Quando o peso das leituras te derruba – sobre Georges Simenon (parte 1: o autor e sua prosa)

1119fafcad2a2aff006ec185e268b210-georges-simenon-estate-pipes

1 – Introduções típicas

Toda a questão da literatura de gênero, leituras leves e densas, lowbrow/middlebrow/highbrow, pode gerar discussões eternas. É difícil negar que certos livros carregam em suas páginas mais conteúdo que outros. Ao mesmo tempo, me incomoda colocar livros leves como entretenimento e livros densos como “tarefa”. Vários autores complicados são capazes de divertir; Mario Levrero, por exemplo, com suas reviravoltas na realidade da narrativa, não deixa de entreter; até Dostoiévski te prende à leitura, e Camus, Machado, Clarice, e lá vou eu … Ao  mesmo tempo, estaria sendo injusto se dissesse que não há literatura de gênero capaz de fazer mais que divertir. Sim, existem livros que não merecem o papel que ocupam, verdadeiros desperdícios de árvore; outros, como Brida, do Paulo Coelho, no esforço por deixar a leitura o mais leve possível sem que nada seja exigido do leitor, acabam tediosos e rasos, não servindo nem de entretenimento besta. Mas pra cada um desses, surge um Raymond Chandler, um Haruki Murakami, uma Patricia Highsmith, um James M. Cain, que seguem gêneros ou uma formas populares de enredo, mas trazem algo mais.

O problema é quando até essa literatura de gênero derruba. Lembro que peguei James M. Cain pra relaxar uma vez, The Postman Always Rings Twice, numa edição anciã que traduzia o título como O Destino Bate na Porta. Peguei porque tinha umas cem páginas e o estilo do autor era descrito como rápido. Me deparo com um enredo cercado de dilemas morais, denso como O Estrangeiro, de Camus. O que era pra ser uma leitura leve, só piorou meu estado. Porque vocês bem sabem que certos livros são capazes de derrubar um indivíduo – derrubar e pisar em cima. Não lembro o que eu tinha lido antes de O Destino Bate na Porta, mas estava passando por algo assim e “meu entretenimento” não ajudou em nada a aliviar.

Se foco em livros policiais, é porque, dentre os gêneros, é o que acho mais agradável na literatura. Gosto do clima que inspirou os filmes noir. Tentei outros gêneros, mas não foi tão bom assim. Stephen King foi um que me irritou. Falta um editor na vida desse cara, um editor com coragem pra passar a faca em 60% do suposto texto final dele. Ficção científica, pelo menos os autores que eu procuro costumam ser tão densos quanto qualquer existencialista. Tente ler Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? sem acabar duvidando da sua própria essência. Ao mesmo tempo, tenho dificuldades de encontrar um livro policial que sirva pros meus objetivos – distrair, tirar das costas o peso das outras leituras. Raymond Chandler é muito literário. Arthur Conan Doyle é um pé no saco (baseado na leitura de Um Estudo em Vermelho e a digressão de 100 páginas sobre mórmons – o livro nem 200 páginas tem, é mais como se Sherlock fosse a digressão e os mórmons as verdadeiras estrelas do show); além do mais, quem liga pra quem matou, Agatha Christie? É mais interessante saber o motivo. Então eu li Georges Simenon pela primeira vez.

maigret1
Rupert Davies como Maigret

2 – Breve digressão

Onde eu moro, tem um senhor que de vez em quando aparece na minha rua para vender uns livros usados. Nem sempre os livros que ele vende são interessantes, mas gosto de ajudar. Faz alguns anos, ele carregava por aí boa parcela da coleção do Maigret pela LPM pocket. Um dia ele precisava de uma ajuda séria pra pagar o aluguel e me ofereceu a coleção inteira (o que ele tinha dela) por um certo valor. Comprei e deixei num canto da minha estante (um armário) até o ano passado, quando realmente precisava de uma distração em forma de leitura, literatura que não me batesse na cara, só uma história, em tantas poucas páginas, que me prendesse e não demorasse muito pra terminar. Foi o que eu encontrei naquele Maigret (não lembro qual foi o primeiro), só não esperava que a execução fosse tão perfeita.

3 – O que foi tão bom?

Tenho que admitir não ter entendido, em primeiro momento, o que me causou tanta simpatia por aquelas histórias. Com toda a franqueza, são datadas. Simenon escrevia como um homem branco nascido em 1903. Não há consciência social nos romances de Maigret, ou conhecimento sobre procedimentos policiais, ou interesse em qualquer coisa que não a história contada no livro. Não que Simenon fosse ignorante, ele estudou bem os procedimentos policiais franceses de sua época, mas justo com o objetivo de não segui-los. Se não havia preocupação com consciência social, era porque o europeu médio (seus livros rápido ultrapassaram fronteiras) não estava tão interessado nisso. As mulheres em seus livros são, majoritariamente, passivas e vocalmente menosprezadas, mas também o eram as mulheres reais do mundo inteiro nas décadas em que se passam as histórias de Maigret. Resumindo esse potencial de baderna a que desnecessariamente dei início: o cara só contava histórias, em um cenário real, sem se importar com coisas além do enredo – que é típico de ficção policial. Isso, claro, baseado na minha leitura de 4 dos 75 romances, além de ter assistido algumas adaptações pra TV, para as quais pretendo dedicar algumas linhas daqui a pouco. Como minha leitura mais recente me impressionou bastante, deixarei aqui a possibilidade dos livros dele irem muito além do esperado.

