João Gilberto Noll, Emily Dickinson, Zadie Smith, John Berryman (Andei lendo uns livros aí #4)

Harmada – João Gilberto Noll (1993)

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Triste que só tenha sido pego por um dos livros do Noll depois da morte dele. Claro, não faz muita diferença ler o livro de um autor vivo ou morto, mas pra mim ficou aquela sensação de luto tardio, tão pouco tempo faz que ele morreu. Anos atrás, tentei sem sucesso ler A Céu Aberto. Achava que o autor não era pra mim, ou não era pro momento. Então arrisquei Harmada e fui fisgado desde a primeira linha. A história de um protagonista sem nome, como todos do Noll, ator de teatro, sem trabalho, vivendo pelas ruas, de cidade em cidade. A narrativa é fragmentada, mas tão concisa e bem interligada que mal se percebem os saltos no tempo e no espaço. É um grande fluxo pela vida do narrador e seus pensamentos. Não tenho muito mais o que dizer. Me encantei pela linguagem do autor, pelo uso da narrativa e do teatro como parte essencial da vida do narrador, pelas reflexões. Cada frase tem um peso tremendo e exatidão… Bom, estou lendo outro dele agora, Solidão Continental, então dá pra ver que essa leitura teve seu efeito em mim.

Everyman’s Library Pocket Poets – Emily Dickinson

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Esta é uma seleção de poemas da Emily Dickinson. Não tenho o hábito de comprar seleções. Prefiro coleções separadas ou, quando confio no autor, obra completa, mas, nesse caso, optei pela seleção levando em conta a estranheza ao redor da obra da Emily Dickinson. Pra quem não sabe, ela foi uma poeta reclusa. No fim da vida, não era vista por mais ninguém. Enquanto viva, só publicou uns poucos poemas (editados severamente pra que se encaixassem nas normas poéticas do período), deixando uma obra vasta inédita até depois de sua morte. Fora as notas biográficas, o próprio estilo dela carrega certa estranheza (aponto isso de modo positivo), com pontuações que ignoram regras gramaticais, palavras começando em letra maiúscula para dar ênfase, e uso frequente da meia rima (slant rhyme: quando duas palavras parecem rimar por ortografia, mas não rimam na pronúncia, entre outros casos de imperfeição na rima, exemplo: dead/bead, eye/symmetry [vide The Tyger, do William Blake, embora haja quem diga que algumas meias rimas não eram vistas assim em seu tempo, foi a pronúncia que mudou; não saberia dizer]). São poemas em nada tradicionais, tão misteriosos quanto a poeta ou mais, e por isso mesmo fizeram dela uma das poetas mais influentes dos Estados Unidos.

White Teeth [Dentes Brancos] – Zadie Smith (2000)

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Quase não inclui esse livro na postagem porque resumir seu enredo de muitos núcleos e reviravoltas será um inferno. Vamos lá: temos a história de dois homens, Archibald Jones (inglês, medíocre em todos os aspectos) e Samad Iqbal (bengali, muçulmano, moralista), que se conheceram pelo exército inglês na Segunda Guerra e forjaram uma amizade desde então. Dentes Brancos conta a vida destes dois homens e suas famílias, de forma não-linear, dos seus antepassados até o ano de 1992. São tantos os temas, que não dá pra reduzir a forma com que cada um é tratado sem que se perca o sentido. Trata-se de família, religião, história, honra, memória, raça, cultura; sempre com saltos de ponto de vista, de modo que “verdade” alguma permanece por muito tempo como tal na cabeça do leitor, demonstrando que existem vários fatos objetivos, mas que a uma verdade que tanto alguns almejam é inalcançável. Amei ter lido esse romance. É engraçado, imenso, tortuoso… No entanto, não posso negar que, terminada a leitura, estava frio. Difícil explicar. A leitura foi ótima, não há nada de errado na escrita… talvez seja eu que não esteja acostumado com romances tradicionais (com vários núcleos, que se passa em um longo período de tempo, com muitos pontos de vista), mas não é bem isso. Foi a sensação de que toda aquela construção de 500 páginas, boa que seja, não levou a nada, sem ápices. Indico mesmo assim e quero ler mais livros dela.

