O Nobel do Dylan

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Sr. Nobel: Bob, é você? Alô, Bob. Fala com a gente, a gente gosta tanto de você. Booo-oob… Bob! Nós sabemos que você tá na linha, Bob Dylan, responde, nós já te ligamos quinze vezes! O que a gente tem que fazer? Nem e-mail você responde. Senhor Robert Allen Zimmerman, o senhor é um esnobe arrogante, saiba disso. Você faz ideia do fogo que a gente teve que enfrentar por te dar esse prêmio? Não acaba, todo dia algum filho da puta escreve um texto pra algum jornal fuleiro falando de como esse prêmio foi um desrespeito à literatura. Como se algum deles lesse alguma coisa! Agora vem você dar uma de Sartre, faça-me o favor! Depois de entrar pro Hall da Fama do Rock? Ganhar o Oscar, o Pulitzer? Já chupou todas as Academias desse mundo, que mal faz mais uma?! Não, não, rá-rá, nos desculpe, rá-rá-rá, foi brincadeira, exageramos, rá. Por favor, liga pra gente, Bob, por favor. É o Nobel. A Academia. A da Suécia. Beijos.

Prêmio pra que?

Quando me preparo pra escrever esses textos, entro em debate comigo mesmo. Seja pra falar do Nobel, do Oscar, do Jabuti, do Troféu Imprensa, a primeira pergunta que faço para mim mesmo é se esses prêmios importam, se me afetam de qualquer maneira. Quero tanto dizer que não, mas, se assim fosse, poderia botar um ponto final nesse texto e dar o assunto como encerrado. Me importo um pouquinho, com ressalvas. Longe de usar premiados como guia de leitura, por exemplo. Mas há casos em que prêmios assim ajudaram autores, até então desconhecidos ou não traduzidos ou fora de edição, a voltarem às estantes. Exemplo disso foram Alice Munro, Patrick Modiano, Mo Yan, Svetlana Aleksiévitch. Antes do Nobel, estes autores não existiam por aqui, ninguém os conhecia, por isso, mesmo quando receberam o prêmio, a reação geral foi de: – quem? – até mesmo entre os iniciados na literatura. Dizer que premiações como o Nobel não têm valor, é exagero. É errado transformar uma arte num concurso e não há meios que qualquer um desses prêmios aplique um critério justo de seleção, mas estes dois problemas, grandes que sejam, não bastam pra derrubar o que, a essa altura, já virou tradição. Justo ou injusto, certo ou errado, se funciona para atrair público a um determinado tipo de literatura, tá valendo.

Agora vamos a 2016, Bob Dylan ganhou o Nobel de literatura. Um músico ganhou o maior prêmio de literatura. Um prêmio que, desde o início, foi criado para comemorar artistas de destaque do mundo das letras (qualquer forma de meio de apresentação da arte escrita – ignorando aqui a parte que diz que o Nobel foi feito para comemorar autores europeus de importância político-social, nas primeiras décadas). Por um ponto de vista assim tão amplo, não é errado premiar um compositor porque este escreve as letras da música. A letra é escrita e segue padrões rítmicos tradicionais da poesia, logo parte da música é literatura. Uma parte divisível, não absolutamente necessária, mas ainda assim um belo naco presente na maior parte da música popular. Talvez mais do que se pense, considerando que é muito provável que as peças da Grécia antiga fossem musicais, tão lírico e regrado é o texto delas, e que essas peças costumam ter um “coro” contextualizando os acontecimentos. Qual tipo de música, qual técnica, com quais instrumentos, isso é desconhecido, sumiu no tempo. Mas não deixa de ser uma possibilidade, inclusive um tanto quanto triste, já que significa que um longo trecho da história da música não existe mais.