Ainda, apesar da simplicidade, algo na escrita de Simenon atrai inclusive escritores. Antes que me critiquem por dividir literatura entre “popular” e “séria”, saiba que o próprio Simenon fazia o mesmo. Ele não tinha vergonha nenhuma em dizer que escrevia por dinheiro e o próprio não sabia quantos ou quais livros tinha escrito, de tantos pseudônimos que usou e quantas obras mandou pra prensa quando ainda eram só rascunhos. Mais de 450 romances, é o que se diz, entre histórias policiais, eróticas, livros sérios e memórias. O método de escrita entre um estilo de livro e outro mudava. Sempre focava na brevidade, não creio que algum livro dele chegue às 300 páginas, mas a matéria-prima era diferente nos livros sérios. Em entrevista à Paris Review, ele dizia ter que se trancar no escritório, quando se dedicava a esses livros e passar por um exame médico completo. Então passa horas e horas na máquina, interpretando como um ator às personagens da história. Enredo e forma importavam menos nos livros sérios, o leitor importava menos. Sinceridade era o que interessava – verdade, por assim dizer. Mas não estou falando desses livros, pois até hoje não os li.

1458599593723

Simenon não incluía as histórias de Maigret entre seus livros sérios, no entanto, é por elas que ele é lembrado. André Gide, um autor estilisticamente oposto, admirava Simenon e o considerava o melhor da França, na época. Vários outros autores expressaram admiração profunda pela obra do Simenon, o que é incomum – autores comerciais costumam ser execrados nos meios intelectuais. Simenon, todavia, se destacou.

Que não fique entendido que, por utilizar regras diferentes em seus livros sérios, Simenon negligenciava o estilo em seus livros comerciais. Ele só usava regras diferentes. Para Maigret, que são os que eu conheço, a ideia era prender o leitor desde a primeira frase e montar livros capazes de serem lidos em um dia. Não é uma tarefa fácil. Ao menos não sem que se ignore certos detalhes estéticos da prosa, o que Simenon não faz. A prosa é de linguagem simples, mas precisa. As breves descrições formam imagens claras na mente do leitor e o levam ao cenário. Mas prosa bem feita não explica essa minha preferência. Essa prosa bem medida é uma bela parcela do que me agrada, afinal chegar a esse grau de escrita que cumpre com perfeição seus objetivos é o que quase todo pretenso escritor almeja. Que ninguém deixe de focar na palavra “objetivos”. Simenon estava longe de ser um escritor perfeito, mas ele era honesto. Nada de se dizer um novo Hemingway ou um autor de tragédias gregas, como insinuou Nicholas Sparks. Ou se achar o melhor de todos e diminuir os que de fato são grandes mas estão mortos e não podem se defender, como Paulo Coelho faz quando quer chamar atenção. Sim, o livro foi escrito em 8 dias e mais 3 foram pra revisão. Sim, foi pra ganhar dinheiro. Sim, eu só quero que o leitor se distraia por algumas horas.

Por algum motivo misterioso, a secura da prosa, quando decido ler um romance de Maigret, não me incomoda. Na verdade, é o que mais agrada. A ambientação pode habitar os entornos do submundo do crime parisiense, mas existe uma calma, uma contemplatividade. O leitor acompanha o caso, de longe, por meio dos olhos de Maigret e sua meditação sobre o caso filtradas pelo vocabulário mínimo de Simenon. Quando vejo, estou perto do fim, mas nem por isso distanciado da leitura, desligado de qualquer maneira. O único lugar em que estou é no livro.

 

Anúncios

Reclamações geracionais, A grande beleza, psicogeografia, letra C (OA #12)

1 – Comecei pesquisa pra um futuro texto. Coisa mais pretensiosa desse mundo falar de histórias que até o momento têm uma frase. Não existem, não há motivo pra falar delas, mas é uma tentação. Nada melhor que falar de uma história quando ela está no auge de sua qualidade – antes de ela existir. É um prazer ridículo e egoísta, logo é isso que vou fazer. Ao contrário do primeiro romance, cujo narrador é confuso e se deixa só observar o que acontece ao redor, o dessa história se pretende um cínico. Não quero detalhar, mas faz tempo que os traiçoeiros campos da sátira me chamam e eu evito o chamado. Até porque personagens cínicos são um grande clichê. A coisa precisa ser muito bem desenvolvida pra dar certo e não acabar só como uma versão light de algo melhor. Aí tem a sátira, que acho impossível hoje em dia, vocês entendem o que eu quero dizer? Vamos por definição: sátira pode ser composição irônica contra costumes e ideias de uma época; ou sátira pode ser ridicularização dos vícios e imperfeições. Só que nossos costumes parecem sátira deles mesmos. Ninguém se leva assim tanto a sério e os acontecimentos sérios ao nosso redor são tão absurdos que superam qualquer sátira. E satirizar aquilo que por si já é absurdo é forçar a barra, é ficar apontando pro leitor, frase por frase, que aquilo que se lê é uma sátira, é para ser engraçado, e deixando claro quem são seus alvos e por que eles merecem cada palavra. Talvez sempre tenha sido difícil, mas parece pior. Sempre parece pior o presente, até quando se viveu o passado.

