lirismo, frases curtas ou longas, parágrafos longos ou curtos ou livros inteiros em um parágrafo – ou uma frase -, linguagem simples ou rebuscada ou achar o meio termo, história mundana ou épica, descrições detalhadas ou mínimas ou ausentes. Seu trabalho não é responder essas perguntas, mas usar das ferramentas – que são todas. Aprenda o método. Análises e julgamentos são pros críticos, e, lembrem-se, os críticos sempre vêm depois das obras. Existe esse esforço por fazer que o autor crie sua própria teoria literária – ou se obrigue a justificar sua obra com base em determinadas teorias – o que não é nada saudável pra arte. É impossível escrever – e só posso dizer isso com base nas minhas próprias dificuldades, passadas e presentes – sem cortar relações com ideias fixas do que é “boa literatura”. Não seja ingênuo, apesar de aberta, essa dica te deixa tão mais livre quanto responsável pela sua própria visão estética. Eu ainda não me resolvi com essa parte do esquema.

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2 – Tampouco acho possível ensinar escrita criativa. Técnicas e teorias são possíveis de ensinar; a escrita em si, ou qualquer outra arte, não. E nem deveria ser, num sentido educacional/doutrinário. Depois de se aposentar, em 2011, Béla Tarr (diretor húngaro) começou a film.factory numa universidade em Sarajevo. O que ele disse em entrevista foi que o mal das escolas de cinema estava na insistência dos professores em educar os alunos, quando esse não deveria ser o objetivo. A film.factory, encerrada no fim de 2016 por falta de verbas, tinha por objetivo colocar pessoas de gerações, origens e culturas diferentes, em uma mesma escola para trocar informações e buscar formas de renovar a linguagem do cinema. Ele comparava a ideia ao que houve na escola Bauhaus de arquitetura (sobre a qual eu nada tenho a acrescentar por ser analfabeto no tema). Concordo com essa visão e invejo quem teve a chance. Interação entre artistas experientes e novatos é essencial, independente dos gostos de cada um.

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3 – Falando em Béla Tarr, botei como objetivo do ano ver todos os filmes dele em ordem cronológica – ou todos que conseguir encontrar. Já vi O Cavalo de Turim e A Harmonia Werckmeister, mas preciso rever, são os tipos de filme para serem vistos várias vezes em uma vida. Agora quero seguir ordem cronológica, então o primeiro será O Ninho Familiar, de 1979, quando ele ainda se ocupava do realismo social sem tanta preocupação estética.  Pra me preparar pra Satantango, o filme de 7 horas e meia, comecei a ler o livro que deu origem ao filme, escrito em 1985 por László Krasznahorkai, na tradução pro inglês. Grande leitura, densa, blocos de texto que se expandem. Tem aquele humor negro à Beckett e Kafka, mas o cenário é um tanto mais desesperançado. Enquanto Kafka trata da fraqueza do indivíduo em uma sociedade opressora e Beckett trata do absurdo e da impotência humana de forma tragicômica, Krasznahorkai é uma espécie de profeta do apocalipse pra quem o apocalipse já passou e o resto de nós que não se deu conta ainda. É interessante quando dois artistas (no caso, Béla Tarr e László Krasznahorkai) têm uma visão tão próxima que suas histórias parecem se complementar, que um consegue passar criar a matéria-prima ideal pra obra do outro. Uma pena que, nem mesmo depois do László receber o Man Booker Prize ano passado, até agora nenhuma editora brasileira se interessou pela obra dele.

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4 – Enquanto lido com os parágrafos tortuosos e imensos de Satantango, contrabalanço com a simplicidade e o cotidiano em O Livro do Travesseiro, da Sei Shōnagon. Esta é uma das principais obras da prosa japonesa clássica. Consiste de uma série de anotações, feitas por essa dama da corte imperial, aproximadamente no ano 1.000, sobre tudo que a cercava. Ela descreve o que se passou com ela ou na corte em determinado dia, lista coisas que adora e coisas que odeia, sempre de maneira precisa, usando o mínimo de palavras para dizer o máximo. Esse estilo dela, de dar foco ao que a cerca, me fez lembrar dos filmes de Yasujirō Ozu (Era uma vez em Tóquio, Bom dia, Pai e Filho, são os que eu vi até hoje). Nenhum deles trata de grandes temas ou sequer parece acompanhar as coisas importantes que acontecem dentro de suas próprias histórias. O foco é no banal, no quieto. Noutro dia, vi Andando, filme de 2008 dirigido por Hirokazu Kore-eda, que segue o mesmo estilo, sobre dois irmãos (cada um com sua família), que vão passar um dia na casa dos pais, já bastante idosos. Então eles falam do passado, cozinham, tratam da passagem do tempo. Nada grandioso, mas de certa forma é, afinal existe e, pra maior parte de nós, é o todo da vida. Parece tradição japonesa esse tipo de retrato, essa forma de enxergar a realidade e fazer arte com ela… Acho que isso aqui é mais um esboço para algo maior que sinto que devo escrever algum dia. A maior parte dessas observações são exatamente isso: coisas que ainda não sei como escrever, mas esse é o resultado parcial. Ao mesmo tempo, você, leitor imaginário, descobre coisas novas e todo mundo sai ganhando.

