Youtube, livros, editoras e outras chateações

livros

Tá na hora de tocar nesse assunto?, falar de livros de youtubers et cetera? Queria me convencer de que já passou da hora, que isso não tá mais acontecendo e foi só um sonho ruim. Bem, não é o caso. Nada baixa a ereção financeira dessas editoras, agora cada uma delas tá vasculhando os buracos mais sórdidos da internet buscando um youtubeiro para chamar de seu. Isso é a pior coisa do mundo?, razão de todo esse alarde? Não. É inesperado? Não. É errado ou antiético? Talvez, mas o mercado editorial nunca teve nada contra o errado e o antiético – é, afinal, um mercado -, logo, mesmo que assim seja, não é novidade.

Convenhamos, é mentira que esse povo do youtube tá roubando espaço de escritores de verdade. É bom tirarmos esse argumento do caminho logo de uma vez. Escritores brasileiros de boa literatura contemporânea sempre foram minoria nas editoras e vão continuar sendo. Se alguma editora ainda publica autores de “literatura” – e me permitam não ter que conceituar literatura neste texto, pois acho que todos sabem do que estou falando – é pura e simplesmente por obrigação moral. O escritor contemporâneo é um estorvo no mercado editorial, um teimoso que insiste em existir e impede as editoras de lucrarem por completo. O que mais me intriga nesse oceano de críticas aos livros de gente do youtube (desculpem-me, sou velho – de alma -, youtuber é uma palavra que me deixa ruim do estômago) é que raramente elas vêm de pessoas que poderiam ser chamadas “leitores ávidos”. Se for parar pra fazer um levantamento estatístico das fontes dessas críticas, a maioria vem de outras pessoas do youtube, menores ou não que os que escreveram os tais livros, que, por acaso, ainda não fecharam contrato com editora nenhuma – pra esses, eu digo, é só questão de tempo.

Vou dizer de uma vez que nunca li e nem pretendo ler um desses livros. Não por serem “ruins”, “errados”, “criminosos”. Acontece que eles não me afetam. Quase não acompanho canais de youtube. Vejo uns vídeos, de vez em quando, mas não é bem meu tipo de entretenimento. Digamos que eu não “falo a língua”, é só. Mas não desmereço o conteúdo. Os poucos que vi, por indicação de terceiros de confiança, não foram de todo ruins, mas não me peçam pra lembrar o nome de quem quer que seja. Os melhores vêm com boas ideias já digeridas praqueles que não conhecem determinado conceito ou ideia ou coisa assim. O que eu fiz, no entanto, foi ler as opiniões de gente tanto que acompanha e não acompanha essas pessoas sobre os tais livros. Ver quais pontos se repetem, quais as críticas e elogios mais comuns, o que mais aparece nos livros (biografia, crônica, roteiros transcritos, algo de novo etc.), e, assim, tentar formar um argumento que justifique minhas objeções. Pode não parecer, mas é mais justo com os livros que eu filtre minha opinião pela dos outros, nesse caso, do que eu mesmo vá atrás de ler os livros. Repito, não sou o público-alvo de nenhum deles. Não foram feitos pra mim, não me diriam nada – isso me baseando só nos vídeos que vi. Partindo do ponto de vista expresso pelo público-alvo, posso ter acesso aos lados positivos dos livros, mesmo que seja por segunda mão, que talvez lendo os livros eu não fosse perceber.

Aconteceu que, feita a pesquisa, a maior parte dos lados positivos tinham tom de desculpas. Ok, o livro não é lá essas coisas, “mas foi um presente para os fãs”; “pra entender, você precisa acompanhar os vídeos”; “foi pra imortalizar o canal”. Nenhum destes é motivo pro livro existir pra começo de conversa, e parece autoengano de um leitor não exatamente satisfeito mas que defende a pessoa que admira até o fim.

Comecemos pelo presente para os fãs. Que presente é esse que o presenteado tem que pagar pra receber? Existem maneiras de preparar uma lembrança/presente, barata de produzir e sem custos para os fãs. Sem fins lucrativos, no entanto – talvez esse tenha sido o problema. Depois vem a questão do precisar ver os vídeos. Por que exatamente? O livro não deveria ser uma obra separada? Além do mais, um livro publicado – exposto ao “público” – não pode contar apenas com admiradores prévios como leitores. Afinal, não é como se a editora só tivesse fechado o contrato contando que o autor viria com um rebanho consumidor de um milhão ou mais cabeças, é?

