Sobre peixes voadores (Diário de viagem #8)

Contexto e cenário

Um bar sobre o qual li num blog, uma postagem em que artistas portenhos falam dos locais da cidade em que se pode ouvir música, tomar café, apreciar cultura, longe dos turistas que tomaram e enfeiaram parte da cidade e a deixaram mais caótica. Escolhi esse, dos lugares, porque ficava na avenida do meu hotel. A imensa Avenida Córdoba, em que larguei, em diversas das suas quadras, pedaços das minhas pernas, que se soltaram durante meus flanares. Parecia um bar de sonho. Tocavam bandas locais, permitiam que elas tocassem músicas próprias. Não tinha placa de identificação em canto nenhum, era só uma porta numa casa antiga, que levava a uma escadaria, que levava ao bar. Vuela el Pez, seu nome. Deve haver um motivo pra isso, o nome e as outras características. Lembro que comentei com amigos, muito antes de saber da existência dum lugar desses, que, se eu tivesse fontes infinitas de dinheiro, abriria um bar de jazz e outros estilos, sem placa, sem anúncios, onde bandas poderiam tocar o que quisessem pro público que as quisesse ouvir. Lá estava uma versão dele, real, não minha, mas pulsante. Sexta-feira, a viagem, até então, um tanto tediosa. A cidade era um espetáculo, os museus e livrarias e cafés, cada um que conhecia, me embasbacavam toda a vez. Mas faltava algo, algo que me fizesse querer ficar, me fizesse querer voltar sempre.  Além do mais, a melancolia da solidão estrangeira estava perdendo o charme e ficando triste. Procurava alguma coisa, queria alguma coisa, mas não sabia o que era essa coisa ou por que eu a queria e a procurava.

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souvenir

deslumbrado e no escuro, lidando com pernas que não aguentam mais o corpo. as paredes expõem versos de Alejandra Pizarnik e quadros cheios de cor pintados por gente desconhecida, enfeites que se escondem quando as luzes se apagam. a banda toca aquele rock que as bandas que querem ser consideradas boas tocam,
meio jazz
meio rock
meio reggae
meio tudo
meio nada
pausas imensas instrumentais
vocais galáticos poetizando coisas vagas
aquele velho som original
que todas as bandas novas imitam,
iluminada, detrás, por luzes de natal brancas. o remédio é uma cerveja roja litrão tão fraca que mal sai da garrafa e não sobe à cabeça por nada. cerveja, a uma coisa sobre que aquele povo parece não entender coisa alguma. tratando cerveja por cor, sem cabimento. mas que tipo é?
não sei. tem da roja, da negra, da rubia. la buena, la mala y la fea.
vá da roja, que seja, ela me dá a garrafa e um copo de plástico, volto à mesa com uma coisa em cada mão.

garota loira vem e pede as cadeiras desocupadas da minha mesa para que ela e sua amiga se juntem a um grupo de amigos dela.
estou falando com essa cadeira, mas, se você precisa, vá em frente.
frase tão complicada quando dita por um estrangeiro, ela tem de esperar pra ver se significa o que acha que significa e somente então se deixa bufar um riso.
minha mesa é tão frequentada, gente que vai e que vem e que puxa papo como se me conhecesse, só porque estou sozinho e, fora a garrafa e o copo, não tem nada sobre a mesa.
é que aqui se compartilha, diz um cara,
mas eu não recusei, não precisa justificar. estou tão mas tão só que qualquer companhia faz bem. quase peço pra que usem a minha mesa e não a de outro. e a ocupam com copos, uma pizza caseira, mais copos.
de onde você é?, moça do novo grupo que ocupa meu espaço pergunta
e quase conto minha vida pra ela. não falava havia doze horas, mais que isso. quão rápido passam os minutos do álcool. falo da distância que tive que percorrer pelas ruas portenhas, culpa minha por ter me perdido, enquanto ela se esforça pra superar meu sotaque e a música alta e pra entender o que eu digo. como a cidade tá te tratando é uma pergunta que se repete.
melhor do que eu esperava.
mas sempre espero ser escorraçado, quiçá porque me escorraçaria.

cidade nova, personalidade nova. larguei a insociabilidade no aeroporto. amo a tudo e a todos e a sensação não me queima por dentro tanto assim. falo com estranhos. todos são estranhos. sempre preferi estranhos aos conhecidos. estranhos só podem surpreender. vou atrás de outra cerveja, mas antes trafego o caminho enevoado que leva ao banheiro.
a moça do balcão mal me escuta.
meu português tampouco é bom, ela diz e ri.
a gente se vira como pode com o que tem,
eu digo enquanto pago pelo chope que pedi, e volto à mesa. a garota de antes me vê e me devolve minha cadeira. preciso ser cavalheiro, é meu momento james bond. tão raros esses momentos.
por favor, eu insisto, eu digo. (there’s a man who leads a life of danger…)
não vou tirar sua cadeira, você tá mais cansado que eu, vem, ela diz.
insisto mais.
ela insiste mais que eu.
pego a cadeira de volta porque tá ficando chato (secret agent man secret…) e ela e seu grupo encontram uma mesa própria e me largam à solidão e à música. viva à música, minha mão acompanha o ritmo estapeando de leve a mesa. olho pra garota à mesa na frente da minha.
aquele bar, aquela porta
sem placas no meio
da avenida que leva a uma
escadaria escura feito arma-
dilha de filme de gângster
que leva à arte não às
armas,
símbolo, lição pra vida exemplo duma hipótese de humanidade melhorada?
onde demos errado que perdemos
a sensibilidade pr’essas coisas?
a garota não me olha de volta, acho que vai embora uns minutos depois, uma hora depois, minutos escorregadios de cerveja. quantas músicas essa banda já tocou e por que já preciso ir ao banheiro de novo? quantas vezes me apaixonei desde que entrei aqui? me pergunto se ninguém mais vai aparecer pelo resto da noite, se melhor não seria ir embora de volta ao hotel e evitar a ressaca que debilitaria o dia seguinte.
não tenho planos pra sábado.
nem domingo, nem dia nenhum
até minha volta.
deveria ter me planejado melhor.

na semana antes dessa estava bebendo e ouvindo música num outro lugar, no meu país. sempre um pouco diferente. ali ou em outra esquina, é outro mundo sempre, próximo ou distante. aqui noto uma ausência geral de adornos, esta é a diferença. nada certo ou errado, só diferente. e os dentes. dentista portenho morre de fome. naquela noite, um dia antes da partida, tomava da boa cerveja brasileira, da qual sentia saudade por não ainda ter encontrado da boa cerveja argentina, e nem ligava, tão bêbado tinha ficado sem perceber, que, depois da apresentação de algumas bandas novas até que interessantes, quem começou a tocar era raimundos. pelo menos esse risco eu não corria na argentina, mesmo que, lá, o brasil me perseguisse a cada esquina. imagino a banda no palco começando um improviso jazz fusion de desafinado, um return to forever encontra joão gilberto encontra minha solidão exagerada. não acontece.