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5 – As pinturas que ilustram o texto são de Gao Xingjian, que também é dramaturgo, romancista, contista, vencedor do prêmio Nobel de literatura em 2000. Que eu saiba, o único livro dele traduzido para o português é Montanha da Alma, mas está fora de linha e quase não se encontra ele por aí. A obra teatral é comparada com Ionesco e Beckett. Dá pra perceber a sensação de isolamento nas pinturas dele, grandes abismos, espaços escuros abertos, gente sem rosto vagando sem rumo. Em parte, os cenários são como os que Béla Tarr filme, os campos vazios de O Cavalo de Turim ou a cidade deserta em que algo terrível sempre parece prestes a acontecer em A Harmonia Werckmeister. Xingjian, com suas pinturas no estilo tradicional sumi-ê (sobre o qual não vou fingir entender nada, fora que utiliza uma tinta especial próxima do nanking e papel artesanal à base de arroz), também cria essa impressão de impotência perante algo muito maior e terrível. Influência do autoritarismo em que ele viveu? Talvez. O mesmo está em Kafka, Beckett, Ionesco, Tarr, Krasznahorkai. E todos viveram em períodos de autoritarismo. Outro esboço, isso aqui, talvez. Vejamos.

Sobre poemas de amor e reciclagem de textos, comunicação e pessoas novas, Stan Brakhage (Observações aleatórias #8)

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1 – Fuçando a finada versão blogspot desta bodega, achei uma postagem que queria reciclar e vi que já tinha feito. Reli o texto e, apesar de ainda concordar com ele – tem casos de textos velhos meus que eu mal consigo olhar na cara, com esse eu ao menos simpatizo -, ao ler um artigo sobre Stan Brakhage e a forma como ele usava a vida doméstica dele como matéria-prima pros seus filmes, principalmente Jane, sua primeira esposa, decidi que o queria reescrever sob outra perspectiva. Qual eu ainda não sei. O motivo está no fim do artigo, na descrição da conversa entre Stan, Jane e Hollis Frampton. Em resumo, Stan não entende por que todas as suas tentativas de retratar Jane saem mais como autorretrato (enquanto Jane já está cansada e quer sua privacidade de volta).

Então, conversando com uma colega de trabalho sobre uma garota com quem saí outro dia e como é difícil se comunicar no começo – sem correr o risco de interpretar mal, gerar constrangimentos desnecessários et cetera -, a colega, que sabe que eu escrevo – uma das poucas pessoas da minha vida pessoal que sabe disso -, me pergunta por que eu não escrevo algo pra garota, um poema ou coisa assim, ainda mais com dia dos namorados na porta. (Estava na porta no momento da conversa; fazer o que se essa colega é dada a saltos de romantismo?) Mal sabia ela, já tinha escrito dois poemas pra garota em questão. Um muito antes de chamá-la pra sair, outro sobre o encontro. Não tinha nem tenho interesse de fazer declarações, mas analisei os poemas e se valia a pena mostrar pra garota – que gosta de literatura, o que é um começo -, e vi que não importava, porque ela não entenderia o que há dela ali naquele texto. Sim, ela foi a fonte dos poemas, sem ela talvez eles não teriam existido daquela forma, mas ela não está retratada naquelas palavras, não sua essência. Tem mais de mim nos poemas que fiz pra ela do que dela. Mais que isso, os poemas que escrevi não foram pra ela, não foram pra ninguém. São poemas, como todos os outros que fiz, inúteis, pinturas de momentos feitas de palavras, sem dedicatória ou finalidade. Nem mesmo fiz pra mim. Fiz, se pra qualquer coisa, pro momento, ou coisa parecida.

