Diário de viagem #2 e 3

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Zuihitsu e meu motivo

Deixar a caneta correr junto ao fluxo de ideias, não depois. Escrita impulsiva como minha decisão de viajar, livre. Livre de conteúdo, livre de formato, livre de regras, e, por isso mesmo, a mais difícil e verdadeira e restrita. Japonesa, como só poderia ser.

Achei que combina com meus objetivos de registro de viagem. Um diário não é meu estilo. Sem falar que quem tem tempo pra diário durante uma viagem? Ou escrevo ou faço coisas. Um diário seguindo cronograma, feito por mim, só poderia ser sobre os esforços de manter um diário, sem nada que acontecesse antes ou depois da escrita. A escrita, seu processo, seria o todo, o dia. Por isso que comecei antes e pode ser que só termine muito depois. Mas quero registrar e gostei desse estilo. Parece com meus planos de viagem. Um pouco de tudo, um pouco de nada. A melhor e a pior maneira de viajar. Largar o turismo para tentar entrar na pele de um habitante nativo, se fazer passar por um, por mais ilusória que possa parecer essa tentativa.

23-D

A mulher loira, cujo nome eu não sei e talvez nunca vá saber – na verdade, posso dizer com alguma segurança que nunca mais nos veremos (que não nos vimos, pois não trocamos olhares conscientes), que em poucas horas não serei mais capaz de reconhecer seu rosto – sentada na fileira ao lado da minha no avião, cutuca com as unhas de uma mão as unhas da outra mão para limpá-las do esmalte, que aos poucos se solta em pequenas peças grudentas de quebra-cabeça em formato de unha vermelha, que nunca poderá ser juntado novamente porque parte das peças ficou grudada debaixo da unha que cutuca, parte voou e caiu no piso do avião, e o resto entre a superfície da bolsa dela e a palma da mão que cutuca, estas partes ela vai tentar juntar em uma palma enquanto espera a decolagem terminar para ir ao banheiro e lavar as mãos, o que, logo, ela faz, e volta a sua cadeira, espanando as calças com as mãos e seus dedos com unhas quase totalmente livres de esmalte. Talvez agora eu consiga voltar a minha leitura.

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Decisões – diário de viagem #1; seguido de uma explicação breve

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Decisões

Tinha uma garrafa de vinho pela metade, uma taça toda manchada, no fundo e por toda a borda, do vinho e dos meus lábios, e, por todo o corpo, pelas minhas digitais; tinha meu notebook com dúzias de abas abertas comparando preços de hotéis e voos, e, em frente ao notebook, o meu cartão de crédito quase virgem. Eram três da manhã. Percebi, então, que meu suposto planejamento de anos para minha primeira viagem internacional foi uma fraude. Não tinha nada planejado. Até aquele minuto, a minha ideia era ir ao Rio de Janeiro (Santa Teresa, mais especificamente, e outras partes, indicadas por Ana – acho que ela gostaria desse pseudônimo, mas não é hora de entupir este texto de personagens; devo, acima de tudo, evitar o impulso de tornar isto demasiado literário) e à Curitiba para visitar umas cervejarias e fazer um passeio de trem pelo interior do Paraná (também indicado por Ana uma vez, agora que me lembro). Plano cancelado após ouvir falar de um arrastão nos albergues justo de Santa Teresa. Levaram tudo que uns gringos lá tinham, agrediram alguns deles. Tive medo, a verdade é essa. Além do mais, queria conhecer Buenos Aires. Tenho uma atração pela cidade, principalmente literária. Rasguei todos os planos e corri para agendar a viagem à Buenos Aires. Reservei um apartamento num Apart-Hotel em Palermo, onde a Avenida Córdoba se encontra com a Rua Serrano, a metros da Plaza Cortázar. Assim, em um piscar de olhos, estava tudo diferente e decidido. Fixo, parcialmente pago, sem volta. É isso que significa tomar uma decisão: ir do ilimitado ao limitado, sem mais nem menos, um minuto as possibilidades são infinitas (retoricamente, existem fatores limitantes incontáveis, porém inconcretos) noutro é uma só. O mesmo vale para a escrita. O clichê da primeira frase, da primeira palavra. A primeira vez que o pincel molhado de tinta toca a tela branca. Antes desses primeiros atos, tudo é possível; depois deles, os próximos devem seguir o primeiro em busca de um fim. Ao mesmo tempo, o infinito pré-decisão não é nada. Sem decidir o destino, não viajaria. Se não escrevesse as primeiras palavras deste texto, ele não existiria, como os textos, que imaginei mas não comecei a escrever, não existem. É a limitação da existência. Para que algo exista é necessário que tudo além do que surge deixe de existir, pelo menos no tempo ocupado pelo que surge. Leia um livro e, enquanto isso, deixe de ler os outros milhões de milhões de livros publicados e disponíveis. Viva um relacionamento monógamo e livre de adultério, negligencie todas as outras pessoas disponíveis no mundo. Nunca tome uma decisão, fique eternamente parado no centro de uma sala vazia pensando nos infinitos passos não dados com uma falsa sensação de possibilidade e liberdade.

