Uma tarde no MALBA – parte 2 (Diário de viagem #5)

Antes leia a parte 1, cacete.

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Difícil comentar o conteúdo de um museu de arte sem que a descrição seja seca ou vazia ou desnecessariamente crítica – o que fica pior quando, como no meu caso, não se é crítico de arte. E dizer que tem quadros é óbvio. Estou arriscando cair no superficial agora, mas fui eu que montei essa armadilha pra mim mesmo quando me decidi escrever sobre uma visita ao museu. Me resta continuar como comecei e bancar a câmera flutuante. Atravessando a entrada da primeira sala depois da escada rolante, ficou claro que o foco do acervo estava na arte moderna e o que veio depois. Sem muita distinção entre quadros, esculturas, fotografia, vídeos… um museu de artes visuais bastante abrangente. Do lado de fora da primeira sala, havia um corredor com várias televisões, passando filmes em loop. O visitante poderia pegar um fone de ouvido e assistir, se assim desejasse. Que eu me lembre, entre outros filmes, estava passando Medianeras.

Como parecia ser uma constante na minha viagem, por onde passava via um pouco do Brasil. O primeiro quadro a me chamar atenção era justo o de Tarsila do Amaral, Abaporu, em destaque no corredor que levava à segunda sala. Vi outras obras de brasileiros por lá, inclusive, algo me diz, outra de Tarsila, mas devia ter levado um bloco de notas ou coisa assim. Tinha, então, a ideia de escrever uma espécie de diário de viagem, mas nada nessas proporções nem que fosse especificamente sobre o museu. Lembro de ter visto um quadro de Oswald de Andrade. Um quadro enorme, sobre o qual não lembro nada, mas lembro da minha surpresa ao descobrir que Oswald pintava. Ao lado, seu manifesto modernista, aberto, protegido por vidro, do ar e dos dedos.

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Sem anotações, com a memória vaga, fica complicado escrever qualquer coisa de muito significativo sobre as obras de arte lá expostas. Como de costume na arte, tem suas polêmicas. A instalação que é só um anúncio de aluga-se. Por um instante, achei que fosse mesmo um anúncio e estivessem com um espaço livre, mas, na verdade, era “arte conceitual” expondo o mercantilismo presente no mundo artístico “atualmente” (as aspas porque, se não estou me confundindo, essa instalação é da década de 80; se algo mudou desde então foi pra pior). Imagens de pobreza e festa também são constantes, parte inseparável da América Latina, de certa forma. Cores, decadência, esperança, miséria. Ao mesmo tempo, um desejo por revolução. Esse é o espírito do MALBA, como um todo, independente do que diga cada obra por si própria. Existem correntes invisíveis espalhadas por toda a América Latina, nós sabemos de onde elas vêm. Uns as querem partir, outros estão acostumados ao aperto nos punhos e até gostam delas como enfeite. No MALBA, pulsa o desejo de liberdade do nosso continente, desejo sempre frustrado, quando não por forças externar dominantes, os mestres de nossas correntes, são nossos próprios males internos historicamente enraizados que nos derrubam. Talvez por isso tenha me incomodado mais do que deveria com as exposições convidadas: Jeff Koons, sobre o qual já reclamei em várias ocasiões e, sem querer me repetir, não acho que passe de uma esteira industrial de mau gosto (pelo menos a parte da obra dele que eu conheço); e Yoko Ono, que ocupava todo o andar acima.

Subi o segundo lance de escadas rolantes. Havia uma placa em frente à entrada indicando que ali começava a exposição da Yoko Ono. Fico pensando se deveria botar aqui minha opinião sobre Lennon e Yoko. Mentira, não é conflito algum, talvez o grande motivo de eu ter começado a escrever esse texto tenha sido pra expressar minha opinião sobre o significado por trás da obra desses dois artistas. E por que eu boto os dois no mesmo prato como se fossem arroz e feijão? Porque é isso mesmo. Boa parte da obra de Yoko exposta no MALBA era composta de frases feitas do Lennon, dos ideais que ele usou ao longo da vida pra encher a própria conta bancária – com sucesso. Mas estou me adiantando e, até agora, se eu estou certo e vocês já discordam de mim, só fiz foi gerar hostilidade entre mim e vocês, supostos leitores.

