O Nobel do Dylan

tumblr_oafba0rq0o1uffku9o2_500
Sr. Nobel: Bob, é você? Alô, Bob. Fala com a gente, a gente gosta tanto de você. Booo-oob… Bob! Nós sabemos que você tá na linha, Bob Dylan, responde, nós já te ligamos quinze vezes! O que a gente tem que fazer? Nem e-mail você responde. Senhor Robert Allen Zimmerman, o senhor é um esnobe arrogante, saiba disso. Você faz ideia do fogo que a gente teve que enfrentar por te dar esse prêmio? Não acaba, todo dia algum filho da puta escreve um texto pra algum jornal fuleiro falando de como esse prêmio foi um desrespeito à literatura. Como se algum deles lesse alguma coisa! Agora vem você dar uma de Sartre, faça-me o favor! Depois de entrar pro Hall da Fama do Rock? Ganhar o Oscar, o Pulitzer? Já chupou todas as Academias desse mundo, que mal faz mais uma?! Não, não, rá-rá, nos desculpe, rá-rá-rá, foi brincadeira, exageramos, rá. Por favor, liga pra gente, Bob, por favor. É o Nobel. A Academia. A da Suécia. Beijos.

Prêmio pra que?

Quando me preparo pra escrever esses textos, entro em debate comigo mesmo. Seja pra falar do Nobel, do Oscar, do Jabuti, do Troféu Imprensa, a primeira pergunta que faço para mim mesmo é se esses prêmios importam, se me afetam de qualquer maneira. Quero tanto dizer que não, mas, se assim fosse, poderia botar um ponto final nesse texto e dar o assunto como encerrado. Me importo um pouquinho, com ressalvas. Longe de usar premiados como guia de leitura, por exemplo. Mas há casos em que prêmios assim ajudaram autores, até então desconhecidos ou não traduzidos ou fora de edição, a voltarem às estantes. Exemplo disso foram Alice Munro, Patrick Modiano, Mo Yan, Svetlana Aleksiévitch. Antes do Nobel, estes autores não existiam por aqui, ninguém os conhecia, por isso, mesmo quando receberam o prêmio, a reação geral foi de: – quem? – até mesmo entre os iniciados na literatura. Dizer que premiações como o Nobel não têm valor, é exagero. É errado transformar uma arte num concurso e não há meios que qualquer um desses prêmios aplique um critério justo de seleção, mas estes dois problemas, grandes que sejam, não bastam pra derrubar o que, a essa altura, já virou tradição. Justo ou injusto, certo ou errado, se funciona para atrair público a um determinado tipo de literatura, tá valendo.

Agora vamos a 2016, Bob Dylan ganhou o Nobel de literatura. Um músico ganhou o maior prêmio de literatura. Um prêmio que, desde o início, foi criado para comemorar artistas de destaque do mundo das letras (qualquer forma de meio de apresentação da arte escrita – ignorando aqui a parte que diz que o Nobel foi feito para comemorar autores europeus de importância político-social, nas primeiras décadas). Por um ponto de vista assim tão amplo, não é errado premiar um compositor porque este escreve as letras da música. A letra é escrita e segue padrões rítmicos tradicionais da poesia, logo parte da música é literatura. Uma parte divisível, não absolutamente necessária, mas ainda assim um belo naco presente na maior parte da música popular. Talvez mais do que se pense, considerando que é muito provável que as peças da Grécia antiga fossem musicais, tão lírico e regrado é o texto delas, e que essas peças costumam ter um “coro” contextualizando os acontecimentos. Qual tipo de música, qual técnica, com quais instrumentos, isso é desconhecido, sumiu no tempo. Mas não deixa de ser uma possibilidade, inclusive um tanto quanto triste, já que significa que um longo trecho da história da música não existe mais.

