Sobre poemas de amor e reciclagem de textos, comunicação e pessoas novas, Stan Brakhage (Observações aleatórias #8)

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1 – Fuçando a finada versão blogspot desta bodega, achei uma postagem que queria reciclar e vi que já tinha feito. Reli o texto e, apesar de ainda concordar com ele – tem casos de textos velhos meus que eu mal consigo olhar na cara, com esse eu ao menos simpatizo -, ao ler um artigo sobre Stan Brakhage e a forma como ele usava a vida doméstica dele como matéria-prima pros seus filmes, principalmente Jane, sua primeira esposa, decidi que o queria reescrever sob outra perspectiva. Qual eu ainda não sei. O motivo está no fim do artigo, na descrição da conversa entre Stan, Jane e Hollis Frampton. Em resumo, Stan não entende por que todas as suas tentativas de retratar Jane saem mais como autorretrato (enquanto Jane já está cansada e quer sua privacidade de volta).

Então, conversando com uma colega de trabalho sobre uma garota com quem saí outro dia e como é difícil se comunicar no começo – sem correr o risco de interpretar mal, gerar constrangimentos desnecessários et cetera -, a colega, que sabe que eu escrevo – uma das poucas pessoas da minha vida pessoal que sabe disso -, me pergunta por que eu não escrevo algo pra garota, um poema ou coisa assim, ainda mais com dia dos namorados na porta. (Estava na porta no momento da conversa; fazer o que se essa colega é dada a saltos de romantismo?) Mal sabia ela, já tinha escrito dois poemas pra garota em questão. Um muito antes de chamá-la pra sair, outro sobre o encontro. Não tinha nem tenho interesse de fazer declarações, mas analisei os poemas e se valia a pena mostrar pra garota – que gosta de literatura, o que é um começo -, e vi que não importava, porque ela não entenderia o que há dela ali naquele texto. Sim, ela foi a fonte dos poemas, sem ela talvez eles não teriam existido daquela forma, mas ela não está retratada naquelas palavras, não sua essência. Tem mais de mim nos poemas que fiz pra ela do que dela. Mais que isso, os poemas que escrevi não foram pra ela, não foram pra ninguém. São poemas, como todos os outros que fiz, inúteis, pinturas de momentos feitas de palavras, sem dedicatória ou finalidade. Nem mesmo fiz pra mim. Fiz, se pra qualquer coisa, pro momento, ou coisa parecida.

Independentemente, não seguiria a sugestão da colega. Quem em sã consciência gosta de receber poemas? É muita pressão ter que ler um poema de alguém que supostamente gosta de você, seja o pedido de leitura uma espécie de declaração ou só perguntando se está bom. Duvido muito que exista ser humano que goste de receber poesias autorais como declaração de qualquer intensidade. Quer se declarar pra alguém, leia Vinícius, Pablo Neruda, ou I Wanna be Yours, do John Cooper Clarke; não leia Castro Alves ou Casemiro de Abreu, pelo amor de Erato, a não ser que sua amada seja uma virgem tísica em leito de morte. Mesmo esses poemas mal retratam alguém, só falam o que o poeta quer ser pra amada ou o que a amada faz que o poeta sinta – quando não falam o que o poeta quer da amada. Mantenho a conclusão da postagem original: se quiser retratar alguém, aprenda a desenhar, e até desse jeito…

Se postarei os tais poemas aqui? Dificilmente. Se fizer, não direi que são eles. Fica a proposta, será que vocês conseguem adivinhar quais são eles se eu os postar? Não, não conseguem. Se adivinharem, vai ter prêmio*.

*Válido apenas para pessoas que vivem a no máximo 1 quilômetro de distância de mim. Do contrário, o prêmio é um parabéns bem sincero.