Independentemente, não seguiria a sugestão da colega. Quem em sã consciência gosta de receber poemas? É muita pressão ter que ler um poema de alguém que supostamente gosta de você, seja o pedido de leitura uma espécie de declaração ou só perguntando se está bom. Duvido muito que exista ser humano que goste de receber poesias autorais como declaração de qualquer intensidade. Quer se declarar pra alguém, leia Vinícius, Pablo Neruda, ou I Wanna be Yours, do John Cooper Clarke; não leia Castro Alves ou Casemiro de Abreu, pelo amor de Erato, a não ser que sua amada seja uma virgem tísica em leito de morte. Mesmo esses poemas mal retratam alguém, só falam o que o poeta quer ser pra amada ou o que a amada faz que o poeta sinta – quando não falam o que o poeta quer da amada. Mantenho a conclusão da postagem original: se quiser retratar alguém, aprenda a desenhar, e até desse jeito…

Se postarei os tais poemas aqui? Dificilmente. Se fizer, não direi que são eles. Fica a proposta, será que vocês conseguem adivinhar quais são eles se eu os postar? Não, não conseguem. Se adivinharem, vai ter prêmio*.

*Válido apenas para pessoas que vivem a no máximo 1 quilômetro de distância de mim. Do contrário, o prêmio é um parabéns bem sincero.

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2 – Começar a conhecer gente é sempre a mesma merda. Comunicação é uma impossibilidade. Ou é muito difícil. Pensando bem, isso tudo é pessoal demais. Achei que fosse conseguir criar um meio termo entre a sinceridade e a invenção, ser vago o suficiente, mas não estou me sentindo vago. Por outro lado, tudo isso é tão banal que pode muito bem se aplicar a qualquer um ou qualquer coisa. É a dificuldade de se conhecer alguém sem ter acesso ao que realmente se passa na cabeça dessa pessoa. Há quem não se preocupe com isso, que ache que é sempre agradável, que todos ao redor sempre se alegram quando ele está presente – gente assim costuma ser a pior, a mais inconveniente. Mas acredito que a maior parte das pessoas, ou a maior parte que convive comigo, se preocupa com saber o que os outros pensam. Por mais que algo pareça ter ido bem um dia, só nos dias seguintes é que a realidade vai ficar clara. O momento costuma vir acompanhado de uma camada de névoa, que só se dissipa uns dias depois. Quando os dias passam e não se consegue esclarecer as coisas, a névoa dissipa, mas os arredores seguem obscuros. É normal. Às vezes estranho, mas normal.

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3 – Falando de Stan Brakhage, vi uns curtas dele esses dias. Nunca vi coisa parecida. Não vi as gravações que ele fez da esposa ou de amigos, só as obras mais conhecidas – mais associadas ao que ele tentava criar -, as feitas por manipulação direta: pinturas (animação direta) e colagens na película, danos físicos ao filme, cortes rápidos… Isto pra passar ao espectador uma experiência visual única. Não exatamente filmes, pois não têm narrativa, mas arte visual, um quadro em movimento. Difícil explicar, vou só jogar alguns que encontrei no youtube aqui para que vocês tenham a experiência vocês mesmos. Esse tipo de arte em vídeo é um novo interesse meu, então decidi compartilhar, mesmo não sabendo o suficiente sobre o tema ainda. Claro, ver numa tela de computador não basta, mas nossas chances de ver algo assim em telão é nula.

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4 – As pinturas que usei para ilustrar a postagem são do Cy Twombly. Temo ter exagerado na quantidade, mas essa edição das observações foi um pouco mais longa. Pode ser uma ideia pra daqui em diante, ilustrar o texto com pinturas que transmitem o sentimento que quero passar ou que passam por mim. Desde que vi o vídeo da School of Life apresentando a obra do pintor, tenho pesquisado a obra dele, passado tempo olhando as imagens das pinturas na tela do computador. Conforme o vídeo da School of Life, Cy Twombly trata da vida interior, da tentativa de representação das emoções. Talvez aceitar o sucesso do esforço de Twombly seja questão subjetiva. Eu aceito. Quando sinto emoções em conflito dentro de mim, uma querendo ocupar mais espaço que a outra, quando meu monólogo interno corre tão rápido e confuso que as frases e ideias não se completam deixando só leves esboços de milhares de coisas sem sentido na mente, quando acho que estou pra descobrir alguma coisa ou que preciso fazer alguma coisa mas não sei o que essa alguma coisa é, posso visualizar todos esses estados psíquico-emocionais representados nas pinturas de Cy Twombly. Agora me resta descobrir se é minha vida que anda uma sequência de pinturas do Cy Twombly ou se a vida que é, sem escapatória, feita destas pinturas.

