Andei vendo uns filmes aí #6

Mi Amiga del Parque [Minha Amiga do Parque] – Ana Katz (2015)

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Filme argentino pouco conhecido com o qual cruzei pouco após minha viagem, quando estava buscando filmes de lá pra matar a saudade – ou fazê-la mais forte. Nos caminhos do IMDB, encontrei Mi amiga del parque, um longa que não passava de 1 hora e 25 minutos, sobre uma mãe que tem que lidar com a solidão da viagem do marido – documentarista em filmagem no Chile – e faz amizade com uma mulher num parque, supostamente mãe também, ou, pelo menos, sempre está com a mesma criança. Ana Katz dirigiu, atuou no papel da amiga e co-escreveu o roteiro com Inés Bortagaray (escritora uruguaia conhecida por Um, dois e já). O que tem de curto, este filme tem de tenso. Não chama atenção pelo visual, os cenários são bastante simples (quando na cidade, Buenos Aires, quando no parque, Montevidéu) e a câmera não faz mais que acompanhar as personagens. O foco aqui é na atuação e nas personagens, na intensidade de cada uma, no tanto que cada uma consegue passar só com expressões faciais discretas, e no roteiro, formado por mal-entendidos. Permanece por toda a história aquela impressão de que algo grave está pra acontecer. Comecei a ver o filme sem expectativas, achando que seria um suspense comum, e fiquei muito feliz de estar errado. Indico, mas já adianto que não é um filme fácil de achar e, no momento, não existem legendas pra ele disponíveis na internet.

Kong Bu Fen Zi [Terroristas] – Edward Yang (1986)

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Esse diretor foi a minha descoberta do ano. Poucos artistas me afetaram tanto e tão rápido. Tudo começou esse ano ou ano passado, quando esbarrei com um tuíte do Daniel Galera elogiando o filme que vocês verão a seguir. Nunca tinha ouvido falar, mas tava justamente explorando o “novo cinema” taiwanês, que começou na década de 80, gente como Hsiao-Hsien Hou e Ming-Liang Tsai e… adivinhem… Edward Yang, entre outros. Como o filme indicado tinha quatro horas de duração, deixei pra lá até algumas semanas atrás. E, depois de ver o famigerado, precisei ver os outros filmes dele. É aí que Terrorista entra na história. São três linhas narrativas interconectadas. Ao longo de tantas semanas, as vidas dessas pessoas se afetam, dando início a acontecimentos, mesmo sem que um saiba que está afetando o outro e vice-versa. Uma criminosa foge do local em que ela se escondia no momento em que a polícia invade para prender a ela e seu parceiro. Um fotógrafo captura a imagem da garota em fuga e desenvolve uma certa obsessão por ela, que dá fim ao relacionamento  entre ele e sua namorada. Um casal já viu melhores dias, quando a esposa, escritora, se vê desencantada com a escrita, decide terminar tudo e começar uma nova vida. A decisão do divórcio pode ter sido causada por um trote passado pela criminosa, mas talvez não seja só isso. Então as histórias seguem e se cruzam e afetam. É um filme espetacular. Talvez eu esteja me preparando pra escrever mais sobre esse filme e os outros em uma postagem dedicada à obra do Edward Yang depois que eu conseguir ver todos os filmes que eu encontrar? Talvez, mas isso não é uma promessa.

Gu Ling Jie Shao Nian Sha Ren Shi Jian [Um Dia Quente de Verão] – Edward Yang (1991)

Sim, esse foi o filme indicado no tuíte do Daniel Galera. Só não digo que me arrependi de ter levado tanto tempo pra assistir porque acho que vi na hora certa. Quatro horas de duração é muito tempo, pretendia dividir em duas partes (duas horas num dia, o resto no dia seguinte), mas não consegui pausar. Quando vi, passaram 3 horas e eu não estava cansado. Também, pudera, são vários filmes em um, acontecendo ao mesmo tempo – não tem como ficar entediado. Baseado num crime que aconteceu na década de 60 em Taiwan envolvendo adolescentes, esse filme é parte romance adolescente, parte filme de gangster, parte drama familiar, parte suspense burocrático à Kafka, parte história de obsessão amorosa. Aos poucos, o espectador se vê em Taipei, como se vivesse com as personagens. Taiwan que, em 1960, lutava contra a influência chinesa, com auxílio financeiro dos EUA, implantando um policiamento de ideias, principalmente entre intelectuais e os muitos imigrantes chineses refugiados. Os filhos desses imigrantes e crianças e adolescentes taiwaneses que viviam nesse clima de repressão, na busca por identidade, formavam gangues. De início parece coisa de adolescente, mas vai tomando proporções cada vez mais violentas. Tudo isso ao som da influência americana, Elvis, rock ‘n’ roll. De novo, se um dia eu criar coragem de escrever sobre Edward Yang, analiso o filme com mais profundidade. Pra vocês, só posso dizer: assistam.