deixo meu copo meio vazio na mesa e vou ao banheiro de novo. a cada ida o percurso fica mais longo. e toda a volta traz uma surpresa. minha mesa ocupada por três garotas. paro ao lado da mesa, não quero interromper, mas peço licença e estico o braço pra alcançar meu copo no meio delas.
me desculpa, não tinha ninguém só o copo, achei que
não tem problema, fica tranquila, a mesa é sua.
de onde você é?
brasil.
ele é brasileiro, ela diz pras amigas, nem de perto tão interessadas.
trocas de olhares generalizados e meneios de cabeça e goles nos copos de campari.
meu nome é ala…
a-la-o que?
a-la-na.
alana.
isso. sou alana, ela é … e ela é …
constranjo sem querer a terceira, não entendo o nome dela. mas rimos, todos, elas da minha linguagem limitadíssima e esforços pra compreender e ser compreendido, eu sem qualquer motivo. me esquecerei dos nomes das outras duas, mas o de alana permanece. ela, quando me distraio e acho que nossa interação acabou, me cerca de perguntas:
o que te traz a buenos aires?
um pouco de tudo. a cultura principalmente. gosto muito de literatura argentina.
quem, por exemplo?
cortázar
sim. borges?
sim, borges, grande borges, alejandra pizarnik tem uns poemas dela na parede aqui
ela eu não conheço bem.
espera iluminar um pouco, aí você lê e vê o que acha. césar aira, também gosto, e tem um monte que tô descobrindo, roberto arlt.
o que você tem feito por aqui?
me perdi
hahaha
e muito o dia todo.
é uma cidade bem grande.
mas achei o malba
amo esse museu.
fui lá hoje.
hoje?
essa tarde.
o que achou?
um espetáculo. achei vários artistas brasileiros por lá.
sim, tem muita coisa do brasil aqui.
muita. conhece alguma coisa de lá?
amo paulo freire, de paixão. conhece?
um pouco.
e ela fala de pedagogia, em que ela se formou, que trabalha de niñera (a mágica das palavras, aqui, por niñera, relaciono a ninhos, o que não faz o mínimo sentido. levo um tempo pra lembrar de niños, mas mesmo aí não sei se ela trabalha de professora, se numa creche, num orfanato, e prefiro não perguntar pra não exigir dela uma explicação muito complicada pros meus ouvidos debilitados de bebum estrangeiro. noutro dia lia um poema com o verbo alejar e pensava que a poeta se machucou e estava exagerando dizendo que foi aleijada por alguma coisa, só muito depois lembro que lejos é longe e alejar, logo, é distanciar. que tipo é um cara, não um tipo, uma maneira/forma/jeito. como é fácil falar mal o espanhol e achar que se sabe muito) e leu quase tudo do freire e eu falo do quanto ele é combatido por gente burra no brasil enquanto a banda toca e nós mal nos entendemos. ela fala que também estuda teatro, quer ser ou é atriz, mas era niñera dois minutos antes. relaciono os dois sem saber o que é o um direito. eu ainda tenho cerveja no copo a essa altura? ela está de pé em minha frente? sentada ainda?
o que mais você quer fazer aqui?
ainda tenho uns lugares pra conhecer. queria ir no teatro e no cinema, uma vez pelo menos.
teatro… amanhã eu vou estar en La Noche de los Teatros, sabe o que é?
nem ideia.
ela explica do festival de teatro, grátis, no auditório de uma praça.
várias peças.
você vai atuar?
não, não. só assistir. ainda é cedo pra mim, um palco desse tamanho imagina.
qual a praça?
um minuto
ela rasga um papel de dentro da bolsa, escreve o nome da praça, o nome e o número dela.
aqui. e escreve aqui – outro pedaço de papel – seu número e nome pra gente se falar. mas seu número é brasileiro. tem facebook?
não.
e agora?
whatsapp?
tenho, pode ser.
escrevo. espero que certo. que nenhum número ou letra sobreponha outro.
amanhã você não vai se apresentar, mas e outro dia? é possível te ver num palco?
não tão cedo. pouco tempo atrás fiz stand-up, sabe o que é?
comédia stand-up?
isso.
uau.
é mais um hobby, o que me interessa mesmo é o teatro.
certo.
bailás?
no. pero puedo moverme alrededor de ti en cuanto tu bailas.
hay una primera vez para todo, ven..
e dançamos? ela dança. eu não sei o que estou fazendo. não só no que se refere à dança. flutuo por aí, flutuei por buenos aires e vim parar no vuela el pez até parar debaixo do pé de alana. ou meu pé sobre o dela. não, não foi o pé dela que eu pisei, estou pensando num caso no brasil anos atrás em que me vi numa situação parecida. várias vezes, quase toda vez que me vejo com uma desconhecida num bar ou festa ou local em que se bebe e há música danço sem saber que dancei. longe de ser primeira vez. qualquer coisa entre mim e alana, longe da primeira vez, mas primeira de qualquer forma. a primeira vez portenha, as segundas primeiras vezes da vida, sempre diferente. primeiras vezes portenhas, um bom título pra isso, lembra aguafuertes porteñas, quase. ou não. a amiga de alana, a terceira, a do nome curioso, oferece a bebida no copo dela. é campari. bebo e a doçura choca minha língua e minha garganta até o estômago.
dulce, digo.
sí, es bastante dulce.
volto pra alana ou ela me puxa de volta.
vamos lá fora tomar um ar? aqui tá meio
ok.
abafado.
vamos pro lado de fora da sala, pra outra sala, a que leva aos banheiros, onde as pessoas se reúnem em mesas pra fumar ou respirar o ar puro da fumaça. está mais claro, posso ver direito o rosto dela, mas não darei a ela alguma forma concreta até domingo, o dia sóbrio. vamos prum canto. hesito sem querer, o algo sob controle que em mim resta.
tem certeza?
algum problema?
nenhum. mas eu não vou ficar aqui, enquanto nossos rostos lentos caem um sobre o outro em confortável colisão.
nossas línguas se apresentam. meus sentidos tomados pela cerveja. ela parece bem. a multidão ao redor some aos poucos. não estão nas minhas lembranças. antes parecia tão cheio.
quando você volta?
ela pergunta, eu diria quanto tempo havia passado entre o beijo e a pergunta se tempo ainda existisse no cenário.
quarta.
quarta temos tempo.
um pouco.
aqui os acontecimentos se bagunçam. entre beijos e balangares arrítmicos, ela me rodopia, eu a rodopio,
(ela se afasta e seus lábios se movem. não escuto. ela se aproxima do meu ouvido. escuto, mas não entendo. ela repete. ela repete. outra vez.) eu desisto:
não te entendi, me desculpa mesmo, mas aceito.
como?
não sei o que você disse, mas aceito.
você estuda improviso?
como?
improviso?
improviso?, não, nunca fiz nada relacionado a atuar, por quê?
ah, é que aceitar sem entender é uma das bases desse estilo, sabe?, pra dar continuidade as cenas, entende?
entendo, mas não, nunca fiz. deveria fazer?
e trocamos ideias sobre coisas da vida, indo do teatro e atuação à
música: me pergunta se sei que é reggaeton, digo que não, só sei do reggae sem ton; pergunta se gosto de axé, digo que não sei qual axé chega por lá, mas no brasil é comercial demais e onipresente, não consigo ouvir.
filme: pergunto se ela viu lost in translation (encontros e desencontros ou como se chame em espanhol, não saberia traduzir) porque desde antes da viagem o filme não me sai da cabeça, ela diz que não, nunca ouviu falar, mas vai pesquisar depois. não acho que desde então tenha visto, o título deve ser outro.
fala de reggaeton porque pode ser que algo parecido com isso tenha começado a tocar. surge uma terceira banda. não consigo ver de onde estou. nossos beijos ganham tom de despedida.
diz que não mora tão perto dali e precisa da carona da amiga. digo que o meu hotel é perto. não lembro se a convido pra vir comigo, se precisa de convite, se ela percebe o convite. a despedida se adia. nos aproximamos e afastamos várias vezes e já não sei o que se passa se é que soube antes. as pessoas ao redor começaram a surgir de novo, como se nunca tivessem sumido, uma por uma. tenho a sensação de que estou sendo observado.
acho que vou voltar lá pras minhas amigas, mas a gente se vê.
sim, eu te ligo amanhã.
parte de mim tem vontade de voltar à mesa, pegar outra cerveja. quando foi que decidi ir embora? por que nos despedimos? outra parte não tinha disposição de continuar a noite. mas, antes de concluir os pensamentos, estou no meio da escadaria, chegando à rua, tonto, digerindo acontecidos, tentando quebrar o recorde de imagens mentais que um cérebro é capaz de formar num mesmo segundo. volto pro hotel enquanto gente acaba de sair de casa. meu celular diz que passam das três. grupo de moças envelopadas em vestidos pretos pega um ônibus, senhora passeia com um imenso golden retriever. reparo que estou distraído de madrugada numa rua qualquer de uma metrópole estrangeiro. rápido, tomo jeito e volto a observar os arredores, se alguém me segue ou me olha de forma suspeita, olho os outros com suspeita. bebida também dá paranoia e tesão inconcluso. chego ao hotel são e salvo, até consigo encaixar a chave na porta do prédio e subir as escadas e acertar a chave na porta do quarto, tudo na primeira tentativa, sinal de que não bebi o suficiente.

