Omissões – parte 5 – final

Pros atrasados: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4. Leiam.

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Não sabia se tinha dormido ou não em algum momento da madrugada. Tinha a impressão que sim, pela velocidade com que o tempo passou até o sol nascer, mas sentia como se tivesse assistido cada minuto acelerado passar. A luz do sol iluminou a sala. Tirei um livro da minha mochila e esperei que eles acordassem, ora lendo ora olhando palavras. Ainda pensava na minha vó dormindo em seu quarto, mas sem curiosidade, sem desejo de abrir a porta e fazer que ela acordasse.

— Bom dia – meu pai disse, entrando na sala. – Vou fazer café.

— Bom dia.

Levantei do sofá.

— Vou tomar um banho.

Quando voltei à sala, minha mãe tinha acordado. Laércio tinha acordado também e veio, saltitante, rabo abanando, em minha direção. Afaguei sua cabeça por um tempo.

— Onde é o cemitério?

— Pra que você quer ir no cemitério agora? – disse minha mãe.

— Só uma coisa que eu acho que preciso fazer.

— Mas pra quê?

— Só um minuto – meu pai, certo de que a discussão ia se prolongar mais do que deveria, pegou um papel e uma caneta na mesa da sala e escreveu o endereço pra eu botar no GPS do celular.

Agradeci e saí. Entrei no carro, liguei o GPS e segui as direções que ele me ditava. Nunca tinha visitado o cemitério da cidade antes. Aquela não era a cidade em que minha família nasceu, não tínhamos ninguém enterrado ali. Na verdade, até o cemitério da minha cidade natal visitei apenas duas vezes, a última vez há vinte e cinco anos. Foi para visitar meu vô, junto dos meus pais e minha vó, viva e ativa na época. Contrariado por ter que ir junto da maneira que apenas uma criança pode ficar, não compreendia o valor daquilo. Túmulos em sequência, aquela atmosfera assustadora típica da interpretação que normalmente é dada aos cemitérios em filmes e desenhos, a memória que tenho desses dias é de medo, incompreensão e tédio, o tédio mortal que se sente na infância quando se é forçado a sentar quieto e fazer nada. Não havia nada lá para mim. A visita ao túmulo do meu avô não diminuía minhas saudades dele, nem me fazia compreender o que era a morte. Apenas essa diferença de sensações já era o suficiente para me fazer notar, logo na primeira vez que meu pé tocou o solo do cemitério, a passagem do tempo, a experiência dos anos. Fazia que eu me sentisse velho, mesmo não sendo, e perceber o quão mais próximo estava da morte – mesmo que isso não fosse verdade, não era imune a morte, independente da minha idade, e estava vivo por acaso, como todos que sobrevivem ano após ano o estão, por acaso, não por proteção místico temporal – somente pela minha melhor compreensão, ou deveria dizer aceitação, de seu conceito e inevitabilidade. Não via aqueles túmulos como algo distante, mas como destino. O que me deixava apreensivo, mas, ao mesmo tempo, inexplicavelmente, reconfortado.

Segui a trilha. Observei alguns dos túmulos. Procurava minha vó, mas esqueci de perguntar onde ela havia sido enterrada. Não tinha ninguém ali, só árvores e flores, poucos pássaros, borboletas, pedra. O cheiro de grama e terra impregnava minhas narinas. Esse cheiro permanecia desde minhas visitas na infância, dele eu me lembrava bem. Algumas campas estavam adornadas por flores, tinham como emblema uma foto do enterrado. Aquele parecia ser o único local de igualdade, mesmo que isso também não fosse de todo verdade – morrer é tão caro, vem com tantas taxas. Mas havia gente de todas as idades ali. Sim, era destino, sem exclusividades.