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5 – E como gosto de encerrar essas observações indicando discos, o da vez é Glitter Glamour Atrocity, da White Hills, lançado em 2007. Uma das bandas mais interessantes do rock, e mais ativas. Como eu vivo me repetindo e insistindo nas minhas obsessões, sim, descobri a banda por causa de um filme do Jarmusch, Amantes Eternos. A banda aparece tocando “Under Skin or By Name”, desse álbum, num bar de Detroit em uma cena desse filme. Aí está, não posso fazer nada se foram os filmes dele que me fizeram descobrir tantas coisas. (Queria o disco todo, mas não tem no youtube. Não sei botar aqui o disco via Spotify. Fica a faixa que mencionei no texto e se gostarem vocês têm capacidade e meios pra encontrar o resto.)

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agora me pergunto

agora me pergunto
se correu tudo bem na sua peça.
aguardo notícias suas
desde sábado passado, a estreia,
mas não quero incomodar.

é meu aniversário, você não
sabe? nunca te falei, acho.
prefiro que não saibam.
sozinho comemoro melhor.
quase tudo é melhor sem os outros,

ou é mais fácil, você concorda?
o Noll no meu colo tanto
me tortura e me encanta, com
sua ternura e crueldade perfeitas,
quero roubar cada frase pra mim,

quero o cérebro preservado deste
homem para ritual canibalístico:
vejo agora pentagrama com as velas
em cada ponta, a sala escura-
ignora e perdoa minhas bobagens.

à minha direita, sobre a banqueta
do teclado que há anos não toco,
uma taça de vinho, toca César Franck,
o clima agora mais frio, ameno,
tudo quieto na sala enevoada.

névoa que tem cheiro das ameixas
de Williams, aquelas que tantos
apetites despertaram e só ele
comeu. onde será que você está?,
curiosidade besta da noite de terça.

te mando uma mensagem nesta
quinta, mais tardar no domingo.
lembrei da sua peça por causa do
Noll – minuto de silêncio – que conta
em seu livro de um ator teatral.

nada mais em comum, mesmo assim
não deu pra controlar as memórias.
verdade seja dita que ando
romântico e ridículo, mais a cada
ano que passa. me deixa pra lá.

mas aqui as coisas vão bem,
antes que você pergunte. meio
na mesma, o que é ótimo.
a solidão só ajuda. mais fáceis
as coisas sozinho, concorda?

parabéns pra você
nessa data querida
por favor, me interna
se eu pedir mais desta vida.
mais que o silêncio

e que as lembranças, mais que
vinho e tabaco e livros,
mais que isso tudo ao redor,
mais que tempo e caminhadas
sem rumo- é, as coisas vão bem.

___
Este me deu vontade de apagar todos os meus poemas anteriores pra fingir que ele é o primeiro.

João Gilberto Noll, Emily Dickinson, Zadie Smith, John Berryman (Andei lendo uns livros aí #4)

Harmada – João Gilberto Noll (1993)

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Triste que só tenha sido pego por um dos livros do Noll depois da morte dele. Claro, não faz muita diferença ler o livro de um autor vivo ou morto, mas pra mim ficou aquela sensação de luto tardio, tão pouco tempo faz que ele morreu. Anos atrás, tentei sem sucesso ler A Céu Aberto. Achava que o autor não era pra mim, ou não era pro momento. Então arrisquei Harmada e fui fisgado desde a primeira linha. A história de um protagonista sem nome, como todos do Noll, ator de teatro, sem trabalho, vivendo pelas ruas, de cidade em cidade. A narrativa é fragmentada, mas tão concisa e bem interligada que mal se percebem os saltos no tempo e no espaço. É um grande fluxo pela vida do narrador e seus pensamentos. Não tenho muito mais o que dizer. Me encantei pela linguagem do autor, pelo uso da narrativa e do teatro como parte essencial da vida do narrador, pelas reflexões. Cada frase tem um peso tremendo e exatidão… Bom, estou lendo outro dele agora, Solidão Continental, então dá pra ver que essa leitura teve seu efeito em mim.