no quarto, tiro a roupa e me dou conta, antes de jogar em mim os trapos que uso pra dormir, do insistente voluntário pronto pra ação cancelada ainda há pouco. peço desculpas, digo que nada vai acontecer essa noite, mas não basta pro pobre endiabrado.
deveria de haver uma lei contra ti.
espera quer dizer que há?, pois bem.
não há outra saída que não enrolar um tanto de papel higiênico e achar, no celular, qualquer fantástica encenação que apazigue os caprichos deste velho e mimado mestre, deus demente, duas partes dionísio uma parte nero. deito nu na cama e encontro qualquer pose que ajeite os envolvidos de forma confortável o suficiente. me corre à mente a ideia de pensar em alana, mas não não nunca sujeitar sequer representação imaginária dela ao que livre percorre minhas circunvoluções nos momentos de alívio solitário nunca pior dos crimes. horrível o ser humano que mistura suas fantasias individuais do plano das ideias com as suas fantasias de carne e osso. que história ridícula é essa de que um vídeo não basta, de que este não satisfaz e quer outro em seu lugar? dez minutos atrás estava desesperado. que seja. cumpro com as demandas de sua majestade até que ela dispara e então escorre e então pinga pela superfície do papel. o dobro e o jogo no lixo. visto meus trapos e me deito na cama.

nove da manhã e minha cabeça acorda aos berros só por causa das tantas cervejas. peças do quebra-cabeça, por incrível que pareça, se perderam pelas poucas horas em que adormeci. o número de alana, encontro no bolso do casaco de ontem. tento sem sucesso incluir no meu celular. preciso de café, desvendo o mistério do funcionamento desses aparatos inúteis mais tarde. vou lavar a desgraça da minha carapaça. então café, então um livro e descobrir onde fica a tal da praça qual? e o número, não posso esquecer o número.

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Como tomar no cu sem fazer sexo: analisando 50 Tons de Cinza (E. L. James – 2011) – parte 2

Quando a internet e a genialidade se encontram.

 

3. Os três patetas: Anastasia, Inconsciente e Deusa Interior

Personificações do Tico e Teco, as vozes na cabeça de Anastasia, que tornam o pensamento dela mais claro (?) e a leitura insuportável, são chamadas Inconsciente e Deusa Interior. Um passa a história insultando Anastasia enquanto o outro só se masturba. Antes que eu me adiante, vamos definir a personalidade dessas duas alucinações, sim?

Comecemos pelo Inconsciente porque, dos dois, é o que mais me emputece. Não se enganem, a Deusa Interior é tão ruim quanto, mas ela é o tipo de idiota inofensiva, enquanto o Inconsciente é uma demonstração do quanto a autora não estava preparada para escrever o horóscopo de uma revista de fofoca, que dirá um romance. Desde a primeira página, o Inconsciente serve como o bom senso, o lado inibitivo da “mente” de Anastasia, que, por sarcasmo mal escrito e tentativas sem graça de piadas autodepreciativas – afinal o inconsciente é parte de Anastasia, tenha ele consciência disso ou não –, tentam mostrar a ela que o que ela está fazendo é errado ou incompatível com a personalidade dela ou apontar um mal a ser evitado. Em termos psicanalíticos, é o Superego. Isso mesmo, caros leitores, uma das coisas mais presentes nesse livro é, por definição, um erro. É difícil explicar como isso aconteceu. E. L. James deve ter achado a palavra inconsciente bonita, então decidiu repeti-la o máximo de vezes possível ao longo do livro, sem nunca pesquisar no Google o seu significado. É verdade que o Superego não é de todo consciente, mas o de Anastasia parece ser, visto que ela tem um acesso muito claro a ele – e mesmo assim o chama de Inconsciente. Nenhuma das milhões de leitoras parou para pensar nesse detalhe? Não é preciso um diploma em psicologia pra perceber que tem algo errado. Então é isso, o Inconsciente é só essa coisa que passa o livro todo reprimindo Anastasia e sendo ignorado, tanto pela personagem quanto pelo leitor, que, inevitavelmente, passa a pular as frases em que ele aparece.

