Observações aleatórias #3

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Tio Alfred vendendo cachimbos em frente aos escombros da loja dele depois de um bombardeio na Segunda Guerra Mundial.

1 – Estou aproveitando o presente que dei a mim mesmo esse natal. Quando comprei meu primeiro cachimbo menos caro, na intenção de levar esse hábito mais a sério, não imaginava que, dois anos depois, eu teria um Dunhill Shell pra chamar de meu. Mas tenho. Comprei um usado na internet a um preço razoável. Levem em conta que um novo chega a custar três mil reais. Ainda por cima, é de, pelas minhas estimativas falhas, de 1957 ou 58 – margem de erro de 3 anos para mais, não para menos. Tenho boa consciência do poder de sugestão das marcas, por isso não vou fingir que fumar um Dunhill foi lá uma experiência religiosa, longe disso. É um cachimbo clássico, perfeitamente construído, mas é só. Muito da lenda foi forjada pelo marketing forte de décadas de presença – lembremos que Alfred Dunhill incentivava seus clientes famosos a aparecerem por aí com cachimbos “white spot” (todo Dunhill tem um ponto branco na piteira). O que me pegou foi mais uma visão bem simplista e um pouco abstrata de panpsiquismo. Suponhamos que árvores, seres vivos que são, tenham uma versão primitiva de consciência ou, sendo elas parte integral do planeta e, portanto, do universo, elas carreguem consigo algo que se possa chamar de memória universal, coisa assim. Partindo desse princípio, em que você pode ou não acreditar, rebobinemos a história desse aparato hoje usado pra carregar fumo em brasa. Tudo começou com uma Urze-molar (Erica arborea). Se o cachimbo de fato é de 1957 ou 1958, a Urze-molar ainda era da Argélia, porque era de lá que vinha a madeira usada para os cachimbos Dunhill Shell, por ser mais macia, deixando marcas mais profundas no fornilho depois do sandblast (jatos de vidro em pó atirados no corpo do cachimbo, formando marcações). A madeira em si deve ser envelhecida um tempo antes de virar cachimbo, logo, já tinha sido planta tantos anos antes. Feito o cachimbo, sabe-se lá o que aconteceu com ele até que chegasse em minhas mãos. Sei que não sou o primeiro dono, mas também é impossível saber se sou o segundo, terceiro ou décimo dono da peça, hoje, restaurada. Antes dos meus pais nascerem, lá estava esse cachimbo, que hoje eu acendo, sendo acendido por sei quem lá, ou no Brasil ou na Inglaterra, saído direto da loja Dunhill, ou em qualquer canto. Seria fascinante ter acesso às memórias desse pedaço de árvore, mas seria também igualmente fascinante ter acesso às memórias de qualquer coisa, principalmente não humana.

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Clarice Lispector, com os olhos, comendo sua alma.

2 – Perto do coração selvagem, da Clarice Lispector, é um dos livros mais fortes e viscerais que já tive o prazer de ter lido. Ou quase ter lido, me falta menos de um terço. É denso, com todo o fluxo de consciência junto da narração em terceira pessoa e das mudanças bruscas – mesmo que raras, pois o livro é uma dissecação da personagem Joana em graus muito além do físico – de ponto de vista. Mostra um conhecimento e humanidade que me surpreenderam, embora não seja o meu primeiro da Clarice (li Hora da Estrela). Que estreia foi a de Clarice! Não só como um romance, a filosofia dentro do livro precede mesmo a forma com que alguns conceitos de identidade feminina foram trabalhados por Simone de Beauvoir e conceitos de erotismo, experiência-limite e continuidade e descontinuidade, foram trabalhados por Georges Bataille (Perto do coração… foi publicado anos antes d’O Segundo Sexo – de Beauvoir – , d’O Erotismo – Bataille, e no mesmo ano d’A Experiência Interior – Bataille). Não por isso chega a ser um livro complexo. Sim, as brincadeiras linguísticas e saltos metafóricos podem deixar pra trás leitores que não curtem muito literatura (e vocês sabem o que eu quero dizer quando falo “literatura”), mas, de modo geral, a fluência da narrativa impede grandes confusões, mesmo que  nada seja cronológico e a linha que separa o real do sonho seja atravessada mais de uma vez.

