Observações aleatórias* #1

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Jovem Adormecida (1657) – Johannes Vermeer

1 – Acho que a tendência do meu processo de criação literária (pretensiosas que possam parecer essas palavras em conjunto) é seguir obsessões momentâneas. O conto mais recente que postei aqui (parte do conto) recebeu um comentário que eu achei fascinante (sobre como o excesso de trivialidades e divagações podem repelir os leitores), por isso decidi abrir essa série de postagens falando sobre essas obsessões que me motivam de certa forma – e não são mais que trivialidades e divagações. Tive duas mais marcantes esse ano. A primeira, no começo do ano, foi a, já citada na primeira parte do conto, morte da minha vó. Depois dela, tudo que escrevia era sobre morte, doença, velhice, sobre a fragilidade do corpo e, o principal, da mente, dependência (no sentido de depender dos outros) e da inevitabilidade dessas coisas todas. Depois, a segunda e atual obsessão, Buenos Aires, quando voltei de lá. Então passei a escrever sobre solidão, do quanto relações pessoais podem gerar conexões rápidas, fortes, mas, de todo, frágeis, despedidas, saudades, tempo que passa (mono no aware, pra ser mais preciso). Mas por trás delas, talvez graças ao comentário, me dei conta, havia uma maior: trivialidades. Essa é minha atual obsessão e culpo Jim Jarmusch pela influência. E os poetas chineses que ando lendo, e poetas americanos, e Roberto Bolaño, e pintores (seja Vermeer – ilustrando a postagem – com seus retratos das banalidades da pequena burguesia holandesa, seja Edward Hopper e suas cenas de tédio urbano). Não importa, ao gastar linhas falando das atitudes do cachorro da família num conto que nada tem a ver com caninos, ao descrever o harmônico desalinho dos dentes portenhos, o trivial domina – quase – sem que eu me dê conta. Pode ser essa a razão de ser dessa postagem meio deslocada que decidi tirar da cartola.

2 – Quero achar um jeito de contabilizar as coisas que descubro diariamente. Nem que seja pra não perder depois, o que acontece com frequência. Ontem estava indeciso sobre ver ou não um filme (Gloria, 2013, chileno). Acabou que não vi. Depois de ler uns comentários sobre ele, parece ótimo, mas não estava no clima praquele tipo de história, não num domingo (ontem de quando comecei a digitar esta postagem). Mas, dentre os comentários, ouvi dizer que um personagem em determinada cena lê um poema de Claudio Bertoni à personagem-título do filme. De acordo com a mesma pessoa, o diretor de Gloria chama Claudio Bertoni de “o beatnik chileno”. Fui atrás. Não chamaria de beatnik, com base na minha primeira impressão. Pareceu mais próximo de um Bukowski. Gostei, de qualquer maneira, das poesias, e ele é um fotógrafo e artista plástico interessante também. No mesmo dia, um pouco mais tarde, buscando um documentário sobre William S. Burroughs (estou quase na metade de Naked Lunch) no Youtube, vejo uma entrevista com o onipresente Jarmusch e mais outros dois caras que participaram num documentário sobre Bill, na década de 1980. Nisso, Jarmusch cita John Giorno, poeta americano, bastante presente na cena artística de Nova York em 1960/70 (participou nuns filmes do Warhol), era amigo do Bill e apareceu numas cenas do documentário. Descobri e adicionei o poeta à lista. Conclusão, ontem, 2 poetas novos. Isso sem contar a lista de gente que vi no apêndice do livro “Argentina Beat” (que é sobre isso mesmo que você deve estar pensando, geração beat na Argentina). É uma antologia de vários escritores do período, alguns não publicaram mais que um ou dois livros artesanais de poesia ou um punhado de poesias em revistas organizadas por eles mesmos. Falarei mais nas postagens sobre literatura, isso aqui é outra coisa. A introdução e o apêndice estão recheados de nomes de escritores, músicos e cineastas da vanguarda Argentina, gente que preciso e pretendo explorar.

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Cut-up technique, bitches.

3 – Fico imaginando se os beats argentinos conheceram os beats brasileiros… e se os beats da América do Sul conheceram os da América do Norte (precursores da porra toda). Gostaria de ter presenciado um bate-papo entre Allen Ginsberg, mariani, Roberto Piva, Peyote e Bebop. Tenho uns livros a caminho também. Finalmente poderei trabalhar com mais cuidado nas traduções que prometi a mim mesmo tentar fazer. Conhecerei a obra da Anne Waldman, do Ted Berrigan. Um pouco ansioso para a chegada dessa leva de livros.