Tio Rapha, você diz impacientado, bela história, mas eu cliquei esperando uma crítica e, até agora, só vi dois parágrafos que não dizem nada sobre o tom e as intenções deste artigo. Já chego lá, porra, é um assunto delicado, não dá pra ir com muita sede ao pote ou corre o risco do argumento ficar incompleto. Quero reconhecer aqui a importância da música na literatura e da literatura na música. Em determinado momento de suas histórias, essas duas artes se conectaram como as outras artes o fizeram eventualmente. Reconhecido este fator óbvio, Bob Dylan não merecia receber esse Nobel. Isso mesmo, não importa quão próxima a música esteja da literatura em se tratando de composição poética, não é disso que esse texto trata nem acredito que a grande maioria dos críticos sérios duvide da relação entre essas artes. As intenções expansivas da Academia Sueca são boas, mostrar ao mundo que literatura é mais que romances (contos: Alice Munro; jornalismo: Svetlana), e que música é poesia. Mas ao contrário do que o que ela fez com o conto e com o jornalismo, para escolher um compositor, o Nobel parece ter escolhido “aquele que todos conhecem e gostam”.

Poesia e música, música e poesia

Talvez o problema seja que, dentre os compositores musicais hoje em dia, não haja um que seja melhor que alguns dos melhores poetas em atividade. Só partindo desse princípio, já questiono a decisão do Nobel e entendo os escritores que dizem que essa escolha foi uma demonstração de desprezo à literatura – arte há anos em decadência – por parte da Academia. Música é poesia, compreendido, mas os melhores poetas vivos não estão na música. Compositores não precisam ser grandes poetas, por isso raramente o são. A música te distrai com instrumentos, barulhos fora das palavras. Até afetações vocais podem tornar uma letra incompreensível. Então, ouvindo só a melodia mas sem entender palavra, você diz: que puta canção bem construída e poética. Até que lê a letra e vê que não significa porra nenhuma – estou olhando pra você Jim Morrison. E esses meus comentários não vêm de hoje. Busquem na internet um artigo de 1967 do Robert Christgau chamado Rock Lyrics are Poetry (Maybe), naquele tempo ele já falava das crias do Bob Dylan, que imitavam o estilo, mas falhavam na substância. Eis que, hoje, discutimos a influência do Dylan na poesia. A verdade é que foi nula. Ele mudou a música popular, isso sim, incluindo nela características já frequentes na poesia lírica somadas à linguagem beat que surgia nos idos finais da década de 1950 começo de 1960. Ou seja, Bob Dylan foi influenciado por poetas e, então, mudou a música. Muitos poetas jovens gostam de Dylan, mas não é de Dylan que vem as influências.

Contudo, a atenção dada pela academia aos poetas que fizeram Dylan permanece zero. Verdade, grande parte dos poetas beats e da escola de Nova Iorque estão mortos. Mas gente como Allen Ginsberg, Robert Lowell, Gregory Corso, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Frank O’Hara, John Berryman, Anne Waldman (viva), Ted Berrigan, Diane di Prima (viva), Denise Levertov, Lawrence Ferlinghetti (vivo?… -google- sim, vivo… cacete…), entre muitos e muitos outros que ensinaram Bob Dylan, não mereceu a honra e divulgação de um Nobel.

Aponto aqui que a minha lista foi limitada a autores americanos que surgiram mais ou menos na mesma época do Dylan ou viveram num cenário parecido. Indo um pouco além, temos nosso Augusto de Campos, só pra não perder o costume de citar ao menos um brasileiro, povo esquecido, esse, que os suecos parecem desprezar. (Sugestão ao hipotético brasileiro que ganhe, no futuro indeterminado, o prêmio Nobel de literatura, faça como o Dylan e os mande à merda – mas só depois de receber o cheque, eu tô ligado que escritor por essas bandas precisa aproveitar cada centavo que recebe e que nosso futuro não é promissor.) Essa não é uma lista vazia de significado.

