Antes, durante, depois (diário de viagem #7)

1 – O efeito Lost in Translation: expectativas

1af52cda75051ba1c51701be1f41863d

Um dia antes da data de partida, me dou conta de que estou vendo Lost in Translation (Encontros e Desencontros, Sofia Coppola) outra vez. É automático, de tanto em tanto tempo bate a vontade. Também, é um filme tão natural. Mas não posso deixar de pensar que esta vez foi menos automática. Uma espécie de autossabotagem, porque, em geral, estou me sentindo bem, nada nervoso com a viagem que se aproxima, ajustado. Os meses pós-compra das passagens foram movidos por um esforço consciente pra não criar expectativas. Queria passar os dias como um nativo, sem esperanças de mudar minha vida ou encontrar algo que estivesse procurando – dessas coisas que estamos sempre procurando sem saber que estamos ou o que é. Mas vejo esse filme e ele é um resumo perfeito do que é e o que se espera de uma viagem. Temos Bill Murray em crise de meia-idade, perdido num universo de celebridade que sem querer ele criou pra si mesmo, de um lado; do outro Charlotte (Scarlett Johansson) que foi atrás de alguém pra um país estrangeiro e perdeu sua identidade (não o documento) no caminho. Toda a viagem traz uma espécie de perda de identidade momentânea. Fora o fato de ser um estranho em terra estrangeira. A temporalidade da presença faz dessa coisa frágil que é a identidade ainda mais inútil. Posso me apresentar a cada pessoa da cidade estrangeira, posso andar com um crachá – não vai significar nada. Ok, que saibam meu nome, em poucas horas, o que ele será? Nem memória. Logo o que pra mim é um acontecimento tão memorável, vai morrer comigo. A esperança que Lost in Translation força aos que amam esse filme é a de que conexão é possível. Sim, termina com um sussurro místico ao pé do ouvido, mas existe. É possível recuperar a identidade nesse punhado de dias. Termina o filme, todos os meus esforços partem com os créditos. Antes do fim, nem sabia que estava assistindo algo, perdido nas minhas próprias invenções sobre o futuro próximo. Quem sabe alguém no hotel. Quem sabe alguém na cidade. Não que precise ser Charlotte (e não que eu já seja Bill Murray), não que precise ser memorável… Já, rápido assim, não sei mais o que eu quero mesmo, onde eu quero chegar.

2 – Suspeita e surpresa são palavras parecidas

IMG_0229

Sigo as instruções do cara do sebo pra chegar no metrô. Desço as escadas. A cada tantos passos tem um mapa da cidade coberto de linhas legendadas representando o caminho que seguem os metrôs. Estou entre a cabine e a catraca. Pergunto pro segurança, um dos muitos, qual é a mágica. Diz pra que eu vá na cabine e eles vão me informar. Faço isso e me pedem o cartão Sube, que não sei o que é, mas eles agem como se eu devesse saber. Dias e dias de pesquisa e não sei porra nenhuma, mal sei espanhol, apesar dos 6 anos que passei no curso encerrado 9 anos atrás. A atendente diz que normalmente poderia comprar ali, mas estava em falta. Diz que vende em toda a loja de conveniência, então subo as escadas e compro o cartão na primeira delas que vejo, por 50 pesos, e me recuso a pesquisar pra saber qual o tamanho da faca que cravaram nas minhas costas. Decido aceitar, decido que vou aceitar praticamente tudo nessa viagem, me abrir às novas experiências. É pra isso que se viaja, não?

Cartão carregado com vinte pesos, causo um distúrbio na catraca por não saber manejá-la, mas logo acerto o cartão no sensor e consigo passar. Estou esperando o metrô – da linha B ou da linha D, na estação Scalabrini Ortiz ou Pueyrredón ou qualquer outra do complexo ninho subterrâneo… não sei qual e a distância que separa as opções que minha memória traz à tona demonstra o quanto caminhei pra lá e pra cá antes de pegar um rumo certo -, que vai me levar à estação Florida, a mais próxima da casa de câmbio, ou iria, se ela não estivesse fechada por algum motivo, algo entre uma reforma ou um protesto organizado pra acontecer mais tarde naquele dia. Descido que não mais vou tentar me encontrar por conta própria. Pergunto ao cidadão na minha frente se ele sabe onde fica a Calle Sarmiento (tinha escutado que a Cambio Alpe, nessa rua, tinha as melhores cotações) e ele diz que sim, mais rápido seria descer na Florida mesmo, que me jogaria a uma quadra do meu destino, mas a em que havíamos chegado (9 de Julio ou Carlos Pellegrini) não era tão distante. Saímos do vagão e ele me pergunta de onde eu sou, porque meu espanhol não engana ninguém. Digo que do Brasil. Ele começa a tentar falar português e fala do quanto ama o Brasil e o quanto sua irmã ou prima ou cunhada ou algo que o valha ama o Brasil ainda mais que ele.

Já sobre o solo, percebo que ele segue ao meu lado, falando; eu escuto, faço uns ruídos pra indicar que entendo, mas quero saber qual o motivo de ele ainda estar ali. Pergunto pra que lado fica a rua num tom de obrigado mas agora eu me viro. Ele diz que é pra lá, mas que eu não me preocupe porque é o caminho dele, ele me guia. Fala que ali é o Centro, a parte mais turística de Buenos Aires.

