Observações aleatórias #3

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Tio Alfred vendendo cachimbos em frente aos escombros da loja dele depois de um bombardeio na Segunda Guerra Mundial.

1 – Estou aproveitando o presente que dei a mim mesmo esse natal. Quando comprei meu primeiro cachimbo menos caro, na intenção de levar esse hábito mais a sério, não imaginava que, dois anos depois, eu teria um Dunhill Shell pra chamar de meu. Mas tenho. Comprei um usado na internet a um preço razoável. Levem em conta que um novo chega a custar três mil reais. Ainda por cima, é de, pelas minhas estimativas falhas, de 1957 ou 58 – margem de erro de 3 anos para mais, não para menos. Tenho boa consciência do poder de sugestão das marcas, por isso não vou fingir que fumar um Dunhill foi lá uma experiência religiosa, longe disso. É um cachimbo clássico, perfeitamente construído, mas é só. Muito da lenda foi forjada pelo marketing forte de décadas de presença – lembremos que Alfred Dunhill incentivava seus clientes famosos a aparecerem por aí com cachimbos “white spot” (todo Dunhill tem um ponto branco na piteira). O que me pegou foi mais uma visão bem simplista e um pouco abstrata de panpsiquismo. Suponhamos que árvores, seres vivos que são, tenham uma versão primitiva de consciência ou, sendo elas parte integral do planeta e, portanto, do universo, elas carreguem consigo algo que se possa chamar de memória universal, coisa assim. Partindo desse princípio, em que você pode ou não acreditar, rebobinemos a história desse aparato hoje usado pra carregar fumo em brasa. Tudo começou com uma Urze-molar (Erica arborea). Se o cachimbo de fato é de 1957 ou 1958, a Urze-molar ainda era da Argélia, porque era de lá que vinha a madeira usada para os cachimbos Dunhill Shell, por ser mais macia, deixando marcas mais profundas no fornilho depois do sandblast (jatos de vidro em pó atirados no corpo do cachimbo, formando marcações). A madeira em si deve ser envelhecida um tempo antes de virar cachimbo, logo, já tinha sido planta tantos anos antes. Feito o cachimbo, sabe-se lá o que aconteceu com ele até que chegasse em minhas mãos. Sei que não sou o primeiro dono, mas também é impossível saber se sou o segundo, terceiro ou décimo dono da peça, hoje, restaurada. Antes dos meus pais nascerem, lá estava esse cachimbo, que hoje eu acendo, sendo acendido por sei quem lá, ou no Brasil ou na Inglaterra, saído direto da loja Dunhill, ou em qualquer canto. Seria fascinante ter acesso às memórias desse pedaço de árvore, mas seria também igualmente fascinante ter acesso às memórias de qualquer coisa, principalmente não humana.

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Clarice Lispector, com os olhos, comendo sua alma.

2 – Perto do coração selvagem, da Clarice Lispector, é um dos livros mais fortes e viscerais que já tive o prazer de ter lido. Ou quase ter lido, me falta menos de um terço. É denso, com todo o fluxo de consciência junto da narração em terceira pessoa e das mudanças bruscas – mesmo que raras, pois o livro é uma dissecação da personagem Joana em graus muito além do físico – de ponto de vista. Mostra um conhecimento e humanidade que me surpreenderam, embora não seja o meu primeiro da Clarice (li Hora da Estrela). Que estreia foi a de Clarice! Não só como um romance, a filosofia dentro do livro precede mesmo a forma com que alguns conceitos de identidade feminina foram trabalhados por Simone de Beauvoir e conceitos de erotismo, experiência-limite e continuidade e descontinuidade, foram trabalhados por Georges Bataille (Perto do coração… foi publicado anos antes d’O Segundo Sexo – de Beauvoir – , d’O Erotismo – Bataille, e no mesmo ano d’A Experiência Interior – Bataille). Não por isso chega a ser um livro complexo. Sim, as brincadeiras linguísticas e saltos metafóricos podem deixar pra trás leitores que não curtem muito literatura (e vocês sabem o que eu quero dizer quando falo “literatura”), mas, de modo geral, a fluência da narrativa impede grandes confusões, mesmo que  nada seja cronológico e a linha que separa o real do sonho seja atravessada mais de uma vez.

