Observações aleatórias #2

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Anatídeo ou lagomorfo?

1 – Almoçando quase todos os dias com uma colega de trabalho paraguaia, pude notar o potencial de isolamento da linguagem. Como estar num local estrangeiro pode afetar profundamente até nossa personalidade. Como ela costumava ser extrovertida, daquelas que não levavam desaforo pra casa, quase barraqueira, dependendo do ponto de vista, e, hoje, fica quieta a maior parte do tempo, ouvindo, prefere não falar porque dá muito trabalho colher palavras que signifiquem o que ela acha que significam. É um novo filtro na nossa cabeça. Se comunicação já é a raiz da maior parte dos nossos problemas, adicionar barreira de linguagem tira nosso ritmo, nossa capacidade de compreensão, limita nosso vocabulário, independente do quão fluente sejamos, e nunca somos tanto quanto acreditamos ser. Sem falar da forma das frases, do peso das palavras, nunca temos noção perfeita disso em um idioma estrangeiro. Essa pode ser a solidão mais profunda, a da linguagem. Mesmo quando estamos sozinhos, em nosso país natal, cercados pela nossa própria língua, sabemos que num lugar qualquer alguém estará falando, mesmo que não conosco, e só por isso já é possível nos sentirmos menos sós, parte de algo, dum costume, cultura, local, qualquer seja o nome dessa sensação de fazer parte. Ao mesmo tempo, é mais difícil, me parece, se envolver em uma conexão mais profunda quando a solidão que se sente não é tão intensa. Enquanto, num local estrangeiro, adentro a extraordinária solidão estrangeira, um oi, um bom dia, um bate-papo alongado com uma pessoa pra quem se pede informação, vira história, tem significado, pequeno ato que seja, é uma conexão das mais profundas, uma mão que te puxa do abismo por uns segundos pra te banhar na luz. Coisa que, se acontece em casa, passa, é esquecida. E talvez aí esteja a graça de viajar, afinal de contas, sair de casa, do bairro, pra ir parar em qualquer outro canto do mundo, pra que se possa sentir solidão tamanha que qualquer contato humano faz sentido, renovar o sentido do contato humano em geral, de certa maneira, e de todas as outras pequenas coisas. Não se nota a arte de rua na parede do seu prédio, mas aquela que enfeita as ruas de outro país enchem os olhos – são a mesma coisa. Ver a coisa – mancha na parede pela qual se passa em frente todos os dias -, ver a coisa como – mancha na parede nunca antes vista, que se nota pela primeira vez, a que se atribui forma e significado, vira arte. Linguagem, é a isso que, no fim, tudo se resume.

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Tem um número excessivo de fotos do Faulkner fumando um cachimbo nesse blogue, mas não dá pra evitar, ele era um sábio. (E acho que é um Dunhill que, na foto, ele havia acabado de acender. Talvez com a mistura favorita dele – supostamente -, My Mixture 965. Eita cidadão de bom gosto.)

2 – A tal da real, que as pessoas dadas aos textões, com tanta insistência, dizem mandar por essa internet de meu satã, tem costume de ser bastante falsa. A impressão que dá é que as tais pessoas são todas míopes e se recusam a por os óculos. Enfim, isso é só pra dizer que odeio a expressão “mandar a real”, acho que 9 a cada 10 vezes ela é usada pra botar a máscara da liberdade de expressão no discurso intolerante, mas vá lá, se o que Faulkner disse nessa entrevista pra Paris Review não é a real, não sei o que é. “Mas tio Rapha, o que o tio Faulk disse aí nada tem a ver com intolerância e justiça social, sua introdução não faz sentido”. Eu sei. Pra tu ver como ficam as coisas, quando se decide escrever de olhos fechados, se esforçando pra só olhar pra trás um mínimo de vezes. Mas posso contar nos dedos as vezes em que  me meti a falar de política, sociedade e questões sérias, achei que seria bom esclarecer pelo menos o que acho dessa expressão cretina (mandar a “real”), mas vivo dando pitaco sobre literatura. E Billy F aqui manda a real sobre literatura, fazer o que?

(Contexto: entrevistador começa comentando a timidez de Faulkner e as razões pelas quais ele não gosta de entrevistas que perguntam de sua vida pessoal. Então ele pergunta se Faulkner aceita responder perguntas sobre a pessoa enquanto autor.)

FAULKNER: Se eu não tivesse existido, outra pessoa teria escrito a mim, Hemingway, Dostoiévski, todos nós. Prova disso é que existem em torno de três candidatos para a autoria das peças de Shakespeare. Mas o que é importante é Hamlet e Sonho de uma Noite de Verão, não quem as escreveu, mas que alguém o fez. O artista é de nenhuma importância. Só o que ele cria é importante, já que não há nada novo a se dizer. Shakespeare, Balzac, Homero escreveram sobre as mesmas coisas, e, se eles tivessem vivido mais mil ou dois mil anos, os editores não teriam precisado de mais ninguém desde então.

ENTREVISTADOR: Mas mesmo que pareça que não há nada mais a ser dito, não seria, talvez, a individualidade do escritor importante?

FAULKNER: Muito importante para ele mesmo. Todos os outros deveriam estar ocupados demais com trabalho para se importarem com individualidade.

ENTREVISTADOR: E seus contemporâneos?

FAULKNER: Todos nós falhamos em alcançar nossos sonhos de perfeição. Então eu nos avalio com base no nosso esplêndido fracasso em fazer o impossível. Na minha opinião, se eu pudesse escrever toda minha obra de novo, estou convencido de que eu a faria melhor, o que é a condição mais saudável para um artista. É por isso que ele segue trabalhando, tentando de novo; ele acredita cada vez que dessa vez ele conseguirá, a alcançará. Claro que ele não vai, e é por isso que essa condição é saudável. Uma vez que ele conseguisse, equiparasse sua obra à imagem, ao sonho, nada restaria além de cortar a própria garganta, ou saltar do pico da perfeição ao suicídio. Eu sou um poeta fracassado. Talvez todo romancista queira primeiro escrever poesia, descubra que não pode, e, então, tenta o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E, falhando nisso, só então ele começa a escrever romances.

ENTREVISTADOR: É possível que exista alguma fórmula a se seguir para se tornar um bom romancista?

FAULKNER: Noventa e nove porcento talento … noventa e nove porcento disciplina … noventa e nove porcento trabalho. Ele não deve nunca estar satisfeito com o que faz. Nunca é tão bom quanto pode ser. Sempre sonhe e mire mais alto que sua capacidade. Não se importe só de ser melhor que seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor que você mesmo. Um artista é uma criatura movida por demônios. Ele não sabe por que eles o escolhem e ele normalmente está muito ocupado pra imaginar por que. Ele é completamente amoral sendo que ele vai roubar, pegar emprestado, implorar ou furtar tudo e todos para fazer o que tem que fazer.

Você pode ler o resto dessa entrevista totalmente excelente, e, de bônus, julgar minha tradução clicando aqui. Sobre o que foi dito, em si, nada  tenho a acrescentar. Se verdade é uma palavra muito forte, e acredito que seja, posso, então, só dizer que concordo.