Entrei na sala e escutei um zumbido. Vinha de uma caixa de som tocando um disco dela que era, se não me engano, uma longa gravação do zumbido de uma mosca. Ao lado, em loop, um vídeo de uma mulher (provavelmente a Yoko, não vi o rosto), nua, deitada numa cama, enquanto uma mosca caminhava pelo seu corpo, do pé à cabeça. De todas as obras presentes, essa combinação som e vídeo foi a mais impressionante pra mim. Não imaginava como ela poderia ter sido feita. Moscas não são seres atentos e treináveis. Se parece que estou sendo sarcástico por culpa do parágrafo anterior, não exatamente elogioso, não estou. Gosto de ver coisas e não fazer ideia de como elas foram feitas. Traz à tona o aspecto mágico da criação artística.

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Não relacionada à exposição da Yoko. Não tirei fotos dessa parte. Tinha muita gente. Sou tímido.

Foi o que veio depois que, na falta de palavras melhores, me irritou. Exemplo: uma cruz de madeira, de uns 2 metros de altura, coberta de pregos; anexada à ela, um martelo, e, no chão, ao lado da cruz, uma caixa de pregos soltos; o observador era convidado a pegar um prego e pregá-lo na cruz. Pode ser cinismo da minha parte – toda a crítica que está por vir deve de ser meu cinismo falando mais alto, estou tentando trabalhar nisso -, mas achei bastante ridícula a montagem. Sim, compreendo o simbolismo cristão, a ideia de todos estarmos envolvidos no “flagelo de Cristo”… Ai ai, se é que era isso mesmo que a peça queria representar. Mas tinha um pai segurando o filho no colo pra que ele pregasse um prego na cruz também, tentando manter o equilíbrio pra que a esposa dele pudesse tirar uma foto sem que ela saísse tremida. Uns passos depois, um grande mapa-múndi todo carimbado com a palavra Peace (paz, caso alguém não saiba). Sobre uma mesa, um carimbo; colada na parede, uma folha com instruções que diziam: carimbe o lugar do mundo em que você queria que houvesse paz. Desnecessário dizer que havia gente tirando uma selfie enquanto carimbava, e forçando crianças a posarem pra fotos enquanto carimbava. Apesar dos esforços hercúleos de Sra. Ono, no entanto, ainda não há paz no mundo.

É esse o meu problema. Em se tratando de paz e coisas assim, não sei lidar com gente que usa essa necessidade pra fins comerciais. E é nisso que acho que a carreira de John Lennon se baseou (pós-Beatles) e em que a carreira de Yoko Ono se baseia. Velhas ideias, nada originais, propositalmente ingênuas, pedindo por paz sem fazer nada por isso, que vendem bem porque trazem uma mensagem identificável: todos querem paz sem ter que trabalhar por isso e, principalmente, é muito legal mostrar pros outros o quanto você se importa, independente do quanto os atos amplamente divulgados de fato afetam  a situação do mundo, desde que dê pra colocar um preço neste ato. É muito bom e fácil pregar pobreza e simplicidade enquanto se vive no luxo, distante da nojeira que é a pobreza que se explora. Enfim, já fui longe demais. Tinham várias outras instalações ali que trabalhavam com as mesmas ideias de forma diferente. Tinham frases do John Lennon escritas nas paredes – deixem o homem descansar; mesmo que o caráter dele tenha sido, na minha opinião (antes que me preguem na tal cruz – ha! ninguém vai me pregar na cruz por isso, ninguém nem vai ler isso aqui!) duvidoso. Ao meu lado, enquanto voltava todo o caminho pela sala em direção às escadas rolantes, passou um brasileiro que dizia: essa é a típica artista, nada aqui significa porra nenhuma, mas a gente tem que olhar e fingir que entende. Quem não entendeu o comentário fui eu. Aquela exposição, boa ou ruim, não podia ser mais compreensível. O significado dela estava escrito e desenhado por todas as paredes e até no teto (literalmente): paz, assim como a guerra, vende.

