assistindo; a que? não se sabe

dylan-thomas-1941

aqui estou eu, meio dia e vinte, naquele mesmo quilo, à mesa que por hábito chamo de minha, pensando em cenas para o romance que escrevo há 4 anos e visto como roupa e no quanto quero escrever uma poesia de novo, mas não qualquer outra poesia como as de antes, uma que será notada de alguma forma irreal porque às vezes sou tomado por essa ideia narcisista de que eu mereço ser notado mais que aquele outro poeta, o que é mentira, mas poderia não ser, não poderia? e no fim não escrevo nada, apenas ouço a sinfonia do tilintar e raspar dos talheres nos pratos feito triângulos e reco-recos de porcelana ressoando arrítmicos e desafinados e me cercando, e encaro o fato de que meu livro de poesias, sim sou cara de pau a ponto de o chamar assim pois é o único nome que posso dar a ele, nunca foi lido por ninguém e o romance nunca será lido por ninguém. não ignorado. não reprovado. ele é invisível e eu, a minha maneira, sou também invisível. nada me vê no quilo ou nas ruas ou na cidade. posso passar despercebido, mesclado ao elenco dessa ópera improvisada de vozes que, não cantam, sussurram e falam e gritam das banalidades de suas vidas, de sei quem lá que acaba de ter filho e sei quem outro que acaba de casar e sei lá eu quem morreu – o que, na verdade, é o que há de mais importante, e se torna banal apenas pela repetição e frequência desses acontecimentos que de tão inevitavelmente fundamentais são fraquíssimos – e completa o coral a criança que chora ou grita por atenção não sendo capaz de compreender a música sem melodia que cerca a todos, dentro disso eu posso passar despercebido e deixar de existir da noite para o dia; sem fazer parte do canto, posso puxar minha caderneta e lápis e rabiscar essas cenas, rabiscar o palhaço a minha frente com o filé de frango empanado pendurado entre os dentes e lábios com um celular nas mãos, sorrindo, vendo só ele sabe o que; fazer deste palhaço arte tão alta quanto minhas capacidades – um tanto mínima e, acima de tudo, invisível. arte pelo fantasma da Marcos Konder, avenida invisível de uma cidade invisível num estado fantasma; nenhum radar pode nos captar, nem melancias adornando nossos pescoços ajudariam. parece que ao se viver tempo o suficiente como câmera de um filme falso, logo se perde o papel até de figurante nas cenas dos outros.

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