the-great-beauty-5

2 – Ou talvez essa atração pela sátira, apesar de sua impossibilidade prática, tenha surgido pra descarregar um pouco da raiva. Quero um personagem que odeie e não tenha medo desse ódio. Revi A Grande Beleza (Paolo Sorrentino, 2013) ontem, foi a quarta vez acho, e só fica melhor, só reforça o quanto esse está entre meus filmes favoritos (como sempre, num sentido de afeto pessoal, não como testemunho de qualidade). No filme tem uma frase que sempre me pega. O protagonista, Jep Gambardella, um romancista que nunca conseguiu escrever um segundo livro e vive em festas e imerso nas distrações de Roma, é acusado de misógino, ao que ele responde: eu não sou um misógino, sou um misantropo. Em resposta pra isso, um amigo de Jep diz algo mais ou menos assim: em se tratando de ódio, é necessário ter ambição (tem mais que isso, mas não falo italiano). Essa é mais ou menos a ideia que tenho pra personalidade do narrador da minha hipótese de livro, mas com foco no que veio a seguir. Jep não odeia nada, ele só encara as pessoas, com seus atos e suas manias, e, na maioria das vezes, elas não são tão belas. Essa interação termina com misericórdia, Jep declarando: estamos todos a beira do desespero… (então ele explica que só disse o que disse porque estava cansado do tanto que a pessoa se gabava dos seus feitos, mesmo eles não sendo nada especiais, quando na verdade o objetivo daquelas reuniõezinhas não era mais que papear, beber um pouco, fazer companhia um pro outro apesar da solidão inevitável, tudo pra esquecer o quão vazias as vidas deles eram, e ter alguém apontando o quão cheia era a vida vazia dela em comparação a vida vazia dos outros não ajudava ninguém)… Vejam esse filme, por favor. Eu não sei exatamente como vim parar aqui, essa série de observações começou a ser escrita antes da anterior e tinha esquecido disso aqui até fuçar a lista completa dos meus rascunhos (tenho 15, alguns são só títulos, alguns foram criados ano passado – a maioria). Bom, seguindo em frente, não? Essas observações não foram feitas pra serem revisadas. Seja lá qual tenha sido a ideia aqui, deve fazer sentido pra alguém, se não pra mim.

debord-guide1

3 – É uma boa sensação descobrir que o seja lá o que for que você anda sentindo, pensando, escrevendo … tem um nome, é um conceito antigo, já bastante desenvolvido. Morre a originalidade, mas em troca vem essa ilusão de que não se está sozinho, que há compreensão. O nome da coisa é psicogeografia. O conceito é antigo, atribuído aos textos de Baudelaire, DeQuincey, Blake, entre outros, gente com o hábito de caminhar (flâneurs, como dizem os franceses; flanar, que não é bem o mesmo que caminhar, envolve uma falta de objetivo/destino, um melhor observar dos arredores, que nem sempre caminhadas envolvem) e escrever sobre as cidades em que vivem, seus contornos e segredos. Psicogeografia em si foi definida por Guy Debord, e foi parte dos hábitos dos Situacionistas. Observar a cidade, sua construção, e os efeitos psicológicos e comportamentais que o ambiente urbano causa nos habitantes – por um ponto de vista social, político e pessoal (interno). Hoje a psicogeografia é tratada mais pelos ingleses, autores como Iain Sinclair, Will Self, China Miéville, e, antes destes, J. G. Ballard, entre muitos outros, mesmo que inconscientemente. De um ponto de vista feminino, o tema é tratado por Rebecca Solnit (ainda não conheço os textos dela sobre o tema, só sei que existem) e, principalmente, Lauren Elkin, não como psicogeografia (não li um artigo dela ainda com esse termo), mas como o ato de flanar. Não só Lauren Elkin combate a ideia de que o “flanar” é um hábito tipicamente masculino, apresentando exemplos de flâneuses (neologismo criado por ela, já que não existe um feminino de flâneur em francês) na história – Jean Rhys, Agnés Vardas, Colette, Virginia Woolf… -, como também usa o flanar como símbolo de resistência, a mulher mantendo seu direito de ir e vir apesar dos assédios. Agora estou lendo tudo que posso sobre psicogeografia, buscando livros difíceis de achar (por que só A Sociedade do Espetáculo, do Guy Debord, foi traduzido?, quanto tempo até Flâneuse, da Lauren Elkin, estar a um preço razoável em paperback?, só a Livraria Cultura tem edição física de London Orbital, do Iain Siclair? …? …?), revisando meu diário de viagem e percebendo o quanto ele é um exercício de psicogeografia. Vejamos até onde vão esses estudos. (Adendo: vi também que no Brasil a palavra “psicogeografia” foi sequestrada pelos suínos do “coaching” pra definir “um ambiente seguro pras sessões” de lavagem cerebral. Como eu odeio essa gente, só a palavra “coaching” me embrulha o estômago.)

mingus-ah-um-cover

4 – Charles Mingus é a indicação musical da vez, com o álbum Mings Ah Um. Queria incluir jazz logo nessa lista. Ia ser a letra A, na verdade, mas mudei pra C – falando como se tivesse planejado alguma coisa. Mingus é o nome que aparece sempre que se é introduzido ao mundo do jazz. Um dos principais nomes, há na música dele um pouco de cada pedaço da história do estilo e tudo que veio depois carrega um pouco dele. Mingus Ah Um tem um pouco de tudo. Homenagens ao blues e ao gospel, que serviram de precursores ao jazz, homenagens a Duke Ellington, Jelly Roll Morton, Sonny Rollins, Lester Young, Charlie Parker… o disco é um pedaço essencial da história da música. Por isso, o melhor pra introduzir o jazz ao blog, aos leitores e à minha lista alfabética de indicações musicais.