Gloria – Sebastián Lelio (2013)

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Sim, estou praticando meu espanhol. Gloria é um filme chileno sobre uma mulher de 50 anos, de espírito livre, seguindo a vida após seu divórcio. Os filhos dela já estão criados, então, o que ela quer é continuar com seu trabalho e, nas horas vagas, sair pra dançar. No bar, dançando, ela encontra um homem, dono de um parque de diversões, também divorciado, mas com filhas que dependem dele pra tudo. É um tema tão comum, amor na meia-idade, mas nunca vi tratado dessa forma, com tanta intensidade, sem foco constante no fato de ela estar envelhecendo. Sim, ela vai ao médico e descobre que precisa tratar de um glaucoma, e, sim, o filme mostra a maneira que o corpo já não trabalha mais tão bem quanto costumava, mas é muito sutil, é só um detalhe numa história bem interessante. Paulina García (Gloria) é uma tremenda atriz. Só a performance dela faz o filme valer cada segundo. Parece que Sebastián Lelio lançou outro filme esse ano, Una Mujer Fantástica, até agora bastante elogiado e que quero muito ver. Mais tarde esse ano, ele, igual seu conterrâneo Pablo Larraín ano passado, vai lançar sua primeira produção fora do Chile, em inglês. Só tenho elogios a Gloria. Mesmo quando o enredo se aproximou de um clichê (sempre possível, em se tratando de romances), ele deu um jeito de surpreender e seguir por outro caminho.

 

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Minha relação conturbada com a internet (e comigo mesmo)

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Começa sempre que eu vejo um meme novo, outra e outra vez, sempre igual aos anteriores. Essa é a pior parte, a diferença entre um e outro é mínima. A imagem, a legenda, um sarcasmo barato. Então o lugar-comum que a ideia representa força milhares de compartilhamentos e variações. Isso tudo dura uma semana. Nos últimos dias de vida da piada, uma corporação usa o meme em campanha publicitária, normalmente errado, perdendo o humor já tão frágil da versão correta do meme. Mas não tem problema, porque três novos memes vão ocupar o espaço do recém-falecido, e cada um vai durar uma semana e, quando morrerem, três novos vão ocupar o espaço de cada morto. Eis o mito da Hidra de Lerna do humor low-brow online.

De onde veio esse gosto da atual geração pelo escroto? Sim, é irônico, mas não vou ficar aqui fingindo que entendo essa de “gostar ironicamente” das coisas. Ou se gosta, ou não se gosta. Fingir admiração pela vida e obra da Gretchen (artista que nunca, quando viva, imaginou as proporções que sua fama póstuma alcançaria – e nada me convence que ela não está morta) só pra se encaixar na linguagem das redes sociais é desperdício de vida. Existe muito nesse mundo pra se perder tempo com merda, Cada música ruim ouvida ironicamente é uma excelente que se perde na história (e, sim, estou considerando o “ruim” e o “excelente”, não com base numa espécie de cânone, mas no gosto pessoal – já chego nessa parte pra deixar isso mais claro). Supondo que não seja ironia – porque, se for mesmo só isso, é mais patético do que eu imaginava -, de onde veio esse gosto? Por que o Orkut é a Terra Prometida das redes sociais? Eu estava lá e não havia nenhum pote de ouro. Não havia comunidade “Bolsonaro 2018”, como há grupos no Facebook, mas isso porque o Bolsonaro não tinha sido conjurado pelos cavaleiros do apocalipse naquela época. Nos anos do Orkut, Bolsonaro era apenas um pesadelo se preparando pra acontecer, uma assombração selada num tomo perdido em dimensão que nem Lovecraft poderia ter imaginado, tão terrível é.

