Sobre peixes voadores (Diário de viagem #8)

Contexto e cenário

Um bar sobre o qual li num blog, uma postagem em que artistas portenhos falam dos locais da cidade em que se pode ouvir música, tomar café, apreciar cultura, longe dos turistas que tomaram e enfeiaram parte da cidade e a deixaram mais caótica. Escolhi esse, dos lugares, porque ficava na avenida do meu hotel. A imensa Avenida Córdoba, em que larguei, em diversas das suas quadras, pedaços das minhas pernas, que se soltaram durante meus flanares. Parecia um bar de sonho. Tocavam bandas locais, permitiam que elas tocassem músicas próprias. Não tinha placa de identificação em canto nenhum, era só uma porta numa casa antiga, que levava a uma escadaria, que levava ao bar. Vuela el Pez, seu nome. Deve haver um motivo pra isso, o nome e as outras características. Lembro que comentei com amigos, muito antes de saber da existência dum lugar desses, que, se eu tivesse fontes infinitas de dinheiro, abriria um bar de jazz e outros estilos, sem placa, sem anúncios, onde bandas poderiam tocar o que quisessem pro público que as quisesse ouvir. Lá estava uma versão dele, real, não minha, mas pulsante. Sexta-feira, a viagem, até então, um tanto tediosa. A cidade era um espetáculo, os museus e livrarias e cafés, cada um que conhecia, me embasbacavam toda a vez. Mas faltava algo, algo que me fizesse querer ficar, me fizesse querer voltar sempre.  Além do mais, a melancolia da solidão estrangeira estava perdendo o charme e ficando triste. Procurava alguma coisa, queria alguma coisa, mas não sabia o que era essa coisa ou por que eu a queria e a procurava.

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souvenir

deslumbrado e no escuro, lidando com pernas que não aguentam mais o corpo. as paredes expõem versos de Alejandra Pizarnik e quadros cheios de cor pintados por gente desconhecida, enfeites que se escondem quando as luzes se apagam. a banda toca aquele rock que as bandas que querem ser consideradas boas tocam,
meio jazz
meio rock
meio reggae
meio tudo
meio nada
pausas imensas instrumentais
vocais galáticos poetizando coisas vagas
aquele velho som original
que todas as bandas novas imitam,
iluminada, detrás, por luzes de natal brancas. o remédio é uma cerveja roja litrão tão fraca que mal sai da garrafa e não sobe à cabeça por nada. cerveja, a uma coisa sobre que aquele povo parece não entender coisa alguma. tratando cerveja por cor, sem cabimento. mas que tipo é?
não sei. tem da roja, da negra, da rubia. la buena, la mala y la fea.
vá da roja, que seja, ela me dá a garrafa e um copo de plástico, volto à mesa com uma coisa em cada mão.

garota loira vem e pede as cadeiras desocupadas da minha mesa para que ela e sua amiga se juntem a um grupo de amigos dela.
estou falando com essa cadeira, mas, se você precisa, vá em frente.
frase tão complicada quando dita por um estrangeiro, ela tem de esperar pra ver se significa o que acha que significa e somente então se deixa bufar um riso.
minha mesa é tão frequentada, gente que vai e que vem e que puxa papo como se me conhecesse, só porque estou sozinho e, fora a garrafa e o copo, não tem nada sobre a mesa.
é que aqui se compartilha, diz um cara,
mas eu não recusei, não precisa justificar. estou tão mas tão só que qualquer companhia faz bem. quase peço pra que usem a minha mesa e não a de outro. e a ocupam com copos, uma pizza caseira, mais copos.
de onde você é?, moça do novo grupo que ocupa meu espaço pergunta
e quase conto minha vida pra ela. não falava havia doze horas, mais que isso. quão rápido passam os minutos do álcool. falo da distância que tive que percorrer pelas ruas portenhas, culpa minha por ter me perdido, enquanto ela se esforça pra superar meu sotaque e a música alta e pra entender o que eu digo. como a cidade tá te tratando é uma pergunta que se repete.
melhor do que eu esperava.
mas sempre espero ser escorraçado, quiçá porque me escorraçaria.

