o exótico triatlo japonês (poesia 15)

sier90


 

tudo começou na fila de um refeitório
lá eu já não sabia onde estava nem
o que estava fazendo nem por que
mas tinha uma bandeja em mãos
sobre ela um prato e talheres e um
guardanapo de papel bem dobrado
seguia a fila que levava às opções de comida
saladas e carnes e massas et cetera
um típico quilo diferente por não ter mesas
me servi sem ver o que pegava
não importava afinal era só comida
coisas para manter o corpo ativo
botei o prato na balança e dei um cartão
branco sem valor pra moça que me atendia
ela eu conhecia de algum lugar
todo mundo ali eu conhecia de algum lugar
vários lugares diferentes
uma amálgama de figuras da minha vida
ali
gente com quem nem falava mas
vi passar na rua tal dia e a cara
se queimou na minha memória bizarra
que grava coisas sem saber o motivo
e esquece outras que podiam ser importantes
memória sem noção de prioridade
mas a comida está paga e
só então descubro para onde ir

àquela velha e familiar sala de aula
com as mesas e cadeiras de madeira compensada
a sala-de-jaula de tijolos vermelhos
o quadro negro como um olho que tudo vê sobre nós
o palanque de dez centímetros de altura
símbolo da superioridade do professor
que a instituição mantinha a rédeas curtas
deixei a bandeja sobre uma das mesas e sentei
quantos mas quantos rostos conhecidos
mas ninguém que viesse falar comigo
achava que um ou outro se referissem a mim
à distância aos cochichos
e eventualmente alguém se aproximou
falando como se não me visse havia muito tempo
o que estou fazendo aqui, eu disse
é aula, ela disse, lê esse texto
é importante é Derrida difícil pra caralho
mas é o tema de hoje então corre
boto o texto de lado umas tantas folhas grampeadas
nada que eu já tenha ouvido falar do Derrida
do Derrida só conheço reputação
fama e infâmia mas acima de tudo tenho fome
corto a comida a levo à boca mastigo mas não me concentro
meus olhos vão ao texto e voltam à comida
travo várias vezes até desistir antes de terminar o prato

o texto começa com duas imagens jornalísticas
com legenda que fala do exótico e humilhante
triatlo tradicional do Japão
das lutas contra essa tradição terrível
degradante às jovens mulheres japonesas
amaldiçoadas com o talento incrivelmente
específico que o esporte requer
um misto de acrobacia equilíbrio na corda bamba e tiro ao alvo
entre três cordas bambas sob as quais não há rede
a atleta deve fazer a série mais complexa possível de acrobacias
o grau de dificuldade e a perfeição no ato é julgado
por cinco membros da realeza imperial nipônica
ao chegar na terceira corda
a pobre moça deve caminhar sobre ela
até alcançar uma lança
voltar ao centro da corda e
atirar essa lança num alvo
um imenso triângulo de Sierpinski
devendo atingir um dos seus vértices
a diferença de valor de pontos entre cada vértice é
ao que tudo indica arbitrária
tudo feito com sucesso
a atleta deve então voltar
para que seus pontos valham
e a perdedora deve morrer

o mais humilhante no entanto o texto aponta
é que as vestes das atletas nunca cobrem
com sucesso a genitália
elas podem largar essa vida
mas ninguém precisa de gente com os talentos delas
na vida real
se veem presas ao jogo para sobreviver
contudo são milionárias e respeitadíssimas
as que vivem o suficiente
e por outro lado largar a carreira é imensa desonra
a essa altura a foto virou um filme de uma partida
vejo o movimento a tensão diante dos meus olhos
o suor escorrer pelo corpo da atleta
incomodada pelos fios invasivos de sua roupa
e pelos olhos invasivos dos espectadores
no estádio na bancada de juízes
em casa assistindo quiçá com o pau na mão
e meus próprios olhos invasivos
que veem o close da câmera
na moça curvada pronta pra dar sua série de saltos e piruetas
e o close se aproximava da faixa
do tecido que era segunda pele incompleta
que apertava a vulva até que
seus lábios asas de borboleta fugissem do casulo
e a essa altura já não sei se estou na sala de aula lendo
se estou em casa vendo o espetáculo
descontrolado pela hipnose irracional do entretenimento
não sei mais de muita coisa
muito menos por que uma lança
que atingiu a face de um dos 
menores triângulos
quase quase no centro
não valeu pontos

---
Já editei essa merda umas cinco ou seis vezes. 
Desculpem os transtornos.
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2 comentários sobre “o exótico triatlo japonês (poesia 15)

    1. Muito obrigado. Gostei da sua interpretação. Pra ser honesto, o processo de criação desse aí foi uma bagunça, por isso, até depois da revisão, precisei rever mais umas 5 vezes. Não cheguei a pensar em significado nem achei que tivesse um.

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