Conclusões, bobagens (diário de viagem #2.2)

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Conclusões (1)

Não estou em nada mais esperto.

Não é meu espanhol que é ruim, é o barulho ao redor.

É difícil decidir quem agradar: se o sono, se a fome, se a libido, se os outros, se o turista empolgado, se

Eu não entra na equação. Eu não existe.

Os chuveiros das instalações do inferno se inspiram nos chuveiros portenhos.

Todos estão na merda.

Não é o ridículo que decai com o tempo, é o pretensioso. O ridículo só pode ascender.

Se não dá pra ficar, não vale a pena vir.

A ceia de ano novo judeu pode incapacitar uma pessoa por quatro dias.

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Bobagens

Foi um erro voltar. Esta é a viagem da melancolia. Dia dois, seis da tarde. Deito na cama do hotel querendo chorar como uma criança. As lágrimas saem por acúmulo, somente por não poderem mais ficar presas onde costumam ficar. Se não dá pra ficar, não vale a pena vir.

Como o amor tá te tratando no Brasil?, Alana me perguntou ontem. Estávamos sentados num dos n pubs de cerveja artesanal entre Palermo e Villa Crespo, bebendo (eu uma IPA, ela uma Honey) e comendo uma batata preparada à moda judia (de acordo com Alana), cujo nome eu não lembro – mais tarde tenho que pesquisar. Nisso, durante um silêncio desconfortável, apontei:

Uma coisa eu não gosto em mesas assim, que botam a gente uma de frente pra outra: quero muito te beijar agora, mas você tá longe.

Foi quando ela fez a pergunta.

No Brasil? Mal. Bem mal. Como ele tem te tratado aqui?

Idem.

Não entramos em detalhes. Tímidos, uma atriz e um pretenso escritor, é ela que fica quieta enquanto eu me constranjo – duas vezes: no real e na representação. Aproximei a cadeira, brincamos um pouco sobre minha sutileza, então revivemos o ano passado. Mas no ano passado tudo era surpresa e novidade. Esse ano estou visitando uma vida que tive por dez dias e que larguei por falta de opção. E, mesmo a querendo de vez, sei que vou largar outra vez em cinco dias. Não aguento. Íamos ao MALBA hoje, mas ela cancelou, tinha que trabalhar até mais tarde. E à noite ela comemora o ano novo judeu com a família. E amanhã ela tem aulas de teatro. Amanhã vou flanar por Flores ou San Telmo, talvez vá ao MALBA sozinho. Quero passar pelo museu Xul Solar. Tudo aqui continua caro. Tenho que comer agora à noite, mas só vou pra poder dizer que não passei a noite no hotel. Quero beber qualquer coisa.

O clichê sugere que chorar numa limusine é melhor que rir no ônibus. Meu problema é querer chorar em Buenos Aires, mas ser obrigado a rir de uma piada sem graça em Itajaí. Vou seguir por aí, aguardando notícias dela, mas a verdade é que só quero que ela fique triste comigo. Quero chorar com ela a madrugada inteira na cama do hotel. Porque segunda está chegando. O tempo flui como as lágrimas tentam fluir.

 

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O retorno: carapaças abandonadas (Diário de viagem #2.1)