cidade nova, personalidade nova. larguei a insociabilidade no aeroporto. amo a tudo e a todos e a sensação não me queima por dentro tanto assim. falo com estranhos. todos são estranhos. sempre preferi estranhos aos conhecidos. estranhos só podem surpreender. vou atrás de outra cerveja, mas antes trafego o caminho enevoado que leva ao banheiro.
a moça do balcão mal me escuta.
meu português tampouco é bom, ela diz e ri.
a gente se vira como pode com o que tem,
eu digo enquanto pago pelo chope que pedi, e volto à mesa. a garota de antes me vê e me devolve minha cadeira. preciso ser cavalheiro, é meu momento james bond. tão raros esses momentos.
por favor, eu insisto, eu digo. (there’s a man who leads a life of danger…)
não vou tirar sua cadeira, você tá mais cansado que eu, vem, ela diz.
insisto mais.
ela insiste mais que eu.
pego a cadeira de volta porque tá ficando chato (secret agent man secret…) e ela e seu grupo encontram uma mesa própria e me largam à solidão e à música. viva à música, minha mão acompanha o ritmo estapeando de leve a mesa. olho pra garota à mesa na frente da minha.
aquele bar, aquela porta
sem placas no meio
da avenida que leva a uma
escadaria escura feito arma-
dilha de filme de gângster
que leva à arte não às
armas,
símbolo, lição pra vida exemplo duma hipótese de humanidade melhorada?
onde demos errado que perdemos
a sensibilidade pr’essas coisas?
a garota não me olha de volta, acho que vai embora uns minutos depois, uma hora depois, minutos escorregadios de cerveja. quantas músicas essa banda já tocou e por que já preciso ir ao banheiro de novo? quantas vezes me apaixonei desde que entrei aqui? me pergunto se ninguém mais vai aparecer pelo resto da noite, se melhor não seria ir embora de volta ao hotel e evitar a ressaca que debilitaria o dia seguinte.
não tenho planos pra sábado.
nem domingo, nem dia nenhum
até minha volta.
deveria ter me planejado melhor.

na semana antes dessa estava bebendo e ouvindo música num outro lugar, no meu país. sempre um pouco diferente. ali ou em outra esquina, é outro mundo sempre, próximo ou distante. aqui noto uma ausência geral de adornos, esta é a diferença. nada certo ou errado, só diferente. e os dentes. dentista portenho morre de fome. naquela noite, um dia antes da partida, tomava da boa cerveja brasileira, da qual sentia saudade por não ainda ter encontrado da boa cerveja argentina, e nem ligava, tão bêbado tinha ficado sem perceber, que, depois da apresentação de algumas bandas novas até que interessantes, quem começou a tocar era raimundos. pelo menos esse risco eu não corria na argentina, mesmo que, lá, o brasil me perseguisse a cada esquina. imagino a banda no palco começando um improviso jazz fusion de desafinado, um return to forever encontra joão gilberto encontra minha solidão exagerada. não acontece.