Sou analítico. Sempre fui e não tenho arrependimentos por isso. Tenho, mas nada que me oprima. Só tenho os arrependimentos que todos têm. Refaria certos aspectos da minha vida, mas estou satisfeito com o ponto que cheguei apesar disso. Mas essa minha mania de parar e refletir sobre qualquer coisa por tempo indeterminado não é um dos arrependimentos. Mas é um traço que me causa ansiedade, e uma decisão tão impulsiva como essa de ir à Buenos Aires está me causando grande ansiedade. Há um mês que comprei a passagem e fiz a reserva do hotel, mas parece que faz poucas horas, e só vou acreditar que a viagem deu certo quando falarem comigo em espanhol – todos falarem em espanhol, usando o voseo. Mas a ansiedade, como a decisão e tudo que se perde ao se tomar uma decisão, é parte da vida. Eu a abraço e aceito. Me sinto feliz por baixo da ansiedade. Feliz é uma palavra complexa e não significa nada, mas o que eu quero dizer é que estou satisfeito. Essa é a chave: satisfação. Isso basta. Tem que bastar, do contrário felicidade não existe. Somos uma multidão de desesperados num baile de justificativas e desculpas inventadas para cada uma de nossas ações, forçando sorrisos, forjando regras, tudo em busca da vida ideal. Grande bobagem. Por isso o existencialismo francês é um clichê. Nós sabemos da ansiedade e do vazio. Mas o que fazer? Não há nada a se fazer. Estamos aqui e as coisas são como são. Não há por que remoer sobre aquilo que não tem conserto. O resto é esperar pra ver.

***

A explicação: sumi por mais tempo que o normal porque estava em Buenos Aires. Fui dia 12 e cheguei dia 21. Infelizmente cheguei. Ainda processando a coisa toda porque, como descrito nesse texto que fiz um dia antes de ir, tudo foi rápido, como um sonho. Ontem ia pro Rio, ontem ia pra Buenos Aires, ontem estava em Buenos Aires. E agora? Acabou? Talvez. Já estava decidido a fazer uma espécie de diário de viagem, mas, como vocês já devem ter percebido – comecei antes do primeiro dia -, não vai ser um diário comum. Pretendo fazer um diário de sensações, um conjunto disforme de ideias, passando por vários estilos literários e evitando entrar muito em qualquer um deles. Se começo a soar como literatura, é porque me desvirtuei e tenho que rever. Não sei se todos os textos vão pro blog, tenho intenções mais sérias com ele. Por outro lado, não quero trancá-lo num arquivo de texto pro resto da minha vida. Tenho tanto para escrever e quase não tive tempo de escrever lá, portanto, vou ter que revisar de memória – o que não vai ser difícil. Pretendo voltar às atividades normais nos próximos dias. Não esperem uma longa sequência de textos sobre Buenos Aires.