Everyman’s Library Pocket Poets – Emily Dickinson

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Esta é uma seleção de poemas da Emily Dickinson. Não tenho o hábito de comprar seleções. Prefiro coleções separadas ou, quando confio no autor, obra completa, mas, nesse caso, optei pela seleção levando em conta a estranheza ao redor da obra da Emily Dickinson. Pra quem não sabe, ela foi uma poeta reclusa. No fim da vida, não era vista por mais ninguém. Enquanto viva, só publicou uns poucos poemas (editados severamente pra que se encaixassem nas normas poéticas do período), deixando uma obra vasta inédita até depois de sua morte. Fora as notas biográficas, o próprio estilo dela carrega certa estranheza (aponto isso de modo positivo), com pontuações que ignoram regras gramaticais, palavras começando em letra maiúscula para dar ênfase, e uso frequente da meia rima (slant rhyme: quando duas palavras parecem rimar por ortografia, mas não rimam na pronúncia, entre outros casos de imperfeição na rima, exemplo: dead/bead, eye/symmetry [vide The Tyger, do William Blake, embora haja quem diga que algumas meias rimas não eram vistas assim em seu tempo, foi a pronúncia que mudou; não saberia dizer]). São poemas em nada tradicionais, tão misteriosos quanto a poeta ou mais, e por isso mesmo fizeram dela uma das poetas mais influentes dos Estados Unidos.

White Teeth [Dentes Brancos] – Zadie Smith (2000)

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Quase não inclui esse livro na postagem porque resumir seu enredo de muitos núcleos e reviravoltas será um inferno. Vamos lá: temos a história de dois homens, Archibald Jones (inglês, medíocre em todos os aspectos) e Samad Iqbal (bengali, muçulmano, moralista), que se conheceram pelo exército inglês na Segunda Guerra e forjaram uma amizade desde então. Dentes Brancos conta a vida destes dois homens e suas famílias, de forma não-linear, dos seus antepassados até o ano de 1992. São tantos os temas, que não dá pra reduzir a forma com que cada um é tratado sem que se perca o sentido. Trata-se de família, religião, história, honra, memória, raça, cultura; sempre com saltos de ponto de vista, de modo que “verdade” alguma permanece por muito tempo como tal na cabeça do leitor, demonstrando que existem vários fatos objetivos, mas que a uma verdade que tanto alguns almejam é inalcançável. Amei ter lido esse romance. É engraçado, imenso, tortuoso… No entanto, não posso negar que, terminada a leitura, estava frio. Difícil explicar. A leitura foi ótima, não há nada de errado na escrita… talvez seja eu que não esteja acostumado com romances tradicionais (com vários núcleos, que se passa em um longo período de tempo, com muitos pontos de vista), mas não é bem isso. Foi a sensação de que toda aquela construção de 500 páginas, boa que seja, não levou a nada, sem ápices. Indico mesmo assim e quero ler mais livros dela.

The Dream Songs [As Canções Oníricas] – John Berryman (1964-1969)

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Reunião dos dois mais aclamados livros do poeta considerado entre os mais importantes americanos do século XX, John Berryman, 77 Dream Songs e His Toys, His Dream, His Rest. The Dream Songs, canções em 3 estrofes, com seis versos cada, escritas em versos livres, são enigmáticas e pessoas, apesar do autor negar que sejam autobiográficas. As canções contam a vida de Henry, da infância à velhice. Berryman passeia pelo inconsciente de Henry, pelos amores de sua vida, pela sua relação com os EUA e os países que ele visitou, suas obsessões, seus amigos, trata da morte e do suicídio, do adultério e do alcoolismo. Por muito tempo, considerei fazer uma postagem separada sobre esse livro só porque ele foi assim tão importante pra mim. Terminei de ler, mas ainda não larguei. Revisito várias das canções quando tenho tempo livre, quando dá vontade. São tão tocantes. Entendo que críticos queiram insistir na qualidade autobiográfica das canções. Muitas delas retratam momentos da vida de Berryman. O suicídio do pai, que ele presenciou, sua reação ao suicídio de seus colegas poetas (Randall Jarrell,  Delmore Schwartz, Sylvia Plath, gente de quem ele era próximo e não), mortes de amigos que não por suicídio (Dylan Thomas), suas influências (W. B. Yeats, Stephen Crane), as canções coincidem na descrição das muitas relações extraconjugais que ele teve e dos seus anos de alcoolismo (batalha contra a qual ele não venceu), coincidem quando falam do desejo que Henry tem de se matar, e Berryman de fato se matou… É um livro intenso. E a construção gramatical complexa de cada canção fazem delas um tanto esquivas à interpretação, a ponto que é possível dizer que muitas não foram feitas para serem compreendidas. Talvez eu devesse escrever só sobre este livro. Pretendo, mas não tão cedo. É um dos meus favoritos no momento. Será uma releitura constante na minha vida.