Ela representa um número, mínimo em comparação ao real – sem restrições de nação e época -, de poetas negligenciados pelo Nobel – que não foram considerados dignos de recebê-lo. A justificativa dada à entrega do prêmio ao Dylan foi pelas suas inovações poéticas na música popular. Mas de onde vieram essas inovações poéticas? A linguagem aplicada por Dylan em suas letras não é própria, não é inventada. Já era usada na poesia muito antes dele. Sim, foi criativo, mas por que dar um prêmio de literatura a um músico, por  causa do tanto que ele influenciou a música? Qual a influência do Dylan na literatura? Bom, alguns poetas juvenis, durante sua formação literária, sonham em ser Bob Dylan. Mas isso logo passa, quando os juvenis aprendem a beber das fontes que bebeu Dylan. A verdade é que não tem compositor musical que tenha mudado o curso da literatura porque a música não cobra tanto talento literário do compositor. A música é um conjunto de vários fatores, e, normalmente, um desses fatores é obscurecido por outro. A letra se esconde debaixo dos instrumentos, da dicção nem sempre precisa da voz cantada, da teatralidade comum das apresentações. É difícil não se deixar mover por uma poesia quando ela vem cercada de tantos adornos, mesmo quando não se sabe o que ela diz – aqui não falo das sutilezas da linguagem poética, mas do simples ato de ouvir uma palavra e entender qual ela é. Letra de música é poesia bem maquiada e ora cria beleza onde não existe, ora ofusca a beleza presente.

Senhor Dylan, você mudou

Balelas e romantizações à parte, dado o prêmio, não há muito que se possa discutir que tenha valor concreto. É um prêmio falho, como todos os outros, que mais uma vez errou. Um novo fator, no entanto, poderia mudar a situação: o silêncio. Admito que fui enganado pelo Sr. Dylan quando ele ignorou o Nobel nos primeiros dias. Vi um reflexo do jovem Bob agindo nos tempos de hoje. Sou fã, admito, escuto os primeiros discos dele religiosamente. Ver o cara esnobar o Nobel desse jeito me fez lembrar dos dias que ele rejeitava o título de Profeta, ridicularizava o culto de personalidade que havia começado a girar em torno das celebridades desde o Elvis e que só piorou com os Beatles, o cara que atacava as perguntas idiotas de jornalistas que não entendiam o que ele fazia ou queria fazer.

Mais interessante foi a progressão dessa conversa unilateral entre Academia e Bob. Foi de tentativa de contato, até esforço para compreender, então fingiram se igualar na indiferença, culminando na raiva. (Arrogante, esnobe! Se você não me responder, não vai ganhar o dinheiro!) Mas durou pouco a minha alegria. Foi ilusão. Ele aceitou todos os outros prêmios, por que rejeitaria logo o Nobel de literatura? Bob Dylan apareceu esses dias, agradeceu a honra do prêmio, disse que, se pudesse, iria à cerimônia. Por pouco não pediu desculpas por não ter respondido mais rápido.

Queria que ele rejeitasse. Não por rebeldia, mas por reconhecimento. Seria a forma de ele dizer que, se aqueles que o inspiraram não merecem tal honra, tampouco ele deveria merecer. Nem seria ato de falsa humildade, já que ele não teria que, com isso, admitir que não merecia. Pelo contrário, estaria se igualando aos grandes poetas. Mas não. Ignorando a Academia, ele teria dado um passo além de Sartre (que recusou, dizendo que preferiria que não existissem tais premiações, evitando de fazer do escritor uma instituição). Mostraria ao mundo a fragilidade desses prêmios. Basta não responder que a coisa toda perde seu valor. Mas não. Ele respondeu, aceitou, disse que era uma honra.

Se não ele, quem?

Meu dinheiro estava no poeta sírio, Adonis. Está há anos. E, dessa vez, minha lógica não estava distante da deles. Queriam um poeta. Adonis seria até mais condizente com os padrões da Academia. Não só ele transformou a linguagem da poesia árabe, criando também a poesia em prosa, ele é de grande influência nas recentes discussões sobre os conflitos no Oriente Médio, sobre terrorismo e intolerância. O discurso de Adonis é polêmico, eu mesmo acho que ele devia tocar mais na influência dos EUA nesses conflitos do que focar somente no Islamismo, mas é difícil dizer que as ideias dele estão erradas. Independentemente das políticas, o cara é um puta poeta, um dos grandes vivos, mais que merecedor dessa honra.