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3 – Aqui a falta de formato começa a me incomodar. Parece que falta conclusão na postagem. Parece que não escrevi o suficiente. Que tem mais Faulkner aqui que eu. E tenho ideias, dá pra escrever pra sempre nessas observações, mas são tão incompletas, vagas, quase esboços de ideias. Estava pensando em escrever coisa ou outra sobre aquelas sensações de que não sabemos o nome. Vi algo sobre isso em algum lugar. Não é aquele tumblr de palavras inventadas, naquilo não vejo graça, acho muito motivacional, muito esforço pra fazer de algo já bem incrível (a experiência humana básica) algo ainda mais extraordinário, quase maquiagem pra vida. Pra isso digo foda-se. É que um tempo atrás, bastante tempo, li um texto ou um artigo ou um tuíte de não sei quem dando nome – com base científica, era um fenômeno cerebral de verdade, sem romantismos e poetaria de butique – aos breves arrepios que sentimos vendo ou ouvindo ou sentindo determinadas coisas, exemplos: gente cozinhando, vozes sussurradas, movimentos acidentais de aparência coordenada. Enfim, acho que queria descobrir se existe nome para o fenômeno da excitação estética. Saca quando lemos uma descrição da movimentação em uma rua por Flaubert, ou nos botamos próximos dos quadros maiores e mais opressivos do Jackson Pollock, ou determinada sinfonia chega ao seu ápice de intensidade, o que lhe agrade mais, aqui não importa tanto. Pois é, não sei o nome disso. Não é natural, acho. Isso é questionável e não tenho a base psicológica/biológica pra saber ou discorrer sobre isso com qualquer segurança, mas isto não é ensaio, é só o mais próximo que quem me lê pode chegar de ler meus pensamentos – não é sobre isso que penso no dia a dia, mas penso nisso agora, enquanto digito. Arte me parece mais fruto do tédio que da natureza, coisa que ser humano só decidiu fazer quando não tinha mais predadores que não ele mesmo. Ideias sem causa e sem consequência – a tal da muito romanceada inspiração – só afeta aqueles que não tem que se preocupar em virar comida durante o sono. Como a tal da sensação que tentava descrever é efeito da arte, que não é natural, a sensação tampouco o deve ser. Enquanto isso, vendo Juventude (filme do Paolo Sorrentino, 2015), noto que o filme é puro essa sensação. A Grande Beleza já era também, não só era como parecia tratar dela – a grande beleza, esse conceito esquivo, é causa da tal sensação, uma das pelo menos. Sr. Sorrentino sabe a que eu me refiro. O que ela provoca, a sensação, fisicamente falando, não sei. Talvez o mesmo que o tal arrepio que descrevi ainda antes causa, talvez sejam uma coisa só.

Andei fumando uns tabacos aí… #1

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‘ello underlings-achem-I mean, students.

Seguindo a mesma linha das postagens sobre filmes e livros (com ideia de começar a fazer isso pra música também), vou falar um pouco sobre os tabacos para cachimbo que ando provando esses dias. Porque, sim, alguns de vocês podem não saber e outros podem achar estranho, mas é verdade que fumo cachimbo há quase 2 anos. Falo pouco sobre por ser um tema de baixa popularidade. Abri exceção porque eu quis, é a vida, o blog é meu e se eu quiser falar sobre tabaco eu falo.

Obs.: as escalas e notas abaixo vão de 1 a 5. Só a “nota” tem valor qualitativo. Os outros pontos são mais de intensidade que qualidade por assim dizer. Um tabaco pode ter sabor 2 e ser bom, só significa que é bem sutil.

CORNELL & DIEHL – EXHAUSTED ROOSTER

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Produtores de tabaco dos EUA, C&D, não são exatamente artesanais – eles distribuem folhas de tabaco pra várias marcas americanas, além da deles, produzirem suas próprias misturas -, mas eles não são grandes indústrias de produção em massa, como a Scandinavian Tobacco Group ou MacBaren. Exhausted Rooster é uma mistura de virginias, dark fired burley (ou kentucky, é a mesma coisa) e perique. Primeiro tabaco da C&D que provo, fui negativamente surpreendido pelo aroma da lata. Pra quem não sabe, o sabor do kentucky costuma ser mais enfumaçado, forte, quase um molho de churrasco, e isso transfere pro aroma da folha antes da queima também. Aqui não. Na lata, o cheiro que dominava era de bala, um frutado bem doce e artificial que me repeliu – mais tarde, descobri que vinha do virginia. No cachimbo, apesar dos pesares, o sabor adocicado some rápido e o gosto natural dos tabacos toma conta. O perique é bem suave, não tão apimentado quanto se espera, e o virginia quebra bem a força da mistura kentucky+perique, que pode ser bem forte, dependendo de quem produz o tabaco. A mistura vem em flakes, que são faixas prensadas de tabaco, bem fáceis de desmanchar. A queima é irregular, mas isso é culpa minha por não deixar o tabaco secar o suficiente, mesmo assim a fumaça não esquenta. Em geral, parece precisar de mais tempo descansando pra arredondar por completo. Não está mal, mas podia ser melhor. O kentucky ajuda muito, e a lata, já aberta faz algumas semanas, mostra sinais bons de amadurecimento – isso porque minha lata já tem um ano. Vou continuar fumando bem aos poucos, certo de que só vai ficar melhor com o tempo. Aos que têm uma lata de Exhausted Rooster em casa (como se algum leitor fumasse cachimbo,  mas vai que algum confrade me acha via google), indico paciência, vale esperar. Se vou comprar outro… não sei, me entendi melhor com outras misturas desse tipo, que não precisam de todo o período de amadurecimento pra ficarem boas.

Sabor: 3 (aromatizante doce frutado detectado) / Força: 4 / Nicotina: 3,5 / Nota: 4 (começou como 3,5, mas melhorou)

BRIARWORKS INTERNATIONAL – BACK DOWN SOUTH

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E foi assim que eu descobri que a C&D talvez às vezes enlate folhas não tão maduras. Assim como Exhausted Rooster, Back Down South, ao abrir a lata, exalou um cheiro forte de bala de framboesa de 1,99. Mas Back Down South tem o agravante de ser só Virginia e Perique, sem aquele amargor defumado do Kentucky. E o que Briarworks tem a ver com C&D: eles usam as mesmas folhas de tabaco, o pessoal da Briarworks só mistura e enlata. Só posso elogiar a embalagem do pessoal da Briarworks, com o pote à vácuo, muito bom acabamento e perfeito pra conservação a longo prazo, mas o tabaco em si foi uma decepção. Pela descrição do produto, imaginava algo um pouco mais apimentado, terroso, com aquele toque de grama dos Virginias mais claros. Não foi isso que recebi. Recebi um gosto bem doce – enjoativo -, artificial, que só foi aliviar depois de 6 meses envelhecendo, mas ainda está presente. Não é horrível, já fumei coisas piores, mas não pretendo repetir a experiência, depois que terminar essa “lata”. Lembrando que essas impressões são bastante pessoais, é possível que a doçura desse tabaco agrade alguém.

