achei uma raposa (poesia 16)

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uma típica raposa selvagem
parte cobre        parte branca
cheirando o quintal de uma casa
talvez a dos meus pais ou uma das
            em que eles viveram um dia
a anterior à atual com o chão de pedras
   e a piscina de água verde amarronzada
       salpicada de folhas secas
    o nome da raposa?    não recebeu um
estávamos todos      quem?         quantos?
                        ansiosos pra ver a reação do pobre

cão         baltazar      velho de guerra
ao conhecer seu novo amigo
          logo um cão que sempre deu
                preferência aos primatas ante
os caninos
mas se aproximaram um do outro
               com cautela claro
             trocando cheiradas até se
  voltarem pra si mesmos um
           fingindo que o outro não estava lá
que não existia
que tal encontro nunca havia acontecido
tentei me aproximar de um pra
 atrair o outro              não aconteceu
 se ignoravam              não se viam
 tão breve contato e já tão humanos

mas estávamos de mudança
      insisto nesse nós
na presença de outros que nunca
                                 deram as caras
abri a porta do carro e deixei
      a raposa ou o cão ou os dois entrarem
o cão sumiu sem que se desse conta
      a raposa foi à caça dum pequeno pássaro
quase abatido
      largado no meio do caminho
        a raposa se aproximava sorrateira
mas foi repreendida
   pelo que?          sabe-se lá
     vozes         presenças
que insistem em surgir ocultas       e partir ocultas
abriu a boca e o pássaro
vivo                      morto               
                                        caiu
largou o pássaro e achou o ninho
se refestelou nas cascas e fluídos e carnes fetais
                                       outra repreensão mesmo que tardia
           a raposa essa inconsciente assassina selvagem
sacudiu o corpo para tirar a morte dos pelos
  atirando gosma e casca
                pelo chão e pelas paredes
                      e entrou no carro e dormiu
                              terminado o bom dia de caça

      a nova casa era diferente
uma que nunca vi
 abro a porta do carro para deixar a raposa sair
já não está lá
        fecho a porta sem questionar nada
me sinto incapaz de questionar qualquer coisa
se não está lá é porque não deve estar lá
se estivesse seria errado
        esqueço
é como se a raposa nunca tivesse existido
e
  de certa forma
                         nunca existiu

não entro na casa nova
                      ao invés disso
 vou à praia que fica bem de frente à casa
pois nunca morei num lugar com vista à praia antes
 vou à praia mesmo que eu odeie praias
                                          areia cheiro do mar
caminho devagar
                         sinto a areia úmida entre os dedos dos meus pés
                                 grudando às solas dos meus pés
           lá está a raposa não tão longe
           sentada ela me observa
           ou não me observa
           fecha os olhos como um gato
    para apagar o mundo
ela corre         eu corro atrás   
     sinto que quer me mostrar alguma coisa
quê de arrogância da minha parte
          achar que todo animal
                é símbolo
        significa qualquer coisa
    referente a minha vida mais importante
ela não correu porque queria correr
           correu porque queria me mostrar algo
me levar ao meu destino

quando ela para avisto dois homens e uma mulher
          acoplados
a mulher penetrada por trás pelo homem penetrado por trás pelo outro homem
    quase um novo animal único
                                          a fusão dos três
              o raríssimo humanoide de três cabeças
       um hermafrodita hiperssexual
de seis pernas e seis braços e dois paus e uma boceta e três cus
    um espécime deliciosamente interessante
mas desequilibrado
         tenta dar o primeiro passo
                        cai de cara na areia
o primeiro rosto o feminino 
se afunda em cheio na areia
o segundo rosto o masculino 
na nuca da primeira cabeça
o terceiro rosto o masculino
na nuca da segunda cabeça
na areia dorme ou dormem
                                o mar banha em intervalos seus vários pés
tiro uma foto
                        a raposa da várias lambidas em cada um dos rostos
                 late estridente três vezes     uma despedida
                                   mística desaparece
                             não antes de eu tirar outra foto
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3 comentários sobre “achei uma raposa (poesia 16)

      1. Não que todas as coisas que a gente escreve tenham que ser assim “sem sentido”. Mas, quando são um convite ao estranho ou à viagem, abrem mais possibilidades para quem lê e para nós mesmos… ^^

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