Por que estou encerrando o texto dessa maneira, sem falar em Dylan, nem concluir com nada do que foi discutido nos parágrafos anteriores? Porque não importa. Como esses prêmios importam muito pouco. Se o que justifica a existência dessas honrarias é a visibilidade que elas dão ao vencedor, fico aqui, na minha irrelevância, fazendo o trabalho deles. Deixem de lado esse arranca-rabo e vão buscar algo do Adonis pra ler. E, por que não?, depois disso, vão ouvir um dos discos bons do Bob Dylan. Mais vale ouvir ele tocar do que ficar falando sobre o que ele fez ou deixou de fazer semana passada. Já para os novos poetas de todas as nações, comprem um violão.

as coisas esses dias (poesia 18)

meu sono anda inquieto, ainda mais que antes. fico pensando coisas. penso demais e nada faço. fazer, é tão desgastante fazer. minhas poesias andam me agradando mais, mas pode ser autoengano. todos os dias eu descubro um tempo melhor para se estar vivo, descubro um cadáver que gostaria de ter conhecido mais que a maioria dos vivos que me cercam – ou um fantasma -, me aflijo com a maneira como as coisas passam e não voltam mais e ficam presas no tempo feito objeto valioso de museu sob cortinas negras e densas e trancafiadas.

é tão injusto não escolher a época e as pessoas pelas quais sou ignorado. pode ser só arrogância. ando me sentindo arrogante. húbris, talvez. ando querendo ser arrogante, melhor dizendo. como se o que me bastasse para ser bom poeta fosse um nariz em pé e versos extravagantes e a eterna voz arrastada da inebriação e um tom abrasivo e ríspido – pratico com frequência essas características.

minhas raízes, antes tão bem fincadas, agora tremem de cansaço e tédio do solo em que se plantaram e tentam se desenterrar aos poucos e quando se livrarem vão correr em desesperado disparo em direção ao primeiro destino que as recebam.

quero me cercar de gente louca para explorar suas loucuras, mas todos ao meu redor parecem tão bem ajustados que posso ser o estranho do meu circo. se um a cada dez é neurótico e os nove ao meu redor são normais… – …que horripilante alívio é constatar tal fato.

decidi abraçar a insatisfação e os momentos de ansiedade quando meus químicos cerebrais parecem estar em desacordo, afinal, nasceram assim, que assim em paz fiquem. nada adianta me entupir de mais químicos para os regular. recuso todo químico que não álcool e nicotina e cafeína, sagrada trindade, e, noutra categoria, a literatura cumpre igual função, junto das outras artes que me distraem do real, ardil haja, contudo, neste acordo.

um dos meus pés está fora do chão e coçando para dar o próximo passo, falta a cabeça sobre o resto do corpo decidir qual ele será.

Andei vendo uns filmes aí #3

Já repararam que a primeira edição dessas postagens tá vazia? Eu só vi agora. Nem sei o que tinha nela pra poder refazer. Prefiro acreditar que não postei um troço vazio por acidente e esqueci. Bem, essa é a terceira edição, mas a primeira não existe, então é a segunda… pois é, acidentes acontecem. (Não vou apagar a primeira edição – a vazia – e mudar os números, fingindo que nada aconteceu.)

TÔKYÔ MONOGATARI [ERA UMA VEZ EM TÓQUIO – YASUJIRÔ OZU (1953)

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Este senhor simpático tinha só 40 e poucos anos na época das filmagens desse filme. Pois é, nem maquiagem pra envelhecer precisou.