Velharias resgatadas

Juntando uns poemas pruma possível coleção, dei uma lida nuns antigos, coisa de 2012, 13, até 15, que não é bem antigo, mas vá lá, hoje em dia tudo que não é de ontem é velho. Tirei o pó, dei uma polida com cuspe e uma esfregada de pano, e não é que até que não são tão ruins alguns deles. Os que são eu joguei no fogo imaginário do “selecionar – backspace” – queria ter imprimido só pra ter o prazer de ver a folha queimando na minha frente, mas não tenho impressora e o poema não valia meu esforço de ir até a gráfica e pagar uns centavos pela página. Mas esses até que não são ruins, eu acho, nunca soube julgar minhas coisas. Aí vão:

whitman-brady-2-l

Walt esteve aqui

noutro dia, Walt Whitman caminhava
pela calçada. juro por deus,
ele tinha a barba e tudo mais,
até a roupa formal fora de época
e o chapéu.
não deve ter tido tempo
de se acostumar às modernidades.
passeava tranquilo, olhando os arredores.
viu uma placa de restaurante e decidiu entrar,
era hora do almoço.
queria ter pedido pra que ele recitasse
qualquer coisa das Folhas de Relva,
se ele ainda lembrasse,
naquele frio final de manhã, no outono,
mas não quis incomodar,
ressuscitar já é trabalho o suficiente.

observações noturnas

ladrilhos vermelhos formam círculos no calçadão sob a lua, é meia noite, uma família passeia a passos lentos deixando o filho chutar balões de gás coloridos presos por barbante. não não vai tão longe volta aqui isso. borracha risca e sobe e desce e bate no chão de pedra, as portas de ferro pichadas das lojas fechadas observam em silêncio,

até as bicicletas, uma vagarosa com um casal de idosos agarrados um ao outro, trêmulos, outras duas levam adolescentes apostando corrida, aproveitando o espaço vazio, a uma ziguezagueia que quase tomba, as outras zunem pela mise en scène. mariposas tolas circulando as luzes. outro casal, parado, um nos braços do outro contemplando as estrelas que a cidade ainda permite visíveis. as bexigas seguem quicando para que o menino ria encoberto pelo sorriso dos pais. nenhum carro passa, ninguém fala mais nada.

 

mão amiga

a abstração da poesia
é uma pessoa pendurada
no penhasco com
uma das mãos estendida
fingindo não precisar de ajuda.

Illustration of Odysseus Weeping at Song of Demodocus
das coisas que se perdem no tempo

quem irá dançar
as melodias dos músicos mortos
cujas partituras viraram poeira?

quem irá cantar
suas letras compostas
em língua morta?

notas enterradas pelo tempo
história sem registro
passado sem memória.

A origem de Tommy Wiseau – uma investigação

the-room-movie-poster_trans_nvbqzqnjv4bqnuhzxaamnmhdqk-ykswrz2o-ymlyyqukcawpydow254

1 – Deixa eu explicar

Era uma vez um indivíduo nos seus últimos dias de férias, razoavelmente inebriado às três da manhã de um domingo, alimentando uma nostalgia bizarra pela década de 1990 com vídeos de entrevistas do Space Ghost Costa a Costa. Via quando criança, mas nem imagino por quê. Entrevistas absurdas com gente da cultura popular americana da década de 80 e 90, David Byrne, Thom Yorke, Björk, Matt Groening, pra citar exemplos, gente que eu não fazia ideia quem fosse, eu que ainda vivia minha primeira década. Acho que tem algo no absurdo que atrai a atenção das crianças. O estranho é legal, o incompreensível faz rir só pelo que ele é. Eu não fazia ideia de quem eram as pessoas dentro da televisão falando com o super-herói idiossincrático, mas o jeito que eles falavam me fazia rir, assim como o louva-deus do mal falante. Voltando ao tema, vi a entrevista do David Byrne, na madrugada de ontem pra hoje (domingo-segunda, caso eu não termine esse texto hoje [segunda – fica aí a referência temporal, pros leitores que se importam]), porque me tornei fã de Talking Heads, passadas as quase duas décadas separando a vez que assisti Space Ghost pela primeira vez dessa. Foi quando, ouvindo a voz deslocada do David Byrne, o vendo de cabelo cumprido pela primeira vez, fui atingido pelo que só pode ser chamado de iluminação. Byrne me lembrava de alguém que não era Byrne, mas quem era? Foi quando ouvi soar, feito um sussurro divino ao pé do meu ouvido: o, hi, Mark. Sim! Como pude demorar tanto pra me dar conta?, era a figura de Tommy Wiseau que a versão anos 90 do David Byrne me trazia à tona. Vejam a entrevista em questão – daqui em diante chamada Evidência 1:

 

 

 

 

 

2 – Mas que porra é Tommy Wiseau?

