Andei vendo uns filmes aí #5

LA LA LAND (LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES) – DAMIEN CHAZELLE [2016]

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“Meh.” – Raphael Dias, Delirium Scribens

Até entendo o amor generalizado por esse filme, mas não me pegou. Sinto muito. Sim, é identificável o bastante, todos temos sonhos et cetera et cetera. Sem atropelar o andamento das coisas, o enredo é: moça e rapaz se encontram, no início eles se detestam (porque ele é um babaca a maior parte do filme), mas aí eles insistem até se apaixonarem por motivos de enredo (se havia química entre eles, escapou minha percepção), mas, porque se tudo desse certo não haveria Oscar, reviravoltas ocorrem. Ah, e meio que tem uma música aqui e ali, quando os envolvidos se lembram de que estão fazendo um musical. Esse é meu maior problema com o filme. Não teve um texto sobre esse filme que eu tenha lido que não tenha dito a clássica frase: é um musical, então preparem-se pra cenas em que as pessoas começam a cantar do nada. Isso só acontece em três cenas, no primeiro ato. Depois disso, o filme, por um bom tempo, esquece que é um musical. Falando nisso, o que faz um musical? Músicas memoráveis. Bom, aqui é questão de gosto, mas não lembro de uma música que ouvi neste filme – e olha que tem versos de músicas de musicais que nem vi, mas não consigo esquecer. Não é um filme ruim. É visualmente impressionante – nada inovador, mas bonito e tem momentos brilhantes. Mas não vai muito além. Típico estilo sem substância. Sem falar que cartas de amor a Hollywood já deram no saco, até quando meio irônicas. Só quero cartas de ameaça de morte de agora em diante. Gosto da Emma Stone, acho que ela interpretou bem o papel. Não sei quem foi que deixou o Ryan Gosling cantar, a voz dele só falada já me dá nos nervos – provavelmente a mesma pessoa que escalou Russell Crowe -, e é difícil um ator passar emoção quando ele só tem duas expressões faciais (oposto de Emma Stone, que é feita de borracha – no sentido mais positivo da palavra). Poderia escrever um texto completo sobre isso, pra deixar bem claras cada uma das minhas reclamações, mas não pretendo. Se alguém pedir com jeitinho, quem sabe, mas não faço promessas, até porque não gosto de dar muita atenção ao que não me agrada.

IN A LONELY PLACE (NO SILÊNCIO DA NOITE) – NICHOLAS RAY [1950]

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Fazia tempo que um filme não me deixava ansioso. Não é surpreendente, como alguns suspenses. Mas você fica sem piscar assistindo cada mudança de expressão do Humphrey Bogart. O que me pegou mesmo foi quando eu me dei conta que o final foi “estragado” na primeira cena, qualquer possibilidade de surpresa morre ali, mas, no meio do caminho, com sutileza, o filme me fez esquecer disso, que eu já sabia o final. Vai ficar mais claro se eu não esquecer de passar um mínimo de sinopse pra vocês. Dixon Steele (Bogart) é um roteirista de sucesso, mas em decadência. Uma noite, ela leva uma garçonete pra casa, pra que ela contasse a história do livro que ela havia acabado de ler – que ele devia roteirizar – pra ele. Ela conta a história pra ele, vai embora sozinha e é encontrada morta à beira da estrada na manhã seguinte. Dixon é questionado pela polícia. Não há meios de ele ser culpado, mas a atitude dele convence a polícia de que ele é um assassino. Laurel Gray (Gloria Grahame) aparece como testemunha de que Dixon passou aquela noite em casa. Ela e Dixon começam um relacionamento, até que ela percebe que a agressividade do Dixon é de fato suspeita. Falei demais já. Vejam esse filme. Devia ser mais conhecido, devia ser considerado um desses clássicos obrigatórios. É um noir nada tradicional, apesar de seguir uma estrutura até que básica, perfeitamente construído. Um filme que, se tem defeitos, não reparei.