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Ó, Buenos Aires, você não pediu mas estou voltando. Antes mesmo de acabar minha tentativa de comprimir dez dias em dezenas de páginas estou voltando. Não imaginava que voltaria antes de terminar de escrever sobre a primeira viagem, mas deveria ter imaginado. Parte de mim se demorou na escrita daqueles dias como desculpa para os revisitar de tanto em tanto tempo na memória, outra parte não queria revisitar os detalhes para não sofrer de saudades. Havia também a insatisfação com a realidade geográfica, saber que aquilo sobre que eu escrevia estava lá e não aqui e que eu queria estar lá. Itajaí que me perdoe, mas já não a suporto. Meu mal-hábito de criar raízes com facilidade, mas me cansar delas com o tempo e as querer romper em um golpe. Não é tão fácil e a culpa não é da terra onde se fincaram as raízes, sim do vegetal que se deixou fincar. Nada disso importa, pois estou voltando. Transbordo desses perigos chamados expectativa e arrogância (só porque passei dez dias por lá acho que sei tudo do local e não tem como algo dar errado – isso deixando de lado o fato de que algo já deu errado, o plano original era ir primeiro à Montevidéu, depois à Buenos Aires, mas complicações e impossibilidades de parcelar passagens caras de avião me impediram de realizar o plano). É que os medos iniciais já se foram. Meio que sei o que fazer, para onde ir, o que evitar. Até meu espanhol creio que esteja melhor. Ainda não decidi quem vai ser meu companheiro de viagem. Ano passado foi Elvira Vigna. Não quero relacionar a morte dela com eu a ter levado comigo em minha viagem, seria excesso de arrogância, mas, só pra garantir, pretendo levar um morto. De João Gilberto Noll, tenho Lorde, que parece uma boa por ser sobre uma viagem (à Londres). Queria levar algo em espanhol pra já ir me inserindo na língua; talvez um Cortázar ou um Borges, apesar do clichê, ou Alejandra Pizarnik, de quem tenho a obra reunida, mas é o El Cerebro Musical, do César Aira – um vivo –, que me atrai. Vou decidir na hora, como todo o resto. É estranho que tenha essa impressão de decidir tudo na hora, quando meu cérebro, quando decide não me deixar dormir, me força a rever momentos passados, tenho a impressão que a maior parte da minha vida é formada de planejamentos – em maioria não realizados –, ainda assim acredito que não planejei nada. O momento, a coisa em si, passa sem deixar rastros. A primeira viagem não parece tão distante, mas não é nem de perto tão palpável quanto os dias de ansiedade e planejamento que passaram antes dela. Claro, a viagem foi dez dias, o resto foi… o resto, talvez mais de cinco anos, já que a viagem à Buenos Aires na verdade foi uma mudança de planos de uma viagem ao Rio de Janeiro, que foi uma mudança de planos de uma viagem à Praga. Isso explica muito, mas não a impressão de que a vida é um grande plano não realizado e os momentos em si, os que compõem a tal vida, são só ventania. Deixando de lado essas bobagens existenciais e voltando à viagem, preciso voltar ao Vuela el Pez, o bar que ainda não acredito que exista de verdade. O MALBA estará nos últimos dias de uma exposição da Diane Arbus, o que eu preciso ver. E quero buscar novamente o túmulo do Macedonio Fernandez, o que é uma tolice, afinal, o que eu espero?, um bate-papo com o fantasma? (Se houver coisa tal como vida espectral após a morte, e se por acaso eu me torne um fantasma célebre, vou fazer um favor a todos que visitem minha lápide e estarei presente para conversar. Esse é o objetivo da coisa toda, não?, das cerimônias, dos símbolos, das lembranças físicas. Visitem minha lápide e, se houver coisas tal como fantasmas e assombrações e espíritos e vida após a morte, eu estarei lá pelo menos por cinco anos. Do contrário, é tudo mentira, a morte é o fim e não há nada além. Pronto, fica aqui a promessa: vou resolver a grande questão que perturba a humanidade, exceto que eu não me torne um fantasma célebre, mas isso não cabe a mim, cabe?) Não comi carne na minha primeira vinda, o que é inacreditável. Alana prometeu me levar a uma parrilla. (Nesse[s] diário[s] estão contidos dois pseudônimos, Ana e Alana, e só agora reparei o quanto são parecidos. Um foi decidido pela pessoa por trás dele, o outro foi decidido por Cortázar em um dos contos de Queremos tanto a Glenda, mas não lembro qual, algo a ver com gatos, e a pessoa por trás dele o aprovou. Nenhum significado oculto, só coincidência.) Ainda estou surpreso que ela queira me ver de novo. Gente mais próxima que ela, que vive na mesma cidade, preferiu sumir depois de mais ou menos o mesmo tempo de contato. A viagem fez aniversário, nem acredito. Noutro dia, recebi um e-mail de um amigo do colegial. Fiquei sabendo em agosto desse e-mail que chegou em maio. Tinha resolvido ignorar até ler a frase: faz dez anos que a gente não se fala. Então, não responder deixou de ser uma decisão. Eu não poderia mais responder depois disso – ou ainda não fui capaz –, porque eu não sou o destinatário desse e-mail. O amigo dele no colegial, quando tinham, os dois, entre quinze e dezessete anos, era pra quem a mensagem tinha sido destinada. Ele não existe mais. Tentei canalizar aquela versão do meu eu; o processo trouxe à tona algumas memórias, mas a pessoa presente nelas, o amigo, está morta ou assim parece. É incrível como o tempo passa, ou não passa mas passam os momentos. Consigo me levar de volta para aquelas horas passadas com Alana no bar que encontrei por acidente com mais facilidade do que consigo me levar à escola onde fiz o ensino médio com as mesmas pessoas por três anos passando por momentos então considerados até que íntimos. Talvez um dia o eu que esteve em Buenos Aires ou o eu que passou quase dez anos em Itajaí esteja morto, ou os dois. Assim deixamos nossas carapaças pelos recantos desse sonho longo e estranho, entrecortado por imagens de sono, que chamamos de vigília.