Também me lembro que Sandejunior não era alvo de grande admiração quando ainda existia. Mas isso tudo não importa. Não acho que terei acesso às resposta que procuro. Talvez os que tenham conseguido se encaixar nesse sistema escabroso forrado de piadinhas de minuto e ídolos de gerações esquecidas ainda não tenham entendido porque se perderam nesse labirinto sem fim. É uma coisa que acontece com eles, não por eles. Quando se entra no sistema, ele se torna parte indivisível de você. O meme é um parasita, um fungo de origem desconhecida. Algo que ninguém quer, ninguém gosta de verdade ou compreende a razão de ser, mas ninguém consegue se evitar de dar continuidade à existência dele. O que tomaria o lugar dele? Informação? Humor talvez mais duradouro? Experimentações que não seguissem o esquema “imagem-legenda”? Essa é a vantagem do meme, ao contrário da música disco, ele não exclui ninguém, mas é tão perigoso quanto. Você não precisa de talento pra criar um meme, saber desenhar ou ser engraçado. Você não precisa ser uma boa pessoa, melhor até que não seja. O meme te aceita pelo que você é e não reclama se você quiser fingir ser outra pessoa. O meme é um não-ser que só quer continuar existindo. Ei, numa era em que corporações têm identidade e cada indivíduo é um produto, é tão errado dar vontade própria a um conceito?

Noutro dia, vi Enquanto somos jovens (While we’re young, 2014, direção de Noah Baumbach). Nele, Ben Stiller interpreta Josh, um documentarista de meia idade com dificuldades para terminar seu projeto. Um dia ele encontra Jamie, um suposto fã, aspirante a documentarista, de 25 anos de idade, interpretado por Adam Driver. Os dois formam uma amizade. A primeira reação de Josh a Jamie é se admirar com a forma que ele e seus amigos de vinte e poucos anos não pareciam fazer distinção entre as coisas, falavam de Footloose e Cidadão Kane com a mesma paixão (e tinham os argumentos para justificar esse gosto). Com o passar dos meses, Josh perde a paciência com esse estilo de vida do Jamie, principalmente a falta de consideração dele para com os outros seres humanos e para com a forma tradicional de se fazer documentários. Jamie não se importa com pesquisa, realismo, verdade. Ele busca a reação, a narrativa que vai pegar o público, mesmo que tenha que ser montada. Faz seus documentários como se não fossem diferentes de qualquer reality show.

Para os leitores que agora não fazem ideia de onde eu quero chegar, releiam o título. O texto promete ser sobre a internet, promete ser conturbado e promete ser sobre mim. Ponto. Ainda estou nos temas e até que estou coerente, embora não me responsabilize pelo que possa acontecer daqui em diante. Isto não é uma análise acertada da nossa geração.  Geração que nem sei se é minha, porque gerações passam como anos hoje em dia. Todos os meses, surge um novo acontecimento marcante, um novo produto, uma nova revolução cultural ou tecnológica, e cada um desses promete ser a marca de uma geração – alguns até conseguem cumprir a promessa ou parecem estar conseguindo. Existe diferença entre as gerações que nasceram com um computador em casa e as que não? Pra quem nasceu entre 86-94 (talvez, não sei, depende do país ou da família), parece que foi um piscar de olhos. Lembro que houve um tempo em que minha família não tinha computador. Lembro da máquina de escrever dos meus pais. Então um dia surgiu um computador lá em casa, mas mesmo assim ele não tinha muita utilidade. A internet só veio depois e mesmo ela não mudou nada a nossa vida, ela não funcionava direito, interrompia o telefone e era caríssima. Começou a mudar com a banda larga, mas aí eu já começava minha adolescência. Consideremos a banda larga como o fator marcante da geração – a internet eficiente, muito embora as pessoas que ocuparam o mundo da internet discada talvez discordem de mim, mas vocês não são da minha geração, eu acho… ou são… não sei -, é possível separar por geração os que eram adultos com o surgimento da banda larga, os que eram adolescentes e os que eram crianças? E os que nasceram na época do smartphone? E os que não nasceram ainda? Somos gerações diferentes? A última cena de Enquanto somos jovens é Josh, no aeroporto com sua esposa, Cornelia, interpretada por Naomi Watts, assistindo boquiaberto um bebê pegar um smartphone da bolsa da mãe (foi da bolsa da mãe?, isso não importa…) e, como que por intuição, fazer uma ligação com ele.

