Observações aleatórias #4

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1 – Depois de 4 anos de trabalho – não contínuos -, ao terminar a revisão do romance, me dei conta de que não tenho capacidade de julgar sua qualidade. Conheço tão bem o trabalho, a intenção por trás de cada acontecimento e escolha, que não sinto nada ao lê-lo. Existe uma velha máxima do escritor E. B. White que diz: o humor pode ser dissecado, como um sapo, mas a coisa morre no processo. Isso vale pra qualquer coisa, inclusive literatura. O “manuscrito” (a tela digitada) dissecado em minha frente, pra mim, não é mais nada, está morto. Por um lado é bom, porque pode ser que tenha vida pra outra pessoa. Eu quero partir pra próxima. Há anos quero partir pra próxima. Escrita é bem esse negócio da obsessão, a ideia obsessiva que te paralisa até você realizá-la, então ela morre, vai pro inferno que é o processo de tentar publicar, e o autor segue pra próxima obsessão e segue o baile. Ainda estou por descobrir o sentido da coisa toda, mas acho que é como a vida: não tem; você pode inventar, mas, no fim das contas, é história de ninar gente grande. Você precisa dormir quando bota a cabeça no travesseiro, não precisa?

2 – Almoçando com uma amiga do trabalho que já figurou em outras dessas observações, conversando sobre prêmio Sesc, romance terminado, dentre outras chateações, vendo como ela parecia mais empolgada com a coisa do que eu, lembrei e contei pra ela duma entrevista que vi da Zadie Smith com o Charlie Rose (esta múmia pentelha da parte da televisão americana que ainda finge inteligência, ou fingia, a entrevista de que falo foi em 2004 – ? -, não sei… na época em que ela publicou Sobre a Beleza). Nela, Zadie fala de suas ansiedades, enquanto autora, ao ser lida por amigos e família, e perceber que, por seu trabalho ser tão focado no realismo e nas relações familiares, que muitos deles tentavam se identificar entre as personagens. Ela concluiu que não era tão mal, pelo menos ela não escrevia sobre sexo, como Philip Roth, este ela nem imaginava pelo que passava. Podemos concluir, Philip Roth, hoje, vivendo em reclusão no meio do mato ou coisa parecida, que não era fácil pra ele. Eu escrevo sobre sexo também, não que nem ele, sem masturbações com fígados de animais nem masturbações em frente a túmulos, mas tem suas putarias, talvez gozadas despejadas em copos usados de vinho enquanto se assiste um vídeo pornográfico dirigido por Richard Avery, dentre outras cenas, mais todas as drogas e álcool e cigarros. Minha família não vai ficar sabendo desse livro enquanto eles viverem. Quase repensei a ideia de inscrever o livro em qualquer concurso, repensei toda a ideia de publicar. Mas não. Tem que ser. É o único jeito. O que vier depois, foda-se. Tem muitos matos por aí pra eu me isolar.

3 – Isto é um adendo pro texto que escrevi sobre youtubers e seus livros. Esse aqui ó. Não tinha pensado nisso antes e culpo minha leitura de A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord, por me instalar essa nova paranoia – explicando o tom niilista das observações dessa leva. Basicamente o que ele diz na parte Comentários sobre A Sociedade do Espetáculo, escrito umas décadas depois do livro em si, lá pros idos anos 1990, foi que o espetacular permitia que, por exemplo, um museu inaugurasse uma exibição de um artista que não existia, e ninguém se incomodaria com isso, seria artificial, por completo, automático, mas seguiria padrões, e as pessoas poderiam seguir confortavelmente. Lembrei de imediato dos livros do James Patterson, das obras de arte do Jeff Koons e Damien Hirst, e, claro, dos livros de Youtubers. Vou explicar, crianças, acalmem-se. James Patterson é uma marca. Verdade, pode ser que em algum momento da história da carreira dele ele tenha se dedicado a sentar o cu numa cadeira e bater palavras num papel, mas, hoje, ele tem uma equipe de escritores que escrevem as ideias dele em livros mais ou menos seguindo a fórmula que ele desenvolveu. Não é diferente das linhas de produção em indústrias. O desenho e a ideia tão lá, foram desenvolvidos por alguém, tem gente que é paga pra criar, de fato, a coisa física além da ideia. Vende milhões e uma bela porcentagem vai pro Jaiminho, outra, muito maior, vai pra editora – todo mundo feliz, menos alguns leitores e, talvez, os escritores que tiveram que escrever aquela merda. Jeff Koons e Damien Hirst, mais ou menos a mesma coisa hoje em dia. Eles têm a ideia, esboçam, e artistas pagos criam a coisa. Eles recebem os milhões por vender a aberração pra algum colecionador que nem gosta de arte – não pode ser que goste – pra que ele mostre pros amigos em festas (veja só meu tubarão no formol, hohoho…). Youtube é a versão corporativa dessa merda. Por quê? Bom, se James Patterson, Jeff Koons et cetera são marcas, Youtube é a Ambev – Google é a AB Inbev. Youtubers, bom, tem o youtuber Skol, o youtuber Brahma, o youtuber Caracu; vocês – os mais espertos – já sacaram o ponto. Se arte é a expressão física da percepção individual da existência – dentre outras definições -, só se esforçando muito na justificativa essas coisas se encaixam (Youtubers ou James Patterson). Não vai demorar muito pro Google desenvolver um algoritmo que escreva o livro pros Youtubers e James Pattersons da vida, eliminando o inconveniente humano. Sorte que o artista é Blattodeo em essência e, embora muitos talvez não sobrevivam, uns podem ser que resistam o futuro.

4 – Mas em geral as coisas vão bem. Meio cansado. Dor nas costas. Não sei o que é, vem e vai. Fiz uma caipirinha muito boa, depois conto a receita. Tenho uns contos pra escrever ainda. E fico cutucando o último parágrafo do livro sem parar. Como vocês tão?

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