Omissões – parte 1

Foi como nada que eu já tivesse visto, a última vez em que vi minha avó. Estava visitando meus pais, como costumava fazer mesmo que fosse de dois em dois meses. Por telefone, um dia antes de eu pegar a estrada até a casa deles, minha mãe me havia falado sobre o tal remédio que o médico receitou.

Ele disse que, se eu lesse a bula, não daria pra ela.

O que ele quis dizer?

Não sei, mas obedeci. Se você quiser ler quando chegar, vá em frente.

Mas o que ele faz?

Ele disse que é pra demência senil, eu sei lá o que faz exatamente. É bem caro, e ele disse que funcionou com a avó dele, que ela tava do mesmo jeito e aí tomou o remédio e uns meses depois ficou como nova. Ele alertou a gente dos efeitos colaterais, que ela ia ficar agitada, agressiva, enquanto acostumava com a medicação, coisa de no mínimo trinta dias, ele disse.

Tudo parecia normal na casa, logo que cheguei. A cidade em que eles viviam já era tão pequena, mesmo seus centros comerciais quase não tinham um pulso verificável, mas a rua em que a casa deles ficava era reclusa, ficava de frente para um matagal – não exatamente um exemplo de beleza natural, com árvores e flores e gramados, mas algo de aparência bandonada e morta, cheia de pedaços de terra e uma grande queda poucos passos além das primeiras árvores, queda essa que levava a mais mato e árvores, sem simetria ou ordem, um exemplo perfeito de como a natureza, quando deixada em paz, é caótica e não se esforça para se moldar em paisagens aprazíveis de calendário – e a casa logo ao lado havia sido abandonada um ano atrás. Havia alguns vizinhos espalhados pela rua, mas estes não tinham desejo algum por comunicação. O único sinal de vida que aquela rua costumava emanar eram os animais abandonados que se agrupavam por lá e corriam algazarreando, subindo e descendo a ladeira de terra que levava até as casas, por ondem os carros eram obrigados a passar sempre que queriam entrar ou sair da rua. Meu pai dizia ter visto um tucano por lá uma vez, mas ninguém que o ouvia acreditava. Já minha mãe, com todo seu tempo livre, dava de comer aos cães e gatos da vizinhança. Era um agradecimento, ela dizia, pelo favor que eles faziam com seus ruídos constantes – um sinal de que o mundo não havia acabado, que vida ainda habitava a Terra, embora distante dali –, se eles fossem embora seria insuportável. Então ela passava duas horas por dia, no mínimo, quando fazia bom tempo, dando comida e falando com os cães e gatos, que a enchiam de atenção e pediam por mais, até que ela tivesse que entrar em casa de novo, quando os bichos chorariam na porta um pouco, mas logo voltariam aos seus assuntos particulares. Meu pai abriu a porta e me cumprimentou, enquanto o cachorro da família, um maltês de quinze anos chamado Laércio, se aproximava no máximo de empolgação que sua idade avançada permitia. Fiquei de joelhos para que ele comemorasse minha chegada sem ter que pular muito e questionava o que diziam da falta de memória dos caninos. Minhas visitas eram tão raras e curtas, mas nunca sentia como se ele tivesse me esquecido. Se esquecia, era rápido para relembrar ou tomava familiaridade com estranhos muito fácil. Do interior escuro da casa vi minha mãe se aproximando da porta.

Sai do chão, criatura.

Oi. Há quanto tempo. Como vai? – me levantando.

O cachorro começou a circular nós três até se distrair pela área externa da casa, cheirando as rodas do carro e as paredes e as cadeiras de jardim. O bicho nasceu estrábico e, recentemente, foi diagnosticado com catarata. Não sabíamos se ainda enxergava alguma coisa. Minha mãe me deu um abraço, perguntou da viagem, se havia corrido tudo bem.

O que a Luciana achou de você passar o natal aqui?

Foi o combinado, né?, natal aqui, ano novo com ela.

Mas não achou ruim?

Se achou, não disse nada.

Meu pai disse que ia preparar o café da manhã e entrou na casa. Assistimos o perambular do cachorro por mais um tempo. Entramos logo depois e, ouvindo a porta abrir, ele correu atrás de nós para não ficar sozinho. As luzes da casa estavam apagadas e, ao fechar a porta, tudo ficou escuro. Meu pai abriu as persianas. A televisão estava sempre ligada quando havia alguém acordado na casa. Fui até a sala e deixei minha mochila no sofá. A visita seria só pelo fim de semana. No dia anterior, vinte e quatro, havia trabalhado o dia todo, só pude ir até lá na manhã de sábado, preocupado que sexta à noite o trânsito estivesse impossível. Um telejornal filmava as estradas que levavam ao litoral de diferentes estados, os quilômetros de engarrafamento, e entrevistavam os turistas parados mas felizes, com os carros atolados de gente e bagagem, o sol brilhando sobre eles como que se para fritar a todos de uma vez. Era possível sentir o calor através da tela, ouvir o estalar dos corpos-ovos-fritos. Deixei a mochila em que estavam minhas roupas e dois livros sobre uma poltrona. Minha mãe entrou na sala.

— Ia dizer pra você dar um oi pra sua vó, mas não faz uma hora que ela pegou no sono.

Tão ruim assim?

— Trocar o dia pela noite ela já fazia, ruim ela fica quando acorda.

O cheiro de café tomou o cômodo junto dos ruídos da cafeteira que cuspia suas últimas gotas de água. Meu pai deixou o pote de comida do Laércio, cheio até o topo de mamão cortado em cubos, no chão, e o cachorro veio correndo até ele. Inalou a fruta em um minuto e se atirou latindo na perna do meu pai, pedindo por mais. Esse era o ritual das manhãs para o cachorro. Ele nunca recebia mais. No lugar, vinha um pote agora cheio de ração, que ele cheirava e rejeitava. Quinze anos comendo a mesma ração e odiando cada mordida. Uma bela imagem do egoísmo humano, antes de mais nada. Nós, da espécie que escolhe todo tipo de veneno e intoxicação em troca de prazer, mesmo que encurte nossa vida, fazemos que um animal de outra espécie viva uma vida com menos prazeres em troca de um par de anos e pelos mais brilhantes, sem que o animal tenha direito, sequer capacidade, de escolha ou compreensão do conceito de saúde e longevidade e bem-estar. E fazemos isso pelo desejo de ter o animal conosco por mais tempo, de novo, sem consultar sua opinião inconstruível e, caso contrário, de qualquer maneira, indecifrável.

***

Obs.: não queria postar esse conto aqui, mas ele foi escrito com base na morte da minha vó, no começo desse ano, e, como é dia de finados, achei que seria bom prestar a homenagem fazendo dele público.

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6 comentários sobre “Omissões – parte 1

  1. Não tendo eu condições de avaliar as questões emocionais envolvendo a passagem da sua avó – inclusive, sinto muito por isso -, só posso dizer que acho que você fez bem em ter compartilhado o conto aqui. Até a observação, eu não sabia se era real ou não e, ainda assim, me prendeu bastante. Gosto muito dessa sua escrita. É bastante agradável. Uma bela homenagem.

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