Considerado a obra-prima do Ozu, que é um dos principais diretores japoneses, tem algo em histórias sobre velhice que me atinge de modo mais profundo. A última vez que estive à beira das lágrimas por causa de um filme foi em Amor (Michael Haneke, 2012), e agora com esse – raridade das raridades -, notem a semelhança temática. Um casal de idosos vai visitar os filhos em Tóquio, depois de muito tempo sem vê-los. Todos já são adultos – um, inclusive, morreu na guerra, mas os idosos vão visitar a esposa dele -, ocupados com suas carreiras e filhos próprios. Solitários numa cidade grande demais, o casal se sente isolado e incômodo, até que pedem pra voltar. A premissa não podia ser mais simples, mas trata de tantos temas e de maneira tão sutil que é errado dizer que é só isso, mas é difícil explicar o que é que há de mais. Por sorte os japoneses têm a expressão exata pra coisa – a cerca de todos os filmes do Ozu tratam: mono no aware – mais ou menos, o pathos das coisas, aquele sentimento de melancolia perante a passagem do tempo. Essa melancolia não vem puramente da ansiedade, nem é pura tristeza que se sente com a passagem inevitável, é só reconhecimento. O filme é puro mono no aware, como o é aquilo que o espectador sente durante toda a narrativa.

TODO SOBRE MI MADRE [TUDO SOBRE MINHA MÃE] – PEDRO ALMODÓVAR (1998)

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Ou Tudo sobre as coisas horríveis que acontecem ao redor de minha mãe. Almodóvar é conhecido pelos enredos fortes e dramáticos, pude ver em A pele que habito. Mas não esperava tal sequência de coisas horríveis como em Tudo sobre minha mãe. Um pouco do enredo: uma mulher, depois de perder o filho, vai à Barcelona encarar uns fantasmas, e acaba se envolvendo em histórias curiosamente entrelaçadas – na minha opinião, coincidentes demais, mas deixa pra lá -, uma mais trágica que a outra. Em mãos de atores incompetentes, este melodrama não seria mais que uma telenovela barata. Graças a força do elenco e a capacidade da direção do Almodóvar, os problemas do enredo nunca chegam a atingir o filme, na verdade, se tornam completamente acreditáveis, plausíveis, mesmo reais. Fui positivamente surpreendido por esse filme. Admito que lia as sinopses dos filmes do Almodóvar e, conscientemente, os negligenciava, os via como muito melodramáticos – com uma parcela de razão -, mas fui injusto e quero me retratar. Não pretendo fazer uma escavação filmográfica, mas, quem sabe, uma leve exploração mais profunda, só pra saber que mais eu encontro nesse mundo terrível e colorido dele.

IL SORPASSO [AQUELE QUE SABE VIVER] – DINO RISI (1962)

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Dentre os cineastas clássicos italianos (Fellini, Antonioni, Bertolucci, de Sica, Visconti, Rossellini etc.), Dino Risi é um nome que demora a figurar nas listas, mas parece tão importante quanto. Il Sorpasso, ao menos, foi o filme mais surpreendente que vi nos últimos anos. Falo como se fosse novo, mas é uma pérola perdida, só recentemente adotada pela Criterion para nova apresentação. É um road movie típico, que, inclusive, parece ter um quê de On the Road, com seu protagonista porra-louca carismático feito um Dean Moriarty rico e, claro, italiano, mas com o mesmo lado golpista e quase sociopático. Este louco, viajando de carro, cruza com um jovem estudante de direito, tímido. De início, o louco só quer usar o telefone do jovem, logo os dois estão viajando juntos pelo interior de Roma e da Toscana, formando um frágil laço de amizade e, por que não?, uma intimidade quase paternal. Até que. Esse é um filme sutil em todos os aspectos. Desses que só olhar fixamente pro rosto dos atores já desenvolve tantas camadas na história. Não poderia falar nada mais detalhado sem estragar tudo. Sim, vejam essa festa pulsante sobre amizade e amor, família e liberdade, tão próxima do beat, que mistura bebop e Garcia Lorca, preferencialmente, sem ler nada mais sobre ela.