Achei minha avó. Foram alguns minutos de caminhada até lá, cheios de idas e vindas, erros, retornos, mas não me esbarrei com ninguém vivo. Fiquei de pé em frente à campa. Só o nome dela, completo, estava gravado numa placa, sua data de nascimento seguida pela data de falecimento logo ao lado. Sem foto, sem flores. Recente e limpo. Família e amigos, além dos meus pais, só foram informados depois do enterro. Não teriam tempo de chegar na cidade, todos moravam muito longe. Sem falar que a maior parte das pessoas que ela conhecia já estavam mortas, enterradas em outros cemitérios, em outras cidades. Não tinha flores nem nada para ofertar. Nada a dizer, pois quem ouviria? Comecei a questionar minha ida. Fiquei lá, parado, olhando a placa com seu nome, o vazio do ambiente. Sentei no chão, sem me importar com sujeira, e respirei fundo um instante. Me deixei levar pelo nada ao redor, pelo silêncio por vezes quebrado pelo vento que levava folhas secas e as arrastava pelo chão, pelo piar dos pássaros e o bater de suas asas. Fixei na placa como na chama de uma vela até minhas vistas embaçarem. Queria conter o monólogo interno na minha mente, esta era a parte mais difícil. Quando não falava algo referente ao momento ou local, formava frases pra uma possível poesia que o momento pudesse inspirar ou um conto, ou voltava ao romance largado pela metade e tentava dar continuidade a ele mentalmente. Então, silenciadas todas essas digressões, falava sobre silenciar o monólogo, sobre não pensar, sobre ficar em silêncio, sobre deixar a respiração fluir sem me concentrar nela. Repetia as instruções pra mim mesmo, por consequência, as ignorando. Até que consegui? Um tempo depois, e não sabia quanto tempo havia passado, senti o celular vibrando no bolso da minha calça. Era Luciana. Queria saber se tinha chegado bem, se tinha conseguido ou estava tentando fazer o que tinha vindo fazer. Respondi que sim, que estava bem, no cemitério, mas já me preparando pra voltar. Disse que estava voltando pra casa. Pra cá ou pros seus pais? Pra aí. Até logo, então, ela disse. E desligamos trocando despedidas. Me abaixei de frente pra campa e toquei com a palma da mão na pedra.

— Tchau.

E me levantei de novo. Caminhando em direção à saída, liguei pros meus pais. Perguntaram onde eu estava, e respondi. Perguntaram se eu estava bem, e respondi.

— Já estou indo pra casa.

— Não vai mais vir pra cá?

— Não. Acho que preciso ir embora.

— Tá bom. Quando você volta?

— Acho que em algumas semanas.

— Tá bem. Até lá, então. Liga quando chegar.

— Ok.

— Boa viagem.

— Tchau.

— Tchau.

Desliguei o celular. Sem mais nada a fazer, entrei no carro, dei partida e voltei pra casa tentando não pensar na minha morte. Embora acreditasse que seria um suicídio. Não tão cedo, mas entre os cinquenta e sessenta anos, mais tardar chegando aos setenta, mas nunca completando a década. Método indefinido. Tirando a lição da minha avó, que resistência mental nem sempre vale a pena, quando o corpo te impede de existir.

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2 comentários sobre “Omissões – parte 5 – final

  1. O final, sobretudo a última frase, me lembrou de uma particularidade que me fez e faz repensar quanto a dualidade entre corpo e mente. Pra resumir a ideia, eu tenho uma doença que gosto de metaforizar como uma ardência tal qual se eu estivesse sendo queimado vivo. Enfim, não vale entrar em detalhes, mas eu diria que você escreveu uma síntese de uma ideia minha que fala da ilusão que temos de que o corpo é nosso, quando tudo o que ele faz e é afetado por (como funcionamentos internos e doenças) está além do nosso controle consciente. Tendo essa doença, que até hoje dermatologistas não sabem precisar a causa (vários fatores) eu me identifiquei com os antigos vilões de desenhos animados ou filmes quando queriam trocar de corpo (ou mente, dependendo da concepção) com um jovem saudável.

    É de fato digno de desespero ter ciência de que não importa o tamanho de nossa vontade ou a extensão da motivação pra qualquer projeto; o primeiro passo pra qualquer grande feito é ter um corpo saudável.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Tudo dá a entender que corpo e mente são separados, quase independentes, não é mesmo? Dúvida que talvez nunca se resolva. Por outro lado, a mente não precisa ser saudável para os grandes feitos, vide toda essa gente neurótica/problemática autora de obras-primas.

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