Omissões – parte 2

Antes leia a primeira parte, se não leu ainda:

https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/11/02/omissoes-parte-1/

***

Servido o café, com as frutas e as torradas e a manteiga e os frios, sentamos à mesa e começamos a discutir as amenidades de sempre. Perguntas sobre trabalho, lamentações sobre o tédio, botar os assuntos familiares em dia. O cachorro pulava nos joelhos de cada um de nós, um por um, cheirando nossas pernas em busca de migalhas e cheirando o chão, evitando nossas mãos que tentavam o afagar contra sua vontade ou o afastar. O silêncio naquela casa era mesmo um silêncio diferente. Não fosse a televisão falando por nós sem parar, era crível que ali se alcançasse a ausência total de ruídos. Pensei que, então, mais tarde, poderia ficar na área externa e insistir na prática da meditação, que Luciana queria que eu experimentasse. Dizia que poderia ser bom pra mim, como foi pra ela. Havia tentado algumas vezes em casa, mas a sensação de fazer nada enquanto eu não era capaz de me separar do que acontecia ou que eu achava que acontecia ao meu redor me afligia e matava o propósito de meditar. Ela continuava, dizia que era normal, que é assim no começo e a sensação do mundo externo faz parte da meditação, que a ideia não é se desligar ou fugir, mas ser parte do todo, como se tudo fosse de fato parte de um grande movimento contínuo e conectado. Admirava o conceito e até concordava com grande parte do que a teoria dizia sobre o universo, mas não era capaz de enxergar o propósito. Talvez, no entanto, porque estávamos nos primeiros meses do segundo ano do nosso relacionamento e eu queria a agradar, talvez por no fundo ter vontade de meditar com sucesso, insistia. Mas não faria ali, com meus pais ao redor. Não era algo que tinha comentado com eles. Meus pais costumavam fazer perguntas sobre qualquer hábito que eu adotasse e não fizesse parte da educação que eles me deram. Fazia anos que tinha saído da casa deles, acreditava que esse costume passaria com o tempo, mas nunca passou. E as perguntas ficavam tão invasivas que decidi não falar pra eles das coisas que começava a fazer. Isso foi aos poucos nos separando. Não fazíamos mais parte do mesmo mundo. Assuntos que eu poderia iniciar, por causa de uma omissão de cinco anos atrás, tinham que ser evitados. Acreditava fazer isso pelo bem deles, para que eles não se preocupassem. Meditação não é nada, mas tinha o hábito de beber – coisa que eles nunca fizeram – e, vez ou outra, quando o orçamento permitia, fumar charutos – o que eles abominariam. Coisas banais, que fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas, que para eles seria um escândalo.

Omiti também minhas desventuras literárias. Tinha um romance em constante revisão fazia meia década, poemas publicados em revistas, um punhado de contos engavetados aguardando a chance de ver a luz do dia. Esse hábito eu procurava esconder de quase todo mundo. Mas, se revelasse a eles, seria interrogado por dias. Você não pretende mesmo viver disso, né?, eu previa. Mas por que escrever? O que você tem a dizer? Alguém vai querer ler isso? Eu já fazia essas perguntas para mim mesmo o suficiente. Bastava que Luciana fosse cética sobre minhas intenções de ser escritor. Achava que logo ia passar. Aquela história do para viver uma vida bem vivida é necessário plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Com seu jeito de analista, achava que eu havia inflado a parte do escrever um livro, a transformado em meta de vida, para evitar compromisso com as outras partes da vida comum – carreira, família, árvores.