Sabor: 3 (aromatizante doce frutado detectado) / Força: 3 / Nicotina: 3,5 / Nota: 3 (começou como 2,5, mas melhorou)

MCCLELLAND – SAMOVAR

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Há quem chame mistura inglesa, há quem chame mistura balcânica, estou quase certo de que, se existe paraíso, deve de ter tabaco assim por lá. Tabacos orientais, mais Virginia, mais Latakia Síria, que anda escassa por razões óbvias. Entendo porque os velhos cachimbeiros falam tanto dos bons tempos que não voltam mais, se antigamente a Latakia Síria estava em todos os cachimbos – bons tempos mesmo. As latas da McClelland têm um detalhe: cheiro de ketchup. Dizem que é porque eles tratam com vinagre as folhas de tabaco, pra diminuir a alcalinidade e ajudar na conservação. Pode ser, o bom é que não transfere pro gosto, por algum motivo. O sabor em si é caso à parte.  Bem difícil de explicar. Mesmo. Posso até dizer que é impossível porque não existem equivalentes precisos. Tem o tom defumado da latakia, mas muito de leve. Tem o toque agridoce, temperado que a combinação de Virginias com Orientais costuma formar. Tem algo de herbáceo, de fato como um chá – daí o nome, Samovar, tirado daqueles utensílios russos usados pra esquentar água de chá, normalmente com carvão ou madeira. É também amadeirado, não tão defumado quanto a latakia costuma ser. Dizem que lembra chá Oolong, mas eu nunca provei disso pra comparar. Talvez meu paladar não tenha referências o suficiente pra por em palavras a complexidade dessa mistura, mas vou insistir que é porque é único o suficiente pra tornar fúteis quaisquer adjetivos ou comparações.

Sabor: 4 / Força: 2,5 / Nicotina: 2 / Nota: 5

Como sempre, por morar sozinho e nunca fumar na presença de outros, não tenho meios de julgar o cheiro que a fumaça deixa no ambiente. Eu gosto.

Para melhor compreensão dos termos utilizados e nomes das folhas, visite a seção tabacaria do blogue.

Omissões – parte 5 – final

Pros atrasados: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4. Leiam.

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Não sabia se tinha dormido ou não em algum momento da madrugada. Tinha a impressão que sim, pela velocidade com que o tempo passou até o sol nascer, mas sentia como se tivesse assistido cada minuto acelerado passar. A luz do sol iluminou a sala. Tirei um livro da minha mochila e esperei que eles acordassem, ora lendo ora olhando palavras. Ainda pensava na minha vó dormindo em seu quarto, mas sem curiosidade, sem desejo de abrir a porta e fazer que ela acordasse.

— Bom dia – meu pai disse, entrando na sala. – Vou fazer café.

— Bom dia.

Levantei do sofá.

— Vou tomar um banho.

Quando voltei à sala, minha mãe tinha acordado. Laércio tinha acordado também e veio, saltitante, rabo abanando, em minha direção. Afaguei sua cabeça por um tempo.

— Onde é o cemitério?

— Pra que você quer ir no cemitério agora? – disse minha mãe.

— Só uma coisa que eu acho que preciso fazer.

— Mas pra quê?

— Só um minuto – meu pai, certo de que a discussão ia se prolongar mais do que deveria, pegou um papel e uma caneta na mesa da sala e escreveu o endereço pra eu botar no GPS do celular.

Agradeci e saí. Entrei no carro, liguei o GPS e segui as direções que ele me ditava. Nunca tinha visitado o cemitério da cidade antes. Aquela não era a cidade em que minha família nasceu, não tínhamos ninguém enterrado ali. Na verdade, até o cemitério da minha cidade natal visitei apenas duas vezes, a última vez há vinte e cinco anos. Foi para visitar meu vô, junto dos meus pais e minha vó, viva e ativa na época. Contrariado por ter que ir junto da maneira que apenas uma criança pode ficar, não compreendia o valor daquilo. Túmulos em sequência, aquela atmosfera assustadora típica da interpretação que normalmente é dada aos cemitérios em filmes e desenhos, a memória que tenho desses dias é de medo, incompreensão e tédio, o tédio mortal que se sente na infância quando se é forçado a sentar quieto e fazer nada. Não havia nada lá para mim. A visita ao túmulo do meu avô não diminuía minhas saudades dele, nem me fazia compreender o que era a morte. Apenas essa diferença de sensações já era o suficiente para me fazer notar, logo na primeira vez que meu pé tocou o solo do cemitério, a passagem do tempo, a experiência dos anos. Fazia que eu me sentisse velho, mesmo não sendo, e perceber o quão mais próximo estava da morte – mesmo que isso não fosse verdade, não era imune a morte, independente da minha idade, e estava vivo por acaso, como todos que sobrevivem ano após ano o estão, por acaso, não por proteção místico temporal – somente pela minha melhor compreensão, ou deveria dizer aceitação, de seu conceito e inevitabilidade. Não via aqueles túmulos como algo distante, mas como destino. O que me deixava apreensivo, mas, ao mesmo tempo, inexplicavelmente, reconfortado.

Segui a trilha. Observei alguns dos túmulos. Procurava minha vó, mas esqueci de perguntar onde ela havia sido enterrada. Não tinha ninguém ali, só árvores e flores, poucos pássaros, borboletas, pedra. O cheiro de grama e terra impregnava minhas narinas. Esse cheiro permanecia desde minhas visitas na infância, dele eu me lembrava bem. Algumas campas estavam adornadas por flores, tinham como emblema uma foto do enterrado. Aquele parecia ser o único local de igualdade, mesmo que isso também não fosse de todo verdade – morrer é tão caro, vem com tantas taxas. Mas havia gente de todas as idades ali. Sim, era destino, sem exclusividades.

Achei minha avó. Foram alguns minutos de caminhada até lá, cheios de idas e vindas, erros, retornos, mas não me esbarrei com ninguém vivo. Fiquei de pé em frente à campa. Só o nome dela, completo, estava gravado numa placa, sua data de nascimento seguida pela data de falecimento logo ao lado. Sem foto, sem flores. Recente e limpo. Família e amigos, além dos meus pais, só foram informados depois do enterro. Não teriam tempo de chegar na cidade, todos moravam muito longe. Sem falar que a maior parte das pessoas que ela conhecia já estavam mortas, enterradas em outros cemitérios, em outras cidades. Não tinha flores nem nada para ofertar. Nada a dizer, pois quem ouviria? Comecei a questionar minha ida. Fiquei lá, parado, olhando a placa com seu nome, o vazio do ambiente. Sentei no chão, sem me importar com sujeira, e respirei fundo um instante. Me deixei levar pelo nada ao redor, pelo silêncio por vezes quebrado pelo vento que levava folhas secas e as arrastava pelo chão, pelo piar dos pássaros e o bater de suas asas. Fixei na placa como na chama de uma vela até minhas vistas embaçarem. Queria conter o monólogo interno na minha mente, esta era a parte mais difícil. Quando não falava algo referente ao momento ou local, formava frases pra uma possível poesia que o momento pudesse inspirar ou um conto, ou voltava ao romance largado pela metade e tentava dar continuidade a ele mentalmente. Então, silenciadas todas essas digressões, falava sobre silenciar o monólogo, sobre não pensar, sobre ficar em silêncio, sobre deixar a respiração fluir sem me concentrar nela. Repetia as instruções pra mim mesmo, por consequência, as ignorando. Até que consegui? Um tempo depois, e não sabia quanto tempo havia passado, senti o celular vibrando no bolso da minha calça. Era Luciana. Queria saber se tinha chegado bem, se tinha conseguido ou estava tentando fazer o que tinha vindo fazer. Respondi que sim, que estava bem, no cemitério, mas já me preparando pra voltar. Disse que estava voltando pra casa. Pra cá ou pros seus pais? Pra aí. Até logo, então, ela disse. E desligamos trocando despedidas. Me abaixei de frente pra campa e toquei com a palma da mão na pedra.