3 – Outro conceito é o de liberdade, trabalhado com perfeição principalmente no capítulo “Casamento”. Me fez pensar em uma coisa que sempre passeia pela minha cabeça: que pra sermos livres de verdade, de certa forma, temos que deixar de lado nosso conceito formado do que é liberdade, porque isso existe – ideias formadas do que liberdade é, que nos aprisiona. Mesmo que seja impossível viver em plena liberdade com outra pessoa, quando se deixa de viver com outra pessoa, mesmo quando é disso que se tem vontade, se abdica dessa liberdade de igual maneira. A forma mais livre de se viver, se é possível chegar a esse ponto, pode ser que seja com base nas vontades imediatas, sem grandes análises conceituais, porque, independente do que se faça, a satisfação é inalcançável, sempre se deseja aquilo que não é – a decisão tomada pode ter sido a certa, mas a curiosidade por saber o resultado a que a decisão não tomada levaria faz com que se acredite que ela é a errada e a outra era a mais certa ou menos errada. Fui lembrado de uma conversa que tive num bar meses atrás. Ela me dizia alguma coisa que eu não conseguia entender, tanto pela barreira do idioma quanto pela música alta que tocava – e a mistura do álcool com a exaustão no meu sistema não facilitava em nada as coisas. Peço pra repetir, mas sigo não entendendo, até que canso de pedir pra ela repetir e acho que ela cansa de tentar, e respondo: não entendo, mas aceito. Você estuda improviso também?, ela pergunta. Não estudo, nunca fiz nada relacionado a atuação, ao contrário dela, mas pareceu, na hora e desde então, uma boa forma de ver a vida. Não entendendo, porque não dá pra entender tudo, talvez nem haja nada pra se entender e as coisas só sejam, logo, só resta aceitar. Parece uma história besta, mas foi uma das pequenas iluminações, dessas que todos temos, que tive nesse espaço de tempo que decidimos chamar de ano por alguma razão. Não dá pra ser livre sem esquecer o que liberdade é. Claro, a passagem a que me refiro nada tem a ver com essa analogia, mas foi uma dessas ligações que nos levam a outras ideias que nos levam a outras ideias… até que vim parar aqui. O que é meio que o objetivo desses textos. Me alegra que essa será, talvez, minha última leitura do ano,

4 – mesmo que eu seriamente relute a tratar a passagem de um ano pro outro como real. É um esforço consciente, porque eu tenho noção do tal simbolismo da passagem do ano, do sentimento de renovação e recomeço et cetera et cetera, mas acho uma grande bobagem e, por mais tentador que seja se entregar a bobagens, prefiro pensar que é um erro do ser humano usar seus números e contagens inventadas para contabilizar movimentos cósmicos existentes desde muito antes (muito, bota aí uns bilhões de anos, pra usar os tais dos números) do surgimento do ser humano. Não há nada errado nas festas, nos encontros típicos da época, mas a pressão posta nesse dia, no dito símbolo de renovação, acaba matando seu propósito, vira razão de angústia. É sempre bom lembrar que o “ano” é só uma contagem inventada pra facilitar o cotidiano da nossa espécie, que é movida por um conceito de tempo também inventado, porque é por ele que se medem prazos, expedientes e tudo mais que nós inventamos pra fazer da existência algo um pouco mais insuportável, e, lembrando disso, nem que seja só pra resistir um pouquinho, deixar essa contagem de lado de vez em quando e, no lugar dela, botar as, como coloquei no item acima, pequenas iluminações, coisas que não acontecem no natal ou no réveillon, mas em todos os momentos, parar de pensar no que foi feito nos 365 dias do determinado ano, e só pensar em tudo que aconteceu ao longo da sua vida, que não significa nada em grande escala, mas é o que você tem, então aceite porque é tudo. Quem sabe assim vocês parem de me incomodar com essas merdas de fogos de artifício, ô caralho.

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