Férias e insatisfação, produtividade, outros idiomas, John Giorno, Alban Berg (Observações aleatórias #10)

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1 – Falta só mais uma semana pras minhas férias. Mais exatamente, faltam quatro dias de trabalho, já que quinta que vem é feriado. Sim, estou contanto os dias, estou contando as horas. Se eu nunca entrei em detalhes sobre o meu trabalho por aqui é porque, em parte, eu não posso e, em parte, não é nada interessante, mas estou há seis anos na mesma empresa e me sentindo sufocado. A intenção é sair o quanto antes, mas aí somos levados a considerar aquelas velhas questões: o mercado não está mil maravilhas, essas e empresas e chefes só mudam de endereço, não estou tão satisfeito com o que eu faço apesar de ser a única coisa que eu estou formalmente qualificado pra fazer. A vontade real é largar tudo, mas não dá, porque o que vai botar comida na mesa do meu suposto paraíso imaginário? Então eu considero quão pouco rentáveis são as coisas que eu gostaria de fazer, isso levando em conta somente, dentre as coisas que eu gostaria de fazer, as que existem. Por favor, não me confundam com esses moleques que precisam se sentir realizados com o trabalho, de forma alguma. Por isso mesmo, o que vai acabar acontecendo quando eu voltar de férias, é: vou procurar outro emprego, enquanto mantenho o meu atual, talvez eu encontre e aceite o novo, talvez não, e, encontrando e aceitando, vou me empolgar com a novidade por um par de anos, enquanto continuo buscando realização (seja lá o que for isso) com outras coisas e projetos nada rentáveis. O que posso fazer agora é aguardar ansiosamente os dias passarem e aproveitar cada segundo dos meus trinta dias de liberdade.

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2 – Repararam que o blog está mais devagar? Melhor dizendo, o blog está mais devagar? Já não sei mais, a frequência aqui sempre foi instável. Usei a palavra produtividade no título da postagem, mas odeio essa palavra e tudo que ela representa e forma patética como ela é utilizada pela galerinha-empreendedora-motivada que ainda vai ser responsável pelo fim do mundo. Esclarecido este detalhe, acho que não posto tanto por não saber o que postar. Tenho lido, visto filmes, mas odeio resenhas; coisas têm acontecido, mas nem tudo dá pra escrever aqui; faz semanas que não escrevo uma poesia e os outros textos de ficção eu não quero publicar ainda; até tenho projetos de texto e rascunhos largados aqui, mas, ou eles se tornam coisas maiores (na minha cabeça), como o texto do Jim Jarmusch ou aquele sobre o punk rock em Nova Iorque, que estou prometendo a quase um ano, ou a ideia não veio pra que ele flua direito. Bom, nunca fui de me cobrar. Não estou frustrado com o blogue ou “travado” ou desgostoso, não pretendo de forma alguma parar. Só acho que a frequência aqui vai conforme a minha vontade, o meu próprio ritmo. Agora está assim, principalmente porque estou trabalhando em outras coisas (montando e revisando um livro de poesias, me convencendo a revisar outra vez um romance, escrevendo outra história que nem sei o que é ainda porque ando muito interessando em trabalhar com narrativas improvisadas…). Admito que às vezes tinha vontade de que as coisas se formassem na velocidade de um pensamento, mas um texto não surge no papel. O fato de eu não estar aqui semanalmente – nem vou fazer vocês rirem com um “diariamente”, afinal nunca aconteceu – não significa que eu não esteja trabalhando em algo.