Bom, me decepcionaria se algum de vocês fizesse essa pergunta, mas, para fins de contexto e porque eu sou um profissional, vou explicar: Tommy Wiseau é um ator, diretor, culpado pela criação de The Room, conhecido nas ruas como o Cidadão Kane dos filmes ruins. Desde 2010, o filme, lançado em 2003, ganhou alguns milhares de seguidores e esse ano vai sair um filme baseado em sua produção. (A culpa por esse filme sobre o filme cai sobre James Franco, que por algum motivo se acha um bom artista, o que não vem ao caso.) Mas, sobre Tommy, pouco se sabe. O cidadão revelou poucas informações sobre o seu passado e todas são conflitantes. Ele se diz cidadão americano, mas o inglês dele diz o contrário, e o sotaque é quase impossível de localizar por ter um pouco do que parece ser leste-europeu ou francês. Dizem que ele veio da Polônia, mas não há provas físicas, só especulações. Até a data de nascimento dele é um mistério. O próprio disse 1968 ou 1969 (sim, um ou outro, ele não decidiu ou não sabe quando foi que ele nasceu). Um amigo que alega ter visto os documentos dele diz que foi 1955. Quantos anos ele tem de fato? A aparência dele impede um chute preciso. Ao mesmo tempo que ele parece acabado, ele não aparenta 62 anos. Ou seja, um cidadão além do tempo e do espaço (isso é importante para o resto da teoria, aguardem). Vocês, a essa altura, devem estar se perguntando o que isso tem a ver com David Byrne. Eu espero que vocês tenham prestado atenção na voz de Byrne durante a entrevista. Se prestaram, cliquem no vídeo abaixo (Evidência 2), contendo cenas da performance de Tommy em The Room. Notaram as semelhanças? Pois então, eu também. Não acredito que seja só coincidência.

 

 

 

3 – A teoria, ou, melhor dizendo, a investigação

Os leitores mais perspicazes se deram conta das semelhanças físicas entre os senhores Byrne e Wiseau. Também repararam que as vozes deles se assemelham, não só em timbre mas em certos maneirismos, especialmente a velocidade da fala. Não dá pra negar que, apesar das proximidades, Wiseau é como uma versão pós-AVC do Byrne em todos os aspectos. É aí que entra a minha teoria ou, como prefiro chamar, investigação.

O doppelgänger é o famoso fenômeno popularizado pelo romance alemão Siebenkäs, de Jean Paul, que criou o neologismo. O fenômeno em si pode ser tão banal quanto a se referir a duas pessoas muito parecidas mas sem grau de parentesco até ter origens paranormais, como ser um fantasma ou uma representação sobrenatural normalmente fonte de má sorte. O tipo de doppelgänger ao qual me refiro nessa investigação, contudo, é baseado no apresentado esse ano por David Lynch, em sua continuação de Twin Peaks. (Isso tudo é muito sério.) Em termos vagos, pra não estregar a história pros que dentre vocês não viram a série ainda, o protagonista tem seu corpo duplicado. Enquanto a versão real fica presa em uma dimensão sombria (chamada Black Lodge), o duplo é possuído por BOB, um espírito assassino (que pode representar a raiz de todo o mal, isso nunca fica claro), e vaga pela Terra dando continuidade à sua função, seja ela qual for.

O duplo de Twin Peaks, para evitar que o original consiga se libertar de Black Lodge, cria outra cópia, um tanto defeituosa. Um homem sem passado, sem origem, perdido na existência. Essa descrição faz com que vocês se lembrem de alguém? Talvez de um cineasta de talento duvidoso e passado desconhecido, uma entidade perdida no tempo e no espaço, que fala como se tivesse sido apresentado às capacidades básicas de comunicação há não mais que uns poucos anos e que, no entanto, aparenta ser muito mais velho. O próprio parece confuso e incapaz de agir como um ser humano. Sim, senhoras e senhores, minha investigação conclui que há evidências que Tommy Wiseau seja um doppelgänger de David Byrne. A semelhança física entre Wiseau e Byrne, especificamente Byrne na década de 1990, indica que foi nesse período, por volta de 1995, que Tommy Wiseau foi gerado em misteriosas circunstâncias.

 

 

 

 

 

 

 

 

Reparem novamente na compilação de cenas de The Room. É tão absurdo, vendo a interpretação de Wiseau, acreditar que ele age e fala dessa maneira porque, na verdade, ele só contava 8 anos na Terra, no período das filmagens? Se ele nasceu… perdão, se ele foi criado em 1995, essa é a idade que ele teria em 2003. No entanto, ele viria ao mundo com a aparência do seu original. Como Byrne nunca se removeu da face da Terra e até hoje está entre nós, logo o seu corpo original não foi ocupado por uma entidade, sim foi gerado a partir de uma parte dele, explicando as falhas em seu duplo. Foi Byrne que criou esse duplo? Talvez, ou talvez Byrne, ao brincar com forças além das suas habilidades, tenha sido dominado por uma força sobrenatural. Talvez o nosso Byrne, que conhecemos e amamos, não seja o que acreditamos que seja. Vejamos ele hoje:

 

 

 

 

 

 

 

 

A-ha! O cabelo branco. Qualquer estudioso da mitologia de Twin Peaks sabe que o cabelo branco tem algum significado. (Qual… aí esse é um assunto nebuloso, mas tem significado.) Leland, o pai de Laura Palmer, também possuído por BOB, Leland, da noite pro dia, aparece de cabelos brancos, tais quais os de David Byrne atualmente. Pode ser que a mudança tenha sido só uma questão de idade. Mas pode ser que não. O cabelo do duplo não mudou de cor. Nunca saberemos o que anda aprontando o atual David Byrne ou se ele mesmo se dá conta do que pode ter acontecido com ele e o que seu duplo anda aprontando por aí.

4 – Considerações finais

steph-waldo1-627x398

Abram seus olhos, Ovis sapiens/Homo aries! Há mais nesse universo do que podemos imaginar ou, deveria dizer, que eles querem que nós saibamos. David Lynch está ciente da realidade e graças a ele nós também temos acesso à informação. A verdade está aí e ela os libertará. Nossos ídolos, aqueles que nós admiramos, talvez não sejam quem nós pensamos que eles são. É possível que haja uma ou milhares de outras dimensões habitando dentro da nossa e está ou estás talvez tenham começado a interferir com o que chamamos, por costume ou ignorância, realidade. Cuidem-se de si mesmos, ou vocês também podem ser substituídos ou duplicados. E, quem sabe, nem todos os duplos sejam assim tão simpáticos quanto Tommy Wiseau.