Tio Rapha, você diz impacientado, bela história, mas eu cliquei esperando uma crítica e, até agora, só vi dois parágrafos que não dizem nada sobre o tom e as intenções deste artigo. Já chego lá, porra, é um assunto delicado, não dá pra ir com muita sede ao pote ou corre o risco do argumento ficar incompleto. Quero reconhecer aqui a importância da música na literatura e da literatura na música. Em determinado momento de suas histórias, essas duas artes se conectaram como as outras artes o fizeram eventualmente. Reconhecido este fator óbvio, Bob Dylan não merecia receber esse Nobel. Isso mesmo, não importa quão próxima a música esteja da literatura em se tratando de composição poética, não é disso que esse texto trata nem acredito que a grande maioria dos críticos sérios duvide da relação entre essas artes. As intenções expansivas da Academia Sueca são boas, mostrar ao mundo que literatura é mais que romances (contos: Alice Munro; jornalismo: Svetlana), e que música é poesia. Mas ao contrário do que o que ela fez com o conto e com o jornalismo, para escolher um compositor, o Nobel parece ter escolhido “aquele que todos conhecem e gostam”.

Poesia e música, música e poesia

Talvez o problema seja que, dentre os compositores musicais hoje em dia, não haja um que seja melhor que alguns dos melhores poetas em atividade. Só partindo desse princípio, já questiono a decisão do Nobel e entendo os escritores que dizem que essa escolha foi uma demonstração de desprezo à literatura – arte há anos em decadência – por parte da Academia. Música é poesia, compreendido, mas os melhores poetas vivos não estão na música. Compositores não precisam ser grandes poetas, por isso raramente o são. A música te distrai com instrumentos, barulhos fora das palavras. Até afetações vocais podem tornar uma letra incompreensível. Então, ouvindo só a melodia mas sem entender palavra, você diz: que puta canção bem construída e poética. Até que lê a letra e vê que não significa porra nenhuma – estou olhando pra você Jim Morrison. E esses meus comentários não vêm de hoje. Busquem na internet um artigo de 1967 do Robert Christgau chamado Rock Lyrics are Poetry (Maybe), naquele tempo ele já falava das crias do Bob Dylan, que imitavam o estilo, mas falhavam na substância. Eis que, hoje, discutimos a influência do Dylan na poesia. A verdade é que foi nula. Ele mudou a música popular, isso sim, incluindo nela características já frequentes na poesia lírica somadas à linguagem beat que surgia nos idos finais da década de 1950 começo de 1960. Ou seja, Bob Dylan foi influenciado por poetas e, então, mudou a música. Muitos poetas jovens gostam de Dylan, mas não é de Dylan que vem as influências.

Contudo, a atenção dada pela academia aos poetas que fizeram Dylan permanece zero. Verdade, grande parte dos poetas beats e da escola de Nova Iorque estão mortos. Mas gente como Allen Ginsberg, Robert Lowell, Gregory Corso, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Frank O’Hara, John Berryman, Anne Waldman (viva), Ted Berrigan, Diane di Prima (viva), Denise Levertov, Lawrence Ferlinghetti (vivo?… -google- sim, vivo… cacete…), entre muitos e muitos outros que ensinaram Bob Dylan, não mereceu a honra e divulgação de um Nobel.

Aponto aqui que a minha lista foi limitada a autores americanos que surgiram mais ou menos na mesma época do Dylan ou viveram num cenário parecido. Indo um pouco além, temos nosso Augusto de Campos, só pra não perder o costume de citar ao menos um brasileiro, povo esquecido, esse, que os suecos parecem desprezar. (Sugestão ao hipotético brasileiro que ganhe, no futuro indeterminado, o prêmio Nobel de literatura, faça como o Dylan e os mande à merda – mas só depois de receber o cheque, eu tô ligado que escritor por essas bandas precisa aproveitar cada centavo que recebe e que nosso futuro não é promissor.) Essa não é uma lista vazia de significado.

Ela representa um número, mínimo em comparação ao real – sem restrições de nação e época -, de poetas negligenciados pelo Nobel – que não foram considerados dignos de recebê-lo. A justificativa dada à entrega do prêmio ao Dylan foi pelas suas inovações poéticas na música popular. Mas de onde vieram essas inovações poéticas? A linguagem aplicada por Dylan em suas letras não é própria, não é inventada. Já era usada na poesia muito antes dele. Sim, foi criativo, mas por que dar um prêmio de literatura a um músico, por  causa do tanto que ele influenciou a música? Qual a influência do Dylan na literatura? Bom, alguns poetas juvenis, durante sua formação literária, sonham em ser Bob Dylan. Mas isso logo passa, quando os juvenis aprendem a beber das fontes que bebeu Dylan. A verdade é que não tem compositor musical que tenha mudado o curso da literatura porque a música não cobra tanto talento literário do compositor. A música é um conjunto de vários fatores, e, normalmente, um desses fatores é obscurecido por outro. A letra se esconde debaixo dos instrumentos, da dicção nem sempre precisa da voz cantada, da teatralidade comum das apresentações. É difícil não se deixar mover por uma poesia quando ela vem cercada de tantos adornos, mesmo quando não se sabe o que ela diz – aqui não falo das sutilezas da linguagem poética, mas do simples ato de ouvir uma palavra e entender qual ela é. Letra de música é poesia bem maquiada e ora cria beleza onde não existe, ora ofusca a beleza presente.