2 poemas (12:20 / à beira da praia)

12:20

têm sido quietos, nossos almoços. caíram em 
certa rotina. a conversa sempre parecida.
fico pensando se você percebeu que sempre
como a mesma coisa ou se já comentei 
isso contigo. é difícil separar na 
lembrança o que se diz do que não se diz.

à beira da praia

uma abelha flutua ao redor
da sola de sua sandália,
outra segue atrás da primeira,
sutis e vagarosas, tão leves.
a primeira encosta a cabeça
ou antenas na sola da sandália
e você nem a sente.
a segunda faz o mesmo, e
logo surge uma terceira
e quarta abelhas.
elas insistem nessa
misteriosa função de
descoberta. até que,
de repente, você se move,
descruza as pernas e as
cruza de volta, a de cima indo
pra baixo e vice-versa,
seu vestido de verão azul e branco
descobre e cobre de volta
suas coxas, que finjo não olhar,
e as abelhas fogem em
direção às árvores
temendo por suas vidas.
você bebe sua cerveja
sem saber do quase
múltiplo homicídio.

Mágica, milagre, memória; Sobre Las Curas Milagrosas del Doctor Aira (César Aira, 1993-2015)

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 Conheci por acidente esse autor. Numa livraria online qualquer, botei Sérgio Sant’anna na busca, ele que, no momento, é meu autor brasileiro favorito, e encontrei o livro Como me tornei freira (Como me hice monja, 1993). O site não botava o nome do autor ali, então cliquei pra ver o que era, já que não sabia de nenhum livro do Sérgio – depois de tantos anos já posso me dizer íntimo – com esse título. E não existe mesmo, o livro era do César Aira, parte da coleção “Otra Língua”, da Rocco (organizada pelo mestre Joca Reiners Terron, responsável por trazer ao Brasil dezenas de autores da América Latina até então não traduzidos – gente como Mario Levrero, Copi, Aira, Julián Herbert, Guadalupe Nettel et cetera). O que Sérgio fez foi escrever a introdução, elogiando a obra do Aira. Comprei, porque indicação desse porte já me bastava, li e, na minha viagem à Buenos Aires, fui atrás das outras obras dele – logo descobrindo quão extensa ela é e quão impossível é colecioná-la.

Las Curas Milagrosas del Doctor Aira foi um deles, encontrado na feira de livros da Plaza Italia. Composto de 3 romances breves, o primeiro, As Curas Milagrosas do Doutor Aira (1998), é o que intitula o livro, seguido por El Tilo (A Tília, 2003), e termina com Fragmentos de un Diario en los Alpes (Fragmentos de um Diário nos Alpes, 1993) mais seu apêndice. Em 2015, a Random House reeditou estes 3 romances em um único livro – agora vocês entendem a data no título desta postagem. Embora os romances tenham algo em comum, não estão relacionados e o leitor pode escolher a ordem de leitura; pode até ler um pouco de cada por dia e terminar os 3 ao mesmo tempo. Eu sou chato, por isso segui a ordem das páginas.

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Não se sabe se Doutor Aira é curandeiro, milagreiro ou charlatão. Há quem acredite em ambos, e Doutor Aira acredita em seus poderes de cura mesmo sem nunca tê-los posto em prática. A narrativa é um golpe de vento, em primeira pessoa, cheio de divagações, autoanálises, planos que nunca são realizados, argumentos e contra-argumento. Aira tem admiração pelas colagens surrealistas e aqui o romance tem algo disso. Os cenários arvorados das ruas buenairenses, médicos tradicionais perseguindo Doutor Aira pra expor seu método falho em montagens quase televisivas de tão espetaculares, as peças se encaixam mesmo que pareçam estranhas quando juntas, e se encaixam tão bem que passam a se complementar.

