Observações aleatórias #2

kaninchen-und-ente
Anatídeo ou lagomorfo?

1 – Almoçando quase todos os dias com uma colega de trabalho paraguaia, pude notar o potencial de isolamento da linguagem. Como estar num local estrangeiro pode afetar profundamente até nossa personalidade. Como ela costumava ser extrovertida, daquelas que não levavam desaforo pra casa, quase barraqueira, dependendo do ponto de vista, e, hoje, fica quieta a maior parte do tempo, ouvindo, prefere não falar porque dá muito trabalho colher palavras que signifiquem o que ela acha que significam. É um novo filtro na nossa cabeça. Se comunicação já é a raiz da maior parte dos nossos problemas, adicionar barreira de linguagem tira nosso ritmo, nossa capacidade de compreensão, limita nosso vocabulário, independente do quão fluente sejamos, e nunca somos tanto quanto acreditamos ser. Sem falar da forma das frases, do peso das palavras, nunca temos noção perfeita disso em um idioma estrangeiro. Essa pode ser a solidão mais profunda, a da linguagem. Mesmo quando estamos sozinhos, em nosso país natal, cercados pela nossa própria língua, sabemos que num lugar qualquer alguém estará falando, mesmo que não conosco, e só por isso já é possível nos sentirmos menos sós, parte de algo, dum costume, cultura, local, qualquer seja o nome dessa sensação de fazer parte. Ao mesmo tempo, é mais difícil, me parece, se envolver em uma conexão mais profunda quando a solidão que se sente não é tão intensa. Enquanto, num local estrangeiro, adentro a extraordinária solidão estrangeira, um oi, um bom dia, um bate-papo alongado com uma pessoa pra quem se pede informação, vira história, tem significado, pequeno ato que seja, é uma conexão das mais profundas, uma mão que te puxa do abismo por uns segundos pra te banhar na luz. Coisa que, se acontece em casa, passa, é esquecida. E talvez aí esteja a graça de viajar, afinal de contas, sair de casa, do bairro, pra ir parar em qualquer outro canto do mundo, pra que se possa sentir solidão tamanha que qualquer contato humano faz sentido, renovar o sentido do contato humano em geral, de certa maneira, e de todas as outras pequenas coisas. Não se nota a arte de rua na parede do seu prédio, mas aquela que enfeita as ruas de outro país enchem os olhos – são a mesma coisa. Ver a coisa – mancha na parede pela qual se passa em frente todos os dias -, ver a coisa como – mancha na parede nunca antes vista, que se nota pela primeira vez, a que se atribui forma e significado, vira arte. Linguagem, é a isso que, no fim, tudo se resume.

williamfaulkner
Tem um número excessivo de fotos do Faulkner fumando um cachimbo nesse blogue, mas não dá pra evitar, ele era um sábio. (E acho que é um Dunhill que, na foto, ele havia acabado de acender. Talvez com a mistura favorita dele – supostamente -, My Mixture 965. Eita cidadão de bom gosto.)

2 – A tal da real, que as pessoas dadas aos textões, com tanta insistência, dizem mandar por essa internet de meu satã, tem costume de ser bastante falsa. A impressão que dá é que as tais pessoas são todas míopes e se recusam a por os óculos. Enfim, isso é só pra dizer que odeio a expressão “mandar a real”, acho que 9 a cada 10 vezes ela é usada pra botar a máscara da liberdade de expressão no discurso intolerante, mas vá lá, se o que Faulkner disse nessa entrevista pra Paris Review não é a real, não sei o que é. “Mas tio Rapha, o que o tio Faulk disse aí nada tem a ver com intolerância e justiça social, sua introdução não faz sentido”. Eu sei. Pra tu ver como ficam as coisas, quando se decide escrever de olhos fechados, se esforçando pra só olhar pra trás um mínimo de vezes. Mas posso contar nos dedos as vezes em que  me meti a falar de política, sociedade e questões sérias, achei que seria bom esclarecer pelo menos o que acho dessa expressão cretina (mandar a “real”), mas vivo dando pitaco sobre literatura. E Billy F aqui manda a real sobre literatura, fazer o que?

(Contexto: entrevistador começa comentando a timidez de Faulkner e as razões pelas quais ele não gosta de entrevistas que perguntam de sua vida pessoal. Então ele pergunta se Faulkner aceita responder perguntas sobre a pessoa enquanto autor.)

FAULKNER: Se eu não tivesse existido, outra pessoa teria escrito a mim, Hemingway, Dostoiévski, todos nós. Prova disso é que existem em torno de três candidatos para a autoria das peças de Shakespeare. Mas o que é importante é Hamlet e Sonho de uma Noite de Verão, não quem as escreveu, mas que alguém o fez. O artista é de nenhuma importância. Só o que ele cria é importante, já que não há nada novo a se dizer. Shakespeare, Balzac, Homero escreveram sobre as mesmas coisas, e, se eles tivessem vivido mais mil ou dois mil anos, os editores não teriam precisado de mais ninguém desde então.