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Passei uma última vez pelas obras do primeiro andar pra esquecer de Xoko Ono, como havia dito o garçom uma noite antes. De volta ao térreo, descobri que tinha um cinema lá passando dois filmes, de graça, mas os horários ainda estavam distantes e havia a apresentação orquestrada de Metrópolis, que eu não estava bem certo se iria mesmo ver. Ainda lá, seguindo reto da entrada, uma espécie de memorial das ditaduras militares nas Américas, um lembrete pra que ninguém duvide que aconteceu, que teve vítimas e que não deve se repetir. Vendo as imagens dos vários ditadores de cada país e seus anos de atuação, me perguntava se tinha algo assim no Brasil. Era, ainda é, necessário, com o sempre crescente movimento de viúvos e viúvas do chumbo. Numa sala anexa, arquivos para consulta pública com dossiês expondo, com notícias da época (antes, durante e depois), estatísticas, documentos políticos e diplomáticos, depoimentos et cetera. Completíssimo e, não bastasse, cópias das folhas dos dossiês enfeitavam todo o museu.

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A operação Estadounidense que financiou os golpes e ditaduras na América do Sul (e Henry Kissinger, canalha, ainda vivo porque vaso ruim não quebra, na mesma época, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por não levar a paz no Vietnã, enquanto financiava as mortes na América do Sul e Central, e no Timor Leste, entre outros locais – crimes internacionais pelos quais ele nunca pagará, nem os chefes dele. Provando que a história se repete, Obama leva o mesmo prêmio por não dar fim a guerra no Iraque. É assim que as coisas são. Carimbemos um mapa-múndi. Ou nos refugiemos na mansão da Yoko. Sendo justo, as ideias dela são ingênuas, um pouco tóxicas (não é bom viver numa nuvem) e cheiram à hipocrisia, mas não são monstruosas, pelo menos.

Saí feliz pela visita e pela memória que reterei pelo tempo que durar minha memória. Ainda era cedo, tinha horas até a exibição de Metrópolis. As nuvens estavam pesadas, preferi não ficar por lá porque, em caso de chuva, a apresentação seria cancelada e eu perderia uma noite. Fui a um café, pedi algo pra comer e um café. Por algum motivo olhei meu celular e vi um número absurdo de mensagens nos dois grupos da empresa em que trabalho. Com medo de que a empresa houvesse falido na minha ausência (teria procurado um emprego em Buenos Aires, se tivesse sido o caso), abri as mensagens e vi que foi só um incêndio. Aconteceu de madrugada, estavam todos bem e, o escritório, só defumado, sem nenhum dano. Decidi, respirando fundo,  aliviado, que daria uma olhada no tal do Jardim Japonês, e, à noite, iria a um bar de que tinha ouvido falar antes da viagem. Não choveu e até hoje não vi Metrópolis, com ou sem orquestra, ao ar livre ou em casa. Mesmo assim, o universo me provou mais uma vez que ir ao bar é sempre a decisão certa.

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Observações aleatórias #5

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1 – Ainda falando do romance terminado, talvez porque ontem tenham se encerrado as inscrições para o tal prêmio, achei melhor tirar umas férias rápidas da ficção. Montes de escritores foram obrigados a publicar suas “regras” pra escrita. Henry Miller foi um deles. Entre as regras dele, estava inclusa: saia de casa, vá aos cafés e aos bares, mantenha-se humano. Essas regras, independente do autor que as invente, são sempre questionáveis, às vezes se contradizem, não têm valor nenhum, mas são obsessão inevitável dos autores novatos. Já que não tem escola que possa nos ensinar a escrever, as palavras de auxílio dos que conseguiram aprender são buscadas, não como guia pro que fazer mas como reafirmação de que aquilo que se está fazendo é certo. Porque não dá pra saber. Mas não era sobre isso que eu queria escrever agora. Era sobre as tais “férias”. “Mantenha-se humano” não é uma dica exagerada. O grau de isolamento a que a escrita de um romance incentiva é desumanizante. Não que eu, ou qualquer outra pessoa – embora tenham casos assim -, tenha me trancado num quarto durante todo o processo. Mas é um isolamento mental. Uma indisposição para receber coisas do mundo. Durante a escrita do rascunho, ainda acontece. Mas, uma vez avançada a revisão, o polimento da obra bruta, se cria um medo de descobrir qualquer coisa nova, de se experienciar algo que possa te fazer querer mudar os rumos do romance. Isso pode tirar uma pessoa do mundo ao redor dela de modo surpreendente e prejudicial. O que não se ouve com frequência, mas pra mim é verdade, é que é muito fácil se entregar ao isolamento. O que estou fazendo agora é, aos poucos, me abrindo outra vez.