Esses segredos imbecis faziam que eu me sentisse um adolescente de novo, mas eram necessários. A parte de mim cansada de evitar assuntos e me esconder dizia que era exagero, que eles não se envolveriam, reagiriam com estranhamento como é de se esperar de qualquer um que ouve notícias surpreendentes, mas ficaria por isso mesmo. Essa parte era silenciada quando eu era envolvido em pequenos interrogatórios sobre as partes da minha vida que eu revelava, ainda menos graves que as que escondia. Se eu devia mesmo ficar no meu emprego de tantos anos. Se meu relacionamento com Luciana era tão sério quanto deveria ser – na imaginação deles. E mais perguntas para as quais eu não tinha resposta. Perguntas que, se eu respondesse, eles não dormiriam mais à noite porque constatariam que eu, assim como eles, era infeliz, tinha angústias e dúvidas que os anos que eles dedicaram a me criar não evitaram. Eles eram assim, para o bem ou para o mal. Reclamar disso, achar errado, só fazia que eu me sentisse um ser humano terrível. Por isso escolhia não falar. Era o melhor para todos nós.

Uma lamúria crescente invadiu a cozinha, vinda do corredor que levava aos quartos. Minha mãe se levantou e foi até o quarto da minha vó, sem dizer nada.

— Onde tá a caixa do tal remédio? – perguntei ao meu pai.

— Você vai ler?

— Acho que é melhor.

— Eu vou pegar.

Ele se levantou e abriu o armário suspenso sobre a pia, de onde tirou uma caixa de plástico cheia de remédios. A suposta demência senil não era o único problema da minha vó. Ela sofria de doenças cardíacas, intestinais, pulmonares, além de pressão alta. Vivia quase que artificialmente, a base de remédios que faziam seu maquinário interno funcionar como deveria. Além desses, na caixa havia os remédios para pressão alta e diabetes que meu pai era obrigado a tomar. Daquelas pilhas de caixinhas, ele tirou a que eu pedi e me entregou. Abri a caixa e tirei dela a bula toda dobrada. A lista de contraindicações era imensa. Dentre os efeitos que minha vó poderia sentir ao tomar aquela medicação estavam inclusos alucinação, depressão, tendências suicidas, taquicardia, insônia, perdas súbitas de consciência até coma. Meu pai, vendo meu rosto reagir ao texto:

— Pois é, eu li também. O médico disse que é normal, todos esses remédios antidepressivos causam isso tudo.

— Deve ter gente que toma isso aqui pra recreação.

— Não duvido de nada.

Como trovão, vindo do quarto:

— Ach-aaaaaai!

— Não grita, pelo amor de deus, me ajuda a te levantar. Júlio, me ajuda aqui com ela.

Ele gemeu baixinho ao levantar da cadeira:

— Todo dia é isso – olhando pra mim, sussurrando.

Bebi meu café. Fui até o corredor, num ponto em que minha vó não pudesse me ver. Não sabia qual ia ser a reação dela se me visse. Os três, como uma grande massa única, se arrastaram ao banheiro. Meu pai saiu, depois minha mãe, que fechou a porta. A todo momento, a respiração maquinal da minha vó soava, sempre em ritmo, profunda, perfurante. Mesmo atrás da porta, seguia dentro dos nossos ouvidos. Mesmo quando o barulho para, ainda ouvíamos.

— Já fica por aí, quando ela sair, fala um pouco com ela, vai que ela acalma.

Meu pai voltou à mesa.

— Sai do corredor, vai pra sala. Se ela te ver assim do nada, capaz de levar um susto, achar que é outra pessoa, invasor, sei lá o que tá acontecendo.

Fiz. Esperei na sala, sentado no sofá, olhando para a tela brilhante da televisão sem que ela me dissesse nada. Havia pessoas cozinhando, foi tudo que captei. Usavam ingredientes que pareciam caros demais para o público-alvo do programa, gente com tempo e paciência para ver programa culinário da Globo num sábado de manhã – se é que o programa era culinário, poderia ser só um quadro, pouco tempo antes estavam mostrando notícias da estrada, afinal. A porta abriu. Levar minha vó de volta para cama foi mais fácil. Me aproximei da porta do quarto, ela estava sentada na cama. Olhou na minha direção, mas era como se não tivesse ninguém na frente dela, nem minha mãe, nem paredes no quarto.

— Oi, bom dia.

Continuou, assim parecia, olhando na minha direção.

— É seu neto, mãe.