The Dream Songs [As Canções Oníricas] – John Berryman (1964-1969)

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Reunião dos dois mais aclamados livros do poeta considerado entre os mais importantes americanos do século XX, John Berryman, 77 Dream Songs e His Toys, His Dream, His Rest. The Dream Songs, canções em 3 estrofes, com seis versos cada, escritas em versos livres, são enigmáticas e pessoas, apesar do autor negar que sejam autobiográficas. As canções contam a vida de Henry, da infância à velhice. Berryman passeia pelo inconsciente de Henry, pelos amores de sua vida, pela sua relação com os EUA e os países que ele visitou, suas obsessões, seus amigos, trata da morte e do suicídio, do adultério e do alcoolismo. Por muito tempo, considerei fazer uma postagem separada sobre esse livro só porque ele foi assim tão importante pra mim. Terminei de ler, mas ainda não larguei. Revisito várias das canções quando tenho tempo livre, quando dá vontade. São tão tocantes. Entendo que críticos queiram insistir na qualidade autobiográfica das canções. Muitas delas retratam momentos da vida de Berryman. O suicídio do pai, que ele presenciou, sua reação ao suicídio de seus colegas poetas (Randall Jarrell,  Delmore Schwartz, Sylvia Plath, gente de quem ele era próximo e não), mortes de amigos que não por suicídio (Dylan Thomas), suas influências (W. B. Yeats, Stephen Crane), as canções coincidem na descrição das muitas relações extraconjugais que ele teve e dos seus anos de alcoolismo (batalha contra a qual ele não venceu), coincidem quando falam do desejo que Henry tem de se matar, e Berryman de fato se matou… É um livro intenso. E a construção gramatical complexa de cada canção fazem delas um tanto esquivas à interpretação, a ponto que é possível dizer que muitas não foram feitas para serem compreendidas. Talvez eu devesse escrever só sobre este livro. Pretendo, mas não tão cedo. É um dos meus favoritos no momento. Será uma releitura constante na minha vida.

2 poemas (12:20 / à beira da praia)

12:20

têm sido quietos, nossos almoços. caíram em 
certa rotina. a conversa sempre parecida.
fico pensando se você percebeu que sempre
como a mesma coisa ou se já comentei 
isso contigo. é difícil separar na 
lembrança o que se diz do que não se diz.

à beira da praia

uma abelha flutua ao redor
da sola de sua sandália,
outra segue atrás da primeira,
sutis e vagarosas, tão leves.
a primeira encosta a cabeça
ou antenas na sola da sandália
e você nem a sente.
a segunda faz o mesmo, e
logo surge uma terceira
e quarta abelhas.
elas insistem nessa
misteriosa função de
descoberta. até que,
de repente, você se move,
descruza as pernas e as
cruza de volta, a de cima indo
pra baixo e vice-versa,
seu vestido de verão azul e branco
descobre e cobre de volta
suas coxas, que finjo não olhar,
e as abelhas fogem em
direção às árvores
temendo por suas vidas.
você bebe sua cerveja
sem saber do quase
múltiplo homicídio.

Mágica, milagre, memória; Sobre Las Curas Milagrosas del Doctor Aira (César Aira, 1993-2015)

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 Conheci por acidente esse autor. Numa livraria online qualquer, botei Sérgio Sant’anna na busca, ele que, no momento, é meu autor brasileiro favorito, e encontrei o livro Como me tornei freira (Como me hice monja, 1993). O site não botava o nome do autor ali, então cliquei pra ver o que era, já que não sabia de nenhum livro do Sérgio – depois de tantos anos já posso me dizer íntimo – com esse título. E não existe mesmo, o livro era do César Aira, parte da coleção “Otra Língua”, da Rocco (organizada pelo mestre Joca Reiners Terron, responsável por trazer ao Brasil dezenas de autores da América Latina até então não traduzidos – gente como Mario Levrero, Copi, Aira, Julián Herbert, Guadalupe Nettel et cetera). O que Sérgio fez foi escrever a introdução, elogiando a obra do Aira. Comprei, porque indicação desse porte já me bastava, li e, na minha viagem à Buenos Aires, fui atrás das outras obras dele – logo descobrindo quão extensa ela é e quão impossível é colecioná-la.

