O texto sobre David Bowie

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O começo de tudo

Essa não é uma homenagem pós-morte. É tarde demais pra isso, embora Bowie seja desses mortos que podem ser elogiados pra sempre. São as elegias que não me agradam. Ficou, no entanto, a lacuna de um texto sobre ele no momento de sua morte porque esse blogue é um reflexo de mim e a música do David Bowie faz parte dos meus dias desde os meus quinze anos, quando ouvi não sei qual colega de sala falar de Ziggy Stardust com tanto entusiasmo que arriscou uma imitação vocal do personagem, começando pelas afetações em “so where were the spiders…“, que foi quase competente. Grudei o nome do músico na cabeça e fui atrás, equipado da minha internet banda larga de 150kbs e qualquer fosse o programa de download ilegal utilizado nos idos 2006, que não fosse torrent porque não tinha aprendido a usar torrent naqueles dias. Se bem que pode não ter sido 2006, pode ter sido 2005 ou 2007, nesse período, margem de erro de 1 ano para mais ou para menos. Ouvi o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars três ou cinco vezes aquela semana – a quantidade é um chute. Fica a nota explicativa que nesses anos conturbados eu tentava me desinfectar de um gosto inexplicável por heavy metal contemporâneo (leia-se: lá do meio dos anos 00 – e se você não tá entendendo porque me refiro a esses dias como se fizesse muito tempo, dê uma olhada no seu calendário e espie em que ano estamos) sem saber, então, que era doença – já estou curado, não precisam se preocupar. E isso faz em torno de dez anos, vejam só, as coincidências da vida. Esse texto pode servir de reconhecimento tardio da morte de David Bowie, comemoração do decênio da minha entrada no universo Bowístico, ou só como outra de tantas postagens de blogue feitas por alguém que até acha que sabe do que está falando, mas não é bem o caso. E nenhum desses é, tampouco, o caso.

O caso

Pode ser que eu tenha levado os dez anos pra me dar conta disso com clareza, mas não gosto nada do termo camaleão do rock. Pros não-iniciados, essa é a alcunha que Bowie recebeu bem cedo na carreira dele por causa das várias transformações de sua persona. O erro que eu vejo nisso vem do fato de camaleões não se transformarem. O que eles fazem é mudar de cor para se camuflar no cenário. Bowie, se necessária a analogia do camaleão ainda, é o oposto. Não foi sempre assim. Como todo o artista ele teve seu período de desenvolvimento. Mas, bem cedo, já em Space Oddity, ele já tinha um estilo bem definido, parte em seu próprio tempo, parte no futuro. Considerando que o álbum de estreia dele tinha muita influencia da psicodelia e do pop rock vigente no período, essa segunda tentativa representou uma mudança brusca, quase uma autodescoberta – se tal coisa existisse, principalmente em se tratando de Bowie, que se descobria outra coisa a cada dois anos. O apelido camaleão seria preciso se camaleões, inspirados por uma pintura do Jackson Pollock, imitassem as cores e mudassem a paisagem ao redor deles. Ou nem se preocupassem em mudar a paisagem. O objetivo do Bowie, ao contrário do camaleão, nunca foi camuflagem, se mesclar a um cenário, e sim criar um cenário próprio que só o destacasse mais em comparação ao resto do mundo. Muito mais um pavão, se pavões mudassem a cauda, não conforme o cenário, conforme sua própria vontade abstrata.