Senhor Dylan, você mudou

Balelas e romantizações à parte, dado o prêmio, não há muito que se possa discutir que tenha valor concreto. É um prêmio falho, como todos os outros, que mais uma vez errou. Um novo fator, no entanto, poderia mudar a situação: o silêncio. Admito que fui enganado pelo Sr. Dylan quando ele ignorou o Nobel nos primeiros dias. Vi um reflexo do jovem Bob agindo nos tempos de hoje. Sou fã, admito, escuto os primeiros discos dele religiosamente. Ver o cara esnobar o Nobel desse jeito me fez lembrar dos dias que ele rejeitava o título de Profeta, ridicularizava o culto de personalidade que havia começado a girar em torno das celebridades desde o Elvis e que só piorou com os Beatles, o cara que atacava as perguntas idiotas de jornalistas que não entendiam o que ele fazia ou queria fazer.

Mais interessante foi a progressão dessa conversa unilateral entre Academia e Bob. Foi de tentativa de contato, até esforço para compreender, então fingiram se igualar na indiferença, culminando na raiva. (Arrogante, esnobe! Se você não me responder, não vai ganhar o dinheiro!) Mas durou pouco a minha alegria. Foi ilusão. Ele aceitou todos os outros prêmios, por que rejeitaria logo o Nobel de literatura? Bob Dylan apareceu esses dias, agradeceu a honra do prêmio, disse que, se pudesse, iria à cerimônia. Por pouco não pediu desculpas por não ter respondido mais rápido.

Queria que ele rejeitasse. Não por rebeldia, mas por reconhecimento. Seria a forma de ele dizer que, se aqueles que o inspiraram não merecem tal honra, tampouco ele deveria merecer. Nem seria ato de falsa humildade, já que ele não teria que, com isso, admitir que não merecia. Pelo contrário, estaria se igualando aos grandes poetas. Mas não. Ignorando a Academia, ele teria dado um passo além de Sartre (que recusou, dizendo que preferiria que não existissem tais premiações, evitando de fazer do escritor uma instituição). Mostraria ao mundo a fragilidade desses prêmios. Basta não responder que a coisa toda perde seu valor. Mas não. Ele respondeu, aceitou, disse que era uma honra.

Se não ele, quem?

Meu dinheiro estava no poeta sírio, Adonis. Está há anos. E, dessa vez, minha lógica não estava distante da deles. Queriam um poeta. Adonis seria até mais condizente com os padrões da Academia. Não só ele transformou a linguagem da poesia árabe, criando também a poesia em prosa, ele é de grande influência nas recentes discussões sobre os conflitos no Oriente Médio, sobre terrorismo e intolerância. O discurso de Adonis é polêmico, eu mesmo acho que ele devia tocar mais na influência dos EUA nesses conflitos do que focar somente no Islamismo, mas é difícil dizer que as ideias dele estão erradas. Independentemente das políticas, o cara é um puta poeta, um dos grandes vivos, mais que merecedor dessa honra.

Por que estou encerrando o texto dessa maneira, sem falar em Dylan, nem concluir com nada do que foi discutido nos parágrafos anteriores? Porque não importa. Como esses prêmios importam muito pouco. Se o que justifica a existência dessas honrarias é a visibilidade que elas dão ao vencedor, fico aqui, na minha irrelevância, fazendo o trabalho deles. Deixem de lado esse arranca-rabo e vão buscar algo do Adonis pra ler. E, por que não?, depois disso, vão ouvir um dos discos bons do Bob Dylan. Mais vale ouvir ele tocar do que ficar falando sobre o que ele fez ou deixou de fazer semana passada. Já para os novos poetas de todas as nações, comprem um violão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s