A Deusa Interior, por outro lado, é um tipo completamente oposto de chateação. Ela dança, comemora, pula etc. Mantendo a civilidade, ela é o Id da personagem. O impulso, a fonte da libido, os desejos e por aí vai. A Deusa Interior, sendo franco, é a vagina da Anastasia. Mas deus nos livre da palavra vagina aparecer no texto. A autora tem algum problema com qualquer menção nominal aos órgãos reprodutivos. É bem verdade que o uso de termos biológicos num livro de sexo pode fazer as cenas soarem como uma aula de anatomia, mas nem apelidos ela usa. Ela poderia ter vulgarizado de vez e soltado logo a boceta, ou, como pelo visto ela não tem medo do ridículo, lançar uma xoxota aqui e ali, até perseguida poderia ser perdoado em lugar da real escolha da autora. Não, ela tinha que fazer a personagem dizer coisas como “lá embaixo”, que não é nem um eufemismo digno. A mais ingênua das mulheres não usaria essa expressão. Lá embaixo é o que uma criança responde ao juiz quando ele lhe pergunta: “onde foi que o padre te tocou?” Mas eu estava falando da Deusa Interior. É que não tem muito a se falar sobre ela, por isso eu me perco nos meus pensamentos – deve ser meu inconsciente trabalhando. A Deusa Interior é o equivalente feminino do “pensar com a cabeça do pau”, nada além.

Então o leitor é forçado, pelas quase quinhentas páginas, a ler dezenas e dezenas de breves reações do Inconsciente e da Deusa Interior aos pensamentos e escolhas de Anastasia. Que eu me lembre, os dois nunca se encontram. Eles sempre se dirigiam diretamente a Anastasia, nunca um ao outro, o que foi uma oportunidade perdida para muita galhofaria, tortadas na cara e dedos no olho, no maior estilo Moe (Inconsciente), Larry (Anastasia) e Curly (Deusa Interior). Nada disso muda o fato de que, se o editor tivesse passado a faca em todas as menções a essas duas criaturas, a leitura teria sido menos desagradável, pra começar porque isso cortaria pela metade o número de páginas.

4. Falsa luz no fim do túnel e a raiz de todo o mal

Então, já no último capítulo ou algo assim, eu me surpreendo. Pela primeira vez, Anastasia toma uma decisão acertada. Ela leva umas porradas do pica das galáxias e decide que chega, aquela vida não é para ela, os dois não devem mais se ver. Seria isso um sinal de amadurecimento?, E. L. James mostrando que não é só uma escritora incompetente, mas alguém com inconsciência, decidida a quebrar o formato padrão das histórias sobre meninas inocentes tentando mudar os homens terríveis por quem elas se apaixonam? Não, porque o livro tem duas continuações, logo não é necessário ler todos os volumes pra saber que ela volta atrás e ele promete mudar e os dois voltam a ficar juntos e se casam e têm dois filhos e meio e um Golden Retriever e então as agressões do pica das galáxias começam a ficar mais frequentes principalmente porque o corpo de Anastasia já não é aquilo tudo e a pica já não está explorando tão bem a galáxia fazendo umas aterrizagens de emergência ou não decolando e Anastasia desenvolve um vício em antidepressivos e analgésicos e as crianças descobrem a sala de jogos e o cachorro morre de câncer e finalmente eles terminam em um longo e doloroso processo de divórcio em que nenhum dos dois é visto como capaz de criar as crianças e os dois se suicidam. Eu posso sonhar; a autora não escreveu o que vem depois do felizes para sempre.

Pois é, por um momento eu quase vi algo que pudesse redimir essa história. Se ela tivesse ido embora e não tivesse continuação, o livro continuaria sendo uma merda mal escrita, mas teria uma razão de ser. Mostrar que não dá pra mudar um parceiro abusivo, que certas pessoas são incompatíveis, enfim, uma versão adulta da história. Se ela tivesse feito isso, com toda a honestidade, eu teria dito que o livro é uma merda. Do jeito que está, ele é uma merda ofensiva, insistindo que amor e persistência podem mudar uma pessoa. Receita para um desastre. E tem gente que acredita. Por mim, se as pessoas estivessem elogiando o livro porque todo mundo gosta de uma sacanagem, tudo bem. O livro é péssimo em sacanagem também, mas não vem ao caso, cada um com seus gostos. Mas daí a dizer que é uma história de amor, superação e o caralho à quatro, isso é intragável e, dependendo do quanto a leitora em questão realmente acredita nisso, prejudicial.

A maneira como as pessoas mais apaixonadas por essa história insistem que Anastasia se interessa por algo mais no seu Grey que os bilhões de dólares e a vara me intriga. Nada no livro dá a entender o contrário. De vez em quando Anastasia diz para si mesma que não é isso, mas ela não é capaz de definir o que é. E o pior de tudo, e que categoriza o abuso na relação, é que ela nem tem padrões comparativos adquiridos em relações passadas para ajudar a definir se o que ela está vivendo é bom ou não. Nada do que ela diz sobre o relacionamento é confiável, nem mesmo o tamanho do dote do ricaço. A mulher nunca nem se masturbou antes de transar com ele, como ela sabe que ele é tão grande assim? Ela não conhece nem os próprios dedos, porra. E mesmo que ele tivesse aquilo tudo, baseado nas descrições da autora, as proezas sexuais do cidadão não funcionariam na vida real. É que, pra sorte dele, ela guardou todos os orgasmos que ela não atingiu em sua vida adulta dentro de um armário na casa da Deusa Interior e ela é capaz de atingir cinco em sequência com o toque de uma pluma. Até a autora tem suas dúvidas sobre a capacidade do rapaz e vive se forçando a avisar as leitoras de que o que acabou de acontecer foi sexy, só para que não reste dúvidas.