 

Stop making sense!

Tempo, família, livros, letra B (observações aleatórias #11)

1 – Cheguei dia 25, mas ainda não me sinto em casa. Talvez seja coisa pro diário. Deixarei aqui como uma nota pra texto futuro, como tantos outros fragmentos nessas observações. Todos os dias, em Buenos Aires, acordava às 4 da manhã. Então, até a hora em que me levantava – variava entre 8 e 9 da manhã -, parecia uma eternidade. Acordava de 15 em 15 minutos achando que dias inteiros tinham passado. No domingo, sem planos, depois de passar horas andando pra lá e pra cá, procurando livros pras últimas compras, caminhando pelo jardim botânico, frustrado pela linha do metrô estar fechada, estava certo que já era quase cinco da tarde ao chegar num café e finalmente sentar, quando não passava das 3. Tinha a impressão de ter olhado no relógio e visto que era 4 e meia ou mais tarde. Todos os dias tiveram algo assim. Os dias em câmera lenta, apesar de passarem rápido. Sim, foi tudo muito rápido. Só os dias dentro desse furacão de semana que pareciam alheios à loucura (minha, da cidade, da viagem, da passagem do tempo…). E quando cheguei na balsa que leva de Navegantes à Itajaí, parecia que meses tinham passado. A viagem foi de 6 dias, sem diferença de horário entre os países, só que tudo estava diferente. Inclusive a rua próxima do meu escritório, por onde passo todos os dias, parecia ter algo novo, algo que nunca vi. E não me sentia em casa. Ainda não me sinto.

2 – Então, antes de me readaptar, fui passar uns dias com meus pais. Que não fique a impressão de que tenho uma relação ruim com eles, não é bem isso. Vivo sozinho há quase dez anos – é, fará uma década em 2019, vocês respeitem minhas barbas brancas. Nesse meio tempo, é natural se afastar daqueles que te criaram, principalmente se sua natureza é mais fechada, reclusa, e você não é lá de compartilhar coisas com ninguém, nem – ou muito menos – com eles. Passa a década e, depois de uma semana de convívio, você se dá conta de que não tem nada em comum com eles e eles não sabem nada sobre você e nenhuma das partes compreende ou sabe lidar muito bem com esse fato. É normal? Acredito que seja. Parte de mim acredita que a educação dos pais só pode levar a dois caminhos: criar filhos idênticos aos pais ou criar filhos opostos aos pais. Saí um oposto, fazer o quê? Acaba que, entre criar conflito e resumir as inúmeras omissões da minha vida pra eles ou continuar escondendo e ficar sem assunto, escolho manter a omissão. É bom? Não pro convívio, mas evita perguntas difíceis como: quando você começou a beber?, você não sabe que isso não é bom pra você? como assim você escreve?, então você quer viver em Buenos Aires?… A vida é complicada, não dá pra falar mais que isso. Filhos escondem dos pais tanto quanto pais escondem dos filhos, é uma questão de saúde mental, “proteção”, por assim dizer, na falta de palavras melhores. Estou de volta agora, fisicamente, me esforçando pra voltar por completo, se for possível.

3 – (Observação de fato aleatória) Muito aconteceu da hora em que comecei a escrever isso até agora, mas uma coisa foi minha ida ao quilo na terça, pra almoçar. O cidadão na minha frente, depois de um bom tempo passando álcool em gel nas mãos, passou o álcool no rosto como se fosse pós-barba. E o cidadão nem barbeado era, mantinha aquela barba de um dia que 90% da população masculina mantém hoje. Eu estranhei. Talvez vocês vejam isso todos os dias, eu não.

4 – Sim, esse blogue vai envolver muito da minha viagem pelos próximos dias, peço desculpas em adiantado. Mas vou falar dos livros que comprei lá aqui, porque não tenho um pedaço do diário dedicado pra isso ainda. Fui pra explorar a literatura argentina (também), logo, comprei em 6 dias o que compraria em 6 meses (me enganando aqui, como se, pra livros, eu fosse tão frugal). Voltei com 20 livros. Só tinha livro na minha mala, o pessoal do raio-x deve ter se assustado. O que eu fiz e indico pra quem se interesse por literatura de qualquer lugar do mundo pra que se está viajando (acho que pode funcionar em qualquer lugar no mundo) é achar um vendedor de confiança e perguntar: qual autor local você gosta e acha que não recebeu o reconhecimento merecido? Normalmente a resposta é sincera. Se você achar o vendedor certo, vai conhecer livros que de alguma maneira afetaram o vendedor como leitor e admirador de literatura. (Mas, Tio Rapha, como eu sei que o vendedor é de confiança? Ora, minha criança, verifique antes, leve em consideração o que você gosta de ler, troque informações com o vendedor, veja as reações, esse tipo de coisa.) Hebe Uhart foi um exemplo. Queria ter perguntado o nome da vendedora que me indicou a autora. O nome do livro é Turistas, pode ser que ela tava tirando com a minha cara, mas gostei demais do livro. Vou ver o nome da livraria mais tarde pros leitores do meu blogue que quiserem conhecer Buenos Aires. É fácil de achar, fica na área da Plaza Armenia, em uma das ruas que cruza pela Rua Armenia. Mas não foi só esse, em San Telmo, e isso pode aparecer no diário, fui à livraria El Rufián Melancólico. Uma bagunça espetacular de lugar. Pilhas e pilhas de raridades e velharias de todos os tipos. E o dono, Jorge, sabe muito (de literatura argentina e brasileira, sabia mais de Guimarães Rosa que eu – o que é fácil, mas não imaginava que fosse fácil pra um argentino). O lugar mais barato, pra livros, que vi na cidade, na minha vasta experiência de 16 dias em 1 anos. E tem de tudo, inclusive um livro em português, de um poeta chamado José Francisco, sobre quem não sei nada nem consegui achar nada, mas parece interessante. O nome é Peito aberto armado de flores, se alguém puder me ajudar.