ENTREVISTADOR: Mas mesmo que pareça que não há nada mais a ser dito, não seria, talvez, a individualidade do escritor importante?

FAULKNER: Muito importante para ele mesmo. Todos os outros deveriam estar ocupados demais com trabalho para se importarem com individualidade.

ENTREVISTADOR: E seus contemporâneos?

FAULKNER: Todos nós falhamos em alcançar nossos sonhos de perfeição. Então eu nos avalio com base no nosso esplêndido fracasso em fazer o impossível. Na minha opinião, se eu pudesse escrever toda minha obra de novo, estou convencido de que eu a faria melhor, o que é a condição mais saudável para um artista. É por isso que ele segue trabalhando, tentando de novo; ele acredita cada vez que dessa vez ele conseguirá, a alcançará. Claro que ele não vai, e é por isso que essa condição é saudável. Uma vez que ele conseguisse, equiparasse sua obra à imagem, ao sonho, nada restaria além de cortar a própria garganta, ou saltar do pico da perfeição ao suicídio. Eu sou um poeta fracassado. Talvez todo romancista queira primeiro escrever poesia, descubra que não pode, e, então, tenta o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E, falhando nisso, só então ele começa a escrever romances.

ENTREVISTADOR: É possível que exista alguma fórmula a se seguir para se tornar um bom romancista?

FAULKNER: Noventa e nove porcento talento … noventa e nove porcento disciplina … noventa e nove porcento trabalho. Ele não deve nunca estar satisfeito com o que faz. Nunca é tão bom quanto pode ser. Sempre sonhe e mire mais alto que sua capacidade. Não se importe só de ser melhor que seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor que você mesmo. Um artista é uma criatura movida por demônios. Ele não sabe por que eles o escolhem e ele normalmente está muito ocupado pra imaginar por que. Ele é completamente amoral sendo que ele vai roubar, pegar emprestado, implorar ou furtar tudo e todos para fazer o que tem que fazer.

Você pode ler o resto dessa entrevista totalmente excelente, e, de bônus, julgar minha tradução clicando aqui. Sobre o que foi dito, em si, nada  tenho a acrescentar. Se verdade é uma palavra muito forte, e acredito que seja, posso, então, só dizer que concordo.

https://deliriumscribens.files.wordpress.com/2016/11/cae15-youth2b1.jpg?w=500&h=208

3 – Aqui a falta de formato começa a me incomodar. Parece que falta conclusão na postagem. Parece que não escrevi o suficiente. Que tem mais Faulkner aqui que eu. E tenho ideias, dá pra escrever pra sempre nessas observações, mas são tão incompletas, vagas, quase esboços de ideias. Estava pensando em escrever coisa ou outra sobre aquelas sensações de que não sabemos o nome. Vi algo sobre isso em algum lugar. Não é aquele tumblr de palavras inventadas, naquilo não vejo graça, acho muito motivacional, muito esforço pra fazer de algo já bem incrível (a experiência humana básica) algo ainda mais extraordinário, quase maquiagem pra vida. Pra isso digo foda-se. É que um tempo atrás, bastante tempo, li um texto ou um artigo ou um tuíte de não sei quem dando nome – com base científica, era um fenômeno cerebral de verdade, sem romantismos e poetaria de butique – aos breves arrepios que sentimos vendo ou ouvindo ou sentindo determinadas coisas, exemplos: gente cozinhando, vozes sussurradas, movimentos acidentais de aparência coordenada. Enfim, acho que queria descobrir se existe nome para o fenômeno da excitação estética. Saca quando lemos uma descrição da movimentação em uma rua por Flaubert, ou nos botamos próximos dos quadros maiores e mais opressivos do Jackson Pollock, ou determinada sinfonia chega ao seu ápice de intensidade, o que lhe agrade mais, aqui não importa tanto. Pois é, não sei o nome disso. Não é natural, acho. Isso é questionável e não tenho a base psicológica/biológica pra saber ou discorrer sobre isso com qualquer segurança, mas isto não é ensaio, é só o mais próximo que quem me lê pode chegar de ler meus pensamentos – não é sobre isso que penso no dia a dia, mas penso nisso agora, enquanto digito. Arte me parece mais fruto do tédio que da natureza, coisa que ser humano só decidiu fazer quando não tinha mais predadores que não ele mesmo. Ideias sem causa e sem consequência – a tal da muito romanceada inspiração – só afeta aqueles que não tem que se preocupar em virar comida durante o sono. Como a tal da sensação que tentava descrever é efeito da arte, que não é natural, a sensação tampouco o deve ser. Enquanto isso, vendo Juventude (filme do Paolo Sorrentino, 2015), noto que o filme é puro essa sensação. A Grande Beleza já era também, não só era como parecia tratar dela – a grande beleza, esse conceito esquivo, é causa da tal sensação, uma das pelo menos. Sr. Sorrentino sabe a que eu me refiro. O que ela provoca, a sensação, fisicamente falando, não sei. Talvez o mesmo que o tal arrepio que descrevi ainda antes causa, talvez sejam uma coisa só.

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