— Tchau.

E me levantei de novo. Caminhando em direção à saída, liguei pros meus pais. Perguntaram onde eu estava, e respondi. Perguntaram se eu estava bem, e respondi.

— Já estou indo pra casa.

— Não vai mais vir pra cá?

— Não. Acho que preciso ir embora.

— Tá bom. Quando você volta?

— Acho que em algumas semanas.

— Tá bem. Até lá, então. Liga quando chegar.

— Ok.

— Boa viagem.

— Tchau.

— Tchau.

Desliguei o celular. Sem mais nada a fazer, entrei no carro, dei partida e voltei pra casa tentando não pensar na minha morte. Embora acreditasse que seria um suicídio. Não tão cedo, mas entre os cinquenta e sessenta anos, mais tardar chegando aos setenta, mas nunca completando a década. Método indefinido. Tirando a lição da minha avó, que resistência mental nem sempre vale a pena, quando o corpo te impede de existir.

Omissões – parte 4

Pros atrasados: Parte 1, Parte 2, Parte 3. Leiam.

Tive que insistir pra que Luciana não viesse comigo visitar meus pais na semana seguinte à morte de minha avó. Parecia algo tão pessoal e tão deprimente, não queria que ela fosse influenciada. Agradeci e pedi que ficasse. Depois de um tempo, ela entendeu. Fui recebido normalmente pelos meus pais, quase como se nada tivesse acontecido, mas a casa estava mais quieta. A atmosfera era outra. Como se a ausência de uma determinada pessoa pudesse afetar o ar, as moléculas que formam aquele pedaço ínfimo do planeta. Entrei na casa e passei pelo corredor. Não sei por quê. Durante toda aquela semana, tive que lembrar a mim mesmo que minha vó estava morta. A distância, o fato de não ter visto a morte, fez com que fosse difícil reconhecer a realidade. O maior efeito da morte de um ente querido, da família ou não, é a falta dele. Naquele caso, enquanto viva, ela não estava perto, eu não a via. Agora morta, longe da casa em que ela habitava, nada havia mudado para mim. Fui atraído pelo corredor. Foi automático. Não me percebi caminhando até lá, nem minha mãe, que me seguia se perguntando, provavelmente, o que eu achava que fazia.

— O que você tá fazendo?

Acordei:

— Não sei. Acho que é força do hábito.

Falei pra ela do quanto a morte da minha vó ainda não parecia real.

— Sim, entendo.

Olhei na direção da porta aberta do quarto. Vi um volume sob os lençóis da cama. Seu rosto saindo de debaixo dos lençóis como a cabeça de uma tartaruga. Lá estava ela como sempre. Meus pais não teriam coragem de fazer uma piada de mal gosto como essa.

— Mas como assim?, ela tá lá – apontando.

— Quem?

— Minha vó, olha.

— Não tem nada aqui, só a cama. Ainda não sabemos o que fazer com ela, acho que vamos dar pra alguém que precise. Deixar no sol por um tempo antes, claro, e procurar uma instituição ou coisa assim que dê pra quem não tenha.

Eu ainda não acreditava. E não era uma visão sobrenatural. Não, era física, concreta. Via seu corpo como ele sempre costumava estar. Na mesma pose, incluindo os movimentos da sua respiração que mexiam os lençóis. Deveria insistir? Minha mãe não brincaria com isso. Se insistisse, acharia que estou louco, passando por alguma espécie de alucinação pós-traumática. Mas não senti nenhum choque ao receber a notícia de sua morte. Fazia anos que estava preparado pra ela. Era da morte de uma senhora de mais de noventa anos e nada saudável, a ordem natural das coisas. Só podia ser um engano. Ou estava vendo coisas. Fiz menção de entrar no quarto, minha mãe pôs a mão no meu ombro.

— Não tem ninguém ali.

Acendeu a luz do quarto, pra me assegurar que era só impressão, mas não mudou nada. Pelo contrário, a imagem de minha vó deitada estava clara. Então ela se mexeu, como costumava fazer. Com muito esmero, virou o corpo e ficou deitada de barriga pra cima. A respiração mais forte, por causa do esforço. Sua mão saiu de debaixo das cobertas e foi até debaixo do travesseiro, procurar um pedaço de papel que ela costumava deixar lá pra assoar o nariz. Tudo igual, como sempre, lá estava ela.

— Vai tomar um café, você tá cansado.

Achei melhor esquecer. Uma hora ou outra tudo se ajeitaria, faria sentido. Talvez eu acordasse, mas aquilo não era um sonho, disso eu tinha certeza – de maneira alguma podia ser sonho. Assim que me afastei da porta, minha mãe a fechou.

O resto do dia seguiu sem transtornos, como uma visita qualquer. Não falei nada sobre o que tinha visto, ou assim achava, no quarto. Meus pais não falaram nada sobre minha vó, nada mais do que me foi dito antes pelo telefone. Talvez por ser tão recente. Falaram qualquer coisa sobre planos pro futuro, o que fazer dali em diante. A vida deles girava em torno dela, dos cuidados de que ela necessitava. Sem isso, todo um novo mundo se abria a eles. Podiam sair de casa sem medo. Viajar, se assim desejassem. Eu poderia cuidar de Laércio nesses dias, e ele mesmo não tinha muito mais que um par de anos de vida restando.

À noite, não consegui dormir. Ficava imaginando a visão, fosse ela o que fosse. Nos minutos em que esquecia dela, pensava nos meus pais. Eles seriam os próximos. Pensei no dia em que a saúde deles estivesse debilitada igual à da minha vó. Os dois, quase com sessenta anos, já tinham uma lista de problemas de saúde. Poderia acontecer muito antes. Teria que morar com eles de novo? Adaptar minha vida como eles fizeram com minha vó? Meu coração acelerou que achava que o próximo seria eu e não eles – eu mesmo negligenciava minha saúde. Não estava pronto pra tamanha responsabilidade. Muito menos pra fugir dela. Que insuportável o ciclo. Que terrível submeter alguém ao ciclo. Nunca poderia ter um filho. Não, seria muito egoísmo. Se a existência não passa disso, é injusto, o grande horror. É difícil perceber durante a vida o quão terrível é estar vivo, tampouco é desejável morrer, mas às vezes parece que o melhor é nunca nascer. Ficava me perguntando se todos viviam desse jeito, nesse conflito. Se só meus pais tinham essa expectativa de serem cuidados pelo único filho quando a saúde deles estivesse debilitada. Se todos os pais tinham essa expectativa, mas só os meus tinham coragem de pedir com clareza, sem indiretas e meias palavras, por esses cuidados. O futuro parecia inescapável. Não havia felicidade em nenhuma das saídas.