5 – Contei no twitter a história da indicação do livro Turistas e a Carol me indicou Banda de Turistas, de Buenos Aires. Gostei demais. Tenho meus problemas com rock alternativo, mas essa banda passou o meu teste de qualidade. Estou falando disso aqui porque, lembram?, eu ia terminar essas observações com uma indicação musical em ordem alfabética. Estou na letra B. Mas ia indicar Talking with the taxman about poetry, do Billy Bragg. Um era o plano inicial, uma mistura de rock com folk (popular, oposto ao erudito da letra A, e eu quero ser o mais abrangente possível nessa lista alfabética), o outro se encaixa com o tema das observações. O que fazer? Ora, trapacear e indicar os dois. É melhor que esperar dar a volta pra indicar os dois, não? Aí está. Ya, de Banda de Turistas, e Talking with the taxman about poetry, do Billy Bragg. Divirtam-se.

Conclusões, bobagens (diário de viagem #2.2)

IMG_0613

Conclusões (1)

Não estou em nada mais esperto.

Não é meu espanhol que é ruim, é o barulho ao redor.

É difícil decidir quem agradar: se o sono, se a fome, se a libido, se os outros, se o turista empolgado, se

Eu não entra na equação. Eu não existe.

Os chuveiros das instalações do inferno se inspiram nos chuveiros portenhos.

Todos estão na merda.

Não é o ridículo que decai com o tempo, é o pretensioso. O ridículo só pode ascender.

Se não dá pra ficar, não vale a pena vir.

A ceia de ano novo judeu pode incapacitar uma pessoa por quatro dias.

IMG_0623

Bobagens

Foi um erro voltar. Esta é a viagem da melancolia. Dia dois, seis da tarde. Deito na cama do hotel querendo chorar como uma criança. As lágrimas saem por acúmulo, somente por não poderem mais ficar presas onde costumam ficar. Se não dá pra ficar, não vale a pena vir.

Como o amor tá te tratando no Brasil?, Alana me perguntou ontem. Estávamos sentados num dos n pubs de cerveja artesanal entre Palermo e Villa Crespo, bebendo (eu uma IPA, ela uma Honey) e comendo uma batata preparada à moda judia (de acordo com Alana), cujo nome eu não lembro – mais tarde tenho que pesquisar. Nisso, durante um silêncio desconfortável, apontei:

Uma coisa eu não gosto em mesas assim, que botam a gente uma de frente pra outra: quero muito te beijar agora, mas você tá longe.

Foi quando ela fez a pergunta.

No Brasil? Mal. Bem mal. Como ele tem te tratado aqui?

Idem.

Não entramos em detalhes. Tímidos, uma atriz e um pretenso escritor, é ela que fica quieta enquanto eu me constranjo – duas vezes: no real e na representação. Aproximei a cadeira, brincamos um pouco sobre minha sutileza, então revivemos o ano passado. Mas no ano passado tudo era surpresa e novidade. Esse ano estou visitando uma vida que tive por dez dias e que larguei por falta de opção. E, mesmo a querendo de vez, sei que vou largar outra vez em cinco dias. Não aguento. Íamos ao MALBA hoje, mas ela cancelou, tinha que trabalhar até mais tarde. E à noite ela comemora o ano novo judeu com a família. E amanhã ela tem aulas de teatro. Amanhã vou flanar por Flores ou San Telmo, talvez vá ao MALBA sozinho. Quero passar pelo museu Xul Solar. Tudo aqui continua caro. Tenho que comer agora à noite, mas só vou pra poder dizer que não passei a noite no hotel. Quero beber qualquer coisa.

O clichê sugere que chorar numa limusine é melhor que rir no ônibus. Meu problema é querer chorar em Buenos Aires, mas ser obrigado a rir de uma piada sem graça em Itajaí. Vou seguir por aí, aguardando notícias dela, mas a verdade é que só quero que ela fique triste comigo. Quero chorar com ela a madrugada inteira na cama do hotel. Porque segunda está chegando. O tempo flui como as lágrimas tentam fluir.

