O retorno: carapaças abandonadas (Diário de viagem #2.1)

IMG_0424

Ó, Buenos Aires, você não pediu mas estou voltando. Antes mesmo de acabar minha tentativa de comprimir dez dias em dezenas de páginas estou voltando. Não imaginava que voltaria antes de terminar de escrever sobre a primeira viagem, mas deveria ter imaginado. Parte de mim se demorou na escrita daqueles dias como desculpa para os revisitar de tanto em tanto tempo na memória, outra parte não queria revisitar os detalhes para não sofrer de saudades. Havia também a insatisfação com a realidade geográfica, saber que aquilo sobre que eu escrevia estava lá e não aqui e que eu queria estar lá. Itajaí que me perdoe, mas já não a suporto. Meu mal-hábito de criar raízes com facilidade, mas me cansar delas com o tempo e as querer romper em um golpe. Não é tão fácil e a culpa não é da terra onde se fincaram as raízes, sim do vegetal que se deixou fincar. Nada disso importa, pois estou voltando. Transbordo desses perigos chamados expectativa e arrogância (só porque passei dez dias por lá acho que sei tudo do local e não tem como algo dar errado – isso deixando de lado o fato de que algo já deu errado, o plano original era ir primeiro à Montevidéu, depois à Buenos Aires, mas complicações e impossibilidades de parcelar passagens caras de avião me impediram de realizar o plano). É que os medos iniciais já se foram. Meio que sei o que fazer, para onde ir, o que evitar. Até meu espanhol creio que esteja melhor. Ainda não decidi quem vai ser meu companheiro de viagem. Ano passado foi Elvira Vigna. Não quero relacionar a morte dela com eu a ter levado comigo em minha viagem, seria excesso de arrogância, mas, só pra garantir, pretendo levar um morto. De João Gilberto Noll, tenho Lorde, que parece uma boa por ser sobre uma viagem (à Londres). Queria levar algo em espanhol pra já ir me inserindo na língua; talvez um Cortázar ou um Borges, apesar do clichê, ou Alejandra Pizarnik, de quem tenho a obra reunida, mas é o El Cerebro Musical, do César Aira – um vivo –, que me atrai. Vou decidir na hora, como todo o resto. É estranho que tenha essa impressão de decidir tudo na hora, quando meu cérebro, quando decide não me deixar dormir, me força a rever momentos passados, tenho a impressão que a maior parte da minha vida é formada de planejamentos – em maioria não realizados –, ainda assim acredito que não planejei nada. O momento, a coisa em si, passa sem deixar rastros. A primeira viagem não parece tão distante, mas não é nem de perto tão palpável quanto os dias de ansiedade e planejamento que passaram antes dela. Claro, a viagem foi dez dias, o resto foi… o resto, talvez mais de cinco anos, já que a viagem à Buenos Aires na verdade foi uma mudança de planos de uma viagem ao Rio de Janeiro, que foi uma mudança de planos de uma viagem à Praga. Isso explica muito, mas não a impressão de que a vida é um grande plano não realizado e os momentos em si, os que compõem a tal vida, são só ventania. Deixando de lado essas bobagens existenciais e voltando à viagem, preciso voltar ao Vuela el Pez, o bar que ainda não acredito que exista de verdade. O MALBA estará nos últimos dias de uma exposição da Diane Arbus, o que eu preciso ver. E quero buscar novamente o túmulo do Macedonio Fernandez, o que é uma tolice, afinal, o que eu espero?, um bate-papo com o fantasma? (Se houver coisa tal como vida espectral após a morte, e se por acaso eu me torne um fantasma célebre, vou fazer um favor a todos que visitem minha lápide e estarei presente para conversar. Esse é o objetivo da coisa toda, não?, das cerimônias, dos símbolos, das lembranças físicas. Visitem minha lápide e, se houver coisas tal como fantasmas e assombrações e espíritos e vida após a morte, eu estarei lá pelo menos por cinco anos. Do contrário, é tudo mentira, a morte é o fim e não há nada além. Pronto, fica aqui a promessa: vou resolver a grande questão que perturba a humanidade, exceto que eu não me torne um fantasma célebre, mas isso não cabe a mim, cabe?) Não comi carne na minha primeira vinda, o que é inacreditável. Alana prometeu me levar a uma parrilla. (Nesse[s] diário[s] estão contidos dois pseudônimos, Ana e Alana, e só agora reparei o quanto são parecidos. Um foi decidido pela pessoa por trás dele, o outro foi decidido por Cortázar em um dos contos de Queremos tanto a Glenda, mas não lembro qual, algo a ver com gatos, e a pessoa por trás dele o aprovou. Nenhum significado oculto, só coincidência.) Ainda estou surpreso que ela queira me ver de novo. Gente mais próxima que ela, que vive na mesma cidade, preferiu sumir depois de mais ou menos o mesmo tempo de contato. A viagem fez aniversário, nem acredito. Noutro dia, recebi um e-mail de um amigo do colegial. Fiquei sabendo em agosto desse e-mail que chegou em maio. Tinha resolvido ignorar até ler a frase: faz dez anos que a gente não se fala. Então, não responder deixou de ser uma decisão. Eu não poderia mais responder depois disso – ou ainda não fui capaz –, porque eu não sou o destinatário desse e-mail. O amigo dele no colegial, quando tinham, os dois, entre quinze e dezessete anos, era pra quem a mensagem tinha sido destinada. Ele não existe mais. Tentei canalizar aquela versão do meu eu; o processo trouxe à tona algumas memórias, mas a pessoa presente nelas, o amigo, está morta ou assim parece. É incrível como o tempo passa, ou não passa mas passam os momentos. Consigo me levar de volta para aquelas horas passadas com Alana no bar que encontrei por acidente com mais facilidade do que consigo me levar à escola onde fiz o ensino médio com as mesmas pessoas por três anos passando por momentos então considerados até que íntimos. Talvez um dia o eu que esteve em Buenos Aires ou o eu que passou quase dez anos em Itajaí esteja morto, ou os dois. Assim deixamos nossas carapaças pelos recantos desse sonho longo e estranho, entrecortado por imagens de sono, que chamamos de vigília.

Anúncios

2 comentários sobre “O retorno: carapaças abandonadas (Diário de viagem #2.1)

    1. Finalmente meu computador voltou do conserto e posso responder o comentário.
      Pois é, acho que nem a lápide da minha vó eu fui ver ainda… não sei o motivo desse meu interesse. Acho que é só porque eu tentei e não consegui na primeira vez.
      Por sorte, dá pra gente conversar a qualquer hora. Não precisa esperar eu morrer e contar com a possibilidade de eu me tornar um fantasma simpático.

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s