2 – Escrever poesia tem sido uma ótima forma de voltar. Ainda é escrita, mas não é ficção, não envolve estrutura nem nada que seja fechado em si mesmo. Pelo menos não o tipo de poesia autológica que estou fazendo. Não tenho intenção de publicar esses poemas. Não aqui, não em livro. Sim, há sempre o ainda. Mas é que também é muito fácil não publicar. Digo melhor, é um conflito. O ego é forte. Às vezes, quando tenho a ilusão de que me supero num verso ou num poema completo, a primeira coisa em que penso é: tenho que botar isso no blog. Não sei por qual motivo esse pensamento me vem. Não é como se alguém o fosse ler por aqui e essa leitura fosse mudar a minha vida ou a do leitor de alguma forma – este é o segundo pensamento, o que eu sigo, e a razão de vocês não terem visto nada do caderno aqui (ainda). Desde então, tenho caminhado com meu caderno, tenho escrito em praças, em lugares que não o meu quarto; eis a importância do ato: permitir que eu saia, observe, anote, receba, entre de volta no mundo de que tentei sair. Ao mesmo tempo, a liberdade é parte essencial dessa ideia. Se começo a escrever pensando na recepção que o poema pode ter no blog (nunca tem uma recepção, mas sempre tem a expectativa de uma recepção qualquer que seja), posso deixar de escrever determinadas palavras, o que me fecha de novo.

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3 – E falando em experiências e contato, fui num boteco à beira da praia com um pessoal do trabalho. Quem me conhece sabe da dificuldade que é me botar perto da praia. Mas lá estávamos nós – não todo o escritório, éramos quatro no total -, bebendo água com gás feita de milho, falando bobagens. (Bom, daqui em diante, vai ficar muito ruim e repetitivo se eu tentar escrever a conversa sem citar nomes, então vou fazer pseudônimos pra facilitar meu trabalho. À mesa havia: eu, que continuarei como eu; Olga, a mais velha entre nós; Júlia e Vera. Pronto. Se bem que eu poderia botar os nomes verdadeiros e vocês não fariam ideia. E elas nem sabem que escrevo, então não é como se houvesse risco de elas acharem isso aqui. Não seria paranoia se fizesse sentido.) Como sempre acontece nessas situações, não sei como chegamos a esse assunto, mas Olga, que havia almoçado comigo num quilo perto do escritório, disse:

– Me apaixonei hoje (…) O cara mais lindo. Trabalha no Santander (…) Agora que sei que ele almoça lá, vou continuar indo pra ver se consigo falar com ele.

Eu: – Que coincidência, também tô de olho numa moça que vi lá, a que fica no caixa (…)

E começamos a discutir sobre as dificuldades de aproximar pessoas desconhecidas fora do contexto maravilhoso que é o bar. Nisso, percebi uma grande diferença entre mim e Olga, ou, como já deveria ter me dado conta muito antes dessa conversa (e, notando a extensão disso aqui e o quanto ainda falta pra terminar a história, tô começando a achar que era melhor ter feito disso postagem individual, mas agora foda-se): sem trocar palavra com o cara, ela já sabia nome, local de trabalho e cargo, estado civil, além de saber de alguns gostos pessoais dele e ter “amigos” em comum. Sim, estou falando do facebook, que me recuso a ter. E, por me recusar, ainda não sei o nome da moça, nem nada sobre ela. Enfim, falamos do tal ato de stalkear (espreitar, povo, existe palavra em português pra isso, pode ser espionar também, bisbilhotar, fuçar, cavocar, caçar… stalkear é a palavra mais feia que o estrangeirismo pôde conceber – empoderamento estando logo ao lado, junto do termo off, ao invés de desconto; parem com essas merdas e aprendam seu próprio idioma), estratégias de aproximação, a zona ambígua que separa atração e hospitalidade, e tudo o mais. Sim, isso são mais notas pra um futuro texto. Não vai dar pra falar do quanto eu acho que estamos perdendo a diversão e o risco da descoberta pessoal em tão poucas linhas. Fica prum futuro próximo.