Las Curas Milagrosas del Doctor Aira foi um deles, encontrado na feira de livros da Plaza Italia. Composto de 3 romances breves, o primeiro, As Curas Milagrosas do Doutor Aira (1998), é o que intitula o livro, seguido por El Tilo (A Tília, 2003), e termina com Fragmentos de un Diario en los Alpes (Fragmentos de um Diário nos Alpes, 1993) mais seu apêndice. Em 2015, a Random House reeditou estes 3 romances em um único livro – agora vocês entendem a data no título desta postagem. Embora os romances tenham algo em comum, não estão relacionados e o leitor pode escolher a ordem de leitura; pode até ler um pouco de cada por dia e terminar os 3 ao mesmo tempo. Eu sou chato, por isso segui a ordem das páginas.

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Não se sabe se Doutor Aira é curandeiro, milagreiro ou charlatão. Há quem acredite em ambos, e Doutor Aira acredita em seus poderes de cura mesmo sem nunca tê-los posto em prática. A narrativa é um golpe de vento, em primeira pessoa, cheio de divagações, autoanálises, planos que nunca são realizados, argumentos e contra-argumento. Aira tem admiração pelas colagens surrealistas e aqui o romance tem algo disso. Os cenários arvorados das ruas buenairenses, médicos tradicionais perseguindo Doutor Aira pra expor seu método falho em montagens quase televisivas de tão espetaculares, as peças se encaixam mesmo que pareçam estranhas quando juntas, e se encaixam tão bem que passam a se complementar.

A tília era uma árvore enorme, maior que as outras árvores dessa espécie, da infância do narrador. Seu pai usava as folhas dessa árvore para um chá com supostas propriedades mágicas, talvez devido ao tamanho da árvore suas folhas fossem especiais. Até que um dia um menino peronista (assim o chamavam) foi se esconder naquela árvore e seus perseguidores a derrubaram sem nenhuma consideração. Assim segue o romance que é exatamente o que parece ser, uma grande digressão. Memórias levam a outras memórias, sempre na infância, até que se rumina sobre um momento específico ou outro ou sobre a memória em si. Se mais de uma vez o leitor se pergunta como a história foi parar ali, logo o autor se faz a mesma pergunta, porque não se sabe. Me lembrou a forma como eu mesmo às vezes me lembro da minha infância, pedaços que vão e vem e se juntam a outras que levam a mais outros, memórias que começam em algum lugar e eventualmente terminam, mas que não têm começo, meio e fim. Tratam sobre tudo e sobre nada.

Começa com uma descrição das coisas na casa em que o narrador está hospedado, amigos dele que vivem na França. Livros, obras de arte, coleções. A forma como as peças correspondem com a personalidade dos habitantes – ou não necessariamente. Descreve os cantos da casa, conta das conversas que teve com os amigos, dos livros que leu aproveitando a coleção presente na casa. Um desses livros que é melhor com um bloco de notas pras referências e depois pesquisar cada uma. Uma história que leva a outras, que se divide, deixa de ser só um diário e vira um ensaio sobre literatura romântica alemã, ou sobre arte moderna e Duchamp.

As histórias, mesmo não relacionadas, têm o algo em comum da literatura. Não digo isso pra ser óbvio. Todos os 3 romances tratam, uns mais de leve que outros, da escrita. Do milagre que é fatiar uma vida e deixar só as partes de valor. Dos vários caminhos que trilha a memória. Da mágica dos mundos criados por palavras, seja pelo conteúdo fantástico (Verne, Hoffman), seja só pela existência – magia estatística – de uma história que reuna aquelas palavras naquela ordem específica.

Cada romance, tendo sido escrito em períodos de tempo tão separados, cobre uma década da carreira do autor. Diria que é uma boa introdução aos que não conhecem a obra do Aira. Não que seja assim tão fácil reduzir a cada vez maior obra do Aira a um resumo compreensível, mas, digamos que esse livro ajuda aos que nunca ouviram falar dele. Diria no condicional porque a obra nunca foi traduzida, quem sabe num futuro próximo. Para os de vocês que leem em espanhol, mantenho a indicação. Livros argentinos são caros em comparação com o preço da moeda deles, mas talvez valha o sacrifício. Se você estiver passando pela terra dele, busque numa das várias vendas de livros usados.

