A memória das coisas (Diário de Viagem #6)

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1 –  Primeiro dia. Por burrice estou perdido. Caminho em direções aleatórias buscando um lugar onde comer ou só onde possa parar e sentar por um instante. São várias quadras acumulando atrás de mim, mas acho que sei voltar ao hotel ainda. Posso ter andado em círculos o tempo todo e estar prestes a dar de cara com a entrada do hotel. Acostumado a andar, esqueço que não sei onde estou com facilidade. Olho pra um lado, nada reconhecível. Nada atrás idem. Até me assusto quando vejo uma bela vitrine abarrotada de livros velhos bem do meu outro lado. Entro. Digo a mim mesmo que é só pra pedir informação, mas sei bem que é mentira. Eu tento, mas não consigo me enganar mais. Olho as lombadas, me interesso por quase tudo, desvio das pessoas. Fico impressionado por haver pessoas. Pego um só do Roberto Arlt, cercado de grandes volumes de sua obra completa – esses não posso, tenho que me controlar e pegar um só, até que bem barato apesar de eu estar longe de me acostumar com os números altos pra qualquer coisa. Pergunto ao vendedor, não onde estou, se ele tem algo da Alejandra Pizarnik. Fica surpreso, diz que sim, mas só um. Uma seleção que deve ser da década de 1980. Compro os dois livros. Pergunto como chego ao Centro. É muito longe, tem que pegar o metrô. Ele explica onde fica. De onde você é? Brasil. Como a cidade tá te tratando? Acabei de chegar, estou perdido, mas até que bem tratado. Chegou quando? Ontem, três da manhã. Ah! Gosta de literatura argentina? Sim, apesar de não conhecer muito mais que Borges, Cortázar, César Aira. Esses que você escolheu são muito bons, clássicos da nossa literatura. Ei, você é do Brasil… Mário de Andrade, você conhece? Bem pouco, só umas poesias avulsas. Macunaíma é meu livro favorito de todos, é genial. Traduziram Macunaíma? Sim, como não? Uau. Não tenho mais nada a dizer. No futuro, lido o livro, teria, mas não estaria lá. Acho o metrô. Primeiro sinal, dos dois que tive naquele dia, de que o Brasil persegue seus filhos onde quer que eles estejam, mais ainda se ele só estiver ali do lado. Quero guardar o endereço desse sebo para voltar nele quando estiver mais seguro, mas não faço isso. Meses depois, encontro o endereço impresso num dos marcadores de página que recebi da loja. Fica pra próxima.

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2 – A feira de livros usados da Plaza Italia é uma reunião de microcosmos. Se cada volume carregasse em si um pouco de cada um de seus donos, um pouco de cada casa em que viveu e cada incidente pelo qual passou e um pouco dos lugares aos quais foi levado, some a isso o fato de hoje estar na rua, cuidadosamente posicionado em uma das várias cabines na maior feira de livros de uma das maiores e mais movimentadas praças de uma das maiores cidades da América do Sul, não seria exagero imaginar que ele experimentou, direta e indiretamente, a maior parte da experiência humana em variedades indisponíveis à maior parte dos seres humanos. Pego um deles, antigo, a parte de cima do miolo tomada por uma camada sólida de pó, viro com cuidado algumas páginas, num instante, desejo sinceramente poder acessar pelo toque as memórias dele. Ambição excessiva. Não basta o livro ser este naco da consciência de outro ser humano, há décadas morto, concreto em minhas mãos, quero mais, quero as imagens abstratas das coisas que o objeto livro viveu. Vejo o preço do livro. Muito caro. Ponho o livro de volta em seu lugar pra que pegue mais pó e digitais e pra que talvez receba uma nova casa e experimente tantas outras coisas, não comigo. Tantos volumes diferentes, asfixia. Lembra mortalidade e presença, memória, dá uma impressão breve de sentido junto à impotência do indivíduo. Uma belíssima tristeza. Havia terminado, na noite anterior, de ler a seleção de poemas da Alejandra Pizarnik. Encontro e compro um volume de sua obra completa. Troco uma ideia breve com o vendedor sobre ela (…compra esse, aí não precisa comprar mais nada, tem tudo dela aqui… talvez… talvez, exceto pela novela que ela escreveu, A Condessa alguma coisa assim, se bem que acho que tem aqui – e pegou outra cópia – … sim, tá aqui, não sei se toda ou fragmentos… enfim, é uma obra menor dela, de qualquer forma, mas, se você gostar dos fragmentos, indico a leitura, é uma boa novela…) e sobre o preço dos livros do Bolaño, o quanto eles acabam valendo a pena.

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3 –

rastros

a madeira que cerca o Degas no museu
um dia foi
como a árvore que fora faz sombra.
ambas carregam
no corpo um tipo de memória,
como a tinta carrega.
noto, de leve, o movimento ancestral
do pincel e
por ele tento imaginar monsieur Edgar
em seu ateliê,
monstruoso dominando suas jovens modelos
enquanto ele
as fazia flores ao vento nas telas.
posso fingir
que vejo o homem, mas não vejo,
não de verdade.
ele está lá, como as modelos estão,
como uma árvore qualquer está,
só sua projeção,
rastros deixados na história
feito os de um urso na floresta.

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