A tília era uma árvore enorme, maior que as outras árvores dessa espécie, da infância do narrador. Seu pai usava as folhas dessa árvore para um chá com supostas propriedades mágicas, talvez devido ao tamanho da árvore suas folhas fossem especiais. Até que um dia um menino peronista (assim o chamavam) foi se esconder naquela árvore e seus perseguidores a derrubaram sem nenhuma consideração. Assim segue o romance que é exatamente o que parece ser, uma grande digressão. Memórias levam a outras memórias, sempre na infância, até que se rumina sobre um momento específico ou outro ou sobre a memória em si. Se mais de uma vez o leitor se pergunta como a história foi parar ali, logo o autor se faz a mesma pergunta, porque não se sabe. Me lembrou a forma como eu mesmo às vezes me lembro da minha infância, pedaços que vão e vem e se juntam a outras que levam a mais outros, memórias que começam em algum lugar e eventualmente terminam, mas que não têm começo, meio e fim. Tratam sobre tudo e sobre nada.

Começa com uma descrição das coisas na casa em que o narrador está hospedado, amigos dele que vivem na França. Livros, obras de arte, coleções. A forma como as peças correspondem com a personalidade dos habitantes – ou não necessariamente. Descreve os cantos da casa, conta das conversas que teve com os amigos, dos livros que leu aproveitando a coleção presente na casa. Um desses livros que é melhor com um bloco de notas pras referências e depois pesquisar cada uma. Uma história que leva a outras, que se divide, deixa de ser só um diário e vira um ensaio sobre literatura romântica alemã, ou sobre arte moderna e Duchamp.

As histórias, mesmo não relacionadas, têm o algo em comum da literatura. Não digo isso pra ser óbvio. Todos os 3 romances tratam, uns mais de leve que outros, da escrita. Do milagre que é fatiar uma vida e deixar só as partes de valor. Dos vários caminhos que trilha a memória. Da mágica dos mundos criados por palavras, seja pelo conteúdo fantástico (Verne, Hoffman), seja só pela existência – magia estatística – de uma história que reuna aquelas palavras naquela ordem específica.

Cada romance, tendo sido escrito em períodos de tempo tão separados, cobre uma década da carreira do autor. Diria que é uma boa introdução aos que não conhecem a obra do Aira. Não que seja assim tão fácil reduzir a cada vez maior obra do Aira a um resumo compreensível, mas, digamos que esse livro ajuda aos que nunca ouviram falar dele. Diria no condicional porque a obra nunca foi traduzida, quem sabe num futuro próximo. Para os de vocês que leem em espanhol, mantenho a indicação. Livros argentinos são caros em comparação com o preço da moeda deles, mas talvez valha o sacrifício. Se você estiver passando pela terra dele, busque numa das várias vendas de livros usados.

Este é um mundo de segredos; Sobre The times are never so bad (Andre Dubus, 1983)

Nunca fiz questão de dar tema a este blogue. Ele sou eu, disse certa vez, e ficou por isso mesmo. Não posso negar, todavia, que, quando falo de literatura – também parte de mim -, mais especificamente com sugestões de livros, surgem seguidores e curtidas e todas essas desimportâncias essenciais. Logo, há leitores aqui que esperam indicações literárias, e, com estes, estou em falta. Até porque, gosto de indicar leituras; o que não gosto é de escrever sobre livros. Se pudesse, listaria minhas últimas leituras agradáveis e quem quisesse poderia ir atrás, mas não dá. É necessário convencer, explicar, mais que os motivos que me fizeram gostar do livro, por que o leitor do blogue deveria ir atrás de lê-lo também. Então bolei o formato “Andei lendo uns livros aí”. Acontece que este livro, este não deu pra resumir as sensações de leitura em poucas frases.

Existe uma linha do realismo na literatura estadunidense que me encanta por sua humanidade. Ao mesmo tempo, muitos dos seus autores foram esquecidos ou nunca gozaram de sucesso internacional. Richard Yates é um exemplo, um dos meus autores favoritos que o tempo apagou, até o lançamento de Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road – adaptação do seu principal romance, dirigida por Sam Mendes, em 2009) e, em parte, Mad Men (que pega emprestado características de seus livros e contos, especialmente Disturbing the Peace), mas que já voltou ao esquecimento de antes; os ainda vivos Frederick Barthelme, Russell Banks e Ann Beattie; J. F. Powers e Flannery O’Connor, embora a última esteja mais associada ao movimento gótico-sulista; entre outros, pertencentes a uma tradição que parece ter nascido naquele país, com Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Stephen Crane, popularizada por Ernest Hemingway, mantida por John Cheever e Raymond Carver e inúmeros outros. Neste meio, viveu Andre Dubus. Foi contista e nunca conseguiu terminar um romance. Teve uma vida trágica, envolvendo crises familiares, divórcios, bebida, falta de dinheiro, até perder uma das pernas num acidente de trânsito. Auxiliando um jovem casal na beira de uma estrada, um carro perde o controle e parte em direção deles. Dubus empurra a moça e a salva. O marido morreu, Dubus teve uma das pernas esmagadas. Passou o resto dos dias numa cadeira de rodas, mas dessa experiência saiu Meditations from a movable chair, talvez seu livro mais conhecido.