MOONLIGHT (MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR) – BARRY JENKINS [2016]

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Quero evitar a todo custo falar que esse filme é “importante”. Todos sabem, todos já disseram isso, mas, em 2016, não era pra ser mais. O fato de ninguém nunca ter visto um filme assim até hoje (sobre homossexualidade entre negros nos EUA) é um alerta vermelho pra nossa sociedade – outro. Então, riscando os muitos significados sociais desse filme, porque ele não é só isso, temos um filme quieto e intenso, sutil e prestes a explodir a qualquer momento. É a história de Chiron (Alex Hibbert – criança -, Ashton Sanders – adolescente -, Trevante Rhodes – adulto), filho de uma dependente química, pobre e, mais tarde descobre, homossexual. Acompanhamos um momento em cada uma dessas etapas da vida dele. É tão difícil falar desse filme. Faço questão de deixar de lado a importância porque o filme em si não parece ter consciência disso. Se os envolvidos fossem brancos, seria visto só como uma história pessoal como tantas outros – porque é só isso. Acho que foi isso que mais me marcou no filme, quase como Azul É a Cor Mais Quente, conhecido como um filme de romance entre lésbicas, quando na verdade ele é, em estrutura, um romance dramático como qualquer outro – mais sexualmente explícito, mas, fora isso, igual. A história é contada quase sem diálogos, as emoções são trancadas, escondidas, mas estão ali sempre e prestes a explodir – e de fato explodem em algumas cenas. Um filme marcante.

KÔHÎ JIKÔ (CAFÉ LUMIÈRE) – HSIAO-HSIEN HOU [2005]

Quase não é um filme. É assistir um trecho da vida de uma pessoa. Nesse caso, Yôko, uma escritora japonesa pesquisando a vida de um compositor taiwanês. Devido à pesquisa, ela viaja muito pra lá. Ela engravida do namorado taiwanês, mas não tem intensão de casar com ele ou cobrar a presença dele como pai – na verdade, prefere distância. Os pais dela estranham, mas são obrigados a aceitar, porque a vida é dela e ela é independente. Ela tem um amigo que ajuda ela na pesquisa. Ele gosta de ir às estações de trem gravar os sons das coisas de lá – dos trens chegando, das pessoas, dos anúncios.  E depois de quase duas horas, o filme para. Não acaba, só para de acontecer. Mesmo assim, gostei demais. Queria poder explicar, mas acho que já botei na minha cabeça que, em se tratando de filme, é melhor não encucar com essas bobagens de significado. É como eu disse, um pedaço da vida de Yôko, que nós temos a chance de assistir. Não é pra todo mundo. Mas se essa descrição acima te interessa de qualquer maneira, veja. A trilha sonora é maravilhosa (vivo esquecendo de buscar o nome do compositor taiwanês pra saber se é dele mesmo), cada cena é uma fotografia, e as atuações te convencem a ponto de você achar que nada ali é atuação, foi uma equipe de gravação que surgiu na vida daquelas pessoas e começou a filmar.

A memória das coisas (Diário de Viagem #6)