Este é um mundo de segredos; Sobre The times are never so bad (Andre Dubus, 1983)

Nunca fiz questão de dar tema a este blogue. Ele sou eu, disse certa vez, e ficou por isso mesmo. Não posso negar, todavia, que, quando falo de literatura – também parte de mim -, mais especificamente com sugestões de livros, surgem seguidores e curtidas e todas essas desimportâncias essenciais. Logo, há leitores aqui que esperam indicações literárias, e, com estes, estou em falta. Até porque, gosto de indicar leituras; o que não gosto é de escrever sobre livros. Se pudesse, listaria minhas últimas leituras agradáveis e quem quisesse poderia ir atrás, mas não dá. É necessário convencer, explicar, mais que os motivos que me fizeram gostar do livro, por que o leitor do blogue deveria ir atrás de lê-lo também. Então bolei o formato “Andei lendo uns livros aí”. Acontece que este livro, este não deu pra resumir as sensações de leitura em poucas frases.

Existe uma linha do realismo na literatura estadunidense que me encanta por sua humanidade. Ao mesmo tempo, muitos dos seus autores foram esquecidos ou nunca gozaram de sucesso internacional. Richard Yates é um exemplo, um dos meus autores favoritos que o tempo apagou, até o lançamento de Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road – adaptação do seu principal romance, dirigida por Sam Mendes, em 2009) e, em parte, Mad Men (que pega emprestado características de seus livros e contos, especialmente Disturbing the Peace), mas que já voltou ao esquecimento de antes; os ainda vivos Frederick Barthelme, Russell Banks e Ann Beattie; J. F. Powers e Flannery O’Connor, embora a última esteja mais associada ao movimento gótico-sulista; entre outros, pertencentes a uma tradição que parece ter nascido naquele país, com Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Stephen Crane, popularizada por Ernest Hemingway, mantida por John Cheever e Raymond Carver e inúmeros outros. Neste meio, viveu Andre Dubus. Foi contista e nunca conseguiu terminar um romance. Teve uma vida trágica, envolvendo crises familiares, divórcios, bebida, falta de dinheiro, até perder uma das pernas num acidente de trânsito. Auxiliando um jovem casal na beira de uma estrada, um carro perde o controle e parte em direção deles. Dubus empurra a moça e a salva. O marido morreu, Dubus teve uma das pernas esmagadas. Passou o resto dos dias numa cadeira de rodas, mas dessa experiência saiu Meditations from a movable chair, talvez seu livro mais conhecido.

The times are never so bad é uma coleção de histórias, uma novela e oito contos. Todos econômicos em palavras, realistas, centrados nos eventos pessoais e crises que formam ou destroem pessoas e famílias. Gente simples. Histórias que com frequência fazem o leitor se identificar em algum dos personagens e acontecimentos, ou fazem o leitor temer que algo assim um dia aconteça com ele.

The pretty girl, a novela que inicia o livro, começa em primeira pessoa, narrando os acontecimentos recentes na vida de um homem sobre quem pouco se sabe. Na segunda parte, a narrativa passa pra terceira pessoa e passa a acompanhar a mulher de que ele fala com desdém – sua ex – e as pessoas próximas dela, amigos do trabalho, família. Descobrimos que ela tem sido, desde o fim da relação, aterrorizada pelo primeira narrador, o da primeira pessoa, que, até então, parecia uma pessoa normal. Então a narrativa muda de tom e adquire uma tensão rara na literatura, porque aqui não há “vilão”, há um homem perturbado disposto a tornar a vida daquela que o deixou um inferno.

Levei um tempo pra escrever sobre esse livro, faz meses que terminei a leitura. Mas ainda lembro bem dos contos, só não pretendo falar de cada um deles porque nem todos permitem que se diga muito. As histórias falam de casais jovens tentando sobreviver num mundo nem sempre justo, às vezes tendo que roubar pra isso; de racismo e perseguição; da filha que descobre o adultério do pai e o confronta; violência doméstica… Sempre reais e simples, compartilhando uma característica com Raymond Carver, a da impressão que a um pavio aceso que pode explodir a qualquer momento, mas nem sempre explode, mesmo quando não é apagado.

