Uma tarde no MALBA – parte 2 (Diário de viagem #5)

Antes leia a parte 1, cacete.

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Difícil comentar o conteúdo de um museu de arte sem que a descrição seja seca ou vazia ou desnecessariamente crítica – o que fica pior quando, como no meu caso, não se é crítico de arte. E dizer que tem quadros é óbvio. Estou arriscando cair no superficial agora, mas fui eu que montei essa armadilha pra mim mesmo quando me decidi escrever sobre uma visita ao museu. Me resta continuar como comecei e bancar a câmera flutuante. Atravessando a entrada da primeira sala depois da escada rolante, ficou claro que o foco do acervo estava na arte moderna e o que veio depois. Sem muita distinção entre quadros, esculturas, fotografia, vídeos… um museu de artes visuais bastante abrangente. Do lado de fora da primeira sala, havia um corredor com várias televisões, passando filmes em loop. O visitante poderia pegar um fone de ouvido e assistir, se assim desejasse. Que eu me lembre, entre outros filmes, estava passando Medianeras.

Como parecia ser uma constante na minha viagem, por onde passava via um pouco do Brasil. O primeiro quadro a me chamar atenção era justo o de Tarsila do Amaral, Abaporu, em destaque no corredor que levava à segunda sala. Vi outras obras de brasileiros por lá, inclusive, algo me diz, outra de Tarsila, mas devia ter levado um bloco de notas ou coisa assim. Tinha, então, a ideia de escrever uma espécie de diário de viagem, mas nada nessas proporções nem que fosse especificamente sobre o museu. Lembro de ter visto um quadro de Oswald de Andrade. Um quadro enorme, sobre o qual não lembro nada, mas lembro da minha surpresa ao descobrir que Oswald pintava. Ao lado, seu manifesto modernista, aberto, protegido por vidro, do ar e dos dedos.

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Sem anotações, com a memória vaga, fica complicado escrever qualquer coisa de muito significativo sobre as obras de arte lá expostas. Como de costume na arte, tem suas polêmicas. A instalação que é só um anúncio de aluga-se. Por um instante, achei que fosse mesmo um anúncio e estivessem com um espaço livre, mas, na verdade, era “arte conceitual” expondo o mercantilismo presente no mundo artístico “atualmente” (as aspas porque, se não estou me confundindo, essa instalação é da década de 80; se algo mudou desde então foi pra pior). Imagens de pobreza e festa também são constantes, parte inseparável da América Latina, de certa forma. Cores, decadência, esperança, miséria. Ao mesmo tempo, um desejo por revolução. Esse é o espírito do MALBA, como um todo, independente do que diga cada obra por si própria. Existem correntes invisíveis espalhadas por toda a América Latina, nós sabemos de onde elas vêm. Uns as querem partir, outros estão acostumados ao aperto nos punhos e até gostam delas como enfeite. No MALBA, pulsa o desejo de liberdade do nosso continente, desejo sempre frustrado, quando não por forças externar dominantes, os mestres de nossas correntes, são nossos próprios males internos historicamente enraizados que nos derrubam. Talvez por isso tenha me incomodado mais do que deveria com as exposições convidadas: Jeff Koons, sobre o qual já reclamei em várias ocasiões e, sem querer me repetir, não acho que passe de uma esteira industrial de mau gosto (pelo menos a parte da obra dele que eu conheço); e Yoko Ono, que ocupava todo o andar acima.

Subi o segundo lance de escadas rolantes. Havia uma placa em frente à entrada indicando que ali começava a exposição da Yoko Ono. Fico pensando se deveria botar aqui minha opinião sobre Lennon e Yoko. Mentira, não é conflito algum, talvez o grande motivo de eu ter começado a escrever esse texto tenha sido pra expressar minha opinião sobre o significado por trás da obra desses dois artistas. E por que eu boto os dois no mesmo prato como se fossem arroz e feijão? Porque é isso mesmo. Boa parte da obra de Yoko exposta no MALBA era composta de frases feitas do Lennon, dos ideais que ele usou ao longo da vida pra encher a própria conta bancária – com sucesso. Mas estou me adiantando e, até agora, se eu estou certo e vocês já discordam de mim, só fiz foi gerar hostilidade entre mim e vocês, supostos leitores.

