Omissões – parte 3

Pros atrasados: Parte 1, Parte 2. Leiam.

Oito da manhã, fiz café. Evitar barulho amplificava o som de cada movimento. A cafeteira era um trem que nunca terminava de passar pela minha cozinha. A xícara, tirada do armário, levada à pia, depois, cheia, até a mesa da sala, era um desastre automobilístico. O notebook aguardava. O barulho da xícara tocando o vidro da mesa era uma marretada. O estalar dos dedos dos meus pés, que carregavam o peso do meu corpo num esforço para não se fazerem notar, eram bolinhas de gude ecoando pelo piso frio. Se Luciana acordasse, não escreveria nada naquele dia. Ia querer tomar café da manhã comigo, conversar, fazer planos pro dia e depois pra semana. Mais um estrondo quando me sentei na cadeira e deixei a xícara ao lado do computador. Mais breves estalos rápidos dos meus dedos batendo nas teclas. A porta do quarto estava fechada e ela não havia acordado ainda. Medi que teria duas horas pelo menos. Se tem algo que, todavia, come o tempo é a escrita. Duas horas são linhas, passam sem que se dê conta. Tinha que lutar contra a tentação de voltar um pouco no texto, ler o que estava escrito, corrigir uns detalhes, refazer certas passagens. Precisava chegar ao fim antes disso, do contrário não terminaria nunca. Podia passar anos no começo, dando novos primeiros passos. Redescobrindo os pontos familiares da vizinhança sem nunca me aventurar no desconhecido. Seguir em frente era uma necessidade. Senti a mão dela tocar meu braço e, de súbito, olhei pro relógio, descrente. Eram dez e vinte. Não ouvi ela se levantar, tão longe estava do apartamento.

— Bom dia – beijou meu rosto. – Fez café?

— Fiz, mas acabou. Vou fazer mais. Acordei cedo pra escrever.

— Por que não me chamou?

— Achei que você quisesse dormir um pouco mais.

— Vou tomar um banho, então.

Aproveitei os minutos para escrever por uns minutos a mais, mas logo parei e fui à cozinha preparar uma nova jarra de café. Fiquei olhando o líquido preto pingando do filtro à jarra, pensando naquela relação. Gostava dela. Me sentia bem, em geral, nela. Era quando eu escrevia que vinha o desejo por isolamento. Ali de frente pra jarra, queria que ela não estivesse comigo no apartamento. Não morávamos juntos, mas toda a sexta ela vinha da faculdade pra minha casa e só ia embora na segunda. De vez em quando aparecia no meio da semana, víamos um filme ou coisa assim. Mas os fins de semana eram sagrados, era certo que ela ia passar comigo. O que é normal em um namoro, depois de um tempo. Havia aquela voz na minha cabeça gritando o quão inaceitável era esse comportamento, mas não fazia sentido. Se a presença dela num dia qualquer, sem compromissos maiores, era um problema, me atrapalhava, eu que estava errado. Quando me perguntava se queria sair do relacionamento ou não, o eu escritor votava que sim, enquanto o resto de mim era contra. E mais uma vez eu me dividia. Existia o eu da família, o eu do trabalho, o eu da Luciana, o eu escritor. Lembro que em determinado momento esses eus se encontravam – o mais próximo de um eu verdadeiro que poderia dizer que tive. Agora este, o verdadeiro, ficava longe, assistindo os outros de fora. Quase podia ver sua imagem na cozinha comigo, me assistindo, em silêncio, assistir as gotas de café caindo na jarra. Um mediador dos fragmentos, conciliador das diferenças, deixando seu papel de lado por ter perdido o controle, me dizia que um dos eus teria que deixar de ser ou o verdadeiro nunca teria espaço.

Voltei à mesa e fiquei olhando pro texto recém-escrito. Podia ouvir o chuveiro, a água caindo no box, às vezes ela cantava trechos soltos de músicas que quase nunca eu reconhecia. Minha mão direita cutucava ansiosa a mesa. Não tinha mais nada a escrever. Tinha muito, mas as palavras não estavam comigo. Voltei ao começo. Li o texto e fiquei satisfeito só porque ele não me enfurecia, diferente das outras vezes. Estava razoável. Era o que eu queria que fosse, o melhor que poderia ser, vindo de mim, com aquela história. A essa altura queria que Luciana saísse do banho de uma vez para eu não me sentir culpado que o eu escritor não mais cumpria seu papel. Deixar que o eu namorado tomasse conta. Antes disso, abri um documento separado e, me obrigando a digitar com liberdade, juntei palavras baseadas em toda minha divagação sobre eus e divisões num poema em prosa. Tentei fazer dele o mais ambíguo possível, esconder a autobiografia. Consegui terminar o longo parágrafo corrido antes de ela desligar o chuveiro. Luciana saiu enrolada na toalha e disse que eu deveria ir tomar um banho também.

— Você já tá cansado, parece, e não é nem meio dia. A gente dormiu tão tarde ontem. Vai lá, que eu faço uns sanduíches pra nós.

