Omissões – parte 4

Pros atrasados: Parte 1, Parte 2, Parte 3. Leiam.

Tive que insistir pra que Luciana não viesse comigo visitar meus pais na semana seguinte à morte de minha avó. Parecia algo tão pessoal e tão deprimente, não queria que ela fosse influenciada. Agradeci e pedi que ficasse. Depois de um tempo, ela entendeu. Fui recebido normalmente pelos meus pais, quase como se nada tivesse acontecido, mas a casa estava mais quieta. A atmosfera era outra. Como se a ausência de uma determinada pessoa pudesse afetar o ar, as moléculas que formam aquele pedaço ínfimo do planeta. Entrei na casa e passei pelo corredor. Não sei por quê. Durante toda aquela semana, tive que lembrar a mim mesmo que minha vó estava morta. A distância, o fato de não ter visto a morte, fez com que fosse difícil reconhecer a realidade. O maior efeito da morte de um ente querido, da família ou não, é a falta dele. Naquele caso, enquanto viva, ela não estava perto, eu não a via. Agora morta, longe da casa em que ela habitava, nada havia mudado para mim. Fui atraído pelo corredor. Foi automático. Não me percebi caminhando até lá, nem minha mãe, que me seguia se perguntando, provavelmente, o que eu achava que fazia.

— O que você tá fazendo?

Acordei:

— Não sei. Acho que é força do hábito.

Falei pra ela do quanto a morte da minha vó ainda não parecia real.

— Sim, entendo.

Olhei na direção da porta aberta do quarto. Vi um volume sob os lençóis da cama. Seu rosto saindo de debaixo dos lençóis como a cabeça de uma tartaruga. Lá estava ela como sempre. Meus pais não teriam coragem de fazer uma piada de mal gosto como essa.

— Mas como assim?, ela tá lá – apontando.

— Quem?

— Minha vó, olha.

— Não tem nada aqui, só a cama. Ainda não sabemos o que fazer com ela, acho que vamos dar pra alguém que precise. Deixar no sol por um tempo antes, claro, e procurar uma instituição ou coisa assim que dê pra quem não tenha.

Eu ainda não acreditava. E não era uma visão sobrenatural. Não, era física, concreta. Via seu corpo como ele sempre costumava estar. Na mesma pose, incluindo os movimentos da sua respiração que mexiam os lençóis. Deveria insistir? Minha mãe não brincaria com isso. Se insistisse, acharia que estou louco, passando por alguma espécie de alucinação pós-traumática. Mas não senti nenhum choque ao receber a notícia de sua morte. Fazia anos que estava preparado pra ela. Era da morte de uma senhora de mais de noventa anos e nada saudável, a ordem natural das coisas. Só podia ser um engano. Ou estava vendo coisas. Fiz menção de entrar no quarto, minha mãe pôs a mão no meu ombro.

— Não tem ninguém ali.

Acendeu a luz do quarto, pra me assegurar que era só impressão, mas não mudou nada. Pelo contrário, a imagem de minha vó deitada estava clara. Então ela se mexeu, como costumava fazer. Com muito esmero, virou o corpo e ficou deitada de barriga pra cima. A respiração mais forte, por causa do esforço. Sua mão saiu de debaixo das cobertas e foi até debaixo do travesseiro, procurar um pedaço de papel que ela costumava deixar lá pra assoar o nariz. Tudo igual, como sempre, lá estava ela.

— Vai tomar um café, você tá cansado.

Achei melhor esquecer. Uma hora ou outra tudo se ajeitaria, faria sentido. Talvez eu acordasse, mas aquilo não era um sonho, disso eu tinha certeza – de maneira alguma podia ser sonho. Assim que me afastei da porta, minha mãe a fechou.

O resto do dia seguiu sem transtornos, como uma visita qualquer. Não falei nada sobre o que tinha visto, ou assim achava, no quarto. Meus pais não falaram nada sobre minha vó, nada mais do que me foi dito antes pelo telefone. Talvez por ser tão recente. Falaram qualquer coisa sobre planos pro futuro, o que fazer dali em diante. A vida deles girava em torno dela, dos cuidados de que ela necessitava. Sem isso, todo um novo mundo se abria a eles. Podiam sair de casa sem medo. Viajar, se assim desejassem. Eu poderia cuidar de Laércio nesses dias, e ele mesmo não tinha muito mais que um par de anos de vida restando.

À noite, não consegui dormir. Ficava imaginando a visão, fosse ela o que fosse. Nos minutos em que esquecia dela, pensava nos meus pais. Eles seriam os próximos. Pensei no dia em que a saúde deles estivesse debilitada igual à da minha vó. Os dois, quase com sessenta anos, já tinham uma lista de problemas de saúde. Poderia acontecer muito antes. Teria que morar com eles de novo? Adaptar minha vida como eles fizeram com minha vó? Meu coração acelerou que achava que o próximo seria eu e não eles – eu mesmo negligenciava minha saúde. Não estava pronto pra tamanha responsabilidade. Muito menos pra fugir dela. Que insuportável o ciclo. Que terrível submeter alguém ao ciclo. Nunca poderia ter um filho. Não, seria muito egoísmo. Se a existência não passa disso, é injusto, o grande horror. É difícil perceber durante a vida o quão terrível é estar vivo, tampouco é desejável morrer, mas às vezes parece que o melhor é nunca nascer. Ficava me perguntando se todos viviam desse jeito, nesse conflito. Se só meus pais tinham essa expectativa de serem cuidados pelo único filho quando a saúde deles estivesse debilitada. Se todos os pais tinham essa expectativa, mas só os meus tinham coragem de pedir com clareza, sem indiretas e meias palavras, por esses cuidados. O futuro parecia inescapável. Não havia felicidade em nenhuma das saídas.

Mais uma vez, por hipnose, levantei do sofá em que tentava dormir e fui até a porta do quarto de minha vó, ainda fechada. Bem devagar, toquei a maçaneta. A futilidade de evitar o barulho no silêncio. Cada inspiração, um grito; cada expiração, uma lamúria. Baixei a maçaneta e o metal rangia dolorido. O barulho do trinco abrindo como uma imensa percussão sinfônica. Tentei abrir a porta, mas estava trancada. A chave estava ao meu acesso, ali na porta. Cheguei a pôr a mão nela. Desisti. Não tinha porque insistir naquilo. Mais um pouco, meus pais iam se levantar, ver que insistia na realidade daquela visão e achariam que estava com algum problema. O pior, tinha certeza que, no momento que abrisse a porta, lá estaria minha vó, dormindo como sempre, viva. Se encostasse meu ouvido à porta, ouviria sua respiração, se já não a estivesse ouvindo sem me dar conta.

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2 comentários sobre “Omissões – parte 4

  1. “É difícil perceber durante a vida o quão terrível é estar vivo”
    Isso é bem profundo justamente por ser verdade. Às vezes é como disse, a melhor opção é não nascer, não desgraçar uma vida neste “inferno”, mas por Deus, o que viver tem de cruel tem de sublime.

    Curtido por 1 pessoa

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