Mais uma vez, por hipnose, levantei do sofá em que tentava dormir e fui até a porta do quarto de minha vó, ainda fechada. Bem devagar, toquei a maçaneta. A futilidade de evitar o barulho no silêncio. Cada inspiração, um grito; cada expiração, uma lamúria. Baixei a maçaneta e o metal rangia dolorido. O barulho do trinco abrindo como uma imensa percussão sinfônica. Tentei abrir a porta, mas estava trancada. A chave estava ao meu acesso, ali na porta. Cheguei a pôr a mão nela. Desisti. Não tinha porque insistir naquilo. Mais um pouco, meus pais iam se levantar, ver que insistia na realidade daquela visão e achariam que estava com algum problema. O pior, tinha certeza que, no momento que abrisse a porta, lá estaria minha vó, dormindo como sempre, viva. Se encostasse meu ouvido à porta, ouviria sua respiração, se já não a estivesse ouvindo sem me dar conta.

Omissões – parte 3

Pros atrasados: Parte 1, Parte 2. Leiam.

Oito da manhã, fiz café. Evitar barulho amplificava o som de cada movimento. A cafeteira era um trem que nunca terminava de passar pela minha cozinha. A xícara, tirada do armário, levada à pia, depois, cheia, até a mesa da sala, era um desastre automobilístico. O notebook aguardava. O barulho da xícara tocando o vidro da mesa era uma marretada. O estalar dos dedos dos meus pés, que carregavam o peso do meu corpo num esforço para não se fazerem notar, eram bolinhas de gude ecoando pelo piso frio. Se Luciana acordasse, não escreveria nada naquele dia. Ia querer tomar café da manhã comigo, conversar, fazer planos pro dia e depois pra semana. Mais um estrondo quando me sentei na cadeira e deixei a xícara ao lado do computador. Mais breves estalos rápidos dos meus dedos batendo nas teclas. A porta do quarto estava fechada e ela não havia acordado ainda. Medi que teria duas horas pelo menos. Se tem algo que, todavia, come o tempo é a escrita. Duas horas são linhas, passam sem que se dê conta. Tinha que lutar contra a tentação de voltar um pouco no texto, ler o que estava escrito, corrigir uns detalhes, refazer certas passagens. Precisava chegar ao fim antes disso, do contrário não terminaria nunca. Podia passar anos no começo, dando novos primeiros passos. Redescobrindo os pontos familiares da vizinhança sem nunca me aventurar no desconhecido. Seguir em frente era uma necessidade. Senti a mão dela tocar meu braço e, de súbito, olhei pro relógio, descrente. Eram dez e vinte. Não ouvi ela se levantar, tão longe estava do apartamento.

— Bom dia – beijou meu rosto. – Fez café?

— Fiz, mas acabou. Vou fazer mais. Acordei cedo pra escrever.

— Por que não me chamou?

— Achei que você quisesse dormir um pouco mais.

— Vou tomar um banho, então.

Aproveitei os minutos para escrever por uns minutos a mais, mas logo parei e fui à cozinha preparar uma nova jarra de café. Fiquei olhando o líquido preto pingando do filtro à jarra, pensando naquela relação. Gostava dela. Me sentia bem, em geral, nela. Era quando eu escrevia que vinha o desejo por isolamento. Ali de frente pra jarra, queria que ela não estivesse comigo no apartamento. Não morávamos juntos, mas toda a sexta ela vinha da faculdade pra minha casa e só ia embora na segunda. De vez em quando aparecia no meio da semana, víamos um filme ou coisa assim. Mas os fins de semana eram sagrados, era certo que ela ia passar comigo. O que é normal em um namoro, depois de um tempo. Havia aquela voz na minha cabeça gritando o quão inaceitável era esse comportamento, mas não fazia sentido. Se a presença dela num dia qualquer, sem compromissos maiores, era um problema, me atrapalhava, eu que estava errado. Quando me perguntava se queria sair do relacionamento ou não, o eu escritor votava que sim, enquanto o resto de mim era contra. E mais uma vez eu me dividia. Existia o eu da família, o eu do trabalho, o eu da Luciana, o eu escritor. Lembro que em determinado momento esses eus se encontravam – o mais próximo de um eu verdadeiro que poderia dizer que tive. Agora este, o verdadeiro, ficava longe, assistindo os outros de fora. Quase podia ver sua imagem na cozinha comigo, me assistindo, em silêncio, assistir as gotas de café caindo na jarra. Um mediador dos fragmentos, conciliador das diferenças, deixando seu papel de lado por ter perdido o controle, me dizia que um dos eus teria que deixar de ser ou o verdadeiro nunca teria espaço.

Voltei à mesa e fiquei olhando pro texto recém-escrito. Podia ouvir o chuveiro, a água caindo no box, às vezes ela cantava trechos soltos de músicas que quase nunca eu reconhecia. Minha mão direita cutucava ansiosa a mesa. Não tinha mais nada a escrever. Tinha muito, mas as palavras não estavam comigo. Voltei ao começo. Li o texto e fiquei satisfeito só porque ele não me enfurecia, diferente das outras vezes. Estava razoável. Era o que eu queria que fosse, o melhor que poderia ser, vindo de mim, com aquela história. A essa altura queria que Luciana saísse do banho de uma vez para eu não me sentir culpado que o eu escritor não mais cumpria seu papel. Deixar que o eu namorado tomasse conta. Antes disso, abri um documento separado e, me obrigando a digitar com liberdade, juntei palavras baseadas em toda minha divagação sobre eus e divisões num poema em prosa. Tentei fazer dele o mais ambíguo possível, esconder a autobiografia. Consegui terminar o longo parágrafo corrido antes de ela desligar o chuveiro. Luciana saiu enrolada na toalha e disse que eu deveria ir tomar um banho também.

— Você já tá cansado, parece, e não é nem meio dia. A gente dormiu tão tarde ontem. Vai lá, que eu faço uns sanduíches pra nós.

Fiz como ela disse. Debaixo do chuveiro frio, via as frases do romance se formando em frente aos meus olhos. Eu as cortava e rearranjava, trocava palavras e reimaginava cenas, planejava o que ainda havia de ser escrito, então fui tomado pelos pensamentos de antes, sobre os eus. Como é egoísta o tal eu verdadeiro. Ele bem sabe o quanto a total sinceridade pode machucar os que o cercam, àqueles que formam suas próprias versões dos eus verdadeiros dos outros, normalmente ilusórias. Sabia que o filho que minha mãe imaginava ter não era real, mas ela acreditava nele, o amava. Só mais alguns anos atuando, seria tão insuportável? Quem se prejudicava mesmo nesse dilema era Luciana, que nada tinha a ver com minhas crises. Se bem que o simples fato de que eu a mantinha distante das minhas crises já demonstrava que havia algo errado na maneira que eu enxergava nosso relacionamento. Fiquei me perguntando se a amava. Quase me deixei levar pela bifurcação do conceito de amor e sua definição elusiva. Outro mal sinal, como se quisesse inventar desculpas, conceitos e complexos para dizer que não e não me sentir culpado por isso. Mas aí, quando pensava em terminar – pelo bem dela –, ficava enternecido pelos pequenos atos, como fazer sanduíches enquanto eu tomava banho, se preocupar com o meu cansaço. Atos que se repetiam, que eu achava que devia recompensar. As velozes gotas d’água golpeando minhas costas faziam que eu me sentisse externo a mim mesmo, flutuante, que deixasse para trás a casca e saísse com um corpo novo, mais leve. Desliguei o chuveiro, me enxuguei. Quando, enrolado na toalha, entrei no quarto, Luciana estava nua na cama. O que aconteceu entre nós naquela manhã, não sei explicar. Trepamos como se nos víssemos pela primeira vez depois de meses da mais casta das separações.