4 – Decidi encerrar as observações indicando um disco, de agora em diante. Algo que eu esteja escutando com frequência no espaço de tempo próximo ao do momento em que as observações estão sendo escritas. O dessa vez é o disco Cheftak, da dupla libanesa de trip-hop Soap Kills. Nada a ver com o que eu costumo escutar. Na verdade, por ter muito de eletrônico, é quase um oposto, mas estou gostando. Metade da dupla é a Yasmine Hamdan, que faz aparição em Only Lovers Left Alive (sim, estou citando Jim Jarmusch outra vez, e, quer saber?, a observação número 2 foi toda inspirada por Paterson, o filme mais recente dele, sobre o qual não paro de falar: acostumem-se), e não há palavras no dicionário que façam jus à exuberância dessa mulher. Escutem o disco e depois me digam. Participem dessa porra. Se eu quisesse que esse blogue fosse o monólogo de um cidadão perturbado, teria fechado a caixa de comentários há muitos anos. Eu tenho esse poder, mas preferiria que esse blogue fosse uma série de diálogos com um cidadão perturbado. Não gosto de falar sozinho, tenho medo de ouvir respostas de novo.

Obs.1: Ah é, não sei botar vídeos do youtube via wordpress. Bom, tá aí o link pra uma música do disco. Mas tem o disco todo no youtube, só não num vídeo só. Vão procurar, bando de vagabundo.

Obs.2: Vejam só, o link vira uma caixa de vídeo sozinho. Bom, o troço aqui podia ter me avisado que isso ia acontecer. Não vou apagar a observação acima, quero que o transtorno fique registrado.

A poesia do banal

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Falando do filme Paterson – dir.: Jim Jarmusch [2016]

É redundante dizer que estava ansioso pra assistir Paterson, o novo filme do Jim Jarmusch, desde que ele foi anunciado, porque eu estou sempre ansioso pra ver algo novo dele. Poderia ser um vídeo caseiro gravado no natal, algo de interessante sairia. Mas havia algo a mais neste atual. Ele é sobre poesia – ok, mais exatamente sobre um motorista de ônibus que escreve poesia, mas eu insisto que poesia é o combustível que move o filme -, e pode se dizer que poesia sempre esteve nos filmes do Jarmusch (Dead Man, com o protagonista chamado William Blake e a estrutura que mais lembra estrofes rimadas, Ghost Dog, ritmado pelo rap, Stranger than Paradise e Down by Law, com a poesia improvisada do jazz, a poesia das repetições e desencontros dos muitos cenários e das diferentes culturas em Mystery Train e Night on Earth, a poesia da solidão e da busca pelo tempo perdido em Broken Flowers, a poesia do amor, da dualidade e do cosmos, do tempo e da eternidade, em Only Lovers Left Alive), mas Paterson parece o resultado, a poesia final, de todas essas tentativas/esboços anteriores.

Só que, principalmente, depois de tanto tempo ouvindo o diretor falar sobre poesia ou do passado dele envolvendo essa arte, um filme como esse parecia inevitável, e, ainda, não parecia ser lançado. Ele foi aluno de Kenneth Koch, um dos poetas mais representativos da escola de Nova York, e estudou e conviveu com muitos poetas desse cenário, incluindo Ron Padgett, que escreveu todos os poemas usados no filme, com exceção de um que foi escrito pelo próprio diretor. Já tinha ouvido o diretor falar do tanto que gosta de  poesia e suas influências. Inclusive, a participação dele em Bored to Death é falando que ele “escreveu um filme sobre o poeta Frank O’Hara”, e, desde então, esperava por um projeto assim – finalmente chegou.

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Ao finalmente conseguir ver o filme, tive a impressão de que ele foi feito pra mim. É uma ilusão, claro, mas me atingiu em cheio: a história, a poesia, cada cena e detalhe. Tanto que já quero ver outra vez. E quero escrever sobre ele aqui. O problema é que nenhum de vocês, estranhos (uns mais estranhos que outros) silenciosos que deixo que me bisbilhotem, provavelmente, viu esse filme ainda, o que me “força” (é um esforço voluntário, saibam bem disso, porque quero que aqueles de vocês que decidirem ver o filme depois de ler o texto o aproveitem tanto quanto; nada me impediria, de fato, de fazer uma análise aprofundada do filme e estragar toda a experiência dos leitores aleatórios que esbarrarem com esse site – gosto só de alguns de vocês, a maior parte nem conheço, e há de ter alguém por aí de que eu não goste) a não escrever nada muito revelador sobre o enredo ou coisa assim. Chato, né? Pois é, mas vamos ver no que dá.