Andei lendo uns livros aí… #3

POEMAS – ALEJANDRA PIZARNIK

Tenho pouquíssimas informações sobre esse livro. Criei um vínculo extraliterário com ele. A poesia da Alejandra Pizarnik é uma ausência tremenda nas editoras brasileiras, negligência pura – que eu saiba, dela, até hoje, só uma novela foi publicada. Mas pra mim não foi só isso. O livro é uma seleção fina de poesias e fragmentos de prosa dessa autora. Não sei o ano, acho que é de uma coleção antiga de “literatura essencial” publicada na Argentina, julgando pela aparência do livro, vou julgar que em meados da década de 1980, senão fim de 1970. É aí que o livro se torna especial. O encontrei no meu primeiro dia em Buenos Aires. Estava perdido, buscando entre as ruas que cruzam com a Avenida Cordoba, alguma referência que me indicasse como chegar no Centro – precisava, logo, trocar dinheiro. Olho ao redor e me deparo com uma vitrine abarrotada de livros usados. Entro porque é mais forte do que eu. Não tinha muito dinheiro, mas deu pra sair de lá com esse livro e um de contos do Roberto Arlt, além de ter trocado uma ideia curta com o vendedor sobre estes autores e Mário de Andrade, e conseguir instruções de como me achar. Essas poesias me acompanharam pelos meus primeiros dias, perdidas comigo pela cidade. Foi necessário encontrar, dias depois, uma edição da obra completa dela, que me dedicarei a estudar. Aguardem traduções da poesia dela por aqui.

LA MÁQUINA DE PENSAR EN GLADYS [A MÁQUINA DE PENSAR EM GLADYS] – MARIO LEVRERO (1970)

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Outro achado em Buenos Aires, este em uma livraria “normal” – vendia livros novos, mas se especializava em literatura “underground” (por falta de palavra melhor), ou foi a impressão que tive vendo os títulos em destaque, gente que eu nunca tinha ouvido falar antes, o que me deixou triste por só ter ido lá no último dia, embora tenha visto o lugar várias vezes; pra que vocês que queiram ir pra lá não cometam o mesmo erro que eu, o nome é: Borges 1975 (endereço: rua Jorge Luis Borges, 1975, Palermo Soho), além de livraria, tem eventos culturais e um bar por lá, aproveitem por mim. Sobre o livro, já tinha ouvido falar que Levrero era um dos escritores mais inventivos dos últimos anos, mas não imaginava o quanto. Essa é a primeira coleção de contos do autor, que já servia de guia pro que ele viria a escrever em seguida. São histórias que variam entre 1 e 30 páginas, surreais sem nunca admitir seu surrealismo, beirando o absurdo. A influência de Kafka, nos contos mais “urbanos” é visível, também a influência das artes plásticas (descrições vívidas, cuidadosamente precisas, mais pelo prazer estético da visualização imaginária que pela necessidade de contexto literário), enquanto o surreal chega de surpresa, nunca se espera por ele mesmo quando ele está em todo lugar. Um livro muito impressionante, que beira o inclassificável. Um original, se é que eu sou capaz de reconhecer um desses. Também fica a ideia de traduzir aqui uns contos, pelo menos os mais curtos.

FAREWELL, MY LOVELY [ADEUS, MINHA QUERIDA]  – RAYMOND CHANDLER (1940)

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Minha relação com literatura policial é conturbada. Levo meses para terminar até os melhores livros da categoria – e tem muita coisa de qualidade. O motivo me escapa. Costumo gostar da narrativa e da escrita, mas algo não me prende. Deixo de lado, parto pra outros livros e demoro pra querer voltar. Aqui temos, talvez, a história de detetive. Philip Marlowe, clássico detetive de Chandler, investigando o sumiço de uma mulher, se envolve numa trama complexa que inclui roubo de joias, cassino ilegal, charlatões, hospícios e tráfico de drogas. Todos os ingredientes da receita pra um bom hardboiled tão aqui. Tem policiais corruptos no submundo urbano, femmes fatales, violência, sem nada daquilo que tanto me desagrada (e, ao que parece, a Chandler também) nas histórias de detetive: investigações e deduções forçadas que transformam as personagens em peças de xadrez. Gosto da estética hardboiled, dos filmes noir que esses livros inspiraram, de todo esse microuniverso literário, em se tratando disso: estética, apenas. Já pra ler de fato, a história é outra. Foi bastante arrastado. Gostei da experiência de ter lido um Chandler, pretendo ler outros – não tão cedo -, mas não foi uma leitura fluida. Esse é um dos casos em que o leitor é mais culpado que o livro.