deixo meu copo meio vazio na mesa e vou ao banheiro de novo. a cada ida o percurso fica mais longo. e toda a volta traz uma surpresa. minha mesa ocupada por três garotas. paro ao lado da mesa, não quero interromper, mas peço licença e estico o braço pra alcançar meu copo no meio delas.
me desculpa, não tinha ninguém só o copo, achei que
não tem problema, fica tranquila, a mesa é sua.
de onde você é?
brasil.
ele é brasileiro, ela diz pras amigas, nem de perto tão interessadas.
trocas de olhares generalizados e meneios de cabeça e goles nos copos de campari.
meu nome é ala…
a-la-o que?
a-la-na.
alana.
isso. sou alana, ela é … e ela é …
constranjo sem querer a terceira, não entendo o nome dela. mas rimos, todos, elas da minha linguagem limitadíssima e esforços pra compreender e ser compreendido, eu sem qualquer motivo. me esquecerei dos nomes das outras duas, mas o de alana permanece. ela, quando me distraio e acho que nossa interação acabou, me cerca de perguntas:
o que te traz a buenos aires?
um pouco de tudo. a cultura principalmente. gosto muito de literatura argentina.
quem, por exemplo?
cortázar
sim. borges?
sim, borges, grande borges, alejandra pizarnik tem uns poemas dela na parede aqui
ela eu não conheço bem.
espera iluminar um pouco, aí você lê e vê o que acha. césar aira, também gosto, e tem um monte que tô descobrindo, roberto arlt.
o que você tem feito por aqui?
me perdi
hahaha
e muito o dia todo.
é uma cidade bem grande.
mas achei o malba
amo esse museu.
fui lá hoje.
hoje?
essa tarde.
o que achou?
um espetáculo. achei vários artistas brasileiros por lá.
sim, tem muita coisa do brasil aqui.
muita. conhece alguma coisa de lá?
amo paulo freire, de paixão. conhece?
um pouco.
e ela fala de pedagogia, em que ela se formou, que trabalha de niñera (a mágica das palavras, aqui, por niñera, relaciono a ninhos, o que não faz o mínimo sentido. levo um tempo pra lembrar de niños, mas mesmo aí não sei se ela trabalha de professora, se numa creche, num orfanato, e prefiro não perguntar pra não exigir dela uma explicação muito complicada pros meus ouvidos debilitados de bebum estrangeiro. noutro dia lia um poema com o verbo alejar e pensava que a poeta se machucou e estava exagerando dizendo que foi aleijada por alguma coisa, só muito depois lembro que lejos é longe e alejar, logo, é distanciar. que tipo é um cara, não um tipo, uma maneira/forma/jeito. como é fácil falar mal o espanhol e achar que se sabe muito) e leu quase tudo do freire e eu falo do quanto ele é combatido por gente burra no brasil enquanto a banda toca e nós mal nos entendemos. ela fala que também estuda teatro, quer ser ou é atriz, mas era niñera dois minutos antes. relaciono os dois sem saber o que é o um direito. eu ainda tenho cerveja no copo a essa altura? ela está de pé em minha frente? sentada ainda?
o que mais você quer fazer aqui?
ainda tenho uns lugares pra conhecer. queria ir no teatro e no cinema, uma vez pelo menos.
teatro… amanhã eu vou estar en La Noche de los Teatros, sabe o que é?
nem ideia.
ela explica do festival de teatro, grátis, no auditório de uma praça.
várias peças.
você vai atuar?
não, não. só assistir. ainda é cedo pra mim, um palco desse tamanho imagina.
qual a praça?
um minuto
ela rasga um papel de dentro da bolsa, escreve o nome da praça, o nome e o número dela.
aqui. e escreve aqui – outro pedaço de papel – seu número e nome pra gente se falar. mas seu número é brasileiro. tem facebook?
não.
e agora?
whatsapp?
tenho, pode ser.
escrevo. espero que certo. que nenhum número ou letra sobreponha outro.
amanhã você não vai se apresentar, mas e outro dia? é possível te ver num palco?
não tão cedo. pouco tempo atrás fiz stand-up, sabe o que é?
comédia stand-up?
isso.
uau.
é mais um hobby, o que me interessa mesmo é o teatro.
certo.
bailás?
no. pero puedo moverme alrededor de ti en cuanto tu bailas.
hay una primera vez para todo, ven..
e dançamos? ela dança. eu não sei o que estou fazendo. não só no que se refere à dança. flutuo por aí, flutuei por buenos aires e vim parar no vuela el pez até parar debaixo do pé de alana. ou meu pé sobre o dela. não, não foi o pé dela que eu pisei, estou pensando num caso no brasil anos atrás em que me vi numa situação parecida. várias vezes, quase toda vez que me vejo com uma desconhecida num bar ou festa ou local em que se bebe e há música danço sem saber que dancei. longe de ser primeira vez. qualquer coisa entre mim e alana, longe da primeira vez, mas primeira de qualquer forma. a primeira vez portenha, as segundas primeiras vezes da vida, sempre diferente. primeiras vezes portenhas, um bom título pra isso, lembra aguafuertes porteñas, quase. ou não. a amiga de alana, a terceira, a do nome curioso, oferece a bebida no copo dela. é campari. bebo e a doçura choca minha língua e minha garganta até o estômago.
dulce, digo.
sí, es bastante dulce.
volto pra alana ou ela me puxa de volta.
vamos lá fora tomar um ar? aqui tá meio
ok.
abafado.
vamos pro lado de fora da sala, pra outra sala, a que leva aos banheiros, onde as pessoas se reúnem em mesas pra fumar ou respirar o ar puro da fumaça. está mais claro, posso ver direito o rosto dela, mas não darei a ela alguma forma concreta até domingo, o dia sóbrio. vamos prum canto. hesito sem querer, o algo sob controle que em mim resta.
tem certeza?
algum problema?
nenhum. mas eu não vou ficar aqui, enquanto nossos rostos lentos caem um sobre o outro em confortável colisão.
nossas línguas se apresentam. meus sentidos tomados pela cerveja. ela parece bem. a multidão ao redor some aos poucos. não estão nas minhas lembranças. antes parecia tão cheio.
quando você volta?
ela pergunta, eu diria quanto tempo havia passado entre o beijo e a pergunta se tempo ainda existisse no cenário.
quarta.
quarta temos tempo.
um pouco.
aqui os acontecimentos se bagunçam. entre beijos e balangares arrítmicos, ela me rodopia, eu a rodopio,
(ela se afasta e seus lábios se movem. não escuto. ela se aproxima do meu ouvido. escuto, mas não entendo. ela repete. ela repete. outra vez.) eu desisto:
não te entendi, me desculpa mesmo, mas aceito.
como?
não sei o que você disse, mas aceito.
você estuda improviso?
como?
improviso?
improviso?, não, nunca fiz nada relacionado a atuar, por quê?
ah, é que aceitar sem entender é uma das bases desse estilo, sabe?, pra dar continuidade as cenas, entende?
entendo, mas não, nunca fiz. deveria fazer?
e trocamos ideias sobre coisas da vida, indo do teatro e atuação à
música: me pergunta se sei que é reggaeton, digo que não, só sei do reggae sem ton; pergunta se gosto de axé, digo que não sei qual axé chega por lá, mas no brasil é comercial demais e onipresente, não consigo ouvir.
filme: pergunto se ela viu lost in translation (encontros e desencontros ou como se chame em espanhol, não saberia traduzir) porque desde antes da viagem o filme não me sai da cabeça, ela diz que não, nunca ouviu falar, mas vai pesquisar depois. não acho que desde então tenha visto, o título deve ser outro.
fala de reggaeton porque pode ser que algo parecido com isso tenha começado a tocar. surge uma terceira banda. não consigo ver de onde estou. nossos beijos ganham tom de despedida.
diz que não mora tão perto dali e precisa da carona da amiga. digo que o meu hotel é perto. não lembro se a convido pra vir comigo, se precisa de convite, se ela percebe o convite. a despedida se adia. nos aproximamos e afastamos várias vezes e já não sei o que se passa se é que soube antes. as pessoas ao redor começaram a surgir de novo, como se nunca tivessem sumido, uma por uma. tenho a sensação de que estou sendo observado.
acho que vou voltar lá pras minhas amigas, mas a gente se vê.
sim, eu te ligo amanhã.
parte de mim tem vontade de voltar à mesa, pegar outra cerveja. quando foi que decidi ir embora? por que nos despedimos? outra parte não tinha disposição de continuar a noite. mas, antes de concluir os pensamentos, estou no meio da escadaria, chegando à rua, tonto, digerindo acontecidos, tentando quebrar o recorde de imagens mentais que um cérebro é capaz de formar num mesmo segundo. volto pro hotel enquanto gente acaba de sair de casa. meu celular diz que passam das três. grupo de moças envelopadas em vestidos pretos pega um ônibus, senhora passeia com um imenso golden retriever. reparo que estou distraído de madrugada numa rua qualquer de uma metrópole estrangeiro. rápido, tomo jeito e volto a observar os arredores, se alguém me segue ou me olha de forma suspeita, olho os outros com suspeita. bebida também dá paranoia e tesão inconcluso. chego ao hotel são e salvo, até consigo encaixar a chave na porta do prédio e subir as escadas e acertar a chave na porta do quarto, tudo na primeira tentativa, sinal de que não bebi o suficiente.