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1 –  Primeiro dia. Por burrice estou perdido. Caminho em direções aleatórias buscando um lugar onde comer ou só onde possa parar e sentar por um instante. São várias quadras acumulando atrás de mim, mas acho que sei voltar ao hotel ainda. Posso ter andado em círculos o tempo todo e estar prestes a dar de cara com a entrada do hotel. Acostumado a andar, esqueço que não sei onde estou com facilidade. Olho pra um lado, nada reconhecível. Nada atrás idem. Até me assusto quando vejo uma bela vitrine abarrotada de livros velhos bem do meu outro lado. Entro. Digo a mim mesmo que é só pra pedir informação, mas sei bem que é mentira. Eu tento, mas não consigo me enganar mais. Olho as lombadas, me interesso por quase tudo, desvio das pessoas. Fico impressionado por haver pessoas. Pego um só do Roberto Arlt, cercado de grandes volumes de sua obra completa – esses não posso, tenho que me controlar e pegar um só, até que bem barato apesar de eu estar longe de me acostumar com os números altos pra qualquer coisa. Pergunto ao vendedor, não onde estou, se ele tem algo da Alejandra Pizarnik. Fica surpreso, diz que sim, mas só um. Uma seleção que deve ser da década de 1980. Compro os dois livros. Pergunto como chego ao Centro. É muito longe, tem que pegar o metrô. Ele explica onde fica. De onde você é? Brasil. Como a cidade tá te tratando? Acabei de chegar, estou perdido, mas até que bem tratado. Chegou quando? Ontem, três da manhã. Ah! Gosta de literatura argentina? Sim, apesar de não conhecer muito mais que Borges, Cortázar, César Aira. Esses que você escolheu são muito bons, clássicos da nossa literatura. Ei, você é do Brasil… Mário de Andrade, você conhece? Bem pouco, só umas poesias avulsas. Macunaíma é meu livro favorito de todos, é genial. Traduziram Macunaíma? Sim, como não? Uau. Não tenho mais nada a dizer. No futuro, lido o livro, teria, mas não estaria lá. Acho o metrô. Primeiro sinal, dos dois que tive naquele dia, de que o Brasil persegue seus filhos onde quer que eles estejam, mais ainda se ele só estiver ali do lado. Quero guardar o endereço desse sebo para voltar nele quando estiver mais seguro, mas não faço isso. Meses depois, encontro o endereço impresso num dos marcadores de página que recebi da loja. Fica pra próxima.

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2 – A feira de livros usados da Plaza Italia é uma reunião de microcosmos. Se cada volume carregasse em si um pouco de cada um de seus donos, um pouco de cada casa em que viveu e cada incidente pelo qual passou e um pouco dos lugares aos quais foi levado, some a isso o fato de hoje estar na rua, cuidadosamente posicionado em uma das várias cabines na maior feira de livros de uma das maiores e mais movimentadas praças de uma das maiores cidades da América do Sul, não seria exagero imaginar que ele experimentou, direta e indiretamente, a maior parte da experiência humana em variedades indisponíveis à maior parte dos seres humanos. Pego um deles, antigo, a parte de cima do miolo tomada por uma camada sólida de pó, viro com cuidado algumas páginas, num instante, desejo sinceramente poder acessar pelo toque as memórias dele. Ambição excessiva. Não basta o livro ser este naco da consciência de outro ser humano, há décadas morto, concreto em minhas mãos, quero mais, quero as imagens abstratas das coisas que o objeto livro viveu. Vejo o preço do livro. Muito caro. Ponho o livro de volta em seu lugar pra que pegue mais pó e digitais e pra que talvez receba uma nova casa e experimente tantas outras coisas, não comigo. Tantos volumes diferentes, asfixia. Lembra mortalidade e presença, memória, dá uma impressão breve de sentido junto à impotência do indivíduo. Uma belíssima tristeza. Havia terminado, na noite anterior, de ler a seleção de poemas da Alejandra Pizarnik. Encontro e compro um volume de sua obra completa. Troco uma ideia breve com o vendedor sobre ela (…compra esse, aí não precisa comprar mais nada, tem tudo dela aqui… talvez… talvez, exceto pela novela que ela escreveu, A Condessa alguma coisa assim, se bem que acho que tem aqui – e pegou outra cópia – … sim, tá aqui, não sei se toda ou fragmentos… enfim, é uma obra menor dela, de qualquer forma, mas, se você gostar dos fragmentos, indico a leitura, é uma boa novela…) e sobre o preço dos livros do Bolaño, o quanto eles acabam valendo a pena.

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3 –

rastros

a madeira que cerca o Degas no museu
um dia foi
como a árvore que fora faz sombra.
ambas carregam
no corpo um tipo de memória,
como a tinta carrega.
noto, de leve, o movimento ancestral
do pincel e
por ele tento imaginar monsieur Edgar
em seu ateliê,
monstruoso dominando suas jovens modelos
enquanto ele
as fazia flores ao vento nas telas.
posso fingir
que vejo o homem, mas não vejo,
não de verdade.
ele está lá, como as modelos estão,
como uma árvore qualquer está,
só sua projeção,
rastros deixados na história
feito os de um urso na floresta.

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