Norwegian Wood (Noruwei no Mori) – Haruki Murakami (1987)

Mantendo minha proposta de migrar aos poucos o conteúdo do meu finado blog anterior, trago aqui minha resenha de Norwegian Wood, livro de Haruki Murakami, publicado em 1987, junto de breves considerações e comparações com sua adaptação cinematográfica, lançada no Japão em 2011, dirigida pelo vietnamita Ahn Hung Tran. Em primeiro momento, queria trazer para cá os textos palavra por palavra, com exceção de pequenas revisões, tendo em vista que as postagens percorrem um período de 4 anos e minha escrita, assim eu gosto de acreditar, se desenvolveu nesse tempo. Só que passaram quase 4 anos da minha leitura desse livro, como vocês podem perceber pelas datas junto aos links pras postagens originais, logo abaixo.

Não conseguirei resistir a mudar certas partes do texto, rever minha opinião, agora baseado em tudo que sei sobre Murakami e sua obra, principalmente considerando o quanto esse livro foi e ainda é importante para minha formação como leitor e, embora com ressalvas, escritor.Na época que li esse livro, era um leitor sem tanta experiência. Comecei sexta, achei que levaria mais tempo, mas esse livro é incrivelmente rápido, mais ou menos como a vida universitária – não sei se foi o objetivo, mas parabéns ao Muraka por gerar essa impressão, afinal, como ele é famoso por seu ritmo, lhe darei crédito independentemente.

A história é sobre Toru, um jovem universitário. Seus encontros, desencontros, amores, felicidades e tristezas. Ele se apaixona por Naoko, namorada de seu melhor amigo Kizuki, que, por sua vez, se suicida aos 17 anos, formando todo esse quebra cabeças afetivo que é o tema do livro. A música favorita de Naoko é Norwegian Wood, dos Beatles (excelente música por sinal). Toru a ouve, muitos anos depois dos acontecimentos desse livro, em um aeroporto, em versão orquestrada, o que lhe traz todas as memórias de sua juventude. Além de Naoko, Toru se encontra com Midori (que personagem fantástica!), companheira de sala que acaba se envolvendo com ele, complicando ainda mais essa tragédia moderna. Tragédia que, “por coincidência” é o tema de estudos dos jovens – Sófocles, Eurípides, sabe?

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Em geral o livro é sobre perdas. De pessoas, amores, juventude, até a vida. Todo tipo de perda ou, mais exatamente, transição, pois como o narrador define, morte não é necessariamente a perda da vida, mas sim parte dela. Mostra a difícil transição da juventude para a vida adulta, esse período entre os 18 e 20 anos, que, diferentemente da adolescência – que simplesmente acontece -, é uma transição escolhida e, muitas vezes, forçada e confusa, embora necessária.

As referências à cultura pop e o humor sutil e peculiar são os pontos fortes do romance, que fazem com que história não se torne um poço de depressão, até porque o objetivo da história é justamente esse – mostrar que, nesse mundo imperfeito de pessoas imperfeitas em que vivemos, merda acontece, e por mais cruel que isso possa parecer, essa merda deve ser superada. É difícil, mas não há nada que sexo, jazz, uísque e viagens não ajudem a esquecer.

Vamos, então, aos resultados do Bingo de Murakami para Norwegian Wood: ear fetish – dried-up well – cats – old jazz record – train station – precocious teenager – cooking – weird sex (tive problemas para definir o que é estranho para os padrões do autor, mas acho que entendi) – tokyo at night

Passei o livro todo esperando algo desaparecer, mas não aconteceu. Deve ter sido o efeito de “Minha Querida Sputnik”. Tampouco sei o que é um nome estranho para japoneses, por mim todos são esquisitos – tal como Raphael deve ser bizarro pra caralho para eles…