3 – Outro conceito é o de liberdade, trabalhado com perfeição principalmente no capítulo “Casamento”. Me fez pensar em uma coisa que sempre passeia pela minha cabeça: que pra sermos livres de verdade, de certa forma, temos que deixar de lado nosso conceito formado do que é liberdade, porque isso existe – ideias formadas do que liberdade é, que nos aprisiona. Mesmo que seja impossível viver em plena liberdade com outra pessoa, quando se deixa de viver com outra pessoa, mesmo quando é disso que se tem vontade, se abdica dessa liberdade de igual maneira. A forma mais livre de se viver, se é possível chegar a esse ponto, pode ser que seja com base nas vontades imediatas, sem grandes análises conceituais, porque, independente do que se faça, a satisfação é inalcançável, sempre se deseja aquilo que não é – a decisão tomada pode ter sido a certa, mas a curiosidade por saber o resultado a que a decisão não tomada levaria faz com que se acredite que ela é a errada e a outra era a mais certa ou menos errada. Fui lembrado de uma conversa que tive num bar meses atrás. Ela me dizia alguma coisa que eu não conseguia entender, tanto pela barreira do idioma quanto pela música alta que tocava – e a mistura do álcool com a exaustão no meu sistema não facilitava em nada as coisas. Peço pra repetir, mas sigo não entendendo, até que canso de pedir pra ela repetir e acho que ela cansa de tentar, e respondo: não entendo, mas aceito. Você estuda improviso também?, ela pergunta. Não estudo, nunca fiz nada relacionado a atuação, ao contrário dela, mas pareceu, na hora e desde então, uma boa forma de ver a vida. Não entendendo, porque não dá pra entender tudo, talvez nem haja nada pra se entender e as coisas só sejam, logo, só resta aceitar. Parece uma história besta, mas foi uma das pequenas iluminações, dessas que todos temos, que tive nesse espaço de tempo que decidimos chamar de ano por alguma razão. Não dá pra ser livre sem esquecer o que liberdade é. Claro, a passagem a que me refiro nada tem a ver com essa analogia, mas foi uma dessas ligações que nos levam a outras ideias que nos levam a outras ideias… até que vim parar aqui. O que é meio que o objetivo desses textos. Me alegra que essa será, talvez, minha última leitura do ano,

4 – mesmo que eu seriamente relute a tratar a passagem de um ano pro outro como real. É um esforço consciente, porque eu tenho noção do tal simbolismo da passagem do ano, do sentimento de renovação e recomeço et cetera et cetera, mas acho uma grande bobagem e, por mais tentador que seja se entregar a bobagens, prefiro pensar que é um erro do ser humano usar seus números e contagens inventadas para contabilizar movimentos cósmicos existentes desde muito antes (muito, bota aí uns bilhões de anos, pra usar os tais dos números) do surgimento do ser humano. Não há nada errado nas festas, nos encontros típicos da época, mas a pressão posta nesse dia, no dito símbolo de renovação, acaba matando seu propósito, vira razão de angústia. É sempre bom lembrar que o “ano” é só uma contagem inventada pra facilitar o cotidiano da nossa espécie, que é movida por um conceito de tempo também inventado, porque é por ele que se medem prazos, expedientes e tudo mais que nós inventamos pra fazer da existência algo um pouco mais insuportável, e, lembrando disso, nem que seja só pra resistir um pouquinho, deixar essa contagem de lado de vez em quando e, no lugar dela, botar as, como coloquei no item acima, pequenas iluminações, coisas que não acontecem no natal ou no réveillon, mas em todos os momentos, parar de pensar no que foi feito nos 365 dias do determinado ano, e só pensar em tudo que aconteceu ao longo da sua vida, que não significa nada em grande escala, mas é o que você tem, então aceite porque é tudo. Quem sabe assim vocês parem de me incomodar com essas merdas de fogos de artifício, ô caralho.

Andei vendo uns filmes aí #4

MONKEY BUSINESS [OS QUATRO BATUTAS] – NORMAN MCLEOD (1931)

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É, crianças, cês achavam que os estagiários de hoje que traduziam mal os nomes dos filmes americanos. Isso é porque cês não conheceram os estagiários de outrora. Por isso vou me referir ao filme por Monkey Business. Um bom título? Não. Mas serve. Esse é o segundo filme dos irmãos Marx que eu vejo. Ando num humor pra esse tipo de comédia. A velocidade dos diálogos e os jogos de palavras me fazem pensar que talvez essa tenha sido a era de ouro do humor. Sem querer ser desses chatos que acham que tudo que é velho é melhor, só não vejo esse domínio linguístico nas comédias hoje, só fórmulas. Sobre o filme em si, não há muito que se dizer. Os irmãos Marx (Groucho, o malandro de fala rápida; Chico, o “vigarista” de sotaque italiano; Harpo, o mudo com coração de criança; e Zeppo, o galã que serve de gancho pras piadas, mas não tem papel cômico) são clandestinos em um cruzeiro de luxo, e isso basta pra que comédia aconteça. Os enredos dos filmes dos irmãos Marx não poderiam ser mais finos, mas não importa porque não é o objetivo dos filmes contar uma história, mas fazer rir. Aí que fica a magia do filme, no texto hilário, rápido, cheio de manobras linguísticas. Aqui está meu porém, por mais que queira indicar pra todos esse filme, tenham consciência que legendas em português podem atrapalhar muito. Longe de mim dizer que é necessário fluência em inglês pra ver um filme, mas, nesse caso, não consigo imaginar como funcionaria de outro jeito. Muitas falas são traduzíveis, mas sem graça quando traduzidas. Comédia é difícil de traduzir, principalmente uma tão movida por linguagem. Sim, tem a comédia física, especialidade do Harpo, mas não segura o filme, por mais incríveis que sejam certas cenas. Fora esse detalhe, ver a influência do teatro de revista no cinema dos Marx é outro grande atrativo. Tem um pouco de tudo, música, comédia, teatro, interpretação. Os quatro eram artistas bastante completos. Verdade, Zeppo é bem secundário, mas tem seu espaço – e, reza a lenda, fora do palco ele era o mais engraçado dos irmãos. Esse é um dos melhores dos filmes deles, e cada um deles é peça essencial da história da comédia.

