A poesia do banal

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Falando do filme Paterson – dir.: Jim Jarmusch [2016]

É redundante dizer que estava ansioso pra assistir Paterson, o novo filme do Jim Jarmusch, desde que ele foi anunciado, porque eu estou sempre ansioso pra ver algo novo dele. Poderia ser um vídeo caseiro gravado no natal, algo de interessante sairia. Mas havia algo a mais neste atual. Ele é sobre poesia – ok, mais exatamente sobre um motorista de ônibus que escreve poesia, mas eu insisto que poesia é o combustível que move o filme -, e pode se dizer que poesia sempre esteve nos filmes do Jarmusch (Dead Man, com o protagonista chamado William Blake e a estrutura que mais lembra estrofes rimadas, Ghost Dog, ritmado pelo rap, Stranger than Paradise e Down by Law, com a poesia improvisada do jazz, a poesia das repetições e desencontros dos muitos cenários e das diferentes culturas em Mystery Train e Night on Earth, a poesia da solidão e da busca pelo tempo perdido em Broken Flowers, a poesia do amor, da dualidade e do cosmos, do tempo e da eternidade, em Only Lovers Left Alive), mas Paterson parece o resultado, a poesia final, de todas essas tentativas/esboços anteriores.

Só que, principalmente, depois de tanto tempo ouvindo o diretor falar sobre poesia ou do passado dele envolvendo essa arte, um filme como esse parecia inevitável, e, ainda, não parecia ser lançado. Ele foi aluno de Kenneth Koch, um dos poetas mais representativos da escola de Nova York, e estudou e conviveu com muitos poetas desse cenário, incluindo Ron Padgett, que escreveu todos os poemas usados no filme, com exceção de um que foi escrito pelo próprio diretor. Já tinha ouvido o diretor falar do tanto que gosta de  poesia e suas influências. Inclusive, a participação dele em Bored to Death é falando que ele “escreveu um filme sobre o poeta Frank O’Hara”, e, desde então, esperava por um projeto assim – finalmente chegou.

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Ao finalmente conseguir ver o filme, tive a impressão de que ele foi feito pra mim. É uma ilusão, claro, mas me atingiu em cheio: a história, a poesia, cada cena e detalhe. Tanto que já quero ver outra vez. E quero escrever sobre ele aqui. O problema é que nenhum de vocês, estranhos (uns mais estranhos que outros) silenciosos que deixo que me bisbilhotem, provavelmente, viu esse filme ainda, o que me “força” (é um esforço voluntário, saibam bem disso, porque quero que aqueles de vocês que decidirem ver o filme depois de ler o texto o aproveitem tanto quanto; nada me impediria, de fato, de fazer uma análise aprofundada do filme e estragar toda a experiência dos leitores aleatórios que esbarrarem com esse site – gosto só de alguns de vocês, a maior parte nem conheço, e há de ter alguém por aí de que eu não goste) a não escrever nada muito revelador sobre o enredo ou coisa assim. Chato, né? Pois é, mas vamos ver no que dá.

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Um motorista de ônibus chamado Paterson (Adam Driver, que, depois de Girls, Frances Ha, Inside Llewyn Davis e Star Wars, tá se mostrando um dos atores mais versáteis atualmente), que vive na cidade de Paterson, Nova Jersey,  mantém um caderno de poesias e uma rotina confortável pra ele. Acorda de manhã e faz algum gesto de carinho para com sua parceira, Laura (Golshifteh Farahani, grande atriz iraniana, daquelas com excesso de talento, que deviam ter compartilhado um pouco, e linda a ponto de roubar os globos oculares do espectador em cada cena), toma café e vai dirigir seu ônibus, sempre observando, pensando poesia, escrevendo nos intervalos. Terminado o expediente, janta, passa um tempo com Laura, leva Marvin (o bulldog inglês interpretado pela Nellie, cachorra simpática demais, descobri que outra vítima de 2016…) pra passear e para no bar pra uma cerveja. Volta pra casa, dorme e faz o mesmo no dia seguinte.