Não importa quanto tempo passe e livros do Murakami que eu leia, esse sempre se mantém como um dos melhores pra mim. Significou bastante na época. Minha visão do estilo do Murakami, hoje´, é outra. Não acho que ele seja tão bom, ou, poderia dizer, que ele tem muitos pontos fracos. Mas esse livro, independente das falhas, tem um charme inigualável. Talvez por ser tão simples. Ajudou muito que, na época da minha leitura, eu fosse um universitário de 21 anos, deslocado socialmente. Não fiquei surpreso quando soube que esse foi um experimento do autor. Quando escreveu esse livro, o nome dele já era conhecido entre os prêmios literários do Japão e os leitores mais interessados na vanguarda. Vendia sempre muito pouco. Então decidiu escrever um best seller com Norwegian Wood. Vale apontar que um best seller no Japão é bem diferente de um no Brasil ou nos Estados Unidos. Murakami tentou ganhar dinheiro e, pouco depois da publicação, viu que vendeu mais de um milhão de copias e que estava prestes a ser publicado no mundo todo.

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Tanto sucesso que até fizeram uma adaptação cinematográfica desse livro, com o mesmo nome. Na verdade, a adaptação é bastante fiel, até demais. Um filme de 2 horas não consegue retratar 350 páginas ou mais sem contar uns pedaços. É aí que o filme peca e por isso não posso indicar pra ninguém fora aqueles que amam muito esse livro e querem um pouco mais – desde que cientes da decepção que virá. A história é a mesma, mas, para que fosse possível a condensar em tão pouco tempo, ela salta no tempo, pula etapas, se despede de personagens que nunca foram apresentadas. Isso faz do filme confuso e mal feito para quem leu o livro, incompreensível para quem não o leu.

O triste é que, claramente, a adaptação foi feita por alguém com conhecimento e gosto pela obra. A fotografia é uma beleza, as atuações não poderiam ter sido melhores, a interpretação visual das personagens – tudo impecável. Mas algum produtor deve ter visto o filme, de início, perfeito, mas com 3 horas de duração, e dito ao diretor: corta essa merda, não quero que tenha mais de 2 horas. Claro que não sei se foi isso que houve. Mas o filme dá a impressão de ter vindo com peças faltando.

O livro, se você quer conhecer esse autor sobre o qual todo mundo fala, indico muito. É a obra perfeita para apresentar um novo leitor ao Murakami. Não é o melhor livro dele, apesar de insistir que ele é especial pra mim, mas é uma história sólida e tocante sobre juventude e seu fim.

Obs.: Isso não vai afetar a nota, pois a culpa é dos tradutores e revisores, mas a edição da Alfaguara vem com três belos erros de concordância, os quais não marquei, mas são bem visíveis durante a leitura. Não prejudica o entendimento, mas é feio pra cacete, viu Alfaguara (Objetiva)!

***

turismo (poesia 17)

a nós, os infelizes, não
deveria ser permitido sair
de casa, que dirá do país.
que terrível é conhecer
uma realidade melhor,
suportável em comparação
e, depois, ter que voltar,
um filho adotado devolvido,
e ter que, no ônibus, olhar
seus olhos distantes. te pergunto
no que você tá pensando.
no tanto que eu tenho pra
fazer essa semana, você responde.
é aí que me dou conta da minha
condição irreal na sua vida
e da sua na minha. é isso, não?
você tem emprego e família,
coisas que eu tenho, mas não agora,
dei pausa, ignoro, nesse breve
paraíso artificial em que pude viver
por uns dias. e os dias estão acabando,
passaram tão rápido que já acabaram
e faço esses versos de memória
sobre o momento do passado em
que pensava nessas coisas.
onde você está agora, ampulheta
do meu retorno? me pergunto.
eu volto ao trabalho agora, segunda,
voltei, mas ainda não sei que
porra estou fazendo aqui, nessa realidade
de papelão, que derrubaria com
um dedo, se tivesse coragem.
é o que acontece quando
um de nós, sempre insatisfeitos
com a realidade que nos cerca e
a qual você, com seus olhos distantes,
agora assiste na sua versão,
vê o que não deveria,
quando vemos aquilo que é melhor e,
pra piorar, é alcançável.
felicidade impulsiva,
essa tentação.