Minha dica para Anastasia e qualquer outra moça que possa estar envolvida em um dilema desses na vida real é: se o cara aparece na loja em que você trabalha sem que você tenha dito para ele onde é, você pergunta como ele descobriu e ele responde que tem seus meios, ele compra corda, um taco de baseball, uma máscara de esqui e uma motosserra, e então te convida para sair, diga não. Então corra o máximo que suas pernas suportarem, mude de país ou compre algumas armas de fogo.

5. Conclusão

O fato de que esse livro atingiu os números de venda que atingiu e se tornou tamanho fenômeno me impressionaria se as pessoas já não tivessem esse hábito de comprar livros ruins. É normal, temos aí Paulo Coelho, Dan Brown, Stephenie Meyer. Tudo que ela fez foi escrever um livro ruim com sexo. Fórmula para o sucesso. A surpresa é que demorou tanto tempo para acontecer.

Todas as leitoras que dizem amar esse livro por serem mulheres liberadas e bem resolvidas com a própria sexualidade, sinto em lhes dizer, mas não é verdade. Esse livro é literatura erótica para quem não gosta de literatura erótica, é sadomasoquismo para quem não sabe o que é sadomasoquismo, é sexo para quem não faz sexo. Ruim em todos os graus, tanto literários quanto eróticos, falhando em tudo aquilo a que se propõe fazer. Isso é tão claro que pode-se dizer que as pessoas que gostariam de ler 50 Tons de Cinza já leram, e aqueles que não gostariam perceberam pelo faro o lixo literário irredimível que é esse livro. A única coisa que eu gostaria de ler relacionado a 50 Tons de Cinza é a perspectiva da faxineira do senhor Grey. As coisas que essa mulher já deve ter visto e sofrido, isso sim é uma história.

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Texto originalmente publicado, na íntegra, em 2 de novembro de 2015, aqui: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/11/como-tomar-no-cu-sem-fazer-sexo.html

Antes, durante, depois (diário de viagem #7)

1 – O efeito Lost in Translation: expectativas

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Um dia antes da data de partida, me dou conta de que estou vendo Lost in Translation (Encontros e Desencontros, Sofia Coppola) outra vez. É automático, de tanto em tanto tempo bate a vontade. Também, é um filme tão natural. Mas não posso deixar de pensar que esta vez foi menos automática. Uma espécie de autossabotagem, porque, em geral, estou me sentindo bem, nada nervoso com a viagem que se aproxima, ajustado. Os meses pós-compra das passagens foram movidos por um esforço consciente pra não criar expectativas. Queria passar os dias como um nativo, sem esperanças de mudar minha vida ou encontrar algo que estivesse procurando – dessas coisas que estamos sempre procurando sem saber que estamos ou o que é. Mas vejo esse filme e ele é um resumo perfeito do que é e o que se espera de uma viagem. Temos Bill Murray em crise de meia-idade, perdido num universo de celebridade que sem querer ele criou pra si mesmo, de um lado; do outro Charlotte (Scarlett Johansson) que foi atrás de alguém pra um país estrangeiro e perdeu sua identidade (não o documento) no caminho. Toda a viagem traz uma espécie de perda de identidade momentânea. Fora o fato de ser um estranho em terra estrangeira. A temporalidade da presença faz dessa coisa frágil que é a identidade ainda mais inútil. Posso me apresentar a cada pessoa da cidade estrangeira, posso andar com um crachá – não vai significar nada. Ok, que saibam meu nome, em poucas horas, o que ele será? Nem memória. Logo o que pra mim é um acontecimento tão memorável, vai morrer comigo. A esperança que Lost in Translation força aos que amam esse filme é a de que conexão é possível. Sim, termina com um sussurro místico ao pé do ouvido, mas existe. É possível recuperar a identidade nesse punhado de dias. Termina o filme, todos os meus esforços partem com os créditos. Antes do fim, nem sabia que estava assistindo algo, perdido nas minhas próprias invenções sobre o futuro próximo. Quem sabe alguém no hotel. Quem sabe alguém na cidade. Não que precise ser Charlotte (e não que eu já seja Bill Murray), não que precise ser memorável… Já, rápido assim, não sei mais o que eu quero mesmo, onde eu quero chegar.

2 – Suspeita e surpresa são palavras parecidas

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Sigo as instruções do cara do sebo pra chegar no metrô. Desço as escadas. A cada tantos passos tem um mapa da cidade coberto de linhas legendadas representando o caminho que seguem os metrôs. Estou entre a cabine e a catraca. Pergunto pro segurança, um dos muitos, qual é a mágica. Diz pra que eu vá na cabine e eles vão me informar. Faço isso e me pedem o cartão Sube, que não sei o que é, mas eles agem como se eu devesse saber. Dias e dias de pesquisa e não sei porra nenhuma, mal sei espanhol, apesar dos 6 anos que passei no curso encerrado 9 anos atrás. A atendente diz que normalmente poderia comprar ali, mas estava em falta. Diz que vende em toda a loja de conveniência, então subo as escadas e compro o cartão na primeira delas que vejo, por 50 pesos, e me recuso a pesquisar pra saber qual o tamanho da faca que cravaram nas minhas costas. Decido aceitar, decido que vou aceitar praticamente tudo nessa viagem, me abrir às novas experiências. É pra isso que se viaja, não?

Cartão carregado com vinte pesos, causo um distúrbio na catraca por não saber manejá-la, mas logo acerto o cartão no sensor e consigo passar. Estou esperando o metrô – da linha B ou da linha D, na estação Scalabrini Ortiz ou Pueyrredón ou qualquer outra do complexo ninho subterrâneo… não sei qual e a distância que separa as opções que minha memória traz à tona demonstra o quanto caminhei pra lá e pra cá antes de pegar um rumo certo -, que vai me levar à estação Florida, a mais próxima da casa de câmbio, ou iria, se ela não estivesse fechada por algum motivo, algo entre uma reforma ou um protesto organizado pra acontecer mais tarde naquele dia. Descido que não mais vou tentar me encontrar por conta própria. Pergunto ao cidadão na minha frente se ele sabe onde fica a Calle Sarmiento (tinha escutado que a Cambio Alpe, nessa rua, tinha as melhores cotações) e ele diz que sim, mais rápido seria descer na Florida mesmo, que me jogaria a uma quadra do meu destino, mas a em que havíamos chegado (9 de Julio ou Carlos Pellegrini) não era tão distante. Saímos do vagão e ele me pergunta de onde eu sou, porque meu espanhol não engana ninguém. Digo que do Brasil. Ele começa a tentar falar português e fala do quanto ama o Brasil e o quanto sua irmã ou prima ou cunhada ou algo que o valha ama o Brasil ainda mais que ele.

