Este é um mundo de segredos; Sobre The times are never so bad (Andre Dubus, 1983)

Nunca fiz questão de dar tema a este blogue. Ele sou eu, disse certa vez, e ficou por isso mesmo. Não posso negar, todavia, que, quando falo de literatura – também parte de mim -, mais especificamente com sugestões de livros, surgem seguidores e curtidas e todas essas desimportâncias essenciais. Logo, há leitores aqui que esperam indicações literárias, e, com estes, estou em falta. Até porque, gosto de indicar leituras; o que não gosto é de escrever sobre livros. Se pudesse, listaria minhas últimas leituras agradáveis e quem quisesse poderia ir atrás, mas não dá. É necessário convencer, explicar, mais que os motivos que me fizeram gostar do livro, por que o leitor do blogue deveria ir atrás de lê-lo também. Então bolei o formato “Andei lendo uns livros aí”. Acontece que este livro, este não deu pra resumir as sensações de leitura em poucas frases.

Existe uma linha do realismo na literatura estadunidense que me encanta por sua humanidade. Ao mesmo tempo, muitos dos seus autores foram esquecidos ou nunca gozaram de sucesso internacional. Richard Yates é um exemplo, um dos meus autores favoritos que o tempo apagou, até o lançamento de Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road – adaptação do seu principal romance, dirigida por Sam Mendes, em 2009) e, em parte, Mad Men (que pega emprestado características de seus livros e contos, especialmente Disturbing the Peace), mas que já voltou ao esquecimento de antes; os ainda vivos Frederick Barthelme, Russell Banks e Ann Beattie; J. F. Powers e Flannery O’Connor, embora a última esteja mais associada ao movimento gótico-sulista; entre outros, pertencentes a uma tradição que parece ter nascido naquele país, com Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Stephen Crane, popularizada por Ernest Hemingway, mantida por John Cheever e Raymond Carver e inúmeros outros. Neste meio, viveu Andre Dubus. Foi contista e nunca conseguiu terminar um romance. Teve uma vida trágica, envolvendo crises familiares, divórcios, bebida, falta de dinheiro, até perder uma das pernas num acidente de trânsito. Auxiliando um jovem casal na beira de uma estrada, um carro perde o controle e parte em direção deles. Dubus empurra a moça e a salva. O marido morreu, Dubus teve uma das pernas esmagadas. Passou o resto dos dias numa cadeira de rodas, mas dessa experiência saiu Meditations from a movable chair, talvez seu livro mais conhecido.

The times are never so bad é uma coleção de histórias, uma novela e oito contos. Todos econômicos em palavras, realistas, centrados nos eventos pessoais e crises que formam ou destroem pessoas e famílias. Gente simples. Histórias que com frequência fazem o leitor se identificar em algum dos personagens e acontecimentos, ou fazem o leitor temer que algo assim um dia aconteça com ele.

The pretty girl, a novela que inicia o livro, começa em primeira pessoa, narrando os acontecimentos recentes na vida de um homem sobre quem pouco se sabe. Na segunda parte, a narrativa passa pra terceira pessoa e passa a acompanhar a mulher de que ele fala com desdém – sua ex – e as pessoas próximas dela, amigos do trabalho, família. Descobrimos que ela tem sido, desde o fim da relação, aterrorizada pelo primeira narrador, o da primeira pessoa, que, até então, parecia uma pessoa normal. Então a narrativa muda de tom e adquire uma tensão rara na literatura, porque aqui não há “vilão”, há um homem perturbado disposto a tornar a vida daquela que o deixou um inferno.

Levei um tempo pra escrever sobre esse livro, faz meses que terminei a leitura. Mas ainda lembro bem dos contos, só não pretendo falar de cada um deles porque nem todos permitem que se diga muito. As histórias falam de casais jovens tentando sobreviver num mundo nem sempre justo, às vezes tendo que roubar pra isso; de racismo e perseguição; da filha que descobre o adultério do pai e o confronta; violência doméstica… Sempre reais e simples, compartilhando uma característica com Raymond Carver, a da impressão que a um pavio aceso que pode explodir a qualquer momento, mas nem sempre explode, mesmo quando não é apagado.

Mas teve uma história que me marcou mais que as outras, talvez a que faça valer a pena ir à caça desse livro, se esse estilo de literatura te interessa. A father’s story. Este conto, que fecha a coleção, é um resumo do estilo de Dubus. Ele foi um homem católico e pai, que se tornou superprotetor após uma de suas filhas ter sido estuprada. Este conto foca no catolicismo – não como pregação, apenas como o senso moral de um homem (que nem mesmo gosta de igreja e só respeita a um padre específico que se encaixa nos seus critérios) – e no instinto paterno. O pai da história vive só em uma fazenda, depois que os filhos cresceram e foram embora. Ele passa o tempo cuidando dos cavalos, pensando no passado e conversando com o padre. Sua filha vem visitá-lo. Quando ela está pra ir embora, sofre um acidente e precisa da ajuda dele. A história mostra a que ponto o instinto paterno, nesse caso, ou materno, pode fazer que uma pessoa deixe de lado sua moral.

That was the time to say I want to confess, but I have not and will not. Though I could now, for Jennifer is in Florida, and weeks have passed, and perhaps now Father Paul would not feel that he must tell me to go to the police. And, for that very reason, to confess now would be unfair. It is a world of secrets, and now I have one from my best, in truth my only friend. I have one from Jennifer too, but that is the nature of fatherhood. (de A Father’s Story – “Aquela era a hora de dizer eu quero confessar, mas eu não disse e não direi. Embora eu pudesse agora, pois Jennifer está na Florida, e semanas se passaram, e quem sabe agora Padre Paul não se sentiria obrigado a me dizer para ir à polícia. E, por esta mesma razão, confessar agora seria injusto. Este é um mundo de segredos, e agora eu tenho um do meu melhor, na verdade meu único amigo. E tenho um de Jennifer também, mas esta é a natureza da paternidade.”

Embora esse estilo de literatura, talvez por culpa dos MFAs – inclusive em que Andre Dubus se formou, em Iowa, tendo sido lecionado por Richard Yates -, repita a si mesmo, em estilo e em conteúdo, Dubus foge disso, deixando a si mesmo, seu sangue nas páginas. Ele nunca é cruel com as personagens, como certos autores se gabam dizer, nunca é caridoso… O que acontece nas histórias é a vida, marca de uma boa narrativa realista, em que nada é completamente certo ou completamente errado, e qualquer coisa pode acontecer com qualquer um, inclusive as coisas mais distantes da grandeza.

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