Já esteve aqui antes?

Não – tenho minhas mãos no bolso, uma na chave do hotel, qualquer movimento brusco e acerto o olho do cidadão. Ele é um pouco menor que eu, deve ter por volta de cinquenta anos, não parece capaz de fazer mal a ninguém, mas nunca se sabe. Passar informação é uma coisa, de fato se esforçar pra ajudar alguém é motivo de suspeita. – Acabei de chegar.

Ali – aponta -, o Obelisco.

Não é que é mesmo?, digo. Tento não demonstrar suspeita. Acho que ele vai tentar me roubar ou qualquer outra coisa, ninguém pode ser tão amigável a ponto de levar um estrangeiro desconhecido pra onde ele precisa ir, algo não está certo. Olho pro Obelisco, mas nunca entendi a graça dele. Não me comovia à distância, não me comove em pessoa. É um grande palito de churrasco, um símbolo fálico despontando no meio da cidade.

Mas é aqui, no Centro, que você vai encontrar a maior parte dos teatros e cinemas. Só cuidado que tem muito batedor de carteira. Você não vai trocar o dinheiro na rua, né?

Não, estou indo numa casa de câmbio mesmo.

Ah, bom. Antigamente fazia diferença, mas aí o Macri veio e… bom, está do jeito que está.

E falamos um pouco de teatro e um pouco sobre segurança e taxas de câmbio. Pergunta o que mais me interessa em Buenos Aires e falo do meu gosto por literatura e trocamos uma ideia sobre Cortázar e Borges.

Tem um café em homenagem ao Cortázar por aqui, não tem?, digo. Onde ele escreveu

Los Premios, sim, é aqui perto.

London City, o nome.

Isso. Olha, agora não é mais o que costumava ser. Mas vale a pena a visita, é um belo café e aqui perto, na esquina da Plaza de Mayo, que, por sinal, você deveria ver, é outro ponto turístico… histórico, como o Obelisco, onde fica a Casa Rosada.

Passamos por uma das El Ateneo na cidade.

Essa é a maior livraria de Buenos Aires, e olha que tem muitas. Depois vai lá, mas não nessa. Tem outra, na Avenida Santa Fe, Grand Splendid, costumava ser um teatro ou um cinema. Um espetáculo o lugar. E imensa, tem de tudo.

A linha reta em que caminhamos parece não chegar ao fim, até que chega. Passamos por algumas casas de câmbio até chegarmos na que me interessa, e a taxa de fato é melhor; muito melhor que a que aplicaram no Brasil, um pouco melhor ou igual que a dos bancos pelos quais passei. Paramos na porta, eu agradeço.

Não há de quê, é caminho pra mim, mesmo. Até quando você vai estar aqui?

Quarta que vem.

Ah, pena que é uma semana corrida, se não te convidava pra conhecer minha família. [A cunhada ou prima ou irmã ou algo que o valha que ama demais o Brasil] ia gostar muito de falar sobre o Brasil com você. Já o London City, pega essa rua aqui (gesticula a direção) e segue reto em direção à Plaza de Mayo, não tem como errar.

Ele insiste em me passar o whatsapp, eu não vejo outra saída que não aceitar. Nos despedimos. Por hábito, ele se aproxima pro popular encostar de bochechas entre os portenhos; por hábito, brasileiro que sou, me afasto, mais por achar que é o assalto finalmente se apresentando do que qualquer outra coisa. Me explicou o hábito e aceitei isto também. Nos despedimos mais uma vez, agora sem incidentes. Entro na casa de câmbio. Vou até a mulher no canto do balcão fazer meu cadastro, mas não sabia que precisava do papel carimbado que me entregaram no aeroporto. Saí em cinco minutos do lugar que levei cinco horas pra achar. Mantive o ânimo, porque ainda não sabia a quais lonjuras minha caminhada cega em direção ao London City (que nunca encontrei) iria me levar.

3 – Recepção e decepção se parecem mais ainda

São noventa reais de Navegantes até meu apartamento, diz o taxista. O que eu já sabia, porque o preço é tabelado e foi o que eu paguei pra ir ao aeroporto. Tinha noventa reais separados na carteira, junto de cento e três pesos que não consegui gastar. O avião chegou às seis da tarde. Pegamos um congestionamento boschiano nas proximidades da balsa que parecia se estender por toda a cidade. Quero mostrar a ela um pouco da cidade, mandar umas fotos, mas não quero tirar o celular do bolso. Quase duas horas depois estou em casa – na esquina, porque o taxista errou o caminho. Gente carregando bandeiras de um candidato a prefeito ocupa a rua em frente ao prédio, toca a versão sertaneja de sua música tema. Quero ir embora outra vez. Tiro fotos das pessoas com as bandeiras e mando pra ela, como legenda: quero voltar. Ela responde: me encantan las palmeras. Talvez, em Buenos Aires, só tenha tido tempo de ver as palmeiras. O desejo de voltar e ficar por lá seja só reflexo ilusório causado pela visão limitada da pausa temporária que se dá na vida durante as férias. Não muda o fato de que já sinto falta.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s