Entrei na sala e escutei um zumbido. Vinha de uma caixa de som tocando um disco dela que era, se não me engano, uma longa gravação do zumbido de uma mosca. Ao lado, em loop, um vídeo de uma mulher (provavelmente a Yoko, não vi o rosto), nua, deitada numa cama, enquanto uma mosca caminhava pelo seu corpo, do pé à cabeça. De todas as obras presentes, essa combinação som e vídeo foi a mais impressionante pra mim. Não imaginava como ela poderia ter sido feita. Moscas não são seres atentos e treináveis. Se parece que estou sendo sarcástico por culpa do parágrafo anterior, não exatamente elogioso, não estou. Gosto de ver coisas e não fazer ideia de como elas foram feitas. Traz à tona o aspecto mágico da criação artística.

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Não relacionada à exposição da Yoko. Não tirei fotos dessa parte. Tinha muita gente. Sou tímido.

Foi o que veio depois que, na falta de palavras melhores, me irritou. Exemplo: uma cruz de madeira, de uns 2 metros de altura, coberta de pregos; anexada à ela, um martelo, e, no chão, ao lado da cruz, uma caixa de pregos soltos; o observador era convidado a pegar um prego e pregá-lo na cruz. Pode ser cinismo da minha parte – toda a crítica que está por vir deve de ser meu cinismo falando mais alto, estou tentando trabalhar nisso -, mas achei bastante ridícula a montagem. Sim, compreendo o simbolismo cristão, a ideia de todos estarmos envolvidos no “flagelo de Cristo”… Ai ai, se é que era isso mesmo que a peça queria representar. Mas tinha um pai segurando o filho no colo pra que ele pregasse um prego na cruz também, tentando manter o equilíbrio pra que a esposa dele pudesse tirar uma foto sem que ela saísse tremida. Uns passos depois, um grande mapa-múndi todo carimbado com a palavra Peace (paz, caso alguém não saiba). Sobre uma mesa, um carimbo; colada na parede, uma folha com instruções que diziam: carimbe o lugar do mundo em que você queria que houvesse paz. Desnecessário dizer que havia gente tirando uma selfie enquanto carimbava, e forçando crianças a posarem pra fotos enquanto carimbava. Apesar dos esforços hercúleos de Sra. Ono, no entanto, ainda não há paz no mundo.

É esse o meu problema. Em se tratando de paz e coisas assim, não sei lidar com gente que usa essa necessidade pra fins comerciais. E é nisso que acho que a carreira de John Lennon se baseou (pós-Beatles) e em que a carreira de Yoko Ono se baseia. Velhas ideias, nada originais, propositalmente ingênuas, pedindo por paz sem fazer nada por isso, que vendem bem porque trazem uma mensagem identificável: todos querem paz sem ter que trabalhar por isso e, principalmente, é muito legal mostrar pros outros o quanto você se importa, independente do quanto os atos amplamente divulgados de fato afetam  a situação do mundo, desde que dê pra colocar um preço neste ato. É muito bom e fácil pregar pobreza e simplicidade enquanto se vive no luxo, distante da nojeira que é a pobreza que se explora. Enfim, já fui longe demais. Tinham várias outras instalações ali que trabalhavam com as mesmas ideias de forma diferente. Tinham frases do John Lennon escritas nas paredes – deixem o homem descansar; mesmo que o caráter dele tenha sido, na minha opinião (antes que me preguem na tal cruz – ha! ninguém vai me pregar na cruz por isso, ninguém nem vai ler isso aqui!) duvidoso. Ao meu lado, enquanto voltava todo o caminho pela sala em direção às escadas rolantes, passou um brasileiro que dizia: essa é a típica artista, nada aqui significa porra nenhuma, mas a gente tem que olhar e fingir que entende. Quem não entendeu o comentário fui eu. Aquela exposição, boa ou ruim, não podia ser mais compreensível. O significado dela estava escrito e desenhado por todas as paredes e até no teto (literalmente): paz, assim como a guerra, vende.