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3 – Agora que sei o quão medíocre é meu espanhol, estou praticando outra vez, quero me aperfeiçoar. A intenção era focar nisso o ano todo, mas é setembro, volto pra Buenos Aires em três semanas e o progresso foi mínimo. Li alguns dos livros que comprei lá, vi uns filmes, mantive contato (bem pouco) com uma pessoa que conheci lá, mas não sei se ajudou. Já me imagino travando na chegada outra vez, pedindo pras pessoas repetirem a mesma frase duzentas vezes. Vejamos. Outra coisa que aconteceu foi o fim do curso de francês que comecei em 2015. Tenho uma relação de alguns anos com o francês, esquecendo e relembrando e esquecendo e assim por diante, mas agora quero me aperfeiçoar. É complicado aprender de verdade um idioma. O que costuma funcionar ou me ajudar nesse processo é a leitura. Só que, ao contrário do inglês e do espanhol, o que está havendo com o francês é a minha dificuldade de pegar livros mais acessíveis para as primeiras leituras. Não precisei disso pro inglês nem pro espanhol, mas começar as leituras em francês por Paul Éluard e Samuel Beckett não deu certo. Peguei emprestado Le Petit Nicolas e conseguia entender o texto, mas não passava da primeira página sem pegar no sono. Que tortura digna do diabo, não? Entender, mas não conseguir se interessar; se interessar, mas não conseguir entender.

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4 – Esse artigo sobre a exposição I ♥ John Giorno, em Nova Iorque, é muito bom. Ele que me convenceu a ilustrar essa postagem com as obras desse poeta tão esquecido. Há tempos quero falar dele, mas não conheço o suficiente. E a obra dele é tão vasta e se expande por meios tão diferentes que é difícil dizer se existe algo como “conhecê-la o suficiente”. Por algum motivo, ele sempre foi visto como um coadjuvante. Ele estava ativo na época da Escola de Nova Iorque, envolvido com os artistas; fez parte do movimento beat, junto de Burroughs e Ginsberg e Corso; criou o Dial-a-Poet, linha para a qual qualquer um podia ligar e, ao fazê-lo, seria atendido por John Cage ou Patti Smith ou John Ashbery ou Ted Berrigan ou Aram Saroyan ou Anne Waldman, entre tantos outros, que prontamente leriam um poema para o ouvinte; se apresentou junto das bandas punk – Patti Smith, Richard Hell – e das bandas que abriram caminho pro que hoje nós chamamos de rock industrial – Throbbing Gristle, Suicide – no CBGB, e formou sua própria banda em 1980; sem falar o papel dele como ativista, pra conscientização sobre a AIDS, e ter sido precursor desse tipo de poema-anúncio, tão popular nos dias de hoje, em redes sociais, apesar dos dele virem com um pouco mais de provocação e intensidade (e não o tipo de intensidade que todo mundo diz ter hoje e dia… mas isso é assunto pra outro texto). Mesmo assim, raramente ele visto como o artista, mas como o cara que o Andy Warhol filmou dormindo ou o “muso” de Robert Rauschenberg e Jasper Johns. O artigo serviu pra mostrar como ele, na verdade, é um símbolo vivo de tudo que Nova Iorque foi, desde a década de 1950, pra arte e tudo o que ela não é mais.

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5 – Esse é o disco da vez. Uma reunião de composições do Alban Berg, regidas por Pierre Boulez. Elas são: Concerto de câmara para piano, violino e 13 instrumentos de sopro; 3 peças para orquestra; e concerto para violino e orquestra “À memória de um anjo”. Prefiro não dizer nada, principalmente por não ter o conhecimento técnico para analisar. Me interesso por essa fase “modernista” da música erudita e é só. Além disso, fui apresentado por Cortázar à obra de Alban Berg, em O Jogo da Amarelinha. Isso é uma série de indicações musicais “em ordem alfabética” que comecei agora. A-lban Berg é o primeiro. A próxima indicação será por um artista cujo primeiro nome comece com a letra B. A ideia é focar em estilos que menciono pouco por aqui. Como não falo muito de música erudita, apesar de escutar com frequência (principalmente enquanto leio ou escrevo e preciso bloquear os sons de fora, mas não quero me distrair com letras), decidi começar por esse gênero. Pretendo botar pelo menos alguma nota biográfica nos próximos, mas sinto que já escrevi demais nessas observações e Google existe pra saciar os curiosos.

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