achei uma raposa (poesia 16)

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uma típica raposa selvagem
parte cobre        parte branca
cheirando o quintal de uma casa
talvez a dos meus pais ou uma das
            em que eles viveram um dia
a anterior à atual com o chão de pedras
   e a piscina de água verde amarronzada
       salpicada de folhas secas
    o nome da raposa?    não recebeu um
estávamos todos      quem?         quantos?
                        ansiosos pra ver a reação do pobre

cão         baltazar      velho de guerra
ao conhecer seu novo amigo
          logo um cão que sempre deu
                preferência aos primatas ante
os caninos
mas se aproximaram um do outro
               com cautela claro
             trocando cheiradas até se
  voltarem pra si mesmos um
           fingindo que o outro não estava lá
que não existia
que tal encontro nunca havia acontecido
tentei me aproximar de um pra
 atrair o outro              não aconteceu
 se ignoravam              não se viam
 tão breve contato e já tão humanos

mas estávamos de mudança
      insisto nesse nós
na presença de outros que nunca
                                 deram as caras
abri a porta do carro e deixei
      a raposa ou o cão ou os dois entrarem
o cão sumiu sem que se desse conta
      a raposa foi à caça dum pequeno pássaro
quase abatido
      largado no meio do caminho
        a raposa se aproximava sorrateira
mas foi repreendida
   pelo que?          sabe-se lá
     vozes         presenças
que insistem em surgir ocultas       e partir ocultas
abriu a boca e o pássaro
vivo                      morto               
                                        caiu
largou o pássaro e achou o ninho
se refestelou nas cascas e fluídos e carnes fetais
                                       outra repreensão mesmo que tardia
           a raposa essa inconsciente assassina selvagem
sacudiu o corpo para tirar a morte dos pelos
  atirando gosma e casca
                pelo chão e pelas paredes
                      e entrou no carro e dormiu
                              terminado o bom dia de caça

      a nova casa era diferente
uma que nunca vi
 abro a porta do carro para deixar a raposa sair
já não está lá
        fecho a porta sem questionar nada
me sinto incapaz de questionar qualquer coisa
se não está lá é porque não deve estar lá
se estivesse seria errado
        esqueço
é como se a raposa nunca tivesse existido
e
  de certa forma
                         nunca existiu

não entro na casa nova
                      ao invés disso
 vou à praia que fica bem de frente à casa
pois nunca morei num lugar com vista à praia antes
 vou à praia mesmo que eu odeie praias
                                          areia cheiro do mar
caminho devagar
                         sinto a areia úmida entre os dedos dos meus pés
                                 grudando às solas dos meus pés
           lá está a raposa não tão longe
           sentada ela me observa
           ou não me observa
           fecha os olhos como um gato
    para apagar o mundo
ela corre         eu corro atrás   
     sinto que quer me mostrar alguma coisa
quê de arrogância da minha parte
          achar que todo animal
                é símbolo
        significa qualquer coisa
    referente a minha vida mais importante
ela não correu porque queria correr
           correu porque queria me mostrar algo
me levar ao meu destino

quando ela para avisto dois homens e uma mulher
          acoplados
a mulher penetrada por trás pelo homem penetrado por trás pelo outro homem
    quase um novo animal único
                                          a fusão dos três
              o raríssimo humanoide de três cabeças
       um hermafrodita hiperssexual
de seis pernas e seis braços e dois paus e uma boceta e três cus
    um espécime deliciosamente interessante
mas desequilibrado
         tenta dar o primeiro passo
                        cai de cara na areia
o primeiro rosto o feminino 
se afunda em cheio na areia
o segundo rosto o masculino 
na nuca da primeira cabeça
o terceiro rosto o masculino
na nuca da segunda cabeça
na areia dorme ou dormem
                                o mar banha em intervalos seus vários pés
tiro uma foto
                        a raposa da várias lambidas em cada um dos rostos
                 late estridente três vezes     uma despedida
                                   mística desaparece
                             não antes de eu tirar outra foto