— Eu sei. Mas ele não tá casado?

Comecei a rir. Era meu jeito de mostrar a ela que tava tudo bem, que o que ela disse fazia sentido.

— Não, ainda não.

— Sim, ele casou. Com a Suelen.

— Mãe, quem é Suelen?

— Não foi?

— Não, não tem nenhuma Suelen – continuei com um sorriso no rosto, falando com humor, como se tudo aquilo fosse uma grande piada.

— A namorada dele é Luciana, mãe.

— Não conheço – conhecia, se viram duas vezes, mas preferimos deixar em paz.

— Tá bom. Descansa um pouco agora, tá bom?

— É só o que eu faço. Não me deixam sair do quarto.

Me despedi e voltei à sala.

— Quer tomar café da manhã, então?

— Claro – o tom dela ficou agressivo de uma palavra pra outra, como se tivesse lembrado de algo que a ofendesse. – Faz três dias que eu não como.

— Como assim? Você comeu ontem à noite.

— Tá, acredito.

— Mas é sempre assim, você nunca levanta de manhã pra comer, eu sempre chamo – minha mãe argumentava como se fosse com a minha vó que ela estivesse falando ainda.

— Você é uma mentirosa.

— Eu sou?

— Cadê o Álvaro?

— Quem é Álvaro?

— Você não me engana, chama o Álvaro agora, quero falar com ele.

— Meu deus, mãe, o Álvaro morreu há trinta anos.

— Morreu nada, falei com ele agora mesmo. Você acha que eu não sei da festa? Vi gente andando pra lá e pra cá com garrafas. Você acha que eu sou louca? Você me prende aqui, mas eu vejo tudo.

— Descansa, mãe. Você tá sonhando.

— Não me engana, vagabunda. Vai pra festa, vai. Me tranca aqui. Eu, uma velha cega.

— Desde quando você é cega?

Ouvindo isso, meu pai foi até o quarto e pediu que minha mãe ignorasse aquilo, que era uma das alucinações do remédio. Só podia ser. Eu tentava comer meu pão, enquanto terminava a segunda xícara de café. Eles voltaram à cozinha, mas, do quarto, ainda era possível ouvir a voz dela ruminando coisas sem sentido.

— Ela tá falando de gente que morreu há décadas. Coisas que só podem vir de algum canto escondido da memória dela, coisa que ela tinha esquecido, e o remédio tá trazendo de volta, tudo de uma vez, só pode. O que esse médico foi me arrumar. Não sei mais o que fazer com ela.

— Parar de dar o remédio, só com auxílio médico. Pode ficar pior – eu disse.

— O médico disse que isso ia ser só os primeiros três meses. Que é o cérebro voltando a funcionar. Se isso é normal, não quero ver o louco.

— Precisa ver de noite – meu pai, cansado só de lembrar.

— Aí que ela fala com a árvore genealógica inteira, mãe, pai, cachorro, vô, vó, gente da idade da pedra. É assustador. E como se tivessem ali, na cama com ela. E me xingando igual quando eu era pequena.

Terminamos o café. Uma hora ou outra, ela dormiu, mas o barulho da respiração, engrenagens cobertas de muco e saliva, batendo uma na outra, nos lembrava que ela estava lá.

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6 comentários sobre “Omissões – parte 2

  1. A princípio (na parte 1) achei o início lento, e acho que se não fosse eu, outro leitor, desistiria da leitura. Mas sua prosa é gostosa de ler, talvez seja porque esteja em primeira pessoa, e fui lendo. Você até disse que é uma mistura de ficção com autobiografia, mas ficção mesmo é ter dito que seja ficção. Li como se fosse verdade graças aos detalhes dados.

    O estado da avó apimentou a narrativa; se ocorreu mesmo, peço desculpas pois certas partes eu ri (se aquilo é pra fazer o cérebro voltar a funcionar, imagine ele funcionando mal), e se for tudo invenção, meus parabéns.