LES VACANCES DE MONSIEUR HULOT (AS FÉRIAS DO SR. HULOT) – JACQUES TATI (1953)

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Terceiro dos quatro longas de Jacques Tati (com o Senhor Hulot) que vejo. Fiquei sabendo só depois que a versão que estava vendo era a antiga e hoje foi lançada uma estendida. Fez sentido, porque algumas cenas pareciam mal conectadas, o que é estranho pra um filme do Tati, conhecido pela mágica do ritmo, do posicionamento em cena e da edição. Enfim, ainda assim tem cenas que impressionam só pelo fato de terem dado certo. Sei que estou escrevendo como se vocês soubessem do que eu estou falando, mas já escrevi bastante sobre o Tati aqui, não é responsabilidade minha você não ter visto. (Agora pelo menos lê isso até o final antes de clicar no link. Eu sei que você quer clicar, mas juro que ele não vai a lugar nenhum.) Sobre o filme, como no caso dos Marx, o enredo é rasíssimo. Senhor Hulot (meu ídolo, a pessoa que eu quero ser quando crescer) sai de férias e passa como um furacão pela vida dos outros turistas, atraindo o ódio de uns, o interesse de outros e o amor de outros. Hulot é uma figura genial, todos deveriam carregar um pouco dele dentro de si. Tem uma certa inocência no tom da comédia dele que nunca fica idiota ou ingênua demais. Na verdade, personagens como o jovem que o tempo todo aparece repetindo pros outros máximas revolucionárias, mas nunca é ouvido, e que todos veem como um chato, mostra que o filme é bem idealista. Considerando que é de 1953, ele é bem a frente do seu tempo. De um lado, tem o militarista idoso e conservador, do outro o jovem revolucionário e livresco. Essa dualidade carregou a política da França por todo o pós-guerra até a revolução de 1968. Hulot é o homem comum, leve, cansado, que, inconscientemente (seja por meio de suas ações ou pela forma que os outros reagem às suas ações) demonstra que nem um nem outro está de todo certo. Que o melhor é viver a vida de maneira aberta, sem vergonhas e inibições, fazer o que se tem vontade. Senhor Hulot, como seu sucessor, “Senhor” Bean, é um anarquista, de certa forma. Acho que é por isso que eu o admiro tanto. É um belo filme. Sugiro que, caso nunca tenha visto um filme do Tati, comece por esse e siga cronologicamente. Só ficam melhores.

THE WITCH: A NEW-ENGLAND FOLKTALE [A BRUXA] – ROBERT EGGERS (2015)

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Vi esse filme faz bastante tempo, mas nunca consegui o encaixar numa postagem. Decidi o colocar nessa só pelo contraste (duas comédias antigas e clássicas, um “terror” contemporâneo). A Bruxa chamou atenção em seu ano de lançamento por ser totalmente diferente de todos os filmes de terror hoje em dia. E, de fato, ele parece quebrar, um por um, os padrões e clichês do gênero. Não há sustos, violência gráfica (não deixa de perturbar só por isso), cortes rápidos, quase não há música, com exceção de ruídos breves que quase se mesclam ao resto da atmosfera do filme. O mais impressionante pode ser o trabalho de pesquisa que construiu A Bruxa. Foi baseado em documentos oficiais da época, inclusive ele é todo em inglês antigo, por isso bem difícil de entender sem legendas (anotem isso). Ouvi reclamações sobre a atuação por causa da dificuldade do diálogo, mas não concordo – pelo contrário, principalmente as crianças. Mas não é bom que eu escreva muito sobre esse filme. Muito da experiência depende da surpresa. Quanto menos você sabe, melhor fica. Na verdade, talvez já tenha escrito muito. Sobre o enredo em si, basta que eu diga que o objetivo do diretor era escrever um pesadelo Vitoriano, no meio da caça às bruxas. Mais que isso, da minha parte, só resta falar um pouco do meu amor por um certo bode  preto chamado Black Phillip. Quero um bode preto de estimação. O animal aparece pouco, mas rouba a cena. Pronto. Não digo mais nada. Só, pra terminar:

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sábado (“poesia 19”)

1

a entidade aguarda ao meu lado estátua vigilante
de cada movimento meu, eu, que observo as lombadas de uma estante,
escolho um livro qualquer e folheio e boto de volta
num processo que só eu entendo, mas o abantesma analisa e chuta
você lê clássicos? não exclusivamente. gosta de contos
crônicas? (causos… chistes… não deu.) tô procurando outras coisas.
teima:
olavo de carvalho? 
(é o caralho. cruz credo, satã me proteja.) 
não.
ignoro. não olho. finjo que não tá lá, mas tá. terrorista calado
e seus piercings no lábio e septo no escrutínio mercadológico.
não quero nada, não posso querer nada, só folhear uns livros e comprar
tantos outros. é pedir muito? eu que recebo tão pouco. 
compro os dois que reuni e nem olho na cara da minha assombração
que não tenta nova aproximação desde a última, a errada, a ofensiva.