 

O retorno: carapaças abandonadas (Diário de viagem #2.1)

IMG_0424

Ó, Buenos Aires, você não pediu mas estou voltando. Antes mesmo de acabar minha tentativa de comprimir dez dias em dezenas de páginas estou voltando. Não imaginava que voltaria antes de terminar de escrever sobre a primeira viagem, mas deveria ter imaginado. Parte de mim se demorou na escrita daqueles dias como desculpa para os revisitar de tanto em tanto tempo na memória, outra parte não queria revisitar os detalhes para não sofrer de saudades. Havia também a insatisfação com a realidade geográfica, saber que aquilo sobre que eu escrevia estava lá e não aqui e que eu queria estar lá. Itajaí que me perdoe, mas já não a suporto. Meu mal-hábito de criar raízes com facilidade, mas me cansar delas com o tempo e as querer romper em um golpe. Não é tão fácil e a culpa não é da terra onde se fincaram as raízes, sim do vegetal que se deixou fincar. Nada disso importa, pois estou voltando. Transbordo desses perigos chamados expectativa e arrogância (só porque passei dez dias por lá acho que sei tudo do local e não tem como algo dar errado – isso deixando de lado o fato de que algo já deu errado, o plano original era ir primeiro à Montevidéu, depois à Buenos Aires, mas complicações e impossibilidades de parcelar passagens caras de avião me impediram de realizar o plano). É que os medos iniciais já se foram. Meio que sei o que fazer, para onde ir, o que evitar. Até meu espanhol creio que esteja melhor. Ainda não decidi quem vai ser meu companheiro de viagem. Ano passado foi Elvira Vigna. Não quero relacionar a morte dela com eu a ter levado comigo em minha viagem, seria excesso de arrogância, mas, só pra garantir, pretendo levar um morto. De João Gilberto Noll, tenho Lorde, que parece uma boa por ser sobre uma viagem (à Londres). Queria levar algo em espanhol pra já ir me inserindo na língua; talvez um Cortázar ou um Borges, apesar do clichê, ou Alejandra Pizarnik, de quem tenho a obra reunida, mas é o El Cerebro Musical, do César Aira – um vivo –, que me atrai. Vou decidir na hora, como todo o resto. É estranho que tenha essa impressão de decidir tudo na hora, quando meu cérebro, quando decide não me deixar dormir, me força a rever momentos passados, tenho a impressão que a maior parte da minha vida é formada de planejamentos – em maioria não realizados –, ainda assim acredito que não planejei nada. O momento, a coisa em si, passa sem deixar rastros. A primeira viagem não parece tão distante, mas não é nem de perto tão palpável quanto os dias de ansiedade e planejamento que passaram antes dela. Claro, a viagem foi dez dias, o resto foi… o resto, talvez mais de cinco anos, já que a viagem à Buenos Aires na verdade foi uma mudança de planos de uma viagem ao Rio de Janeiro, que foi uma mudança de planos de uma viagem à Praga. Isso explica muito, mas não a impressão de que a vida é um grande plano não realizado e os momentos em si, os que compõem a tal vida, são só ventania. Deixando de lado essas bobagens existenciais e voltando à viagem, preciso voltar ao Vuela el Pez, o bar que ainda não acredito que exista de verdade. O MALBA estará nos últimos dias de uma exposição da Diane Arbus, o que eu preciso ver. E quero buscar novamente o túmulo do Macedonio Fernandez, o que é uma tolice, afinal, o que eu espero?, um bate-papo com o fantasma? (Se houver coisa tal como vida espectral após a morte, e se por acaso eu me torne um fantasma célebre, vou fazer um favor a todos que visitem minha lápide e estarei presente para conversar. Esse é o objetivo da coisa toda, não?, das cerimônias, dos símbolos, das lembranças físicas. Visitem minha lápide e, se houver coisas tal como fantasmas e assombrações e espíritos e vida após a morte, eu estarei lá pelo menos por cinco anos. Do contrário, é tudo mentira, a morte é o fim e não há nada além. Pronto, fica aqui a promessa: vou resolver a grande questão que perturba a humanidade, exceto que eu não me torne um fantasma célebre, mas isso não cabe a mim, cabe?) Não comi carne na minha primeira vinda, o que é inacreditável. Alana prometeu me levar a uma parrilla. (Nesse[s] diário[s] estão contidos dois pseudônimos, Ana e Alana, e só agora reparei o quanto são parecidos. Um foi decidido pela pessoa por trás dele, o outro foi decidido por Cortázar em um dos contos de Queremos tanto a Glenda, mas não lembro qual, algo a ver com gatos, e a pessoa por trás dele o aprovou. Nenhum significado oculto, só coincidência.) Ainda estou surpreso que ela queira me ver de novo. Gente mais próxima que ela, que vive na mesma cidade, preferiu sumir depois de mais ou menos o mesmo tempo de contato. A viagem fez aniversário, nem acredito. Noutro dia, recebi um e-mail de um amigo do colegial. Fiquei sabendo em agosto desse e-mail que chegou em maio. Tinha resolvido ignorar até ler a frase: faz dez anos que a gente não se fala. Então, não responder deixou de ser uma decisão. Eu não poderia mais responder depois disso – ou ainda não fui capaz –, porque eu não sou o destinatário desse e-mail. O amigo dele no colegial, quando tinham, os dois, entre quinze e dezessete anos, era pra quem a mensagem tinha sido destinada. Ele não existe mais. Tentei canalizar aquela versão do meu eu; o processo trouxe à tona algumas memórias, mas a pessoa presente nelas, o amigo, está morta ou assim parece. É incrível como o tempo passa, ou não passa mas passam os momentos. Consigo me levar de volta para aquelas horas passadas com Alana no bar que encontrei por acidente com mais facilidade do que consigo me levar à escola onde fiz o ensino médio com as mesmas pessoas por três anos passando por momentos então considerados até que íntimos. Talvez um dia o eu que esteve em Buenos Aires ou o eu que passou quase dez anos em Itajaí esteja morto, ou os dois. Assim deixamos nossas carapaças pelos recantos desse sonho longo e estranho, entrecortado por imagens de sono, que chamamos de vigília.