    O que vejo ausente nos seus textos é uma voz em terceira pessoa, e uma narrativa, digamos, um pouco mais dinâmica. Alguns detalhes são interessantes mas podem beirar a desnecessidade. É uma vazão de divagar que dá a voz em primeira pessoa; não abusou, mas é bom precaver-se. (Falo isso porque também gosto de escrever em primeira pessoa e ler textos assim, mas faço a comparação com os meus, que devido à facilidade de divagar e filosofar na voz, acabo enrolando a história. Gostaria de ver narrativas sua na terceira pessoa)

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    1. Ótimo comentário. Na verdade, isso dá início a uma discussão complexa que começa com a pergunta: eu me importo com o tal outro leitor? Em parte eu deveria, mas aí não seria minha prosa, eu estaria moldando meu estilo com o objetivo de agradar mais leitores. Não é errado, mas não sei se quero fazer. Não por enquanto, não com esse tipo de história.

      Adotei um estilo bem expansivo nesse conto e em outros que escrevi recentemente justo pra dar esse tom de pedaço da realidade, o narrador como câmera do que o cerca. Pretensiosíssimo quando dito dessa maneira, mas é nisso que estava pensando enquanto escrevia. Ou seja, é de propósito. Se passo um bom tempo ruminando sobre o trivial é porque boa parte da vida é trivial. O objetivo é fazer do trivial legível, isso não saberia dizer se consegui – espero que sim. Mas não tenho intenção de tornar o texto mais rápido, dinâmico, tragável. Também adianto que certas coisas que parecem soltas nessas partes do conto, podem fazer sentido até o final. Não queria ter que separar, não é uma história divisível, mas ninguém lê uma postagem de 15 páginas – tenho que ter esse tanto de bom senso. Espero que você continue lendo as outras partes.

      Sobre ficção e realidade, vou chutar que 70% é fictício nesse conto. Mas prefiro não entrar em detalhes sobre o que é o que. Acho mais interessante assim. E, na verdade, não importa. É o velho paradoxo do Magritte. Mesmo que eu fosse capaz de capturar tudo que realmente aconteceu naqueles dias e transcrever a situação com 100% de fidelidade, ainda seria só representação. Não é um cachimbo. (Acho que cheguei no ápice da pretensão nesse comentário. Desculpa, não foi intencional.)

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      1. O escritor importar-se ou não com o leitor já é uma questão pessoal válida para ambas as partes. Eu, particularmente, te aconselho e recomendo não pensar no leitor enquanto outro, mas como a ti mesmo. Acho que (e este comentário está cheio de achismos, prepare-se), o autor, artista, ou qualquer outro expressor da linguagem artística está à mercê de seus gostos, não à toa indica-se que o escritor em geral deve ler bastante para saber onde quer chegar com seu texto de modo que os de demais autores não chegam. Se você segue essa linha de pensamento, talvez temos gostos literários quase iguais. (Mas se é um jeito contrário de se pensar, estimo o autodesafio).

        Eu não achei a narrativa dinâmica no conteúdo, quero dizer, quanto ao roteiro isoladamente. Mas, enfim, foi só na primeira parte, ainda mais se considerar lá a preparação do conflito, aqui o desenvolvimento em si, só falta ver como tudo vai acabar, e de que modo, focando no que… falando assim eu tenho que ressaltar que gosto de narrativas literárias que bebem das convenções de roteiro, afinal, é tudo história mas uma está se saindo melhor do que a outra atualmente; por quê? Literatura e cinema podem contar a mesma história, mas uma acaba sendo mais direta que a outra, e eficientemente mais dramática. Dá-se aulas de roteiro, e, numa oficina de literatura, você não verá observações tão distantes das que faço do seu texto quanto à diegese.

        Sim, sendo fictício ou não, não tira o seu mérito, pois é uma narrativa que funciona no fim das contas. E no final é isso que importa, usar todos os recursos disponíveis pra amplificar o impacto dramático do texto no leitor. (Mesmo esta não sendo sua intenção, aconteceu, um acerto que, que nem os erros, cometemos até sem querer)

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