2 

ele pede algo para o cara sentado no banco.
eu me aproximo pela rua, torço pra que não me veja,
mas ele me vê. passa ao meu lado. passa direto.
ei você. sigo. você dos livros. olho.
não sei por que, mas olho. e me arrependo.
vem em minha direção e começa sua história
como a de tantos
que a filha estava no hospital
consulta graças a deus se tivesse internada eu tava fodido
nem tinha como não ia dar
comprei umas fraldas pra levar pra ela mas tâmo com fome
tu não pode me ajudar com uma coisinha mano?
tiro as moedas do bolso e dou pra ele. ele aceita, diz que ajuda
qualquer coisa ajuda. tenho nota de cinquenta no bolso
mas isso não dou, não posso, preciso ir no mercado e nem almocei ainda.
ele pega as moedas
já vou aproveitar e ir no comper.
então não posso ir, não quero que saiba que tinha mais, só mais tarde.
ele volta
pega de volta as moedas mano é o seguinte tu pode me ajudar? 
compra umas coisas pra nós
eu não posso entrar sozinho no mercado não deixam
tu compra?
o que você quer?
eu vou contigo mano relaxa. vamos, entramos.
EI EI, pro segurança, aponta pras sacolas de fraldas e as larga nas cestinhas na 
entrada,
pra tu não dizer que eu roubei depois
e esse aqui veio por vontade própria nem no estacionamento ele tava
tava lá atrás na rua bem longe viu? 
é foda mano porra aqui o povo é foda, 
vamos às fileiras das bolachas.
e aí? 
mas o que tu quer?
o que você pode mano?
eu sei lá escolhe uma da que você gosta. uma. ele pega a bolacha de morango
e bota na minha cesta. vamos pra outro corredor, todos nos olham com medo. 
aborda o rapaz do mercado, cadê o chocoleite mano? isso não tem
não tem chocoleite.
mas como não? aquele do pacote com cinco. isso é achocolatado não é chocoleite,
num tom que ele nunca usaria pra um cliente, aponta.
é isso é a mesma coisa porra. esse daqui pode?
pode pode levar. bota na cesta.
preciso de lenço umedecido também onde é que fica?
não sei deve ser junto do papel higiênico. vamos, é lá,
ele encontra e me aponta um. é trinta reais.
esse não dá trinta conto não tem como.
trinta? ele olha mais de perto. putaqueopariu mano trinta pila
vá se foder. e esse? também não dá é dezesseis.
caralho tudo caro nessa merda mano.
esse aqui é cinco, eu aponto.
quatro e noventa e nove. ele pega o de dezesseis, e esse aqui
não pode? não dezesseis é muito. 
ia comprar uma cerveja de dezesseis reais, agora não posso.
o cara da barba aparada como um bonsai bem alinhado
para de respirar, acha que fui sequestrado, no mínimo
e tô lidando bem demais com a situação, salvando todo mundo duma chacina.
mas esse pode. esse pode é cinco. ele aceita, pega, bota na cesta.
vâmo embora. espera aí eu tinha que vir aqui mesmo vou pegar umas coisas e
te encontro no caixa. ele vai, suspeita, vejo que anda pra lá e pra cá
na frente do mercado. acha que vou fugir, largar tudo, roubar o que disse que era 
dele,
mas não.
só compro uma água. pão de forma. presunto. o peito de peru tá onze reais,
virou iguaria, ave rara.
passo na padaria do mercado, a moça me atende. o que vai ser?
me vê três pães de queijo. do grande ou do pequeno?
olho pra ver a diferença,
não olho pros pães de queijo. olho pra mosca no canto da prateleira,
se esfregando arreganhada sobre um croissant coberto de orégano.
do grande. surge o pai de família. mano tu pode ver um desses pra mim?
aponta pro sonho. digo que sim. é pra minha esposa.
me vê um sonho também, quando a moça me entrega os pães de queijo.
de qual?
qual?
qual é qual aqui?
esse é de creme, de creme com chocolate, doce de leite
vê esse aqui o creme com chocolate. ela pega, bota num saco, pesa.
me entrega e boto na cesta junto do resto.
vou pro caixa, peço pra separar o que é dele numa sacola.
ela faz enquanto passa os itens pelo caixa.
entrego a sacola dele. valeu aí mano e vai, assistido por todo mundo.
pega a sacola que ele tinha deixado na cestinha lá da frente.
pago tudo, pego o troco e vou embora. por algum motivo me sinto desesperado.
me sentia assim do momento que saí de casa, quero voltar
correndo o caminho inteiro. ainda escuto a voz dele gritando alguma coisa pra 
alguém,
acho que ele vai me seguir, não acredito que não tentou me assaltar. mas não,
só vamos em caminhos opostos. não relaxo e nem é mais por causa dele,
é por tudo. alguma coisa no ar esse ano. aura de fim do mundo que não chega.
dívida bíblica que já tá na hora de ser paga, o apocalipse.
não corro, mas ando rápido, o suor escorre pelas minhas costas,
forma um Rorschach na minha camiseta. enfim chego.