Já sobre o solo, percebo que ele segue ao meu lado, falando; eu escuto, faço uns ruídos pra indicar que entendo, mas quero saber qual o motivo de ele ainda estar ali. Pergunto pra que lado fica a rua num tom de obrigado mas agora eu me viro. Ele diz que é pra lá, mas que eu não me preocupe porque é o caminho dele, ele me guia. Fala que ali é o Centro, a parte mais turística de Buenos Aires.

Já esteve aqui antes?

Não – tenho minhas mãos no bolso, uma na chave do hotel, qualquer movimento brusco e acerto o olho do cidadão. Ele é um pouco menor que eu, deve ter por volta de cinquenta anos, não parece capaz de fazer mal a ninguém, mas nunca se sabe. Passar informação é uma coisa, de fato se esforçar pra ajudar alguém é motivo de suspeita. – Acabei de chegar.

Ali – aponta -, o Obelisco.

Não é que é mesmo?, digo. Tento não demonstrar suspeita. Acho que ele vai tentar me roubar ou qualquer outra coisa, ninguém pode ser tão amigável a ponto de levar um estrangeiro desconhecido pra onde ele precisa ir, algo não está certo. Olho pro Obelisco, mas nunca entendi a graça dele. Não me comovia à distância, não me comove em pessoa. É um grande palito de churrasco, um símbolo fálico despontando no meio da cidade.

Mas é aqui, no Centro, que você vai encontrar a maior parte dos teatros e cinemas. Só cuidado que tem muito batedor de carteira. Você não vai trocar o dinheiro na rua, né?

Não, estou indo numa casa de câmbio mesmo.

Ah, bom. Antigamente fazia diferença, mas aí o Macri veio e… bom, está do jeito que está.

E falamos um pouco de teatro e um pouco sobre segurança e taxas de câmbio. Pergunta o que mais me interessa em Buenos Aires e falo do meu gosto por literatura e trocamos uma ideia sobre Cortázar e Borges.

Tem um café em homenagem ao Cortázar por aqui, não tem?, digo. Onde ele escreveu

Los Premios, sim, é aqui perto.

London City, o nome.

Isso. Olha, agora não é mais o que costumava ser. Mas vale a pena a visita, é um belo café e aqui perto, na esquina da Plaza de Mayo, que, por sinal, você deveria ver, é outro ponto turístico… histórico, como o Obelisco, onde fica a Casa Rosada.

Passamos por uma das El Ateneo na cidade.

Essa é a maior livraria de Buenos Aires, e olha que tem muitas. Depois vai lá, mas não nessa. Tem outra, na Avenida Santa Fe, Grand Splendid, costumava ser um teatro ou um cinema. Um espetáculo o lugar. E imensa, tem de tudo.

A linha reta em que caminhamos parece não chegar ao fim, até que chega. Passamos por algumas casas de câmbio até chegarmos na que me interessa, e a taxa de fato é melhor; muito melhor que a que aplicaram no Brasil, um pouco melhor ou igual que a dos bancos pelos quais passei. Paramos na porta, eu agradeço.

Não há de quê, é caminho pra mim, mesmo. Até quando você vai estar aqui?

Quarta que vem.

Ah, pena que é uma semana corrida, se não te convidava pra conhecer minha família. [A cunhada ou prima ou irmã ou algo que o valha que ama demais o Brasil] ia gostar muito de falar sobre o Brasil com você. Já o London City, pega essa rua aqui (gesticula a direção) e segue reto em direção à Plaza de Mayo, não tem como errar.

Ele insiste em me passar o whatsapp, eu não vejo outra saída que não aceitar. Nos despedimos. Por hábito, ele se aproxima pro popular encostar de bochechas entre os portenhos; por hábito, brasileiro que sou, me afasto, mais por achar que é o assalto finalmente se apresentando do que qualquer outra coisa. Me explicou o hábito e aceitei isto também. Nos despedimos mais uma vez, agora sem incidentes. Entro na casa de câmbio. Vou até a mulher no canto do balcão fazer meu cadastro, mas não sabia que precisava do papel carimbado que me entregaram no aeroporto. Saí em cinco minutos do lugar que levei cinco horas pra achar. Mantive o ânimo, porque ainda não sabia a quais lonjuras minha caminhada cega em direção ao London City (que nunca encontrei) iria me levar.

3 – Recepção e decepção se parecem mais ainda

São noventa reais de Navegantes até meu apartamento, diz o taxista. O que eu já sabia, porque o preço é tabelado e foi o que eu paguei pra ir ao aeroporto. Tinha noventa reais separados na carteira, junto de cento e três pesos que não consegui gastar. O avião chegou às seis da tarde. Pegamos um congestionamento boschiano nas proximidades da balsa que parecia se estender por toda a cidade. Quero mostrar a ela um pouco da cidade, mandar umas fotos, mas não quero tirar o celular do bolso. Quase duas horas depois estou em casa – na esquina, porque o taxista errou o caminho. Gente carregando bandeiras de um candidato a prefeito ocupa a rua em frente ao prédio, toca a versão sertaneja de sua música tema. Quero ir embora outra vez. Tiro fotos das pessoas com as bandeiras e mando pra ela, como legenda: quero voltar. Ela responde: me encantan las palmeras. Talvez, em Buenos Aires, só tenha tido tempo de ver as palmeiras. O desejo de voltar e ficar por lá seja só reflexo ilusório causado pela visão limitada da pausa temporária que se dá na vida durante as férias. Não muda o fato de que já sinto falta.

Observações aleatórias #6

1) Começar um romance novo é uma merda quando nada aconteceu com o primeiro. Sim, estou dando um passo maior que a perna. Chame de ansiedade, não quero me ver perdedor na data de resultado do concurso, sem ter outra coisa que me motive a continuar (escrevendo e tentando publicar o primeiro); não quero me ver ganhador e me dar conta de que não comecei o segundo passo ainda, que terei que começar o processo inteiro outra vez. Me lembra uma entrevista que assisti com John Barth tantos anos atrás. Ele falava duma conversa entre ele e Donald Barthelme. Barth o autor de romances tijolescos, Barthelme quase exclusivamente dedicado aos contos, alguns curtíssimos, e que, quando escrevia romances, preferia os curtos. Barthelme não entendia como Barth conseguia esperar tanto tempo pra descobrir o fim de uma história; Barth não entendia como Barthelme podia começar do zero a cada tantas semanas. Incerto se foco em contos ou em um novo romance, tento os dois e falho nos dois. Não é bloqueio criativo, é congestionamento – quando tantas coisas tentam passar pelo mesmo espaço limitado que nada passa. Nem postagem de blogue tá saindo, não por falta de ideias, só porque nada nunca fica pronto. Se não fossem essas observações, feitas na hora, de fôlego único, quase sem pensar, estaria morto.

