Observações aleatórias #5

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1 – Ainda falando do romance terminado, talvez porque ontem tenham se encerrado as inscrições para o tal prêmio, achei melhor tirar umas férias rápidas da ficção. Montes de escritores foram obrigados a publicar suas “regras” pra escrita. Henry Miller foi um deles. Entre as regras dele, estava inclusa: saia de casa, vá aos cafés e aos bares, mantenha-se humano. Essas regras, independente do autor que as invente, são sempre questionáveis, às vezes se contradizem, não têm valor nenhum, mas são obsessão inevitável dos autores novatos. Já que não tem escola que possa nos ensinar a escrever, as palavras de auxílio dos que conseguiram aprender são buscadas, não como guia pro que fazer mas como reafirmação de que aquilo que se está fazendo é certo. Porque não dá pra saber. Mas não era sobre isso que eu queria escrever agora. Era sobre as tais “férias”. “Mantenha-se humano” não é uma dica exagerada. O grau de isolamento a que a escrita de um romance incentiva é desumanizante. Não que eu, ou qualquer outra pessoa – embora tenham casos assim -, tenha me trancado num quarto durante todo o processo. Mas é um isolamento mental. Uma indisposição para receber coisas do mundo. Durante a escrita do rascunho, ainda acontece. Mas, uma vez avançada a revisão, o polimento da obra bruta, se cria um medo de descobrir qualquer coisa nova, de se experienciar algo que possa te fazer querer mudar os rumos do romance. Isso pode tirar uma pessoa do mundo ao redor dela de modo surpreendente e prejudicial. O que não se ouve com frequência, mas pra mim é verdade, é que é muito fácil se entregar ao isolamento. O que estou fazendo agora é, aos poucos, me abrindo outra vez.

2 – Escrever poesia tem sido uma ótima forma de voltar. Ainda é escrita, mas não é ficção, não envolve estrutura nem nada que seja fechado em si mesmo. Pelo menos não o tipo de poesia autológica que estou fazendo. Não tenho intenção de publicar esses poemas. Não aqui, não em livro. Sim, há sempre o ainda. Mas é que também é muito fácil não publicar. Digo melhor, é um conflito. O ego é forte. Às vezes, quando tenho a ilusão de que me supero num verso ou num poema completo, a primeira coisa em que penso é: tenho que botar isso no blog. Não sei por qual motivo esse pensamento me vem. Não é como se alguém o fosse ler por aqui e essa leitura fosse mudar a minha vida ou a do leitor de alguma forma – este é o segundo pensamento, o que eu sigo, e a razão de vocês não terem visto nada do caderno aqui (ainda). Desde então, tenho caminhado com meu caderno, tenho escrito em praças, em lugares que não o meu quarto; eis a importância do ato: permitir que eu saia, observe, anote, receba, entre de volta no mundo de que tentei sair. Ao mesmo tempo, a liberdade é parte essencial dessa ideia. Se começo a escrever pensando na recepção que o poema pode ter no blog (nunca tem uma recepção, mas sempre tem a expectativa de uma recepção qualquer que seja), posso deixar de escrever determinadas palavras, o que me fecha de novo.

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3 – E falando em experiências e contato, fui num boteco à beira da praia com um pessoal do trabalho. Quem me conhece sabe da dificuldade que é me botar perto da praia. Mas lá estávamos nós – não todo o escritório, éramos quatro no total -, bebendo água com gás feita de milho, falando bobagens. (Bom, daqui em diante, vai ficar muito ruim e repetitivo se eu tentar escrever a conversa sem citar nomes, então vou fazer pseudônimos pra facilitar meu trabalho. À mesa havia: eu, que continuarei como eu; Olga, a mais velha entre nós; Júlia e Vera. Pronto. Se bem que eu poderia botar os nomes verdadeiros e vocês não fariam ideia. E elas nem sabem que escrevo, então não é como se houvesse risco de elas acharem isso aqui. Não seria paranoia se fizesse sentido.) Como sempre acontece nessas situações, não sei como chegamos a esse assunto, mas Olga, que havia almoçado comigo num quilo perto do escritório, disse:

– Me apaixonei hoje (…) O cara mais lindo. Trabalha no Santander (…) Agora que sei que ele almoça lá, vou continuar indo pra ver se consigo falar com ele.

Eu: – Que coincidência, também tô de olho numa moça que vi lá, a que fica no caixa (…)

E começamos a discutir sobre as dificuldades de aproximar pessoas desconhecidas fora do contexto maravilhoso que é o bar. Nisso, percebi uma grande diferença entre mim e Olga, ou, como já deveria ter me dado conta muito antes dessa conversa (e, notando a extensão disso aqui e o quanto ainda falta pra terminar a história, tô começando a achar que era melhor ter feito disso postagem individual, mas agora foda-se): sem trocar palavra com o cara, ela já sabia nome, local de trabalho e cargo, estado civil, além de saber de alguns gostos pessoais dele e ter “amigos” em comum. Sim, estou falando do facebook, que me recuso a ter. E, por me recusar, ainda não sei o nome da moça, nem nada sobre ela. Enfim, falamos do tal ato de stalkear (espreitar, povo, existe palavra em português pra isso, pode ser espionar também, bisbilhotar, fuçar, cavocar, caçar… stalkear é a palavra mais feia que o estrangeirismo pôde conceber – empoderamento estando logo ao lado, junto do termo off, ao invés de desconto; parem com essas merdas e aprendam seu próprio idioma), estratégias de aproximação, a zona ambígua que separa atração e hospitalidade, e tudo o mais. Sim, isso são mais notas pra um futuro texto. Não vai dar pra falar do quanto eu acho que estamos perdendo a diversão e o risco da descoberta pessoal em tão poucas linhas. Fica prum futuro próximo.

4 – Decidi encerrar as observações indicando um disco, de agora em diante. Algo que eu esteja escutando com frequência no espaço de tempo próximo ao do momento em que as observações estão sendo escritas. O dessa vez é o disco Cheftak, da dupla libanesa de trip-hop Soap Kills. Nada a ver com o que eu costumo escutar. Na verdade, por ter muito de eletrônico, é quase um oposto, mas estou gostando. Metade da dupla é a Yasmine Hamdan, que faz aparição em Only Lovers Left Alive (sim, estou citando Jim Jarmusch outra vez, e, quer saber?, a observação número 2 foi toda inspirada por Paterson, o filme mais recente dele, sobre o qual não paro de falar: acostumem-se), e não há palavras no dicionário que façam jus à exuberância dessa mulher. Escutem o disco e depois me digam. Participem dessa porra. Se eu quisesse que esse blogue fosse o monólogo de um cidadão perturbado, teria fechado a caixa de comentários há muitos anos. Eu tenho esse poder, mas preferiria que esse blogue fosse uma série de diálogos com um cidadão perturbado. Não gosto de falar sozinho, tenho medo de ouvir respostas de novo.

Obs.1: Ah é, não sei botar vídeos do youtube via wordpress. Bom, tá aí o link pra uma música do disco. Mas tem o disco todo no youtube, só não num vídeo só. Vão procurar, bando de vagabundo.

Obs.2: Vejam só, o link vira uma caixa de vídeo sozinho. Bom, o troço aqui podia ter me avisado que isso ia acontecer. Não vou apagar a observação acima, quero que o transtorno fique registrado.

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