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Passei uma última vez pelas obras do primeiro andar pra esquecer de Xoko Ono, como havia dito o garçom uma noite antes. De volta ao térreo, descobri que tinha um cinema lá passando dois filmes, de graça, mas os horários ainda estavam distantes e havia a apresentação orquestrada de Metrópolis, que eu não estava bem certo se iria mesmo ver. Ainda lá, seguindo reto da entrada, uma espécie de memorial das ditaduras militares nas Américas, um lembrete pra que ninguém duvide que aconteceu, que teve vítimas e que não deve se repetir. Vendo as imagens dos vários ditadores de cada país e seus anos de atuação, me perguntava se tinha algo assim no Brasil. Era, ainda é, necessário, com o sempre crescente movimento de viúvos e viúvas do chumbo. Numa sala anexa, arquivos para consulta pública com dossiês expondo, com notícias da época (antes, durante e depois), estatísticas, documentos políticos e diplomáticos, depoimentos et cetera. Completíssimo e, não bastasse, cópias das folhas dos dossiês enfeitavam todo o museu.

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A operação Estadounidense que financiou os golpes e ditaduras na América do Sul (e Henry Kissinger, canalha, ainda vivo porque vaso ruim não quebra, na mesma época, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por não levar a paz no Vietnã, enquanto financiava as mortes na América do Sul e Central, e no Timor Leste, entre outros locais – crimes internacionais pelos quais ele nunca pagará, nem os chefes dele. Provando que a história se repete, Obama leva o mesmo prêmio por não dar fim a guerra no Iraque. É assim que as coisas são. Carimbemos um mapa-múndi. Ou nos refugiemos na mansão da Yoko. Sendo justo, as ideias dela são ingênuas, um pouco tóxicas (não é bom viver numa nuvem) e cheiram à hipocrisia, mas não são monstruosas, pelo menos.

Saí feliz pela visita e pela memória que reterei pelo tempo que durar minha memória. Ainda era cedo, tinha horas até a exibição de Metrópolis. As nuvens estavam pesadas, preferi não ficar por lá porque, em caso de chuva, a apresentação seria cancelada e eu perderia uma noite. Fui a um café, pedi algo pra comer e um café. Por algum motivo olhei meu celular e vi um número absurdo de mensagens nos dois grupos da empresa em que trabalho. Com medo de que a empresa houvesse falido na minha ausência (teria procurado um emprego em Buenos Aires, se tivesse sido o caso), abri as mensagens e vi que foi só um incêndio. Aconteceu de madrugada, estavam todos bem e, o escritório, só defumado, sem nenhum dano. Decidi, respirando fundo,  aliviado, que daria uma olhada no tal do Jardim Japonês, e, à noite, iria a um bar de que tinha ouvido falar antes da viagem. Não choveu e até hoje não vi Metrópolis, com ou sem orquestra, ao ar livre ou em casa. Mesmo assim, o universo me provou mais uma vez que ir ao bar é sempre a decisão certa.

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3 comentários sobre “Uma tarde no MALBA – parte 2 (Diário de viagem #5)

  1. Essa parte #2 foi o que eu precisava para dizer que, de agora em diante – e assim, bem provavelmente para sempre -, serei sempre suspeita para ler e analisar ou avaliar qualquer coisa que você escreva. Eu não sei o que é, mas sempre me agrada.
    Sobre Lennon e Yoko, eu, do pouco que sei, concordo com você. Acho até que já pensava isso antes de saber, antes de hoje, também.

    Curtido por 1 pessoa

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