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Anne Waldman & Ted Berrigan

4 – Pesquisando para um futuro texto sobre o Punk Rock de Nova York na década de 1970, li a entrevista da Paris Review com o Luc Sante (jornalista belga-americano pouco conhecido que estava lá). No meio da conversa ele fala sobre como nossa percepção do passado é maleável, assim como, de certa forma, é a história, nós estando ou não presentes no tal momento do passado. O que ele diz é que, por exemplo, a década de 1960 pra ele hoje não foi o que era quando ele viveu o período ou o que ele achava que tinha sido uns anos depois. Então ele não conhecia Os Mutantes, Scott Walker, Serge Gainsbourg, e assim mudou-se a década de 1960 da cabeça dele. A década de 1960 da minha cabeça mudou quando eu descobri que havia beats na Argentina, e, dois anos antes disso, havia mudado quando descobri dos beats brasileiros. Que será da 1960 da minha cabeça em dez anos? Somos mesmo empilhadeiras de informação.

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5 – Noutro dia, almoçando com uma amiga do trabalho, ela me perguntou o que eu faria se ganhasse na loteria. Tenho uma resposta padrão pra essa pergunta, só porque ela é tão frequente, mas nunca pensei com profundidade nela, não jogo; se fosse responder de forma literal, diria que foi engano e não teria como apresentar o bilhete vencedor. O padrão é: dar parte do dinheiro pros meus pais (questão de gratidão e consciência) e sumir do mapa, de preferência com outra identidade, com intenções nômades. Aí esbarrei com a notícia de que o Philip Roth doou a biblioteca pessoal dele para a biblioteca pública de Newark. Achei a ação fantástica – deixando de lado as altas probabilidades de algumas páginas de certos livros estarem coladas umas nas outras. Não tenho uma biblioteca de tais proporções (ele doou 4 mil livros), mas, depois de um período nômade, quando eu me sentisse pronto pra parar, onde quer que eu me fincasse, acho que faria uma biblioteca, ao invés de uma casa; viveria num canto dentro dela, mais isolado – um segundo andar -, e a biblioteca seria de acesso público. Sim, ideia utópica, mas vá lá. É isso ou dar uma de poeta chinês (li uma antologia de poesia clássica chinesa esses dias também) e ir viver nas montanhas, escrevendo, bebendo vinho – que teria que aprender a fazer de uvas que eu plantaria -, nada muito realista, nem um nem outro nem minhas chances de ganhar na loteria.

*Mas que porra foi essa tio Rapha?  Nada demais, só um experimento, talvez motivado pela obsessão pelo trivial. Deu vontade de escrever umas observações sobre o que anda acontecendo comigo, sem regras, fragmentos de pequenas coisas. Saiu isso. Me lembra um pouco os primeiros blogues, quando as pessoas só escreviam ao vento sobre qualquer coisa. Pretendo fazer isso mais vezes. Espero que tenham gostado.

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4 comentários sobre “Observações aleatórias* #1

  1. Trivialidades, banalidades, desnecessidades — assim, com esse texto, você tira o significado das palavras! Certa vez escrevi uma crônica falando de modo um tanto quanto raso, mas buscando ser cômico, da importância das trivialidades. Como resposta a esse assunto, eis o texto: https://mangatom.wordpress.com/2015/09/05/deus-revolucoes-napoleao-1808-fisica-quantica-viagem-no-tempo-dinheiro-e-reader-texto-e-voce/

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    1. Gostei da crônica. A ideia é bem essa. Nós não sabemos o valor das coisas no tempo. Pode ser tudo, pode ser nada. Sem Napoleão, talvez tivesse outra pessoa que fizesse o mesmo, talvez alguém melhor aparecesse… Só parece o certo porque é o que aconteceu. Mas é bizarro ficar pensando nessas coisas, nos sopros que moldam o tempo.

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    1. É uma obsessão quase totalmente literária. Mas sempre me dá uma sensação difícil de descrever quando reparo nas pequenas coisas com mais atenção.
      Não achei esse. Tem uns no youtube, mas não o que eles falavam sobre. Mas parei de pesquisar ali. Se achar, te aviso.

      Curtido por 1 pessoa

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