Enfim, a questão do imortalizar. Hoje em dia, com nosso conhecimento arqueológico, sabemos que a maior parte da história foi apagada há muitos séculos e continua sendo, de incidente em incidente, de ditador maluco em ditador maluco, de guerra em guerra. Livros sumiram do mapa e ainda somem. Escrever com vista à posteridade é inocência, sempre foi e sempre será. Irônico até que, hoje, a forma mais segura de “imortalização” seja a internet. Sim, vídeos no youtube, desde que seus arquivos originais sejam guardados em algum canto da “nuvem”, são, essencialmente, “imortais”. Claro, quando o declínio da nossa civilização realmente tomar fôlego e toda nossa rede de dados for apagada ou se tornar inacessível, vai morrer, mas, nesse ponto, também irão os seres humanos, inutilizando os livros de igual maneira.

Se nenhum dos elogios que listei serve pra justificar a existência desses livros, eles são errados? Não. Ponha-se no lugar do “autor”. Está você em paz, quieto, fazendo seus vídeos. Entra em contato contigo uma das maiores editoras do Brasil e te diz: – Farejamos os rabos dos teus seguidores e achamos dinheiro. Tá afim de explorar essa oportunidade? É muito dinheiro por zero esforço. – O que você faria? Tenho minha relação pessoal com literatura, minhas próprias aspirações, desejo de publicar o que escrevo, então minha resposta seria diferente, se eu recebesse esse tipo de proposta. Mas a maior parte desses criadores de conteúdo não escrevem, nunca pensaram em escrever. Quando muito, escrevem seus roteiros, mas estes seguem outro método, são animais diferentes dos livros longos, sejam de narrativa de ficção, crônica ou biografia.

O grande problema é que a existência desses livros, dessa estratégia mercadológica, é legitima. Funciona e nada pode ser dito contra ela, justo porque ela funciona. Aí ouvimos aquela típica frase-sequestro, dita pelos próprios youtubeiros, por autores best-seller, pelos editores e até os próprios autores “sérios”: são estes livros que financiam projetos literários que não darão retorno financeiro – esses sendo todos os livros “sérios” de ficção, não-ficção, poesia, qualquer coisa que não seja estritamente comercial. Há argumentos contra isso? Não. Fomos nós que nos colocamos nesse estado, na verdade. Não nós eu e você, mas nós a sociedade atual, contemporânea, resultado de processos sociológicos inúmeros do passado. Constatado esse fato, qualquer coisa além dele é uma discussão infinita baseada no velho arranca-rabo entre o ovo e a galinha, entre o frescor e a velocidade das vendas da bolacha Tostines: as editoras só publicam literatura comercial porque é o que os leitores querem, ou os leitores querem literatura comercial porque é só que as editoras publicam. Shakespeare e Dickens escreviam por dinheiro, o que difere esses dois de Paulo Coelho e James Patterson, além do período em que escreviam? (Bom, James Patterson tem estagiários que escrevem os livros por ele e é basicamente uma corporação literária com nome de pessoa, mas isso não vem ao caso.) Foi o público que mudou e hoje não liga mais pra histórias dickensianas? A diferença no tratar da prosa é tangível, mas qual o valor objetivo da bela prosa?

Não tenho respostas para essas perguntas. Tenho meu gosto e ele me basta, mas não sei em que ele se baseia. Só sei que li Brida e quase peguei no sono, e James Patterson não me prende nem pela sinopse, enquanto Sérgio Sant’anna, Julio Cortázar, Cesar Aira, Truman Capote e inúmeros, inúmeros outros, me causam tremendo deleite – e há quem ame e quem odeie, ambos os lados com razões válidas, cada um desses autores. Mas isso é gosto. Como vem do gosto querer ou não ver vídeos no youtube de uma determinada pessoa e gostar dela a ponto de querer ler suas palavras impressas.