Fiz como ela disse. Debaixo do chuveiro frio, via as frases do romance se formando em frente aos meus olhos. Eu as cortava e rearranjava, trocava palavras e reimaginava cenas, planejava o que ainda havia de ser escrito, então fui tomado pelos pensamentos de antes, sobre os eus. Como é egoísta o tal eu verdadeiro. Ele bem sabe o quanto a total sinceridade pode machucar os que o cercam, àqueles que formam suas próprias versões dos eus verdadeiros dos outros, normalmente ilusórias. Sabia que o filho que minha mãe imaginava ter não era real, mas ela acreditava nele, o amava. Só mais alguns anos atuando, seria tão insuportável? Quem se prejudicava mesmo nesse dilema era Luciana, que nada tinha a ver com minhas crises. Se bem que o simples fato de que eu a mantinha distante das minhas crises já demonstrava que havia algo errado na maneira que eu enxergava nosso relacionamento. Fiquei me perguntando se a amava. Quase me deixei levar pela bifurcação do conceito de amor e sua definição elusiva. Outro mal sinal, como se quisesse inventar desculpas, conceitos e complexos para dizer que não e não me sentir culpado por isso. Mas aí, quando pensava em terminar – pelo bem dela –, ficava enternecido pelos pequenos atos, como fazer sanduíches enquanto eu tomava banho, se preocupar com o meu cansaço. Atos que se repetiam, que eu achava que devia recompensar. As velozes gotas d’água golpeando minhas costas faziam que eu me sentisse externo a mim mesmo, flutuante, que deixasse para trás a casca e saísse com um corpo novo, mais leve. Desliguei o chuveiro, me enxuguei. Quando, enrolado na toalha, entrei no quarto, Luciana estava nua na cama. O que aconteceu entre nós naquela manhã, não sei explicar. Trepamos como se nos víssemos pela primeira vez depois de meses da mais casta das separações.

Deitados juntos. Ofegantes, abraçados. Começamos a sentir o cheiro de queimado vindo da cozinha. Ela levantou correndo e quase tropeçou na toalha largada no chão. Fui atrás.

— Queimou – tirando a bandeja do forno, que carregava dois pedaços de carvão.

— Foi por uma boa causa.

— Detesto jogar comida fora – rindo de leve, seu corpo trêmulo, as costelas pra cima e pra baixo pela respiração acelerada.

— Não tem problema, eu faço esses agora.

Jogou os sanduíches na lixeira. Comecei a preparar os novos. Fiquei na cozinha, assistindo. O forno ainda estava quente e não demoraria pra esses queimarem também, se nos distraíssemos.

— Vou me vestir e te trazer umas roupas.

— Pra que?

À mesa, terminando de comer, vestidos, ouvi um som vindo do quarto.

— É meu celular?

— Acho que sim.

— Sem vontade nenhuma de atender quem quer que seja hoje.

— Vai ver quem é, pelo menos.

Fui. Era o número dos meus pais. Atendi.

— Oi.

— Oi, filho, tudo bem?

Tudo, tudo certo. E vocês?, o que houve?

Percebi que a voz da minha mãe não estava normal. Mais quieta, quase chorosa, úmida.

— Sua vó. Ela morreu hoje.

Esperou que eu dissesse alguma coisa, mas não disse.

— Foi umas três da manhã. Toda noite ela fazia muito barulho, chamava pessoas, nunca era nada. Hoje fui ver ela, tava muito quieta. Chamei, chamei, ela não acordava. Já tinha morrido.

— Eu tô indo pr’aí.

— Não precisa, já tá tudo feito, foi bem rápido. Seu pai chamou o médico, ele acordou e veio. Pelo jeito foi infarto.

— O remédio?

— Pode ser.

— Açougueiro.

— Não fala assim, ele fez o que achava que tinha que fazer.

— Só que não é psiquiatra.

— Cê acha que eu não tô pensando nisso tudo? Aconteceu. Ia acontecer uma hora ou outra. É triste, sempre é. A gente acha que não vai ser, que tá preparado. Mas é. Por um lado, foi um alívio, você viu como ela tava.

— É.

— Bom, já enterramos, agora só falta resolver umas coisas de documentação.

— Por que vocês não ligaram antes?

— E te preocupar, te acordar no meio da noite.

— Sim.

— Vir de carro de madrugada pra esse fim de mundo, nervoso, podendo sofrer acidente. Pra mim e seu pai só resta você.

Minhas personalidades sempre estremeciam ouvindo essa frase que ela repetia como um mantra. Só resta você. Como se uma hora ou outra, não importando o que acontecesse na minha vida, tivesse que largar tudo por eles. Como eles fizeram por mim, quando decidiram que iam me por nesse mundo. Era errado pensar que, se me tivesse sido dada chance de escolher, teria preferido não nascer? Era, de certa forma. E era errado ignorar minhas futuras responsabilidades. Mas o temor, o temor eu não conseguia impedir de tomar conta.

— Agora deixa quieto, já é quase meio dia. Até chegar aqui são duas da tarde. Aí amanhã de manhã você tem que voltar pra ir pro trabalho na segunda. Muita correria, sem falar que, não sei. Deixa pra lá.

— Semana que vem.

— Se você quiser.

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