Cenário

Lá pra 1969, quando a psicodelia já dava o que tinha que dar, Bowie lançou Space Oddity, uma quase opera espacial, carregando traços da estética musical do período, uma pitada dos discos conceituais que The Who lançava (Tommy vem à mente), mas, principalmente, tinha algo próprio, algo de nunca visto. O tal do Glam Rock, que é dito que Bowie fazia parte, não existia esse ano ainda, mas muito do Glam veio de Space Oddity. Tinha a fantasia, o personagem espalhafatoso, androginia, algo de ficção científica, enfim focava em mais que só música. É fato que era para esse caminho que o rock trilhava, mas a estrada nem construída tinha sido ainda, não havia nada ali a que o suposto camaleão pudesse se mesclar. Aos poucos o cenário mudou. Marc Bolan veio pavonear o rock, largando as origens folk do Tyrannosaurus Rex em troca do som mais direto, dançante do T. Rex. Parecido, mas não igual, atravessando o oceano, havia New York Dolls, com uma estética parecida, mas um som “proto-punk” e letras essencialmente hedonistas (também coisa do glam). Foi a combinação desses fatores que criou o que hoje nós chamamos de glam rock. Não foi o glam rock que se criou e, depois, Bowie veio se esconder nele. Nunca; na passeata glam rock, Bowie foi o guia alienígena bailarino frenético que todos podiam enxergar de longe e assistiam com interesse, porque, além de tudo, o figura era imprevisível e podia ir pra outro lado a qualquer minuto. Assim ele fez, várias vezes, e até o lançamento de Let’s Dance, sempre com o papel de guia. O que aconteceu depois é um pouco complicado de explicar, já que a década de 1980 foi um período conturbado pra quase todo mundo. Talvez nesses dias o termo camaleão não seja tão errado. O que parece é que Bowie, como vários músicos na época (Dylan, toda a patota do prog rock, Santana, Deep Purple, enfim, quase todas as bandas e músicos que sobreviveram à década de 1970, bem ou mal) não sabia o que fazer. Aí, sim, Bowie imitou alguns. Um pop rock cá, um new romantic (Duran Duran, Adam Ant e afins) lá, e a popularidade caindo e Bowie sumindo no cenário. Infelizmente aconteceu, não dá pra romantizar. Bowie foi camaleão, por um período, e por isso gosto menos ainda do termo, porque acho que, quando é valido, remete aos piores momentos do artista. Momentos estes que, me baseando somente no meu gosto musical, perduraram até 2013, infelizmente. Sim, depois de Let’s Dance, não gostei de nada do que ele fez até o retorno do sumiço com The Next Day, este que só veio depois de 10 anos de silêncio. Curiosidade engraçada, na época que conheci Bowie, ele estava em hiato, sumido. Talvez umas férias merecidas. Afinal, não foi só nos conturbados anos 1980 que Bowie desandou. Depois veio as bizarrices do Tin Machine, que nem tô preparado pra falar sobre porque até hoje não entendi qual foi a intenção, o que motivou aquilo e, especialmente, pra onde foi. Em seguida, pulando pra década de 1990, Bowie virou o membro mais sofisticado (e mais velho) dos Backstreet Boys enquanto tentava tirar algo de valor desse barulho de construção futurista que vocês chamam de música eletrônica. Heathens, já em 2002, não foi tão ruim, que eu me lembre. Acho que esse foi o problema, é um disco esquecível. Todas essas fases são esquecíveis. Alguém conhece uma música do Buddha of Suburbia? Claro, aqui falo pelo meu gosto, apenas. Tenho certeza que tem gente que gosta desses discos que acabo de desprezar.

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Nada de preciso até agora

Cheguei no ponto do texto em que tenho que admitir que estive errado esse tempo todo. Não de todo errado. Acredito em boa parte do que escrevi até agora. Mas não é preciso. É impossível ser preciso com Bowie. É verdade que um “camaleão do rock” não faria música no estilo new wave antes do new wave existir como gênero reconhecido (vide Young Americans). Mas o que é new wave pra começo de conversa? Estou escrevendo sobre gêneros pelo ponto de vista atual, que é o do futuro em relação ao período em que tudo isso de fato aconteceu. É importante lembrarmos, no entanto, que gêneros musicais são só nomenclaturas inventadas depois da música, normalmente por críticos, pra facilitar o trabalho das lojas de discos na hora de organizar o acervo. Embora existam similaridades entre músicos de um mesmo gênero musical, existem aqueles que não se encaixam. David Bowie é um desses poucos, e vai um pouco além. Muito além. Chega ao ponto de que lojas de discos deveriam ter a sessão David Bowie, para ele e seus imitadores ao longo dos anos. Seria uma sessão com um pouco de tudo. Afinal, mesmo que todos concordem que Ziggy Stardust é um disco icônico do glam rock, ele não parece com nenhum outro disco de glam rock. Tem ingredientes, mas o prato é coisa inédita. Marc Bolan, outro ícone do glam, era um pavão por si só, mas ele nunca encarnou um personagem. Nos anos de Ziggy Stardust, Bowie foi Ziggy que era Bowie que era Ziggy e assim por diante com todas suas outras encarnações. Uma coisa é atuar na frente das câmeras, fazer um papel hostil perante entrevistadores e jornalistas, outra é ser alguém diferente toda vez, ter outra voz, ter outra aparência, outra personalidade, mas, ao mesmo tempo, ser a mesma pessoa. Talvez a forma mais precisa de resumir o legado de David Bowie na arte (sim, na arte, não só na música) seja dizendo que ele foi David Bowie, ele deu vazão ao que havia dentro dele, fosse pela música, pela pintura, pela performance. Foi um artista completo.

