Sobre convivência, intervalo e continuidade, trens (Observações aleatórias #7)

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1 – Fim de semana passado, o que veio antes do feriado na segunda, fui com o pessoal que trabalha comigo pra Curitiba. Testei minha capacidade de convivência. Descobri que, apesar de tudo, apesar de preferir viagens solo, sou capaz de passar mais que 24 horas com um grupo de 8 pessoas, a maior parte delas bastante diferente de mim. Não que tenha sido fácil. Não fossem os livros que levei (obrigado Frank O’Hara e João Antônio, pela companhia) e o caderno que uso pra rabiscar ideias, teria fugido no primeiro dia. É que não sou muito turista, eles eram demais. Imagina, qual a graça do Hard Rock Café? Fui com eles, ainda não entendi a fascinação. Mas estavam lá, tirando selfies em frente a guitarra de neon, filmando a dancinha que obrigam os funcionários a fazer de tantas em tantas horas ao som das músicas de um cuzão qualquer que queria ser Michael Jackson, e eu assisti, meio que de fora, às vezes participativo. Até que me diverti em alguns momentos. É o que acontece quando se passa tempo com pessoas diferentes de você, você acaba indo a lugares onde não iria, fazendo o que não faria não fosse o incentivo extra. Então certas pessoas te surpreendem, outras decepcionam, tudo por causa da convivência prolongada… São experiências distintas, viajar só e viajar em grupo. Parece óbvio, mas é algo de que você só se dá conta quando não tem tempo de fazer algo que gostaria de ter feito ou alguém se recusa a fazer algo com o grupo e atrapalha todo o planejamento. Foi uma boa experiência, no fim das contas. Infelizmente não pude dar minha típica caminhada a esmo pela cidade, e admito que quando cheguei sozinho no meu apartamento silencioso, sentei, com um livro, na minha poltrona e acendi meu cachimbo… ah! que paz de espírito. O café do Mercado Público, no entanto, foi memorável.

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2 – Não me lembro se em algumas das observações passadas falei sobre esse sentimento que às vezes nos toma de se estar como que em um hiato da vida. Não pretendo revisar cada uma delas, então correrei o risco de me repetir – não seria a primeira vez. Acontece que é isso que estou vivendo, basicamente. Tem uma série de coisas em andamento, não é como se eu estivesse deitado numa cama esperando a vida passar em uma sala vazia. Mas, às vezes, parece que estou. O resultado do concurso é só mês que vem, então não é como se eu pudesse tentar fazer alguma coisa com o romance. Tenho uma viagem (Montevidéu/Buenos Aires) pra planejar, mas ela só acontece em setembro. Quero escrever, mas não sei bem quê. Além disso, o motivo da minha recente ausência no blog foi talvez o mais ridículo até hoje – dentre os motivos das minhas ausências. O que aconteceu foi que gostei demais da minha última postagem (8ª parte do diário de vigem) e não queria tirá-la do topo em troca de um texto inferior. Não que a postagem tenha recebido muito público. Nenhum comentário – só um, no twitter (obrigado Lari! – vão olhar o blog dela) -, três curtidas (uma com certeza nem leu o texto, só veio pra retribuir curtida dada). Não é uma questão de números, mas orgulho de mim mesmo. Agora vejo que não importa, está lá e basta. Desencanei. O diário era o que eu precisava escrever, a história que fechou meu projeto de livro de contos. Agora trabalho nas outras histórias. Todavia contos são como pequenos vazios contínuos sempre que finalizados. Fico com um pé atrás de postá-los aqui por não saber como editoras reagem a isso. Ao mesmo tempo, não sei por que caralhos estou pensando em editoras, ainda mais pra contos. Talvez ainda surja uma ou duas partes do diário por aqui, mas não prometo. Provavelmente vai, nem contei a história do tombo ainda.

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3 – Voltando à viagem. De Curitiba, pegamos o trem que leva a Morretes. É um passeio conhecido, muitos de vocês, que não são muitos, já devem ter ouvido falar ou não vão ter dificuldades pra encontrar informações sobre ele. O passeio vem com guia histórico, o que, em certas partes, fica fascinante, quando você se dá conta de que está sobre um trilho centenário. Por mais ou menos quatro horas, o trem serpenteia pelas serras paranaenses na Mata Atlântica. É um desses locais em que é possível se distanciar de si mesmo, se deixar levar pelo inacreditável da existência. Por exemplo, quando olhamos pra trás e vemos, distante, a ponte, tão antiga e de aparência tão frágil, sobre a qual o vagão acabou de passar, e notamos que o trem é tão extenso que ainda não terminou de cruzá-la. Quando, em meio a tantas árvores e folhas e plantas, vemos uma ruína de sabe-se lá quantos anos no meio do nada, tomada pela natureza. Assim é que nos damos conta de que a Terra não precisa ser salva, é o ser humano que deve salvar a si mesmo. Sim, podemos causar o dano que for, irreversíveis até. O planeta seguirá firme. Quando a natureza não der mais conta de se sustentar com esses humanos inconvenientes em seu caminho, ela vai sacudir as pulgas e será o nosso fim. Apenas nosso. A Terra continuará, como continua a Mata Atlântica, se espalhando e tomando as ruínas e construções humanas, indiferente. Humanos são pouco pra matar planetas, isso é trabalho do Universo.

4 – Aqui o primeiro álbum, homônimo, dos Stooges, porque acho que vou ver Gimme Danger, documentário do Jim Jarmusch sobre a banda, em algum momento esse final de semana.

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