Conclusões são uma impossibilidade, então permitam-me do alto da minha irrelevância sem limites inocentar pelo menos uma das partes. Os youtubistas, vocês nada fizeram além de topar uma proposta, convenhamos, irrecusável. Não fizeram nada, só foram engolidos por um mercado muito maior que vocês e demasiado complexo. Se os leitores os amam, que assim seja. Não me afeta. E não há de afetar a literatura enquanto arte estabelecida. Os escritores novos, esses que insistem em surgir em conjunto com o mal das pretensões artísticas, vão continuar nascendo. Talvez mudem de estratégia, façam também canais no youtube, ou resistam na esperança de conquistar público na base da luta. Eu, que também tô na luta, não sei o que eu vou fazer. Continuar escrevendo, essa é uma certeza, mas a única. O resto, tô esperando pra ver no que vai dar. Talvez em nada.

O cenário é complicadíssimo, mas pode ser que sempre tenha sido assim. Claro, o que mudou foi a estrutura, o tamanho do monstro. É fato que isso já deve ter impedido várias obras primas de existirem. Restam aqui dois acusados, inocentado o vocêtubeiro, a editora e o público. E, ignorando a construção da cultura de massa e como ela se tornou o que é hoje, ignorando o passado e levando em conta apenas o que pode ser feito de agora em diante, culpo o leitor. Abram os olhos, se cada reclamação contra um livro feito pras “massas incultas” viesse acompanhada da compra de um livro de alta ou média literatura, o estado do mercado literário já teria mudado ao menos um pouco. O público está ciente da massificação da cultura, da estupidez vendida a granel, das farsas e publicidades enganosas, do E-G-O. Se esse público ou parcela de público, ainda que ciente de tudo isso, insiste em se recusar a procurar por boa literatura e ignorar o que é ruim, é porque ele, secretamente, não gosta da boa ou ama a ruim. Suspeito que ama. Tudo além disso é choradeira que nada resolve. E as editoras seguem duras como pedra pela grana e a subcelebridade da vez (acredito que youtube é temporário, sinto muito; se a maioria do seu público é adolescente, saiba que adolescentes crescem e cansam do que eles costumavam amar) vai continuar recebendo ofertas milionárias para publicar livros que ela nem quer escrever. A arte, seja o cinema ou a literatura ou a música ou que seja, vai continuar ali, à margem, resistindo, atendendo aos que a procuram. O que não é o ideal. Até o mais obscuro, recluso, dos artistas quer ser visto, quer vender, só que pelo que ele faz e não por quem é – o que parece ser um problema nos dias de hoje. Mas é o caminho que escolhemos seguir, logo, único destino. Ah, e sempre vai haver quem reclame disso sem fazer nada para mudar a situação. Modas serão modas serão modas… os cães ladram, a caravana passa, o que é passageiro ao seu período e apenas ele pertence.

Falando em demonstrar ódio ao que se ama, vou encerrar isso aqui com uma anedota altamente literária, para os que se interessam por essas bobagens: Yukio Mishima, sim, o grande romancista japonês, amante do ascetismo, da disciplina, do Imperador, do fascismo, do perfeito equilíbrio entre o corpo e a mente, desdenhava um autor da geração anterior a dele, já estabelecido e respeitado por todo o Japão, Osamu Dazai. O desdenhava porque ele era seu oposto. Dazai era um bêbado, com tendências suicidas (não cerimonialistas, como as do Mishima), misantropo, e, não bastasse, tinha ligações com o partido comunista, embora o próprio fosse distante da política – o que Mishima tampouco admirava. Mishima considerava Dazai mais que tudo um fraco, mas havia acabado de publicar seu Confissões de uma Máscara, com grande sucesso e, recém-inserido nos meios literários, foi convidado a uma festa em homenagem ao Dazai, este, então, no auge. Mishima, decidido, foi até Dazai, que estava cercado de amigos e admiradores, e, supostamente, disse algo nas linhas de: eu não dou a mínima pros seus livros. Dazai ouviu e se pôs a rir. Então disse para os que o cercavam: este aqui me ama. E todos riram. Menos Mishima. Reza a lenda que, muitos anos depois, Mishima, já amadurecido – Dazai já morto (morreu no mesmo ano da tal festa) -, antes de cometer seppuku, recontou essa história aos que o acompanhavam naquele momento final.

Anúncios

Um comentário sobre “Youtube, livros, editoras e outras chateações

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s