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2 – Começar a conhecer gente é sempre a mesma merda. Comunicação é uma impossibilidade. Ou é muito difícil. Pensando bem, isso tudo é pessoal demais. Achei que fosse conseguir criar um meio termo entre a sinceridade e a invenção, ser vago o suficiente, mas não estou me sentindo vago. Por outro lado, tudo isso é tão banal que pode muito bem se aplicar a qualquer um ou qualquer coisa. É a dificuldade de se conhecer alguém sem ter acesso ao que realmente se passa na cabeça dessa pessoa. Há quem não se preocupe com isso, que ache que é sempre agradável, que todos ao redor sempre se alegram quando ele está presente – gente assim costuma ser a pior, a mais inconveniente. Mas acredito que a maior parte das pessoas, ou a maior parte que convive comigo, se preocupa com saber o que os outros pensam. Por mais que algo pareça ter ido bem um dia, só nos dias seguintes é que a realidade vai ficar clara. O momento costuma vir acompanhado de uma camada de névoa, que só se dissipa uns dias depois. Quando os dias passam e não se consegue esclarecer as coisas, a névoa dissipa, mas os arredores seguem obscuros. É normal. Às vezes estranho, mas normal.

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3 – Falando de Stan Brakhage, vi uns curtas dele esses dias. Nunca vi coisa parecida. Não vi as gravações que ele fez da esposa ou de amigos, só as obras mais conhecidas – mais associadas ao que ele tentava criar -, as feitas por manipulação direta: pinturas (animação direta) e colagens na película, danos físicos ao filme, cortes rápidos… Isto pra passar ao espectador uma experiência visual única. Não exatamente filmes, pois não têm narrativa, mas arte visual, um quadro em movimento. Difícil explicar, vou só jogar alguns que encontrei no youtube aqui para que vocês tenham a experiência vocês mesmos. Esse tipo de arte em vídeo é um novo interesse meu, então decidi compartilhar, mesmo não sabendo o suficiente sobre o tema ainda. Claro, ver numa tela de computador não basta, mas nossas chances de ver algo assim em telão é nula.

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4 – As pinturas que usei para ilustrar a postagem são do Cy Twombly. Temo ter exagerado na quantidade, mas essa edição das observações foi um pouco mais longa. Pode ser uma ideia pra daqui em diante, ilustrar o texto com pinturas que transmitem o sentimento que quero passar ou que passam por mim. Desde que vi o vídeo da School of Life apresentando a obra do pintor, tenho pesquisado a obra dele, passado tempo olhando as imagens das pinturas na tela do computador. Conforme o vídeo da School of Life, Cy Twombly trata da vida interior, da tentativa de representação das emoções. Talvez aceitar o sucesso do esforço de Twombly seja questão subjetiva. Eu aceito. Quando sinto emoções em conflito dentro de mim, uma querendo ocupar mais espaço que a outra, quando meu monólogo interno corre tão rápido e confuso que as frases e ideias não se completam deixando só leves esboços de milhares de coisas sem sentido na mente, quando acho que estou pra descobrir alguma coisa ou que preciso fazer alguma coisa mas não sei o que essa alguma coisa é, posso visualizar todos esses estados psíquico-emocionais representados nas pinturas de Cy Twombly. Agora me resta descobrir se é minha vida que anda uma sequência de pinturas do Cy Twombly ou se a vida que é, sem escapatória, feita destas pinturas.

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5 – E como gosto de encerrar essas observações indicando discos, o da vez é Glitter Glamour Atrocity, da White Hills, lançado em 2007. Uma das bandas mais interessantes do rock, e mais ativas. Como eu vivo me repetindo e insistindo nas minhas obsessões, sim, descobri a banda por causa de um filme do Jarmusch, Amantes Eternos. A banda aparece tocando “Under Skin or By Name”, desse álbum, num bar de Detroit em uma cena desse filme. Aí está, não posso fazer nada se foram os filmes dele que me fizeram descobrir tantas coisas. (Queria o disco todo, mas não tem no youtube. Não sei botar aqui o disco via Spotify. Fica a faixa que mencionei no texto e se gostarem vocês têm capacidade e meios pra encontrar o resto.)

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4 comentários sobre “Sobre poemas de amor e reciclagem de textos, comunicação e pessoas novas, Stan Brakhage (Observações aleatórias #8)

  1. Queria dizer que passei um tempo viajando na terceira pintura. Só queria dizer isso para justificar que o único comentário que tenho a fazer acerca do texto é uma pergunta: por que diabos as pessoas do seu convívio não sabem que você escreve? (e não leve a mal se já tivermos conversado sobre isso, eu não lembro).

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