2) Progredindo uma palavra por semana nos contos, o resto do tempo dedico à pesquisa pro futuro romance (que não sei se será segundo ou terceiro, não sei se o que acho que será terceiro ou segundo dará texto pra romance, talvez seja novela, talvez conto grande pra caralho). Pesquisa, procrastinação, começam com pê, são a mesma porra. A personagem que seria bailarina passou a ser atriz de teatro. A vida dela seguirá uma merda, mas uma merda sobre outro palco. Procuro no youtube uns vídeos de peças de teatro, salvo alguns pra depois, começo Death of a Salesman (Morte do Caixeiro-Viajante), de Arthur Miller. Começo essa peça porque é ela que montam as personagens de Forushande (O Apartamento), novo do Asghar Farhadi, que havia acabado de ver e que fiquei curioso por saber mais sobre ela. Bailarina seria bom pra filme, bastante visual, apesar de Cisne Negro já ter esgotado essa carreira. Atriz de teatro combina mais com literatura, e algumas pessoas que conheço podem me ajudar na pesquisa, o que seria mais difícil com bailarinas (pra mim, que não conheço uma). Mas preciso definir em qual peça ela estará trabalhando, em quais já trabalhou, por isso farei o esforço de ver (vídeos de peças, já que o teatro itajaiense é sofrível) e ler mais peças nos próximos meses. Quem sabe aprender escrita de roteiro, isso é uma coisa que há tempos quero me dedicar a fazer.

3) Forushande me lembrou muito El Secreto de tus Ojos (O Segredo dos seus Olhos), que também levou o Oscar de melhor filme estrangeiro uns anos atrás. Tratam de estupro e vingança, embora com diferentes graus de intensidade. O argentino trata os temas com brutalidade e envolve política sem sutileza alguma, é rápido, uma sequência explosiva de surpresas e acontecimentos culminando num prazer terrível para o espectador. O iraniano é denso, quase é possível ouvir o emaranhado de pensamentos escapando das cabeças de cada personagem, sutil que mal dá pra saber de que trata o filme – se trata mesmo do que se está pensando -, é um pavio que queima lentamente e explode numa mistura bizarra de emoções ambíguas. O vilão do argentino é irredimível, a punição mais cruel não é suficiente pra fazer o espectador sentir piedade. O vilão do iraniano quase não pode receber a alcunha, é digno de pena desde o princípio. Dois grandes filmes que só posso indicar.

4) Essa leva de observações encerro indicando o disco Playing with fire (1989), do Spacemen 3.  E não tenho nada a dizer sobre ele. Pra que escrever sobre música quando você bem pode ouvi-la?

Como tomar no cu sem fazer sexo: analisando 50 Tons de Cinza (E. L. James – 2011) – parte 1

Existem diferentes papéis que o erotismo pode exercer na literatura. Os principais, a grosso modo, seriam: transgressão, afetar o leitor psicologicamente usando descrições explícitas de atos sexuais, incomuns ou não, causando constrangimento ou, em maiores escalas, abalando costumes sociais – Marques de Sade poderia se encaixar nesse modo, assim como Georges Bataille (cujo clássico História do Olho supera, ainda nas primeiras dez páginas, toda a sacanagem contida em 50 tons de cinza; exemplo: uma moça de dezessete anos arrebenta um ovo com o cu), no entanto é válido apontar que o grau de erotismo necessário para transgredir é variável conforme o período em que vivia o escritor (uns diriam que a literatura de D. H. Lawrence é bastante recatada, mesmo assim, em seu tempo, ele foi banido, enquanto hoje é possível ver na internet duas mulheres vomitando e cagando uma na outra sem que haja investigações policiais e processos –; excitação, servir de meio sensual alternativo para pessoas que, no momento, não têm um parceiro disponível e precisam botar a mão na massa e buscar alívio solitário, ou usado para abastecer a criatividade de um casal entediado e reacender aquela pálida chama da fogueira de alcova; e, mais comum hoje, seria o erotismo como consequência existencial, em que o autor inclui a vida sexual das personagens na narrativa porque elas são representações de seres humanos e seres humanos, em sua maioria, fazem sexo. Uma categoria separada seria a dos gênios que conseguem mesclar todas essas formas, gente como: Anaïs Nin, Henry Miller e Erica Jong. De alguma maneira, o mais recente fenômeno da literatura erótica conseguiu não exercer quaisquer desses papéis.

Falo de 50 tons de cinza, a série de livros que, desde seu lançamento, vendeu 125 milhões de cópias mundialmente – mais que praticamente tudo nas livrarias hoje em dia, com exceção de autobiografias de adolescentes. Meu objetivo com a leitura foi tentar identificar a razão disso. Em nenhum momento esperei gostar do livro. Não, estaria além das minhas capacidades. A ideia era encarnar um personagem e enxergar a história com os olhos do público-alvo. Ao fim das 400 e muitas páginas do primeiro volume, percebi que foi um exercício de futilidade. Seria impossível, contudo, explicar de uma vez por que o livro falha, por isso decidi dividir a análise em temas.

1. Narrativa

Para os que vivem em uma caverna e não sabem do que se trata 50 tons de cinza, segue um breve resumo do primeiro volume (único que li e lerei):

Formanda em literatura, Anastasia Steele tem 21 anos e é virgem. Ela divide um apartamento com uma amiga chamada Kate, que escreve pro jornal da faculdade e teria que entrevistar Christian Grey, bilionário de 27 anos e responsável por toda essa merda de livro. Como Kate está doente, Anastasia a substituiu. Por motivos de enredo, o ricaço pica das galáxias se apaixona pela folha de papel sulfite que o entrevista. Acontece que Christian é um sociopata e começa a perseguir Anastasia, aparecendo em tudo quanto é lugar que ela vai. Sempre que os dois se encontram ele diz que ela não deve se aproximar, que ele tem gostos peculiares que ela não conseguiria satisfazer e coisa e tal, mas tampouco ele deixa que ela se afaste. Anastasia, que tem idade mental de uma criança de 5 anos que nunca aprendeu a não falar com estranhos, em vez de chamar a polícia, fica intrigada com o “mistério” do Christian (não com o dinheiro e com a beleza, de forma alguma) e dá sequência ao chove não molha que se prolonga por mais de 50 páginas.

