Andei lendo uns livros aí… #3

POEMAS – ALEJANDRA PIZARNIK

Tenho pouquíssimas informações sobre esse livro. Criei um vínculo extraliterário com ele. A poesia da Alejandra Pizarnik é uma ausência tremenda nas editoras brasileiras, negligência pura – que eu saiba, dela, até hoje, só uma novela foi publicada. Mas pra mim não foi só isso. O livro é uma seleção fina de poesias e fragmentos de prosa dessa autora. Não sei o ano, acho que é de uma coleção antiga de “literatura essencial” publicada na Argentina, julgando pela aparência do livro, vou julgar que em meados da década de 1980, senão fim de 1970. É aí que o livro se torna especial. O encontrei no meu primeiro dia em Buenos Aires. Estava perdido, buscando entre as ruas que cruzam com a Avenida Cordoba, alguma referência que me indicasse como chegar no Centro – precisava, logo, trocar dinheiro. Olho ao redor e me deparo com uma vitrine abarrotada de livros usados. Entro porque é mais forte do que eu. Não tinha muito dinheiro, mas deu pra sair de lá com esse livro e um de contos do Roberto Arlt, além de ter trocado uma ideia curta com o vendedor sobre estes autores e Mário de Andrade, e conseguir instruções de como me achar. Essas poesias me acompanharam pelos meus primeiros dias, perdidas comigo pela cidade. Foi necessário encontrar, dias depois, uma edição da obra completa dela, que me dedicarei a estudar. Aguardem traduções da poesia dela por aqui.

LA MÁQUINA DE PENSAR EN GLADYS [A MÁQUINA DE PENSAR EM GLADYS] – MARIO LEVRERO (1970)

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Outro achado em Buenos Aires, este em uma livraria “normal” – vendia livros novos, mas se especializava em literatura “underground” (por falta de palavra melhor), ou foi a impressão que tive vendo os títulos em destaque, gente que eu nunca tinha ouvido falar antes, o que me deixou triste por só ter ido lá no último dia, embora tenha visto o lugar várias vezes; pra que vocês que queiram ir pra lá não cometam o mesmo erro que eu, o nome é: Borges 1975 (endereço: rua Jorge Luis Borges, 1975, Palermo Soho), além de livraria, tem eventos culturais e um bar por lá, aproveitem por mim. Sobre o livro, já tinha ouvido falar que Levrero era um dos escritores mais inventivos dos últimos anos, mas não imaginava o quanto. Essa é a primeira coleção de contos do autor, que já servia de guia pro que ele viria a escrever em seguida. São histórias que variam entre 1 e 30 páginas, surreais sem nunca admitir seu surrealismo, beirando o absurdo. A influência de Kafka, nos contos mais “urbanos” é visível, também a influência das artes plásticas (descrições vívidas, cuidadosamente precisas, mais pelo prazer estético da visualização imaginária que pela necessidade de contexto literário), enquanto o surreal chega de surpresa, nunca se espera por ele mesmo quando ele está em todo lugar. Um livro muito impressionante, que beira o inclassificável. Um original, se é que eu sou capaz de reconhecer um desses. Também fica a ideia de traduzir aqui uns contos, pelo menos os mais curtos.

FAREWELL, MY LOVELY [ADEUS, MINHA QUERIDA]  – RAYMOND CHANDLER (1940)

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Minha relação com literatura policial é conturbada. Levo meses para terminar até os melhores livros da categoria – e tem muita coisa de qualidade. O motivo me escapa. Costumo gostar da narrativa e da escrita, mas algo não me prende. Deixo de lado, parto pra outros livros e demoro pra querer voltar. Aqui temos, talvez, a história de detetive. Philip Marlowe, clássico detetive de Chandler, investigando o sumiço de uma mulher, se envolve numa trama complexa que inclui roubo de joias, cassino ilegal, charlatões, hospícios e tráfico de drogas. Todos os ingredientes da receita pra um bom hardboiled tão aqui. Tem policiais corruptos no submundo urbano, femmes fatales, violência, sem nada daquilo que tanto me desagrada (e, ao que parece, a Chandler também) nas histórias de detetive: investigações e deduções forçadas que transformam as personagens em peças de xadrez. Gosto da estética hardboiled, dos filmes noir que esses livros inspiraram, de todo esse microuniverso literário, em se tratando disso: estética, apenas. Já pra ler de fato, a história é outra. Foi bastante arrastado. Gostei da experiência de ter lido um Chandler, pretendo ler outros – não tão cedo -, mas não foi uma leitura fluida. Esse é um dos casos em que o leitor é mais culpado que o livro.

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