The times are never so bad é uma coleção de histórias, uma novela e oito contos. Todos econômicos em palavras, realistas, centrados nos eventos pessoais e crises que formam ou destroem pessoas e famílias. Gente simples. Histórias que com frequência fazem o leitor se identificar em algum dos personagens e acontecimentos, ou fazem o leitor temer que algo assim um dia aconteça com ele.

The pretty girl, a novela que inicia o livro, começa em primeira pessoa, narrando os acontecimentos recentes na vida de um homem sobre quem pouco se sabe. Na segunda parte, a narrativa passa pra terceira pessoa e passa a acompanhar a mulher de que ele fala com desdém – sua ex – e as pessoas próximas dela, amigos do trabalho, família. Descobrimos que ela tem sido, desde o fim da relação, aterrorizada pelo primeira narrador, o da primeira pessoa, que, até então, parecia uma pessoa normal. Então a narrativa muda de tom e adquire uma tensão rara na literatura, porque aqui não há “vilão”, há um homem perturbado disposto a tornar a vida daquela que o deixou um inferno.

Levei um tempo pra escrever sobre esse livro, faz meses que terminei a leitura. Mas ainda lembro bem dos contos, só não pretendo falar de cada um deles porque nem todos permitem que se diga muito. As histórias falam de casais jovens tentando sobreviver num mundo nem sempre justo, às vezes tendo que roubar pra isso; de racismo e perseguição; da filha que descobre o adultério do pai e o confronta; violência doméstica… Sempre reais e simples, compartilhando uma característica com Raymond Carver, a da impressão que a um pavio aceso que pode explodir a qualquer momento, mas nem sempre explode, mesmo quando não é apagado.

Mas teve uma história que me marcou mais que as outras, talvez a que faça valer a pena ir à caça desse livro, se esse estilo de literatura te interessa. A father’s story. Este conto, que fecha a coleção, é um resumo do estilo de Dubus. Ele foi um homem católico e pai, que se tornou superprotetor após uma de suas filhas ter sido estuprada. Este conto foca no catolicismo – não como pregação, apenas como o senso moral de um homem (que nem mesmo gosta de igreja e só respeita a um padre específico que se encaixa nos seus critérios) – e no instinto paterno. O pai da história vive só em uma fazenda, depois que os filhos cresceram e foram embora. Ele passa o tempo cuidando dos cavalos, pensando no passado e conversando com o padre. Sua filha vem visitá-lo. Quando ela está pra ir embora, sofre um acidente e precisa da ajuda dele. A história mostra a que ponto o instinto paterno, nesse caso, ou materno, pode fazer que uma pessoa deixe de lado sua moral.

That was the time to say I want to confess, but I have not and will not. Though I could now, for Jennifer is in Florida, and weeks have passed, and perhaps now Father Paul would not feel that he must tell me to go to the police. And, for that very reason, to confess now would be unfair. It is a world of secrets, and now I have one from my best, in truth my only friend. I have one from Jennifer too, but that is the nature of fatherhood. (de A Father’s Story – “Aquela era a hora de dizer eu quero confessar, mas eu não disse e não direi. Embora eu pudesse agora, pois Jennifer está na Florida, e semanas se passaram, e quem sabe agora Padre Paul não se sentiria obrigado a me dizer para ir à polícia. E, por esta mesma razão, confessar agora seria injusto. Este é um mundo de segredos, e agora eu tenho um do meu melhor, na verdade meu único amigo. E tenho um de Jennifer também, mas esta é a natureza da paternidade.”

Embora esse estilo de literatura, talvez por culpa dos MFAs – inclusive em que Andre Dubus se formou, em Iowa, tendo sido lecionado por Richard Yates -, repita a si mesmo, em estilo e em conteúdo, Dubus foge disso, deixando a si mesmo, seu sangue nas páginas. Ele nunca é cruel com as personagens, como certos autores se gabam dizer, nunca é caridoso… O que acontece nas histórias é a vida, marca de uma boa narrativa realista, em que nada é completamente certo ou completamente errado, e qualquer coisa pode acontecer com qualquer um, inclusive as coisas mais distantes da grandeza.