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Um motorista de ônibus chamado Paterson (Adam Driver, que, depois de Girls, Frances Ha, Inside Llewyn Davis e Star Wars, tá se mostrando um dos atores mais versáteis atualmente), que vive na cidade de Paterson, Nova Jersey,  mantém um caderno de poesias e uma rotina confortável pra ele. Acorda de manhã e faz algum gesto de carinho para com sua parceira, Laura (Golshifteh Farahani, grande atriz iraniana, daquelas com excesso de talento, que deviam ter compartilhado um pouco, e linda a ponto de roubar os globos oculares do espectador em cada cena), toma café e vai dirigir seu ônibus, sempre observando, pensando poesia, escrevendo nos intervalos. Terminado o expediente, janta, passa um tempo com Laura, leva Marvin (o bulldog inglês interpretado pela Nellie, cachorra simpática demais, descobri que outra vítima de 2016…) pra passear e para no bar pra uma cerveja. Volta pra casa, dorme e faz o mesmo no dia seguinte.

Enquanto isso, Laura, que, apesar de compartilhar nome com a musa de Petrarca, é muito mais que só uma musa, vive de forma vibrante e criativa, um verdadeiro espírito livre. Ela cria projetos, cria arte nos objetos da casa e nas suas roupas e em si mesma, descobre coisas novas pra aprender. São, de certa forma, opostos em atitude, Paterson e Laura, mas que se compreendem, se aceitam e se incentivam. Chega ao ponto em que eu acredito que Jarmusch descobriu o que é o amor, porque, depois de Only Lovers Left Alive e Paterson, dá pra ver que ele pelo menos entende o problema da convivência e tem sucesso em demonstrar soluções, mesmo que fictícias, pra ele.

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Todos os críticos e seus estagiários fizeram questão de apontar o quão interno o filme é, mas acho que isso ainda pode ser destacado um pouco mais. Paterson é um filme cheio de sutilezas, como é de se esperar do diretor, muitas coisas são apresentadas e perguntas são feitas, mas são raras as vezes em que o filme prende as ponta soltas ou responde as perguntas. Na verdade, o espectador é incentivado a abraçar a dúvida e deixar de lado a compreensão. Por exemplo, na primeira cena, vemos a foto de Paterson com uniforme do exército. Surgem perguntas: ele viu a guerra? esteve lá? quanto sofreu durante ela? viu mortes ou teve que matar? se recuperou dos traumas? Respostas são sugeridas, mas é coisa da cabeça de quem vê, porque nada é dito, nem a presença da personagem no exército é dita. Algumas de suas ações demonstram disciplina, outras mostram possíveis traumas ou agressão internalizada, mas fica por isso mesmo, no campo da teoria.

As respostas, se você é um leitor acostumado a filmes que respondem, não importam e é bom entrar nesse filme ciente disso. É um poema (bom, é poético, porque não é um poema, é um filme, mas é bom, nesse caso, diminuir as fronteiras que separam esses meios), e já dizia e. e. cummings, não é necessário entender um poema para apreciá-lo, acho que era isso que ele dizia, ou coisa parecida. Como o poema que Paterson lê para Laura, de William Carlos Williams (habitante de Paterson, que escreveu todo um livro de poesias sobre Paterson): Isso é só pra dizer – Eu comi/as ameixas/que estavam no/refrigerador—e que/você provavelmente estava/guardando/pro café da manhã—Me perdoa/elas estavam deliciosas/tão doces/e tão frias – esse poema era só um bilhete deixado, talvez, pra esposa, pra pedir desculpas por algo que aconteceu mesmo. O filme todo é como um diário, uma série de notas. Os dias-estrofes são mínimos, repetitivos, ações rimam umas com as outras, anedotas se formam na segunda e se completam na sexta, e o espectador acompanha, entra na vida fictícia que se apresenta ao seus olhos, lê e interpreta livremente os acontecimentos, inventa respostas, risca as respostas erradas, se deixa levar, como quando se lê uma poesia.