Deitados juntos. Ofegantes, abraçados. Começamos a sentir o cheiro de queimado vindo da cozinha. Ela levantou correndo e quase tropeçou na toalha largada no chão. Fui atrás.

— Queimou – tirando a bandeja do forno, que carregava dois pedaços de carvão.

— Foi por uma boa causa.

— Detesto jogar comida fora – rindo de leve, seu corpo trêmulo, as costelas pra cima e pra baixo pela respiração acelerada.

— Não tem problema, eu faço esses agora.

Jogou os sanduíches na lixeira. Comecei a preparar os novos. Fiquei na cozinha, assistindo. O forno ainda estava quente e não demoraria pra esses queimarem também, se nos distraíssemos.

— Vou me vestir e te trazer umas roupas.

— Pra que?

À mesa, terminando de comer, vestidos, ouvi um som vindo do quarto.

— É meu celular?

— Acho que sim.

— Sem vontade nenhuma de atender quem quer que seja hoje.

— Vai ver quem é, pelo menos.

Fui. Era o número dos meus pais. Atendi.

— Oi.

— Oi, filho, tudo bem?

Tudo, tudo certo. E vocês?, o que houve?

Percebi que a voz da minha mãe não estava normal. Mais quieta, quase chorosa, úmida.

— Sua vó. Ela morreu hoje.

Esperou que eu dissesse alguma coisa, mas não disse.

— Foi umas três da manhã. Toda noite ela fazia muito barulho, chamava pessoas, nunca era nada. Hoje fui ver ela, tava muito quieta. Chamei, chamei, ela não acordava. Já tinha morrido.

— Eu tô indo pr’aí.

— Não precisa, já tá tudo feito, foi bem rápido. Seu pai chamou o médico, ele acordou e veio. Pelo jeito foi infarto.

— O remédio?

— Pode ser.

— Açougueiro.

— Não fala assim, ele fez o que achava que tinha que fazer.

— Só que não é psiquiatra.

— Cê acha que eu não tô pensando nisso tudo? Aconteceu. Ia acontecer uma hora ou outra. É triste, sempre é. A gente acha que não vai ser, que tá preparado. Mas é. Por um lado, foi um alívio, você viu como ela tava.

— É.

— Bom, já enterramos, agora só falta resolver umas coisas de documentação.

— Por que vocês não ligaram antes?

— E te preocupar, te acordar no meio da noite.

— Sim.

— Vir de carro de madrugada pra esse fim de mundo, nervoso, podendo sofrer acidente. Pra mim e seu pai só resta você.

Minhas personalidades sempre estremeciam ouvindo essa frase que ela repetia como um mantra. Só resta você. Como se uma hora ou outra, não importando o que acontecesse na minha vida, tivesse que largar tudo por eles. Como eles fizeram por mim, quando decidiram que iam me por nesse mundo. Era errado pensar que, se me tivesse sido dada chance de escolher, teria preferido não nascer? Era, de certa forma. E era errado ignorar minhas futuras responsabilidades. Mas o temor, o temor eu não conseguia impedir de tomar conta.

— Agora deixa quieto, já é quase meio dia. Até chegar aqui são duas da tarde. Aí amanhã de manhã você tem que voltar pra ir pro trabalho na segunda. Muita correria, sem falar que, não sei. Deixa pra lá.

— Semana que vem.

— Se você quiser.

Observações aleatórias* #1

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Jovem Adormecida (1657) – Johannes Vermeer

1 – Acho que a tendência do meu processo de criação literária (pretensiosas que possam parecer essas palavras em conjunto) é seguir obsessões momentâneas. O conto mais recente que postei aqui (parte do conto) recebeu um comentário que eu achei fascinante (sobre como o excesso de trivialidades e divagações podem repelir os leitores), por isso decidi abrir essa série de postagens falando sobre essas obsessões que me motivam de certa forma – e não são mais que trivialidades e divagações. Tive duas mais marcantes esse ano. A primeira, no começo do ano, foi a, já citada na primeira parte do conto, morte da minha vó. Depois dela, tudo que escrevia era sobre morte, doença, velhice, sobre a fragilidade do corpo e, o principal, da mente, dependência (no sentido de depender dos outros) e da inevitabilidade dessas coisas todas. Depois, a segunda e atual obsessão, Buenos Aires, quando voltei de lá. Então passei a escrever sobre solidão, do quanto relações pessoais podem gerar conexões rápidas, fortes, mas, de todo, frágeis, despedidas, saudades, tempo que passa (mono no aware, pra ser mais preciso). Mas por trás delas, talvez graças ao comentário, me dei conta, havia uma maior: trivialidades. Essa é minha atual obsessão e culpo Jim Jarmusch pela influência. E os poetas chineses que ando lendo, e poetas americanos, e Roberto Bolaño, e pintores (seja Vermeer – ilustrando a postagem – com seus retratos das banalidades da pequena burguesia holandesa, seja Edward Hopper e suas cenas de tédio urbano). Não importa, ao gastar linhas falando das atitudes do cachorro da família num conto que nada tem a ver com caninos, ao descrever o harmônico desalinho dos dentes portenhos, o trivial domina – quase – sem que eu me dê conta. Pode ser essa a razão de ser dessa postagem meio deslocada que decidi tirar da cartola.

2 – Quero achar um jeito de contabilizar as coisas que descubro diariamente. Nem que seja pra não perder depois, o que acontece com frequência. Ontem estava indeciso sobre ver ou não um filme (Gloria, 2013, chileno). Acabou que não vi. Depois de ler uns comentários sobre ele, parece ótimo, mas não estava no clima praquele tipo de história, não num domingo (ontem de quando comecei a digitar esta postagem). Mas, dentre os comentários, ouvi dizer que um personagem em determinada cena lê um poema de Claudio Bertoni à personagem-título do filme. De acordo com a mesma pessoa, o diretor de Gloria chama Claudio Bertoni de “o beatnik chileno”. Fui atrás. Não chamaria de beatnik, com base na minha primeira impressão. Pareceu mais próximo de um Bukowski. Gostei, de qualquer maneira, das poesias, e ele é um fotógrafo e artista plástico interessante também. No mesmo dia, um pouco mais tarde, buscando um documentário sobre William S. Burroughs (estou quase na metade de Naked Lunch) no Youtube, vejo uma entrevista com o onipresente Jarmusch e mais outros dois caras que participaram num documentário sobre Bill, na década de 1980. Nisso, Jarmusch cita John Giorno, poeta americano, bastante presente na cena artística de Nova York em 1960/70 (participou nuns filmes do Warhol), era amigo do Bill e apareceu numas cenas do documentário. Descobri e adicionei o poeta à lista. Conclusão, ontem, 2 poetas novos. Isso sem contar a lista de gente que vi no apêndice do livro “Argentina Beat” (que é sobre isso mesmo que você deve estar pensando, geração beat na Argentina). É uma antologia de vários escritores do período, alguns não publicaram mais que um ou dois livros artesanais de poesia ou um punhado de poesias em revistas organizadas por eles mesmos. Falarei mais nas postagens sobre literatura, isso aqui é outra coisa. A introdução e o apêndice estão recheados de nomes de escritores, músicos e cineastas da vanguarda Argentina, gente que preciso e pretendo explorar.