3

vizinha fala com senhor na recepção do prédio. o senhor vai embora,
ainda espero o elevador, compras na mão, logo uma sacola vai rasgar.
boa tarde, ela diz, voz alegre. boa tarde, respondo, quase calmo
em casa, quase em casa. a porta do elevador abre. 
ela entra.
eu entro.
aperto pro terceiro andar. qual o seu?
quarto. aperto pro quarto. o elevador passa pela garagem, pelo primeiro,
ela aperta pro sétimo. desculpa, me esqueci, tô mudando hoje pro sétimo,
agora é pra lá que eu vou. 
fiz o mesmo uns anos atrás. fui do sétimo pro terceiro.
é mesmo? mudança é sempre correria, tô louca pra lá e pra cá.
sei bem como é. a porta abre, grosseira, interrompe o assunto.
tchau, boa tarde.
boa tarde. gosto da voz dela. do rosto. seu rosto me lembra o de outra,
de um momento agradável. abro a porta do apartamento e respiro fundo
quando entro. 

4

eram nove da noite quando as ideias começaram a sair dos trilhos,
o livro no meu colo era great balls of fire, ron padgett,
estava envolto por uma fumaça de prazer, sentindo falta de uma cerveja
pra acompanhar. the headline she had read me was rather astonishing.
i went back inside and wrote it down. quanto tempo fazia
desde minha última poesia. pelo menos dois meses. talvez essa seja uma ideia.
só escrever uma mistura forte o bastante pra que nem se saiba
se é prosa ou poesia. confundir os dois como eu nunca antes fiz e
irritar os puristas que nem me leem pra se irritarem comigo, mas
um pouco de delírio mal não faz. dá pra brincar, faz tempo que não
brinco de bater palavras, espancar palavras, fazer mal a e com elas.
caught my eye, would have been quickly disposed of.  
ruminei e ruminei.
“the word was they”; it appeared once in the sentence,
e qual é a ideia, quais palavras bater.
nunca vem a palavra certa de primeira.
no elevador com a moça, falando da dureza da mudança
“sei como é” grande merda. 
“se precisar de alguma coisa pode me chamar,
já fiz mudanças sozinho antes, sei que é complicado,
meu apartamento é esse.” isso seria melhor.
devia ter dito isso.
edição, por isso prefiro literatura que a vida,
poder voltar nas páginas e corrigir os erros.
mas, claro, um escriba obsessivo como eu, na sede por realidade,
forçaria a frase errada, sem voltar atrás,
na verdade, faria um texto em que a personagem, mesmo no mundo da ficção,
se tortura por não ter dito a coisa certa na hora certa,
sonha com a chance de corrigir, corrige mentalmente e cria
cenários imaginários em que a coisa certa foi dita.
se bem que ela detestaria essa fumaça toda ou
acharia curioso.
when i see birches
i think of nothing
but when i see a girl
cachimbo apaga, risco fósforo, reacendo,
sopro fumaça pro alto, encosto a cabeça no encosto da poltrona
e fecho os olhos. tem cheiro de queimar incenso num churrasco.
escuto o barulho dos passos do vizinho de cima martelando pelo piso,
ecoando na minha sala.
não é a moça, ela foi pro sétimo, e nem ficava
diretamente acima de mim. será que já terminou a mudança?
throw away her hair and brains
i think of birches and i see them
one could do worse than see birches

5

sei que tá ficando tarde, tem gente gritando
no estacionamento do mcdonald’s, ao lado de casa.
aprendi a ignorar com o passar dos anos. 
tem sempre gente gritando sábado à noite
no estacionamento do mcdonald’s, playboys, estudantes,
gente que volta da balada, que ainda vai pra balada,
gente bêbada e rica e besta e violenta, sedenta.
ninguém pode fazer nada. um funcionário que se meta,
pobre, subjugado, leva uma cusparada na cara e um pé na bunda
se disser qualquer coisa. não tem ninguém que trabalhe lá 
que não seja por absoluta necessidade. 
the pied quarts of chevrolets trim blent sir her eyes on
que porra é essa?
tradução fonética, francês e inglês,
sem coerência.
como traduzir isso? passo um bom tempo pensando nisso,
em como traduzir o aparentemente incoerente,
se há quem tenha decodificado
essa combinação de palavras
my dog sag knee
jet chris
a vic
lee rig knee of old roys is finite
sinto um trocadilho que não vejo,
deve haver um trocadilho em algum lugar aí.
deixo em paz, sigo lendo,
deixo o barulho lá fora, sigo lendo,
mesmo quando os gritos ficam mais intensos.
sigo planejando uma poesia, mesmo sem papel e caneta,
sigo pensando na moça do elevador, mesmo sem saber nada sobre ela 
com poucas chances de a ver de novo.
devo levantar pra escrever, mas faltam forças. 
não quero sair da poltrona, largar o livro.
decidir as palavras para dar forma a algo que
sem forma já é perfeito, exclusivo do mundo invisível
das ideias, potencial sem limites, 
significado nulo, inútil como tudo que é bom deve ser. 
deixo pra amanhã.
se lembrar de uma palavra que seja, vale a pena,
do contrário, ao esquecimento como tudo que não merece lembrança.
se lembrar da moça do elevador quando a vir outra vez, 
quiçá no elevador,
quiçá mais cedo do que tarde,
vale a pena corrigir minhas frases. do contrário,
que vá à imensa gaveta dos arrependimentos, a que abro toda madrugada
e dela retiro um item aleatório para me atormentar.