Mas teve uma história que me marcou mais que as outras, talvez a que faça valer a pena ir à caça desse livro, se esse estilo de literatura te interessa. A father’s story. Este conto, que fecha a coleção, é um resumo do estilo de Dubus. Ele foi um homem católico e pai, que se tornou superprotetor após uma de suas filhas ter sido estuprada. Este conto foca no catolicismo – não como pregação, apenas como o senso moral de um homem (que nem mesmo gosta de igreja e só respeita a um padre específico que se encaixa nos seus critérios) – e no instinto paterno. O pai da história vive só em uma fazenda, depois que os filhos cresceram e foram embora. Ele passa o tempo cuidando dos cavalos, pensando no passado e conversando com o padre. Sua filha vem visitá-lo. Quando ela está pra ir embora, sofre um acidente e precisa da ajuda dele. A história mostra a que ponto o instinto paterno, nesse caso, ou materno, pode fazer que uma pessoa deixe de lado sua moral.

That was the time to say I want to confess, but I have not and will not. Though I could now, for Jennifer is in Florida, and weeks have passed, and perhaps now Father Paul would not feel that he must tell me to go to the police. And, for that very reason, to confess now would be unfair. It is a world of secrets, and now I have one from my best, in truth my only friend. I have one from Jennifer too, but that is the nature of fatherhood. (de A Father’s Story – “Aquela era a hora de dizer eu quero confessar, mas eu não disse e não direi. Embora eu pudesse agora, pois Jennifer está na Florida, e semanas se passaram, e quem sabe agora Padre Paul não se sentiria obrigado a me dizer para ir à polícia. E, por esta mesma razão, confessar agora seria injusto. Este é um mundo de segredos, e agora eu tenho um do meu melhor, na verdade meu único amigo. E tenho um de Jennifer também, mas esta é a natureza da paternidade.”

Embora esse estilo de literatura, talvez por culpa dos MFAs – inclusive em que Andre Dubus se formou, em Iowa, tendo sido lecionado por Richard Yates -, repita a si mesmo, em estilo e em conteúdo, Dubus foge disso, deixando a si mesmo, seu sangue nas páginas. Ele nunca é cruel com as personagens, como certos autores se gabam dizer, nunca é caridoso… O que acontece nas histórias é a vida, marca de uma boa narrativa realista, em que nada é completamente certo ou completamente errado, e qualquer coisa pode acontecer com qualquer um, inclusive as coisas mais distantes da grandeza.

Sobre convivência, intervalo e continuidade, trens (Observações aleatórias #7)

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1 – Fim de semana passado, o que veio antes do feriado na segunda, fui com o pessoal que trabalha comigo pra Curitiba. Testei minha capacidade de convivência. Descobri que, apesar de tudo, apesar de preferir viagens solo, sou capaz de passar mais que 24 horas com um grupo de 8 pessoas, a maior parte delas bastante diferente de mim. Não que tenha sido fácil. Não fossem os livros que levei (obrigado Frank O’Hara e João Antônio, pela companhia) e o caderno que uso pra rabiscar ideias, teria fugido no primeiro dia. É que não sou muito turista, eles eram demais. Imagina, qual a graça do Hard Rock Café? Fui com eles, ainda não entendi a fascinação. Mas estavam lá, tirando selfies em frente a guitarra de neon, filmando a dancinha que obrigam os funcionários a fazer de tantas em tantas horas ao som das músicas de um cuzão qualquer que queria ser Michael Jackson, e eu assisti, meio que de fora, às vezes participativo. Até que me diverti em alguns momentos. É o que acontece quando se passa tempo com pessoas diferentes de você, você acaba indo a lugares onde não iria, fazendo o que não faria não fosse o incentivo extra. Então certas pessoas te surpreendem, outras decepcionam, tudo por causa da convivência prolongada… São experiências distintas, viajar só e viajar em grupo. Parece óbvio, mas é algo de que você só se dá conta quando não tem tempo de fazer algo que gostaria de ter feito ou alguém se recusa a fazer algo com o grupo e atrapalha todo o planejamento. Foi uma boa experiência, no fim das contas. Infelizmente não pude dar minha típica caminhada a esmo pela cidade, e admito que quando cheguei sozinho no meu apartamento silencioso, sentei, com um livro, na minha poltrona e acendi meu cachimbo… ah! que paz de espírito. O café do Mercado Público, no entanto, foi memorável.