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Cut-up technique, bitches.

3 – Fico imaginando se os beats argentinos conheceram os beats brasileiros… e se os beats da América do Sul conheceram os da América do Norte (precursores da porra toda). Gostaria de ter presenciado um bate-papo entre Allen Ginsberg, mariani, Roberto Piva, Peyote e Bebop. Tenho uns livros a caminho também. Finalmente poderei trabalhar com mais cuidado nas traduções que prometi a mim mesmo tentar fazer. Conhecerei a obra da Anne Waldman, do Ted Berrigan. Um pouco ansioso para a chegada dessa leva de livros.

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Anne Waldman & Ted Berrigan

4 – Pesquisando para um futuro texto sobre o Punk Rock de Nova York na década de 1970, li a entrevista da Paris Review com o Luc Sante (jornalista belga-americano pouco conhecido que estava lá). No meio da conversa ele fala sobre como nossa percepção do passado é maleável, assim como, de certa forma, é a história, nós estando ou não presentes no tal momento do passado. O que ele diz é que, por exemplo, a década de 1960 pra ele hoje não foi o que era quando ele viveu o período ou o que ele achava que tinha sido uns anos depois. Então ele não conhecia Os Mutantes, Scott Walker, Serge Gainsbourg, e assim mudou-se a década de 1960 da cabeça dele. A década de 1960 da minha cabeça mudou quando eu descobri que havia beats na Argentina, e, dois anos antes disso, havia mudado quando descobri dos beats brasileiros. Que será da 1960 da minha cabeça em dez anos? Somos mesmo empilhadeiras de informação.

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5 – Noutro dia, almoçando com uma amiga do trabalho, ela me perguntou o que eu faria se ganhasse na loteria. Tenho uma resposta padrão pra essa pergunta, só porque ela é tão frequente, mas nunca pensei com profundidade nela, não jogo; se fosse responder de forma literal, diria que foi engano e não teria como apresentar o bilhete vencedor. O padrão é: dar parte do dinheiro pros meus pais (questão de gratidão e consciência) e sumir do mapa, de preferência com outra identidade, com intenções nômades. Aí esbarrei com a notícia de que o Philip Roth doou a biblioteca pessoal dele para a biblioteca pública de Newark. Achei a ação fantástica – deixando de lado as altas probabilidades de algumas páginas de certos livros estarem coladas umas nas outras. Não tenho uma biblioteca de tais proporções (ele doou 4 mil livros), mas, depois de um período nômade, quando eu me sentisse pronto pra parar, onde quer que eu me fincasse, acho que faria uma biblioteca, ao invés de uma casa; viveria num canto dentro dela, mais isolado – um segundo andar -, e a biblioteca seria de acesso público. Sim, ideia utópica, mas vá lá. É isso ou dar uma de poeta chinês (li uma antologia de poesia clássica chinesa esses dias também) e ir viver nas montanhas, escrevendo, bebendo vinho – que teria que aprender a fazer de uvas que eu plantaria -, nada muito realista, nem um nem outro nem minhas chances de ganhar na loteria.

*Mas que porra foi essa tio Rapha?  Nada demais, só um experimento, talvez motivado pela obsessão pelo trivial. Deu vontade de escrever umas observações sobre o que anda acontecendo comigo, sem regras, fragmentos de pequenas coisas. Saiu isso. Me lembra um pouco os primeiros blogues, quando as pessoas só escreviam ao vento sobre qualquer coisa. Pretendo fazer isso mais vezes. Espero que tenham gostado.

Omissões – parte 2

Antes leia a primeira parte, se não leu ainda:

https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/11/02/omissoes-parte-1/

***

Servido o café, com as frutas e as torradas e a manteiga e os frios, sentamos à mesa e começamos a discutir as amenidades de sempre. Perguntas sobre trabalho, lamentações sobre o tédio, botar os assuntos familiares em dia. O cachorro pulava nos joelhos de cada um de nós, um por um, cheirando nossas pernas em busca de migalhas e cheirando o chão, evitando nossas mãos que tentavam o afagar contra sua vontade ou o afastar. O silêncio naquela casa era mesmo um silêncio diferente. Não fosse a televisão falando por nós sem parar, era crível que ali se alcançasse a ausência total de ruídos. Pensei que, então, mais tarde, poderia ficar na área externa e insistir na prática da meditação, que Luciana queria que eu experimentasse. Dizia que poderia ser bom pra mim, como foi pra ela. Havia tentado algumas vezes em casa, mas a sensação de fazer nada enquanto eu não era capaz de me separar do que acontecia ou que eu achava que acontecia ao meu redor me afligia e matava o propósito de meditar. Ela continuava, dizia que era normal, que é assim no começo e a sensação do mundo externo faz parte da meditação, que a ideia não é se desligar ou fugir, mas ser parte do todo, como se tudo fosse de fato parte de um grande movimento contínuo e conectado. Admirava o conceito e até concordava com grande parte do que a teoria dizia sobre o universo, mas não era capaz de enxergar o propósito. Talvez, no entanto, porque estávamos nos primeiros meses do segundo ano do nosso relacionamento e eu queria a agradar, talvez por no fundo ter vontade de meditar com sucesso, insistia. Mas não faria ali, com meus pais ao redor. Não era algo que tinha comentado com eles. Meus pais costumavam fazer perguntas sobre qualquer hábito que eu adotasse e não fizesse parte da educação que eles me deram. Fazia anos que tinha saído da casa deles, acreditava que esse costume passaria com o tempo, mas nunca passou. E as perguntas ficavam tão invasivas que decidi não falar pra eles das coisas que começava a fazer. Isso foi aos poucos nos separando. Não fazíamos mais parte do mesmo mundo. Assuntos que eu poderia iniciar, por causa de uma omissão de cinco anos atrás, tinham que ser evitados. Acreditava fazer isso pelo bem deles, para que eles não se preocupassem. Meditação não é nada, mas tinha o hábito de beber – coisa que eles nunca fizeram – e, vez ou outra, quando o orçamento permitia, fumar charutos – o que eles abominariam. Coisas banais, que fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas, que para eles seria um escândalo.

Omiti também minhas desventuras literárias. Tinha um romance em constante revisão fazia meia década, poemas publicados em revistas, um punhado de contos engavetados aguardando a chance de ver a luz do dia. Esse hábito eu procurava esconder de quase todo mundo. Mas, se revelasse a eles, seria interrogado por dias. Você não pretende mesmo viver disso, né?, eu previa. Mas por que escrever? O que você tem a dizer? Alguém vai querer ler isso? Eu já fazia essas perguntas para mim mesmo o suficiente. Bastava que Luciana fosse cética sobre minhas intenções de ser escritor. Achava que logo ia passar. Aquela história do para viver uma vida bem vivida é necessário plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Com seu jeito de analista, achava que eu havia inflado a parte do escrever um livro, a transformado em meta de vida, para evitar compromisso com as outras partes da vida comum – carreira, família, árvores.