Como que eu vou terminar esse texto sem falar mais do que deveria sobre o filme. Parece que já escrevi tudo que poderia escrever, sem fazer disso uma análise profunda demais – o que estragaria o filme pra vocês e pra mim. Acho que posso dizer que, tendo visto o filme duas vezes e ansioso pra ver pela terceira vez, revivi meu caderno de poesias. Já escrevi umas coisas. Não quero postar nem mostrar pra ninguém, por algum motivo. É meu pequeno projeto poético sem finalidade.  Depois do almoço, no tempo que ainda tinha até voltar pro trabalho, dei uma caminhada rápida e sentei numa praça, abri o caderno e rabisquei umas ideias, coisas que tavam na cabeça. O filme serviu pra isso, é o que eu quero dizer, me afetou dessa maneira ao me mostrar essas pessoas fictícias que poderiam ser reais (e foram, William Carlos Williams era pediatra, Frank O’Hara era curador de arte, dezenas de poetas foram professores de mais que só literatura) vivendo, não de arte, mas ainda assim vivendo por ela. Poetas, artistas visuais, músicos, o que for, como identidade secreta. Paterson, Laura, Carlos Williams, O’Hara eram o que queriam ser, tiveram o privilégio de viver além do que eles faziam. Acho que foi isso que Paterson me inspirou a fazer. Recebam vocês, também, um caderno em branco para fazerem o mesmo. A-ha.

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Uma tarde no MALBA – parte 1 (Diário de Viagem #4)

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O tal museu: de fora.

As pernas ainda não recuperadas do dia anterior, quando eu fui ao Museu de Belas Artes e aproveitei, depois, que estava perdido no bairro de Recoleta pra caminhar por lá, ver as casas, achar o Cemitério (mas não os túmulos de Bioy Casares nem das irmãs Ocampo nem de Macedonio Fernández – e descobrir que Roberto Arlt foi cremado e nunca esteve lá -, e, de quebra, ter uns 3 brasileiros me perguntando em portunhol como achar o local de descanso da Evita – que eu não estava procurando e não achei nem por acidente). Fiz mais tantas coisas entre o fim da tarde e noite de quinta – dia antes do dia em que se passa este relato (sexta) -, mas nada que possa ter sido tão marcante, não lembro com exatidão. Mas lembro bem da sexta, porque foi o melhor dia da viagem, então sei que, depois de lidar com o chuveiro de temperatura inajustável que jogava mais água, ou fervente ou gelada, para os lados que para baixo e inundava o banheiro, como eu fazia todas as manhãs, fui ao café mais próximo do hotel em que estava hospedado e que mais me agradou. Cheguei por volta das 9:00. Pedi o de sempre (já tinha um de sempre), a media luna con jamon y queso e o expresso duplo, abri Queremos tanto a Glenda, do Cortázar, que tinha comprado numa feira de livros uns dias antes, e comi e li até por volta das 10:30, aproveitando que lá ninguém te apressa pra desocupar as mesas – nem te atende sem que você atire com um sinalizador no teto do recinto -, até que comecei a me distrair com o celular, buscando sem sucesso um mapa que mostrasse o trajeto saindo de onde estava até o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA). Sem sucesso, fui pagar a conta e aproveitei pra perguntar à moça como que eu chegava ao MALBA. Ela me passou instruções detalhadas com auxílio do computador dela, que pegava a wifi, ao contrário do meu celular. No fim da explicação, deu uma dica fundamental que eu, pretenso flâneur romantique, ignorei – o que nem foi difícil, bastou eu não prestar muita atenção pra captar as palavras em espanhol escondidas atrás do pesado sotaque portenho: pegue o ônibus, tem um ponto [sons de língua tricotando] vai te deixar na porta do MALBA. Quem precisa de motor e rodas?

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Não esse café mencionado, mas um café, e acho que só umas duas quadras depois.

Uma hora depois, eu mancava das duas pernas enquanto me dava conta de que virei a esquerda quando devia seguir reto e tinha de voltar. Cruzo com um indiano que tentou, no espanhol dele, me pedir informação. Perguntei de onde ele era, mas como já contei pra vocês, vou pular a resposta. Então conversamos em inglês sobre o quanto eu estava tão perdido quanto ele. Atravessei a rua e ele ficou na esquina esperando um passante mais útil. Olhei a placa do outro lado da rua e encontrei o que ele procurava. Acenei, mas ele já havia recebido a informação de um nativo. Segui meu caminho e, a essa altura, a dor já era psicológica. Vi um ônibus sair do lado de um ponto e passar pela rua, bem ao meu lado. O ponto estava lá, bem em frente ao MALBA. Pensei no que poderia ter sido. Era inútil pensar. Só fazia que a dor aumentasse. A dor que não existia de verdade.