Mas voltemos a Jamie, aos de vinte e poucos, aos meus contemporâneos – acredito que sejam. Falar de bebês e da possível relação deles com novas tecnologias é campo da ficção científica especulativa, e não estou aqui pra isso dessa vez. Ele, Jamie, quer a reação, não o método. Sim, criar um quadrinho, uma tira, artisticamente competente, com humor sutil, é bom, desejável, mas não é pra qualquer um. E se o humor for muito sofisticado, não vai ser pra todos. Vai excluir aqueles que não querem mais que algo que os faça reagir instantaneamente. E não se quer excluir nada hoje em dia. Cada música lançada, mesmo que seja só mais um embutido cagado por uma gravadora multimilionária, é um hino universal, uma obra-prima inigualável (e alcança esse patamar no dia do seu lançamento, quando o clipe passa das milhões de visualizações no Youtube), pelo menos por uma semana. Ai de quem discorde – os pedantes, odiadores, nariz em pé, conservadores nojentos, porcos… enfim. É muito melhor, por exemplo, desenhar um sapo. O desenho pode ser mal-feito, mas vai ser daquelas coisas tão ruins que ficam boas. Desde que venha com alguma mensagem identificável. E não tem problema que o desenho vire símbolo para neonazistas, porque, na mesma velocidade em que ele surgiu, na mesma velocidade em que seu significado foi deturpado, na mesma velocidade o seu significado pode ser recuperado. Não é que nem quando os nazistas originais pegaram Nietzsche e Wagner. As coisas são muito mais flexíveis nos dias de hoje, para o bem ou para o mal.

O meu problema não é nem com o mal gosto, mas com a ideia forçada de que tudo deve ser visto como bom. Opiniões negativas sobre qualquer coisa são mal vistas. Qual a necessidade de criticar?, de enxergar o lado ruim das coisas? Bom, do contrário, tampouco existem coisas boas. Se tudo é bom, nada é bom: tudo é, na realidade, neutro. Vivemos um estado de neutralidade, reagindo com extrema empolgação a tudo pelo mínimo de tempo possível. Por isso nada dura, nada é real, é só uma coisa que acontece. Memes são alucinações, te levam a crer que você viu algo incrível, chegou a uma grande conclusão sobre a existência, até que passa e te deixa vazio e sedento por mais – e de vez em quando vem o flashback.

O que importa é a reação. É? Estou me envelhecendo quando digo que tenho dificuldades para aceitar isso? Que tenho medo das consequências disso? Mais dois males que assolam meus contemporâneos: a sensação prematura de velhice e a paixão pela nostalgia – já vi gente se sentindo nostálgica por coisas que aconteceram há cinco anos, e o pior é que faz sentido, porque a coisa de cinco anos atrás durou tão pouco e passou tão rápido que parece que faz uma eternidade desde que ela surgiu. Estamos condenados? Eu sinto como se estivéssemos. Como se não fosse mais tão simples agora. Como se tivéssemos ido a fundo demais no labirinto e não desse mais pra voltar. Fizemos essa cultura e não sabemos mais como desfazê-la. O engraçado é que ela morre todos os dias. Nada dura, mas tudo que surge no lugar é igual. Parte de mim quer que fique pior, acredita que a única forma de matar essa besta é deixando que ela saia ainda mais de controle, tome proporções aterradoras até para os que ajudaram a criá-la. Ao mesmo tempo, eu posso estar errado. Pode ser que nada assuste essas pessoas, que elas sejam mais monstruosas que suas criações. Pode ser que o futuro vá se resumir a isso mesmo: opiniões políticas expostas via memes, debates via gifs da Gretchen. Claro que não. Claro que isso vai passar. Logo virá uma nova geração com algo ainda pior e mais passageiro. E eu vou escrever outro texto, nesse futuro, relembrando os bons e velhos tempos, quando uma opinião podia ser resumida com uma imagem legendada com uma piada sem graça.