6

ELE É MEU AMIGO
MAS TIAGO ELE É MEU AMIGO
clama a voz ébria e esganiçada em conjunto
de outras vozes, outros gritos, lá no estacionamento
dos pecados. o inferno. o inferno é o estacionamento do mcdonald’s
de madrugada, onde os que se entregam aos excessos
são entregues às consequências.
um gordo qualquer, aos tropeços, empurra outro gordo.
qual é o tiago, amigo da loira bêbada?
como dois galinhos de briga eles se peitam em público,
sem inibições, sem bom senso. obrigado deus álcool,
mesmo longe de mim você me tira do tédio, me traz
entretenimento. NÃO FAZ ISSO ELE É MEU AMIGO e meu cachimbo está vazio
e não tenho vontade de escrever e nem de ler,
eu quero sangue.
do meu apartamento, pela janela, torço que alcancem
o ápice da patetice playboy, que um puxe uma arma ou os dois,
comecem um duelo à moda antiga depois de se estapearem com luvas de pelica,
que defendam a honra deles mesmos, agora manchada pela performance
ridículo inebriada. mas sempre, antes do soco,
separam os dois. um segura o outro. o outro resiste ao um.
o outro acotovela a boca do um e agora o um quer socar o outro.
todos querem um pedaço do TIAGO.
isso é brasil, quando um bate, todo mundo quer bater,
disse a personagem do lourenço mutarelli que queria uma bunda
e cheirar o ralo do diabo com o olho de vidro do pai dele. 
talvez tenha roubado dele mais que só essa frase pra criar 
essa hipótese de poesia aqui.
tô quase descendo pra bater no TIAGO também, que é AMIGO da loira.
finalmente, depois de muita espera, um soco. acho que vários,
mas não vejo. eles saem do meu campo de visão, só pra provocar.
perde a graça, volto ao livro, mas, se leio, não sei.
acho que quero que o dia termine, penso em  ir pra cama.
tenho medo de não dormir por causa da moça do elevador,
do fantasma da livraria, do cara do mercado. tenho medo
de esquecer da poesia que não escrevi ainda. e passar por mais um mês
sem escrever poesia. pode ser que não volte mais, se passar muito tempo.
y..r d..k
é o título da outra poesia. acho que saquei, mas não tenho 
tempo de decodificar. todas as palavras, quase, tão incompletas,
só primeira e última letra visíveis.
quero fazer algo assim também. só de sacanagem.
sacanagem é estética.
mas não agora. agora vou pra cama, ao som dos aplausos e risos
no estacionamento do mcdonald’s, comemorando a rendição do TIAGO,
que parte cantando pneu.
era o TIAGO batendo ou apanhando?
qual era o TIAGO mesmo? o AMIGO ou o avisado da amizade.
quem era o outro? o um? enfim. são iguais.
deito na cama. dormir já é uma longa história.
longa demais pra isso aqui, que não sei se existe.
só vou saber depois.

___
As aspas no título são porque eu nem sei se isso classifica como poesia. 

 

O texto sobre David Bowie

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O começo de tudo

Essa não é uma homenagem pós-morte. É tarde demais pra isso, embora Bowie seja desses mortos que podem ser elogiados pra sempre. São as elegias que não me agradam. Ficou, no entanto, a lacuna de um texto sobre ele no momento de sua morte porque esse blogue é um reflexo de mim e a música do David Bowie faz parte dos meus dias desde os meus quinze anos, quando ouvi não sei qual colega de sala falar de Ziggy Stardust com tanto entusiasmo que arriscou uma imitação vocal do personagem, começando pelas afetações em “so where were the spiders…“, que foi quase competente. Grudei o nome do músico na cabeça e fui atrás, equipado da minha internet banda larga de 150kbs e qualquer fosse o programa de download ilegal utilizado nos idos 2006, que não fosse torrent porque não tinha aprendido a usar torrent naqueles dias. Se bem que pode não ter sido 2006, pode ter sido 2005 ou 2007, nesse período, margem de erro de 1 ano para mais ou para menos. Ouvi o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars três ou cinco vezes aquela semana – a quantidade é um chute. Fica a nota explicativa que nesses anos conturbados eu tentava me desinfectar de um gosto inexplicável por heavy metal contemporâneo (leia-se: lá do meio dos anos 00 – e se você não tá entendendo porque me refiro a esses dias como se fizesse muito tempo, dê uma olhada no seu calendário e espie em que ano estamos) sem saber, então, que era doença – já estou curado, não precisam se preocupar. E isso faz em torno de dez anos, vejam só, as coincidências da vida. Esse texto pode servir de reconhecimento tardio da morte de David Bowie, comemoração do decênio da minha entrada no universo Bowístico, ou só como outra de tantas postagens de blogue feitas por alguém que até acha que sabe do que está falando, mas não é bem o caso. E nenhum desses é, tampouco, o caso.