no quarto, tiro a roupa e me dou conta, antes de jogar em mim os trapos que uso pra dormir, do insistente voluntário pronto pra ação cancelada ainda há pouco. peço desculpas, digo que nada vai acontecer essa noite, mas não basta pro pobre endiabrado.
deveria de haver uma lei contra ti.
espera quer dizer que há?, pois bem.
não há outra saída que não enrolar um tanto de papel higiênico e achar, no celular, qualquer fantástica encenação que apazigue os caprichos deste velho e mimado mestre, deus demente, duas partes dionísio uma parte nero. deito nu na cama e encontro qualquer pose que ajeite os envolvidos de forma confortável o suficiente. me corre à mente a ideia de pensar em alana, mas não não nunca sujeitar sequer representação imaginária dela ao que livre percorre minhas circunvoluções nos momentos de alívio solitário nunca pior dos crimes. horrível o ser humano que mistura suas fantasias individuais do plano das ideias com as suas fantasias de carne e osso. que história ridícula é essa de que um vídeo não basta, de que este não satisfaz e quer outro em seu lugar? dez minutos atrás estava desesperado. que seja. cumpro com as demandas de sua majestade até que ela dispara e então escorre e então pinga pela superfície do papel. o dobro e o jogo no lixo. visto meus trapos e me deito na cama.

nove da manhã e minha cabeça acorda aos berros só por causa das tantas cervejas. peças do quebra-cabeça, por incrível que pareça, se perderam pelas poucas horas em que adormeci. o número de alana, encontro no bolso do casaco de ontem. tento sem sucesso incluir no meu celular. preciso de café, desvendo o mistério do funcionamento desses aparatos inúteis mais tarde. vou lavar a desgraça da minha carapaça. então café, então um livro e descobrir onde fica a tal da praça qual? e o número, não posso esquecer o número.

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