Enquanto isso, Laura, que, apesar de compartilhar nome com a musa de Petrarca, é muito mais que só uma musa, vive de forma vibrante e criativa, um verdadeiro espírito livre. Ela cria projetos, cria arte nos objetos da casa e nas suas roupas e em si mesma, descobre coisas novas pra aprender. São, de certa forma, opostos em atitude, Paterson e Laura, mas que se compreendem, se aceitam e se incentivam. Chega ao ponto em que eu acredito que Jarmusch descobriu o que é o amor, porque, depois de Only Lovers Left Alive e Paterson, dá pra ver que ele pelo menos entende o problema da convivência e tem sucesso em demonstrar soluções, mesmo que fictícias, pra ele.

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Todos os críticos e seus estagiários fizeram questão de apontar o quão interno o filme é, mas acho que isso ainda pode ser destacado um pouco mais. Paterson é um filme cheio de sutilezas, como é de se esperar do diretor, muitas coisas são apresentadas e perguntas são feitas, mas são raras as vezes em que o filme prende as ponta soltas ou responde as perguntas. Na verdade, o espectador é incentivado a abraçar a dúvida e deixar de lado a compreensão. Por exemplo, na primeira cena, vemos a foto de Paterson com uniforme do exército. Surgem perguntas: ele viu a guerra? esteve lá? quanto sofreu durante ela? viu mortes ou teve que matar? se recuperou dos traumas? Respostas são sugeridas, mas é coisa da cabeça de quem vê, porque nada é dito, nem a presença da personagem no exército é dita. Algumas de suas ações demonstram disciplina, outras mostram possíveis traumas ou agressão internalizada, mas fica por isso mesmo, no campo da teoria.

As respostas, se você é um leitor acostumado a filmes que respondem, não importam e é bom entrar nesse filme ciente disso. É um poema (bom, é poético, porque não é um poema, é um filme, mas é bom, nesse caso, diminuir as fronteiras que separam esses meios), e já dizia e. e. cummings, não é necessário entender um poema para apreciá-lo, acho que era isso que ele dizia, ou coisa parecida. Como o poema que Paterson lê para Laura, de William Carlos Williams (habitante de Paterson, que escreveu todo um livro de poesias sobre Paterson): Isso é só pra dizer – Eu comi/as ameixas/que estavam no/refrigerador—e que/você provavelmente estava/guardando/pro café da manhã—Me perdoa/elas estavam deliciosas/tão doces/e tão frias – esse poema era só um bilhete deixado, talvez, pra esposa, pra pedir desculpas por algo que aconteceu mesmo. O filme todo é como um diário, uma série de notas. Os dias-estrofes são mínimos, repetitivos, ações rimam umas com as outras, anedotas se formam na segunda e se completam na sexta, e o espectador acompanha, entra na vida fictícia que se apresenta ao seus olhos, lê e interpreta livremente os acontecimentos, inventa respostas, risca as respostas erradas, se deixa levar, como quando se lê uma poesia.

Como que eu vou terminar esse texto sem falar mais do que deveria sobre o filme. Parece que já escrevi tudo que poderia escrever, sem fazer disso uma análise profunda demais – o que estragaria o filme pra vocês e pra mim. Acho que posso dizer que, tendo visto o filme duas vezes e ansioso pra ver pela terceira vez, revivi meu caderno de poesias. Já escrevi umas coisas. Não quero postar nem mostrar pra ninguém, por algum motivo. É meu pequeno projeto poético sem finalidade.  Depois do almoço, no tempo que ainda tinha até voltar pro trabalho, dei uma caminhada rápida e sentei numa praça, abri o caderno e rabisquei umas ideias, coisas que tavam na cabeça. O filme serviu pra isso, é o que eu quero dizer, me afetou dessa maneira ao me mostrar essas pessoas fictícias que poderiam ser reais (e foram, William Carlos Williams era pediatra, Frank O’Hara era curador de arte, dezenas de poetas foram professores de mais que só literatura) vivendo, não de arte, mas ainda assim vivendo por ela. Poetas, artistas visuais, músicos, o que for, como identidade secreta. Paterson, Laura, Carlos Williams, O’Hara eram o que queriam ser, tiveram o privilégio de viver além do que eles faziam. Acho que foi isso que Paterson me inspirou a fazer. Recebam vocês, também, um caderno em branco para fazerem o mesmo. A-ha.

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