O caso

Pode ser que eu tenha levado os dez anos pra me dar conta disso com clareza, mas não gosto nada do termo camaleão do rock. Pros não-iniciados, essa é a alcunha que Bowie recebeu bem cedo na carreira dele por causa das várias transformações de sua persona. O erro que eu vejo nisso vem do fato de camaleões não se transformarem. O que eles fazem é mudar de cor para se camuflar no cenário. Bowie, se necessária a analogia do camaleão ainda, é o oposto. Não foi sempre assim. Como todo o artista ele teve seu período de desenvolvimento. Mas, bem cedo, já em Space Oddity, ele já tinha um estilo bem definido, parte em seu próprio tempo, parte no futuro. Considerando que o álbum de estreia dele tinha muita influencia da psicodelia e do pop rock vigente no período, essa segunda tentativa representou uma mudança brusca, quase uma autodescoberta – se tal coisa existisse, principalmente em se tratando de Bowie, que se descobria outra coisa a cada dois anos. O apelido camaleão seria preciso se camaleões, inspirados por uma pintura do Jackson Pollock, imitassem as cores e mudassem a paisagem ao redor deles. Ou nem se preocupassem em mudar a paisagem. O objetivo do Bowie, ao contrário do camaleão, nunca foi camuflagem, se mesclar a um cenário, e sim criar um cenário próprio que só o destacasse mais em comparação ao resto do mundo. Muito mais um pavão, se pavões mudassem a cauda, não conforme o cenário, conforme sua própria vontade abstrata.

Cenário

Lá pra 1969, quando a psicodelia já dava o que tinha que dar, Bowie lançou Space Oddity, uma quase opera espacial, carregando traços da estética musical do período, uma pitada dos discos conceituais que The Who lançava (Tommy vem à mente), mas, principalmente, tinha algo próprio, algo de nunca visto. O tal do Glam Rock, que é dito que Bowie fazia parte, não existia esse ano ainda, mas muito do Glam veio de Space Oddity. Tinha a fantasia, o personagem espalhafatoso, androginia, algo de ficção científica, enfim focava em mais que só música. É fato que era para esse caminho que o rock trilhava, mas a estrada nem construída tinha sido ainda, não havia nada ali a que o suposto camaleão pudesse se mesclar. Aos poucos o cenário mudou. Marc Bolan veio pavonear o rock, largando as origens folk do Tyrannosaurus Rex em troca do som mais direto, dançante do T. Rex. Parecido, mas não igual, atravessando o oceano, havia New York Dolls, com uma estética parecida, mas um som “proto-punk” e letras essencialmente hedonistas (também coisa do glam). Foi a combinação desses fatores que criou o que hoje nós chamamos de glam rock. Não foi o glam rock que se criou e, depois, Bowie veio se esconder nele. Nunca; na passeata glam rock, Bowie foi o guia alienígena bailarino frenético que todos podiam enxergar de longe e assistiam com interesse, porque, além de tudo, o figura era imprevisível e podia ir pra outro lado a qualquer minuto. Assim ele fez, várias vezes, e até o lançamento de Let’s Dance, sempre com o papel de guia. O que aconteceu depois é um pouco complicado de explicar, já que a década de 1980 foi um período conturbado pra quase todo mundo. Talvez nesses dias o termo camaleão não seja tão errado. O que parece é que Bowie, como vários músicos na época (Dylan, toda a patota do prog rock, Santana, Deep Purple, enfim, quase todas as bandas e músicos que sobreviveram à década de 1970, bem ou mal) não sabia o que fazer. Aí, sim, Bowie imitou alguns. Um pop rock cá, um new romantic (Duran Duran, Adam Ant e afins) lá, e a popularidade caindo e Bowie sumindo no cenário. Infelizmente aconteceu, não dá pra romantizar. Bowie foi camaleão, por um período, e por isso gosto menos ainda do termo, porque acho que, quando é valido, remete aos piores momentos do artista. Momentos estes que, me baseando somente no meu gosto musical, perduraram até 2013, infelizmente. Sim, depois de Let’s Dance, não gostei de nada do que ele fez até o retorno do sumiço com The Next Day, este que só veio depois de 10 anos de silêncio. Curiosidade engraçada, na época que conheci Bowie, ele estava em hiato, sumido. Talvez umas férias merecidas. Afinal, não foi só nos conturbados anos 1980 que Bowie desandou. Depois veio as bizarrices do Tin Machine, que nem tô preparado pra falar sobre porque até hoje não entendi qual foi a intenção, o que motivou aquilo e, especialmente, pra onde foi. Em seguida, pulando pra década de 1990, Bowie virou o membro mais sofisticado (e mais velho) dos Backstreet Boys enquanto tentava tirar algo de valor desse barulho de construção futurista que vocês chamam de música eletrônica. Heathens, já em 2002, não foi tão ruim, que eu me lembre. Acho que esse foi o problema, é um disco esquecível. Todas essas fases são esquecíveis. Alguém conhece uma música do Buddha of Suburbia? Claro, aqui falo pelo meu gosto, apenas. Tenho certeza que tem gente que gosta desses discos que acabo de desprezar.