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2 – Não me lembro se em algumas das observações passadas falei sobre esse sentimento que às vezes nos toma de se estar como que em um hiato da vida. Não pretendo revisar cada uma delas, então correrei o risco de me repetir – não seria a primeira vez. Acontece que é isso que estou vivendo, basicamente. Tem uma série de coisas em andamento, não é como se eu estivesse deitado numa cama esperando a vida passar em uma sala vazia. Mas, às vezes, parece que estou. O resultado do concurso é só mês que vem, então não é como se eu pudesse tentar fazer alguma coisa com o romance. Tenho uma viagem (Montevidéu/Buenos Aires) pra planejar, mas ela só acontece em setembro. Quero escrever, mas não sei bem quê. Além disso, o motivo da minha recente ausência no blog foi talvez o mais ridículo até hoje – dentre os motivos das minhas ausências. O que aconteceu foi que gostei demais da minha última postagem (8ª parte do diário de vigem) e não queria tirá-la do topo em troca de um texto inferior. Não que a postagem tenha recebido muito público. Nenhum comentário – só um, no twitter (obrigado Lari! – vão olhar o blog dela) -, três curtidas (uma com certeza nem leu o texto, só veio pra retribuir curtida dada). Não é uma questão de números, mas orgulho de mim mesmo. Agora vejo que não importa, está lá e basta. Desencanei. O diário era o que eu precisava escrever, a história que fechou meu projeto de livro de contos. Agora trabalho nas outras histórias. Todavia contos são como pequenos vazios contínuos sempre que finalizados. Fico com um pé atrás de postá-los aqui por não saber como editoras reagem a isso. Ao mesmo tempo, não sei por que caralhos estou pensando em editoras, ainda mais pra contos. Talvez ainda surja uma ou duas partes do diário por aqui, mas não prometo. Provavelmente vai, nem contei a história do tombo ainda.

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3 – Voltando à viagem. De Curitiba, pegamos o trem que leva a Morretes. É um passeio conhecido, muitos de vocês, que não são muitos, já devem ter ouvido falar ou não vão ter dificuldades pra encontrar informações sobre ele. O passeio vem com guia histórico, o que, em certas partes, fica fascinante, quando você se dá conta de que está sobre um trilho centenário. Por mais ou menos quatro horas, o trem serpenteia pelas serras paranaenses na Mata Atlântica. É um desses locais em que é possível se distanciar de si mesmo, se deixar levar pelo inacreditável da existência. Por exemplo, quando olhamos pra trás e vemos, distante, a ponte, tão antiga e de aparência tão frágil, sobre a qual o vagão acabou de passar, e notamos que o trem é tão extenso que ainda não terminou de cruzá-la. Quando, em meio a tantas árvores e folhas e plantas, vemos uma ruína de sabe-se lá quantos anos no meio do nada, tomada pela natureza. Assim é que nos damos conta de que a Terra não precisa ser salva, é o ser humano que deve salvar a si mesmo. Sim, podemos causar o dano que for, irreversíveis até. O planeta seguirá firme. Quando a natureza não der mais conta de se sustentar com esses humanos inconvenientes em seu caminho, ela vai sacudir as pulgas e será o nosso fim. Apenas nosso. A Terra continuará, como continua a Mata Atlântica, se espalhando e tomando as ruínas e construções humanas, indiferente. Humanos são pouco pra matar planetas, isso é trabalho do Universo.

4 – Aqui o primeiro álbum, homônimo, dos Stooges, porque acho que vou ver Gimme Danger, documentário do Jim Jarmusch sobre a banda, em algum momento esse final de semana.