Esses segredos imbecis faziam que eu me sentisse um adolescente de novo, mas eram necessários. A parte de mim cansada de evitar assuntos e me esconder dizia que era exagero, que eles não se envolveriam, reagiriam com estranhamento como é de se esperar de qualquer um que ouve notícias surpreendentes, mas ficaria por isso mesmo. Essa parte era silenciada quando eu era envolvido em pequenos interrogatórios sobre as partes da minha vida que eu revelava, ainda menos graves que as que escondia. Se eu devia mesmo ficar no meu emprego de tantos anos. Se meu relacionamento com Luciana era tão sério quanto deveria ser – na imaginação deles. E mais perguntas para as quais eu não tinha resposta. Perguntas que, se eu respondesse, eles não dormiriam mais à noite porque constatariam que eu, assim como eles, era infeliz, tinha angústias e dúvidas que os anos que eles dedicaram a me criar não evitaram. Eles eram assim, para o bem ou para o mal. Reclamar disso, achar errado, só fazia que eu me sentisse um ser humano terrível. Por isso escolhia não falar. Era o melhor para todos nós.

Uma lamúria crescente invadiu a cozinha, vinda do corredor que levava aos quartos. Minha mãe se levantou e foi até o quarto da minha vó, sem dizer nada.

— Onde tá a caixa do tal remédio? – perguntei ao meu pai.

— Você vai ler?

— Acho que é melhor.

— Eu vou pegar.

Ele se levantou e abriu o armário suspenso sobre a pia, de onde tirou uma caixa de plástico cheia de remédios. A suposta demência senil não era o único problema da minha vó. Ela sofria de doenças cardíacas, intestinais, pulmonares, além de pressão alta. Vivia quase que artificialmente, a base de remédios que faziam seu maquinário interno funcionar como deveria. Além desses, na caixa havia os remédios para pressão alta e diabetes que meu pai era obrigado a tomar. Daquelas pilhas de caixinhas, ele tirou a que eu pedi e me entregou. Abri a caixa e tirei dela a bula toda dobrada. A lista de contraindicações era imensa. Dentre os efeitos que minha vó poderia sentir ao tomar aquela medicação estavam inclusos alucinação, depressão, tendências suicidas, taquicardia, insônia, perdas súbitas de consciência até coma. Meu pai, vendo meu rosto reagir ao texto:

— Pois é, eu li também. O médico disse que é normal, todos esses remédios antidepressivos causam isso tudo.

— Deve ter gente que toma isso aqui pra recreação.

— Não duvido de nada.

Como trovão, vindo do quarto:

— Ach-aaaaaai!

— Não grita, pelo amor de deus, me ajuda a te levantar. Júlio, me ajuda aqui com ela.

Ele gemeu baixinho ao levantar da cadeira:

— Todo dia é isso – olhando pra mim, sussurrando.

Bebi meu café. Fui até o corredor, num ponto em que minha vó não pudesse me ver. Não sabia qual ia ser a reação dela se me visse. Os três, como uma grande massa única, se arrastaram ao banheiro. Meu pai saiu, depois minha mãe, que fechou a porta. A todo momento, a respiração maquinal da minha vó soava, sempre em ritmo, profunda, perfurante. Mesmo atrás da porta, seguia dentro dos nossos ouvidos. Mesmo quando o barulho para, ainda ouvíamos.

— Já fica por aí, quando ela sair, fala um pouco com ela, vai que ela acalma.

Meu pai voltou à mesa.

— Sai do corredor, vai pra sala. Se ela te ver assim do nada, capaz de levar um susto, achar que é outra pessoa, invasor, sei lá o que tá acontecendo.

Fiz. Esperei na sala, sentado no sofá, olhando para a tela brilhante da televisão sem que ela me dissesse nada. Havia pessoas cozinhando, foi tudo que captei. Usavam ingredientes que pareciam caros demais para o público-alvo do programa, gente com tempo e paciência para ver programa culinário da Globo num sábado de manhã – se é que o programa era culinário, poderia ser só um quadro, pouco tempo antes estavam mostrando notícias da estrada, afinal. A porta abriu. Levar minha vó de volta para cama foi mais fácil. Me aproximei da porta do quarto, ela estava sentada na cama. Olhou na minha direção, mas era como se não tivesse ninguém na frente dela, nem minha mãe, nem paredes no quarto.

— Oi, bom dia.

Continuou, assim parecia, olhando na minha direção.

— É seu neto, mãe.

— Eu sei. Mas ele não tá casado?

Comecei a rir. Era meu jeito de mostrar a ela que tava tudo bem, que o que ela disse fazia sentido.

— Não, ainda não.

— Sim, ele casou. Com a Suelen.

— Mãe, quem é Suelen?

— Não foi?

— Não, não tem nenhuma Suelen – continuei com um sorriso no rosto, falando com humor, como se tudo aquilo fosse uma grande piada.

— A namorada dele é Luciana, mãe.

— Não conheço – conhecia, se viram duas vezes, mas preferimos deixar em paz.

— Tá bom. Descansa um pouco agora, tá bom?

— É só o que eu faço. Não me deixam sair do quarto.

Me despedi e voltei à sala.

— Quer tomar café da manhã, então?

— Claro – o tom dela ficou agressivo de uma palavra pra outra, como se tivesse lembrado de algo que a ofendesse. – Faz três dias que eu não como.

— Como assim? Você comeu ontem à noite.

— Tá, acredito.

— Mas é sempre assim, você nunca levanta de manhã pra comer, eu sempre chamo – minha mãe argumentava como se fosse com a minha vó que ela estivesse falando ainda.

— Você é uma mentirosa.

— Eu sou?

— Cadê o Álvaro?

— Quem é Álvaro?

— Você não me engana, chama o Álvaro agora, quero falar com ele.

— Meu deus, mãe, o Álvaro morreu há trinta anos.

— Morreu nada, falei com ele agora mesmo. Você acha que eu não sei da festa? Vi gente andando pra lá e pra cá com garrafas. Você acha que eu sou louca? Você me prende aqui, mas eu vejo tudo.

— Descansa, mãe. Você tá sonhando.

— Não me engana, vagabunda. Vai pra festa, vai. Me tranca aqui. Eu, uma velha cega.

— Desde quando você é cega?

Ouvindo isso, meu pai foi até o quarto e pediu que minha mãe ignorasse aquilo, que era uma das alucinações do remédio. Só podia ser. Eu tentava comer meu pão, enquanto terminava a segunda xícara de café. Eles voltaram à cozinha, mas, do quarto, ainda era possível ouvir a voz dela ruminando coisas sem sentido.

— Ela tá falando de gente que morreu há décadas. Coisas que só podem vir de algum canto escondido da memória dela, coisa que ela tinha esquecido, e o remédio tá trazendo de volta, tudo de uma vez, só pode. O que esse médico foi me arrumar. Não sei mais o que fazer com ela.

— Parar de dar o remédio, só com auxílio médico. Pode ficar pior – eu disse.

— O médico disse que isso ia ser só os primeiros três meses. Que é o cérebro voltando a funcionar. Se isso é normal, não quero ver o louco.

— Precisa ver de noite – meu pai, cansado só de lembrar.

— Aí que ela fala com a árvore genealógica inteira, mãe, pai, cachorro, vô, vó, gente da idade da pedra. É assustador. E como se tivessem ali, na cama com ela. E me xingando igual quando eu era pequena.

Terminamos o café. Uma hora ou outra, ela dormiu, mas o barulho da respiração, engrenagens cobertas de muco e saliva, batendo uma na outra, nos lembrava que ela estava lá.