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Nada de preciso até agora

Cheguei no ponto do texto em que tenho que admitir que estive errado esse tempo todo. Não de todo errado. Acredito em boa parte do que escrevi até agora. Mas não é preciso. É impossível ser preciso com Bowie. É verdade que um “camaleão do rock” não faria música no estilo new wave antes do new wave existir como gênero reconhecido (vide Young Americans). Mas o que é new wave pra começo de conversa? Estou escrevendo sobre gêneros pelo ponto de vista atual, que é o do futuro em relação ao período em que tudo isso de fato aconteceu. É importante lembrarmos, no entanto, que gêneros musicais são só nomenclaturas inventadas depois da música, normalmente por críticos, pra facilitar o trabalho das lojas de discos na hora de organizar o acervo. Embora existam similaridades entre músicos de um mesmo gênero musical, existem aqueles que não se encaixam. David Bowie é um desses poucos, e vai um pouco além. Muito além. Chega ao ponto de que lojas de discos deveriam ter a sessão David Bowie, para ele e seus imitadores ao longo dos anos. Seria uma sessão com um pouco de tudo. Afinal, mesmo que todos concordem que Ziggy Stardust é um disco icônico do glam rock, ele não parece com nenhum outro disco de glam rock. Tem ingredientes, mas o prato é coisa inédita. Marc Bolan, outro ícone do glam, era um pavão por si só, mas ele nunca encarnou um personagem. Nos anos de Ziggy Stardust, Bowie foi Ziggy que era Bowie que era Ziggy e assim por diante com todas suas outras encarnações. Uma coisa é atuar na frente das câmeras, fazer um papel hostil perante entrevistadores e jornalistas, outra é ser alguém diferente toda vez, ter outra voz, ter outra aparência, outra personalidade, mas, ao mesmo tempo, ser a mesma pessoa. Talvez a forma mais precisa de resumir o legado de David Bowie na arte (sim, na arte, não só na música) seja dizendo que ele foi David Bowie, ele deu vazão ao que havia dentro dele, fosse pela música, pela pintura, pela performance. Foi um artista completo.

Ícones

O rock é cheio de ícones, desde Elvis. Mas, já na década de 1970, Lester Bangs (o crítico de rock, corram atrás dos arquivos dos textos dele pra Rolling Stones e afins, se o tema te interessa) dizia que os ícones estavam escassos, não havia opções. Jimi Hendrix e Janis Joplin estavam mortos, Bob Dylan estava estranho, Jim Morrison já estava mais que datado (e morto também, mas isso era o de menos) com sua poetaria que queria ser beat-francófila-decadente-romântica mas era só uma sequência de expressões e afetações desses estilos sem nada de próprio (nem significado) e culminando em “come on babe light my fire”, o povo do new wave era ingrato com suas origens, o povo do rock “pesado” se interessava mais por cocaína que música, e, lá pra década de 1980, com Wham e A-ha e outras aberrações, a única esperança restava nos punks, que nessa época respiravam por aparelhos, e nas mulheres (The Slits, Lydia Lunch, Debbie Harry, Patti Smith), que eram as únicas que pareciam ainda saber o que o rock era pra ser e tinham intenção de trazer algo novo pra ele – mas, nem punk nem as mulheres do rock atingiram um grau de influência ou número de vendas alto o suficiente para chegar ao status de ícone (talvez hoje a Patti Smith, embora eu a veja mais como o grande símbolo de um período da arte). Lester Bangs, que eu saiba, não viu potencial de ícone do rock no Bowie, nem, na verdade, eu vejo. Seria muito pequeno, limitante, em comparação ao tamanho e amplitude da obra dele.

Artista completo

Porque é sempre válido lembrar que David Bowie não foi só músico. Ele atuou (além dos personagens dele serem performance teatral pura, ele apareceu algumas poucas vezes no cinema), foi pintor,  mas, o que talvez seja mais importante que tudo isso, é que ele foi uma figura ativa no mundo da arte. Conviveu com Andy Warhol, frequentou os bares de música de Nova York buscando coisa nova, produziu gente como Iggy Pop, gravou com Queen, inspirou gente no mundo da moda, fez um pouco de tudo. Essa onipresença, onisciência e onipotência artística pode ter contribuído pro rótulo de camaleão, mas foi muito mais que isso. Ele conseguiu o que poucos artistas conseguem, se traduzir em arte. Dá pra citar poucos artistas que chegaram nesse patamar, e, mesmo esses, o fizeram de maneira diferente – obviamente, afinal a personalidade do artista pleno vai afetar sua obra de maneira indivisível. A trajetória artística do David Bowie passou por todas as etapas da vida humana, curiosamente. Teve a curiosidade e exploração da juventude, a dificuldade pra se encontrar do começo da vida adulta, a iluminação da maturidade ao se dar conta que não precisa se encontrar e que várias encarnações é o melhor jeito de se viver a vida, crises de meia idade, retorno, nostalgia e, permitam-me um pouco de romantismo aqui, transcendência.

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