Decisões – diário de viagem #1; seguido de uma explicação breve

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Decisões

Tinha uma garrafa de vinho pela metade, uma taça toda manchada, no fundo e por toda a borda, do vinho e dos meus lábios, e, por todo o corpo, pelas minhas digitais; tinha meu notebook com dúzias de abas abertas comparando preços de hotéis e voos, e, em frente ao notebook, o meu cartão de crédito quase virgem. Eram três da manhã. Percebi, então, que meu suposto planejamento de anos para minha primeira viagem internacional foi uma fraude. Não tinha nada planejado. Até aquele minuto, a minha ideia era ir ao Rio de Janeiro (Santa Teresa, mais especificamente, e outras partes, indicadas por Ana – acho que ela gostaria desse pseudônimo, mas não é hora de entupir este texto de personagens; devo, acima de tudo, evitar o impulso de tornar isto demasiado literário) e à Curitiba para visitar umas cervejarias e fazer um passeio de trem pelo interior do Paraná (também indicado por Ana uma vez, agora que me lembro). Plano cancelado após ouvir falar de um arrastão nos albergues justo de Santa Teresa. Levaram tudo que uns gringos lá tinham, agrediram alguns deles. Tive medo, a verdade é essa. Além do mais, queria conhecer Buenos Aires. Tenho uma atração pela cidade, principalmente literária. Rasguei todos os planos e corri para agendar a viagem à Buenos Aires. Reservei um apartamento num Apart-Hotel em Palermo, onde a Avenida Córdoba se encontra com a Rua Serrano, a metros da Plaza Cortázar. Assim, em um piscar de olhos, estava tudo diferente e decidido. Fixo, parcialmente pago, sem volta. É isso que significa tomar uma decisão: ir do ilimitado ao limitado, sem mais nem menos, um minuto as possibilidades são infinitas (retoricamente, existem fatores limitantes incontáveis, porém inconcretos) noutro é uma só. O mesmo vale para a escrita. O clichê da primeira frase, da primeira palavra. A primeira vez que o pincel molhado de tinta toca a tela branca. Antes desses primeiros atos, tudo é possível; depois deles, os próximos devem seguir o primeiro em busca de um fim. Ao mesmo tempo, o infinito pré-decisão não é nada. Sem decidir o destino, não viajaria. Se não escrevesse as primeiras palavras deste texto, ele não existiria, como os textos, que imaginei mas não comecei a escrever, não existem. É a limitação da existência. Para que algo exista é necessário que tudo além do que surge deixe de existir, pelo menos no tempo ocupado pelo que surge. Leia um livro e, enquanto isso, deixe de ler os outros milhões de milhões de livros publicados e disponíveis. Viva um relacionamento monógamo e livre de adultério, negligencie todas as outras pessoas disponíveis no mundo. Nunca tome uma decisão, fique eternamente parado no centro de uma sala vazia pensando nos infinitos passos não dados com uma falsa sensação de possibilidade e liberdade.

Sou analítico. Sempre fui e não tenho arrependimentos por isso. Tenho, mas nada que me oprima. Só tenho os arrependimentos que todos têm. Refaria certos aspectos da minha vida, mas estou satisfeito com o ponto que cheguei apesar disso. Mas essa minha mania de parar e refletir sobre qualquer coisa por tempo indeterminado não é um dos arrependimentos. Mas é um traço que me causa ansiedade, e uma decisão tão impulsiva como essa de ir à Buenos Aires está me causando grande ansiedade. Há um mês que comprei a passagem e fiz a reserva do hotel, mas parece que faz poucas horas, e só vou acreditar que a viagem deu certo quando falarem comigo em espanhol – todos falarem em espanhol, usando o voseo. Mas a ansiedade, como a decisão e tudo que se perde ao se tomar uma decisão, é parte da vida. Eu a abraço e aceito. Me sinto feliz por baixo da ansiedade. Feliz é uma palavra complexa e não significa nada, mas o que eu quero dizer é que estou satisfeito. Essa é a chave: satisfação. Isso basta. Tem que bastar, do contrário felicidade não existe. Somos uma multidão de desesperados num baile de justificativas e desculpas inventadas para cada uma de nossas ações, forçando sorrisos, forjando regras, tudo em busca da vida ideal. Grande bobagem. Por isso o existencialismo francês é um clichê. Nós sabemos da ansiedade e do vazio. Mas o que fazer? Não há nada a se fazer. Estamos aqui e as coisas são como são. Não há por que remoer sobre aquilo que não tem conserto. O resto é esperar pra ver.

***

A explicação: sumi por mais tempo que o normal porque estava em Buenos Aires. Fui dia 12 e cheguei dia 21. Infelizmente cheguei. Ainda processando a coisa toda porque, como descrito nesse texto que fiz um dia antes de ir, tudo foi rápido, como um sonho. Ontem ia pro Rio, ontem ia pra Buenos Aires, ontem estava em Buenos Aires. E agora? Acabou? Talvez. Já estava decidido a fazer uma espécie de diário de viagem, mas, como vocês já devem ter percebido – comecei antes do primeiro dia -, não vai ser um diário comum. Pretendo fazer um diário de sensações, um conjunto disforme de ideias, passando por vários estilos literários e evitando entrar muito em qualquer um deles. Se começo a soar como literatura, é porque me desvirtuei e tenho que rever. Não sei se todos os textos vão pro blog, tenho intenções mais sérias com ele. Por outro lado, não quero trancá-lo num arquivo de texto pro resto da minha vida. Tenho tanto para escrever e quase não tive tempo de escrever lá, portanto, vou ter que revisar de memória – o que não vai ser difícil. Pretendo voltar às atividades normais nos próximos dias. Não esperem uma longa sequência de textos sobre Buenos Aires.

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4 comentários sobre “Decisões – diário de viagem #1; seguido de uma explicação breve

  1. Eu ainda estou aqui processando toda essa informação, ansiosa para domingo chegar.
    Será que eu sei quem é a Ana? Perguntas, perguntas e mais perguntas.
    Vou ler todo o seu diário de viagem? Vou sim! Ansiosa por mais informações.

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  2. Bom,eu já estava ficando ansiosa pelo sumiço,queria ler algo novo,menino!Felizmente,você foi viajar,mover-se,conhecer ou descobrir,ou os dois.A ansiedade só é negativa quando te paraliza,estagna.Sentir aquele friozinho sempre é bom e analisar bom,vício,rs.Pensar demais nunca ajuda….Sartre fazia seus personagens conscientes demais e ainda sim,tomavam as escolhas mais fodidas.Consciência também não significa nada…veja o nosso país,cheio de pessoas conscientes..rs.Pode ficar tranquilo,cara,não sou stawlker,kkkkkkkSó curto muito seus textos,até!

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    1. Voltei! (…infelizmente.) Concordo com basicamente tudo que você disse. Além do mais, ansiedade, autoconsciência, análise excessiva, pra mim tudo isso é incontrolável. E sou partidário da ideia de que não existem decisões melhores ou piores, só as decisões tomadas – o resto é só ilusão do caminho não percorrido. Tudo parte da experiência e não há remédio que cure.
      Muito grato por todos os comentários.

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