O MALBA tem uma exposição permanente. Se ela é parte de um acervo maior, sempre em circulação com o passar do tempo, pra variar o conteúdo e preservar melhor as obras, eu não me lembro. Acho que li isso em algum lugar, mas esqueci onde e, por mais que pesquise, não consigo achar nada assim com referência a este museu. Posso ter sonhado ou confundido com o Museu de Belas Artes. A exposição permanente é 60% do conteúdo. O resto são mostras temporárias, visitantes, quase como eu, turistas.

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Não chequei, mas acho que os gatos estão vivos. Só estão pegando sol. Infelizmente, não tive oportunidade de fazer amizade com nenhum deles.

Antes de ir pra Buenos Aires, algumas pessoas, pessoalmente e via postagens de blogue (coisa confiável), disseram que o portenho não é, dentre as criaturas, a mais afável. Minha experiência não foi essa. Lembrei que, na tal esquecida noite de quinta, fui num bar, mas, como era cedo, estava vazio. Aproveitei pra pedir minha comida tranquilo e tomar umas cervejas. O garçom perguntou de onde eu era porque, embora eu acreditasse ser fluente em espanhol, meu sotaque não enganava ninguém. Disse brasileiro e, pronto, o cidadão se empolgou e começou a falar de como ele conheceu/queria conhecer – um desses – a Amazônia e o Rio de Janeiro. Reparei que, ao meu lado, havia uma foto de Vinícius de Moraes, começou a sair das caixas de som música da Ana Cañas ou algum clone dela ou de quem quer tenha sido a original de que surgiu o clone que chamamos Ana Cañas. Ele perguntou o que andava fazendo e eu mencionei o Museu de Belas Artes e o Cemitério e minha ideia de, no dia seguinte, ir ao MALBA. Sim, o MALBA, lá está com uma exposição da Xokono, você viu? Não entendi, exposição de quem? Xokono… Xoko no… Xoko Ono… Ah, Yoko Ono (e foi então que descobri que o argentino, tal qual o francês, pronuncia o idioma dos outros como se fosse o dele). Disse que achava interessante, mas não achava interessante, e queria ver a mostra de Metropolis (Fritz Lang, 1927), a ser exibido às 20:00 daquela sexta, ao ar livre numa praça anexa ao MALBA, com orquestra ao vivo fazendo a trilha sonora. O rapaz falou que mais tarde ia ter uma roda de samba, se eu quisesse ficar pra ver, e até ia, começou a chegar mais gente no local, mas notei que o chope que pedi, o que o garçom disse ser o mais forte oferecido pela casa, tinha gosto de água com gás e perdi o ânimo. Pedi a conta e fui pro hotel.

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O tal museu: de dentro, logo após o primeiro lance de escadas rolantes.

Na entrada do MALBA, pra me receber, uma das estátuas do Jeff Koons passeando por lá até não sei que data. Há quem goste. Olhei pra ela com descaso. Muito brilhosa. Pelo menos não era a do cachorro de bexiga metálico. Era de uma mulher, se bem me lembro. Nem foto tirei, tão grande é meu desgosto pela obra desse cara. Mas isso não importa a ninguém. Tinha gente ao redor da entrada, nos bancos conversando, lendo. Entrei. Um grande salão, logo de início. A obrigatória lojinha de lembranças no canto, ao lado do guarda volumes; além disso, mistério, e duas escadas rolantes que levavam às e voltavam das exposições. Tinha muito o que se ver ali no térreo, mas decidi subir primeiro, ver as obras de fato. Fui à recepção. A moça disse que a entrada era 100 pesos – toda vez a taxa de câmbio me assustava, não tinha um preço na cidade que usasse números baixos -, mas teria de largar a mochila no guarda-volumes. Tirei a câmera de dentro da mochila, entreguei a mochila pra mulher do guarda-volumes. Peguei o comprovante e guardei com cuidado no bolso de dentro do casaco – o da esquerda, repeti mentalmente pra criar uma espécie de memória verbo-mental que não posso comprovar se funciona. Paguei pra entrar no museu e montei num degrau da escada rolante. Gente atrás, gente na frente; se o de cima caísse, haveria tragédia. Mas nunca ninguém cai causando tais efeitos. Não que tenha sido noticiado ou que eu tenha lido a notícia.