Andei vendo uns filmes aí #4

MONKEY BUSINESS [OS QUATRO BATUTAS] – NORMAN MCLEOD (1931)

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É, crianças, cês achavam que os estagiários de hoje que traduziam mal os nomes dos filmes americanos. Isso é porque cês não conheceram os estagiários de outrora. Por isso vou me referir ao filme por Monkey Business. Um bom título? Não. Mas serve. Esse é o segundo filme dos irmãos Marx que eu vejo. Ando num humor pra esse tipo de comédia. A velocidade dos diálogos e os jogos de palavras me fazem pensar que talvez essa tenha sido a era de ouro do humor. Sem querer ser desses chatos que acham que tudo que é velho é melhor, só não vejo esse domínio linguístico nas comédias hoje, só fórmulas. Sobre o filme em si, não há muito que se dizer. Os irmãos Marx (Groucho, o malandro de fala rápida; Chico, o “vigarista” de sotaque italiano; Harpo, o mudo com coração de criança; e Zeppo, o galã que serve de gancho pras piadas, mas não tem papel cômico) são clandestinos em um cruzeiro de luxo, e isso basta pra que comédia aconteça. Os enredos dos filmes dos irmãos Marx não poderiam ser mais finos, mas não importa porque não é o objetivo dos filmes contar uma história, mas fazer rir. Aí que fica a magia do filme, no texto hilário, rápido, cheio de manobras linguísticas. Aqui está meu porém, por mais que queira indicar pra todos esse filme, tenham consciência que legendas em português podem atrapalhar muito. Longe de mim dizer que é necessário fluência em inglês pra ver um filme, mas, nesse caso, não consigo imaginar como funcionaria de outro jeito. Muitas falas são traduzíveis, mas sem graça quando traduzidas. Comédia é difícil de traduzir, principalmente uma tão movida por linguagem. Sim, tem a comédia física, especialidade do Harpo, mas não segura o filme, por mais incríveis que sejam certas cenas. Fora esse detalhe, ver a influência do teatro de revista no cinema dos Marx é outro grande atrativo. Tem um pouco de tudo, música, comédia, teatro, interpretação. Os quatro eram artistas bastante completos. Verdade, Zeppo é bem secundário, mas tem seu espaço – e, reza a lenda, fora do palco ele era o mais engraçado dos irmãos. Esse é um dos melhores dos filmes deles, e cada um deles é peça essencial da história da comédia.

LES VACANCES DE MONSIEUR HULOT (AS FÉRIAS DO SR. HULOT) – JACQUES TATI (1953)

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Terceiro dos quatro longas de Jacques Tati (com o Senhor Hulot) que vejo. Fiquei sabendo só depois que a versão que estava vendo era a antiga e hoje foi lançada uma estendida. Fez sentido, porque algumas cenas pareciam mal conectadas, o que é estranho pra um filme do Tati, conhecido pela mágica do ritmo, do posicionamento em cena e da edição. Enfim, ainda assim tem cenas que impressionam só pelo fato de terem dado certo. Sei que estou escrevendo como se vocês soubessem do que eu estou falando, mas já escrevi bastante sobre o Tati aqui, não é responsabilidade minha você não ter visto. (Agora pelo menos lê isso até o final antes de clicar no link. Eu sei que você quer clicar, mas juro que ele não vai a lugar nenhum.) Sobre o filme, como no caso dos Marx, o enredo é rasíssimo. Senhor Hulot (meu ídolo, a pessoa que eu quero ser quando crescer) sai de férias e passa como um furacão pela vida dos outros turistas, atraindo o ódio de uns, o interesse de outros e o amor de outros. Hulot é uma figura genial, todos deveriam carregar um pouco dele dentro de si. Tem uma certa inocência no tom da comédia dele que nunca fica idiota ou ingênua demais. Na verdade, personagens como o jovem que o tempo todo aparece repetindo pros outros máximas revolucionárias, mas nunca é ouvido, e que todos veem como um chato, mostra que o filme é bem idealista. Considerando que é de 1953, ele é bem a frente do seu tempo. De um lado, tem o militarista idoso e conservador, do outro o jovem revolucionário e livresco. Essa dualidade carregou a política da França por todo o pós-guerra até a revolução de 1968. Hulot é o homem comum, leve, cansado, que, inconscientemente (seja por meio de suas ações ou pela forma que os outros reagem às suas ações) demonstra que nem um nem outro está de todo certo. Que o melhor é viver a vida de maneira aberta, sem vergonhas e inibições, fazer o que se tem vontade. Senhor Hulot, como seu sucessor, “Senhor” Bean, é um anarquista, de certa forma. Acho que é por isso que eu o admiro tanto. É um belo filme. Sugiro que, caso nunca tenha visto um filme do Tati, comece por esse e siga cronologicamente. Só ficam melhores.

THE WITCH: A NEW-ENGLAND FOLKTALE [A BRUXA] – ROBERT EGGERS (2015)

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Vi esse filme faz bastante tempo, mas nunca consegui o encaixar numa postagem. Decidi o colocar nessa só pelo contraste (duas comédias antigas e clássicas, um “terror” contemporâneo). A Bruxa chamou atenção em seu ano de lançamento por ser totalmente diferente de todos os filmes de terror hoje em dia. E, de fato, ele parece quebrar, um por um, os padrões e clichês do gênero. Não há sustos, violência gráfica (não deixa de perturbar só por isso), cortes rápidos, quase não há música, com exceção de ruídos breves que quase se mesclam ao resto da atmosfera do filme. O mais impressionante pode ser o trabalho de pesquisa que construiu A Bruxa. Foi baseado em documentos oficiais da época, inclusive ele é todo em inglês antigo, por isso bem difícil de entender sem legendas (anotem isso). Ouvi reclamações sobre a atuação por causa da dificuldade do diálogo, mas não concordo – pelo contrário, principalmente as crianças. Mas não é bom que eu escreva muito sobre esse filme. Muito da experiência depende da surpresa. Quanto menos você sabe, melhor fica. Na verdade, talvez já tenha escrito muito. Sobre o enredo em si, basta que eu diga que o objetivo do diretor era escrever um pesadelo Vitoriano, no meio da caça às bruxas. Mais que isso, da minha parte, só resta falar um pouco do meu amor por um certo bode  preto chamado Black Phillip. Quero um bode preto de estimação. O animal aparece pouco, mas rouba a cena. Pronto. Não digo mais nada. Só, pra terminar:

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Um comentário sobre “Andei vendo uns filmes aí #4

  1. Confesso que desses filmes aí só vi A Bruxa. Uma das minhas melhores experiências com filme, vi no cinema e foi perturbador. Quem me indicou foi o Erik, lá do PontoJão, ele disse que precisava que alguém vê esse filme. Não sei se você conhece, ou concorda, mas ele tem uma pegada meio “O Iluminado” em relação ao ritmo, à música, e mesmo à estrutura em relação à questão do isolamento enlouquecer gente que, antes, era supostamente normal. 🙂

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