Ícones

O rock é cheio de ícones, desde Elvis. Mas, já na década de 1970, Lester Bangs (o crítico de rock, corram atrás dos arquivos dos textos dele pra Rolling Stones e afins, se o tema te interessa) dizia que os ícones estavam escassos, não havia opções. Jimi Hendrix e Janis Joplin estavam mortos, Bob Dylan estava estranho, Jim Morrison já estava mais que datado (e morto também, mas isso era o de menos) com sua poetaria que queria ser beat-francófila-decadente-romântica mas era só uma sequência de expressões e afetações desses estilos sem nada de próprio (nem significado) e culminando em “come on babe light my fire”, o povo do new wave era ingrato com suas origens, o povo do rock “pesado” se interessava mais por cocaína que música, e, lá pra década de 1980, com Wham e A-ha e outras aberrações, a única esperança restava nos punks, que nessa época respiravam por aparelhos, e nas mulheres (The Slits, Lydia Lunch, Debbie Harry, Patti Smith), que eram as únicas que pareciam ainda saber o que o rock era pra ser e tinham intenção de trazer algo novo pra ele – mas, nem punk nem as mulheres do rock atingiram um grau de influência ou número de vendas alto o suficiente para chegar ao status de ícone (talvez hoje a Patti Smith, embora eu a veja mais como o grande símbolo de um período da arte). Lester Bangs, que eu saiba, não viu potencial de ícone do rock no Bowie, nem, na verdade, eu vejo. Seria muito pequeno, limitante, em comparação ao tamanho e amplitude da obra dele.

Artista completo

Porque é sempre válido lembrar que David Bowie não foi só músico. Ele atuou (além dos personagens dele serem performance teatral pura, ele apareceu algumas poucas vezes no cinema), foi pintor,  mas, o que talvez seja mais importante que tudo isso, é que ele foi uma figura ativa no mundo da arte. Conviveu com Andy Warhol, frequentou os bares de música de Nova York buscando coisa nova, produziu gente como Iggy Pop, gravou com Queen, inspirou gente no mundo da moda, fez um pouco de tudo. Essa onipresença, onisciência e onipotência artística pode ter contribuído pro rótulo de camaleão, mas foi muito mais que isso. Ele conseguiu o que poucos artistas conseguem, se traduzir em arte. Dá pra citar poucos artistas que chegaram nesse patamar, e, mesmo esses, o fizeram de maneira diferente – obviamente, afinal a personalidade do artista pleno vai afetar sua obra de maneira indivisível. A trajetória artística do David Bowie passou por todas as etapas da vida humana, curiosamente. Teve a curiosidade e exploração da juventude, a dificuldade pra se encontrar do começo da vida adulta, a iluminação da maturidade ao se dar conta que não precisa se encontrar e que várias encarnações é o melhor jeito de se viver a vida, crises de meia idade, retorno, nostalgia e, permitam-me um pouco de romantismo aqui, transcendência.

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5 comentários sobre “O texto sobre David Bowie

  1. Preciso te dizer que nunca antes tinha pensado no termo Camaleão do Rock por essa ótica. Uso o tempo todo e é provável que continue fazendo, mas só pude concordar com você ao entender o quão limitador ele é. Sobre o restante do texto, bom, é sempre uma inspiração a quantidade de informações que você consegue reunir. Fico feliz que tenha conseguido postar 🙂

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  2. Parabéns pelo texto! Tanto em informações como em qualidade da escrita está excelente! Faz jus a seriedade da tese defendida: “camaleão do rock” não é um termo certo para o Bowie.

    Nunca tinha parado para pensar nisso e devo admitir que, ao fim do texto, diante de uma argumentação tão eficaz, tenho que concordar com o que foi dito. Por fim, acredito que Bowie foi um mestre na hora de criar relacionamentos através da sua arte. Um dos pilares para o relacionamento é a comunicação, e Bowie comunicava muito, e bem. Aquele caso da pessoa que te diz coisas que dificilmente entraram por um ouvido e sairão pelo outro, ao contrário. Você vai internalizar a mensagem e meditar sobre ela. É quase um evangelho.

    Por fim, agradeço por esse texto, lê-lo foi um prazer (espero que ele alcance mais pessoas).

    Curtido por 2 pessoas

    1. Muito grato. Faço poucos textos neste estilo justo porque gosto de abordar tudo o que cerca o tema sobre o qual escrevo.

      Tem razão. Mais importante que tudo, ele se comunicava pela música. Principalmente com a parcela mal-ajustada da humanidade.

      Eu que agradeço a visita. Seja bem-vindo e volte sempre.

      Curtido por 1 pessoa

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