Duas semanas depois, as coisas parecem avançar, e Christian leva a relação – que até então não passou de uns beijos, se chegou a tanto – para o próximo nível, mostrando para Anastasia o equivalente adulto de um homem estranho dentro de uma vã cheia de doces: um contrato regulando como se dará o relacionamento entre os dois, caso aconteça. Se você, leitor, é amante dos documentos legais, regozije-se, pois E. L. James incluiu todas as páginas do livro no contrato, para que você não perca nada. Mas Ana não se sente confortável com certos aspectos do contrato – as partes que ele diz que vai controlar a alimentação dela, que ele pretende castigá-la sempre que ela o contrariar, que ele pretende enfiar o punho no cu dela… coisas típicas desses contratos legais, vocês sabem como é – e hesita em assinar.

Os dois acabam seguindo a relação mesmo assim, deixando bem claro que aquelas tantas páginas do contrato que a autora forçou você a ler não servem para porra nenhuma. Ocorre então o despertar sexual de Anastasia – que eu cobrirei melhor durante a análise. As próximas 400 páginas envolvem apenas os dois fazendo sexo. De vez em quando Anastasia se questiona se está fazendo a coisa certa, mas logo passa – quando os dois transam de novo. E assim vai, até que ela leva uns tapas com muita força e faz aquilo que ela devia ter feito na primeira página: foge.

2. Qualidade literária

Dos muitos problemas em 50 tons de cinza, o mais aparente é a escrita. Estou certo de que E. L. James, antes desse romance, nunca escreveu sequer uma mensagem de texto. Não é de surpreender que a base para esse livro tenha sido a série Crepúsculo. Alguém pode querer me dizer agora que é tudo uma questão de gosto. Bom, é e não é. Gostar do livro é uma questão de gosto, de fato. Isso não muda a qualidade geral da prosa. Nem tudo de que se gosta é bem-feito. Eu amo Sharknado, isso não quer dizer que seja um filme bom. (É ótimo.)

Desconsiderando erros de colocação temporal (por exemplo, em uma cena, Christian Grey liga de manhã para Anastasia, ela desliga o telefone e vai preparar o jantar – ou a ligação foi longa pra caralho, ou E. L. James esqueceu que horas eram e nenhum dos revisores se deu conta – ou quem traduziu fez merda, mas culparei a autora porque ela merece ser culpada por tudo que há de errado em nossa sociedade), e outras coisas mais técnicas, o livro ainda é cheio de repetições, déjà vus e frases mal construídas. Lógico que, se você gosta do livro, chances são que você não é assim tão ligado em literatura e não se importou com nada disso – por isso mesmo não pretendo entrar em detalhes sobre a qualidade da prosa. Agora não venha me dizer que um livro em que os personagens murmuram cinco vezes por página é bem escrito.

Se existem frases memoráveis ao longo do texto é pela hilaridade não intencional contida nelas. A genial: “Eu não faço amor. Eu fodo… com força.”, vem à mente de imediato, e o livro é permeado desses pequenos momentos de comédia literária, com frases esquisitas que nenhum ser humano diria, mas que aqui são consideradas sexy por algum motivo. Desde 1977 eu não lia tantos “baby” em um livro, melhor seria que a tradutora chutasse o balde e escrevesse logo “broto” no lugar. O que me faz pensar que, para um cara que conseguiu se tornar um empreendedor de sucesso ainda jovem, sabe tocar piano clássico, pilota avião, sapateia, assobia e chupa cana ao mesmo tempo, ele é bem chato. Os dois nunca têm assunto. Toda a conversa deles se limita a trocas levemente irônicas de provocações – terminando, normalmente, em arrependimento para Anastasia, que passa as páginas seguintes temendo pela própria vida (porque o relacionamento deles é saudável) – que rapidamente se tornam cansativas e irritantes. É um desafio ler um terço do livro sem querer esganar os dois ou sem desejar que o helicóptero em que eles embarcaram caia.

Pode parecer bobagem reclamar da maneira que as personagens falam, afinal são criações da autora e ela pode fazer o que achar melhor, mas não é assim que a banda toca. Quando nada na descrição da personalidade da personagem condiz com suas ações ou jeito de ser, isso é um problema de caracterização – erro literário típico de iniciante que não percebe que, por mais que fictícias, personagens são representações de seres humanos e precisam de liberdade. E essa é a melhor maneira de definir Anastasia. Ela é formanda em letras e é a primeira da classe – se não me engano, a essa altura as informações do livro estão sendo forçadas a se retirar da minha memória para dar espaço a coisas melhores. Isso deveria significar que ela não é de todo burra. Não é o caso. A garota é sequelada. Não compreende coisas que não poderiam estar mais claras. Isso poderia ser culpa de sua inocência virginal, só que o diploma em letras quer dizer que ela leu a maior parte dos clássicos da literatura americana e/ou inglesa, que inclui muita sacanagem e, mesmo que de segunda mão, experiência de vida. Inocência é uma coisa, crescer numa bolha emocional é outra. Rompimento de hímen, até onde eu sei, não causa queda de QI. Não quero me adiantar aqui porque mais será dito quando eu me puser a analisar a relação dos dois.

Como quem narra a história é essa toalha molhada que atende pelo nome de Anastasia, o leitor está preso à mente limitada dela. E nunca na minha vida eu desejei tanto por um narrador onisciente. (Tem quem diga que preferiria uma narração do Christian Grey [o que aparentemente aconteceu – prova de que o diabo existe e está entre nós], mas, não, ele não resolveria essa limitação porque ele é tão limitado quanto ela – o mal está na raiz, a autora, que não poderia vir com uma boa narrativa mesmo que tivesse em mãos a melhor das personagens.) Como a terceira pessoa nunca surge para aliviar a mente do leitor, este é obrigado a passar as centenas de páginas ouvindo a voz patética dela falar e falar e falar e murmurar e murmurar, e, como se não bastasse, o texto ainda é cheio de interjeições infantis como “uau”, “meu Deus”, “minha nossa”, “cacete”, e variações. Puta merda – uso aqui meu direito de adicionar uma interjeição vazia. De vez em quando, ainda, a narração nos oferece acesso aos mais íntimos pensamentos de Anastasia – esses vêm em itálico. Eles são? você pergunta. Eis que os demonstro: “o que é isso?”, “o que ele quis dizer?”, quem sou eu?, onde estou? Sim, porque Anastasia tem pensamentos muitos ativos. Sua mente é tão agitada que convive com duas entidades psicológicas, separadas da origem e autoconscientes, para as quais pretendo dedicar o próximo tema.

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Texto originalmente publicado, na íntegra, em 2 de novembro de 2015, aqui: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/11/como-tomar-no-cu-sem-fazer-sexo.html